Um estrangeiro em Paris
27 Memórias de Paris
Notas iniciais
— Com licença, professor. Eu poderia entrar? – Camus foi tirado de seus devaneios pelo ser parado no batente da porta. Um francês horrível, tinha que admitir. Ouviu risadas fracas da turma. Balançou levemente a cabeça de modo a afastar aqueles pensamentos estranhos. Retomou a postura sóbria antes de responder.
— Tem permissão dessa vez, Senhor Halkias. – Milo se surpreendeu com o tom de voz firme do homem a sua frente pronunciando seu nome.
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— Não comece. – Milo encarou os olhos azuis claros do francês, levantando o indicador na direção deles – Já disse, não quero atrapalhá-los. Morando aqui, consigo pagar o aluguel apenas com a bolsa permanência que a universidade me cede e ainda me sobra dinheiro para outras coisas que quero fazer. Você não vê? É perfeito, Camus!
Não, ele não via.
— Mas a que custo? – O ruivo abriu as mãos, as palmas viradas para cima enquanto o encarava – Você terá que pagar condução para chegar até a Sorbonne, andará por essas ruas perigosas todos os dias, pode ser assaltado dentro e fora de casa! – Apontou na direção da sala, indicando a janela com o vidro quebrado.
— Por que está tão preocupado comigo, Camus? – Milo indagou, substituindo a expressão de confronto por curiosidade.
O ruivo cogitou antes de responder. Qual seria mesmo o motivo?
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— Seu cabelo está rebelde hoje. Se fosse cacheado você se pareceria com a Merisa. – Milo apoiou o cotovelo no balcão, virando o corpo de modo a ficar frente a frente com Camus.
— Merida. – O francês corrigiu enquanto penteava o cabelo com os dedos longos.
— O que disse? – Perguntou, sem entender.
— O nome correto da princesa do filme Valente é Merida. – Achou graça, mas não demonstrou.
— Como você sabe disso? – O grego fez uma expressão de incredulidade.
— Para o mal não há limites. – Respondeu simplesmente.
— Sério Camus, como você sabe disso? – Segurava o bíceps do professor, sacudindo-o levemente.
Camus olhou para a mão em seu braço, depois para Milo. Viu o grego perceber esse gesto e soltá-lo imediatamente. Porém, ao contrário do esperado, não estava irritado. Estava... curioso? Um simples toque havia sido capaz de apagar instantaneamente seus pensamentos, levando-os para onde não conseguia alcançar.
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— Só estou atraído. – Estava irritadiço – Eu já sei que ele é meu aluno, já sei que a universidade proíbe, já sei que me envolver com ele é burrice... já sei disso tudo.
— Mas eu não iria dizer isso. – Respondeu o italiano, puxando preguiçosamente os próprios fios claros para cima, espetando-os mais.
Camus voltou a olhar na direção do casal, ainda na defensiva.
— Iria dizer que ninguém tem a autoridade de escolher quem você deve ou não gostar, nem mesmo a universidade. – Afrodite levantou o rosto. Carlo fitou os olhos azuis claros do sueco, sorrindo antes de continuar – O amor não costuma vir regularmente. Além do mais, ele não cogita conveniência. Não perca essa chance, Camus.
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— Estou brincando. – Disse o grego ao se recompor – Só queria saber mais sobre você e tive que tomar um caminho mais longo e descontraído para você não fugir do assunto.
— Eu não fujo do assunto. Já te contei até sobre minha família. Quem fala pouco sobre si mesmo aqui é você.
— Mas eu falei o dia inteiro! – Rebateu Milo.
— Superficialmente. – Volveu irredutível.
— Tudo bem, o que quer saber?
Tudo.
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Já no fim da tarde, Milo informou que havia combinado de jantar na casa dos gêmeos, precisando interromper os estudos mais cedo.
Enquanto observava o aluno guardar seus materiais, Camus tentou uma aproximação sutil que acalmasse seus próprios sentimentos. Não havia passado tempo suficiente com ele durante o dia para saciar o que quer que estivesse sentindo.
— Posso te deixar lá, é caminho.
Mentira.
— Seria ótimo, obrigado!
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— Ah, Milo! – Chamou a atenção do outro, impedindo que este desligasse.
— Sim?
— Pode me ligar quando quiser. Sabe... pra qualquer coisa. – Cobriu os próprios olhos com a mão livre, sentindo vergonha de si mesmo.
— Bom, só te digo uma coisa: agora você está ferrado, vou te importunar pra sempre!
Camus sorriu.
— Mas então, – Milo continuou – o que está cozinhando?
E conversaram por horas a fio. Agora nenhum dos dois estava sozinho mais.
