Um estrangeiro em Paris
26 Sobre amar outro homem
Notas iniciais
Era um domingo frio e chuvoso.
O despertador tocava por mais tempo que o habitual. Camus sempre acordava durante os primeiros toques, rotina que não havia sido cumprida naquela manhã. Como consequência, Milo acordou e não conseguiu retornar ao sono, levantando ao lado do francês surpreendentemente sério.
— Não acredito que voltou a chover! – Reclamou enquanto o namorado terminava de assar um bolo.
Não houve resposta. Camus se mostrava pensativo, distante.
— Ou, ruivo! – Brincou, chamando atenção – Estou tentando manter um diálogo aqui.
— Desculpe, estava distraído. O que você disse?
— Esqueça. – Deu de ombros – Ontem você apagou depois do banho, nem tive tempo de conversar sobre o meu calendário.
— Seu calendário? – Franziu o cenho, confuso. Olhou para o relógio da cozinha, verificando que o bolo ainda demoraria alguns minutos para estar pronto. Se inclinou sobre o lado interior do balcão, dobrando o corpo sobre os braços e ficando frente a frente com o grego.
— Sim. Eu tenho três semanas para apresentar meu trabalho de conclusão de curso, mas já estou na etapa de revisão e formatação. Consigo terminar isso até amanhã à noite sem falta.
— Bom, eu posso corrigir na terça e marcar uma audiência com sua banca examinadora para essa semana. Como fizemos quase tudo juntos, duvido que tenha algo a ser alterado.
— Eu também duvido. Estamos combinados, então?
Camus checou o relógio outra vez e confirmou com o grego enquanto retirava o bolo de amoras do forno. Colocando a forma quente sobre a pia, cortou vários pedaços e os depositou em uma tigela. O casal rumou para a mesa de centro na sala, onde Milo já havia deixado uma jarra de suco e algumas frutas.
— Você não está atrasado para a academia? Hoje é domingo e você não está mantendo o protocolo. – O loiro esbanjou um sorriso.
— Na verdade eu posso ir em qualquer hora do dia. – Camus respondeu automaticamente.
— Eu sei como academias funcionam, idiota. – Bateu seu ombro contra o do namorado enquanto andavam, desequilibrando-o levemente – Está atrasado com você mesmo.
— Qual o problema de se ter uma rotina? – Camus se defendeu sem muita ênfase. Sentou-se no carpete confortável com as pernas cruzadas, olhando através da parede de vidro para a chuva fina que assolava Paris.
— Camus, você está muito chato. Nem implicar está tendo graça. – Riu de si mesmo. Franziu o cenho ao constatar que o ruivo sequer lhe dava atenção – Você não está bem, o que houve?
O francês sentiu seus dedos sobre a mesa de centro serem recobertos pela mão do namorado.
— Não é nada, – Olhou para o grego e sorriu levemente, tentando transmitir confiança – só estou cansado.
Apesar de não acreditar no discurso, Milo o deixou como estava. Esperava que ambos teriam uma conversa após Camus colocar os próprios pensamentos em ordem.
— Bom, a vantagem de terminar logo é que a gente pode ficar por conta nesse fim de mês. Só precisarei ir à Grécia durante a primeira semana de dezembro. – Sem reações por parte do namorado, que apenas mordia uma maça enquanto mirava a chuva, Milo resolveu continuar – Esqueci de te contar, conversei com a Saori e acho que vou pedir orientações quando me formar.
— Como assim? – Disse com dificuldade.
— Seria possível? – Inclinou-se sobre a mesa, atuando incredulidade – Camus Sivan estaria mesmofalando com a boca cheia?!
O francês quase se engasgou com a risada grave que aflorou em sua garganta.
— Até que enfim consegui te arrancar um sorriso! – Levantou teatralmente as mãos para o teto, rindo.
