Um estrangeiro em Paris
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Notas iniciais
Ainda era madrugada em Paris.
Um grego e um francês repousavam tranquilamente na enorme cama. Um deles enrolado entre as cobertas que lhe subiam até o pescoço e o outro com o corpo exposto, fugindo do calor que emanava do lado esquerdo da cama.
O despertador tocou, estridente, sendo desligado em seguida por Camus. Este se sentou cambaleante, checou as horas, olhou para o aluno encolhido ao seu lado e não resistiu, tocando um tufo de cachos aloirados que escapava da montanha de tecidos. Não conteve um sorriso tímido antes de se levantar.
Andou até a porta da varanda, afastando parte da cortina com o indicador. Vendo que a chuva havia parado, buscou no guarda roupa seu moletom para exercícios físicos e o iPod.
Iria sair de casa sem levar o celular, duvidava que Milo acordaria. Deu uma última olhada no apartamento antes de fechar a porta atrás de si.
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Corria entre as árvores da margem do Sena, sob o céu cinza e carregado. A respiração condensava ao abandonar seus lábios, formando vórtices de vapor d’água. Apesar de estar com os fones de ouvido, não havia ligado o iPod. Ouvia seus próprios passos enquanto pensava em Milo.
O que estava fazendo? Havia um de seus alunos deitado em sua cama naquele momento. Um aluno nu. Pelos deuses, ele seria processado.
O pior de tudo era saber que o que havia acontecido na noite passada era apenas uma consequência do que ele sentia há tempos. O sexo não era relevante, mas sim a aceitação da intimidade, do toque, de seus sentimentos.
Camus tinha medo que tudo desmoronasse. Na mesma proporção em que ele temia que a carreira do grego ruísse antes mesmo de começar, ele também temia que tudo funcionasse e Milo o deixaria no final do semestre para retornar à Grécia.
Viu um barco gigante rasgar as águas do Sena e decidiu acompanhá-lo, aumentando o ritmo da corrida. Fechou os olhos momentaneamente enquanto corria o mais rápido que seu corpo permitia, ouvindo seus passos agora eufóricos.
Milo.
Quando percebeu que estava ficando para trás, Camus parou, apoiando as mãos nos joelhos enquanto arfava. Seus olhos muito claros miraram o chão, ele não havia concluído nada.
Era preciso voltar.
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Entrou no apartamento com cuidado e conferiu se o grego continuava na mesma posição em que o havia deixado. Não viu aluno algum, apenas o monte fofo de edredons e concluiu que tudo estava como o esperado. Buscou o colchão de exercícios que ficava atrás de uma das estantes na biblioteca, assim como a caixa de halteres e terminou seus exercícios na sala, evitando fazer barulhos.
Após limpar e guardar os equipamentos com agilidade, retirou suas roupas no quarto – não sem certo constrangimento – e seguiu direto para um banho morno.
A pálpebras do grego só tremeram quando Camus já ajustava a gravata marrom escura.
— Bom dia, Aurora. – A voz grave retumbou no quarto até então silencioso.
O grego resmungou algo e virou-se de costas para o professor.
— O que foi, Cachinhos Dourados? – Andou até a cama e enfiou uma mão sobre o ninho de cobertores até encontrar o tornozelo do outro, fechando os dedos gelados como garras na pele quente. Ele adorava fazer aquilo.
— PORRA, CAMUS! – Milo pulou, sentando-se de imediato. O outro sorriu sadicamente enquanto se dirigia para a porta.
— Hora de levantar, – Parou no batente, olhando para a figura deplorável em sua cama – em breve minha mãe e companhia irão descer. Vou fazer o café e separei algumas roupas para você, estão na poltrona. – Apontou para a mobília clara.
— Obrigado. – Resmungou novamente, puxando mais o cobertor.
— Tenho uma dúvida, como você consegue domar isso, Mufasa? – Chacoalhou a mão aberta na direção do loiro, que lhe atirou um travesseiro.
Pegando o objeto no ar, Camus sorriu e o atirou em seu lado da cama.
— Remember who you are... — Correu antes que outra coisa lhe pudesse atingir.
Milo bufou. Que abusado, esse Camus. Domar os cachos não era tão simples quanto cuidar daquela coisa lambida, pensou.
Pegou o travesseiro que usara anteriormente de arma e o abraçou, sorrindo bobamente. Levantou-se num salto, era hora de impressionar a futura sogra.
