Um estrangeiro em Paris
6 O encontro de boas-vindas
Notas iniciais
Era uma cinzenta manhã de sábado.
Milo havia dormido no apartamento dos gêmeos para facilitar o passeio que fariam pelos principais pontos turísticos de Paris.
— Vocês já decidiram aonde iremos a noite? – Perguntou enquanto tomava um copo de suco. Vestia um moletom velho e estampado em silk. Apesar das figuras estarem ilegíveis e as cores desbotadas, eram uma peça confortável para dormir.
— Acho que o Kan já decidiu. – Saga respondeu após se aquecer com um copo café. Vestia uma camiseta azul marinho que colava em seus braços musculosos, realçando os pelos loiros. Cruzava elegantemente as pernas grossas por debaixo da mesa.
— Por que demoraram tanto?
— Por que tínhamos que achar um lugar prático, chamativo e que oferecesse boa comida para onívoros e vegetarianos.
— Esqueceu da música boa e do álcool, maninho. – Kanon entrou no cômodo de regata preta e uma toalha pequena sobre os ombros, amparando os fios úmidos.
— Agora sério, vocês não sentem frio, não?
— Questão de costume. – Saga sorriu.
— Mas por que tem que ser vegetariano?
— Um convidado nosso não come carne. – Kanon disse dando de ombros – Mas, sorte de vocês me terem por perto. – Sorriu maroto – Tenho o lugar perfeito.
— Onde? – Saga virou o corpo, parecendo interessado pela primeira vez.
— Olha, não foi fácil juntar comida vegetariana com álcool, mas... – Prolongou a última palavra propositadamente, vendo o olhar ansioso de Milo. Saga revirou os olhos, retornando sua atenção para a xícara de café.
— Diga logo, homem! Tenho que avisar o Camus! – Milo se exasperou.
— Vai avisar como? – Perguntou Kanon.
— Pelo celular, oras.
— Então agora vocês já conversam pelo celular? – Sorriu malicioso, roubando o aparelho da mão do mais novo – Era isso que tanto te manteve ocupado ontem no Snapchat?
— O Camus não tem Snapchat. E eu fiz amigos, tá? – Milo respondeu na defensiva, recuperando o objeto. Era como se fosse uma criança outra vez.
Saga se levantou, levando o que usou para a pia. Suspirou com uma negativa.
— Kanon, onde iremos? Tenho que me programar.
— Tudo bem, tudo bem... – Revirou os olhos, se dando por vencido – Hoje à noite iremos para o Major!
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Os três irmãos tiveram um dia divertido. Começaram pelo Louvre, de modo a enfrentar o mínimo de filas possível. Ainda assim, obviamente, não conseguiram andar por todo o local. Visitaram a Catedral de Notre-Dame, comeram na Praça da Concórdia, sentaram ao redor do Arco do Triunfo e fizeram compras na Champs-Élysées. Ao fim da tarde, rumaram em direção a Torre Eiffel, andando pela feira de artesanatos em suas proximidades. Comeram batata frita enrolada em jornal¹ e pipocas.
Apenas rodearam a torre, subir se mostrou ser uma tarefa impossível devido à enorme fila composta majoritariamente por casais.
— Quando as pessoas pensam em pontos turísticos ninguém se lembra das enormes filas que esses lugares criam. Pelos deuses... – Milo fez uma careta enquanto caminhavam em direção ao carro.
— Lembra de Santorini, que inferno? – Saga destravou o alarme do Audi A5 Sportback Azul escuro.
Os irmãos sorriram com a nostalgia que os apossou.
— Nem vem, quando éramos crianças nem ligávamos! – Kanon retirou os óculos escuros, abrindo a porta do passageiro.
— Nem depois disso vocês ligavam. Sempre se divertiam sozinhos e me deixavam de lado. – Milo cruzou os braços, invocando um falso drama.
Saga e Kanon se entreolharam de modo cúmplice. Ambos sorriram antes de entrarem no veículo.
Ocuparam o caminho com conversas sobre a infância, rindo boa parte do tempo até o carro ser estacionado na garagem do apartamento.
— Vai dormir aqui hoje, não é? – Saga perguntou à Milo enquanto subiam os degraus que levavam ao terceiro andar.
— Não, amanhã preciso estudar. Vou para casa.
— Casa. – Kanon ecoou com escárnio – Aquilo não é casa, Milo. Você é um idiota por não nos deixar ajudar.
— Aliás, você só veio para Paris por que poderia morar com a gente, não é? – Completou Saga.
