Um estrangeiro em Paris
11 O lado direito da cama
Notas iniciais
“Meu despertador...” Pensou Camus ao acordar confuso, tateando o colchão em busca do celular.
“Merda, vai acordar o Milo!”
Deitado de bruços, esticou o braço institivamente ao se lembrar do loiro. O lado esquerdo da cama estava frio, indicando que ninguém havia passado a noite ali. Virou o rosto, constatando o óbvio: o grego não estava lá. Teria sido um sonho, afinal? Franziu o cenho tentando lembrar-se. Não, não havia sido um sonho. Quando adormeceu? Quando Milo havia ido embora?
Levantou-se cambaleante para verificar se o aluno estaria na sala, parando no meio do caminho ao lembrar-se de antes desligar o despertador. Concentrou-se para descobrir de onde vinha o som infernal.
Olhou para as roupas que usara no dia anterior sobre a poltrona clara. Apanhou o celular dentro de um dos bolsos da calça, deslizando o dedo para cessar o alarme. Pestanejou para que seus orbes claros focassem a tela, constatando que era hora dos exercícios matinais. Antes, porém, verificaria se ainda possuía um hospede.
Puxando a porta com bastante cuidado, Camus conseguiu ver a cascata aloirada sobre seu sofá ao final do pequeno corredor. Caminhou com os pés descalços, aproveitando que o chão estava agradavelmente frio.
Deitado de bruços, Milo dormia profundamente encolhido sob o grosso edredom.
Camus fechou as cortinas para que o sol nascente não atrapalhasse o sono do aluno. Aproximou-se do sofá com passos hesitantes, agachando-se em frente ao grego. Institivamente esticou a mão para tocá-lo, os dedos parando a centímetros de completar o objetivo. Ali estava sua chance. Como queria senti-lo!
Umedeceu os lábios com a ponta da língua. Era somente um toque, não era? Milo não acordaria e não havia mal algum.
“Vamos, Camus!” Ralhou consigo mesmo.
Seguiu em frente, sentindo as pontas de seus dedos frios tocarem o rosto quente. Pronto, havia feito. E agora?
Buscado mais contato, deslizou os dedos pela face bronzeada até que a palma de sua mão moldasse o maxilar bem desenhado. Observou com cuidado onde tocava, fazendo um carinho tímido.
Mirou os lábios perfeitos e desejou ardentemente uni-los aos seus próprios.
Mas não faria isso, era errado. Milo estava inconsciente e não merecia esse assédio.
Afastou-se com pesar, apertando os dedos com força contra a palma. Iria esfriar a cabeça correndo nas margens do Sena.
Deu uma última olhada no aluno antes de sair.
Perfeito demais.
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Ao retornar, Camus destrancou a porta com cuidado e depositou as chaves sobre o balcão da cozinha. Andou até o encosto do sofá, vendo que Milo ainda dormia.
Seguiu com cuidado para o quarto, só o acordaria após tomar seu banho e preparar o café da manhã.
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Já na cozinha, vestiu o avental florido e abriu o freezer. Retirou os pães congelados que havia feito na manhã anterior, arrumando-os em um tabuleiro. Milo acordou com o barulho do forno sendo fechado.
O grego abriu os olhos assustado e sentou-se num pulo. Olhou em volta, lembrando-se que estava na casa de Camus. Olhou por cima do encosto do sofá, vendo o professor na cozinha.
— Bom dia, Camus. – Disse com a voz rouca, coçando os olhos com o indicador.
O mais velho se virou imediatamente, andando até poder ver seu hóspede.
— Bom dia, Milo. Dormiu bem?
— Perfeitamente bem, obrigado. E você? – Passava a mão sobre os cachos revoltos, tentando conter a bagunça. Olhou o professor de cima a baixo, pensando em como seria ver Camus cozinhar para si vestindo apenas o delicado avental florido.
— Dormi bastante. Desculpe por ter te abandonado ontem.
— Não se preocupe, você estava bastante cansado.
— Não justifica, você é meu hóspede.
— Depois você me compensa. – Disse sugestivamente.
Camus não teve tempo para pensar em uma resposta, logo seus devaneios foram interrompidos.
— Posso tomar banho?
— Claro, fique à vontade.
— Obrigado. – Levantou-se e buscou pela mochila de roupas, indo para o banheiro em seguida.
