Notas iniciais
Olá pessoas! Primeiramente eu gostaria de agradecer do fundo do meu kokoro as minhas queridas Kalynnna-Zoel, Noire, Amelinda, Meliare, Lanny Missmuse, Kokoro Tsuki, KihaDeh, Kiaramcg e NessanC pelos lindos comentários aqui e no Spirit. Obrigada, meninas! ❤️ Agradeço também quem tem acompanhado em silêncio e espero que vocês estejam gostando! Explicações nas notas finais, boa leitura!

Afrodite desceu de sua bicicleta, a aula de spinning havia terminado. Soltou as fartas mechas do cabelo loiro e inseriu o elástico em seu pulso esquerdo. Vestia um short curto na cor lilás e uma regata preta justíssima, coberta parcialmente por blusa verde limão mais larga.

Pegou a garrafa térmica e caminhou até sua mochila, que pendia próxima ao vestiário. Quando pretendia deixar a academia, algo capturou sua atenção: através do vidro que separava as áreas de aeróbica e natação, uma figura loira, bronzeada, forte e apenas de sunga se preparava para pular de ponta na piscina olímpica.

Tinha a certeza de conhecer aquele traseiro. Havia reparado muito bem nele. Não tinha pressa para ir embora, então não lhe custava nada conferir.

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Ao entrar na água, Milo esticou ao máximo os braços para frente e alinhou o corpo, sentindo-se perfeitamente hidrodinâmico. Quase poderia ver as linhas de fluxo contornando seus músculos.

Abriu os olhos, ainda tomado pelo impulso do mergulho, vendo a calmaria do interior da piscina. Como sentia falta disso!

Quando sentiu o impulso perder força para o atrito, subiu à superfície, cadenciando rápidas braçadas em nado borboleta.

Afrodite apenas observava, sentado em um dos bancos que circundavam a gigantesca piscina olímpica. Reparou o desalinho de sua blusa verde, deixando um ombro à mostra. Ignorou, ficava despojado assim. Cruzou as pernas e decidiu esperar pelo fim do treino do grego.

Após trinta minutos de incontáveis braçadas ritmadas, cumprindo quilômetros de nado sem descanso, Milo resolveu parar um pouco e se hidratar antes de continuar.

Ao sair da água, notou uma figura familiar em um dos bancos, digitando algo no celular. Franziu o cenho e cerrou os punhos.

— Olá, Afrodite. – Disse a contragosto, lembrando-se do beijo que viu o loiro depositar em Camus. Olhando de soslaio, percebeu que não havia mais ninguém na área da piscina – Por acaso está me esperando?

Sem responder de imediato, olhou Milo discretamente de cima a baixo. A sunga branca estilo short contrastava com a pele bronzeada. As pernas grossas, torneadas e cobertas de pelos aloirados chamavam bastante atenção, mas não mais que o tórax. Percebeu ali uma outra camada de penugem loira, porém consideravelmente mais fina e quase imperceptível. Sorte a sua ser tão atento! Para um iniciante como Camus, nada mal. Nada mal mesmo.

— Sim, estou. – Enfim respondeu, sem se levantar – Não tenho companhia para o almoço, te vi e pensei que poderíamos fazer isso juntos. – Sorriu.

— Eu agradeço, mas ainda vou demorar um pouco.

— Meu amor, são apenas 10:20h da manhã. Demore o tempo que precisar. – Afrodite riu – Temos mesmo que conversar. Se você ficará tão coladinho no meu Camie, nada mais justo que nos conheçamos melhor, não? – Levantou uma sobrancelha bem-feita, ainda sorrindo angelicalmente.

“Meu Camie”, afinal, o que eles são?! – Pensou Milo, sentindo os músculos dos seus braços se contraírem.

— Tudo bem então, vou tomar uma água e depois volto para a piscina. – Aceitou a contragosto. Enquanto caminhava em direção à sua mochila, analisava melhor a situação. Estava tudo bem, afinal, se deve manter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda.

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Saga terminava de fechar o zíper e o botão de sua calça social. Se virou para a pia, vendo dois reflexos iguais a si no imenso espelho do banheiro masculino. Estava no primeiro andar da Promotoria Pública de Paris.

Vestia social neutro, contudo sem o paletó do terno. Havia dobrado as mangas da camisa azul clara até o cotovelo antes de ir ao banheiro. Seu gêmeo vestia social completo.

Kanon abriu a torneira enquanto observava Saga apertar a saboneteira e lavar as mãos em seguida. Os raios de sol entravam pela pequena janela, colidindo com a face levemente bronzeada do mais velho, lhe dando uma aura iluminada.