— Tem um apartamento vago no nosso prédio. É pequeno e simples, mas serviria muito mais que aquela merda que você insiste em chamar de “casa”. – Disse Kanon.
Chegaram ao seu destino. Saga retirou as chaves para abrir a porta.
— Hoje o dia foi tão legal, meninos. Não vamos brigar, ok? – Milo tentou amainar os ânimos enquanto passava os braços ao redor dos ombros dos gêmeos, ficando entre eles. Deu um beijo no rosto de cada um para depois forçá-los na travessia da porta.
Os três riram enquanto se esmagavam no vão, esperando para ver qual deles iria desistir primeiro.
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Camus passou o dia imerso em ansiedade. Estava inquieto desde que recebera a mensagem do grego pela manhã informando o local do encontro. Pesquisou sobre o restaurante escolhido pelos irmãos de Milo, sondando em que ambiente estaria ao anoitecer. Parecia agradável.
Tentou estudar e falhou miseravelmente. Resolveu passar o dia fazendo algo prático e que não lhe exigisse muita concentração, como preparar aulas futuras. Optou pelo cômodo de seu apartamento que servia como biblioteca, pois julgava ter maior facilidade em se manter profissional em meio aos livros. Em vão, já que olhava frequentemente sobre os aros finos, mirando o relógio sobre mesa.
Por fim, resolveu ler. Tinha uma estante reservada à fila de entretenimento inédito. Escolheu o primeiro romance que encontrou e deitou-se no sofá/cama próximo a janela. Camus gostava de janelas largas, de modo a não se sentir tão aprisionado no décimo primeiro andar.
As horas escorregavam preguiçosamente ante o olhar atento do ruivo. Apesar disso, Camus se manteve firme até o horário que estipulara para o banho.
No fim da tarde já não conseguia se concentrar em mais nada. Levantou-se e seguiu rumo à cozinha. Comeu um cookie apoiado na pia enquanto olhava para o relógio de parede em cima do fogão. Agora faltava uma hora e trinta minutos para estar no local combinado. Finalmente!
Empurrou o resto do biscoito boca a dentro, engasgando-se e tossindo levemente. Era hora de se aprontar.
Retirou as roupas que vestia, fazendo a barba cuidadosamente sobre a pia do banheiro em seu quarto. Fazia biquinhos para se certificar que não estava esquecendo de nenhum pelo. Não queria que seu rosto refletisse tons de laranja enquanto era apresentado a família do aluno. Ao terminar, limpou a pia e entrou embaixo da água quente do chuveiro, tomando um banho caprichado.
Voltando ao quarto, vestiu uma boxer azul escura e secou os fios ruivos metodicamente. Se olhou no espelho antes de ir buscar a roupa que usaria e fez uma careta ao visualizar seu reflexo, estava terrivelmente pálido. Tinha convicção que parecia mais branco que nos outros dias. Deu tapas leves em ambas as faces, vendo-as assumir um tom de rubro. Contudo, não havia sido uma boa ideia, pois o tom de seu cabelo se destacava ainda mais.
Segurou uma mecha entre os dedos, olhando-a atentamente. Pensou que já não era mais um aluno de humanas e sim um professor com reputação a manter. Cabelos longos não denotavam postura de educador.
Suspirou.
Se julgou mentalmente por estar agindo feito um adolescente. Ninguém deveria ser julgado pelo comprimento de seus cabelos.
Saiu do banheiro, percebendo que não haviam roupas limpas e cuidadosamente separadas em sua cama, fazendo os belos orbes azuis dobraram de tamanho. Camus bateu com a palma da mão na testa.
— Merde! – Praguejou. Afrodite sempre o ajudava a se vestir em ocasiões especiais. Contudo, o sueco havia passado o dia com Carlo e não tinha hora para aparecer.
Pensou nas recomendações que recebera, enumerando-as e rindo ao conseguir ouvir a voz do loiro em sua cabeça.
Regra número um: Escolha algo que julgue bom.
Camus foi até o guarda roupa e uniu um conjunto de peças.
Regra número dois: Se a ocasião for despojada, descarte o que escolheu.
Olhou para as roupas e jogou-as ainda nos cabides sobre a cama de casal.
Regra número três: Pense em algo que Afrodite usaria e transforme em uma roupa masculina.
Pegou uma blusa de mangas longas e finas na cor preta, uma calça de tecido marrom escuro, sapatos elegantes também pretos e um belíssimo cachecol avermelhado. Ao colocar o relógio de pulso, percebeu que já era hora de ir. Retirou um sobretudo chumbo com grandes botões na mesma cor e o vestiu. A peça de roupa batia um pouco acima de seus joelhos.
