Um estrangeiro em Paris

19 O morro dos ventos uivantes


Notas iniciais
Olá meus amores, tudo bom? ♥ Queria conversar com vocês rapidinho antes do capítulo. Caso vocês não saibam, eu posto essa mesma história no Spirit e confesso achar o Nyah chato e burocrático. Caso um dia eu resolva sumir daqui, para as meninas e meninos que me acompanham, continuarei por lá, sim? c: O nyah é muita dor de cabeça para pouco acesso, me perdoem /: Agradeço as lindezas que escreveram para mim, as crocantes Shall e Suh! Obrigada, meninas! Boa leitura! ♥

“Nunca lhe confessei abertamente o meu amor, mas se é verdade que os olhos falam, até um idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado”

Morro dos ventos uivantes

O amanhecer em Amsterdam era frio e delicado. As tulipas próximas aos canais eram cobertas com orvalho enquanto uma leve neblina se arrastava preguiçosamente sobre as águas. Professor e aluno resolveram seguir para a estação a pé, caminhando tranquilamente apesar do fardo da bagagem de um dia. Nenhum dos dois queria voltar para a melancolia e solidão de Paris. Já no trem, o silêncio reinou e decidiram por não estudar. Camus leu durante todo o percurso e Milo ficou entre um livro e o celular.

Quando enfim completaram seu regresso à Cidade Luz, Camus não conseguiu conter as guinadas dentro de si, apesar da hesitação crescente. Retirou as luvas negras e as torceu entre os dedos, entreabrindo os lábios finos diversas vezes.

— Milo, gostaria de ir para o meu apartamento olhar alguns artigos? – Apesar de ter certeza que seu convite seria recusado, o francês simplesmente não conseguiu evitá-lo. Quando deu por si, havia feito.

— Claro, eu adoraria. – Milo esboçou um sorriso brilhante e natural.

Soltando o ar de seus pulmões, Camus chamou por um taxi, sentindo borboletas em seu estômago. Estaria voltando atrás em suas decisões?

Não saberia dizer.

Informou ao grego que havia a possibilidade de Saori ainda estar por lá, o que não trouxe incômodos. Milo estava confiante e, além disso, o professor provou ser receptivo e cuidadoso com todos que conhecia. Apesar da frieza aparente, Camus era doce e gentil, preocupando-se com quem gostava ou estava em sua responsabilidade. Um verdadeiro instinto protetor.

Milo riu enquanto entravam na edificação após descerem do táxi.

— Do que está rindo?

— Eu estava pensando que você seria um ótimo pai.

Camus levantou uma sobrancelha sobre os olhos claros enquanto apertava o botão do elevador. Mediante tamanha falta de sentido, o francês só conseguiu pronunciar uma palavra.

— Por que?

— Por nada. – Sorriu, matreiro.

A porta do elevador se abriu e Milo fez um sinal cortês para que o ruivo entrasse.

No décimo primeiro andar as posições se inverteram e o mais velho fez sinal para o aluno após destrancar a porta, indicando que este era bem-vindo.

O grego foi direto para a parede de vidro, tirando as botas antes de pisar no tapete que ocupava toda a sala. Já se sentia em casa e sabia que Camus não se importaria.

Fechando a porta atrás de si, o ruivo percebeu um bilhete sobre o balcão. Sorriu ao ver a belíssima e inconfundível caligrafia.

“Prezado Camus,

Parti hoje cedo para Atenas, sinto não poder despedir-me de você.

Voltarei em breve para ser melhor apresentada a beleza grega.

Um beijo,

Sempre sua

P.S.: Deixe de ser um idiota, sim?”

— Ela não está?

Os olhos claríssimos foram desviados do papel para o homem a sua frente, esquecendo-se por um momento do que lhe foi perguntado.

Os tímidos raios solares davam a Milo uma aura radiante. Ou talvez, só talvez, o sol só brilhava porque Milo estava ali.

Após alguns segundos de exaltações em sua cabeça, Camus se lembrou de responder.

— Não, foi para Atenas.

— Entendo. Eu gostaria de conhecê-la melhor.

— Ela também gostaria de conhecê-lo melhor. – Sorriu.

— Mesmo?