Quando o loiro sumiu de vista, Camus se ocupou em dobrar a roupa de cama e levá-la para seu quarto. Deixaria as arrumações para depois.
Voltou para a sala, abrindo a cortina e sentando-se no sofá com um suspiro. Tirou o celular do bolso e discou um número na tela, inspirando fundo antes de apertar para chamar.
Após um breve intervalo de tempo, o francês ouviu uma voz grave saudá-lo.
— Oi, pai. – Respondeu.
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Milo foi rápido no banho. Vestiu roupas quentes, amarrou um rabo de cavalo alto e saiu. No corredor, viu o professor ir em direção à cozinha enquanto falava com alguém pelo celular. Sentou-se no sofá e ocupou-se em mexer em seu próprio aparelho, prestando atenção na conversa. Adorava ouvir Camus falar em um francês rápido e cheio de sotaque parisiense.
— Sim pai, está tudo bem. Da última vez que nos falamos ela estava bem. – Pegou uma luva para retirar o tabuleiro com os pães do forno. – Sim, como você sabe disso? – Levantou uma sobrancelha – Entendo. Bom, o nome dele é Milo.
O loiro parou de fingir discrição e se virou completamente. Olhou para Camus, que lhe retribuiu o olhar. Viu o francês deixar os pães sobre o balcão da pia e chamá-lo com a mão.
— Não, ele é grego. Mas provavelmente você já sabe disso. – Indicou que Milo abrisse a geladeira e pegasse o que quisesse para o café – Sim, estamos nos dando bem, é um bom aluno, bastante dedicado. – Sorriu ao olhar para o loiro que lhe fitava.
Milo pegou suco e queijo. Viu um iogurte que adorava, mas ficou sem graça de pedir ao anfitrião se poderia pegá-lo.
Camus prensou o celular entre a orelha e o ombro e retirou os pães do tabuleiro, colocando-os em uma cesta previamente arrumada. Pegou dois copos, facas e duas maçãs. Ele e Milo seguiram para a mesa de centro da sala.
— Pai, estamos conversando há tempos e o senhor ainda não me respondeu. – Sentaram-se – Por favor, sabe que é importante pra mim. Se não quiser não precisa indicar, basta me passar os contatos e eu mesmo resolvo.
Milo prestou atenção na expressão de surpresa que Camus esboçou. Mataria para saber o que o ruivo estava ouvindo.
Após um período de hesitação, veio a resposta resignada.
— Tudo bem, nós iremos.
Camus riu ao ver a expressão confusa e curiosa de Milo, quase infantil. Olhos muito azuis, bochechas infladas de comida e inúmeras mechas loiras escapando do rabo de cavalo mal feito.
— Obrigado. Nos falamos depois para acertar tudo. Vou te enviar um portfólio com os quadros dele e telefone de contato. – Pausa – Tudo bem. Tchau, pai. – Desligou.
— O que tem eu? – Milo perguntou imediatamente após o fim da chamada.
— Quer viajar comigo para a Holanda? – Sorriu enigmático.
— Que? – Disse de boca cheia.
O ruivo riu.
— Meu pai tem uns contatos muito bons para o Dite em Londres. Porém, é meu pai. – Deu de ombros, triste – Ele sempre se aproveita da necessidade das pessoas. – Tomou um pouco do suco enquanto observava os prédios através do vidro.
— Como assim?
Camus virou o rosto e mirou os orbes de Milo profundamente.
— Ele quer exibir você.
— Camus, pode ser mais claro?
— Ele costuma me exibir sempre que pode, porém, o fato de eu ter um aluno orientado é novidade. Dessa vez ele quer exibir você. – Sorriu ladinamente, apontando o indicador da mão que segurava o copo na direção do aluno.
— E o que a Holanda tem a ver?
— Se formos representá-lo em uma festa lá, ele indica o Dite. – Concluiu – Quer viajar comigo para a Holanda, Milo? – Fez sinal de brinde com o copo de suco, levantando uma sobrancelha sugestivamente – Sem pressão. – Bebeu o resto do suco.
“Vamos trocar de lado.” Pensou o grego.
— Eu adoraria viajar com você, Camus. – Se inclinou na mesa, apoiando-se sobre os braços cruzados – Sem pressão. – Piscou um olho e se levantou, levando as louças usadas.