Antes de sair guardou nos bolsos as chaves da casa, do carro e a carteira. Pegou seu par de luvas, apagou as luzes e rumou para o Major.
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Os irmãos Halkias foram os primeiros a chegar. Pediram uma mesa para oito pessoas e se sentaram nas confortáveis cadeiras de madeira.
— Milo, seu celular funciona, não precisa ficar olhando para ele o tempo todo. – Provocou Kanon.
Saga sorriu enquanto buscava o isqueiro no bolso da jaqueta que usava, rolando-o entre os dedos.
— Kanon, meu querido irmão, você poderia ao menos uma vez cuidar da sua própria vida? – Respondeu de modo ácido.
— Não, não posso. É a primeira vez que te vejo agindo feito um pirralho apaixonado e seria um desperdício imensurável perder a oportunidade de jogar isso na sua cara.
— Saga, me ajude! – Milo olhou de forma chorosa para o irmão, suplicando misericórdia.
— Milo, eu tenho que concordar com o Kanon. Você teve mais amantes que todos nesse bar e nunca se importou com nenhum deles a partir do momento em que pisavam fora da sua cama. – O gêmeo mais velho respondeu com um falso tom de bronca – É uma chance única e todos vamos rir disso no futuro. – Completou sorrindo.
O caçula grunhiu, apoiando o rosto em uma mão e pousando o cotovelo na mesa, um gesto claro de rendição. Revirou os olhos.
Estava mesmo gostando do ruivo, não estava? Só não poderia deixar que os gêmeos estragassem sua aproximação. Resolveu agir de modo indiferente e mudar de assunto.
— Quem vocês convidaram?
— Dois amigos da promotoria e seus respectivos acompanhantes. – Saga respondeu enquanto Kanon levantava o braço para chamar um garçom.
— Qual o nome deles?
— Shaka e Aiolia. O Shaka é parceiro do Kan e o Aiolia o meu. – Ainda remexia o isqueiro no bolso.
— Eu achava que vocês eram parceiros. – Milo apontou o indicador na direção dos gêmeos.
— Somos, porém as vezes nos separam, como recentemente. Mas é inegável que eu e o Kan trabalhamos muito melhor juntos.
— Entendo. – Respondeu enquanto olhava discretamente para a porta do estabelecimento.
O garçom chegou. Kanon pediu um chope e Saga um suco.
— Por que não chamou mais pessoas, já que você já fez tantos amigos? – Perguntou Kanon, lambendo a espuma acumulada em seu lábio superior após uma boa golada do chope. Gesto que não passou despercebido por Saga.
— Amigos mesmo eu acho que fiz dois. Um é o Afrodite e a outra é a Marin.
— Afrodite? É um homem? – Saga indagou com curiosidade.
— Sim, é o que eu disse que fica beijando o rosto do Camus.
— Espera, deixa eu ver se entendi. Você ficou amigo do cara que pode estar pegando seu boy magia? – Disse Kanon, se fingindo afetado – E por sinal, o nome dele é Afrodite?
Milo revirou os olhos. Era impossível ser levado à sério pelo mais novo dos gêmeos.
— E por que ele não pode vir? – Saga, sempre mais adulto, resolveu voltar a participar.
— Por que ele está com um cara hoje.
— Isso é um bom sinal, não é?
— É sim. – Disse Milo, percebendo que ouvir outra pessoa opinando tornava a situação mais reconfortante.
— E a Marin? – Continuou Saga.
— A Marin vai sair com o namorado novo hoje, conhecer os amigos dele e tal. Nem insisti.
— Tá certo.
— Então só vem o ruivão? – Kanon perguntou, sorrindo.
Milo sorriu também.
— Só. E por favor, gente, – Uniu as mãos em um pedido – não me envergonhem!
— Pode deixar, vai dar tudo certo. – Kanon aparentou seriedade pela primeira vez na noite.
Milo sorriu e olhou novamente de modo discreto para a porta do bar. Só que dessa vez foi recompensado, Camus havia chegado. Viu o professor retirar o sobretudo e entregá-lo à uma moça antes de entrar no estabelecimento. Através de uma simples leitura labial, percebeu que o ruivo pronunciava “merci”.
O viu perscrutar o estabelecimento a sua procura e sentiu o coração descompassar. Levantou a mão para chamar a atenção.
Saga e Kanon se viraram ao mesmo tempo para onde Milo acenava.
Os olhos claros de Camus avistaram o grego. Prendeu a respiração enquanto seguia em direção a ele.