— Mas o que é isso? – Kanon disse, segurando o maxilar do gêmeo sem aviso. Abaixou para que seus olhos, agora estreitos, ficassem bem próximos da face angulosa – Você não fez a barba!

— Kan, me desculpe. – Suspirou enquanto se desvencilhava dos dedos longos e secava as mãos – Você sabe que sempre tivemos muito pelo no rosto, eles crescem rápido! Prometo tirar hoje à noite, tudo bem?

— É impressionante, eu saio com o Milo por um dia e você não consegue se aprontar sozinho. – Disse enquanto apontava para os pontos loiros que brilhavam sob os raios solares – UMA manhã Sa, só uma. – Cruzou os braços e maneou a cabeça em negação.

— Foi só hoje, quis dormir até tarde e não deu tempo. – Se apoiou na pia com uma mão, inclinando-se em direção ao espelho. Alisava a face com a outra, observando atentamente o próprio reflexo.

— Pensando bem, podemos fazer um teste depois. – Kanon sorriu sugestivamente – Talvez seja interessante ter seus pelos arranhando meu pescoço, o que me diz? – Puxou o gêmeo pelo pulso, trazendo-o para perto.

Saga resmungou, desvencilhando novamente ao ouvir vozes próximas à porta do banheiro. Dois policiais entraram e os gêmeos aproveitaram para sair.

O mais velho lançou um olhar repreendedor e o outro respondeu com um sorriso e uma piscadela.

Caminhavam lado a lado pelo longo e largo corredor da Promotoria. Grandes portas de madeira adornavam o local de aspecto sóbrio e elegante.

— Você vai continuar trabalhando no caso do estuprador do Sena hoje? – Saga inquiriu.

— Vou. – Afastou o paletó com as mãos de modo a inseri-las nos bolsos frontais da calça – Adivinha quem foi convocado para me ajudar?

— Não gosto de adivinhos, Kan. – Remexia um isqueiro na mão esquerda. Precisava fumar.

— Pelos deuses, como você é chato as vezes! – Revirou os olhos – Que seja, vou trabalhar com o Shaka.

— Sério? Eu adoro trabalhar com ele!

— Eu também, ele é super organizado. Toda vez que nos separam em algum caso é um momento de tensão. Pelo menos será ele dessa vez.

— Falando em Shaka, veja só. – Fez sinal com a cabeça, apontando na direção de dois homens que conversavam mais à frente – Sabe o que poderíamos fazer? Chamá-lo para as boas-vindas do Milo no sábado. É uma chance de o conhecermos fora do ambiente de trabalho. O que me diz?

— Acho uma ótima ideia!

— Olá, Shaka! – A voz grave de Saga reverberou pelo corredor.

Com a aproximação dos gêmeos, os dois homens pararam de conversar e se viraram para seus novos interlocutores.

— Saga, Kanon, boa tarde. Este é meu namorado, Mutisha. – Cumprimentou em um francês levemente carregado. Apesar dos longos cabelos loiros e olhos azuis, a nacionalidade indiana era um fato conhecido por todos.

— Ah, os famosos gêmeos. Muito prazer, podem me chamar de Mu. – Sorriu e esticou o braço direito na direção dos irmãos. Com a mão livre, recolocou atrás da orelha uma teimosa mecha castanho clara que se soltou do coque frouxo.

— O prazer é nosso. – Saga foi o primeiro a devolver a cortesia, sorrindo com o comentário – Gostaria de saber o motivo de sermos famosos.

— Digamos que o Shaka não costuma avaliar bem as pessoas daqui e vocês são uma exceção. – Mu respondeu enquanto estendia seus cumprimentos à Kanon.

— Ficamos muito agradecidos com isso. – Volveu o mais novo dos gêmeos, sorrindo maroto ao ver o indiano corar – Dizemos o mesmo a seu respeito.

— Só disse verdades. – Shaka respondeu, ainda constrangido com a sociabilidade do namorado.

— Bom, iríamos te fazer um convite de qualquer modo, – Foi a vez de Saga intervir – e o fato de Mu estar aqui só torna o momento ainda mais propício.

— Nosso irmão se mudou para Paris recentemente e vamos fazer um encontro de boas-vindas para ele no sábado. Vocês gostariam de se juntas a nós? – Completou Kanon.

— Claro! – Mu respondeu imediatamente, sorrindo de maneira doce.

— Seria um prazer! – Para a surpresa de todos, Shaka sorriu também.

