Um estrangeiro em Paris
7 Le Chaos
Notas iniciais
Milo abriu os olhos com dificuldade. Franziu a sobrancelha enquanto mirava o teto.
Acordou ouvindo vozes alteradas na rua e rosnou. Colocou o antebraço por cima dos olhos, tentaria dormir novamente.
Pouco tempo depois os gritos do alvoroço se intensificaram, parecia algum tipo de briga ou discussão. Rosnou mais alto, apertado os dedos contra a palma da mão. Era melhor levantar de uma vez. Sentou-se na beirada da cama com os cachos espalhados em desalinho e percebeu que, apesar do frio da noite anterior, a manhã aparentava estar mais agradável. Levantou-se e seguiu em direção à cozinha, espirrando duas vezes no caminho.
— Maldito mofo. – Praguejou sozinho, esfregando o nariz com a manga da blusa do pijama.
Abriu a geladeira e a encarou pensativo. Pegou queijo, peito de peru, pão, cereal e leite. Como o apartamento possuía muitos buracos, o grego guardava tudo que podia na geladeira de modo a evitar insetos e roedores.
Amparando tudo em um braço, abriu a porta do armário em cima da pia e pegou uma tigela fajuta de plástico que havia comprado no supermercado. Conseguiu entortar o corpo para pegar uma faca e uma colher na gaveta, sem deixar nada cair. Segurou tudo ao mesmo tempo, andando cuidadosamente para a pequena mesa na sala, a única que possuía.
Chegou ao destino de forma extremamente vagarosa. Kanon implicava que desse modo ele tinha mais trabalho do que simplesmente fazer duas viagens, o que Milo discordava veementemente.
Conseguiu depositar todos os objetos em segurança sobre a mesa e sentou-se satisfeito. Contudo, havia esquecido o pano que usava para não deixar que farelos caíssem nas fendas feitas por cupins, atraindo mais insetos.
Praguejou novamente, se levantando para buscar o objeto esquecido.
Quando finalmente começou sua refeição, aproveitou o tempo para divagar sobre o planejamento da semana. Tencionava ver Camus todos os dias, mas ainda não sabia se o francês estaria disponível nas sextas-feiras, já que na anterior ele o havia rejeitado.
Milo pensou que deveria ser bastante cauteloso durante a semana. Camus correspondia sim às suas investidas, mas era bastante controlado, não se deixando vencer tão facilmente. Se agisse devidamente, tinha certeza que conseguiria ao menos um beijo do professor em breve.
Foi interrompido de suas divagações pela vibração do celular sobre a mesa. Olhou no visor e sorriu antes de deslizar o dedo para atender a ligação.
— Bom dia, Kan.
— Bom dia, maninho. O que você tem pra fazer hoje?
— Tenho que estudar umas coisas que o Camus passou.
— Saga, ele disse que tem que estudar. – Kanon não se limitou a retirar o telefone de perto da boca antes de gritar para o gêmeo, fato que fez com que Milo afastasse o aparelho do rosto.
— Da próxima vez não grita perto do celular, animal! – O caçula reclamou, sendo solenemente ignorado.
— Milo, o Saga disse que tem planos para hoje e que passamos aí em 40 minutos. Esteja pronto.
Desligou.
O grego, que cresceu com a imposição dos mais velhos, não reclamou. Depositou o telefone na mesa e continuou seu desjejum calmamente, qualquer coisa eles esperariam.
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Camus acordou bastante cedo, como de costume. Domingo era o dia em que aproveitava a folga para treinar kickboxing na academia. Cresceu praticando atividades físicas, um hábito que não conseguia se livrar.
Terminou o treino na hora do almoço, quando Afrodite foi buscá-lo. Não questionaram onde almoçariam, seguindo para o apartamento do mais velho. Dentro do Porsche, a conversa seguia amena até o francês fazer uma indagação.
— Dite, por que resolveu me buscar hoje? Eu sei que você normalmente não está acordado a essa hora e eu realmente vim andando por que quis.
— Eu sei, meu amor, mas é que estou triste e carente. Não posso querer passar um tempo com você? – Dramatizou, jogando uma mecha platinada para trás.
— Claro que pode, só achei incomum. Como foi a despedida ontem?
— Foi ótima, nós passamos o dia inteiro juntos sem sair do apartamento, acredita? – Disse orgulhoso de si mesmo.