Notou, como usual, o quanto o aluno era bonito. Os cachos loiros estavam levemente amassados, provavelmente por efeito de um gorro. Usava um cachecol azul escuro, da cor de seus olhos, que contrastava muito bem com o suéter cinza claro. Pelo volume, era perceptível que haviam outras peças de roupa por baixo da vestimenta. Camus achava graça do frio excessivo que Milo sentia.
— Boa noite. – Disse em grego com a voz grave e aveludada.
Os gêmeos se entreolharam em surpresa.
— Boa noite! – Responderam juntos com um sorriso.
Os três se levantaram e as devidas apresentações foram feitas.
Ao findar os cumprimentos, viram Mu e Shaka entrarem pela porta do estabelecimento.
Camus teve um momento de surpresa ao visualizar o melhor amigo e seu companheiro, sentindo-se muito mais confortável. Seu alívio foi palpável.
— Um momento, eu estou na Inglaterra ou na França? – Brincou Kanon, agora em francês – Que pontualidade!
Camus franziu o cenho com o comentário, o que não passou despercebido por seu melhor amigo e por Milo².
— Assim vocês ofendem meu amigo francês aqui. – Disse Mu, enquanto se esgueirava entre as mesas para abraçar o ruivo.
— Nunca estive tão satisfeito em ver você. – Camus sussurrou enquanto retribuía o abraço. Como os gêmeos apresentavam Shaka ao caçula, a confidência não foi notada.
Mu sorriu discretamente perante o comentário.
— Então vocês já se conheciam? – Perguntou Saga.
— Sim, Camus e Mu são amigos desde a infância. Ele e o Dite, inclusive, são os responsáveis por eu estar acompanhado hoje. Praticamente me empurraram para cima dele. – Disse Shaka, apontando o polegar na direção do parceiro agora ao seu lado.
— Disponha. – Volveu o francês, sorrindo. Milo, que acompanhava discretamente cada movimento do ruivo, sentiu que a noite já havia valido a pena. Ver Camus sorrindo era a coisa mais bonita que julgava capaz de presenciar.
— Um momento, por acaso esse Dite seria o Afrodite, seu amigo? – Saga se dirigiu a Milo.
— Exatamente. – Respondeu o grego, pensando que poderia sondar a quanto tempo Camus e o sueco se conheciam se perguntasse a duração do relacionamento do casal.
— Que mundo pequeno! – Saga concluiu sorrindo – E por que ele não veio? – Perguntou por educação, mesmo já sabendo a resposta.
— Ele está em uma festa particular de despedidas. – Disse Camus. Milo se sentiu incomodado pelo ruivo responder tão prontamente sobre o paradeiro do outro.
— Vamos terminar as apresentações sentados? – Interviu Kanon de modo cortês, queria terminar seu chope.
Milo percebeu que os olhares dos gêmeos se cruzaram. O caçula tinha a certeza de que estavam se comunicando. Sempre teve inveja da conexão fora do comum que os irmãos possuíam. Apesar de toda a possessividade e atenção que recebia, a conexão nunca foi e nunca seria a mesma. Os mais velhos na verdade eram um só.
Saga sorriu discretamente e trocou de lado na mesa retangular. Sentou-se na segunda cadeira a partir de uma ponta, imitado por Kanon do lado oposto. O caçula foi empurrado e sutilmente obrigado a se sentar na ponta, ao lado do gêmeo mais novo.
Kanon convidou Shaka a sentar-se ao seu lado para que conversassem brevemente sobre o caso em que trabalhavam. Dessa maneira, Mu deu a volta para se sentar em frente ao amante, tendo Saga como vizinho.
Camus, se viu encurralado. Ou estaria distante de todos, ou de frente para Milo, na outra ponta. Optou por sentar-se próximo ao aluno.
Quando todos se sentaram Aiolia chegou, acompanhado de Marin.
Kanon acenou para o casal, virando-se para os demais em seguida.
— Por favor, não se levantem, o Olia não vai se importar. – Saga e Shaka riram.
Milo sorriu abertamente ao ver Marin.
— Que coincidência! – A ruiva sorriu ao ver o amigo e o professor.
— Aiolia, ninguém vai se levantar aqui. Marin, querida, não nos leve a mal, é só que estávamos em pé a meio minuto atrás. – Kanon e o recém-chegado eram muito íntimos, permitindo tal situação.
— Desculpe, mas eu já conhecia vocês? – A moça perguntou sem graça, pensando que poderia estar se esquecendo de seus anfitriões, já que era chamada pelo nome.
— Oh não. Mas é que já ouvimos muito a seu respeito, mesmo antes de você e o Olia começarem a sair. – Disse Saga, tranquilizando-a.