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Os visitantes do andar de cima chegaram quando Camus terminava de assar o bolo de limão. O francês já havia picado algumas frutas, assado os pães, feito o suco e o café. Havia substituído o queijo francês pela iguaria grega que comprara no supermercado e tinha certeza que todos se agradariam.
— Bom dia, meu querido. – Natássia deu-lhe um beijo estalado no rosto antes de se sentar no balcão.
— Bom dia, mãe. Dormiu bem?
— Mas é claro, seu irmão é um ótimo anfitrião. – Disse altiva e orgulhosa – Eu só criei filhos esplendorosos!
Afrodite apenas acenara e seguiu pelos cômodos. Carlo ajudava na migração dos alimentos para a mesa de centro na sala.
Milo foi surpreendido enquanto amarrava os cadarços do tênis. Estava sentado na poltrona quando ouviu a voz do melhor amigo.
— E aí? – Perguntou sem rodeios.
— Oi, Dite. Tudo bem com você? – Levantou-se, sorrindo cinicamente – Você dormiu bem?
Recebeu em troca um leve empurrão.
— Me conta tudo, seu bastardo! – Não parecia estar brincando.
— Tudo bem, tudo bem. Eu dormi ali, ó. – Apontou para a cama, suspirando – Foi a melhor noite da minha vida, Dite.
— Pelos deuses, homem. Você está caidinho pelo meu irmão! – Sussurrou, sorrindo.
— Sabe, algumas coisas aconteceram...
— Mas já? – Fez uma expressão de supressa, colocando a mão sobre os lábios delicados.
— Em minha defesa a tensão sexual era grande desde o primeiro momento em que nos vimos.
— Você tem razão, vocês são um casal há muito tempo. Mas não me entenda mal, eu não tenho nada contra quem transa logo no começo, inclusive sou dessas, mas achei que meu irmão estaria mais inseguro quanto a isso. A autoestima dele é muito baixa... Pelo visto você tem melhorado isso também. – Sorriu com carinho. Milo era um presente enviado àquela família.
Camus bateu duas vezes com os nós dos dedos na porta aberta para se anunciar.
— O café está servido, madames.
Os loiros se entreolharam, cúmplices, antes de seguirem o francês até a sala.
— Depois conversamos mais. – Afrodite sussurrou e Milo assentiu disfarçadamente.
— Mãe, vai querer carona agora pela manhã? – O ruivo questionou antes de se sentar no carpete, sendo acompanhado pelo irmão e pelo aluno.
— Eu não dou aula no primeiro horário, posso ficar de motorista. – Propôs Carlo antes de enfiar um pãozinho na boca.
— Meu Deus, isso é fetta? – Milo gemeu deliciado ao provar o queijo grego.
Camus sorriu e acenou a cabeça.
— Na verdade, meus amores – Começou Natássia, olhando para o filho mais velho e para o genro – eu tenho muito o que fazer, então aluguei um carro.
— Eu posso levá-la até a locadora, então. – O italiano insistiu na gentileza.
— Seria ótimo, querido, muito obrigada.
Todos conversaram bastante durante o café. Natássia queixou-se da dificuldade de manter uma primeira bailarina com o ego do tamanho do talento na companhia de ballet, o que rendeu bons contos e boas risadas. Milo não conseguiu apenas admirar aquela família incomum, sendo forçado constantemente a participar de todos os assuntos.
— Bom, já está na hora de irmos. – Interpôs o francês ao olhar para o relógio em seu pulso. – Dite, quer carona?
— Já que o Mask vai ficar por conta da mamãe, quero sim.
— Pode deixar que eu arrumo essa bagunça, Camus.
— Muito obrigado, carcamano, eu serei eternamente grato. – Sentia o mais puro alívio. Detestava deixar sua casa desarrumada.
— Então voltarei lá para cima, ainda está muito cedo. O que acham de almoçarmos juntos no Chanson?
— Acho uma ótima ideia, mãe. – Camus beijou-lhe o topo da cabeça enquanto Afrodite e Carlo trocavam um beijo estalado.
— Já conhece o Chanson, Milo?
— Na verdade não, senhorita.
— É um lugar bastante romântico durante a noite, não posso crer que o Camus ainda não o levou lá.
— Mamãe! – O ruivo enrubesceu violentamente enquanto a empurrava em direção a porta.