— Sério? Passaram o sábado sem fazer compras, passear e almoçar fora? – Perguntou um incrédulo Camus.
— Seríssimo! E foi realmente ótimo... – Finalizou com um suspiro.
— Dite, Dite... Cuidado que esse italiano vai virar o jogo, hein? Daqui a pouco quem vai mandar na relação é ele. – O ruivo sorriu, sabia que alfinetaria o sueco.
— Jamais, baby, jamais. – Disse convicto, portando-se institivamente de modo mais ereto – E seu sábado, como foi?
— Agora quem não vai acreditar é você, adivinha quem estava lá?
— Quem? – Perguntou com visível curiosidade.
— O Mu e o Shaka!
— Mentira! – Disse de modo afetado – Como assim, me conta tudo!
— Cheguei e fui apresentado aos irmãos do Milo, são gêmeos. Ambos me trataram muito bem. Eles aparentam ter personalidades bem diferentes, um é cortês e polido, exala liderança. O outro já tem um ar mais selvagem, mas é tão educado quanto o primeiro.
— Selvagem de modo assustador?
— Talvez. Eu não gostaria de ser o acusado dele em um tribunal.
O sueco apenas maneou a cabeça em concordância.
— Conte-me mais! – Pediu, incentivando Camus a continuar.
— O parceiro do gêmeo polido é namorado da Marin, acredita? Ela estava lá. Já o parceiro do selvagem é o Shaka.
— Bom, faz sentido eles se conhecerem, então.
— Sim, faz.
— Então estavam Shaka e Mu?
— Estavam.
— Droga! – Socou levemente o volante – Eu deveria ter ido!
Camus terminou de contar sobre o decorrer da noite anterior, omitindo a volta para casa.
— Você não foi o primeiro a sair, foi? – O sueco perguntou.
Por que nunca conseguia fugir de Afrodite?
— Por que essa pergunta? – Camus respondeu na defensiva.
— Por que é feio! – Disse gesticulando, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Já te disse mil vezes que tem que esperar pelo menos um convidado ir embora.
— Não fui o primeiro. – Disse somente, com o rosto emburrado. Não era de todo uma mentira, afinal Milo havia sugerido antes dele.
— Ótimo. – Estava satisfeito – E o Milo? Conversaram?
— Durante o jantar até que não, quero dizer, eu e ele. Conversamos todos juntos.
— Olha só que boa notícia! Você fez seu primeiro social com o loiro bonitão. – Disse sem se virar, soltando uma mão do volante e dando dois tapinhas na perna do ruivo.
Nesse momento o sueco entrou no prédio, acenando para o porteiro ao passar pelo portão da garagem.
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O dia correu preguiçosamente. No início da noite, Camus afundou-se no sofá da sala com o celular em mãos. Ele e Milo iriam se ver durante a aula, mas o francês queria uma desculpa para buscá-lo em casa.
Ouviu a porta da frente se abrir e levantou o corpo apenas o suficiente para ver por cima do encosto. Voltou a se deitar.
— Me sinto sozinho. – Disse Afrodite, mal-humorado, indo direto para a cozinha.
Camus se esticou para deixar o aparelho sobre a mesa de centro e regressou à posição inicial. Deixou um braço sob a cabeça, usando-o de travesseiro.
— Eu sei. – A voz grave ecoou no ambiente – Não é gratificante?
— Gratificante? – O loiro gritou da cozinha.
— Claro. Você me abandonou, mas sempre que o italiano não está você volta para mim, não é mesmo, Dite? No fundo você precisa do seu irmão mais velho. – Camus riu da própria brincadeira.
O sueco apareceu carregando nos braços uma bacia vermelha que guardava dois sacos de pipoca de micro-ondas, dois copos e uma garrafa de coca cola dentro.
— Não se sinta tão especial. – Afrodite assumiu seu personagem.
— Pipoca de micro-ondas, Dite? – Camus exasperou-se, franzindo o cenho.
— Eu sei que você gosta de pipoca amanteigada com folhas de louro e mais mil ingredientes gourmet, mas eu só queria pipoca, Camie. Fiz lá em casa e as trouxe para comer vendo filme com você. Vamos.
Afrodite simplesmente se virou, não vendo o ruivo rolar os olhos claros. O sueco seguiu em direção ao quarto de Camus, único cômodo da casa que possuía uma televisão.
Ao alcançar o batente da porta, o francês olhou para o irmão confortavelmente instalado em sua cama de casal, já depositando a pipoca na bacia.