O ruivo pestanejou, surpreso, como alguém que foi pego em uma armadilha de xadrez.
Se permitiu sorrir timidamente antes de seguir o mais novo.
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O francês insistiu para que deixassem a cozinha como estava, não queria se atrasar para a aula.
Quando estava próximo de fechar a porta, Camus lembrou-se de algo e pediu que Milo o aguardasse. Voltou trazendo o iogurte que Afrodite havia comentado ser o preferido do grego.
— Toma, esqueci de te entregar ontem. – Estendeu a pequena garrafa para o loiro.
— Obrigado. – Agradeceu, olhando para a embalagem sem entender.
— O Dite falou que você gosta. Ia deixar na casa dele ontem. – Disse somente, apertando o botão do elevador.
Apesar da face indiferente de Camus, Milo sorriu.
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Durante o caminho, Milo contou algumas coisas sobre o filme que tentaram assistir na noite anterior e Camus o prometeu que terminariam de ver em outro momento.
Já na Sorbonne, o francês seguiu para o estacionamento de professores, acenando para o porteiro que liberou a cancela ao vê-lo. Sentiu o celular vibrar no bolso da calça e o ignorou enquanto estacionava.
— Milo, pode deixar suas roupas aqui, te deixo em casa no final do dia.
— Não precisa, Camus. Vou mais cedo hoje, preciso passar no supermercado.
— Podemos comer no Le Chaos, assim estudamos mais. O que acha?
— Tudo bem, me comprou. – Sorriu lindamente.
Camus sabia que Milo havia gostado do local. Sorriu de volta, sem se conter.
— Daqui a pouco entra o período das primeiras provas, a biblioteca vai começar a encher. Podemos transferir nossos estudos para o Le Chaos, também. Lá é um lugar tranquilo. – Disse enquanto verificava o celular.
O sol desapareceu entre as nuvens, deixando para trás um dia frio e cinzento. Os dois andavam lado a lado, indo em direção aos pátios da universidade. Milo ia de braços cruzados, apesar de vestir três blusas. Olhava incrédulo para Camus, que vestia apenas uma fina camisa social de botões, o cabelo balançando como chicotes de fogo sob o vento forte.
Após verificar a mensagem recebida, o mais velho virou-se para o grego.
— Pode ir indo para a sala, vou ter que me encontrar com o Shion antes. – Olhou para as faces avermelhadas do aluno devido ao frio – Cadê as luvas de couro? Te dei para usar. – Franziu o cenho em reprovação.
— Eu esqueci, ontem estava mais quente.
— Não as tire da mochila. – Ralhou.
Já no pátio, ambos se despediram e cada um foi para um lado. Camus subiu as escadarias em direção à sala de Shion e Milo entrou nos largos corredores de salas de aula.
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Milo encontrou seu alvo no jardim em frente a sala onde Camus lecionava Retórica Jurídica. Sorriu enquanto se aproximava, vendo-o conversar animadamente com uma bela mulher.
— Bom dia, traidor. – Sentou-se ruidosamente ao lado do amigo.
— Ah Milo, nem comece! – Afrodite riu – Aposto que foi péssimo! – Dramatizou.
— Não é por ter me abandonado no vizinho que te chamei de traidor. Mas conversaremos depois, – Gesticulou com a mão – agora me apresente essa belíssima moça.
— Pois não. Milo, essa é Shina. Ela já sabe quem você é.
— Muito prazer, Shina. – Segurou a mão delicada para depositar um beijo cortês.
O grego sorriu de modo encantador. Por mais que gostasse de Camus, era pouco correspondido e não deixava de ser um homem solteiro. Não cortejar uma moça como aquela em tal situação parecia uma afronta aos seus princípios.
— O prazer é meu, Milo. – Sorria.
— Uau, que belo sotaque. – Estava decidido a manter um diálogo.
— Não é uma delícia esse sotaque italiano? Agora você entende por que eu aceitei sair com o Mask. – Afrodite se pronunciou.
— Mas, Dite, você sempre gostou de estrangeiros! Ou acha que eu não lembro do seu ex-amor espanhol? – Shina brincou.
— Bom, gostar de estrangeiros é de família. – O sueco olhou firmemente para o amigo, piscando um olho.
