Um estrangeiro em Paris
10 Sobre o passado
Notas iniciais
Camus destrancou a fechadura e segurou a porta aberta para que Milo fosse o primeiro a entrar.
O assombro do loiro foi palpável. Finalmente havia descoberto a relação entre o professor e Afrodite. O fato de eles serem vizinhos explicava tudo.
Dando alguns passos para frente, Milo visualizou o ambiente cuidadosamente decorado. Do seu lado direito havia uma pequena e moderna mesa de jantar, próxima a uma estante de madeira contendo inúmeros destilados. Do outro lado, um balcão separava a entrada de uma belíssima cozinha. Olhando para a frente, Milo viu um imenso sofá cor de chumbo indicando o início de uma sala de estar espaçosa e aconchegante.
No final desse grandioso salão – já que não havia paredes – e em frente ao sofá, uma cortina marrom descia do teto ao chão.
— Pode entrar, fique à vontade. – Camus fechou a porta, não entendendo a imobilidade do aluno.
Milo deu alguns passos até o sofá, observando com cuidado as luminárias redondas e modernas que adornavam o cômodo. Reparou que a sala continha uma pequena mesa de centro e era delimitada por um carpete creme. Havia, também, almofadas espalhadas pelo chão, próximas à cortina.
— Uau, sua casa é linda!
— Obrigado. – Se aproximou até parar ao lado do grego – Ali – Apontou para um corredor ao lado esquerdo que Milo não havia notado – fica o banheiro, minha biblioteca e meu quarto. Infelizmente eu não tenho quarto de hóspedes, não costumo receber visitas. – Coçou o topo da cabeça, sem graça.
— Não terei problema nenhum em dormir nesse sofá sensacional, acredite. – Sorriu, fazendo Camus retribuir o gesto.
— Todo mundo gosta dele. Foi uma boa escolha comprá-lo, afinal. – Disse mais para si mesmo que para o aluno.
O grego espalmou as mãos no encosto cor de chumbo, sentindo-as afundar.
— Melhor que a minha cama, sem dúvidas!
— Você pode tomar banho nesse banheiro, enquanto isso eu tomo lá no quarto. Depois podemos preparar o jantar.
— Combinado.
— Eu fui ao supermercado hoje antes de ir te encontrar na academia, com certeza vai ter algo que você gosta. – Percebeu que o aluno remexia em uma das mochilas que trouxera e aproveitou a deixa para se retirar – Bom, fique à vontade.
— Muito obrigado, Camus. – Viu o professor acenar enquanto sumia pelo estreito corredor.
Milo olhou em sua volta. Sentia frio, mas não teve coragem de incomodar o francês e perguntá-lo sobre um possível aquecedor. Da maneira como Camus era resistente ao frio, provavelmente nem teria o famigerado objeto.
Deixou as mochilas atrás do sofá e seguiu para o banheiro com seu pijama e toalha em mãos. Como já era de se esperar, o cômodo era grande e bem decorado. Mal teve tempo de se ater aos detalhes, pois em pouco tempo sua imaginação o lembrou que Camus estaria se despindo no aposento ao lado.
“Aqui não, Milo”, recriminou-se ao sentir uma fisgada em seu pênis.
Optou pela agilidade, um banho rápido o impediria de criar pensamentos impuros. Ligou o chuveiro, assustando-se quando uma cachoeira de água quente caiu sobre sua cabeça, molhando boa parte dos cachos aloirados. Praguejou baixo, prendendo o cabelo em um coque para evitar que o resto também se molhasse. Apesar de possuir um chuveiro maravilhoso em sua casa na Grécia, Milo já havia se acostumado a condição precária e entupida do objeto em seu apartamento na França. Teria que ser mais cuidadoso.
O banho durou ainda menos que o planejado, tudo graças ao nervosismo e ao frio daquele apartamento. Após vestir seu pijama e soltar os cachos, percebeu que havia se esquecido dos chinelos, batendo levemente na testa com a palma da mão.
Ao sair, resolveu finalizar por conta própria o tour pela casa do professor. Havia mais duas portas, uma fechada, em frente ao banheiro, e outra entreaberta, onde o grego supôs ser o quarto de Camus. Com passos leves e movido pela curiosidade, Milo se aproximou da fresta, ouvindo o barulho de um chuveiro ligado.
Empurrou a porta cuidadosamente com a ponta dos dedos, soltando o ar dos pulmões ao perceber que não havia produzido nenhum barulho.