Camus ainda sorria quando terminou de engolir. Chamou o grego com a mão, que prontamente sentou-se ao seu lado no tapete. Inclinou-se para trás, convidando o namorado a se deitar com a cabeça unida a sua.
— Você realmente quer atuar na corte? – Perguntou sério.
Milo levantou o braço, mirando a mão aberta em frente ao gesso do teto.
— Acredito que sim. Eu não me imagino em uma promotoria, trabalhando como meus irmãos e passando pelas coisas que eles passam.
— Porque não?
— Eu realmente gostaria de escolher quem vou defender. – Afirmou sem muita convicção.
— Você sabe que, no curso em que está se formando, escolher defender somente os inocentes é completamente utópico, não sabe?
— Eu sei. – Suspirou resignado – Mas a verdade é que eu não sei bem o que devo fazer.
— Você se deu muito bem na área da pesquisa. Já pensou em entrar para a academia? Você é uma das pessoas mais inteligentes, dedicadas e carismáticas que eu já conheci, sem dúvida seria um professor de sucesso. – Por mais que doesse, Camus deveria sugerir. Tal escolha implicaria em um tempo ainda maior para assumirem publicamente o namoro, o que o francês sabia plenamente ser a vontade do loiro acima de qualquer coisa. Contudo, era sua obrigação como orientador guiar o aluno para o melhor caminho. Além disso, por amar Milo, Camus deveria deixá-lo ir.
— Já, mas eu não quero a Sorbonne. Além disso, não me imagino longe de você.
Com um suspiro, o francês tomou a mão do namorado para si.
— Porque não quer a Sorbonne?
— Por que você trabalha lá.
— Não quer trabalhar comigo? – Sorriu levemente com o intuito de provocar, mesmo sabendo que o outro não estava olhando para si.
— Quero, quero muito. Achei que trabalhamos divinamente bem esse semestre. Nós nos completamos. Mas não é a minha prioridade trabalhar lá. Eu só penso em voltar para Paris após minha colação na Grécia e fazer o exame da ordem aqui mesmo.
Camus estava com o coração bastante apertado. Milo estava ali, falando sobre o futuro, coisa que ele não fazia por medo. O grego também demonstrava claramente sua vontade de manter o namoro a qualquer custo, outra falha cometida pelo francês. Ele queria gritar que o amava, que também se importava, mas seus atos se mostravam irredutíveis. Camus jamais poderia priorizar o relacionamento deles. Ele não merecia Milo.
— Bom, eu só posso dizer que te apoiarei em qualquer que seja a sua decisão. – Foi o melhor que conseguiu externar.
Milo entendeu como “Eu não farei nada caso você decida partir, mas espero que fique”. Amava Camus com todas as suas forças e não se imaginava sozinho, nunca mais. Não se importava de ser ele a ceder, de ser ele a se adequar à vida que o outro escolheu. O que o incomodava era o medo de não haver reciprocidade de sentimentos.
Camus rompeu o silêncio que se formou.
— Eu estou indo me trocar, você se importa de arrumar essa bagunça?
— Não vai terminar o café?
— Não estou com muita fome. – Deu de ombros enquanto levantava – Quero te pedir outro favor.
— Todos. – Milo se sentou novamente.
— Eu não quero ir de carro, queria tomar um pouco dessa chuva. Pode me buscar na volta para irmos juntos ao restaurante?
Afrodite iria para o Reino Unido novamente e seu voo era no fim da tarde. Desse modo, os quatro haviam combinado de almoçar em um restaurante que o sueco adorava.
— Com “ir te buscar” você se refere ao Cadillac?
— Sim. Você se importa?
— Claro que não. – Milo estava surpreso. Não que Camus lhe impedisse de dirigir, só que nunca haviam tido a oportunidade de trocar de lugares.
Camus anuiu e sumiu pelo corredor. Milo mordeu o lábio inferior, algo não estava certo. O que estaria acontecendo?