— Ótimo, passamos o endereço depois. – Kanon disse, animado.

— Está na hora de eu ir, até mais amor. – Mu puxou o namorado pelo queixo para um selinho – Até mais, gêmeos. Foi um prazer.

— O prazer foi nosso. – Saga esboçou um cumprimento com a cabeça.

— Mu, espere, não se esqueça dos grãos de bico, okay? – Shaka deu alguns passos na direção da saída, falando um pouco mais alto. O outro acenou, descendo os degraus que davam para a calçada.

— Ah é, você é vegetariano! – Kanon bateu de leve com a mão na testa ao se lembrar – Vamos escolher um lugar que você aproveite também, Shaka.

— Não se preocupem comigo. – Disse o loiro, sem graça – Vamos começar a trabalhar no caso?

— Claro! Nos vemos mais tarde, maninho.

Saga olhou para os dois que se afastavam e, em seguida, olhou para a rua. Percebeu que ainda não havia soltado o isqueiro em sua mão esquerda. Aproveitou o momento oportuno para uma tragada.

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Afrodite estacionou seu Porsche amarelo em frente ao Crème fraîche. Ele e Milo decidiram por comer nos jardins ao lado de fora. Ambos haviam tomado banho e vestido algo mais quente para o outono que chegava sorrateiramente.

— Então, como foram seus primeiros dias com o Camus? – Afrodite perguntou enquanto tomava seu suco de limão.

— Não necessariamente divertidos, se é isso que quer saber. – Respondeu rindo.

— Ele é uma pessoa difícil no começo, mas depois vira um docinho. – Sorriu enquanto brincava de rodar o canudinho no copo.

— Está mais para picolezinho. – Interpôs, encarando o prato de modo frustrado. Colocou uma quantidade abusiva de comida na boca, completando em seguida – Nunca fui tão ignorado na vida. – Disse sério, agora fixando o olhar nos orbes claros de Afrodite.

— Não fale com a boca cheia! – Retrucou – Ele costuma ser um pouco... Frio no começo. Mas isso passa. – Abanou a mão na face do grego enquanto voltava a tomar seu suco pelo canudinho colorido.

— Espero que passe. – Milo disse, voltando a comer.

— Veja só, Camus nunca defende um aluno durante as aulas. Você foi o primeiro a ter essa honra concedida. Além do mais, nunca sequer imaginei ver o meu Camie ajudando um aluno na mudança.

— Como você sabe dessas coisas? – O encarou muito surpreso.

— Tenho minhas fontes. – Deu de ombros, colocando o copo vazio na mesa e remexendo o gelo restante com o canudo – Ah, e por falar em mudança, Camus quer que você saia do subúrbio.

Milo revirou os olhos.

— Ele pode querer o quanto achar suficiente, não vou mudar minha decisão. Afinal, quando ele foi conversar com você sobre isso? – Perguntou tentando disfarçar o ciúme irracional.

Afrodite levantou uma das sobrancelhas bem-feitas.

— No jantar. Oras, que diferença isso faz? – Disse um pouco impaciente – A questão aqui é que ele vai me importunar até que você se mude. E isso, loirão, me afeta diretamente.

— Bom, me desculpe, mas eu não tenho a pretensão de me mudar. – Sustentava uma expressão obstinada. Voltou a comer, estava esfriando.

— Você deveria conhecer o Mu, ele sempre arruma um jeito pra tudo. – Cruzou as pernas de maneira elegante.

— Eu cheguei a olhar um dos apartamentos desse Mu. O problema é que eu não consigo pagar nem metade do aluguel que ele cobra.

Milo terminou de almoçar. Ambos pegaram suas guias e rumaram para o caixa.

— Camus e Mu são melhores amigos, você deveria ao menos tê-lo deixado tentar. Além do mais, seus irmãos poderiam ajudar. Ainda há tempo, pense sobre.

Como Afrodite sabia de seus irmãos? Milo cogitou retrucar, mas desistiu.

Na saída, ambos entraram no Porsche. Afrodite iria para a Sorbonne e ofereceu carona à Milo, que iria começar a ler a bibliografia indicada por Camus.

Enquanto dirigia, lembrou-se de algo.

— Milo, por que não enfrentou o playboy do Philippe na segunda feira? Aquele pedacinho de merda merecia mais que uma bronca do Camus.

— Por que “pedacinho de merda”? – Questionou, rindo do palavreado atípico.