O cômodo era grandioso, assim como os outros. Lembrando-se da falta de paredes entre a copa, sala e cozinha, o grego olhou para os lados e deduziu que Camus gostava de espaço.
Em frente a porta reinava uma gigantesca cama de casal. Do lado esquerdo, Milo observou portas escuras que deveriam ser de um guarda roupa embutido. Do outro lado, uma cortina semiaberta ocultava parcialmente uma porta de vidro, provavelmente guardando uma varanda externa. Ao lado das cortinas havia uma poltrona sob as roupas que Camus usara durante o dia, cuidadosamente dobradas.
Ouviu o barulho do chuveiro cessar e encostou a porta como a havia encontrado. Correu para a sala e guardou a roupa suja em uma das mochilas atrás do sofá.
Ainda curioso, andou pelo carpete macio até a cortina marrom a sua frente. Assustou-se ao ver o crepúsculo de Paris por uma fresta. Afastando parcialmente as cortinas, Milo encantou-se com a imensa parede de vidro, sorrindo ao espalmar a mão no vidro gelado.
Ficou observando as luzes da cidade por um tempo que não conseguiu mensurar, sendo desperto apenas pela voz grave do ruivo.
— Eu esqueci de ligar o aquecedor, me desculpe! – Camus disse com pesar enquanto apertava alguns botões na parede do corredor com a mão livre.
Milo se virou, descruzando os braços do peito.
— Não se preocupe. – Sorriu.
Porém, ao reparar no francês, temeu seriamente se excitar naquele momento.
Camus trajava um curto short preto de tecido solto e uma camisa branca que grudava em seu tronco. O grego não conseguiu manter os lábios fechados ao ver o professor com tão pouca roupa. Percebia que o ruivo possuía um belíssimo corpo, com pernas deliciosamente torneadas, um abdome perfeito, além de braços fortes que fechavam a manga da vestimenta. Trazia consigo um grosso edredom, um lençol claro e um travesseiro grande.
“Que todo o Olimpo me ajude....” Pensou Milo.
— Gostou da vista? – Perguntou Camus, tirando o aluno de seus devaneios.
Assustado, o loiro encarou o professor.
— C-como é? – Estava nervoso.
— A vista. – Camus apontou para a parede de vidro. – Gostou?
— Ah, sim! É maravilhosa! – Respondeu aliviado.
— Eu também acho. – Caminhou em direção à sala e depositou a roupa de cama sobre o sofá. Virou-se na direção da cozinha, iria preparar o jantar – O que você gosta de comer? Carneiro?
— Olha só, quanto preconceito, Sr. Sivan! – Fingiu indignação, seguindo os passos de seu anfitrião. Parou na entrada da cozinha e apoiou o corpo no balcão – Todo grego tem que gostar de carneiro, é? Você é francês e nem por isso gosta de vinho.
Camus se virou, recostando-se na beirada da pia. Cruzou os braços sobre o peito.
— O que te faz inferir que eu não gosto de vinho? – Levantou uma sobrancelha, divertido.
— Bom, eu só vi vodka e rum no seu bar. – Apontou o dedão na direção atrás de si, sorrindo vitorioso.
— Perspicaz, meu caro mancebo, perspicaz... Tudo bem, você venceu. – Suspirou, fingindo resignação.
— Já que sou o vencedor, vamos esclarecer algumas coisas por aqui. Primeiramente, eu adoro carneiro. – Milo levantou o indicador e Camus riu gostosamente – Em segundo lugar, eu como qualquer coisa, mas não prometo ser de alguma utilidade no preparo, sou um desastre na cozinha.
— Você pode começar a aprender hoje, então. – Conseguiu dizer ao parar de rir, indo buscar seu delicado avental florido.
— Que gracinha!
— Obrigado! Ele combina com o meu tom de pele. – Disse muito sério, fazendo Milo rir – Foi o Dite quem me deu. – Completou, saindo da pose.
— Faz sentido!
Camus abriu a geladeira e começou a retirar ingredientes. O grego reparou na organização impecável que o francês mantinha em todos os cantos.
— Uma pergunta, por que você prefere vodka? É tão horrível!
— Eu fiquei muito tempo na Rússia, principalmente na fase adolescente, em que temos bastante curiosidade com a bebida. Acabei gostando. – Deu de ombros.