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Vestindo uma regata e calça de moletom, Camus partiu para a academia onde treinava aos domingos, levando consigo uma toalha, um short de treino e uma camiseta para vestir após o banho. Sentiu frio, mas estava tudo bem, o frio lhe acalmava. Afrodite apareceu antes que saísse, lhe obrigando a levar um casaco. Contudo, a pobre vestimenta agora residia abandonada sobre a lataria do Cadillac na garagem do prédio.
Sentando-se no vestiário, Camus enfaixou bem seus tornozelos e pulsos. Antes de colocar as luvas de boxe, decidiu por checar a mensagem de seu pai novamente.
“Como está, meu filho?
Ouvi bons relatos sobre seu aluno e sobre sua atuação como orientador. Você não poderia ter me deixado mais orgulhoso de sua carreira como acadêmico.
Também tive notícias do seu meio-irmão. Fico feliz que, apesar de tudo, ele ainda tenha talento.”
Apesar de tudo? Camus franziu o cenho. Odiava quando o pai falava de Afrodite ou Hyoga. Eram as únicas vezes que ele se impunha, mostrando que aguentaria qualquer coisa, menos o desrespeito com quem amava.
Continuou a leitura.
“Além disso, é com grande alegria que informo que voltarei a morar em Paris no próximo ano. Minhas negociações em Ohio acabaram. Em breve estarei na França arrumando meus preparativos.
Como sempre, é uma pena que você não queira assumir os negócios, afinal, essa empresa será sua um dia. Lembre-se que nunca é tarde para voltar atrás.
Abraços,
Raul”
Massageou a testa, cogitando o que o pai pensava de si. Provavelmente imaginava que o filho se cansaria de brincar de lecionar a qualquer momento e iria optar pela administração da empresa. O que Camus jurava por tudo que lhe era amado, jamais aconteceria.
Levantou-se, guardando o celular na mochila. Hoje não queria ser incomodado. Retirou as luvas de boxe que residiam em seu armário e rumou para o tatame.
Camus treinou com todo o seu potencial. Desferiu socos e chutes incontáveis no alvo, fazendo com que muitas vezes os presentes na academia desviassem o olhar para si.
Seu pai viria, e então?
Não seria uma visita, ele iria morar em Paris. Tudo o que Camus desejava era se ver livre das amarras invisíveis, era estar em uma cidade distante do pai para que pudesse ser ele mesmo. E agora, o que ele deveria fazer? Como ele iria ignorar os problemas com Raul tão próximo?
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Milo chegou no final do treino, observando de longe a violência incansável do namorado. O francês sustentava um semblante agressivo e concentrado. A franja suada estava grudada na testa alva, assim como as outras mechas nas costas largas. A camisa havia sido retirada meio treino atrás.
— Camus? – Chamou enquanto se aproximava receoso.
Em completo transe, o ruivo não percebeu a aproximação do namorado e continuou chutando o alvo com toda a potência que suas pernas bem torneadas eram capazes de produzir.
Impressionado com o foco do namorado, Milo se aproximou com cuidado, estendendo a mão com o intuito de tocar no ombro descoberto.
— Camus? – Quando seus dedos tocaram a pele de alabastro, o grego percebeu uma mudança brusca no comportamento do outro. De completa concentração, o ruivo migrou para um lugar desconhecido. Mirou Milo por um tempo até reconhecê-lo.
— Oi... – Disse ofegante.
— O que aconteceu com você? – Exasperou-se, o segurando por ambos os ombros.
— Estava concentrado, me desculpe. – Buscava fôlego arduamente – Você chegou faz muito tempo?
— Camus, seus pés estão sangrando... – Milo simplesmente não sabia o que fazer. O namorado não parecia estar ali.
Desviando os olhos muito claros para o incômodo persistente na junção de seu pé com a canela, o ruivo percebeu as pequenas poças de sangue que manchavam a faixa de proteção.
