Um estrangeiro em Paris
20 Pós tempestade
Notas iniciais
A mão alva se esquivou para fora do edredom, o indicador deslizando automaticamente sobre a tela para interromper o som estridente que teimava em importuná-lo.
Camus abriu levemente os olhos claros, vendo a fronha clara do travesseiro onde havia se afundado. Não tinha a menor pretensão de fazer os exercícios matinais, então poderia ignorar solenemente o aviso do despertador.
O pensamento do dia anterior veio seguido por um suspiro.
Em um instante insignificante de tempo, Milo rompeu a distância entre eles. Camus lembrou do contato da mão firme em sua face, impedindo-o de se afastar. A mão livre do aluno pousou em sua coxa, de modo a equilibrá-lo no banco quando se ele inclinou para frente.
Lembrou-se da pressão dos lábios gregos sobre os seus e retirou rudemente o travesseiro debaixo de si, cobrindo o próprio rosto com ele. Gemeu guturalmente em protesto contra seus sentimentos, socando o colchão com a outra mão.
O pior de tudo é que ele havia correspondido. Apesar do contato breve, o ato foi muito mais forte que qualquer outra sensação que o francês já havia sentido.
Lembrou-se de como abriu os olhos azuis, assustado, e afastou-se bruscamente, rompendo o contato que tanto lhe agradava.
Milo o mirou sem entender e Camus uniu suas coisas desajeitadamente enquanto desaparecia porta a fora, sem se importar com a chuva torrencial que lhe atingia.
Soltou outro gemido de frustação, sentando-se rapidamente e abraçando o travesseiro que caia de seu rosto. A chuva continuava castigando Paris e o barulho milhões de dedos tamborilando em suas paredes ainda podia ser ouvido.
O ruivo começava a raciocinar sobre o que iria fazer. Ainda tinha algum tempo para pensar, já que o aluno iria para a academia durante a manhã.
Estava decidido, ele precisava se levantar e ser munido de um café bem forte para começar o dia.
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O grego, por sua vez, levantou-se sorrindo. Saiu sob a chuva forte, feliz como em um dia de sol em Santorini. Tomou café em uma lanchonete gordurosa antes de pegar o metrô e, mesmo ensopado, ainda sorria no vagão apertado.
Quando chegou na academia, trocou-se no vestiário e antes de começar o treino cogitou mandar uma mensagem para Afrodite, contando sua mais nova façanha. Desistiu, por mais que o sueco fosse seu melhor amigo, Camus poderia se importar. Achou melhor aguardar.
Nadou virilmente a manhã inteira, atrapalhando-se ao lembrar dos lábios com gosto de bala de goma do francês, rindo de alegria.
Como seria sua tarde? Bem que ele gostaria de saber.
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Camus não chegou a nenhuma conclusão. Regou as rosas do irmão, como havia prometido, fez compras, limpou a casa, fumou e bebeu café. Era impressionante o fato de jamais conseguir lidar com situações difíceis de modo adulto. Ou se ocupava com qualquer coisa inútil para preencher os pensamentos, ou se afundava em algum vício. Suspirou, pensando em quando amadureceria.
Não tinha fome, então optou por não almoçar. Teria que ir para a Sorbonne em breve e este fato o assustava com um gatinho.
Após muito sofrer antecipadamente, tomou um banho e pegou a chave do Cadillac, era hora de agir.
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Olhando furtivamente os corredores antes de atravessá-los, Camus conseguiu chegar em sua sala sem deparar-se com o grego. Após muito devanear, decidiu que fugiria o máximo que conseguisse. Sim, essa definitivamente seria a opção mais adulta que ele conseguiria tomar. Convenceu-se de que tudo o que precisava era de uma noite para pôr os pensamentos em ordem e que a noite anterior havia sido conturbada devido ao beijo, por isso não havia conseguido tomar a próxima iniciativa.
Quando estava satisfeito com as desculpas que inventara para si mesmo, Camus preparava-se para deixar o cômodo, conversar com Shion e voltar para casa. Pegou o celular e, tendo digitado metade da mensagem que enviaria à Milo, ouviu a maçaneta da porta girar.
Os diferentes tons de azul se encontraram e um silêncio tenso pairou no ar.
— Boa tarde, Camus.
— Boa tarde, Milo.
E um novo silêncio constrangedor se instaurou.
O francês decidiu por seu plano em prática, agindo como se nada houvesse acontecido.