— Por que ele é um idiota homofóbico, machista, metido a burguês e que adora se meter em encrenca com meu Camie. – Respondeu nervoso, apertando o volante até a ponta dos seus dedos ficarem esbranquiçadas – Enfim, – suspirou, recuperando a pose – você não respondeu a minha pergunta.

— Estava inseguro quanto ao meu francês. – Estava resignado, olhando para as mãos em seu colo.

— Meu amor, essa insegurança não combina com você. E saiba que existem muitos estrangeiros na Sorbonne, como eu, por exemplo. Camus o ajudará nisso, mas, acredite, é muito fofo ver um homem do seu tamanho se embaralhando nas sentenças. Use isso a seu favor.

— Isso me soa ridículo. – Milo respondeu emburrado – E de onde você é, Afrodite? – Sua curiosidade falava mais alto.

— Sou sueco. – Respondeu simplesmente.

— Um sueco com nome grego? – Riu.

— Minha mãe é uma pessoa, digamos... excêntrica. E meu pai sempre deixou que ela expressasse essa excentricidade. – Afrodite sorriu mediante a lembrança – E pelo meu sobrenome dá para perceber que não sou grego.

— E qual é o seu sobrenome? – Milo indagou.

— Hillesheim. – Respondeu rindo.

Milo simplesmente gargalhou.

— Definitivamente não é grego. – Disse quando enfim conseguiu parar de rir – Como se pronuncia?

— “Hill- es-heim” – Disse pausadamente, rindo da imitação fatídica do outro – Péssimo!

O clima entre ambos nunca estava tão ameno. Milo até mesmo cogitou uma trégua.

— Chegamos Miluxo, vou te levar na biblioteca antes de me encontrar o Mask. – Disse descendo do carro.

— Quem é Mask? – Indagou enquanto batia a porta do Porsche.

— A razão do meu viver. Você irá conhecê-lo em breve. – Respondeu enquanto colocava sua mochila de falso couro, repleta de adornos.

Milo parou para pensar e decidiu que a informação fora completamente inconclusiva. Afrodite era o tipo de pessoa que possuía muitas “razões de viver”.

— Sobre a festinha daqui a algumas semanas, não se esqueça, Milo. – Tirou o grego de seus devaneios – Todos estarão lá e você é o assunto mais comentado na Sorbonne. Sua presença é indiscutível.

— Por que sou assunto?

— Por que você é um belo espécime masculino, por ser o primeiro aluno orientado por Camus na história dessa universidade e por último, mas não menos importante, – Disse levantando o indicador na frente do amigo, fazendo suspense. Entravam no imenso jardim que precedia os prédios – por que Camus defendeu você em uma aula.

— Esse fato foi assim tão memorável? – Perguntou sentindo o ar frio colidir com seu corpo, jogando as mechas loiras de modo revolto para trás. Cruzou os braços para afastar o frio.

— Inimaginavelmente. – Disse devagar, buscando dar ênfase.

A conversa se estendeu por todo o jardim. Eram extensos metros de grama, canteiros de flores e algumas poucas árvores nas extremidades, com caminhos que levavam às edificações da universidade. O vento soprava livre sob o céu cinza, fazendo Afrodite retirar um cachecol marrom florido da mochila e vesti-lo.

Entre informações e amenidades, alcançaram a biblioteca, onde se despediram.

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Milo passou o resto de sua tarde estudando na biblioteca. Perto das 18h, comeu algo na lanchonete do campus e rumou em direção ao metrô. Havia conversado com Kanon pela manhã, extraindo todas as informações possíveis sobre Paris. Desse modo não foi difícil chegar em casa.

Estudou por mais algumas horas antes de se deitar, tivera algumas dúvidas e pretendia esclarecer com o francês no dia seguinte.

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Camus acordou cedo, como de costume. Não havia falado com o grego no dia anterior e estava satisfeito com tal fato, sentindo-se orgulhoso de si mesmo.

Ao terminar sua série de exercícios diários, tomou um banho e se vestiu. Era dia de lecionar Retórica Jurídica e isso significava encontrar o loiro. Suspirou enquanto lançava um último olhar para sua sala de estar antes de fechar a porta.

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Ao adentrar no estacionamento da Sorbonne, o ruivo visualizou inúmeras vagas, como sempre. Chegar descomunalmente cedo tinha lá suas vantagens. Pela cor do céu, inferia que o dia seria chuvoso, o que o levou a estacionar o mais próximo possível do corredor que levava ao prédio dos professores. Normalmente parava o Cadillac próximo à biblioteca, porém Afrodite dissera que o grego pretendia passar a tarde lá, então optou por ir para casa. Precisava manter distância desse sentimento desconhecido.