— Treino intenso hoje, nada demais. – Fingiu um dar de ombros, não queria conversar sobre nada naquele momento.
— Ok, vamos para o vestiário, sim? – Cansado de insistir, guiou o namorado pelo pulso.
Camus observou os dedos que o prendiam. Subiu o olhar até visualizar as ondas aloiradas e sentiu seus olhos arderem. Pelos deuses, ele não merecia aquele homem.
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Camus colocou a cabeça no lugar enquanto se banhava. Observava hipnoticamente o grego que amava contando algo bobo sobre o sofrimento do italiano ao ver Afrodite finalizando as malas.
Ao desligar a ducha, Milo viu uma janela de oportunidade.
— Se sente melhor? – Olhava com carinho e preocupação.
— Sim, obrigado. – Sorriu tristemente. Se aproximou para depositar um beijo suave nos lábios desenhados do amante, em meio ao vestiário lotado. Camus nunca viu algum de seus alunos ali, logo o resto não importava.
Milo sentiu-se traído. Estava pronto para conversar, para esclarecer, então, inesperadamente, recebia um beijo terno e aleatório. Era uma das poucas coisas que o convenceriam a permanecer em silêncio.
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O almoço correu normalmente. O sueco ressaltou que era a vez dele de fazer o namorado sofrer por saudade. Camus se esforçou para permanecer impassível, não queria que o irmão se preocupasse enquanto viajava, seria uma semana importante para ele.
A despedida no aeroporto não foi tão eufórica quanto Milo esperou que fosse. Afrodite derramou algumas lágrimas, mas prometeu que logo estaria de volta com muitos quadros vendidos e um nome sendo construído. Nenhum deles duvidou, o talento do sueco era inquestionável.
De volta ao prédio, o casal se despediu de Carlo quando o elevador ancorou no décimo primeiro andar.
— Vou começar minha formatação final agora. – Milo retirou o casaco pesado e seguiu até o aquecedor com o intuito de ligá-lo.
— Te esperarei lendo um livro no sofá. – Camus também se livrou da blusa leve de mangas compridas que usava e ambos vestiram moletons confortáveis.
A chuva batia suavemente no vidro da sala, provocando um som agradável. O francês escancarou as cortinas, queria observar Paris por todo o tempo que o vidro levaria para embaçar.
Buscou um romance qualquer na biblioteca enquanto observava Milo trabalhar em seu divã. Ficou um bom tempo em frente a estante, mirando o namorado concentrado na tela do notebook. O grego era tudo que Camus poderia pedir e estava bem ali, que sempre estaria bem ali. Que sabia sobre seus problemas, que gostou de seu jeito esquisito, que poderia ter quem quisesse, mas optou pelo ruivo sardento e branquelo. Camus suspirou, pegando qualquer livro e saindo do cômodo sem fazer barulhos. O que aquele homem perfeito havia visto em si?
Ele não merecia alguém como Milo. Não merecia.
Deitou-se no sofá, apoiando a cabeça no encosto. Acabou dormindo com o livro aberto em sem peito.
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Milo trabalhou severamente por horas a fio, procurando em mínimos detalhes erros de formatação ou de grafia. Sabia que Camus perceberia tudo quando fizesse a revisão final e queria que tudo estivesse perfeito. No meio da tarde começou a sentir fome e frio. Seus pés estavam gelados, assim como as pontas dos dedos de suas mãos. Espreguiçou-se no divã e soltou o rabo de cavalo para prendê-lo novamente de maneira mais firme. O dia estava tão confortável que era difícil até mesmo se levantar.
Ergueu-se a contragosto, iria buscar um travesseiro, uma manta e um iogurte. Ao sair no corredor, mirou a sala e viu Camus dormindo sobre o sofá.