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— Não. – Estava sendo propositalmente insolente. Se divertia em tirar o francês do sério – Me obrigue. – Olhou desafiador, sorrindo de canto.
Camus fechou o cenho e levantou-se obstinado. Milo apenas observava.
Deu a volta na mesa, posicionou-se atrás do grego e segurou em ambos os lados do encosto da cadeira. Puxou o móvel bruscamente para trás, fazendo com que o loiro se sobressaltasse, assustado, agarrando as laterais do assento. Milo era pesado, mas Camus era forte o suficiente para carrega-lo.
O mais novo gargalhou alto ao sentir o professor inclinar a cadeira para derrubá-lo.
Devido a tanto barulho, uma bibliotecária baixinha e irritada surgiu entre as estantes, pisando firme, pronta para repreender os desordeiros.
— Silêncio, rapazes! – Disse a senhora de face enrugada.
A cena foi paralisada: Camus inclinando a cadeira, Milo esforçando-se para se manter sentado e ambos olhando para ela de modo assombrado.
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Uma hora depois, Milo sentiu Camus se mexer e virou-se para olhá-lo. O professor dormia profundamente com os lábios entreabertos, óculos tortos e um braço sobre na testa, amassando a franja.
— Eu poderia beijar você agora. – Sussurrou baixo, sorrindo – Seria bastante satisfatório, professor Sivan.
Porém, Camus era diferente. Faria tudo certo dessa vez.
Aproximou-se do ruivo adormecido para sentir o aroma que emanava dele. Não resistindo, inclinou-se para beijar a palma da mão aberta.
— Boa noite, Camus. Obrigado. – Desligou a TV e encostou a porta ao sair.
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Odiava festas.
Odiava mesmo.
Mas queria ir.
Queria ir aonde quer que Milo estivesse.
Rosnou, socando a parede novamente. Sentiu as costas de sua mão queimar ao entrar em contato com a água.
Pensou em seu pai. Como o odiava por escravizá-lo. Como se odiava por se importar.
Levantou a cabeça, mirando os buracos do chuveiro por uma fração de segundo, até ser obrigado a fechar os olhos. Pensou na mochila novamente.
Terminou o banho, se vestiu e foi preparar o jantar. Passou pela sala olhando de soslaio para a mochila. Conseguiu ignorá-la, não sem certo esforço.
Colocou o avental, decidido a preparar sua comida. Olhava para trás de vez em quando, vendo-a lá, parada, esperando.
Desistiu, desligando o fogão e apoiando as mãos em suas bordas. Abaixou o tronco, respirando fundo e rosnando baixo.
— Puta que pariu! – Gritou, arrancando o avental de si com brutalidade.
Andou pesadamente até a mochila e retirou a blusa que Milo havia usado para dormir. Amassou a vestimenta rudemente entre seus dedos e a levou ao nariz, aspirando profundamente.
Sentou-se no chão, apoiando as costas no sofá com as pernas flexionadas e apertas. Aspirou ainda mais o cheiro amadeirado que emanava da peça. Retirou com grosseria a camisa que havia vestido há pouco tempo, jogando-a longe e vestindo a blusa amassada do grego no lugar.
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Milo esperava. A sorte havia sido lançada. Camus ainda mantinha o toque no abdome forte. Se apoiou com a mão livre espalmada na parede ao lado da cabeça do grego. Com a outra, subiu rudemente pelo torso esculpido há anos de nado até alcançar a nuca. Puxou os fios loiros para baixo de modo a inclinar a cabeça do aluno.
Se aproximou como um felino, tocando o pescoço a sua frente com lábios hesitantes. Correu a ponta do nariz pelo maxilar do grego, do queixo a orelha, suspirando. Fez com que Milo o encarasse e mirou profundamente os olhos azuis que tanto aparecia em seus sonhos.
— O que eu faço com você? – Sussurrou rouco, suplicante, sensual.
O grego o fitava com olhos nublados e Camus sabia que, apesar de muito desejo ali, havia um misto de inconsciência. Não era Milo e sim apenas uma fração deste. Camus não o queria pela metade.
Afundou o rosto na curva do pescoço do aluno, apertando-o contra si sem se importar com suas roupas cada vez mais molhadas. Mantinha uma expressão frustrada e triste.
— Não posso, Milo. Eu não sou esse tipo de pessoa. – Soltou as mechas de cabelo loiro, se afastando. Fez um carinho na face bronzeada e fechou o chuveiro – Vamos sair, você precisa se deitar.
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Apenas um segundo. Milo sorriu bobamente por um segundo. No outro já recuperava o espirito vingativo. Jogou toda a água contida no balde em cima do mais velho, sem piedade.