Apesar de envergonhado, Milo não pode deixar de desenhar um sorriso em seu rosto. Estava pleno e feliz. Dificilmente alguém poderia estragar seu dia.
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Chegaram em cima da hora na Sorbonne. O grego estava radiante e mal se continha diante do silêncio de Camus. Alcançando o pátio interno, a dupla seguiu direto para a sala de aula. Quando os passos firmes ecoavam no último corredor a ser percorrido, Milo resolveu se pronunciar.
— O que seus alunos diriam se soubessem que eu estou usando uma cueca sua, hein, professor Sivan?
O francês corou imediatamente.
— Quieto, Milo. – Disse de modo seco, visivelmente constrangido.
O mais novo apenas riu.
Ambos pararam em frente a porta grossa de madeira. Com a presença de Camus, os grupinhos se desfizeram e seus integrantes entraram pela porta que o professor manteve aberta, como de costume.
Após todos se sentarem, deu início a aula.
— Bom dia, alunas e alunos. – Deixou sua mochila sobre a mesa, sentando-se em sua borda – Hoje irei fazer uma introdução e depois quero ouvir a opinião de vocês como advogados, não como seres humanos. – Sorriu de modo enigmático – Iremos conversar sobre o diálogo sobre gênero nas escolas.
Houve um enorme burburinho na sala, exatamente como o francês esperava. Sem conseguir desfazer o sorriso, Camus prosseguiu.
— Primeiramente, o que vocês pensam sobre uma escola que aborda esse tipo de diálogo com seus alunos? – Viu Milo contar algo a Marin e ambos sorrirem. Balançou levemente a cabeça, tentando não ter a atenção desviada novamente. Um aluno havia levantado a mão.
— Diga, Louis. – Teria que ignorar o grego ali dentro. Por mais que qualquer simples movimento do loiro capturasse sua atenção a todo momento, ele tinha que se concentrar.
— Eu acredito que esse tipo de diálogo possa ajudar as crianças a escolherem melhor sua sexualidade.
— Não, não é isso. – Camus negou com a cabeça – Em primeiro lugar ninguém escolhe sua sexualidade.
— Claro que escolhe. Caso contrário, por que falaríamos em opção sexual? – Rebateu Philippe, entrando na conversa.
— Mas nós não falamos em opção sexual. O correto é orientação sexual, não opção. E levante sua mão antes de entrar para o debate. Todos têm direito à voz na hora certa. – Camus rebateu pacientemente. Percebeu que o assunto era delicado e todos haviam parado de procrastinar para prestar atenção.
— Bom, Camus, você tem sua opinião, eu tenho a minha. – Deu de ombros.
— Para você é Professor Sivan, entendido? – Viu o aluno acenar positivamente com raiva – E eu não acredito em você, então poderia me provar? – Todos os alunos se indagaram. Milo mordeu o lábio sem conseguir prever o que seria feito.
— Como posso fazer isso? – Philippe perguntou impaciente.
— Vire gay por um segundo e venha aqui me dar um beijo.
A turma inteira se sobressaltou. Até mesmo o som de uma mosca poderia ser ouvido diante o silêncio incômodo que se instaurou. Ninguém acreditava no que estava acontecendo, em especial Milo, que sentiu uma necessidade avassaladora de fazer algo. Mas ele não poderia, ele não era o dono de Camus para clamar por algo.
— Como assim? Você está me chamando de viado? – Philippe se levantou, indignado. Bateu as mãos na mesa e encarou os olhos tranquilos do professor.
— Mas você não disse que é uma opção? Logo, as pessoas escolhem, não é mesmo? – O ruivo colocou o indicador longo sobre os lábios rosados, se fazendo de desentendido.
— Eu sou heterossexual! – Philippe começava a se alterar – Eu posso te processar por injúria e difamação por toda essa história de homossexualismo. – O moreno já estava vermelho de cólera e constrangimento.
— Então vamos resolver isso. Em primeiro lugar, “viado” não é ofensa. Ser homossexual não é ofensa e muito menos difamação. Assim como ser bissexual, transsexual, etc, também não é ofensa. Ofensa é pregar que isso é opção, ofensa é chamar de homossexualismo como se fosse uma doença, afinal o correto é homossexualidade. E, principalmente, ofensa é achar que preconceito é opinião, que falta de informação, vulgo ignorância, é opinião.