— Sério?! Que legal! Mas por que morou na Rússia esse tempo? – Segurava os vasilhames que o francês ia passando para trás.
— Por que meu segundo padrasto era russo. Eu sempre cresci acompanhando minha mãe e seus casamentos, só depois de velho que eu decidi voltar definitivamente para a França.
— Então um dos seus irmãos é russo?
— Sim, o Hyoga.
— Me fala mais sobre a sua família, é uma história tão diferente! – Se apoiou ao lado do fogão, observado atentamente os movimentos de Camus.
— Mas eu já te contei sobre ela na sua mudança. – Misturava o conteúdo de algumas vasilhas em uma panela com uma colher de pau.
— Não tudo. – Insistiu com a voz chorosa.
— Bom, então vamos lá. Minha mãe é russa, meu pai francês e eu tenho três irmãos. Um, como já disse, é russo, ele é o mais novo de nós. Atualmente ele mora com o namorado no Japão. Sempre o mais independente dos três. – Sorriu ao se lembrar do caçula. – O outro, como você sabe, é seu melhor amigo.
— Me desculpe, mas é o quê?
— É o quê, o quê? – Camus não estava entendo a cara de idiota que o aluno fazia.
— Meu melhor amigo?
— Milo, do que é que você está falando?
— O Dite... – Foi tudo o que conseguiu pronunciar, os olhos azuis extremamente abertos e o indicador apontando para o andar de cima de modo automático.
— Você não sabia? – Perguntou confuso.
Milo apenas negou com a cabeça, ainda surpreso demais para falar algo.
— Que estranho, você é o melhor amigo do Dite... – Deu de ombros e voltou a cozinhar – Talvez ele achou que você já sabia, assim como eu. De qualquer modo toda a universidade sabe disso, alguém deveria ter te contado.
Isso explicava tudo. Absolutamente tudo. Provavelmente Afrodite não lhe contou de propósito, só para deixá-lo confuso até que descobrisse de um jeito ou de outro.
“Esse sueco me paga!” Pensou, rindo.
— Vocês até que são parecidos... – Quando pretendia caminhar até balcão, foi impedido pelos dedos de Camus sobre os seus.
— Onde pensa que vai? – Levantou uma sobrancelha.
— Me sentar. – Disse surpreso, olhando confuso para o contato frio da mão de Camus sobre a sua.
— De modo algum, você vai me ajudar.
— Mas já te disse, eu não sei cozinhar.
O francês lhe ofereceu a colher de pau.
— Sabe mexer uma panela sem deixar a comida queimar?
— Sei! – Em uma explosão de entusiasmo, Milo sorriu com obstinação. Seria o melhor mexedor de panelas que Camus já havia visto.
O jantar foi preparado por ambos. O ruivo dava as instruções e ria gostosamente do fracasso do aluno em alguns procedimentos, recebendo um olhar magoado e orgulhoso. Sabia que era brincadeira, mas se desculpava e dizia palavras de incentivo para que Milo não desistisse. Sempre quisera companhia na cozinha. Por vezes se sentia solitário demais.
Quando terminaram, Camus agradeceu a ajuda e prestigiou a boa vontade do aluno.
— Posso levar os pratos para a copa?
— Não vamos comer lá. – Viu o grego mirá-lo em confusão – Eu tenho o costume de comer na sala mesmo. Quer tentar? Ou prefere a mesa?
Para variar, Milo respondeu com um belíssimo sorriso. Se sentia cada vez mais íntimo de Camus e isso muito o agradava.
— Claro que não!
— Pode colocar as coisas na mesa de centro, nos sentamos no chão mesmo.
Quando começaram a comer, a curiosidade de Milo retornou.
— Então você é o primogênito. Como é isso? – Enfiou uma garfada na boca, fazendo uma expressão de satisfação. Não comia nada tão bom – e quente – desde que saíra da Grécia.
—Ah é, você é o caçula. Bom, pode parecer mentira, mas eu realmente cresci com um sentimento de responsabilidade sobre meus irmãos. Acho que isso se expandiu até meus alunos. – Olhou nos orbes de Milo, sorrindo sugestivamente.
O grego achou extremamente sensual o sorriso ladino direcionado a si, mas nada disse.
— Eu acredito! Bom, vou usar o fato de ser caçula para justificar a minha irresponsabilidade.
— Mas isso é uma inverdade. Você não é irresponsável.