— Hoje eu tenho alguns compromissos, então sinto, mas terei que desmarcar a tarde de estudos. – Encaminhava-se para a saída e evitava o olhar inquisidor do aluno.
Milo levantou o braço, impedindo a passagem do outro pela porta.
— Camus, precisamos conversar.
— Podemos deixar para amanhã? Eu tenho compromissos muito importantes. – Insistiu na mentira.
— Não, não podemos. E você não tem nenhum compromisso, só quer fugir de mim. – Constatou o óbvio.
Camus o encarou com ar sério, esperando o que o grego tinha a falar. Seria por conta dele, então.
Vendo que o outro nada faria, Milo afrouxou a postura e passou pelo professor, indo se sentar na beirada da mesa de madeira escura. Deixou que a mochila em seus ombros escorregasse até o chão.
— Por que você fugiu ontem? – Questionou, segurando as bordas da mesa despretensiosamente.
— E você esperava que eu não fugiria? Milo, nós não poderíamos ter feito aquilo. – Camus alterou levemente seu tom.
— Não, não esperava! Somos dois adultos, Camus. Podemos fazer o que quisermos.
— Somos dois adultos responsáveis que não deveriam ter agido por impulso!
— Impulso?! – Levantou-se, sorrindo ironicamente – O beijo de ontem pode ter sido muitas coisas, francês, menos impulso. Estamos para fazer isso há séculos!
— Não estamos não. – Camus negou com o indicador veementemente.
— Faça-me o favor, Camus! – Jogou as mãos para o alto como se espantando toda a besteira que o mais velho falava. Resolveu mudar de tática. Andou na direção do mais velho lentamente, vendo-o recuar um passo para trás a cada avanço seu.
— O que pensa que está fazendo? – Camus hesitou quando sentiu seu corpo tocar na pesada porta de madeira.
A mão esquerda do grego se apoiou ao lado da cintura do mais velho e a direita ao lado dos fios avermelhados.
— Foi só um beijo, Camus. – Sussurrou de modo triste. Estava se contendo para não o tocar novamente. Tinham que conversar, se acertar. Aquele não era o momento.
— Eu sei que foi só um beijo. – O ruivo sussurrou de volta, finalmente aceitando que jamais entenderia a enxurrada de sentimentos dançando desordeiramente em seu peito.
— Então por que não podemos continuar com só beijos? Ambos queremos e não significa nada além disso, beijos. – Abaixou o olhar para conseguir sustentar a mentira. Evitou um sorriso, ele estava conseguindo!
— Milo... – Um novo sussurro. Ele também queria, não queria?
Por todos os deuses, como queria!
Levantou o queixo do grego com os dedos longos, fechando os orbes claros a medida que o rosto anguloso se inclinava. Os lábios hesitantes do francês tocaram os do grego levemente, como uma brisa suave de primavera.
Camus se afastou por alguns segundos, vendo os olhos cor de mar aparecerem por detrás das pestanas aloiradas. Os narizes fortes se acariciaram. Praguejou algo em russo e tomou o grego para si em um beijo intenso, sem pressa.
Laçou a cintura forte do nadador e sentiu ambas as mãos de Milo em seu rosto, disputando a dominância. Subiu uma das mãos pela cintura até alcançar a nuca bronzeada, passeando preguiçosamente pelas costas largas no processo.
Deixaram naquele beijo todas as frustações antigas, todas as vontades em pauta. A cada investida, ambos sentiam rachaduras surgirem na represa que domava os sentimentos aprisionados.
Quando enfim cessaram o ato, os olhares azuis compartilharam tristeza por um milésimo de segundo. Não querendo estragar o momento, Milo deixou sua faceta descontraída assumir o controle.
— Viu? Não foi tão ruim assim! – Riu gostosamente e Camus corou.
— Não, não foi. Mas não passará disso!
— Por enquanto... – Sussurrou ainda sorrindo enquanto buscava sua mochila no chão.
— O que disse?
— Nada. – Negou rapidamente, como uma criança levada.
Aproveitando que o loiro estava de costas para si, Camus sorriu. Estava feliz. Apesar de uma atitude inconsequente, sua atração pelo aluno era inegável. Só teria que cuidar para que não passasse disso, beijos esporádicos.
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Camus desmentiu que tinha ocupações a tarde e, com sorte, arrumaram uma mesa na biblioteca, onde passaram a tarde inteira estudando entre estantes empoeiradas.