Ao descer do carro, sentiu as primeiras gotas da garoa leve umedecerem seu rosto. Abriu a porta de trás com o intento de pegar sua mochila lateral e um suéter escuro. As longas mechas ruivas eram lambidas pelo vento frio, dançando pelo ar como chicotes furiosos.

Apoiando a mochila no porta malas, Camus vestiu o suéter de lã por cima da cabeça, sem se preocupar em retirar o colarinho ou a barra da manga do social que vestia por baixo.

O ruivo seguiu para a lanchonete, sentindo o vento forte e úmido açoitando seu corpo sem piedade. Ao olhar para o suéter, indagou quantas blusas de frio estariam em seu carro. Cogitou retirá-las e depois sorriu levemente, lembrando do quanto haviam sido úteis nos últimos dias.

O sorriso logo desapareceu ao imaginar o estado da jaqueta que emprestara para o grego. Não conseguia recordar de quando havia abandonado a veste no banco de trás. E se estivesse com poeira ou algum cheiro desagradável?

Entrou sob a marquise da lanchonete e sentou-se em um dos bancos altos, se apoiando no balcão. Discretamente levou o punho ao nariz, aspirando profundamente. Fechou os olhos para se concentrar, mas só identificou o cheiro do amaciante.

— Oi, Camus. – O grego falava alto, sentando-se no banco ao lado – Bom dia! – Disse em um francês melhorado, aprendia rápido. Trajava roupas quentes, a jaqueta emprestada sobre três blusas, um cachecol e uma touca cinza que amassava seu cachos.

O ruivo se assustou, batendo o punho com força na superfície de pedra ao ouvir a voz grave do outro. Cruzou os braços sobre o balcão, tentando parecer indiferente.

— Bom dia, Milo. – Mirou rapidamente os intensos olhos azuis escuros do grego antes de voltar a olhar para frente.

Por que o aluno estava sorrindo? Havia parecido tão ridículo assim?

— Bom dia, o que vão querer? – Perguntou a garçonete do local, do outro lado do balcão.

— Um expresso com creme, por favor. – Respondeu Camus.

— Dois – Volveu Milo, levantando a mão enquanto formava um “v” com os dedos.

— Vão tomar aqui?

Ao mesmo tempo Milo respondeu que sim e Camus respondeu que não.

A moça sorriu, virando-se para preparar os pedidos.

— Seu cabelo está rebelde hoje. Se fosse cacheado você se pareceria com a Merisa. – Milo apoiou o cotovelo no balcão, virando o corpo de modo a ficar frente a frente com Camus.

— Merida. – O francês corrigiu enquanto penteava o cabelo com os dedos longos.

— O que disse? – Perguntou, sem entender.

— O nome correto da princesa do filme Valente é Merida. – Achou graça, mas não demonstrou.

— Como você sabe disso? – O grego fez uma expressão de incredulidade.

— Para o mal não há limites. – Respondeu simplesmente.

— Sério Camus, como você sabe disso? – Segurava o bíceps do professor, sacudindo-o levemente.

Camus olhou para a mão em seu braço, depois para Milo. Viu o grego perceber esse gesto e soltá-lo imediatamente. Porém, ao contrário do esperado, não estava irritado. Estava... curioso? Um simples toque havia sido capaz de apagar instantaneamente seus pensamentos, levando-os para onde não conseguia alcançar, como sementes de dente de leão sopradas ao léu.

Quando o efeito passou, resolveu continuar o assunto para quebrar o silêncio que se formou.

— Milo, eu sou ruivo. Não acha que já tive todos os apelidos possíveis? Para o mal não há limites. – Sorriu levemente.

O loiro, que ainda permanecia estático, começou a rir.

Camus o observou, sorrindo um pouco mais.

— Bom, alguns caras são chatos mesmo. Mas veja bem, a adolescência já passou.

A garçonete retornara e entregou uma xícara enorme para Milo e um copo fechado para Camus.

— Não foi um cara, foi o Afrodite. E o pior, não éramos adolescentes. Me fez assistir esse filme por que de acordou com ele eu tenho que “incentivar minha raça ruiva na sétima arte” – Fez aspas com os dedos.

Milo riu mais ainda, sem perceber o quanto capturava a atenção de Camus.

— Mas então, por que chegou tão cedo? – Perguntou quando o outro parou de rir, tomando um gole do copo em cima do balcão.

— Não consigo estudar direito em casa. Faz muito barulho, a mesa incomoda e eu fico espirrando. Além do mais, prefiro pegar o metrô mais cedo que em horário de pico, é mais vazio. – Deu de ombros.