Milo riu alto.
“Seu cachorro! Então já sacou que o Camus me contou, é?” Pensou.
— Então, belíssima italiana, você já me conhecia? – Voltou a flertar com a moça.
Shina estava com uma blusa delicada que destacava os seios fartos e redondos, apesar de parcialmente cobertos por uma jaqueta verde. O jeans claro moldava pernas longas e delineadas. Cachos castanhos lhe caiam majestosamente pelos ombros pequenos.
— Claro que sim, belíssimo grego, todo mundo conhece você, apesar da recíproca não ser verdadeira. Mas como você escolheu a minha ex como sua primeira amiga aqui na França, acabei reparando um pouco mais.
— Ex? – Perguntou confuso.
— Sim, a Marin. – Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Quando Milo ia falar algo, ouviu alguém que desgostava profundamente lhe dirigir a palavra.
— E aí, pagão, eu sabia que você gostava de andar com meninas – Olhou para Afrodite – mas com vagabundas é novidade. – Disse Philippe, chegando acompanhando de seus amigos para a aula.
— Poxa, Philippe, não sabia que ser SOLTEIRA é o mesmo que ser uma vagabunda. – Shina se levantou, buscando sua mochila – Bom, realmente eu fiquei com muitas pessoas, mas você eu sempre recusei. – Fez uma expressão de pena – Beijo, meninos, nos vemos mais tarde! Milo, foi um prazer. – Despediu-se dos amigos e seguiu pelo corredor.
— Fico impressionado como tudo o que sai da sua boca são ofensas gratuitas. No começo achei que poderia ser pessoal, agora vejo que você não gosta de ninguém, não é mesmo? – Milo respondeu sem hesitar, com a tranquilidade de quem deseja um bom dia – Você deveria falar com alguém que se importa com o que sai da sua boca. – Se levantou, parando em frente ao francês.
Philippe, apesar de mais baixo de o grego, deu um passo à frente de modo a enfrentá-lo.
— Eu realmente gostaria de saber o que anda acontecendo entre vocês dois.
Todos se viraram na direção da voz firme e grave de Camus, que se aproximava da cena.
— Não é nada, professor Sivan. – Milo se pronunciou sem tirar os olhos de Philippe.
— Ótimo. – Disse cético, olhando de um para o outro – Vamos entrando. – Fez sinal com as mãos para os que alunos passassem pela porta aberta.
Afrodite fez biquinho como se mandasse um beijo para Camus, discretamente. O ruivo apenas maneou a cabeça sorrindo, vendo o irmão seguir em direção aos ateliers das Belas Artes. Fechou a porta ao entrar na sala. Havia muitos grupinhos de alunos espalhados por ela, jovens em cima das mesas e até sentados no chão. Todos ocuparam seus devidos lugares quando o professor parou em frente a turma.
O ruivo colocou os óculos, retirou o notebook da mochila e o ligou ao data show. Começou a aula de maneira teórica, dando chance para que Milo pudesse olhá-lo diretamente. O grego sentiu cólera ao ouvir algumas alunas sentadas atrás de si comentarem sobre o corpo do professor. Quis se virar para trás e rosnar, saturado de ciúmes. Só conseguiu se distrair quando Camus indicou que os alunos formassem grupos e discutissem sobre o tema apresentado.
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Ao final da aula, Milo foi avisado por Camus que haveria uma reunião do colegiado de filosofia. O grego almoçou com Afrodite, Shina e Marin, combinando de encontrar o professor posteriormente.
O sol havia resolvido dar as caras no início da tarde. Os três amigos se sentaram em um dos jardins para aproveitar os raios sutis antes da próxima bateria de aulas começar.
— Então, Marin, quer dizer que você tem uma ex-namorada? – Questionou Milo.
— Pois é! – Disse a moça olhando de soslaio para Shina, que sorriu.
— E o seu namorado promotor sabe que você já teve um relacionamento com esta encantadora jovem?! – Disse apontando acusatoriamente para a bela italiana. Todos riram.
— Bom, o fato de eu ser bissexual é um detalhe.
— Não estou dizendo isso, minha cara. Minha pergunta foi se o seu namorado engomadinho e elitista sabe que a senhorita já se envolveu com gente das Belas Artes!
O som das risadas aumentou.