O grego estava empolgado, pensando em como faria para estender o tempo com o professor. Não que seria difícil convencê-lo a ir no Le Chaos ou algo assim, contudo queria um lugar mais íntimo, como a casa do francês. Após muito cogitar, decidiu que ao término dos estudos convidaria o outro para comer algo, sabendo que Camus iria preferir sua própria comida.
Guardando sua ansiedade a sete chaves, esperou pelo fim dos estudos, o que aconteceu no início do crepúsculo.
— Acho melhor pararmos por hoje, vimos um conteúdo bastante extenso. – Camus retirou a armação fina dos óculos, depositando-a sobre a mesa. Levantou os braços, esticando os músculos preguiçosamente e desarrumando a blusa social branca.
— Sim, concordo. – Fechou seu livro, controlando a vontade de afrouxar a gravata marrom do homem a sua frente – Estou com fome. – Lançou sua jogada de modo indiferente, enquanto juntava seus materiais.
— Eu também.
Apressou-se, antes que Camus sugerisse algo.
— Poderíamos ir em um restaurante no Canal Saint-Martin¹, não estou muito afim de comer besteiras hoje. – Deu de ombros.
— Tem comida lá em casa. – Camus sugeriu enquanto juntava alguns livros.
— Pronta ou para fazer? – Sabia que teria comida pronta, só queria fazer charme.
— Pronta. Quer ir pra lá? – Terminou seus afazeres e mirou os olhos azuis do grego, aguardando a resposta do convite.
— Claro. Por que não? – Permitiu-se sorrir ladinamente quando o mais velho se virou. Agora que havia provado do contato do professor, mal conseguia se segurar para não beijá-lo a cada minuto.
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A cozinha virara uma verdadeira bagunça.
Haviam panelas e talheres por todos os lados. A pia, completamente cheia, pingava em um intervalo de sete em sete segundos. Quando gozava de uma companhia interessada, Camus poderia transformar um simples jantar em um banquete estrondoso.
As luzes da cozinha e copa estavam acesas, sendo desnecessário acender a luz da sala. Na mesa de centro reinava o jantar, assim como duas taças e uma garrafa aberta de vinho.
Estirado no sofá sob a penumbra, o ruivo encostou a cabeça no apoio para os braços e deixou seu copo ao léu, pronto para suportar o peso do grego sobre si. Camus mantinha uma perna esticada no centro do estofado chumbo e a outra dobrada, repousando o pé no carpete macio. Já Milo, possuía o tórax largo e forte colado ao do mais velho, suas mãos segurando a face alva de forma a manter o controle sobre beijo que trocavam. Sentia os braços fortes circundarem sua cintura nua, acariciando preguiçosamente a lombar, descendo por vezes a mão espalmada até o cós da calça e subindo novamente. Mantinha a perna solitária do francês entre as suas, pressionando seu baixo ventre contra o de Camus esporadicamente.
Após o jantar, o francês foi completamente seduzido, não tendo qualquer chance de resistir às provocações que começaram durante a preparação da comida. Havia deixado seu autocontrole junto a gravata enrolada como um gato sobre o tapete felpudo, primeira peça que Milo desfez. Sua camisa social possuía três botões abertos e a parte frontal havia sido puxada para fora da calça. Não resistindo, subiu a camiseta que o grego usava até o alto do abdome, colando sua barriga definida à dele. Ambos haviam retirado os calçados e meias assim que entraram no apartamento.
O beijo era lento, intenso e extremamente excitante. Milo controlava o ritmo, obrigando com suas mãos fortes que Camus girasse o rosto ao seu bel prazer. Os lábios dançavam juntos, abrindo e fechando. As línguas não vasculhavam o caminho, pelo contrário, mal podiam se largar, mantendo um contato ininterrupto.
Por vezes o grego flexionava uma de suas pernas, pressionando ainda mais seu corpo contra o de Camus em um movimento ondulatório. Nesses momentos, sentia o encontro das ereções e podia ouvir um leve arfar do homem sob si.
As cortinas da parede de vidro estavam escancaradas por obra de Milo, que as abriu antes do jantar. Fato que contribuiu para o ambiente romântico, com beijos trocados à meia iluminação em frente as luzes de Paris, além do barulho insistente da chuva lá fora.
Um ruído incomodo pode ser ouvido, como um rato perdido entre móveis.
Camus soltou uma de suas mãos da lombar do grego e a esticou em direção ao chão, buscando por seu celular que vibrava incansavelmente. Não encontrando, apartou o beijo e virou o rosto para melhor perscrutar o local. Milo beijou suas bochechas e desceu os lábios molhados para o pescoço alvo, reclamando quando o ruivo fez menção de se levantar.