— Tsc tsc, o que está acontecendo com você? – Sussurrou. Foi ao quarto esforçando-se para não fazer barulhos. Buscou duas mantas e um travesseiro, deixando seus pertences no divã antes de rumar até a sala. Cobriu Camus com cuidado e se agachou para ficar no mesmo nível do namorado. Mirou o rosto alvo com esmero, evitando tocá-lo com os dedos frios. Retirou os óculos de armação fina cuidadosamente, depositando-os na mesa de centro. O ruivo respirava pesadamente, como se não dormisse há dias.
Levantou-se após alguns minutos, percebendo que poderia ficar ali para sempre. Pegou um iogurte na geladeira antes de voltar para a biblioteca. Resistindo ao som dos pingos de chuva na janela, retornou ao trabalho penoso de formatar. Pretendia terminar o mais rápido possível para ter um fim de semestre sem preocupações, aconchegado ao namorado enquanto viam alguma animação na TV.
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Já era noite quando desistiu. Não conseguia mais prestar tanta atenção nos mínimos detalhes. Sentiu os efeitos de permanecer muito tempo na mesma posição ao levantar. Andou até a sala, vendo que Camus ainda dormia como se estivesse em coma. Resolveu deitar-se com ele, pulando o corpo forte para ficar no canto. O francês acordou com certa relutância e, percebendo a intrusão, afastou-se para a ponta do sofá de modo a dar espaço ao outro. Ao se acomodar, Milo não perdeu tempo e entrelaçou suas pernas no namorado, apertando-o contra si.
— Dormiu, hein? – Sussurrou, sentindo Camus se afundar em seu pescoço enquanto resmungava algo – Desse jeito não vai nem conseguir dormir à noite.
O francês riu gostosamente, arrancando um sorriso do loiro.
— Vai nessa.
— Aurora não combina com você. – Levantou a mão livre para acariciar os fios ruivos.
— Ela é muito pacífica. – A voz do francês soou abafada devido aos lábios estarem colados ao pescoço do namorado.
— Não que você não seja... – Milo provocou.
— Tem razão, eu sou um pau mandado.
— Foi você quem disse, veja bem... – O grego riu após sentir uma mordida.
Franzindo o cenho, Milo percebeu que o momento era perfeito. Estava na hora de abrirem o jogo.
— Camus, quando vai me contar o que está acontecendo? – Estava tenso, mas as coisas precisavam ser esclarecidas. Ouviu o outro suspirar após um momento de silêncio.
— Meu pai virá morar na França. – Disse com seriedade e apreensão ao mesmo tempo.
Não conseguindo disfarçar o choque, Milo se calou por alguns segundos. Se forçou a manter o diálogo, mesmo sem ter tempo suficiente para digerir aquela informação.
— E isso é um problema muito grande?
— Talvez seja... ainda não sei. – Camus fechou os olhos. Ele não merecia a afeição de Milo, não merecia.
— Vai ser por agora?
— Diz ele que será no início do ano que vem.
— Bom, – Apertou mais o namorado contra o próprio corpo – isso significa que temos tempo para fugir para as colinas! – A risada do francês reverberou no peito loiro, causando neste uma sensação gostosa.
— Ele virá em breve para resolver algumas burocracias da mudança.
— Você está preocupado com o fato de ele se tornar uma pessoa mais frequente na sua vida?
— Milo, meu pai me domina até mesmo estando longe, como acha que será morar na mesma cidade que ele?
— Nós passaremos por isso juntos. Eu entendi o relacionamento abusivo que aquele homem manteve durante toda a sua infância, sei o quanto é difícil para você sair disso. Mas vamos conseguir aos poucos.
— Milo... meu pai não respeita ninguém...
— Se eu pudesse te livrar dele, Camus... Se eu pudesse te afastar daquele ser nojento, racista, homofóbico... – O grego amassou uma mecha ruiva entre os dedos.
Você não vê?!
Você não vê o problema, Milo?
Camus escondeu o rosto novamente. Pelos deuses, ele não merecia aquele amor. Decidiu mudar de assunto, seus olhos claros começavam a arder.