— Ah sim, isso eu não conto! O que ele vai pensar de mim? – Dramatizou com uma mão no peito.
— Milo, você está falando mal do seu próprio curso? – Afrodite perguntou, ainda rindo.
— Claro que estou, realmente tem muita gente elitista na Escola de Direito.
— Mas o pobre do Aiolia não é assim! – Defendeu a ruiva.
— Eu sei, só estou brincando mesmo. – Sorriu para a amiga – E na festa amanhã, ele vai?
— Vai sim! E você, já escolheu uma das muitas opções para te acompanhar?
Milo realmente havia recebido alguns convites nas aulas que frequentava, mas todos lhe pareciam desinteressantes.
— Na verdade não. Quem eu gostaria que me acompanhasse me recusou.
— Insista, oras. – Disse Marin, como se fosse o óbvio. Shina e Afrodite apenas acompanhavam a conversa.
— Farei isso. Mas ele é complicado.
— Ele? – Brincou a moça.
— Detalhes... – Sorriu para a amiga.
— Bom, o Mask vai, Milo. – O sueco resolver entrar no assunto.
— Mas todo mundo sabe de você, Dite. Entre outras coisas que deixam a situação menos complexa. – Se referia ao fato de Afrodite e Carlo possuírem diferentes departamentos.
— Eu sei, mas mesmo assim vale a pena tentar. Na minha opinião você é correspondido, ele só não sabe disso ainda.
Uma gota de esperança desabou ruidosamente sobre o coração do grego. É claro que ele já havia percebido interesse por parte de Camus, porém o ruivo se mostrava sempre inflexível perante seus sentimentos. Na verdade, seriam sentimentos? Milo tinha certeza sobre si, mas não poderia afirmar pelo professor.
— Eu vou tentar, mas não vou me ater a isso, Dite. Não quero ser chato. Estou tentando, mas se não der, não deu.
As meninas, extremamente discretas, perceberam que ambos não queriam citar nomes, portanto não perguntaram.
— Caso a sua companhia recuse, eu estou disponível, Milo. – Shina sorriu delicadamente.
— Está mesmo? Mas como? Você é tão linda!
— Na verdade não, – Todos riram – mas posso ficar se a sua companhia recusar. – Abriu a mochila e buscou por um pedaço de papel. Anotou seu número seguido de um “S”, entregando ao loiro.
Milo sorriu. Sentiu o celular vibrar e leu uma mensagem de Camus.
12:57h Camus
Estou na minha sala. Aguardo você.
— Meus amores, preciso ir. – Juntou suas coisas e se levantou. Olhou triste para o sol, se desculpando mentalmente por abandoná-lo.
— Vou com você, preciso falar com o Camie. – Mandou um beijo para as meninas antes de seguir o amigo.
Quando já haviam se afastado o suficiente, Afrodite puxou conversa. Milo anotava o número da italiana em seu telefone.
— O que achou da Shina?
— Gatíssima. – Sorriu.
— Ela já está te olhando há um tempo.
— Por que não me apresentou antes?
— Por que acho você perfeito para o Camus.
— O Camus é perfeito pra mim? – Suspirou, cansado.
— Claro que é!
— Eu estou investindo, Dite, juro que estou.
— Por favor, não desista dele. Ele é complicado, eu sei, mas... – Suspirou – É difícil vê-lo gostando de alguém e isso o faz bem.
— Então por que ele me nega tanto? – Estava começando a ficar nervoso.
— Ah, Uxo... o Camus pensa que precisa cumprir alguns requisitos na vida, mas a verdade é que ele já é perfeito sendo quem é.
— Ele não entende isso, não é?
— Ainda não, mas espero ter um aliado para mudarmos isso. – Sorriu esperançoso, unindo os dedos do amigo aos seus, em uma caminhada cúmplice.
— Eu estou gostando mesmo dele, Dite. Eu cheguei na França com tantos planos, tantas possibilidades... tudo foi por água abaixo depois que eu o conheci.
— Então insista!
Milo mirou os olhos claríssimos. Viu Camus neles.
— Eu ainda não desisti. – Sorriu, confiante.
— Obrigado. – Parou de andar, abraçando o amigo com todas as forças que possuía.