Após visualizar o nome do irmão da tela, Camus rolou o corpo forte sobre si, ouvindo um rosnado em protesto quando se sentou na beirada do sofá. Jogou a franja farta para trás enquanto atendia a chamada.
— Oi Dite! Como vai? – Sua voz saiu mais rouca do que pretendia.
— Pelos deuses, te acordei? O fuso é só de uma hora!
— Não, não me acordou. E então, como vão as coisas?
— Vou bem. Cansado dessas nuvens cinzas, mas bem. – Disse com enfado e Camus pode vê-lo revirar os olhos do outro lado da linha.
— Já descobriu quando volta? – Sentiu o restante de sua blusa ser retirada de dentro da calça e mãos fortes envolverem sua cintura. Beijos molhados foram depositados em sua espinha, subindo junto com sua camisa. Tremeu e levantou-se, olhando feio para o grego sorridente em seu sofá.
— Sim, quarta estarei de volta. Sei que você está quase morrendo sem mim, mas aguente firme! Serão só mais dois dias.
Sorriu, realmente sentia muita falta do irmão.
— Não prometo nada, mas tentarei sobreviver nesses dois dias. – Virou-se para o vidro, indo até o outro lado da sala – Eu estou com o Milo agora. Irei deixá-lo em casa e te ligo quando voltar, pode ser?
— Com o Milo? Na sua casa?
— Na volta conversamos, então. Beijo!
Do outro lado da linha o sueco separou os lábios delicados em forma de “o”. Estava curioso e ansioso para entender o que estava acontecendo em Paris.
— Você está me expulsando? – Milo jogou as mechas loiras para trás sedutoramente, se esparramando ainda mais no estofado chumbo.
Camus se manteve relutante.
— Estou. – Não conteve um discreto sorriso.
— Posso dar uma sugestão? – Esbanjou seu melhor sorriso.
O francês cruzou os braços e levantou uma sobrancelha avermelhada ante a proposta que viria.
— Você pode ligar para o Dite e descobrir como estão as coisas por lá. Nesse meio tempo eu arrumo toda essa bagunça. – Apontou para a mesa de centro e em seguida na direção da cozinha atrás de si – Depois podemos nos deitar nesse sofá maravilhoso e ver um filme. O que me diz?
— Você se esqueceu de um detalhe. Não há televisão na sala. – Cruzou mais os braços fingindo seriedade.
— Nossa, que engano o meu. Bom, eu não me importaria se víssemos no seu quarto. – Sorriu inocentemente.
— Entendo. Bom, acho melhor deixarmos para outro dia. – Analisou o belíssimo e convidativo grego a sua frente. Tudo o que precisava fazer era permitir. Ali estava ele, há menos de dois metros de distância, pronto para si.
Camus manejou a cabeça em uma negativa para si mesmo e respirou fundo.
— Milo, – Continuou – eu realmente preciso conversar com o Dite. Preciso contar... – Corou ao não conseguir completar a frase – sobre isso. – Apontou para ambos.
Resignado, o grego sentou-se e abaixou a blusa, se recompondo.
— Tudo bem. – Levantou-se e andou até Camus – Mas lembre-se que minha memória é notoriamente boa. Você disse “outro dia”, irei cobrar.
Prevendo que ficaria preso entre Milo e o vidro, o ruivo se esquivou, indo buscar seus chinelos no quarto. Quando retornou seu visitante terminava de colocar os sapatos.
— Quer almoçar amanhã? – Perguntou enquanto observava os ombros largos proeminentes na camiseta apertada. Lembrou-se da sensação de tê-lo sobre si. O corpo de Milo era quente, macio, convidativo. Agora que pode ter uma leve ideia do que seria tocá-lo, dificilmente sua mente lhe daria paz.
— Claro! Estarei no treino, pode aparecer a hora que quiser.
A piscina.
O francês se lembrara do que aconteceu na última vez que assistira a um treino do aluno.
— Camus?
Foi tirado de seus devaneios pela voz grave do grego a sua frente. Milo havia se levantado e vestia as roupas de frio em frente ao mais velho.
— Chegarei lá no meio do seu treino, tudo bem?
— Ótimo, ficarei te esperando. – Sorriu lindamente e se inclinou para beijar novamente os lábios rubros que tanto se destacavam no rosto de alabastro.