— Mesmo. Já se passou do meio dia, quer me ajudar a preparar o almoço? – E pronto, estavam voltando a relação de antes.

— Com certeza. – Esbanjou outro sorriso encantador, fazendo Camus prender a respiração e desejar desesperadamente lhe roubar um beijo – Posso usar o avental florido?

— Pode, mas não conte para o Dite. Oh, droga! – Bateu com a palma da mão na própria testa – Preciso ligar para ele. Pode ir escolhendo o que quiser na geladeira, vou colocar uma roupa mais leve e lavar as mãos.

— Posso usar o banheiro?

— Claro. Nem precisa pedir. – Disse enquanto sumia corredor afora.

Milo pegou uma bermuda em sua mala e foi para o banheiro social se trocar.

Camus fechou a porta atrás de si com o pé, pisando nos calcanhares para retirar os sapatos enquanto andava pelo quarto com o celular no ouvido, esperando que Afrodite lhe atendesse.

Abriu a porta que dava para a varanda, recebendo no quarto o vento frio e desimpedido do décimo primeiro andar. Saori havia deixado tudo impecavelmente organizado. Como sempre, rainha do perfeccionismo e capricho.

— Alô?

O ruivo sorriu ao ouvir a voz doce do irmão.

— Bom dia, Dite! – Abriu o botão da calça e a abaixou até o joelho para poder se sentar na cama limpa sem infectá-la com germes internacionais.

— Camyu! Desculpe, atendi na pressa e não vi que era você. Como foi a festa?

— Correu tudo bem. – Desabotoava o colarinho da camisa social enquanto esfregava os pés um no outro para se livrar das meias, retirando a calça em seguida – E como está o clima em Londres? Deixe-me adivinhar, cinza?

— Cinza.

Ouviu a voz de desprezo e sorriu, imaginou o irmão revirando os olhos. O sueco prosseguiu.

— Impossível plantar qualquer coisa com cores aqui!

— Não seja exagerado, às vezes tem sol.

— Às vezes, pfff.

— Foi se encontrar com alguém?

— Sim, um contato do seu pai, provavelmente. De qualquer modo, estamos agendando uma possível exposição.

— Fico imensamente feliz por você! – Um peso gigantesco deixou seu corpo. Havia realmente valido a pena.

— Devo isso a você.

— Não, minha dívida com você é eterna e jamais será quitada. – Andou até a varanda, olhando as ruas movimentadas abaixo de si enquanto desabotoava a camisa social.

— Mas me diga, deu realmente tudo certo na festa?

— Mais ou menos. Eu sobrevivi. Acredita que o Milo me ajudou?

— Mentira?! – O sueco sorriu satisfeito do outro lado da linha – Conte-me em detalhes!

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Na cozinha, Milo ficou em dúvida sobre como a carne que escolhera deveria ser preparada, decidindo ir em busca de Camus para maiores esclarecimentos. Ao bater na porta semiaberta, empurrou a madeira, vendo o francês de cueca, blusa social e os cabelos ao vento na varanda externa. Resolveu ouvir um pouco da conversa antes de chamá-lo.

— Não sei... acho que ele gostou. Amsterdam é bem tendenciosa, as pessoas costumam gostar.

Um momento de silêncio se instaurou, o sueco deveria estar falando.

— Sim, com certeza. Bom, Dite, nos falamos mais tarde. Vê se descobre quando vai voltar, já sinto sua falta.

Mais silêncio. Milo julgou uma boa hora para agir.

— Com licença, Camus.

Viu o francês se virar, achando-o ainda mais bonito de frente. Era impressão sua ou Camus estava enrubescendo?

— Milo, desculpe, não o vi entrar.

Sim, ele definitivamente estava enrubescendo.

— Eu que peço. E como o Dite está?

— Está tudo bem, ele e o Mask estão aproveitando bastante. O problema vai ser meu em justificar a falta do italiano no departamento de humanas amanhã. – Revirou os olhos.

— Entendo. – Riu da cara de enfado – Então, eu estou meio em dúvida na cozinha... – Apontou para atrás de si com o polegar.

— Ah sim, em um minuto estarei lá.

— Tudo bem, obrigado. – Se retirou com outro sorriso no rosto.