— Entendo. – O francês se controlou para não dizer “eu te avisei” – Semana que vem ainda poderemos estudar na biblioteca da universidade. Quando as coisas começarem a apertar para os alunos nós teremos que encontrar outro lugar, eles fazem muito barulho lá.

Milo maneou a cabeça em concordância enquanto bebia o café, sentindo seu corpo se aquecer. Precisava comprar luvas. Puxou a touca um pouco para baixo ao notar que a chuva apertara e o vento carregava suas gotas frias.

Camus recomeçou a observar o loiro, percebendo que essa atitude já havia se tornado rotineira. Notou as pontas dos dedos e os lábios arroxeados. O olhar denso mirava o pátio perdidamente. Quando deu por si, desejava saber o que tanto lhe ocupava os pensamentos. Planejava secretamente segurar as mãos frias entre as suas para aquecê-las.

Como que vivos e independentes de seu controle, os orbes claros pousaram novamente sobre os lábios carnudos.

Desejou beijá-los.

Camus se levantou imediatamente, fazendo Milo se virar assustado.

— Nos vemos na aula, então. Até mais. – Acenou enquanto sumia pelo pátio, sendo atingido por furiosas rajadas de vento.

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No horário da aula, Milo desejou uma atenção que não veio. O loiro era tratado como os demais alunos e, mesmo sendo o esperado, isso o incomodava.

Camus notou que Philippe implicava com Milo sempre que podia e teve o cuidado de não interferir em mais nenhuma discussão entre seus alunos. Teve plena ciência dos comentários proferidos por alguns professores durante a semana e agradeceu mentalmente a falta da reclamação dos pais de Philippe, como usualmente ocorria. O ato de defender o novato grego foi bastante discutido nos departamentos de humanas.

A aula transcorreu normalmente e sem nenhuma intempérie.

— Vou enviar um artigo para vocês através do moodle¹. Quero que leiam para que possamos discuti-lo na próxima aula. – A voz grave pode ser ouvida enquanto o professor apagava o quadro – Ótimo fim de semana para vocês.

Os alunos guardaram os materiais em suas mochilas enquanto conversavam alto.

Milo havia enturmado facilmente com as pessoas que Marin lhe apresentara, era uma pessoa extrovertida e muito agradável. Contudo, apesar de estar entre os novos amigos, se mantinha alheio às conversas do grupo. Prestava atenção nos movimentos do professor, demorando propositalmente a guardar suas coisas.

Quando todos se foram, menos o grego, o ruivo inspirou fundo, evocando todo o seu autocontrole. Ajeitou os óculos de armação fina na ponte do nariz, aguardando que o aluno viesse até si.

— Camus, eu fiquei com algumas dúvidas na bibliografia que você me mandou ler... – Milo se aproximou da mesa do professor, subindo o degrau do palco em que os mestres lecionavam.

— Sugiro que você releia, pois só poderei orientá-lo na semana que vem. – Sentia sua consciência esmurrar a porta do bom profissionalismo. Estava agindo como um idiota se esperava que o grego desistiria.

— Então você está ocupado? – Disse despropositadamente, chutando o pé da mesa de modo suave – Queria te chamar para sair sábado.

— Sair? – Camus se sobressaltou, parando no ar com o livro que seria guardado. Notou que o outro lhe encarava e corou levemente, percebendo seu comportamento incomum. Terminou de guardar o objeto.

— Sim. – Milo sorriu de um jeito gracioso, olhando diretamente para olhos azuis do francês. Percebeu que com a iluminação do fim da manhã os orbes pareciam ainda mais claros, apesar de ter julgado que seria um fato impossível – Meus irmãos querem fazer um tipo de comemoração de boas-vindas e acharam que seria uma boa você ir, sabe... para todo mundo se conhecer.

— É realmente uma boa ideia. – Respondeu com o esboço de um sorriso – Tem o meu email no moodle, me avise horário e local posteriormente. – Parou de súbito, abrindo novamente a mochila e retirando um bloco de papel. Buscou por uma caneta e anotou uma sequência de números em uma das folhas – Melhor, me avise por celular.

Milo pegou o papel e o leu, mesmo que todos aqueles números não significassem algo físico.

— Ótimo. – Disse ainda com os olhos no papel.

— Então nos vemos sábado, Milo. – Virou-se enquanto se despedia. Abriu a porta da sala sem conseguir conter um sorriso discreto.