Camus soltou um grito rouco de surpresa e frio. Os olhos azuis claros se abriram descomunalmente.
Quando se levantou, pequenas gotas pingavam de seus cílios alaranjados. As sobrancelhas de mesma cor se uniram e os lábios delicados formavam uma linha rígida, começando a adquirir um tom azulado.
Milo admirou o corpo sob as roupas coladas, mas pouco durou. Ao subir o olhar para o rosto do professor, deu um passo para trás. O francês nada disse, apenas deu um passo para frente, o corpo teso.
— Camus... – Começou a andar para trás sem tirar os olhos dos orbes sinistros.
Ainda em silêncio, o francês correu e o abraçou pela cintura.
— CAMUS! – Milo gemeu alto em meio ao toque frio, sentindo sua cintura ser prensada com força e suas pernas serem suspensas por alguns instantes. Apoiou-se momentaneamente sobre os braços fortes do mais velho, sem conseguir ver o sorriso cruel que este esboçou.
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— Milo, venha me ajudar! – Kanon gritou da popa, chamando a atenção do caçula.
Milo sorriu e começou a caminhar de costas, sem conseguir desviar o olhar do professor. As mechas aloiradas dançavam ao sabor do vento em uma moldura que Camus sabia que jamais se esqueceria.
— Camus! – Falou mais alto, rindo em seguida – Eu gosto de você!
O grego se virou em direção ao barco, imerso em gargalhadas alegres, deixando um atordoado francês para trás.
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— Eu não ligo de estar na França. Não tenho um objetivo definido como o seu, posso ficar aqui e... ver o que acontece. – Olhou para o colchão. O que estava acontecendo consigo? Não estava conseguindo ser direto.
— Você tinha um objetivo ao chegar, não tinha?
— Sim. – Voltou a encarar os olhos do ruivo – Era conhecer você. Tudo bem que haviam outros planos, mas isso não importa. Nenhum deles é mais importante do que ficar aqui. Planos são mutáveis.
— Os meus não. – Disse firme, surpreendendo o grego – Eu sinto muito, Milo, mas meus planos não são mutáveis. Eu mirei a Sorbonne durante muito tempo e me esforcei muito para chegar onde estou. Não vou abrir mão disso. – Viu a surpresa nos olhos do mais jovem e completou – Por nada.
— Entendi. – Pestanejou algumas vezes até conseguir diluir a surpresa e o sentimento de recusa. Então isso era gostar de alguém e não ser correspondido?
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— Então por que não me explica?
Camus encarou aqueles olhos brilhantes antes de prosseguir. Talvez conversar lhe fizesse bem, afinal, nem Afrodite sabia sobre seus dias na França. Ele nunca teve com quem se abrir.
— Meu pai sempre esperou muito de mim. Eu sou seu único filho e ele tinha muitas expectativas. Só que no fim eu não cumpri nenhuma.
— Camus, você é um profissional incrível! Como pode dizer uma coisa dessas?
— Meu pai é dono de uma empresa de engenharia, Milo. Ele não tem sucessor. Desde pequeno eu o ouvi dizer sobre eu ser a única pessoa que ele tem, que se eu não retornasse nas próximas férias ele ficaria sozinho, que tudo o que ele fazia era para o meu bem...
— Você era apenas uma criança, Camus, você não precisa mais passar por isso.
— Mas agora nós estamos em paz! Minha mãe me convenceu a estudar o que eu queria e meu pai simplesmente passou a me odiar. Foi muito custoso para mim retomar os laços e agora está tudo indo tão bem... – Correu os dedos pelos fios ruivos nervosamente – Ser professor da Universidade de Paris para um homem tão nacionalista foi o equilíbrio que eu consegui atingir para que nós dois estivéssemos satisfeitos na medida do possível.
— Sabe, Camus, você não deve se diminuir para caber no mundo de alguém.
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Ambos se analisaram em silêncio. A melodia folk que tocava baixo no recinto pareceu se extinguir, assim como o barulho da chuva. A iluminação parca do local pouco importava. Azul escuro mirava azul claro. Mais uma vez o grego foi o detentor da iniciativa, diminuindo a ínfima distância que os separavam. Milo roçou a ponta de seu nariz sobre as sardas delicadas do outro, as respirações dançando em uma doce permuta.
Quando, enfim, o loiro se inclinou, de forma a encaixar os lábios com perfeição sobre os de Camus, o professor se esquivou levemente.
Entretanto, Milo não estava disposto a ignorar o que quase havia acontecido.
— Por que? – Sussurrou. Pela proximidade não havia a necessidade de falar mais alto.
Não veio resposta dos lábios hesitantes do francês.