Avançou em direção ao lado oposto. Pegou os óculos em cima do criado mudo e o controle do aparelho.
— Folgado. – Murmurou antes de se deitar também.
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No dia seguinte Camus acordou com frio. Abriu os olhos devagar e se viu na beirada do colchão e sem cobertor.
Piscou diversas vezes até que seus olhos se acostumassem à escuridão. Virou o corpo, vendo Afrodite deitado em 2/3 da cama com todo o seu cobertor. Franziu o cenho, irritado.
— Ei, folgado, acorda! – Camus o sacudiu.
O sueco resmungou antes de abrir os enormes olhos azuis claros. Esticou os dedos longos e delicados para pegar o celular no chão ao lado da cama.
— Por todos os deuses nórdicos, Camus! Faltam três horas para a aula começar. – Reclamou com a voz levemente rouca.
— Estou indo fazer exercícios, na volta te acordarei de novo. – Disse enquanto retirava o pijama e vestia o moletom cinza claro.
Ouviu o outro grunhir e cobrir o rosto com o pesado edredom cor de creme.
— Velha rancorosa. – O sueco disse baixinho.
Camus levantou uma sobrancelha. Andou até o pé da cama e enfiou as mãos geladas por baixo do cobertor até encontrar um dos pés do loiro. Ouviu o outro gritar sob seu toque.
— Não! Camus, me larga! – Sentiu os dedos do francês se fecharem em seu tornozelo, puxando-o em seguida.
Camus ria, Afrodite, com metade do corpo para fora da cama, xingava.
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Após os exercícios físicos na rua e em casa, o ruivo foi para o banho. Ao sair, encontrou Afrodite desperto, arrumando a cama tranquilamente. A claridade do dia nublado invadia o cômodo pela porta da varanda que o quarto possuía, já que o sueco havia escancarado as pesadas cortinas que a mantinham coberta.
— Você não ia me acordar, Sr. Eu não possuo um coração? – Inquiriu enquanto pegava os travesseiros que depositou na poltrona cor de creme.
— Ia, sorte a sua que sou mole. – Vestiu a roupa que havia separado no dia anterior.
— Adoraria que seus alunos o ouvissem falando assim. – Sorriu de modo matreiro.
Camus também sorriu.
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Abordado pelo loiro quando tencionava deixar o apartamento, Camus se virou na direção da voz preocupada.
— Espere! – Largou o pão recém assado que comia sobre o balcão e correu em direção ao quarto – Toma. – Ao retornar, ofereceu ao irmão um agasalho.
— Dite, já estou com blusa de manga, viu? – Disse abanando os pulsos na frente do rosto delicado do mais novo.
— Eu sei, mas vai fazer frio hoje. – Esticou ainda mais a mão com a jaqueta, insistindo.
Camus suspirou e a pegou. Despediu-se do sueco e seguiu para o estacionamento.
Já no Cadillac, abriu a porta traseira para guardar sua mochila lateral. Instintivamente jogou a jaqueta por cima. Já ia fechar a porta quando se abaixou para olhar a vestimenta novamente.
— Então é assim que essas coisas aparecem aqui! – Disse para si mesmo, rindo.
Dirigiu para a Sorbonne com uma certa dose de ansiedade, hoje passaria o dia ao lado do grego.
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Milo acordou atrasado.
— Pela virgem Ártemis, não posso chegar atrasado em mais uma segunda! – Falava sozinho enquanto arrumava suas coisas na correria.
Vestiu a jaqueta que Camus havia lhe emprestado há uma semana atrás. Quando o cheiro de perfume francês sumisse, lavaria e lhe devolveria. Pegou as luvas em cima da mesa de madeira da sala e saiu apressado.
Havia esquecido o gorro, mas já era tarde. O metrô logo passaria, então seus passos se tornaram ainda mais apressados.
Chegando na Sorbonne, logo sentiu o vento selvagem como chicotes no espaço aberto do pátio, fazendo-o cruzar os braços sobre o peito. Seguiu para a lanchonete, tinha esperanças de encontrar Camus antes da aula.