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A tarde transcorreu normalmente. Milo almoçou no restaurante da universidade e passou a tarde na companhia de Afrodite, até o anoitecer. Com as informações sobre o metrô em mãos, o grego saiu da faculdade a tempo de passar no supermercado e comprar mantimentos antes do horário comercial acabar.

A chuva caiu enquanto estava na fila do caixa. Chegou em casa tremendo e encharcado. Decidiu por tomar um banho e estudar na cama, de longe o local mais quente da casa. Na sala seria inviável com a janela quebrada, por onde todo o vento parecia entrar através do papel que colara para tapar o orifício. Porém, ao se deitar, só conseguiu pensar em Camus.

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Camus aguardava o irmão e o cunhado para a refeição. Havia passado a tarde em um dos cômodos de seu apartamento que servia como biblioteca, insistindo em um estudo improdutivo. Deu-se por vencido quando a chuva caiu, capturando sua atenção. As águas indicavam o início do outono e isso o agradava enormemente.

Entendia as reclamações dos demais habitantes, afinal, Paris se tornava um caos quando sob chuvas, e o verdadeiro inferno na Terra quando nevava. Havia sujeira e lama por todo lado, mas isso não era o suficiente para lhe roubar a satisfação do clima frio.

Andou até a sala, retirando os chinelos para sentir o carpete fofo sob seus pés. Juntou algumas almofadas nos braços, levando-as até a imensa parede de vidro que o cômodo possuía. Afastou as cortinas e deitou-se no chão confortavelmente. Espalmou a mão na superfície embaçada e fez um movimento de aceno para observar a cidade abaixo de si. Do décimo primeiro andar conseguia ver boa parte de Paris.

Repousou um antebraço sob a testa e mordeu a ponta do dedão da mão livre, olhando fixamente para a chuva que ofuscava as luzes da cidade e colidia furiosamente contra a vidraça.

Pensou em Milo.

Se sentiu um idiota por ter aceitado o convite de encontra-lo sábado. Sustentava um esforço descomunal para se manter afastado e ir na comemoração de nada ajudaria. Sentia um interesse claro pelo aluno, mas estava proeminentemente proibido de se envolver. Tinha esperanças que o grego desistiria e buscaria por outro orientador, apesar de ser um ato contra todos os seus princípios éticos.

Julgava que, por ser algo leviano, iria se ver livre do tormento em breve. Bastava ignorar.

Mas como?

Como ignorar alguém que ocupa boa parte de seus pensamentos?

Estar perto de Milo causava desordem em seus dias tão cuidadosamente planejados.

— Está indo bem, Camus. Jantar com ele sábado foi realmente uma ótima ideia. – Ironizou para si mesmo, impaciente com o rumo traçado por seus pensamentos. Levantou-se para preparar a janta, cozinhar o distraía. Vestiu o avental florido que ficava dependurado ao lado do fogão, era hora de trabalhar.

Um tempo depois, ouviu a porta do apartamento ser aberta.

— Boa noite, Dite. Boa noite, Mask. – Disse sem se virar.

O sueco sentou em um dos bancos do balcão e o namorado deu a volta até a cozinha.

— Boa noite, Camie.

Carlo apenas emitiu um som gutural como cumprimento, enquanto abria a geladeira em busca de frutas para um suco natural.

— O que temos para jantar hoje? – Inclinou-se sobre o balcão, tentando visualizar através do irmão.

— Macarronada! E em sua homenagem, Mask.

— Nossa, me sinto honrado. – Respondeu de maneira indiferente enquanto buscava pelo liquidificador – Mas na concepção italiana, nosso país é preceptor de moda.

— Só no seu país, meu amigo. – Camus respondeu sorrindo, virando o corpo levemente – Para o resto do mundo vocês se resumem a massa.

Carlo respondeu a gracinha com outro grunhido.

— Então não quer o macarrão? – Perguntou fingindo inocência, apontando para uma das panelas com a colher de pau.

— É claro que eu quero! – Sorriu amplamente.

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Após o jantar e a limpeza, Carlo esparramou-se no confortável sofá com as pernas abertas. Deitando-se sobre si, Afrodite cruzou os braços em seu peito, apoiando a cabeça. Os longos fios loiríssimos cobriram ambos como uma manta platinada. Já Camus retornou à posição que assumia antes da refeição, jogando-se sobre as almofadas próximas à parede de vidro. Entre eles havia a pequena mesa de centro.

Percebendo o semblante pensativo do francês, Afrodite puxou assunto.

— Então você vai na festa de boas vindas do Milo sábado, hein? – Provocou com um sorriso.