— É por que sou homem?
Dessa vez uma negativa pôde ser vista.
— Não, Milo, você é meu aluno. Não podemos...
— Sabe o que é engraçado, Camus? – O grego riu enquanto se afastava e viu o outro mirá-lo confuso.
— O quê?
— A sua resposta nunca me importou – sorriu confiante, olhando o professor com insolência – eu lhe beijaria de qualquer maneira.
E assim o fez.
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Você me ama?
Milo desejou ardentemente exteriorizar aquela pergunta, mas sabia que não poderia.
— Eu aceito com uma condição. – Sentiu o coração bater descompassadamente. Camus cederia?
— Qual?
— Nós nos gostamos, passamos um tempo incontável juntos, compartilhamos praticamente tudo um com o outro e eu fico metade das minhas semanas na sua casa. Isso é um relacionamento, certo?
Camus mirou no fundo dos orbes azuis do grego. Todos aguardavam aquela resposta.
— Sim, é um relacionamento.
— Então posso dizer para os convidados da minha festa que ela foi dada de presente pelo meu namorado? – Sorriu lindamente.
Camus corou, mas sorriu timidamente de volta. Estava confiante.
— Se elas não forem nos denunciar para a diretoria da Sorbonne, sim, você pode. – Tentou manter a seriedade.
— Então é oficial, estamos namorando?! – Quase gritou de animação, levantando o corpo com uma flexão dos braços musculosos, pairando o rosto acima do de Camus.
— Sim, estamos namorando. – Corou ainda mais, se é que era possível.
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— Esta é a chave do apartamento. – Disse pausadamente – Você quer morar comigo, Milo? Você me daria a honra de fazer parte dos seus dias e das suas noites? – Disse com a voz grave.
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— Seja bem-vindo, pai.
Raul deu um passo em direção ao homem a sua frente, mirando-o dos pés à cabeça.
— Bom ver você, Camus. – Segurou a face do filho com a mão livre, olhando para os traços jovens e sérios – O trabalho de orientador te fez bem, está mais parecido com um adulto.
— Obrigado. – Disse automaticamente, dando espaço para o mais velho cruzar a porta.
E assim Raul o fez. Entrou calmamente com sua maleta de viagem e virou-se para o filho que fechava a porta pesada. Possuía apenas alguns centímetros a menos que Camus, contudo compartilhava a pele alva como a neve e os fios avermelhados, porém curtos de modo que pareciam espetados de tão lisos. Apenas os olhos eram distintos, os do mais velho eram castanhos e os de Camus azuis como o gelo.
No quarto do casal, Milo estava nervoso e consideravelmente aflito. Eles não haviam ensaiado um momento como este e ele daria qualquer coisa para saber o que atravessava os pensamentos do amante. Ele deveria se juntar a Camus e mostrar seu apoio, ser o pilar que o ruivo precisava. Estava na hora.
Vestiu uma calça de moletom nova e uma camisa recém passada. Ouvia vozes graves e semelhantes vindas da sala, mordendo o lábio inferior em expectativa. Afinal, Raul era só um homem. Eles eram dois. O que poderia dar errado?
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— Mas me diga, como estão as coisas na Sorbonne? Acho que já deu para ter uma ideia de como é a carreira de um professor agora que orientou um aluno, não é mesmo?
Camus não conseguiu se afastar da porta. Ele sabia que era preciso se mover, mas seu corpo não processava as informações corretamente. Onde estaria Milo?
— Sim, pai, é uma sensação bastante satisfatória. – Apesar de nervoso, o ruivo falava com frieza. Ao terminar sua sentença, viu o homem que havia virado sua vida de cabeça para baixo surgir, havia chegado o momento – Inclusive, aquele é meu aluno, Milo Halkias.
E lá estava ele. Apesar do sorriso confiante, Camus podia sentir a tensão. Ele sabia que o grego estava submerso em expectativas. Ele sabia que agora havia chegado a sua vez de agir. Ele só queria abraçá-lo e fugir dali.
Raul se virou bruscamente, vendo o homem alto e loiro estender a mão para cumprimentá-lo.
— Olá, muito prazer, Sr. Sivan. – Milo se esforçou para parecer educado, por mais que odiasse o homem sem ao menos conhecê-lo. Além disso, ele não fazia questão alguma de mudar esse fato.
— O prazer é todo meu, Sr. Halkias. – Apertou firmemente a mão que lhe foi oferecida, levantando uma sobrancelha exatamente como Camus fazia quando estava confuso ou desconfiado de algo – Ouvi coisas muito boas ao seu respeito.