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Já na sala de Camus, Afrodite lhe perguntou sobre a reunião, já que Mask estava em aula no momento. Por sorte o assunto abordado foi sobre as novas verbas para pesquisas, nada de turmas extras para o italiano.
O sueco se despediu e os outros dois seguiram para a biblioteca. Por volta das 16h, ambos decidiram migrar para o Le Chaos devido ao excesso de barulho. Ao término das aulas na Sorbonne os alunos superlotavam a biblioteca em bandos eufóricos, tornando o ambiente insustentável para estudos comprometidos.
Ao entrarem no café e livraria, Camus guiou o caminho através das estantes até encontrarem uma mesa mais afastada.
— Acho que você já se informou bastante sobre o básico, Milo. O que me diz de trocarmos anotações para você escolher um foco de pesquisa?
— Acho ótimo! Mas minhas coisas não estão completamente organizadas, falta um sumário. – O loiro passou algumas folhas para o professor, que as analisou perplexo.
Camus folheou as páginas rapidamente.
— Você é muito organizado, estou verdadeiramente impressionado!
— Claro, claro – Disse cético.
— É sério, suas anotações parecem uma apostila. Você escreve muito bem, Milo. – Olhou nos olhos do grego.
— Obrigado. – Sorriu sem jeito. Estava habituado a receber elogios, mas não de Camus.
— Já pensou em fazer apostilas de resumos e vender para os alunos?
— Na verdade não, obrigado pela dica. – Sorriu.
Milo pegou as anotações do professor sobre a mesa e viu que o conteúdo era muito mais denso e analítico que o seu. Porém o francês separava suas coisas em tópicos de estudo, depois por bibliografia, o que não era muito didático.
Permaneceram imersos nos trabalhos um do outro até anoitecer.
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— Não consigo mais ler uma palavra! – Milo soltou as folhas sobre a mesa, espreguiçando-se em seguida.
— Eu acredito, pegamos pesado no conteúdo hoje. Vamos lá na frente comer alguma coisa bem doce?
— Acho uma ideia fantástica. Podemos nos sentar nos puffs? Nem dessa cadeira eu gosto mais.
Comeram um de frente para o outro. O joelho do grego subia e descia em um sinal claro de nervosismo. Camus divagava em seu puff, bebendo o café com chocolate de forma alheia, olhando para o nada. O grego observava atentamente, decidindo qual seria a melhor abordagem.
O ambiente transmitia aconchego graças às luzes amarelas em contraste com o marrom da parede de madeira. Ouviam vozes distantes de outros clientes, misturadas a um jazz baixo.
— Hum, Camus.... – Chamou hesitante.
Viu o ruivo abandonar seus pensamentos para mirá-lo.
— Sim?
— Sobre amanhã, você não quer mesmo ir comigo? – Remexeu sua torta com o garfo de plástico, ansioso.
— Eu não posso ir, Milo, já conversamos sobre isso. – Respondeu frio.
— Por que é professor? – Resolveu olhar para Camus.
— Sim.
— Eu sei que a Sorbonne não gosta que alunos e professores tenham um relacionamento além do acadêmico, mas nós já somos amigos, não somos? Qual o problema de você me fazer companhia?
Camus suspirou.
— Sim, nós somos amigos. – Outro suspiro – Mas não arriscaria meu emprego, Milo, me desculpe.
— Tudo bem. – Então o ruivo preferia o emprego. Tudo bem.
Camus viu o aluno mirar a comida pensativo e tamborilar os dedos sobre a perna. Ele gostaria de falar algo, de pedir desculpas, de dizer qualquer coisa. Mas o que diria? Era melhor assim. Milo era jovem, bonito, tinha uma carreira brilhante pela frente. Já o francês estava fadado a lecionar para sempre.
— Camus, eu tô indo. – O loiro se levantou em um rompante – Obrigado por hoje. Amanhã nos vemos depois do almoço?
O ruivo maneou a cabeça tristemente.
— Claro. – Abaixou os olhos para o café quente que tomava, a fumaça fumegando diante dos orbes azuis claríssimos. Entendeu que Milo não permitiria que o levasse em casa.
— Amanhã pego minhas roupas com você. Até mais. – Acenou.
O grego saiu sem olhar para trás. Pagou sua conta, tirou um cachecol da mochila e o enrolou no pescoço antes de sumir porta a fora.