— A formatação rendeu? – Se ajeitou de forma a encaixar ainda mais o próprio corpo entre as pernas do grego.
— Sim, senhor. Com certeza termino amanhã.
— Aí só festa?
— Claro que não, tenho que começar a estudar para a sua prova. – Fez uma careta de desgosto.
— Você vai acertar tudo, pare com o drama. – Levantou-se, puxando o namorado pela mão.
— Pra onde estamos indo? – Milo o seguiu sem entender.
Camus sentou-se ao lado da parede de vidro e pediu para que o grego buscasse algumas almofadas. O carpete estava frio, mas não demoraria a ter uma temperatura agradável. A chuva havia aumentado, fazendo um barulho maior ao se chocar contra o vidro grosso.
Milo ajeitou as almofadas ao redor do namorado, esparramando-se por cima dele ao terminar. Camus acolheu o grego com esmero.
— Sabe, vai ter uma festa de despedida para os formandos. Você poderia ir comigo nessa.
— Você sabe que não posso ir. – Disse simplesmente.
— Vou ter que ir sozinho?
— Não prefere ficar aqui comigo? – Sugeriu divertido.
— Nem vem com essa chantagem emocional. Essa festa será incrível e você sabe disso.
— Tudo bem, então.
Apesar de levemente decepcionado por acreditar que o namorado o acompanharia dessa vez, Milo resolveu se aproveitar da situação.
— Então você vai ter que me compensar. – Virou o rosto para cima, sorrindo sedutoramente.
Camus apertou o grego contra si em um convite. Aceitando a oferta, Milo subiu o corpo, ficando frente a frente com o rosto alvo como a neve. Impaciente, o ruivo levantou a cabeça, buscando os lábios desenhados com os seus.
Em pouco tempo ambos já estava em sincronia. O beijo ia lento, profundo, dando tempo e espaço para que nenhum movimento fosse desvalorizado. Entre as almofadas, dedos sumiam sob os moletons, esquentando o ambiente gelado. Milo interrompeu o contato para mirar o fundo dos olhos claros, ouvindo a respiração pesada do francês misturada aos dedos tamborilantes da chuva no vidro. Camus o encarou de volta e ambos mergulharam novamente em um outro beijo.
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Na segunda pela manhã o casal tomou café na companhia do italiano antes de seguirem rumo à Sorbonne.
Como sempre, Camus parou o carro no estacionamento privativo dos professores do Departamento de Direito. Espantou de seus pensamentos a ideia que poderiam desconfiar caso vissem ele e o aluno entrando juntos, já que já ambos haviam feito isso antes sem qualquer problema. Correu os dedos nervosamente pelos fios ruivos, ele se sentia sob pressão.
A chuva havia dado um tempo, apesar do frio permanecer.
Quando alcançaram o pátio, seguiram sob o céu cinza até a lanchonete. Velhos hábitos nunca mudam.
O vento frio veio como um tapa, fazendo o grego se encolher. Institivamente Camus passou o braço pelos ombros do aluno, afagando os músculos fortes com carinho. Quando teve noção de seus atos, retornou à posição original, preocupado. Ao receber o afeto, Milo tentou uma atitude ousada: cobriu os dedos de Camus com sua mão enluvada e imediatamente o ruivo se distanciou.
— Não podemos fazer isso aqui.
— Está cedo e estamos sozinhos nessa universidade, ninguém iria ver.
— Mas e se vissem? Você está a semanas de pegar seu diploma, Milo.
Apesar de triste, o grego sabia que o outro tinha razão. Contudo, algo lhe dizia que Camus não iria mudar.
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A semana transcorreu com tranquilidade. O grego conseguiu terminar a formatação de sua monografia e Camus marcou a apresentação do aluno para a banca examinadora na quinta-feira. Corrigiu o trabalho final na terça, assinando o documento de aprovação logo após a impressão. Finalizaram a apresentação em Prezi e os últimos detalhes foram concluídos na quarta-feira.