— Fico feliz com isso. – Esboçou um pequeno sorriso. As coisas estavam indo bem, era só continuar assim. Milo soltou o ar dos pulmões e mirou o namorado. Raul parecia dizer a verdade e isso o incomodava. Não queria que ele gostasse de si. As semelhanças entre os dois também o incomodava. Que tipo de homem Camus seria se não tivesse passado uma infância abusiva com aquele homem? Ele iria sorrir mais? Ele teria mais confiança nos sentimentos dos outros? Ele iria dizer que o amava? Camus nunca havia dito que o amava.
— Meus amigos afirmaram que você é muito educado, inteligente e vem de uma ótima família.
Milo desviou os olhos de Camus apenas por tempo suficiente para responder ao seu interlocutor.
— Digo o mesmo sobre o seu filho. – Olhou para o namorado novamente e sorriu com carinho.
— Sim, Camus tem sua dose de inteligência, apenas não nasceu com o poder de tomar boas decisões na vida. – O senhor ruivo caminhou até sala, deixando a mala em um dos cantos. Retirou o sobretudo carvão e levantou novamente a sobrancelha, algo estava errado – Poderia me dar um copo d’água, meu filho?
— Claro. – Sem perder o tom blasé, Camus se direcionou à cozinha. Ele não tinha planos, era tarde demais. Mirou o grego antes de atravessar a porta, sentindo o tempo congelar por alguns segundos. Por todos os deuses do Olimpo, ele amava aquele homem mais que qualquer coisa no mundo.
— Mas, me diga, – Virou-se na direção do filho, caminhando em direção ao balcão que dividia os cômodos – isso são roupas apropriadas para receber um futuro e brilhante advogado em sua casa?
Camus sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Lá estava o julgamento, lá estavam as palavras hipnóticas que o humilhavam e o algemavam a um personagem. Lembrou-se de Afrodite. O irmão dizia que ele se esforçava para caber dentro da sombra que seu pai criara e isso era a verdade. Contudo, será que aquela sombra realmente não pertencia a si? Ele estava em paz com seu pai, ele havia conseguido se encaixar parcialmente sob a sombra.
Milo caminhou até a porta da cozinha, escorando-se no batente para se fazer presente. Camus tinha que vê-lo, tinha que saber que ele estava ali por ele.
— Depois de um semestre trabalhando juntos, não esperava me ver de gravata, não é mesmo, pai? – O ruivo respondeu em tom mais ameno. Não, ele não iria desrespeitar o pai gratuitamente.
— Não justifica o fato de você trajar roupas velhas e shorts curtos sendo o anfitrião. Mas eu entendo sua posição, respeito é algo que sua mãe ou aquele infeliz do Hillesheim deveriam ter insistido mais. Achei que você poderia ter mudado, mas pelo visto continua sendo o rebelde sem causa de sempre.
Camus abaixou a cabeça e apoiou as mãos na pia. Mirou o copo d’água, se perguntando o que deveria fazer para se afogar nele. Sob a água ele poderia gritar tudo o que queria sem ser ouvido por ninguém.
O grego podia sentir a tensão no ar. Nunca havia visto Camus tão submisso e isso o deixava ainda mais aflito. Na verdade, por mais que Afrodite expressasse claramente a relação do francês com o pai, Milo não conseguia imaginar seu namorado, sempre tão imponente, agir desse modo. Ele queria dar alguns passos a frente e passar seu braço protetoramente pelos ombros largos. Apenas isso. Mas, naquele momento, o próximo passo não era seu. Ele deveria aguardar e isso o corroía por dentro. Seus olhos arderam em expectativa.
“Mova-se, Camus!”
— Além disso, – Raul continuou – até onde eu sei a apresentação de vocês foi ontem... Inclusive, Sr. Halkias, eu gostaria de parabenizá-lo. Ouvi dizer que foi um sucesso.
Milo acenou a cabeça sem desviar o olhar dos longos fios ruivos. Raul sabia de tudo. Ele acompanhava a vida do filho de perto, jamais estando ausente. Fechou seus pulmões, prendendo a respiração. Havia chegado o momento.
— Dessa maneira, o que vocês estão fazendo hoje? – Raul indagou.
Camus se virou calmamente, mirando os olhos do grego com uma profundidade dolorosa. Ele se sentia tão pequeno, tão insignificante.
“Mova-se, Camus!”
— Bom... – Camus sentiu seus dedos longos vibrarem e voltou a apoiá-los sobre a bancada.
Eu amo tanto você.
— Eu e o Milo ficamos bastante amigos durante o semestre... – Não conseguia desviar seu olhar dos orbes cor de mar.
— Amigos? – Raul voltou a levar a sobrancelha.