Até que Paris estava lhe saindo melhor que o esperado.

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Cozinharam juntos e Milo teve a oportunidade de mostrar que havia prestado atenção nas primeiras lições do ruivo. Conversavam bastante e se divertiam no processo.

O almoço foi um sucesso e decidiram descansar do processo de viagem por um tempo antes de retornarem aos estudos. Camus capturou todas as almofadas do sofá chumbo – que Saori havia cuidadosamente organizado – e as jogou no chão próximo à janela. A chuva holandesa os havia acompanhado e uma garoa fina batia insistentemente no vidro.

— Acha que a Saori poderá realmente ajudar os meus irmãos? – Milo esparramou-se no sofá de maneira contrária a Camus para poder mirá-lo enquanto conversavam.

— Tenho certeza. Talvez ela encontrará dificuldades, mas no final irá dar conta. – Deitou-se no ninho recém-formado e encostou parte do corpo no vidro gelado.

— Quanta confiança!

— Isso é verdade, confio mesmo. Mas eu acompanhei os estudos dela e, acredite, não foram poucos. Ela consegue fazer qualquer coisa. – Passou o braço para atrás da cabeça, deitando-se sobre ele.

— Talvez seja bom eu pedir umas dicas, então. – Riu.

— É sem dúvidas uma ótima ideia. Ela até mesmo te aceitaria como estagiário se visse o tamanho seu esforço.

— Ela só me aceitaria como estagiário por que você estaria pedindo.

— Isso não é verdade. Ela não só valoriza a capacidade real das pessoas, como se esforça para não julgar alguém pelo exterior. Você sabe que o machismo existe e isso influencia muito a carreira de uma mulher em uma profissão tão combativa.

— Ela não tem cara de quem sofre preconceitos.

— Mas sofre. Além disso existem os assédios. Ela jamais te contrataria porque eu pedi. Iria analisá-lo dos pés à cabeça antes. Seria uma ótima oportunidade para você, conheceria meio mundo.

O loiro cogitou por alguns instantes.

— Acho que não quero sair por aí... pelo menos não está nos meus planos... – Disse vagamente, dando de ombros.

— Eu acharia meio mundo mais tentador que Paris.

— Isso é uma mentira. Você teve mais de uma oportunidade de conhecer meio mundo e recusou.

— Mas meus motivos são outros, você sabe. Nada te prende a uma única cidade. – Os orbes se encararam profundamente.

Milo queria dizer muitas coisas, mas acabou optando por um desvio.

— Vamos ver...

— Chega de papo, então? – O francês se sentou, espreguiçando-se em seguida – Rumo aos estudos?

— Rumo aos estudos.

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Estudaram por toda a tarde na biblioteca do francês. Algumas horas depois, Camus sumiu cômodos a fora e voltou com o iogurte favorito do grego e um café forte e fumegante. A chuva havia aumentado, fazendo com que o apartamento fosse alvejado com gotas grossas que explodiam contra o vidro ruidosamente.

No início da noite, Milo decidiu ir embora. Não queria que Camus o levasse e se esperasse demais o francês o incomodaria até ceder.

Entretanto, após muitas discussões, a conclusão foi a mesma. O ruivo o convenceu com o argumento que estava tarde e que a mochila e smoking chamariam muita atenção. No fim, Milo recebeu uma carona até seu apartamento no subúrbio.

— Boa noite, Milo. – Despediu-se após puxar o freio de mão.

— Boa noite, Camus. Obrigado por tudo, foi um fim de semana bastante divertido. – Sorriu encantadoramente.

— Fico feliz com isso. – O ruivo se permitiu acompanhar o sorriso.

— Até amanhã.

— Até.

Viu Milo correr até a edificação para fugir da chuva. Esperou que ele entrasse para engatar a primeira marcha. Olhou para a frente, as mãos firmes no volante. Sentiria falta do som da voz do grego, sentiria falta de sua companhia. Acompanhado pelos sons do limpador de para-brisas, somados aos pingos de chuva batendo na lataria do Cadillac, o francês arrancou o carro. Teria que voltar para casa.

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O dia seguinte amanheceu tão chuvoso quanto o dia anterior. Camus teve que se abster dos exercícios ao ar livre, pois as gotas de chuva desciam furiosamente grossas. Realizou suas sequencias em casa, indo correr e pular corda na academia do prédio.