— Depende do ponto de vista, meu caro. – Sorriu ao lembrar-se do caos que era sua vida na Grécia – Mas eu melhorei bastante desde que cheguei aqui.
Camus pareceu entender.
— Mas quem nunca fez besteiras quando mais jovem? Isso não quer dizer que você seja irresponsável.
— Isso quer dizer que você, todo certinho, já fez besteiras quando jovem? – Riu, animado. Não deixaria nada passar batido.
Camus corou.
— Algumas. – Tentou parecer superior e indiferente, dando de ombros.
— Nem vem, quero saber todas!
— Milo, eu cresci na Suécia, passei minha adolescência da Rússia e minha juventude na França. Sem contar que eu cursei filosofia, qual a chance de isso ter dado inteiramente certo? – Riu de si mesmo.
— Eu voltarei nesse assunto, mas antes, me conta isso melhor?
— Contar o que? – Indagou cortando um pedaço maior de carne.
— Sua passagem pelo mundo. – Parecia uma criança ansiosa.
Camus se sentiu constrangido por ter tanta atenção em si. Mas consentiu em resumir para alegrar Milo.
— Vamos lá, preste atenção por que é complicado. – Advertiu com o indicador em riste. Milo sentou-se em cima das pernas e apoiou as mãos no joelho, assentindo – Não, desse jeito não. Coma, vai esfriar. Se parar de comer eu paro de contar.
O loiro revirou os olhos.
— Tudo bem. – Enfiou uma quantidade exagerada de comida na boca, mastigando com as bochechas infladas.
— Meus pais já brigavam suficientemente antes mesmo do meu nascimento. Minha mãe sempre foi muito talentosa e bonita, ganhou muito dinheiro e admiradores com o ballet. Ela sempre foi independente e morria de medo de permanecer em um relacionamento por comodismo. Já meu pai é... – Hesitou, o semblante triste – frio. Eles nunca dariam certo.
Milo comia com gosto, sem desviar os olhos azuis do ruivo a sua frente.
— Minha mãe conta que só não o deixou de imediato por que a gravidez e, posteriormente, o filho recém-nascido a impediam de viajar. Quando eu tinha um ano ela conheceu o pai do Dite. Eles namoraram por um tempo e depois se mudaram para a Suécia.
— Então sua língua natal é sueco? Por isso você fala exatamente igual ao Dite?
— Mais ou menos. Minha mãe sempre achou importante os filhos conhecerem a língua de seus pais, então fui criado em russo, francês e, inevitavelmente, sueco.
— Deve ter sido horrível. – Milo disse com pesar.
— De modo algum! Eu sempre amei estudar outras línguas! Minha mãe conta que eu sempre demonstrei interesse, além de cogitar cursar Letras. Não o fiz por falta de talento.
O grego riu.
— Até parece!
— É sério! – Camus reforçou.
— Então o Dite fala russo? – Perguntou ao lembrar-se do amigo.
— Perfeitamente bem.
Milo abriu a boca cheia de comida em surpresa.
— Coma de boca fechada! – Ralhou Camus – Continuando, crescer na Suécia foi muito bom para mim. É um lugar fantástico para se criar uma criança. Como você sabe, três anos depois eu ganhei um irmãozinho. Foi sensacional. – Sorriu, nostálgico – O Dite nasceu sendo meu melhor amigo. Ficava triste por ele ser mais parecido com a minha mãe que eu, mas não havia ciúmes real. Também, meu padrasto é loiríssimo, não teria como ser diferente.
— Sua mãe não é ruiva? – Interrompeu.
— Não, meu pai é. Mas eu tenho os olhos dela, como você já deve ter percebido.
— Sim, são idênticos aos do Dite.
— Nós três temos os mesmos olhos, mas o Hyoga é o que mais se parece com ela.
— Continue!
— Bom, eu e o Dite somos extremamente diferentes. Primeiro, ele nasceu meio menino, meio menina, não tem jeito. Ele sempre gostou de usar roupas mais afeminadas, brincar de bonecas, etc. Já eu sempre preferi ler. Mas então minha mãe encontrou algo que nós dois gostássemos: ginástica olímpica.
— MENTIRA! – Disse com tanta ênfase que quase teve a comida voando pela boca.
— Se contar para alguém eu nego. – Apontou o indicador para o grego, sorrindo.
Milo riu com gosto.
— E você ainda pratica? – Perguntou ao conseguir parar de rir, com a boca cheia.