Não tinha a menor ideia de como voltaria para casa, mas sabia que não estaria perdido se encontrasse o metrô.
Pelo menos lhe agradava andar pelas ruas pequenas e bonitas da capital francesa. Conseguiu chegar a uma estação após seguir as placas, vendo pelo mapa qual linha deveria pegar para chegar em casa.
Já dentro do vagão, sentou-se na janela, vendo apenas sua própria imagem refletida na escuridão. Sempre conseguira todas as pessoas que queria. Porém as queria superficialmente. Agora que realmente desejava alguém, não poderia tê-lo.
Isso era deveras frustrante. Era assim que as pessoas “descartadas” se sentiam? E as pessoas que ele descartara, também se sentiam desse modo?
Provavelmente não. Elas ao menos haviam provado um pouco de si. Entre ele e Camus não havia nada. Apenas a vontade.
Sentiu a dor da incompreensão de não poder ter o ruivo. Ele jamais saberia se daria certo.
Socou levemente sua perna, não chamando atenção das poucas pessoas que compartilhavam o vagão.
“Merda!”
Fechou o cenho, iria aproveitar a festa sem Camus. Iria esquecê-lo antes que doesse mais. Sabia muito bem que quanto mais se iludisse, mais iria machucar.
Não estava mais triste, estava possesso! De que adiantava insistir se o francês era um covarde, um cachorrinho do pai? Esticou a perna para conseguir pegar o celular guardado no fundo do bolso da frente, desbloqueando a tela e buscando por um contato específico. Achou o que procurava. Mirou seu reflexo outra vez enquanto a chamada era concluída.
Uma voz sedutora atendeu do outro lado da linha.
— Oi, Shina.
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Camus estacionou na garagem de seu prédio. Viu a mochila do aluno ao abrir a porta de trás do Cadillac para pegar suas coisas.
Entortou os lábios e uniu as sobrancelhas.
— Droga! – Murmurou, apanhando bruscamente tudo que via pela frente.
Chegando em casa, jogou a mochila de Milo onde ele a havia deixado na noite anterior, atrás do sofá. Seguiu para o banho com ela em seus pensamentos.
Enquanto a água corria lentamente por seu corpo, pensou novamente na mochila. Socou a parede do banheiro com força.
Odiava festas.
Odiava mesmo.
Mas queria ir.
Queria ir aonde quer que Milo estivesse.
Rosnou, socando a parede novamente. Sentiu as costas de sua mão queimar ao entrar em contato com a água.
Pensou em seu pai. Como o odiava por escravizá-lo. Como se odiava por se importar.
Levantou a cabeça, mirando os buracos do chuveiro por uma fração de segundo, até ser obrigado a fechar os olhos. Pensou na mochila novamente.
Terminou o banho, se vestiu e foi preparar o jantar. Passou pela sala olhando de soslaio para a mochila. Conseguiu ignorá-la, não sem certo esforço.
Colocou o avental, decidido a preparar sua comida. Olhava para trás de vez em quando, vendo-a lá, parada, esperando.
Desistiu, desligando o fogão e apoiando as mãos em suas bordas. Abaixou o tronco, respirando fundo e rosnando baixo.
— Puta que pariu! – Gritou, arrancando o avental de si com brutalidade.
Andou pesadamente até a mochila e retirou a blusa que Milo havia usado para dormir. Amassou a vestimenta rudemente entre seus dedos e a levou ao nariz, aspirando profundamente.
Sentou-se no chão, apoiando as costas no sofá com as pernas flexionadas e apertas. Aspirou ainda mais o cheiro amadeirado que emanava da peça. Retirou com grosseria a camisa que havia vestido há pouco tempo, jogando-a longe e vestindo a blusa amassada do grego no lugar.
Camus respirou fundo e foi terminar seu jantar.
Nessa noite, dormiu no lado direito da cama.
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No dia seguinte, Camus resolveu tomar seu café da manhã em frente a parede de vidro, vendo os prédios altos e a Torre Eiffel no horizonte. Não se virou ao ouvir a porta de frente ser aberta.
Afrodite seguiu direto para a cozinha, pulando a camiseta abandonada no chão sem entender. Pegou os pães integrais feitos pelo irmão, requeijão light, suco e algumas frutas na geladeira. Se uniu a ele, também observando Paris acordar.