Quando estava pronto para sair, – adiantado como sempre – hesitou antes de ligar para o grego e lhe oferecer carona. Pegar metrô e andar vários quarteirões na chuva não era algo agradável.

— Alô. – Ouviu uma voz sonolenta do outro lado da linha.

— Bom dia, Milo. Acordei você? – Deu um soquinho na parede, recriminando-se por ligar tão cedo.

— Na verdade sim. Que horas são? – Do outro lado, Milo sentou-se na cama e afastou o celular da orelha para verificar as horas – PUTA QUE PARIU!

— O que houve?

— Estou muito atrasado... – O grego levantou-se correndo, mexendo as pernas freneticamente para desembolar o pesado cobertor delas.

— Bom, sobre isso... primeiramente, desculpe-me por ter te acordado. Como você costuma chegar cedo eu achei que já estaria de pé. – Estava consideravelmente encabulado.

— Na verdade eu deveria estar no metrô uma hora dessas, só que desliguei a porra do despertador e voltei a dormir, não se preocupe. Inclusive, agradeço por ter ligado – Correu até a copa e pegou sua toalha que estava estendida sobre o encosto de uma das cadeiras – Merda. Maldita chuva. – Resmungou ao perceber que ela ainda estava molhada do banho anterior.

— Está tudo bem?

— Sim, está sim. Mas, Camus, o que te levou a me ligar tão cedo? – Parou com a correria ao constatar que ainda não sabia o motivo da ligação.

— Bom... – O francês fez uma pausa. Sabia que estava corado naquele momento – Como a chuva está bem forte, gostaria de saber se você aceita uma carona.

Milo se surpreendeu ao perceber o quão doce Camus estava sendo.

— Claro, aceito sim. Muito obrigado!

— Ótimo, passo aí em meia hora, pode ser?

— Pode sim.

— Tem algo comestível na sua casa?

O loiro riu gostosamente do outro lado da linha.

— Na verdade não tem não.

— Tudo bem. – Camus sorriu timidamente – Levarei algo para você comer.

— Eu nem sei como te agradecer por isso!

— Faça um bom trabalho de graduação e não me envergonhe academicamente. – Camus brincou e não pode ver o sorriso que o grego deixou escapar – Até logo, Milo.

— Até logo. – Ecoou.

Ao desligar, Camus sorria.

Preparou uma mistura pequena de bolo de chocolate, colocando o conteúdo em duas formas redondas. Resolveu levá-las ao pequeno forno elétrico para que assassem mais rapidamente. Separou o iogurte favorito do aluno e picou algumas frutas em um pote com tampa.

Ainda tinha cerca de dez minutos para chegar à casa do grego. Teria que dirigir o mais rápido que pudesse se quisesse ser pontual.

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Trinta e cinco minutos após a ligação, Milo estava no hall de seu prédio esperando pelo ruivo. Pela primeira vez Camus estava atrasado.

Viu o Cadillac estacionar e o francês se inclinar para abrir a porta do passageiro. Correu sob a chuva e entrou o mais rápido que pôde.

— Bom dia! – Brindou o professor com um de seus melhores sorrisos.

— Bom dia, Milo. – O francês retrucou timidamente – Tome, seu café da manhã.

O cheiro do bolo invadiu as narinas do mais novo, fazendo-o salivar.

— Nossa, que cheiro ótimo! O que é? – Abria a vasilha cuidadosamente enquanto Camus já recolocava o carro em movimento.

— Bolo, frutas e iogurte. Pode comer no carro mesmo, não tem problema se sujar.

— Obrigado! – Respondeu com entusiasmo, mirando nos bolos embalados em papel alumínio.

— De nada. – Olhando para a rua, Camus se permitiu sorrir.

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Milo já havia terminado ao estacionarem na Sorbonne. Camus, precavido como sempre, tinha mais de um guarda-chuva no carro. O dia do grego não poderia estar melhor: havia dormido até mais tarde em um dia chuvoso, ignorou o metrô solenemente, havia visto o francês antes da aula e comido um delicioso café da manhã preparado por ele. Teria como melhorar? Impossível.