— Não, hoje só fico nos treinos de flexibilidade e musculação, além de praticar kickboxing.
“Então é daí quem vem esse corpão!” Pensou o grego. Institivamente mirou o peito definido por baixo da camiseta branca.
— Mas enfim, – Continuou o ruivo – eu amava meu irmão, amava meu padrasto, mas sentia falta do meu pai. Nunca me faltou amor paternal pelo pai do Dite, nunca. Eles nos criou sem distinção e eu o amo profundamente até hoje... Mas eu queria ter o meu pai, entende?
Milo não entendia.
— Desse modo eu passava as férias na França. – Continuou – Meu pai recriminava tudo que eu fazia e dizia que minha mãe me criava com demais liberdades. Era extremamente frustrante e pouco divertido. Mas eu estava com ele, era o que importava.
Ambos trocaram um olhar triste.
— Quando o Dite ia me visitar, – Prosseguiu – meu pai o tratava muito mal, dizendo que ele era uma péssima influência. Daí em diante ele parou de ir e eu ficava sozinho. Uns anos depois minha mãe se separou de novo, o que foi uma surpresa para todos nós, já que não havia brigas. Porém ela e meu padrasto são amigos até hoje e chuto que voltarão a ficar juntos. – Sorriu – Depois de um tempo ela começou a namorar um russo e foi aí que nos mudamos. Eu e o Dite até que nos divertimos bastante, o Mikhail, futuro pai do Hyoga, não foi bem um pai para nós dois, mas não precisávamos, tínhamos o Bengt, pai do Dite. Era para onde corríamos quando queríamos presença paterna.
“O Mikhail era ator de teatro e a presença artística em nosso crescimento foi muito forte. Eu e o Dite éramos inseparáveis, íamos a diversas festas juntos, dividíamos as bebidas e tínhamos os mesmos amigos. Nesse meio o tempo o Hyoga nasceu e nós o vimos crescer.
Quando chegou a época da faculdade, eu decidi cursar filosofia. Gostava de ler, de história e a cultura grega me fascinava de modo especial.”
Milo levantou a cabeça, orgulhoso.
— Meu pai odiou, lógico. Mas aí tive a ideia de cursar na França, já que ele sempre foi muito nacionalista e odiava o fato de eu não ter sido criado “como um francês”, seja lá o que isso signifique. Ele adorou e disse que eu poderia ir morar com ele. Porém, o Dite quis vir comigo, terminar o ensino médio aqui. Ele também entrou na Sorbonne e nós moramos juntos até eu me formar. Dinheiro não faltava e tivemos uma juventude bastante confortável. E eu estava satisfeito por ter agradado meu pai.
“Por fim, resolvi virar professor e sabia que ele adoraria a ideia. Ele detestava dizer que o filho cursava filosofia e se sentia melhor em dizer que eu era professor da Universidade de Paris.” – Disse a última frase com pompa e Milo riu.
— Mas você gosta de ser professor? – Inquiriu temendo a resposta. Não queria ser um fardo.
— Bom, eu gosto de ler e pesquisar. Escolhi o ramo da retórica para poder enfrentá-lo, o que não me adiantou muito. – Sorriu tristemente – Ser professor me proporciona o estudo e orgulhar meu pai, então é suficiente.
— Eu sou um estorvo?
— Claro que não! Confesso que nunca quis um aluno para orientar, mas fui completamente surpreendido. Eu gosto muito da sua companhia.
— Que bom. – Milo disse de modo bobo, porém satisfeito, apoiando o cotovelo na mesa e deitando o rosto na palma da mão. Se esforçaria para deixar os dias de Camus mais divertidos e menos solitários.
— E você? – O professor questionou ao terminar seu jantar.
— Eu? – Milo ecoou, ainda imerso no torpor apaixonado.
— É, e sua história? – Incentivou, apontando o garfo vazio na direção do grego, que o olhou por um tempo até cair em si.
— Oh, claro! – Sentou-se direito. Também havia terminado de comer. – Família de advogados, todos os cinco. Nasci e cresci na Grécia... – Parou para pensar no que deveria falar. Sua vida não era interessante como a de Camus.
– Bom, eu adoraria ouvir os detalhes... – Encorajou.