Camus recebeu o beijo fechando lentamente os olhos claros. As mãos do grego, já dentro de sua camisa, lhe puxavam para mais perto, tornando o beijo um pouco mais agressivo que as carícias trocadas no sofá, mais urgente.
O ruivo afastou-se gentilmente ao perceber que seu sangue corria para um ponto específico entre suas pernas, lhe causando uma embaraçosa ereção.
— Ei, me deixe mais um pouco... – O sussurro embriagado de Milo pode ser ouvido entre os pingos que atingiam o vidro furiosamente.
— Milo, – Desvencilhou-se com dificuldade. Não sabia ainda o que deveria fazer, o que estava sentindo – está tarde.
— Tudo bem, apenas beijos.
Vendo o semblante do aluno murchar enquanto este caminhava em direção à porta, inspirou fundo e o seguiu a passos rápidos. Segurou seu antebraço, fazendo que este se virasse para si.
— Vamos com calma, tudo bem? – Sorriu, tímido. Por mais que quisesse, ainda não estava pronto.
O que recebeu de volta foi um sorriso espalhafatoso e um selinho forte e barulhento.
— Sim, no seu tempo.
O grego pegou a chave de Camus sobre o balcão e abriu a porta do apartamento, ainda sorridente. Esperaria o tempo que o mais velho precisasse. Afinal de contas, era tudo o que tinha feito até então.
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Camus dirigiu devagar. Em parte, pela chuva. Contudo, também não queria se despedir de Milo, muito menos deixá-lo naquele lugar horroroso que este chamava de casa.
Quando o veículo foi estacionado, O grego se virou de modo a encarar o motorista.
— Acha que o Dite irá brigar?
O ruivo mordeu o lábio inferior, pensando por alguns segundos.
— Acho. Ele vai argumentar que eu deveria ter contado antes.
— Tipo ontem?
— Tipo ontem.
— Entendo. – Fez silêncio por alguns segundos, pensando na reação do amigo – Boa sorte.
— Obrigado. – Disse de modo cortês.
— Eu que agradeço. O jantar estava ótimo! – Sorriu matreiro, vendo Camus corar.
— Também achei. Boa noite, Milo.
Depositando seus lábios sobre os do ruivo em um beijo veloz, o grego abriu a porta do Cadillac e correu até a sacada de seu prédio. Acenou com a mão antes de sumir pela porta da frente.
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Milo estava feliz. Seu planejamento para uma aproximação sorrateira do francês havia se mostrado um sucesso. Em sua cabeça era claro que o cumprimento de “apenas beijos” estava fora de cogitação. Quisera tocar em Camus desde o dia que entrara atrasado em sua aula, sendo repreendido pelo ruivo estonteante.
Saiu do parco elevador, indo em direção ao apartamento 302. O corredor se encontrava vazio, como sempre. Eram raras as ocasiões em que trombava com seus vizinhos. Ao entrar em sua sala, sentiu a já saudosa sensação “com Camus/sem Camus”. O frio começava a penetrar pelas barras de sua calça e blusas como tentáculos, subindo por seus membros impiedosamente. A falta de um aquecedor foi novamente vivenciada.
Já que havia tido um belo jantar às luzes de Paris com seu francês, iria apenas tomar um banho antes de se deitar e depois planejava ler algo ou conversar com Marin ou Afrodite antes de dormir.
Tirou cautelosamente a roupa molhada, deixando-a sobre o cano que passava no alto da parede de seu quarto. Neste varal improvisado passava a água quente dos banhos. Não era uma solução muito efetiva, mas ainda era uma solução.
Terminou de se despir pensando no que faria quando o inverno chegasse. Muitas vezes vestia roupas ainda úmidas para terminarem de secar com o calor de seu corpo. Isso seria terrivelmente imprudente se feito em um dia de neve. Além disso, se passava frio sem aquecedor no outono, no inverno certamente teria problemas.
Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos quando a água quente caiu em seu corpo. Sentiu-se prontamente aquecido, apesar de ter que se contorcer sob os fiapos de água que saiam do chuveiro velho e entupido. Anotou mentalmente a tarefa de abrir os buracos do chuveiro com uma agulha assim que tivesse tempo.
Enquanto deslizava o sabonete por seu peito, lembrou-se da primeira vez que entrara naquele apartamento com Camus. Riu ao se lembrar do abandono que sofreu quando decidiu assinar o contrato. O ruivo o havia deixado ali, um estrangeiro bem longe de casa, em seus primeiros dias no novo país.