Como de praxe, o ruivo foi até a lanchonete comprar seu café.

— Por que você faz tanta coisa pela manhã e não faz café?

— Eu não costumo ter fome ao acordar. Além disso é mais agradável cozinhar para outras pessoas que para mim mesmo.

Milo balançou a cabeça em um aceno, compreendendo. O mais velho prosseguiu.

— Quer ir para minha sala planejar o que faremos hoje?

— Acho uma boa ideia não fazermos nada. Está chovendo.

Ganharam os largos corredores da universidade, observando o temporal que cobria os jardins laterais.

— Então você é daqueles que fica preguiçoso quando chove?

— Não, eu fico preguiçoso quando chove no frio.

— Entendi. – Riu – Torça para não pegar neve enquanto estiver por aqui.

Camus se arrependeu de lembrar que Milo iria embora no fim do semestre. O assunto morreu e nenhum dos dois sentiu vontade de iniciar uma nova conversa, seguindo lado a lado em silêncio.

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Chegaram juntos na sala de aula, o que não causava muitos comentários já que Milo era orientado pelo francês.

A aula sucedeu naturalmente, o que significava que os alunos brigaram, argumentaram e quase se agrediram, mas tudo ocorreu conforme planejado pelo professor Sivan.

Quando Milo foi para seu segundo horário, Camus aproveitou para prestar satisfações à Shion sobre a ausência de Carlo, indo para a sua sala em seguida.

Mesmo sabendo que seria uma atitude errada para um professor, Camus mandou uma mensagem perguntando se Milo gostaria de almoçar no Crème fraîche, convite que foi prontamente aceito.

Analisando suas vontades internas, Camus se questionou sobre suas atitudes do amanhecer até o presente momento. O que diabos estava acontecendo com ele?

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A chuva não deu trégua. Dentro do aconchegante restaurante, Milo olhava através do vidro as mesinhas redondas e vazias do jardim da fachada do estabelecimento. Ao contrário do que pensava, o local estava vazio. Supôs que muitos alunos desistiriam de sair da Sorbonne com essa quantidade de água caindo do céu.

— No que está pensando? – Camus se arrependeu de ser tão impulsivo. Era uma pergunta inconveniente que este não era habituado a fazer.

— Que as coisas sempre podem piorar. – Milo respondeu sem se virar, o rosto amuado apoiado nas mãos displicentemente.

— O que está pior?

— Antes estava só frio, agora está frio e chuvoso. – Passou o indicador da outra mão sobre o vidro parcialmente embaçado, vendo uma linha de água condensada se formar.

— O tempo assim é bonito, não acha? – Camus se virou para acompanhá-lo na contemplação.

— Gosto peculiar esse seu. – Milo riu.

— É sério. – Se defendeu – Veja só, menos pessoas andam nas ruas, os ambientes se tornam mais aconchegantes... além do mais é agradabilíssimo ouvir o barulho da chuva nos recintos.

— Realmente, é bastante confortável quando não se tem que sair de casa, levantar da cama ou viver.

— Tudo bem, menino do sol. Vamos para a biblioteca da Sorbonne hoje?

— Vamos. – Dizendo isso, Milo enfiou na boca todo o restante da refeição em seu prato, se divertindo com a expressão de desgosto do francês.

Na universidade, perceberam a enorme fila para alugar um armário. Não que precisassem enfrentá-la, já que seus pertences ficavam seguros na sala de Camus, mas era um indicativo da quantidade de pessoas que estariam lá dentro.

— Detesto época de provas. – Camus resmungou enquanto passava pelo detector de metais da biblioteca.

— Se você que é professor detesta, imagina nós? – Milo riu, seguindo-o.

Buscaram por uma mesa vazia, o que foi consideravelmente difícil de encontrar. Quando enfim localizaram uma, não suportaram por nem dez minutos o fuzuê de alunos em volta. Todos os lugares mais afastados estavam ocupados e nos salões centrais os alunos discutiam alto sobre os conteúdos de estudo.

Decidiram ir para o Le Chaos e passar o resto do dia lá. No meio do percurso até o estacionamento a chuva aumentou consideravelmente, obrigando-os a esperar por uma trégua. A quantidade absurda de água que caia dos telhados fazia com que os dois se sentissem dentro de uma caverna guardada por uma cachoeira.