Todos se calaram, atentos. Camus continuou.
— Ninguém escolhe a própria sexualidade. Agora ser um idiota, sim, isso nós escolhemos.
Philippe sentou-se. Estava de saco cheio e sua paciência com Camus já não existia. Ele mesmo não assumia, mas não tinha condições de enfrentar o ruivo frente a frente, logo pediria a seus pais para organizarem a tão sonhada demissão do francês.
— Agora, voltando à nossa discussão, Louis, o diálogo sobre gênero se refere a dar liberdade para as crianças crescerem livres, fazendo o que gostam sem interferência da sociedade. Por falta de informação as pessoas pensam que se resume ao que foi argumentado aqui, sexualidade. Mas não é só isso. A discussão crua é que os gêneros são construções sociais, mas o objetivo maior é atingir o respeito e principalmente a liberdade. Que as pessoas não sejam limitadas a algo por seu sexo biológico, entende?
Louis maneou a cabeça, compreendendo.
Vendo Marin levantar a mão, Camus lhe acenou, dando o direito de fala.
— Mas o que você quis dizer quando especificou que quer que pensemos como advogados e não como pessoas?
— Excelente pergunta, Marin. – Camus sorriu, sempre satisfeito com a aluna atenta – Por que os maiores defensores da liberdade de gênero são as feministas e os LGBT’s, obviamente, já que fazem parte de um grupo de pessoas que são claramente limitadas por questões de gêneros. Grupos que são constantemente atacados por algumas pessoas que usam a religião para justificar seus preconceitos, conservadores e ignorantes. Estes temem o fim de sua dominância, de seus privilégios. E como eu não sei quem vocês são fora daqui, quero que pensem como advogados que defendem a plena liberdade das pessoas em seus direitos humanos.
Viu alguns alunos sorrirem satisfatoriamente, Milo estava entre eles.
— Vamos lá, – Bateu palmas – liguem os computadores, se informem, discutam! Vamos descontruir padrões nessa sala de aula.
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A aula havia sido um sucesso. Pessoas realmente desinformadas, como Louis, entenderam o assunto e se posicionaram. Pessoas como Philippe ignoraram toda a discussão por pura teimosia. Mas Camus sabia que a sala de aula era apenas um protótipo da sociedade. Poucas pessoas preconceituosas se abriam para a informação.
Após as aulas da manhã, todos se encontraram no almoço, quando puderam conversar ainda mais e planejar o local exato das festas de fim de ano. Milo havia sido novamente intimado a se juntar a eles no Japão, levando os gêmeos consigo.
A família se separou durante a tarde, quando professor e aluno rumaram para o apartamento no décimo primeiro andar. Não tinham mais a necessidade da procura por um canto de estudos, já que a biblioteca do francês servia perfeitamente para tal propósito.
No final da noite, após um jantar em família, Milo teve que ser levado para casa. Precisava de suas roupas, de suas coisas e de se organizar para a natação do dia seguinte.
A contragosto, Camus o deixou no apartamento da periferia. Odiava deixar o grego ali, mas o que poderia fazer?
— Obrigado pela carona. – Milo sorriu docemente, virando-se para o banco do motorista antes de sair do carro.
— De nada. – Suspirou – Depois combinamos sobre amanhã. Tudo bem?
— Claro.
— Vamos almoçar juntos no Crème fraîche?
— Seria ótimo. – Teve uma ideia e sorriu expansivamente – O que você fará amanhã de manhã?
— Exercícios, compras e faxina. – Levantou uma sobrancelha. Onde Milo queria chegar?
— Ah.... se você acabar mais cedo... gostaria de ir nadar comigo?
— Como assim?
— Nadar, ué. Seria divertido. Podemos apostar corridas, já que você demonstrou nadar tão bem na viagem com meus irmãos.
Camus pareceu refletir.
— Se por algum milagre eu acabar cedo o suficiente para ir nadar eu apareço, pode ser assim?
— Pode. – Se inclinou, colando os lábios em uma surpresa para o francês – Até amanhã, ruivo.
Ainda em deliciosa confusão, Camus acenou.
Confiante, Milo deixou o veículo, entrando depressa no prédio após se virar e acenar com a mão.
Camus deu partida com um pesar no coração. Pode olhar através do retrovisor a edificação em pedaços. Algo precisava ser feito.