Um silêncio desconfortável invadiu o ambiente, rodeando a todos com suas garras pontudas. Apesar de vulnerável, Camus parou de tremer. Ele não o merecia. Ele sempre soube o que iria fazer, ele não o merecia. Milo, por sua vez, não conseguiu soltar o ar que ardia em seus pulmões. A decisão havia sido tomada e ele morreria para saber qual era.
Me perdoe.
Desviando o olhar para o pai, Camus completou.
— Sim, nos tornamos bastante amigos. Inclusive nos encontramos hoje para discutir assuntos relativos ao mestrado.
Parecendo satisfeito, Raul se virou para o grego.
— Meus parabéns! É realmente incomum encontrar alunos que terminam o bacharelado e já partem para o mestrado.
O ardor em seus pulmões cessou, subindo para os olhos tristes. O que era esse sentimento que reinava em seu coração? Paris era uma cidade especial. Havia lhe ensinado o que era desejar algo com todas as forças possíveis, havia lhe ensinado o que era amar, havia lhe ensinado a ser paciente e colocar a necessidade do outro acima das suas próprias. Dessa vez, na etapa final de sua viagem, Paris não o surpreenderia. Havia finalmente aprendido o que era a decepção.
Aquilo não era nada, verdadeiramente nada. Milo poderia continuar com sua vida. Poderia continuar amando Camus e mantendo o relacionamento que até então havia sido suficiente.
Mas, de repente, não era mais o bastante.
Ele queria mais, ele queria ser amado, ele queria saber que era amado. E Camus não o proporcionaria isso. Camus nunca o proporcionaria isso. Ficar longe do francês doía como o inferno, mas não ter a certeza de que tudo valia a pena doía mais.
Milo sustentou o olhar decepcionado, Camus o havia negado. Ele não era suficiente para Camus. Ambos eram insuficientes.
O grego buscou as horas no relógio sobre o fogão com tranquilidade. Ele havia amadurecido e sabia o que deveria fazer. E não por Camus, mas por si. Ele deveria se amar antes de amar alguém, antes de amar Camus.
— Bom, vejam as horas. Acho melhor eu ir, assim você pode acomodar melhor o seu pai. Ele deve estar cansado da viagem. – Viu o ruivo a sua frente abrir a boca em desespero, mas nenhum som sair.
— Não se preocupe, eu irei dormir em um hotel. Tenho que resolver algumas coisas a respeito da minha mudança de volta à Paris. – Raul disse, apesar de nenhum dos dois ouvintes se importar.
Deixando os dois franceses para trás, Milo rumou em direção ao quarto que até alguns minutos atrás ainda era seu. Camus fez menção de segui-lo, mas foi interpelado pelo pai.
— E aquele Afrodite, conseguiu mesmo fazer nome em Londres, não é mesmo?
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Milo buscou pela mala que havia trazido da Grécia. Era grande o suficiente para caber quase todas as suas coisas. Guardou todas as roupas que encontrou pela frente e alguns pares de tênis. Tirou a calça de moletom, colocando um dos jeans escuros e seu coturno. Buscou por sua touca e cachecol, desistindo das luvas de couro que o francês havia lhe dado. Vestindo um sobretudo por cima de tudo, Milo saiu apressado, não dando chance para possíveis questionamentos.
Viu o professor mirá-lo com surpresa e desespero. Camus simplesmente não acreditava no que via.
— Camus, estou levando os livros que você me emprestou, sim? – Bateu na mala sem se preocupar em sua história ser crível ou não – Depois eu volto para terminarmos de falar sobre o mestrado.
— Milo, para onde você vai? – Ao terminar de pronunciar tais palavras, Camus sabia que seriam as últimas. Ele gostaria de ter dito mais, gostaria de ter feito mais. Mas ele era o que havia sido criado para ser. Ele não o merecia.
— Para casa. – Deu de ombros – Até mais, Camus. – Olhou profundamente nos olhos claros antes de partir. Havia acabado.
Quando a porta do apartamento se fechou, o ruivo não sabia o que fazer. Queria correr pelo caminho feito pelo aluno, queria dizer que o amava, queria pedir para que ele ficasse. Mas Camus não faria isso. Com sorte ele conseguiria se desculpar antes de Milo retornar à Grécia.
Foi chamado pelo pai enquanto as garras do silêncio o envolviam novamente. Ele estava fadado eternamente à solidão naquele apartamento e não deixaria que mais ninguém se aproximasse.
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— Quem será há uma hora dessas?
— Sua vez de atender. – Saga disse sem levantar o olhar do livro que lia no sofá. Kanon lhe atirou uma almofada antes de ir até o interfone.
— Diga, André.