— Fala sério que você gosta disso?! – Milo inquiriu cruzando as pernas sobre um banco de madeira em um dos cantos do hall.

— Gosto. – Camus disse dando de ombros. Olhava preguiçosamente para a escadaria que o levaria até seu carro, atrás de toda a queda d’água barulhenta e furiosa.

Ao sentir o bolso vibrar, o ruivo verificou uma chamada desconhecida em seu celular.

— Alô?

Milo virou-se para encará-lo, mesmo sabendo que poderia estar sendo um pouco invasivo.

— Mãe? – O ruivo disse em russo de modo surpreso, sorrindo em seguida – Quem é vivo sempre aparece, não?

— Deixe de ser dramático, Camus. Como andam as coisas? – A senhora perguntou docemente do outro lado da linha.

Milo apenas o olhava sem entender, achando linda a pronúncia russa.

— Vão bem. A que devo à honra? – Brincou.

— Não se faça de filho abandonado. Poderia ter me ligado.

— Como, se você troca de número igual troca de roupas? – O francês riu, a semelhança da mãe com Afrodite era sempre gritante. Ambos simplesmente chegavam tomando as rédeas do momento e quem não estivesse preparado seria atropelado pela personalidade forte que eles possuíam.

— Que seja, não estou ligando para falar sobre mim. Me conte as novidades!

— Assim, do nada? Mãe, você tem que entender que se atualizar sobre a vida dos filhos demanda tempo. – Sabia que a irritaria.

— Se você entrasse no Skype quem sabe a gente se comunicaria mais, não é mesmo? Eu sei da vida inteira do seu irmão.

— Hyoga?

— Não, o Dite.

— Então automaticamente você sabe sobre a minha.

— Um pouco. – Riu, matrona – E o aluno novo?

— Vai bem.

— E o amor platônico?

— MÃE! – Milo se assustou e viu o ruivo corar. Sorriu. Pela pronuncia supôs que Camus falava com sua mãe. Por mais que fosse em russo, a palavra pouco se diferia de nacionalidade para nacionalidade.

— Qual o problema? Confesso que achei a história bem romântica.

— Dite... – Camus massageou a própria têmpora com o indicador e polegar da mão livre. Milo riu.

— Podemos conversar depois? Eu estou meio ocupado agora.

— Podemos sim, irei visitá-lo em breve.

— Sério? Quando? – Animou-se.

— Em breve. Vou desligar então, meu amor. Cuide-se.

— Obrigado, você também. Te amo, mãe.

— Também te amo, docinho!

Camus desligou o aparelho e o guardou de volta no bolso. Percebeu que Milo olhava em sua direção e sorria. Corou levemente.

— O que foi? – Questionou arredio.

— Nada. Era sua mãe? – Não escondia a animação.

— Era.

— E o que o Dite fez?

— Você entende russo?

— Não, mas não sou idiota.

O mais velho levantou uma sobrancelha.

— Sagaz... mas não importa, a chuva já diminuiu, vamos.

— Não vai me contar?

— Não.

O grego bufou docemente, fazendo Camus a sua frente sorrir.

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A livraria e café estava vazia, logo não tiveram dificuldades em pegar uma mesa mais afastada, onde discutiram os tópicos escolhidos anteriormente durante toda a tarde. O barulho da chuva acompanhou as discussões, tornando o clima do local ainda mais agradável, se é que isso era possível.

Por volta das 18h, o crepúsculo vinha rápido devido às pesadas nuvens, cobrindo de cinza escuro toda a extensão do céu.

Os dois decidiram comer algo e conversar amenidades antes de irem para casa. Estava um dia confortável para terminarem mais cedo.

Abandonaram as estantes recheadas de livros, sentando-se em uma das altas mesinhas redondas do anexo de café e confeitaria.

Pediram bolos e algumas guloseimas, além de café forte com creme para Camus.

— Como você consegue tomar café com doce?

— Não sei. – O ruivo sorriu antes de enfiar uma bala de goma na boca.

— Acho que vou pedir um chá. – Olhou para o quadro acima do balcão, verificando os preços.

— Não sabia que você gostava de chás.