Sentou-se no balcão, arrumando o cachecol como o francês havia lhe ensinado no sábado, dando um nó elegante. Ajeitou a jaqueta e tentou controlar seus cachos selvagens. Sentia o rosto vermelho devido ao frio. Fechou o cenho. Gostava da cor bronzeada que possuía, os olhos azuis escuros ficavam mais vivos e os cabelos mais bonitos. Ele definitivamente não havia nascido para viver sob o céu nublado. Se sentia cada vez mais branco, mais sem graça, coberto com camadas e camadas de roupas.
Camus, por outro lado, era diferente. A pele alva, os olhos claros combinando, as pequenas sardas salpicadas pelo nariz, os lábios naturalmente vermelhos e nem era preciso citar os longos cabelos ruivos. Milo adorava a postura altiva, os ombros largos, o jeito frio exalando uma superioridade honesta.
Viu o professor se aproximar e se ateve a imaginação, não percebendo que aquela visão era real. Manteve o olhar bobo no rosto do outro, até que Camus estivesse perto o suficiente para cumprimenta-lo.
— Bonjour, Milo.
A voz grave reverberou dentro da cabeça do mais novo, que piscou algumas vezes para depois se sentar ereto.
— Bom dia, Camus. – Disse em grego.
Ouviu o professor pedir um café para a viagem. Sentiu vontade de espirrar, mas se conteve.
— Está aqui há muito tempo?
— Não, acabei de chegar. – Mentiu. Não queria parecer um stalker¹.
— Tome seu café e entre, está frio. Hoje quem está parecendo a Merida loira é você.
O grego percebeu que o outro o observava, dando especial atenção à sua jaqueta e luvas. Se apressou em explicar.
— Eu vou devolver, juro.
Viu Camus sorrir levemente.
— Não se preocupe, eu tenho trinta e sete mil agasalhos, pode ficar pra você. E as luvas, te incomodaram?
— Não, nós dois somos praticamente do mesmo tamanho, ficaram ótimas! – Sentiu que deveria estar insistindo na devolução, não tentando ficar com o par de luvas também, apesar de não ser sua intenção. Só não conseguia formar as palavras corretamente.
— Ficaram mesmo. Que bom que gostou.
Milo viu a moça trazendo um café para o professor e lembrou que não havia pedido nada. Enquanto decidia se daria prioridade a pedir algo ou a consertar as coisas com o francês, ouviu a voz grave novamente.
— Até a aula, Milo.
Viu o ruivo levantar o copo de café em sinal de despedida enquanto se afastava.
— Mandou bem, Milo. – Murmurou baixinho.
O grego fez seu pedido e seguiu as recomendações do mais velho, entrando o mais depressa que conseguiu na edificação antiga.
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A aula correu normalmente. Camus se incomodou ao ver o loiro chegar com um grupo grande de novos amigos. Pensou que logo sua companhia seria a parte mais chata dos dias do aluno. Contudo, era assim que deveria ser, restava apenas se resignar.
Chamou Milo quando a aula se encerrou, combinando de encontrá-lo para o almoço, convite que foi prontamente aceito.
Próximo ao término do segundo horário da manhã, Camus se apressou em terminar o roteiro de estudos que teria com o aluno a tarde. Guardou o notebook, pegando apenas a carteira e um livro antes de deixar sua sala e ganhar os largos corredores da Sorbonne.
Escolheu um banco próximo à sala do loiro e sentou-se, lendo o livro para matar o tempo de espera.
No fim da aula, Milo deixou sala em companhia de alguns amigos, sorrindo lindamente ao ver Camus a sua espera. Se despediu dos demais e rumou até onde o professor estava.
— Está aqui há muito tempo? – Sentou-se ao lado do ruivo.
Camus levantou o olhar por cima dos óculos de armação fina, fechando o livro em seguida.
— Na verdade eu não. – Disse somente.
— Deveria ter me dito, eu sairia antes da aula.
— De modo algum. Como seu professor não posso te fazer matar outras aulas. Além do mais, passaremos grande parte dos próximos seis meses juntos, tenho que me acostumar com seus horários.
— Entendo. – Milo disse simplesmente.
— Está com fome? Vamos almoçar?
— Claro! – Respondeu se levantando e colocando uma alça da mochila nas costas.
Almoçaram juntos no Crème fraîche. Camus sorria discretamente enquanto Milo falava sobre seus novos amigos. O grego era bastante comunicativo e um pouco genioso. O ruivo o comparou com o gêmeo mais novo, Kanon, apesar de ainda achar Milo bem menos selvagem que o irmão.