— Senhor Halkias, seu irmão está aqui.
— Milo? – Franziu o cenho – Mande-o entrar!
— Sim, senhor.
Kanon se virou para Saga com uma expressão preocupada.
— O que será que houve? – O mais velho dos gêmeos fechou o livro, sentando-se corretamente.
— André não anunciou o Camus.
— E ele está vindo sem avisar. – Completou.
Ao ouvir o som de passos no corredor, os gêmeos desviaram o olhar para a porta ao mesmo tempo.
Milo entrou ensopado. Estava claramente perturbado e seus olhos sustentavam um vermelho vivo.
— O que houve? – Saga guiou o mais novo até um dos bancos de alumínio do balcão. Pesadas gotas de água pingavam das roupas de Milo no chão claro. A chuva castigava Paris, selando o dia que Milo teimaria em esquecer.
— Acabou, meninos. – Respirava fundo, contendo o choro com uma força estrondosa.
— Eu sinto muito. – Saga se sentou em frente ao caçula, sentindo o sofrimento do irmão como se fosse seu.
— Não, – A primeira lágrima escorregou dos olhos cor de mar, trilhando um caminho de fogo por onde passava. – está tudo bem. – Afastou a lágrima solitária bruscamente com as costas da mão, mas era tarde demais: uma efusão de lágrimas correu pela face dourada.
— Milo... – Kanon se aproximou e envolveu o irmão em abraço protetor.
Os gêmeos se entreolharam, assustados. Aquele seria mesmo o caçula dos três? Aquela criança louca que sempre fazia o que queria e nunca se deixava afetar?
— N-não é recíp-proco... – Sussurrou baixinho entre soluços – Ele n-não me ama... – E chorou mais. Pranteou como jamais havia feito. Seu peito doía e seu coração batia forte. Era possível aguentar toda essa dor?
— Oh, Milo... – Saga se levantou, juntando-se ao abraço. Por Athena, como era péssimo vê-lo chorar!
— Você quer conversar sobre o que aconteceu? – Kanon interviu quando os soluços diminuíram.
— Ele nunca me levou a sério. Eu era só o carinha que ele gostou, mas que não abriria mão de nada pra manter. – Retomou o choro.
Os gêmeos iriam consolá-lo o quanto fosse preciso. De certa forma, Milo estava certo.
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Após tomar um banho quente e se alimentar, Milo conversou um pouco mais com os irmãos mais velhos. Dividiram a enorme cama de casal e os gêmeos se mostraram atenciosos e gentis. Quando decidiu tomar uma aspirina para aliviar a dor de cabeça provocada pelo choro, o caçula aproveitou para se retirar. O sofá já estava pronto e aconchegante.
Seu celular, parcialmente seco por Kanon, havia sido depositado sobre o móvel colado a parede que sustentava a televisão. O caçula o viu vibrar, sinalizando que ainda estava vivo. Andou devagar, prevendo o nome que estaria na tela. E lá estava ele: Camus.
Finalizou a chamada, verificando que o francês havia feito treze ligações antes dessa. Pensou em desligar o aparelho, mas teve uma ideia. Precisava falar com alguém.
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Por volta das 23h o interfone tocou novamente. Kanon se levantou para atender, vendo Milo já desperto no sofá. André anunciou que Camus Sivan gostaria de falar com o caçula dos três. Os dois irmãos se entreolharam, mas antes que qualquer coisa pudesse ser pronunciada, Saga surgiu no cômodo enquanto terminava de vestir um longo sobretudo preto.
— Não me esperem. – Disse sério, buscando pelas chaves.
— Saga, o que vai fazer? – Milo preocupou-se.
— Vou apenas conversar, tudo bem? – Vendo indecisão nos olhos do mais novo, decidiu questioná-lo – Você quer ir no meu lugar?
Sem hesitar, Milo acenou lentamente com a cabeça. Não queria ver Camus nunca mais, disso tinha certeza.
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O mais velho dos Halkias apareceu no hall da edificação, vendo o francês andar de um lado para o outro.
— Saga! – Disse em desespero ao ver o homem sério a sua frente.
— Olá, Camus, boa noite.
— Eu posso falar com o Milo?
— Ele não quer falar com você.
Camus abaixou a cabeça. Ele não conseguiria pedir desculpas antes da partida do grego. Milo não queria mais nada de si.
— Mas eu quero. – Continuou Saga – Gostaria de ir tomar um café comigo?
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Saga pediu dois cafés e o garçom se retirou em seguida. O loiro olhou para o homem desolado a sua frente. Esperava que ele sofresse.
— Então, Camus, – Teve a atenção do francês depositada completamente em si – meu irmão não quer te ver. Nunca mais. – Retirou a caixa de cigarros do bolso, brincando sobre a superfície da mesa.