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O francês correu com suas obrigações na manhã de sexta para poder se encontrar com o aluno na academia.
Foi interrogado durante o café, todos queriam saber se ele e o grego estavam caminhando para um relacionamento sério. Viu Afrodite insinuar que depois eles deveriam conversar a sós e confirmou discretamente.
Quando enfim terminou seus afazeres, juntou em uma mochila objetos como toalha, shampoo, condicionador e sabonete. Vestiu uma bermuda por cima da sunga, uma camiseta e chinelos. Suspirou em frente ao espelho antes de deixar o apartamento com uma blusa de frio na mão.
A insegurança lhe atormentou enquanto dirigia. Para variar, sentia-se branco demais, ruivo demais, sardento demais. Remoeu seus pensamentos envenenados até estacionar em frente a academia.
Conversou rapidamente na recepção sobre entrar na piscina, pagando por um dia de uso. Atravessou os equipamentos com pressa para não ser visto por possíveis alunos, já que a academia ficava próxima a Sorbonne e era amplamente frequentada por universitários. Mesmo sendo algo improvável, ele não poderia arriscar.
Como sempre, era arrebatado pela beleza do loiro em movimento na enorme piscina olímpica. Sentou-se por pouco tempo, até que o grego o visse.
Milo nadou até a borda mais próxima do banco, sorrindo maravilhosamente.
— Você veio!
— Sim, eu vim. – Camus respondeu de modo frio, tentando disfarçar sua timidez. Conduto, a cor de suas bochechas e nariz lhe entregavam.
— E vai ficar aí parado? – Indagou achando o constrangimento do outro completamente adorável.
— Na verdade eu não decidi se irei nadar. – Deu de ombros, fingindo indiferença.
Em uma única flexão, Milo saiu da piscina, exibindo o corpo forte e esculpido por anos de nado.
— Ah, você vai sim! – Ameaçou andando em direção ao ruivo enquanto as gotas deslizavam pelos músculos perfeitos e inchados pelo exercício.
— Calma! – Levantou as mãos em rendição – Só tenho essas roupas, não me molhe!
— O quê? Você só veio com isso?
— Sim, qual é o problema? – Cruzou os braços em defensiva.
— Está frio, Camus! – Respondeu como se falasse o óbvio, com certa indignação.
— Não está tão frio assim, relaxe. – Deu de ombros e se levantou para deixar suas coisas no vestiário.
Milo bufou, irritando-se por ser completamente ignorado. Desistiu e seguiu o mais velho. Camus só viu que tinha companhia quando adentrou no cômodo vazio. Se virou para interpelar o belo loiro atrás de si.
— Por que me seguiu? – Disse com frieza na voz grave.
— Quero te ver tirar a roupa, oras. – Soltou sem pudores, esbanjando um sorriso de canto.
O efeito foi imediato e Camus se recriminou novamente por ter a pele tão clara.
— Qual o problema? – Levantou a sobrancelha – O que eu ainda não lambi no seu corpo pode ser corrigido mais tarde.
— Dá pra parar? – Não conseguia mais esconder tamanho constrangimento.
O loiro percebeu que o clima não estava normal. Mudou de postura, aproximou-se e segurou as mãos do francês entre as suas.
Camus virou o rosto e Milo quis beijá-lo. O imponente professor estava com vergonha de si?
— Eu fui longe demais? – Perguntou de modo cauteloso, inclinando-se para buscar o olhar do homem que tanto gostava.
— Não. – Respirou fundo. Milo gostava de si, então não deveria ser tão estranho, não é mesmo? – Vamos acabar logo com isso.
Camus retirou as roupas e as guardou no armário apertado com o cuidado de sempre. Ambos voltaram para a região da piscina.
— Não deveria ter um salva-vidas aqui? – O francês indagou, olhando em volta.
— Deveria. – Deu de ombros – Mas nunca vi.
— Isso é um absurdo.
— Convenhamos, só vem nadar aqui quem aguenta uma piscina olímpica. Não é diversão em família.
— Mas e se você der câimbra, por exemplo?
— Oh, você está mesmo se preocupando comigo? – Milo sorriu de modo bobo, segurando o antebraço do ruivo sério.
Ao contrário do que o grego esperava, Camus dobrou o antebraço rodeado pelas mãos de Milo e, com a outra mão, cobriu os dedos morenos com os seus enquanto terminavam o percurso até a beira da piscina.