— Tudo bem. – Suspirou – Minha vida não é interessante, mas, lembre-se, foi você quem pediu! Cresci colado aos gêmeos, os amo bastante. Meus pais sempre me deixaram fazer o que eu julgasse melhor da minha vida, contanto que tivesse respeito e responsabilidade pelos meus atos. Eu aprendi a nadar desde cedo com o Kanon, ele é nato nisso. Com o Saga eu aprendi a ler e estudar.
“Cresci brincando sob sol e mar. Tive uma infância bastante confortável, como a sua, dinheiro nunca faltou. As vezes meus pais faltavam, mas lá estavam os gêmeos para compensar. Acabei querendo independência, mesmo que isso nunca me fosse exigido”.
— Admiro muito isso em você, apesar de me estressar às vezes. – Camus ralhou de maneira divertida.
Milo mostrou a língua, antes de prosseguir.
— Aprontei muito na Grécia, muito mesmo. E é isso, simples assim. Quando comecei a estudar, tive um interesse instantâneo na área de discussão e argumentação, então cheguei até você. Estudei muito para conseguir vir te ver.
Camus corou sem saber o porquê e Milo o achou adorável.
— Espero que eu tenha cumprido suas expectativas. – Foi o que conseguiu dizer.
— Oh não, definitivamente você não as cumpriu.
Camus o olhou confuso, sendo pego de surpresa.
— Eu esperava um senhor idoso e bonzinho, com a língua afiada e muitos alunos ao redor. Porém eu encontrei você, Camus. – Mirou sedutoramente os olhos claros do ruivo a sua frente – Jovem, frio, sem alunos ao redor...
Camus o lançou um olhar melancólico.
— Compreendo. – Limpou educadamente a boca com um guardanapo e o jogou sobre a mesa, começando a empilhar as louças.
— Porém extremamente empático, inteligente, pronto para ouvir opiniões alheias, preocupado, acolhedor – Abriu os braços indicando o local onde estava, exemplificando – e muito bonito.
O ruivo corou violentamente e Milo fez um esforço hercúleo para não rir e abraçá-lo.
— Obrigado. – Disse com a voz grave, desviando o olhar e levantando-se com a pilha de louças sobre seus braços.
— Camus, espera! – O seguiu apressadamente, parando em sua frente – Desculpe se eu te ofendi, era uma brincadeira.
— Não ofendeu. – Suavizou a expressão e se permitiu esboçar um sorriso tímido – Está tudo bem.
— Vamos lavar louça, então? – Milo retornou ao comportamento animado.
— Pode se sentar enquanto eu lavo. – Voltou a andar – Fica no balcão conversando comigo.
— De modo algum, vou ajudar a limpar.
— Não vai não.
— Por que?
— Você é meu convidado, oras. – Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Não acredito que é por esse motivo. – Invadiu o espaço do outro sem cerimônias, portando-se em frente a pia – Eu lavo e você enxuga.
Camus massageou suas têmporas, invocando seu estoque mais profundo de paciência. Como Milo era teimoso!
— Tudo bem, se é isso que você quer. – Buscou pelo avental que havia jogado sobre o balcão e se posicionou atrás do aluno, passando a vestimenta por sua cabeça. O grego prendeu a respiração e fechou os olhos.
Camus ajeitou as finas tiras laterais, puxando-as com delicadeza para fazer um laço na base das costas do grego. Resistiu heroicamente a vontade de tocá-lo.
Ao terminar, voltou para a sala sem dizer uma palavra. Não conseguiria falar com firmeza nem se quisesse.
Milo abriu os olhos e soltou o ar que comprimia seus pulmões. Por ele a noite definitivamente não acabaria com o jantar.
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Após o término das atividades em conjunto na cozinha, ambos foram escovar os dentes. Camus retornou à sala com o intuito de se despedir do aluno e desejá-lo um bom sono.
Milo notou que seu anfitrião estava sonolento e, apesar de saber que o outro precisava de um descanso, era demasiadamente egoísta para permitir tal feito. Queria aproveitar ao máximo a companhia do mais velho.
— E agora? – Disse animado.
Camus sentia-se exausto. Havia levantado cedo para ir ao supermercado e abastecer seus mantimentos, além dos exercícios diários e a vontade de acompanhar todo o treino de Milo. Porém, via que seu convidado estava insone e não o deixaria sozinho em uma sala sem televisão.
— Quer ver um filme? – Ofereceu, solicito.
— Claro! Mas você tem televisão? – Perguntou tentando não parecer grosseiro.