Aos olhos de Camus, Milo era bonito, alegre, extrovertido e bastante agradável. Por mais que nas conversas ele pouco tivesse a oportunidade de falar, isso não o incomodava. Pelo contrário, funcionava muito bem. Além de ter uma personalidade adorável, Milo ainda era muito bonito. O corpo era másculo e o comportamento sempre charmoso. Camus tinha a certeza que ele sabia o efeito que causava nas pessoas e muitas vezes era provocante intencionalmente.
Voltaram a Sorbonne, seguindo para a sala do professor. Com o sol de meio dia a temperatura havia se tornado mais amena, fazendo com que Milo conseguisse retirar a jaqueta e não precisasse das luvas de couro.
Camus orientou o grego a deixar tudo o que não fosse usar, pois não poderiam entrar na biblioteca com mochilas e afins². Claro que Milo poderia alugar um armário, mas o francês tinha planos de estudar até tarde, desse modo, visava deixar o grego em casa.
Buscaram por uma mesa afastada do hall central da biblioteca.
— Uau, é muito maior do que eu tinha visto! – O grego olhava abismado para cada corredor que Camus virava.
— Na verdade não é tão grande quanto parece. No final de semestre você entenderá.
Milo riu.
— Não importa a nacionalidade, alunos são todos iguais.
— Com certeza! – Camus afirmou – Inclusive, em breve teremos que achar outro lugar para estudarmos, eu gosto de paz para ler e nem sempre a Sorbonne me propicia isso.
— Mas se não estudarmos aqui, para onde iremos?
— Ainda não sei. Talvez a biblioteca nacional. – Disse dando de ombros.
— Não prefere ir pra lá de uma vez?
— Não, o cheiro dos livros mais antigos de lá me dão um pouco de alergia.
— Nem me fala em alergia. – Milo se arrependeu assim que terminou sua sentença. Não poderia assumir para Camus que o mofo o estava incomodando.
— Por que? É alérgico também? – Questionou, virando-se para o loiro enquanto falava.
— Um pouco.
Encontraram uma mesa suficiente afastada e Camus sentou-se, aglomerando os livros que trouxera consigo em pilhas de prioridade.
Ele e Milo passaram horas conversando sobre a programação semestral que o francês tinha em mente, sobre os textos que o aluno já havia lido e sobre os que ele teria que ler.
Pararam para o café da tarde na lanchonete. Na volta, começaram efetivamente com os estudos. Camus lia de um lado, Milo do outro.
O ruivo vez ou outra observava o aluno. Milo havia prendido os cachos em um belíssimo rabo de cavalo. Pelo fato de ter os fios repicados, algumas ondas ficaram de fora do elástico e caíam vez ou outra sobre o rosto bronzeado, sendo rapidamente remanejadas para atrás da orelha. Vestia uma blusa também de manga longa, na cor preta, que apesar de consideravelmente grossa, ainda exaltava os músculos definidos dos braços e peitoral. Nada exagerado, tudo proporcional.
Certa hora, durante uma dúvida, Milo se levantou e puxou uma cadeira da mesa adjacente para se sentar ao lado do professor.
Arrastou um livro sobre a mesa e leu para Camus certa passagem, ressaltando a dúvida logo depois. Ao não obter resposta, levantou o olhar, deparando com os orbes claros mirando os seus.
Viu o ruivo corar, o que não era incomum, e logo desviar o olhar. Camus ajeitou as lentes finas na ponte do nariz com o indicador e pigarreou, pedindo para que Milo repetisse a pergunta.
O grego se sentiu um verdadeiro adolescente. Estava realmente gostando do outro e, ao que tudo indicava, era correspondido.
Porém, teria que ser sútil na aproximação. Sentia que Camus poderia se esvair de suas mãos a qualquer momento. Por mais que quisesse virar o rosto e investir nos lábios avermelhados, se conteve.
Milo repetiu a pergunta e continuaram estudando normalmente, dessa vez sentados lado a lado.
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Por volta das 19h ambos estavam exaustos de tanta leitura.
Saíram da biblioteca, indo até a sala do professor enquanto conversavam amenidades.
— Milo, está com fome, certo? – Perguntou Camus.
Os largos corredores da Sorbonne, apesar da iluminação noturna, possuíam uma visibilidade parca. Como eram abertos para os jardins e pátios que os circundavam, eram bastante frios, fazendo Milo tiritar e Camus apenas cruzar os braços.