— Mas é claro que estou preocupado! – Agora era o ruivo que agia como se fosse o óbvio.
Milo estava tão surpreso que não conseguiu sorrir. Em seu subconsciente, ele sabia que aquele relacionamento poderia ser fadado ao fracasso. Não acreditava que os sentimentos de Camus fossem recíprocos aos seus, fazendo com que frases como aquela lhe atingissem de um jeito inimaginável.
Parando em frente a água clara, o professor se separou para poder saltar.
— Olha, já vou te avisando que a água está bem fria, então pode hesitar o quanto quiser por...
O grego foi solenemente ignorado pelo salto de ponta que o mais velho deu. Camus saltou de um modo natural, fluido.
Respirando fundo para não fazer feio, o loiro foi logo atrás, tremendo ao sentir o choque térmico de seu corpo já quente com a água gelada. Subiu para a superfície sem conseguir localizar Camus. Apoiando-se em uma das bordas, viu que o francês permanecera no mergulho, sem retornar em busca de ar.
Em braçadas rápidas, seguiu o caminho deixado pelo ruivo, encontrando-o na outra ponta.
Camus retornou, subindo apenas duas vezes em busca de ar. Quando alcançou a borda da piscina, virou o rosto com brusquidão para tirar o cabelo do rosto, fazendo com que algumas mechas grudassem em seu rosto. Esfregou os olhos sensíveis já avermelhados pelo cloro.
— Como você consegue ser tão bom em tudo? – Milo disse após alcançá-lo.
— Desculpe-me?
— Você nada com muita naturalidade!
— Eu não sou bom em tudo, só nunca tive problemas com água ou com o frio, por exemplo. São características humanas, não é ser bom. – Segurava com uma mão na borda, assim como Milo.
— Claro que é ser bom. Você é perfeito em tudo! Não entendo como você tem vergonha de se despir na minha frente!
— Milo... – Desviou o rosto sob a mira atenta do grego – Você é a pessoa mais bonita que eu já vi na vida, agora olhe para mim... – Riu, sem graça.
— Eu estou olhando, Camus.¹
Os azuis se misturaram quando o ruivo virou o rosto.
Aproximando-se de um rígido francês, Milo tocou os lábios avermelhados com seu sorriso. Queria dizer! Queria tanto dizer! Pelos deuses, ele estava amando!
Em questão de segundos a expressão do francês se converteu.
— Milo, desencoste. Não podemos ficar aos beijos na piscina da academia. – Disse de forma blasé.
— Quem disse? Não há ninguém aqui... – Abraçou o mais velho, escondendo o rosto na curva do pescoço molhado.
— Aquela porta de vidro não é opaca, percebe? – Apontou para fora da piscina.
— Tudo bem, me convenceu. – O grego se soltou do corpo alvo.
Camus levantou uma sobrancelha, desconfiado.
— O que foi? – Perguntou com cinismo enquanto remexia nos cachos loiros, ajeitando-os.
— O que você está armando?
— Não converse comigo por um momento, sim? – Fechou os olhos, entrando em seu próprio mantra por alguns segundos – Mesmo que não nos vejam direito aqui, – Frisou para provocar – vou tentar ser mais discreto.
— Como assim?
— Fique bem quieto, ok?
— Mil... – Foi cortado por lábios cheios sobre os seus. Esses mesmos lábios escorregaram por sua bochecha até se fecharem embaixo de sua orelha. Beijos lentos e vagarosos foram distribuídos ali, em uma calma espetacular.
Em uma decida corajosa sob o peito forte de alabastro, o queixo do grego tocou a água. Mas não se intimidou, continuou descendo, calma e lentamente.
Os céus ensolarados que Camus carregava na face se arregalaram em surpresa. Queria impedi-lo, mas como? Ao mesmo tempo que Milo era quente e sedutor, também era um poço de romance. Ou isso seria o amor agindo?
O grego abaixou a sunga azul escura do mais velho, concentrando sua habilidade de submersão. Apesar de seu coração ribombar freneticamente pelo simples fato de tocar Camus, tinha que se manter tranquilo. Surpreendentemente – ou não – com apenas aqueles singelos beijos, uma excitação considerável despontava no francês.
O grego retornou à superfície, divertido com a falta de ação do mais velho.