— Tenho sim, só que fica no meu quarto. Como eu disse, não tenho o hábito de receber visitas. – Disse com timidez – As sessões de filmes em grupo normalmente acontecem no apartamento do Dite.
— Ah sim. – Estava ficando bom, pensou o grego.
— Se importaria de ver lá?
— Claro que não.
Não mesmo.
Camus foi em direção ao corredor, sendo seguido por Milo. Parou entre duas portas, uma era a do banheiro e a outra ainda permanecia fechada. Girou a maçanete e empurrou a madeira para que o aluno visualizasse o conteúdo do cômodo.
— Essa é a minha biblioteca. Está convidado a frequentá-la sempre que quiser.
Milo espreitou o olhar, vendo inúmeros livros cobrindo as paredes. Era uma sala moderna com um divã claro, uma mesa de vidro para estudos e um sofá menor sob uma janela imensa.
— Vem. – Camus o chamou.
Ao final do corredor, ambos entraram no quarto que Milo já conhecia. Camus acendeu a luz, permitindo que o loiro visse a televisão fina na parede, artefato que ele não havia reparado em sua sorrateira visita. O objeto ficava entre as portas de entrada e do banheiro privativo.
— Uau, seu quarto é lindo!
— Obrigado. Fique à vontade. – Camus buscou o controle da smart TV enquanto Milo andava até a porta que dava para a varanda, expiando pela cortina.
— Que filme quer ver? – Perguntou enquanto abria a NETFLIX.
— Bom, nós só conversamos sobre filmes infantis até agora. – Riu.
— O problema é que eu já fui obrigado a ver todos.
— Isso eu duvido. Posso? – Estendeu a mão para pegar o controle.
— Claro. – Lhe entregou o objeto.
Milo escolheu o filme A viagem de Chihiro.
— Já viu esse? – Perguntou animado.
Camus franziu os olhos, estava sem os óculos. Seu astigmatismo¹ exigia lentes apropriadas para a tela da televisão.
— Não, não vi.
— Ótimo, certeza que você vai gostar!
— Espera, mas você já viu! Vamos escolher outro. – Tentou pegar o controle da mão do outro, mas foi impedido.
— Não – Disse manhoso, juntando o controle com ambas as mãos contra o peito – Eu gosto. Vamos ver esse.
— Tudo bem. – Cedeu. Olhou para a extensão da cama atrás de si e engoliu em seco – Pode escolher um lado.
— Onde você dorme? Fico com o lado contrário.
— Eu durmo no meio. – Deu de ombros.
— Sério? Velhos hábitos ficam, não?
— Concordo, mas a verdade é eu nunca morei com ninguém, ou nada perto disso. – Tentou fazer pouco caso do fato de nunca ter namorado ao ponto de dividir a cama, disfarçando novamente a timidez.
— Entendo. – Milo mirou a cama em sua frente, decidindo por dormir próximo ao guarda roupa. Teve medo de entrar alguma friagem pelas frestas da porta da varanda – Então eu fico desse lado aqui, é o meu favorito. – Engatinhou sobre o colchão, sentindo o corpo afundar deliciosamente na espuma macia.
— Como quiser. – Camus já ia se deitar ao lado do aluno quando se lembrou de algo – Quer pipoca?
— Por todos os deuses, Camus, quer me matar de tanto comer? – Brincou.
— Desculpe, força do hábito. – Sorriu, apagando a luz e indo se deitar.
O loiro deu play e logo sentiu frio. Camus percebeu e puxou o edredom claro para se deitar por baixo. Olhou para o grego, incentivando-o a fazer o mesmo. Assistiram ao filme em silêncio depois disso.
Uma hora depois, Milo sentiu Camus se mexer e virou-se para olhá-lo. O professor dormia profundamente com os lábios entreabertos, óculos tortos e um braço sobre na testa, amassando a franja.
— Eu poderia beijar você agora. – Sussurrou baixo, sorrindo – Seria bastante satisfatório, professor Sivan.
Porém, Camus era diferente. Faria tudo certo dessa vez.
Aproximou-se do ruivo adormecido para sentir o aroma que emanava dele. Não resistindo, inclinou-se para beijar a palma da mão aberta.
— Boa noite, Camus. Obrigado. – Desligou a TV e encostou a porta ao sair.
Ao chegar na sala, arrumou o sofá, aspirando o perfume roupa de cama exalava.
Desligou as luzes e se deitou.
Estava perdidamente apaixonado.
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