— Ah, Camus... – Sussurrou para si mesmo, vendo o pequeno cômodo ser inundado pelo vapor do banho. Fechou os olhos, sentindo a pele arder confortavelmente onde a água quente tocava – Até quando irei me contentar em apenas pensar em você?
O grego desceu uma mão até os testículos firmes e redondos, separando-os delicadamente e puxando-os para baixo em seguida. Escorregou a outra por seu abdome, parando ao alcançar a base do pênis grosso. Subiu os dedos por toda a sua extensão, puxando o prepúcio quando atingiu o topo. Deslizava delicadamente a pele delicada para cima e para baixo, sem pressa, massageando a glande suavemente.
Pensou nos beijos molhados que trocara com o francês. Havia conseguido sentir a ereção de Camus sob a sua e até mesmo pressioná-la com seu corpo. Lembrou-se dos gemidos guturais que escapavam dos lábios finos e rosados nesses momentos e não conseguiu ater suas brincadeiras apenas na glande. Envolveu todo o membro na mão direita, bombeando com intensidade. Deixou que um pequeno suspiro entrecortado abandonasse seus lábios.
Lembrou-se do cheiro de sua pele, de seu pescoço, de seu condicionador. Lembrou-se do toque na macia pele cor de neve e das mãos de Camus o apertando contra o tórax protetor. Estava se sentindo febril.
Intensificou ainda mais os movimentos, apertando a glande contra o indicador e polegar na subida, liberando-a fracamente na descida. A pressão que criava contra seu falo o enlouquecia.
Tentou diminuir o ritmo para adiar o orgasmo, mas já era tarde demais. Logo seu alivio viria. Ofegava em gemidos contidos e raivosos, tendo todo o prazer que sentira durante o dia lhe assolando pouco a pouco. Respirava entre os dentes compassadamente, fazendo barulho.
Sentiu as pernas tremerem quando o gozo veio em um jato, respirou fundo e chamou por Camus. O peito ia e vinha em inspirações profundas.
Quando seu corpo enfim relaxou, repousou a mão direita sob a água quente, deixando que todo o líquido espesso escorresse pelo ralo. Em seguida, encostou-se à parede fria, jogando a franja farta para trás, sentindo os fios loiros grudarem nos dedos molhados. Olhou para o teto mofado com os olhos azuis escuros, fazendo um verdadeiro perfil grego. Uma gota mais grossa desceu por seu nariz forte e afilado, morrendo em seus lábios entreabertos. Milo engoliu a saliva, fazendo com que seu pomo-de-adão subisse e descesse lentamente.
Conseguiu perceber um toque insistente vindo da pia do banheiro. Ao abrir a porta do box embaçado, pode ver seu celular vibrar sem descanso.
Praguejando em grego, desligou o chuveiro e foi pingando até a pia, onde pegou sua toalha e o celular.
— Sim? – Atendeu de mau humor após secar o rosto rapidamente.
— SUA VADIA INGRATA E MAL AGRADECIDA!
Por um momento o loiro cogitou ser engano. Contudo, após uma fração de segundos, reconheceu a voz enfurecida do amigo.
— Dite? – Franziu as sobrancelhas, sem entender o que estava acontecendo.
— Eu não acredito que você beijou o meu irmão e não teve a DECÊNCIA de me contar!
— Dite, me desculpe, mas achei que o correto seria o Camus lhe contar isso. – Tentou mediar enquanto enrolava a toalha na cintura.
— Por que é isso que dá, não é mesmo? A gente se esforça, briga com família por causa de certas amizades e é nisso que dá! TRAIÇÃO!
Contendo a vontade de rir, Milo buscou uma maneira de contornar a situação.
— Ei, você entende, não entende? – Disse em um tom apaziguador.
Fez-se silêncio do outro lado da linha.
— Arg, é lógico que eu entendo, seu assediador de irmãos alheios. – Respondeu com a voz emburrada.
— Então, se o Camus te contou, isso significa que posso entrar em detalhes com você, não é mesmo? – Sorriu malicioso.
— Deve! – Sorriu, eufórico – Milo, eu estou tão feliz por você e por ele, tão feliz! Por um momento achei que vocês jamais ficariam juntos. Fico imensamente satisfeito em estar errado!
— Não se anime, ele disse que não passarão de beijos.
— Claro, como se você fosse deixar. – Revirou os olhos claríssimos.