— Valeu, parceiro. – Respondeu Aiolia, a contragosto.
Todos riram. Marin deu um beijo na face do namorado para confortá-lo.
— Eu também já havia alugado meus amigos falando de você. – Disse a ruiva, gentilmente – Não é mesmo, Milo?
— Claro! – Respondeu prontamente.
Mentira.
— Então quer dizer que todos nós já éramos conectados antes? – Perguntou Saga. Ele e Kanon estavam administrando a noite, procurando manter todos conversando.
— Sim, eu e a Marin somos amigos e alunos do Camus, que é melhor amigo do Mu, que é namorado do Shaka, que trabalha com vocês, que trabalham com o Aiolia, namorado da Marin. Fechamos o círculo! – Milo disse, sorrindo!
— É só uma pena que o Dite não tenha vindo hoje. Deixaria o círculo maior. – Disse a moça.
— Verdade. – Completou Camus com pesar – Hoje ele me fez uma falta imensa.
Milo ficou instantaneamente emburrado. Era sábado! Afrodite também passava os sábados com o seu francês? Se questionou, enciumado.
Os gêmeos se entreolharam novamente. O mais velho voltou a remexer o isqueiro, agora por debaixo da mesa.
— Então, Kanon, por que insiste tanto em se manter sentado hoje? Nem para cumprimentar os amigos você se levanta! – Provocou Aiolia – Idade batendo?
— Ei! – Repreendeu Saga. Os presentes riram.
— Não, seu idiota. – Kanon disse, virando-se para o gêmeo – Viu? Eu disse que esse imbecil não era bom o suficiente para você.
— Tem toda razão. – Saga respondeu resoluto, cruzando os braços sobre o peito – Não tive tanta sorte como você teve com o Shaka.
O indiano sorriu e Aiolia bufou. Sua intenção era provocar apenas o gêmeo mais novo.
— Eu sempre tenho razão. – Kanon sorriu, inflando o peito – E pro seu governo – Disse apontando o indicador para o parceiro do irmão – eu estou cansado por que o Milo nos fez andar o dia todo!
— Sério? E onde vocês visitaram? – Camus entrou na conversa, aparentando verdadeiro interesse. Como qualquer bom francês, tinha muito orgulho de seu país.
Conversaram durante horas enquanto eram servidos pelo garçom responsável pela mesa.
Camus e Marin conversaram além do ambiente de sala. Mu se mostrou muito mais comunicativo que o namorado, o que era esperado. Kanon e Saga conheceram melhor o propenso cunhado e Shaka, que apesar frequentemente ser o parceiro do mais novo, era mais reservado e pouco comunicativo no ambiente de trabalho. Estava sendo uma noite bastante divertida para os presentes.
A comida se mostrou bastante agradável, assim como a música. Até mesmo de Shaka os cozinheiros obtiveram elogios.
Quando Kanon estava pedindo o sétimo chope foi questionado por Mu.
— Como você consegue beber tanto e conversar normalmente?
— Costume. – O grego respondeu, dando de ombros.
— Ele tem uma resistência fora do comum para álcool. – Completou Saga.
— Uma das minhas melhores qualidades! – Kanon disse orgulhosamente, levantando a caneca de chope e imitando um brinde antes de tomar um gole generoso.
Mu riu.
— E você não bebe, Saga?
— Bebo pouco e de vez em quando. Normalmente eu fico de motorista.
— Então você é o gêmeo mau? – Mu direcionou a pergunta para Kanon, rindo da própria piada.
— Mas é claro que não! Ele é o gêmeo mau! – Disse levantando novamente a caneca, porém com o indicador apontando para Saga. O líquido girou dentro do copo delicadamente.
Milo, que estava distraído enquanto Camus conversava atravessadamente com Marin, começou a prestar atenção na conversa.
— Claro, sei. – Mu estava cético.
— O que ele diz é verdade! – Milo intrometeu-se, falando alto demais e chamando a atenção de todos na mesa – O Saga é o gêmeo mau.
— É sério? – Perguntou Shaka.
— Com certeza. – Aiolia afirmou com segurança.
Todos riram.
— Vejam bem, – Explicou o caçula – o Kanon é arrogante, presunçoso e extremamente implicante.
— Obrigado pela parte que me toca.
— Disponha. – Milo respondeu antes de prosseguir – Mas concluindo o que eu ia dizendo, o Kanon não morde para matar, só para incomodar. Já o Saga sempre foi o meu pior pesadelo.
— Como assim? – A curiosidade de Marin o incentivou a continuar.