Camus, que mantinha o olhar perdido na cidade, se voltou para o irmão.

— Como você sabe disso? – Estava verdadeiramente surpreso – Na verdade, como você simplesmente sabe de tudo que acontece nessa França? – Apontou o indicador na direção do loiro, acusatório – França não, por que até mesmo do que acontece com o Hyoga no Japão você sabe!

Carlo concordou e Afrodite riu gostosamente.

— Meus amores, hoje em dia o que mais existe à nossa disposição é informação. Eu sei das coisas por que converso, procuro saber, me preocupo. – Sorria como se explicasse algo bobo para crianças, tendo os dedos do amante penteando seu cabelo – E isso é perfeitamente normal. Vocês não sabem das coisas por que não conversam direito com as pessoas.

Camus e Carlo se entreolharam, acenando em confirmação com a cabeça. Fazia sentido.

— Justo. – Disse o francês.

— E só para constar, eu soube da festa por que fui convidado. – Ergueu a face e fez uma expressão de arrogância, para depois rir.

— E por que você não vai?

— Por que esse ser aqui – Olhou para o namorado com o cenho franzido – pega o primeiro trem de domingo para a Itália, então vamos passar o sábado juntos.

Carlo se inclinou e deu um beijo na ponta do nariz afilado de maneira amorosa.

— É mesmo, você vai defender sua dissertação na semana que vem, não é? – Camus interviu.

O italiano confirmou. Afrodite mudou de posição, colocando os braços ao redor do pescoço do namorado de modo intimidá-lo com o olhar.

— Só não sei pra que fazer essa merda de doutorado tão longe. – Mantinha o cenho franzido.

— Já conversamos sobre isso, amore... – Respondeu paciente, ainda acariciando o cabelo loiro.

— Que seja! – Disse secamente. Bufou, mudando de assunto logo em seguida. – E você, Camie, está preparado para conhecer os futuros cunhados?

— Cunhados? Deixei passar algo? – Carlo olhou para Camus, que suspirou.

— Não, o Dite que imagina demais. – A voz soou ainda mais grave, quase ranzinza.

— Eu?! Você está caidinho pelo grego! – Acusou.

— Não estou! – Respondeu irritado.

— Está sim, não minta pra mim! – Imperou o sueco, aumentando o tom de voz.

Camus imitou um rosnado.

— Cuide da sua vida. – Recuperou o ar blasé, voltando a olhar através da janela.

— Ok, estamos meio alterados aqui. – O italiano interveio com cuidado.

— Só estou atraído. – Estava irritadiço – Eu já sei que ele é meu aluno, já sei que a universidade proíbe, já sei que me envolver com ele é burrice... já sei disso tudo.

— Mas eu não iria dizer isso. – Respondeu o italiano, puxando preguiçosamente os próprios fios claros² para cima, espetando-os mais.

Camus voltou a olhar na direção do casal, ainda na defensiva.

— Iria dizer que ninguém tem a autoridade de escolher quem você deve ou não gostar, nem mesmo a universidade. – Afrodite levantou o rosto. Carlo fitou os olhos azuis claros do sueco, sorrindo antes de continuar – O amor não costuma vir regularmente. Além do mais, ele não cogita conveniência. Não perca essa chance, Camus.

Notas finais
Créditos: O nome Mutisha foi tirado da maravilhosa fanfic Marcas do Destino, da autora Litha-chan. Recomendo à todas! 1 - Moodle é qualquer plataforma que as universidades adotem para que o aluno tenha acesso a suas faltas, notas, exercícios online e contato com o professor. 2 - Vou adotar a cor do cabelo do Mask como a do mangá, prateado ao invés de azul. Então, meninas, o que acharam? Esse é um capítulo de transição, mas eu prometo que teremos muito contato a partir do próximo! Eu não sou muito fã dessas histórias que os personagens mal se conhecem e já estão se pegando. Gosto quando as coisas acontecem no tempo certo. Maaas, agora todo mundo já assumiu que tá afim, então vamos trabalhar em cima disso xD Outra coisa que eu gosto é o fato do Milo fazer o que quer e o Camus parecer uma mamãe patinho, preocupado. Tive bons feedbacks sobre isso, mas estou aberta a críticas construtivas, não se esqueçam! Mas enfim, é isso. Camus percebe que tá ficando xonadinho, Milo burro pra caramba não percebe que ele é irmão do Dite e todo mundo vai morar nos andares de suas casas no anime hehe Um grande beijo pra vocês! Nos vemos no próximo! ❤️❤️❤️