— Eu gostaria de pedir desculpas a ele. – Pediu humildemente.
— O problema é que o Milo não está bravo somente com o que aconteceu hoje. – Desviou o olhar para a caixa – É claro que hoje foi a gota d’água para o meu irmão, – Mirou o francês novamente – mas o fato é que ele já tinha algumas reclamações.
Sem ter resposta, continuou.
— Quando eu e o Kanon recebemos o Milo hoje ele mal tinha condições de falar, Camus. Seria melhor para todos nós e até mesmo para você que vocês não se falassem mais.
Camus se manteve em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras rechaçarem seu peito.
— Ele disse que os sentimentos de vocês dois não são iguais. – Saga continuou, jogando os enormes fios loiros para trás. Estava todo de preto, o cabelo formando uma juba gigantesca, deixando-o intimidador, selvagem.
— Bom, foi assim no começo, mas agora é diferente. – Diferente como? Por que ele insistia em dizer algo? Não havia nada a ser dito.
— Camus, posso te dizer o que eu penso?
O ruivo assentiu.
— Eu penso que meu irmão tem razão. Que é óbvio que no começo vocês dois não se levavam a sério, afinal meu irmão sempre foi um galanteador nato. Porém, eu sou prova de que o Milo começou a gostar verdadeiramente de você. E isso foi logo no início. Ele cresceu, Camus, ele mudou e ele se moldou ao que você precisava, ao que você permitia. O que você fez por esse relacionamento, Camus?
O francês sentiu que começaria a chorar se falasse algo, então preferiu o silêncio.
— Você é tão frio e centrado... – Bateu levemente na mesa com a mão, como se indicasse uma direção – Chega até a assustar. E o meu irmão não é assim. O Milo pula de cabeça nas coisas e eu nunca, nunca o vi gostar tanto de alguém. – Fez uma pausa antes de prosseguir – Mas você não correspondeu! Eu entendo que assumir um relacionamento na Sorbonne é completamente irresponsável da parte dele, de jogar tudo para o alto desse jeito. Essa maturidade eu gostei de ver da sua parte. – Apontou para o francês.
Camus olhou para seus dedos longos sobre a mesa. Eles voltavam a tremer.
— Porém, você não o manteve como prioridade. – A voz grave de Saga se calou quando os pedidos chegaram. O mais velho dos Halkias continuou após a retirada do garçom – Ficou claro que meu irmão sempre teria que se adaptar ao que você escolhesse. Relacionamentos não funcionam assim, Camus.
O ruivo engoliu tudo o que ele gostaria de dizer. Era sempre assim, ele era covarde demais para dizer algo. Assentiu novamente para Saga. Por mais que negasse a si mesmo, não estava fazendo bem ao grego. Amava Milo, mas não conseguia colocá-lo acima de seus planos de vida. O grego estava neles, mas não era a prioridade. Tinha que deixá-lo ir.
— Bom, eu gostaria de pedir desculpas ao seu irmão. Peço que o faça por mim.
— Assim o farei.
— Eu devo vê-lo novamente no dia da minha prova final e na formatura, mas prometo que não irei incomodá-lo.
— Obrigado. Irei transmitir o pedido de desculpas.
— Eu que agradeço. – Camus se levantou, retirando uma nota da carteira e deixando-a sobre a mesa – Foi um prazer, Saga.
Olhando para cima, o grego assentiu.
Camus sentiu os olhos muito claros umedecerem ao sair porta a fora. Andou tranquilamente sob a chuva, com a sensação de ser envolvido por milhões de braços, impedindo-o de respirar. A velha sensação que não o visitava desde a infância, as crises de ansiedade retornavam. Quem ele pensava que era para conseguir viver sem Milo? Sem a presença, o sorriso, a alegria contagiante? Ele não era nada. Ele não era nada sem o grego.
Ele não era ninguém, nunca havia sido.
Milo não estava mais ao seu alcance, ele o havia feito sofrer, o havia ferido. Sentou-se ensopado no banco de couro do Cadillac, apertando o volante sob os dedos alvos. Uma gota deslizou pelo nariz fino e afilado, os cílios alaranjados pestanejaram, afastando a queimação que vinha dos olhos claros. Ele não deixaria que mais ninguém entrasse em sua vida. Ele havia sido um inconsequente ao dar esperanças para o aluno, ao amar o aluno. Ele sabia que jamais conseguiria se impor, ser o homem que o pai tanto desejava. Ele não era capaz de agradar ninguém. Tinha que seguir em frente e, principalmente, tinha que deixar Milo seguir em frente.
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