— Então você acha que posso insistir? Não estarei transpondo nenhuma barreira tentando?
— Que tipo de barreira?
— Eu não sei, o Camus só teve relacionamentos heterossexuais, não quero forçar algo que ele não queira.
— Meu amor, pelo jeito que ele te olha eu posso afirmar: ele quer. Claro, dê o tempo que ele precisa, mas por nada nesse mundo triste e sombrio você deve desistir de tentar.
— Obrigado, era tudo o que eu precisava ouvir. – Sorriu ainda mais confiante.
— Disponha, meu amor. Vou desligar por que fiquei bastante tempo com o Camie e Carlo já está me requisitando há tempos. Volto quarta, esteja preparado para me contar cada detalhe ínfimo dessa relação não tão inusitada.
— Pode deixar. Mande um beijo para seu carcamano. – Pode ouvir o amigo transmitir seu recado e o italiano retribuir.
— Ele mandou outro.
— Beijo pra você, Dite. – Sorriu involuntariamente.
— Outro, Miluxo, boa noite.
Após o fim da chamada, o grego escovou os dentes e seguiu para o quarto, sentando-se na cama velha, porém limpa e aconchegante.
Sorriu novamente ao se lembrar do ciúme irracional que sentia de Afrodite no início e por todos os bons momentos que o sueco já havia lhe proporcionado. Era um amigo fiel e excepcional.
Desenroscou-se da toalha e a usou para secar os cachos loiros o máximo que pode. Colocou roupas quentes como pijamas e deitou, deixando apenas a luz do abajur acesso enquanto mexia no smartphone até o sono vir.
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Abriu os olhos assustado. Segurando o celular com as duas mãos, pestanejou em uma tentativa de focar a tela e conseguir desligar o despertador.
Sentou-se, esfregando os olhos e bocejando. Amanhecera de modo frio, mas a chuva parecia ter passado. Pelo menos o grego não conseguia ouvi-la de sua cama.
Enrolou o edredom em torno de si mesmo para ir escovar os dentes. Enquanto escovava os dentes, segurava o cobertor com a mão livre e caminhava descalço pela casa, apesar do frio, verificando se não haviam vazamentos, mofo em excesso e se o plástico da janela não havia se soltado – novamente – devido à chuva.
Ao se aproximar do vidro, percebeu que ainda havia uma garoa fina e insistente. Voltou resmungando para o banheiro, não suportava mais passar o dia úmido como uma esponja.
Sabendo que as finas gotas de chuva lhe trespassariam o corpo como agulhas, vestiu-se do modo mais aquecido que pode. Dobrando o cachecol como Camus havia lhe ensinado tempos atrás e vestindo as luvas acolchoadas de couro preto. Pegou sua mochila no chão e ganhou as ruas de Paris.
Após despedir-se de Jean, o porteiro, sentiu o vento frio em seu rosto. Sua respiração se condensava, formando vórtices de fumaça quando abria a boca. Rumou para a lanchonete perto do metrô, sentando-se em frente ao balcão enquanto esperava seu desjejum ser requentado em um micro-ondas.
Ao seu lado havia um rádio que transmitia notícias locais e informava sobre uma possível tempestade no crepúsculo do dia seguinte. Imediatamente sacou o celular do bolso e abriu sua conversa com o sueco, que estava online.
“Que horas você vem amanhã? Terá tempestade no fim da tarde”
Após alguns segundos a resposta veio.
“Não se preocupe, eu já estarei em Paris quando ela cair”
“Cuidado”
“Você também”
Sorriu, sentia falta do amigo. Além disso, necessitava de um confidente.
Guardou o aparelho ao ver seu lanche chegar. Se alimentaria para depois seguir para o metrô.
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O grego chegou tremendo na academia. A garoa lhe atingira como folhas de pinheiro congeladas. Lembrou-se de uma das viagens em família que seus pais propuseram em raras semanas de folga. Milo e seus irmãos haviam esquiado em terras estadunidenses. Apesar dos novos esportes que pode conhecer, o caçula ainda primava pelo sol.
Se despiu no vestiário, buscando por sua melhor sunga no armário. Havia levado a preta para lavar, esquecendo-a em casa. Bateu com a palma da mão na testa ao se aperceber disso.
Optou pela branca estilo boxer, apesar de não se sentir bronzeado o suficiente para que a vestimenta lhe caísse bem.
Ao chegar na piscina, constatou óbvio, seria bem difícil entrar nela. Além disso, Camus chegaria a qualquer momento, não poderia enrolar dessa vez.