— Me escute bem, eu não sou meu irmão. Minhas habilidades embaixo d’água são limitadas. Além disso podemos ser vistos a qualquer momento, então use sua neura natural para terminar rápido, estamos entendidos?
Não esperou resposta. Em um único puxão de ar, submergiu novamente.
Em toques suaves, fechou os dedos sobre o membro do francês. Iria masturba-lo até que o “quase” chegasse. Distribuía beijos pelo abdome definido, descendo pela virilha incrivelmente aparada. Tocava cada pedaço da pele firme com um carinho fora do normal. Foi obrigado a voltar em busca de ar, subindo direto até os lábios rosados, tomando-os para si.
Camus mal se concentrava devido à respiração entrecortada. O nervosismo de poder ser flagrado a qualquer momento o desesperava e ao mesmo tempo o excitava. Olhava para porta de vidro na esquerda do salão, vendo as pessoas malharem do outro lado, alheios ao clima quente dentro da piscina.
Milo segurava o rosto do mais velho com a mão livre, beijando onde alcançava com delicadeza. Com a outra mão, estimulava o professor em um ritmo intermediário. Não queria ir muito rápido, afinal, a tortura se mesclava muito bem com o medo de ser pego. Ele mesmo já se encontrava com uma baita ereção só de ver o estado de Camus.
Camus arfou, apoiando a testa no azulejo claro.
Milo sorriu com sadismo, parando o que fazia e mergulhando em seguida. Desceu ainda mais a sunga do francês. Por fim, decidiu retirá-la, subindo orgulhoso para a superfície, como se carregasse um prêmio em sua mão. Em um estado de reflexo, Camus tentou em vão tapar sua nudez com uma das mãos, olhando para Milo assustado.
— O que você pensa que está fazendo? – Chiou entre dentes.
— Vamos deixar as coisas mais emocionantes por aqui. – Colou os corpos – Se alguém chegar não tem como se esconder. – Retirou o próprio membro de sua sunga, pressionando-se ainda mais contra o francês.
Camus jamais havia feito tanta loucura. Sentia-se extremamente assustado, porém, ver sua sunga na borda da piscina, entre os dedos de Milo, o excitava ainda mais.
Em pouco tempo a mão grande do grego masturbava ambos ao mesmo tempo. O mais velho passou um braço pelo ombro do loiro, embrenhando os dedos alvos nos cachos molhados.
— Lembre-se, – Nem para Milo estava sendo fácil falar, mas este se esforçava – se alguém chegar eu subo minha sunga e viro para a borda. Já você será visto de qualquer jeito.
— Milo... – Grunhiu. Sentiu a palma da mão escorregar por cima das glandes e tremeu.
Sabendo que o fim estava próximo, o grego mergulhou novamente.
Com uma dificuldade que julgava recompensadora, cobriu o falo do professor com seus lábios, escorregando a extensão por sua boca. Segurou os quadris rígidos para se apoiar, com o cuidado de não soltar a sunga do mais velho e sentiu tremores mais fortes sob seus dedos.
Após expulsar a água da piscina, mal conseguiu realizar uma sucção e sua boca foi invadida por Camus.
Engoliu o que pode enquanto subia para ganhar ar.
Meio desajeitado pela falta de ar, o loiro foi sustentado por braços fortes enquanto regularizava a respiração. Foi abraçado em seguida, conseguindo ouvir o coração do mais velho ribombar forte.
— Você é louco. – Camus disse enquanto ambos tentavam voltar ao normal.
— E você é uma delícia. – Milo retrucou, enlaçando a cintura alva de maneira possessiva e mordendo o peito a sua frente.
— Me devolva minha sunga e vamos sair daqui.
— Para onde vamos? – Mordeu a pele alva, rindo, fazendo Camus se afastar.
— Eu estava pensando no vestiário, para resolvermos seu problema. Podemos tomar um banho... – Esfregou as marcas de dente em seu peitoral – Mas você não está merecendo.
— Ah é? Não estou?
— Não. – Sorriu levemente.
— Então tá bom. Tomo banho sem você. Em uma flexão rápida, Milo estava fora da piscina e levando consigo a sunga do mais velho.
Camus levou alguns segundos para acreditar no que estava acontecendo.
— MILO! – Gritou em pânico, vendo o grego correr até o vestiário, no lado direito do salão da piscina.
Viu-se sozinho e nu, em público. O que poderia ser pior?
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