— O Saga normalmente acompanha o Kanon na implicância por que é sua função como gêmeo. Pelo menos na cabeça deles. – Apontou o indicador de um para o outro. – Mas em situações mais sérias o temperamento dele é implosivo.
— Eu não te imagino gritando. – Disse Mu, olhando para o gêmeo mais velho.
— Não! Ele não grita. – Continuou Milo – Ele te repreende em um tom perigosamente baixo e você consegue absorver perfeitamente todas as ameaças implícitas. E o pior, sabe que elas são verdadeiras, o que nem sempre ocorre com o Kanon, que nos brinda com o benefício da dúvida.
Os presentes riram, se divertindo. Milo continuou.
— Não sei se perceberam, mas enquanto Kanon bebe feito um selvagem, Saga fuma polida e discretamente o seu Malboro. São sutis diferenças que mostram que ambos são perigosos, mas que ele – Mirou o irmão a sua frente – é o que mais se deve temer.
— Não entendi, ambos parecem perigosos nesse ponto de vista. – Disse Shaka, sorrindo.
— Os golpes do Kanon são cruéis e violentos, mas são visíveis. O homem deve temer o desconhecido. – Camus ilustrou enquanto bebericava seu suco.
— Então essa é a conclusão? – Perguntou Mu.
— A conclusão é que ambos os gêmeos são perigosos, porém cada um à sua maneira. – Respondeu Aiolia – E que Saga é o pior, claro.
Houve uma nova rodada de risadas.
— Mas se 2/3 dos irmãos são perigosos, – Marin sorriu, olhando diretamente para o amigo – o que impede o 1/3 restante de também ser?
Todos concordaram em uma afirmativa, exceto Kanon, que fez questão de responder.
— O Milo também é perigoso.
Camus virou seus olhos na direção do grego a sua frente, recebendo o olhar atrevido do aluno em troca.
— O que muda é o tipo de perigo. – Completou Saga.
— O Milo possui um tipo de ímã. – Disse Kanon. Os gêmeos iriam começar a contar a história com intercalação.
— Ele atrai as pessoas ao seu redor.
— E essas pessoas se tornam dependentes.
— Dependentes como usuários de um tipo de droga.
— Mas a droga está mais para veneno.
— E quando a pessoa se infecta o suficiente...
— Ele a deixa para morrer. – Finalizou Kanon, exagerando na dramatização.
Os ouvintes, que antes miravam os gêmeos, terminaram pousando os olhos no caçula.
— Isso não é verdade. – Milo se defendeu – Estão me difamando por que entreguei o jogo de vocês. – Disse para os irmãos.
— Temos que concordar que você é bem charmoso, Milo. – Marin disse com doçura.
Mu e Shaka concordaram e Aiolia a olhou enciumado
— Você deveria ter cuidado, Camus, é a pessoa mais próxima dele no momento. – Alertou Kanon.
A face do francês tomou a cor de seus cabelos, mas manteve o ar blasé com dignidade. Milo quis estapear o irmão por talvez atrapalhar sua cuidadosa investida.
— Mu, avise a namorada dele para ficar atenta. – Completou Saga, apesar de não gostar muito de provocações.
Mu olhou maroto para o melhor amigo antes de responder.
— Ele não tem namorada.
Kanon sussurrou um “touché” de modo que só o caçula o ouvisse. Saga piscou discretamente para ambos os irmãos.
— Namorado, talvez? – Indagou o gêmeo mais novo.
Mu negou com a cabeça.
Apesar de já saber sobre essa informação, Milo se permitiu ter esperanças. Provavelmente Afrodite era um ex, pensou. Um ex bastante invasivo. Franziu a testa com a própria suposição.
Percebendo o clima tenso, Saga mudou de assunto discretamente, indo fumar quando todos voltaram a interagir.
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Uma hora depois Camus se manifestou, referenciando que estava tarde.
— Está na hora de ir mesmo, ou perco a última linha do metrô. – Disse Milo.
— O que?! – Exasperou-se Kanon – Você realmente não vai dormir lá em casa?
— Vou não, já disse. Hoje quero ir para a minha casa. Amanhã no almoço eu busco as minhas coisas. – Apesar de ser um péssimo apartamento, o caçula gostava de ter sua privacidade e de respeitar a dos irmãos.
— Milo, depois quero conversar com você. Eu tenho muitos apartamentos disponíveis. – Mu sorriu, solicito.
— Claro, será um prazer. – Respondeu de boa vontade. Não queria ser mal-educado, dizendo que já havia escolhido um lar.
— Está tarde para você ir de metrô, tarde e perigoso. – Saga se empenhou em procurar a chave do carro em um dos bolsos da jaqueta.