— Bom dia pra você.
— Bom dia, Dite. – Falava de boca cheia, o que o sueco estranhou – Hum, – Engoliu – como foi com o Mask? Matou a saudade?
— Nossa, se matei! Foi ótimo. Obrigado por hospedar o Milo.
— Falso. – Mordeu um pedaço grande de pão.
— Você não ficou chateado, ficou?
— Não. Foi uma das melhores noites da minha vida. – Ainda mirava o horizonte com os olhos muito claros.
— Então por que não vai com o Milo hoje?
— Você sabe a resposta.
— Camus, meu amor, nós já conversamos sobre isso um milhão de vezes. Você precisa exorcizar o espírito do Raul da sua vida. O Milo é a sua chance. – Disse paciente.
— Eu não consigo, Dite.
O sueco passou os braços pelo corpo forte do irmão, depositando um beijo delicado sobre os ombros largos.
— Você pode começar devagar, tipo indo na festa hoje. Já seria uma quebra de paradigma e o Milo ficaria muito feliz.
— Eu sei, Dite, mas não posso. – Sua expressão era de tristeza e confusão.
— Por que não pode?
— Por que nada vai acontecer entre mim e o Milo, já te disse. Não vou me aproximar mais dele, gostar mais dele, para tudo acabar depois. Eu vou sofrer muito mais, Dite. O Milo vai embora em alguns meses, vai conhecer outras pessoas... isso se não conhecer antes, ele é bonito e extrovertido... O que o faria ficar preso a mim?
— Mas... – O sueco foi interrompido.
— Esse relacionamento seria fadado ao fracasso.
— Ah, Camus. Você é tão inteligente para umas coisas e tão burro para outras... – Acariciava as mechas vermelhas – O que eu faço com você?
O francês se soltou do abraço delicadamente, recompondo-se.
— Está de pijamas? Não foi treinar hoje? E a faxina, vai começar quando? – Disse o sueco ao reparar melhor na aparência do irmão mais velho.
— Não tive ânimo.
— Vai hoje à tarde. O Milo vai desmarcar com você.
Camus apenas levantou uma sobrancelha.
— Eu o convidei para fazer as compras da festa comigo e com o Mask. Intercâmbio não é só para estudar, ele precisa se divertir.
— Então a tarde eu vou bater em algo na academia. – Afirmou pensativo.
— Vamos arrumar a cozinha agora?
— Vamos sim.
Afrodite jamais o deixaria sozinho. Permaneceu ao lado de Camus durante toda a manhã.
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Milo, por sua vez, teve uma tarde divertidíssima com Afrodite e Carlo. Os três almoçaram juntos e o italiano contou muitas coisas a respeito dos professores e departamentos da Sorbonne. Afrodite também procurou deixar o grego informado, revelando algumas histórias de quando ruivo cursava filosofia.
— Foi nessa época que ele deixou o cabelo crescer? – Milo perguntou, rindo.
— Não! Ele deixou o cabelo crescer quando ainda éramos crianças, tudo por minha causa.
O grego não entendeu e o amigo explicou.
— Eu queria usar roupas mais delicadas, queria ter o cabelo grande, essas coisas. Só que as crianças não perdoam e viviam me enchendo o saco. Daí o Camus decidiu que iria deixar o cabelo crescer igual a mim.
— Awn, que bonitinho!
Os três riram.
— Mas é sério! Desde então ele nunca mais cortou. Na época da faculdade então, – Gesticulou – se sentia em casa!
Milo riu gostosamente, assim como Carlo.
— Hoje ele pensa em cortar, às vezes. Graças aos deuses ele sempre acaba desistindo.
— Espero que ele não faça isso! – Milo fez uma prece interna.
Contaram mais casos que comprometiam o francês e depois foram às compras.
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No fim da tarde, Carlo e Afrodite deixaram Milo em casa para que ele se aprontasse. Se encontrariam novamente na república principal dos cursos de humanas para a festa.
Milo se vestiu com estrondoso cuidado. Adorava festas e sentia falta delas como Kanon sentia do mar. Bagunçou os cachos molhados para que secassem com volume.
Antes de deixar seu apartamento nos subúrbios, pegou celular, carteira e chaves, colocando tudo no bolso.
Hoje iria se divertir.
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