— Certo. – Respondeu, apertando mais o abraço em volta do próprio corpo.
— Conheço um lugar ótimo. Podemos comer lá e depois te deixo em casa. – Disse de modo sutil, prendendo a respiração momentaneamente enquanto esperava a resposta.
— Tudo bem.
Camus o olhou de soslaio. Pensava que o frio definitivamente estava distraindo o aluno. Sem brigas? Melhor.
O ruivo destrancou a pesada porta de madeira, dando lugar para que Milo entrasse primeiro.
— Nossa, como está quente aqui! – Libertou o corpo de seus próprios braços – Não podemos estudar na sua sala não?
O francês caminhou lentamente até sua mesa, recolhendo seus pertences em seguida.
— Até podemos, mas não acho adequado. É um cômodo muito pequeno. – Engoliu em seco perante a ideia de permanecer com o aluno em um local isolado por horas seguidas.
Milo espirrou.
— Acho melhor nos apressarmos, essa janela não foi aberta hoje.
O grego levantou o indicador na intenção de responder, mas foi interrompido por outro espirro iminente. Fungou e Camus aguardou que o aluno estivesse em condições de falar.
— Já pensou em chamar alguém para retirar ao menos o mofo do seu quarto? – Disse calmamente enquanto abria uma gaveta, retirando uma caixinha de lenços de seu interior. Ofereceu à Milo, que a pegou enquanto liberava mais um espirro.
— Na verdade sim. Vou fazer um orçamento disso amanhã.
— Não demore, está ficando igual ao Rudolf³. – Entregou a mochila ao grego, juntamente com alguns outros pertences e livros.
Ambos saíram do cômodo e Milo respondeu enquanto Camus trancava a porta.
— Você gosta mesmo de desenhos animados, pelo visto. – Disse com falsa irritação.
— Primeiramente, foi você quem começou me chamando de Merida. Em segundo lugar, quem gosta é o Dite, já disse.
Claro, “o Dite”. Pensou enciumado.
Seguiram pelo corredor até a escadaria que levava ao estacionamento reservado aos professores. Camus destravou o alarme do Cadillac e ambos entraram, fugindo do frio. Conversaram sobre o material de estudo até o destino planejado pelo professor.
O carro foi estacionado em uma rua bastante movimentada, cheia de pequenos restaurantes e bares. Andaram lado a lado sob os postes antigos, que davam um charme ao local. Milo reparou na quantidade de jovens que ali circulavam, além das multicores dos estabelecimentos e dos sons agradáveis que vinham de dentro deles. A impressão que o grego teve é que, definitivamente, não poderia ser uma segunda feira.
Ia continuar andando se não houvesse sentido uma mão se fechar sutilmente em seu pulso.
— Milo, chegamos. – Foi retirado de sua letargia pela voz grave e aveludada. Virou-se, vendo Camus lhe esboçar um meio sorriso. Atrás dele estava uma livraria e café com o nome Le Chaos. Haviam longas vitrines que mostravam o ambiente interior, com mesinhas redondas em fronte a um balcão que abrigava tortas e guloseimas. O ruivo soltou o pulso do mais novo e ambos caminharam pelo pequeno corredor que levava a porta do estabelecimento.
Milo se sentiu aquecer assim que entrou. Entendeu por que era uma livraria e café. Fora das vitrines haviam estantes recheadas e puffs nas cores marrom, amarelo e vermelho para os visitantes. Haviam, também, outras mesas e uma varanda a céu aberto nos fundos da loja. As paredes eram de madeira e a iluminação parca, exceto nos locais de leitura, dando uma ambientação característica ao local. Um jazz baixo tocava nas pequenas caixas de som espalhadas pelo teto.
Camus se sentou em uma das mesas redondas e Milo o seguiu.
— Gostou do “Caos”? – Perguntou, sorrindo levemente.
— Camus... é incrível! – Dizia ainda olhando a sua volta, sorrindo feito bobo.
— Que bom que gostou. – Disse satisfeito consigo mesmo – E a comida não é cara.
— Como conheceu esse lugar? – Perguntou, finalmente mirando os olhos claros a sua frente.
— Esqueceu que eu fiz filosofia? O povo de humanas conhece Paris melhor que ninguém. – Riu de si mesmo, fazendo o grego sorrir mais.
— Quando eu acho que já teci todas as suas características, você ainda me surpreende. – Disse de forma verdadeira.
— O que esperava?