— Tudo bem, não precisa me levar. O Camus pode me dar uma carona, não é mesmo? – Um esperançoso Milo se virou para o francês, surpreendendo-o com a guarda baixa.
Pego de surpresa, abriu a boca levemente, antes de associar o que lhe foi incumbido.
— Claro, posso levá-lo em segurança. Eu já estava de saída, não será incômodo algum.
— Tem certeza? – Questionou Saga.
— Claro! – O francês respondeu com mais firmeza dessa vez.
— Então muito obrigado. Foi um enorme prazer conhecê-lo hoje, Camus. Eu e Kanon temos certeza que nosso irmão está sob bons cuidados. – Apertaram as mãos – Nos vemos em breve.
O ruivo agradeceu. Retirou a carteira para pagar o que consumira. Ele e Milo terminaram de se despedir e seguiram para fora do restaurante.
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Camus viu Milo pegar com uma das garçonetes sua jaqueta de couro marrom. O grego a vestiu e retirou um gorro amassado de um dos bolsos. Era feito de lã grossa, descendo para cobrir as orelhas comodamente. Camus sorriu quando Milo terminou de se aprontar.
— O que é? – Perguntou emburrado – Está rindo de mim, por acaso?
— Estou sim senhor. – Camus vestia o sobretudo chumbo e retirou um par de luvas do bolso, eram de couro negro e forradas por dentro. Ofereceu em silêncio ao aluno, que prontamente as aceitou. Abriu a porta do estabelecimento e conduziu o grego para a fora com a mão aberta. Sentiram o vento frio de outono em um açoite incessante na rua vazia. Apenas postes espaçados iluminavam a calçada.
Camus juntou os fios ruivos com as mãos, jogando-os para fora do sobretudo. Fez o mesmo procedimento com o longo cachecol avermelhado, fazendo-o descer sobre a vestimenta em duas faixas elegantes.
Virando-se para Milo, fez com as mechas loiras o que a pouco fizera com as suas próprias. Ajeitou a touca de modo que as orelhas e parte da nuca fossem cuidadosamente cobertas. Puxou o cachecol azul escuro para fora da jaqueta, dando, em seguida, um nó elegante que cobria toda a extensão do pescoço do grego. Nesse meio tempo, Milo fitava a face alva do francês, que já começava a se avermelhar por conta do frio. Fumaças de respiração condensada escapavam da boca entreaberta do loiro.
Após ajeitar o nó, Camus abriu a jaqueta do grego até a metade, mal percebendo a pouca distância que separava as duas faces. Os longos e ágeis dedos, acompanhados sem descanso pelos olhos claríssimos, trabalhavam em guardar as pontas do cachecol por dentro da vestimenta. Quando terminou, fechou o zíper e puxou a gola, arrumando-a elegantemente.
Após finalizar este processo, ergueu o rosto orgulhoso de si mesmo, havia veio um belo trabalho.
Só então percebeu o quão próximo estava dos lábios tão bem desenhados do aluno.
As respirações se condensavam juntas.
Milo tinha a ciência de que seu olhar pesava sobre Camus. O que mais poderia fazer? A distância era meramente representativa, como poderia manter controle sobre si próprio enquanto sentia o aroma único que se desprendia do ruivo? Ambos tinham a mesma altura, o que contribuiu para o aumento da significância do olhar que trocaram, impedindo que se distraíssem. O instante simplesmente pareceu congelar, blindado de qualquer som, qualquer vento frio.
Milo levou seu braço a frente, hesitante. O polegar coberto pela luva de couro tocou o indicador do francês, um carinho leve e passageiro como uma brisa de verão. Camus recuou, guardando a mão no bolso do sobretudo, segurando firmemente os objetos que se encontravam lá dentro como se eles fossem capazes de trazê-lo de volta a realidade.
Não foi o suficiente para que o grego se intimidasse. Deu um passo ínfimo, encostando a ponta de seu nariz gelado no nariz afilado do ruivo.
Os olhos do francês se arregalaram, notando o que estava prestes a acontecer. Reconheceu a chave do carro sob o toque de sua mão nua e apertou o botão que desativava o alarme. O Cadillac respondeu com o som característico, assustando Milo, que olhou na direção dos faróis que piscavam. Camus respirou fundo ao sentir o perfume que emanou dos cachos quando o grego se virou abruptamente.
Engoliu em seco, conseguindo sair de onde tivera certeza que havia sido preso ao chão. Rumou em direção a porta do motorista, parando ao seu lado e mirando o aluno por cima do teto do carro.