— Não é minha bebida favorita no dia a dia, mas em tempos chuvosos cai bem.

— Na Grécia é comum tomar chá no frio?

— Não, aprendi a gostar em uma das viagens que minha família fez à Inglaterra uns anos atrás.

— Hum. – Camus murmurou enquanto comia mais balas.

— Que foi?

— Paris é um lugar bem mais agradável que as ilhas britânicas. – Falou na defensiva.

Milo o analisou seriamente antes de rir.

— Não acredito que você tem essa rixa boba!

— Nós já conversamos sobre isso, não é rixa! Só estou dizendo que a França é mais agradável.

O grego gargalhou gostosamente.

— Pare de rir! Queria ver se você ouvisse que a Turquia é um país melhor que a Grécia.

— Opa! – Fechou o cenho e apontou para Camus – É diferente.

Foi a vez do ruivo rir, se tornando impossível que Milo não o acompanhasse.

— Por falar em países... poderia me ajudar em uma tradução do russo?

— Claro, – O mirou confuso – mas de onde tirou isso agora?

— O Dite me emprestou um livro e eu não consigo ler algumas anotações dele. Parece que estão em russo. Estou para te perguntar faz tempo, mas sempre me esqueço.

— Claro, qual livro?

Milo se inclinou para retirar o objeto da mochila. Entregou à Camus um belíssimo livro de capa dura.

— Morro dos ventos uivantes... – O ruivo leu o título em voz alta, passando o indicador delicadamente pelas letras em alto relevo – É um dos livros favoritos do Dite. Está gostando?

— Bom, se tratando do Dite eu confesso que esperava um romance mais doce.

— Sim, é bem diferente. – Abriu e folheou algumas páginas – É um romance muito humano, cercado de tristeza, mágoa e vingança.

— Meio estranho o Dite gostar disso.

— Na verdade não. Mesmo os personagens principais sendo completamente detestáveis, o Heathcliff sendo tão cruel e a Cathy tão mimada, o amor deles é admirável, apesar de selvagem. Foi por isso que o Dite gostou. Não é aquele romance clichê e previsível. Nesse – Fechou o livro e bateu na capa com os nós dos dedos – você enxerga o amor no cenário mais improvável.

— Entendo.

— Vi algumas anotações aqui, estão realmente em russo. Quer que eu traduza para você agora?

— Claro. – Dizendo isso, o grego levantou-se e levou seu banco para bem próximo do francês, fazendo com que seus ombros se colassem. Inclinou-se na direção do livro sobre a mesa.

Camus sentiu o aroma inebriante que o mais novo emanava. Não era nada parecido com perfumes ou produtos de banho, era um cheiro próprio e hipnótico.

Os cachos revoltos roçavam em seu rosto e, por uma fração de segundo, Camus se permitiu fechar os olhos para melhor sentir o contato.

Com a demora de uma reação por parte do professor, Milo levantou o rosto, encontrando o do francês a milímetros de distância do seu.

Ambos se analisaram em silêncio. A melodia folk que tocava baixo no recinto pareceu se extinguir, assim como o barulho da chuva. A iluminação parca do local pouco importava. Azul escuro mirava azul claro. Mais uma vez o grego foi o detentor da iniciativa, diminuindo a ínfima distância que os separavam. Milo roçou a ponta de seu nariz sobre as sardas delicadas do outro, as respirações dançando em uma doce permuta.

Quando, enfim, o loiro se inclinou, de forma a encaixar os lábios com perfeição sobre os de Camus, o professor se esquivou levemente.

Entretanto, Milo não estava disposto a ignorar o que quase havia acontecido.

— Por que? – Sussurrou. Pela proximidade não havia a necessidade de falar mais alto.

Não veio resposta dos lábios hesitantes do francês.

— É por que sou homem?

Dessa vez uma negativa pôde ser vista.

— Não, Milo, você é meu aluno. Não podemos...

— Sabe o que é engraçado, Camus? – O grego riu enquanto se afastava e viu o outro mirá-lo confuso.

— O quê?

— A sua resposta nunca me importou – sorriu confiante, olhando o professor com insolência – eu lhe beijaria de qualquer maneira.

E assim o fez.

Notas finais
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