Milo foi o responsável por uma das apresentações mais brilhantes já feitas na Sorbonne. Mostrou a todos que não só sabia perfeitamente sobre o conteúdo do tema escolhido, como também sabia explicar, passar o seu conhecimento. Camus se sentiu transbordar de orgulho ao ver todos os acadêmicos e profissionais de destaque aplaudirem o aluno de pé. Shion parabenizou a ambos pelo trabalho duro durante o semestre e pelo resultado que colheram. O francês agradeceu ao aluno publicamente, deixando claro aos presentes a dedicação em tempo integral que o grego teve. Milo elogiou o professor e também o agradeceu pela oportunidade de ser seu aluno orientado.
Saíram juntos para comemorar durante a noite. Milo quis compartilhar outra rodada de vodka, mostrando o quanto tinha aprendido em Amsterdam. Bebeu ao ponto de ser carregado pelo ruivo até o taxi e depois do veículo até o apartamento. Apesar de reclamar, Camus tinha doses infindáveis de paciência para cuidar do grego o quanto fosse necessário.
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Na manhã de sexta, Milo acordou com enxaquecas e bastante enjoo. Não comovido, Camus o obrigou a participar da faxina, além de acompanhá-lo nas compras semanais. À tarde, optaram por uma folga que duraria até domingo à noite, quando o grego começaria a estudar para os exames finais e Camus se concentraria em como iria avaliar os alunos.
O interfone tocou no início da noite. O casal assistia confortavelmente a um filme com a chuva forte ao fundo, deixando o ambiente mais aconchegante. Milo se virou para o namorado, pegando o balde de pipoca que haviam deixado entre os dois e fazendo uma expressão de dúvida. Com a boca cheia, Camus apenas levantou os braços, indicando que não fazia ideia de quem poderia ser. Erguendo-se a contragosto e sentindo o frio que fazia do lado de fora dos edredons, o ruivo seguiu até o aparelho que tocava em sua cozinha.
Enquanto caminhava, Camus olhou para seus pés descalços, sentindo o frio do piso de madeira. Uma pena que espalhar carpete por toda a casa não era algo elegante.
— Sim? – Atendeu o interfone com certa curiosidade. Poderia ser Saori de partida com o novo namorado.
— Sr. Sivan, o seu pai está aqui na recepção.
Por alguns segundos, Camus não soube como reagir. A realidade e o controle começavam a escapar por entre seus dedos fechados como grãos de areia. Seus pulmões se esqueceram de sua função.
— Sr. Sivan?
— Desculpe-me, mande-o subir. – Sua voz saiu alterada e seu corpo tremia levemente.
Ao desligar o interfone, Camus andou até a porta e apoiou as costas na madeira grossa. Raul não poderia entrar, o que ele estava pensando?
— Camus, está tudo bem? – E então Milo apareceu, sem camisa, descalço e com uma calça de moletom surrada.
— Milo... – Sussurrou, aturdido.
— O que foi? – O grego fez menção de avançar, mas foi impedido pelo ruivo.
— Vá se trocar, meu pai está subindo. – Espalmou a mão na testa, colocando os pensamentos em ordem. A primeira coisa que deveria fazer é tirar a camiseta velha e o short de treino, não estava apresentável para receber visitas assim.
Seja rápido, o tempo está passando!
Pelos deuses, o que ele deveria fazer? Seu pai, seu pai estava bem ali! Milo também estava bem ali, ele sempre estaria.
Com um suspirou, Camus percebeu que finalmente conseguia ir para o quarto se trocar, contudo, duas batidas leves puderam ser ouvidas através da porta de madeira. Era tarde demais.
Virou-se, respirando fundo com a mão na maçaneta. Girou e puxou, vendo o homem ruivo no corredor, o semblante sério e inconfundível.
— Seja bem-vindo, pai.
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