— Talvez uma casa de vinhos caríssima e exuberante.
— Você me subestima. – Fingiu superioridade, cruzando os braços.
Um garçom se aproximou e o ruivo pediu pelos dois.
— Então, Camus... – Espirrou, não conseguindo concluir.
— Saúde. – Envergou as sobrancelhas. Milo estava doente, pensou.
— Obrigado. Como ia dizendo, ou melhor, perguntando, que tipo de aluno você era?
O professor se sobressaltou perante a pergunta inédita.
— O que quer dizer?
— Você era do tipo estereótipo da filosofia ou você mantinha um mínimo de amor próprio?
— Que absurdo! – Disse se passando por indignado – Que preconceito é esse? Acha que só por que faz Escola de Direito pode pisar nas outras graduações? Seu elitista!
Milo gargalhou gostosamente da fala grave e acentuada do outro. Camus o observou rir, sentindo o peito aquecer.
— Estou brincando. – Disse o grego ao se recompor – Só queria saber mais sobre você e tive que tomar um caminho mais longo e descontraído para você não fugir do assunto.
— Eu não fujo do assunto. Já te contei até sobre minha família. Quem fala pouco sobre si mesmo aqui é você.
— Mas eu falei o dia inteiro! – Rebateu Milo.
— Superficialmente. – Volveu irredutível.
— Tudo bem, o que quer saber?
Tudo.
Quis falar, porém se conteve.
— Quais são seus hobbies? Apesar da escolha da profissão, algo me diz que não é ler.
— Acertou. Eu gosto do sol, sabe?
— Eu acredito em você. – Riu.
— Sinto falta disso. Meu irmão, o Kanon, é apaixonado pelo mar. Acho que ele me induziu a ter essa paixão também. Aprendi a nadar desde cedo com ele e a gostar de ler com o Saga.
— Então você gosta de nadar?
— Mais que tudo nessa vida.
O garçom trouxe os pedidos.
— Então como está sobrevivendo neste outono francês? – Começou a comer sua torta.
— O Kan já me levou até a academia onde ele nada. Tem sido um bom improviso, apesar de sentir uma falta tremenda do sol. – Mirou sua própria torta com nostalgia.
— Nossa, então você realmente deve gostar muito de água.
— Por que diz isso?
— Você é a pessoa mais frienta que eu conheço, para nadar por aí em pleno outono, acredito eu, tem que possuir muito amor ao esporte. – Disse sincero.
~ Flashback ~
Milo vestiu a sunga e caminhou em direção à enorme piscina. Os pelos loiros de seu corpo estavam arrepiados e seus músculos contraídos. Com os braços fortes cruzados em frente ao peito, esticou o pé e chutou a água, sentindo sua temperatura.
— Cacete. – Disse baixinho.
Se afastou da piscina.
— Vamos lá, Milo. De uma vez, vamos acabar com isso. – Mirou a água da cor de seus olhos. Franziu o cenho em determinação e correu.
Desistiu no último segundo, sentindo seu corpo inclinar em direção a água. Os cachos loiros cobriram momentaneamente a face bronzeada antes de voltarem a posição normal. Abriu os braços em busca de equilíbrio, espalmando a mão no peito convulso ao conseguir.
— Foi quase. Na próxima vai.
Dez minutos depois, inúmeras tentativas depois.
— Se o Kanon estivesse aqui mandaria a mamãe te desertar. – Disse para si mesmo, agora sentado na borda da piscina olímpica com as pernas dentro d’água.
Com a pretensão de molhar apenas metade do corpo e sentar-se novamente, se inclinou, confiando nos braços fortes para suportar o próprio peso. Escorregou no percurso, afundando completamente na água gelada.
Nadou de volta a superfície, tossindo, praguejando e tremendo.
~ Tempo atual ~
— Pois é, sou muito corajoso mesmo. – Milo inflou o peito – Sabe como é, todo homem deve ser fiel ao seu esporte, mesmo em condições climáticas desfavoráveis.
— Concordo plenamente.
— Sua vez, agora pode me contar qual o tipo de aluno que era. – Apoiou o queixo nas costas das mãos e pousou os cotovelos sobre a mesa redonda, dedicando toda a sua concentração ao francês à sua frente.
Camus se sentiu corar e praguejou contra si mesmo por isso. Respirou fundo, retomando a compostura antes de responder.