— Entre Milo, está frio. – Disse com a voz grave, satisfeito por ela não ter falhado. Optou por fingir que nada havia acontecido.
O aluno piscou algumas vezes, sua mente trabalhando para entender o que havia acontecido.
— Ah! Não se preocupe, eu vou de metrô. Só não queria que o Saga se importasse em me levar em casa. – Disse despreocupado, disfarçando o quanto estava chateado por ter perdido sua melhor chance.
— Um momento. – Camus disse de modo calmo e perigoso – Eu fui usado?
— Na verdade, – Milo sorriu – eu fiz algo bom para ambos. Veja bem, você queria ir embora, mas ser o primeiro a sair é sempre ruim, não? – Prosseguiu antes que o outro retrucasse – Então uni nossos interesses em prol da satisfação mútua. – Sorriu orgulhoso.
— Eu fui usado! – Exasperou-se, indignado.
— Se prefere pensar dessa maneira... – O grego deu de ombros – Tenho que ir, já estou atrasado.
Camus se recompôs, falando de forma autoritária.
— Se o senhor pensa que vai de metrô, está muito enganado. – Cruzou os braços sobre o peito – Está tarde e eu vou te deixar em casa.
— Eu não sou uma donzela, sabia? – Perguntou irritado.
— Isso não me diz respeito, só estou lhe avisando. Entre no carro. – Imperou.
— Com licença, Camus. – Milo enfiou as mãos no bolso da calça e começou a caminhar pela calçada larga. – Tenha uma boa noite.
— Se prefere assim. – Suspirou ruidosamente, fingindo resignação – Nos encontramos na porta do seu prédio, então. – Abriu a porta e fez menção de se sentar no banco do motorista – Só espero que eu não seja assaltado na minha vigília. Ah, se você não chegar em meia hora eu chamarei a polícia.
Camus entrou no carro, fechou a porta e aguardou.
Milo grunhiu e levantou as mãos na direção do Cadillac, gesticulando como se apertasse algo. Caminhou até o carro e abriu a porta do passageiro, sentando-se ruidosamente.
Cruzou os braços, mostrando-se na defensiva.
Camus sorriu. Quis provocar um pouco mais, contudo era hora de parar.
— O cinto, por favor. – Disse polidamente.
Milo grunhiu novamente, colocando o cinto de segurança com severidade. A infantil atitude fez o francês querer rir, mas este se segurou.
Camus ligou o carro, o aquecedor, o som em uma rádio qualquer e arrancou em direção à periferia de Paris.
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O caminho foi percorrido em silêncio. Próximo ao apartamento do grego, Camus tentou puxar assunto.
— Seus irmãos são muito agradáveis. – Olhou de esguelha para o loiro ao seu lado
Milo soltou um murmúrio qualquer, mirando as ruas através da janela do passageiro.
Camus suspirou.
— Eu só queria te trazer em segurança, não fique bravo comigo. – Dirigia pela rua deserta, agora olhando fixamente para o grego. Milo virou-se, resignado.
— Tudo bem, eu te perdoo. Obrigado. – Disse, por fim. Não queria brigar com o professor por algo insignificante.
— De nada. – Camus sorriu e retornou a postura de motorista.
O loiro sorriu de forma discreta ao receber espontaneamente um sorriso do francês.
Camus acionou a seta, não precisando verificar no retrovisor antes de estacionar na porta do prédio de Milo. Tornou a se virar para o grego.
— Obrigado pela noite, foi bastante divertida.
— Disponha sempre! – Milo esboçou um sorriso encantador, fazendo com que o ruivo ruborizasse – Boa noite, Camus.
— Boa noite, Milo.
A porta do passageiro foi aberta e o francês esperou que o outro entrasse e trancasse o prédio, para só então dar partida.
Olhou em volta, sentindo um aperto no coração pelo aluno. Milo definitivamente não deveria morar em um bairro tão ruim, pensou.
Balançou a cabeça, como que para afastar os pensamentos.
De nada adiantava. Se o grego teimasse em ali ficar, ali ficaria. Pelo menos agora conhecia os gêmeos e Mu havia sido apresentado. A noite fora bastante conveniente. Aos poucos daria um jeito de reverter a situação.
Arrancou rumo a sempre iluminada Paris, tendo seus pensamentos ocupados pelo aluno. Não se surpreendia mais, Milo havia dominado sua cabeça e hoje, por pouco, não dominou sua razão. Teria que se controlar mais, se é que era possível. Separar as coisas se mostrava cada vez mais difícil!
Talvez... Só talvez, poderia considerar melhor as palavras de Carlo.
Ninguém precisaria saber, precisaria?
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