— Bom, não é difícil de imaginar. Sou ruivo, tenho a cor mais sem graça do mundo, sardas, estudante de filosofia e sempre andei com o Dite para todos os lados. Eu sou a personificação do estereótipo das humanas. – Sorriu sem jeito.
— Você claramente se desvaloriza.
— Claro que não. Em momento algum reclamei das minhas condições.
— Só para constar, sua pele cor de neve é extremamente exótica. Você é muito bonito, Camus. Chega a ser único.
— Claro! – Ironizou, brincando com seu garfo.
— O que foi, não está acreditando em mim? – Disse surpreso.
— Milo, você é um homem bronzeado, loiro dos olhos azuis e tem um sotaque estrangeiro bem másculo. Insinuar que sou atraente chega a ser ofensivo.
Milo piscou por alguns segundos, tentando entender. Estariam novamente em uma brincadeira? Pois não julgava possível um homem como Camus ser tão inseguro.
O grego cruzou os braços sobre a mesa e apoiou o corpo neles, se inclinando na direção do professor.
— Camus, vou ser muito sincero com você. Eu já conheci muita gente bonita e afirmo com toda a razão que possuo, nenhuma alcança um décimo do que você é. – Viu o professor desviar o olhar e sentiu uma vontade imensa de lhe tomar os lábios – Sem contar que seu idioma não é conhecido por ser másculo e rude. É conhecido por ser extremamente sexy.
O ruivo prendeu momentaneamente a respiração, agora sentia até mesmo as pontas das orelhas queimarem. Agradeceu pelo ambiente não ter uma iluminação muito intensa.
Pigarreou antes de voltar a falar.
— Sobre amanhã, que horas combinamos? – Mudou de assunto enquanto remexia a torta com o garfo.
— Bom... às oito? – Milo respondeu, recostando-se na cadeira e voltando a comer. Deixaria de ir à academia no dia seguinte para passar mais tempo ao lado de Camus.
— Quer que eu te busque? – “Claro que ele vai falar não, idiota. Deveria ter afirmado que o buscaria” Camus se repreendeu mentalmente.
— Não precisa, obrigado. Nos encontramos na lanchonete?
— Claro.
Ao findarem as tortas, Camus pagou a conta e deixou Milo em casa.
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Já em seu apartamento, Camus ligou para que Afrodite descesse e foi para o banho. Vestiu-se com uma camiseta de mangas curtas na cor branca e um short preto, de treino, que descia até metade das suas coxas. Quando retornou à sala, o sueco já estava deitado no sofá com um pirulito na boca.
— Chegou tarde hoje. – Levantou a cabeça somente o suficiente para ver o ruivo de relance e voltou a se deitar, mirando o teto. Usava uma blusa azul clara de mangas que cobriam até metade das delicadas e alvas mãos.
Camus andou em sua direção enquanto prendia o cabelo em um coque alto. Ergueu as pernas do sueco e sentou-se na ponta do sofá. Desceu as pernas de Afrodite sobre seu colo.
— Estava com o Milo. – Disse simplesmente.
— Imaginei. E?
— E é isso. – Deixou-se escorregar, apoiando a cabeça no encosto e cobrindo os olhos com o antebraço.
— Se não quer conversar, por que me mandou descer? Eu estava bastante confortável na minha cobertura, sabia? – Falava normalmente, ele e Camus não brigavam, apesar dos pesares.
— Por que o Mask viajou e você não sabe cozinhar.
O loiro sorriu.
— Eu fiz pipoca.
— Oh céus, de novo? E sua dieta?
— Dieta pra que? Não tenho namorado para agradar. – Havia rancor em sua voz teatral.
— Dite, até o fim da semana ele está de volta.
— Que seja. – Disse emburrado, cruzando os braços sobre o peito.
— Vamos preparar alguma coisa decente para você? – Segurou as pernas do loiro sobre o moletom e se levantou do sofá.
Afrodite o olhou desconfiado. Acabou desistindo de descontar em Camus e sentou-se, pronto para segui-lo até a cozinha.
O sueco comeu na mesa de centro, sentado no chão. Camus sentou-se à sua frente e resolveu falar sobre seu dia acompanhado do grego. Por fim, terminou por exaltar o quanto Milo era agradável, alegre, adorável e extremamente encantador, tudo sob o olhar atento e satisfeito do irmão.
Vários planos já estavam sendo traçados na mente ardilosa do sueco. Estava na hora de agir.
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