Tomando distância, invocou a imagem do francês recém banhado em Amsterdam desfilando pelo quarto. Valeria a pena. Correu, saltando de ponta majestosamente.
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Camus havia levantado cedo. Não conseguira dormir bem nos últimos dias. Milo estava virando sua vida ao avesso e, para piorar, gostava disso. Conviver com o grego lhe trazia objetivos, tornavam os dias mais interessantes. Às vezes, se pegava sofrendo antecipadamente pela partida do aluno, afinal, ele não ficaria na França eternamente. Mesmo sem entender a bagunça em seu peito formada após a tempestade que o beijo do aluno provocara, Camus podia ver que nada mudou. Eles continuavam com a mesma rotina, o mesmo cotidiano. Seriam eles um casal muito antes do beijo? Seriam eles um casal agora?
Realizou seus exercícios, arrumou a casa e fez compras, repondo os mantimentos de sua despensa.
Como não lecionava nas terças, optou por vestir-se mais informalmente com um jeans e uma camisa preta justa ao corpo. Prendeu os cabelos ruivos em um rabo de cavalo baixo enquanto se esforçava para manter dentro de si a ansiedade em ver o aluno.
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Sentou-se no mesmo banco que ocupara da primeira vez, vendo um grego belíssimo saindo da água para andar em sua direção.
— Oi. – Sorriu lindamente enquanto se aproximava.
— Oi. – Camus retribuiu sem graça, corando sem motivo aparente.
— Você está muito bonito hoje.
Então era aquele sorriso que Saga e Kanon haviam lhe alertado na festa de boas-vindas? Camus cogitou se estaria mesmo sendo uma próxima vítima.
— Você também. – Por que havia dito isso? Corou ainda mais.
— Você acha? – E lá estava novamente a expressão infantil e verdadeira estampada no rosto do grego – Eu sinto que perdi meu bronzeado... – Abaixou um pouco a sunga para mostrar a falta de contraste entre as cores de seu abdome definido e sua virilha.
Camus não sabia se ria do quão honesto e sedutor Milo poderia ser ao mesmo tempo, ou se mirava a virilha depilada.
— Bom, você ainda parece bastante bronzeado para mim. – Pelos deuses, por que estava falando aquelas coisas? Repreendeu-se mentalmente pela décima vez.
— Jura?
E Camus recebeu outro sorriso ensolarado, tomando-lhe todo o ar dos pulmões.
Estaria amando?
Balançou a cabeça para afugentar os pensamentos. Estava devendo uma resposta.
— Sim, juro.
— Obrigado! – Se impulsionou para abraçar o mais velho, molhando sua roupa com o contato – Camus! – Afastou-se bruscamente – Me desculpe, eu molhei você! – Olhava para o corpo forte do francês, preocupado com sua falta de jeito.
O ruivo estendeu a mão alva até tocar no queixo forte do grego, fazendo com que este lhe encarasse.
— Eu não estou com frio, não se preocupe.
O azul claro não conseguia desviar-se do azul escuro. Camus subiu os dedos longos de modo a segurar a face molhada em uma leve carícia. Milo, por sua vez, não entendia direito o que acontecia. O francês nunca demonstrava carinho com facilidade.
Percebendo sua atitude incomum e saindo do transe que o aluno lhe causara, Camus corou violentamente, abaixando a mão e desviando o olhar. Uma fração de segundo depois sentiu sua cintura ser enlaçada por braços fortes, seu peitoral batendo em outro, duro como rocha e seus lábios serem tomados apaixonadamente.
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Milo convidou o francês para papearem enquanto tomava banho no vestiário. Teve seu convite negado por um inseguro Camus, que ainda não se sentia pronto para ver o grego se banhando, ou para ser atacado por ele.
Ambos seguiram para o Crème fraîche em uma animada conversa. Milo falava por ambos, mas Camus não se importava. Pelo contrário, adorava ouvi-lo. Lado a lado passaram o dia no apartamento do professor, o grego imerso em inúmeras peças de roupa e o francês apenas de camiseta, sentindo-se confortável.
A noite havia sido mais ousada que a anterior. Os amantes trocaram beijos profundos e arriscaram se despir de algumas peças de roupa, mantendo, contudo, as calças intocadas.
Quando a noite caia firme, Camus decretou a hora de ir embora. Deixou o mais novo em casa sob protestos, permitindo-se sorrir ao vê-lo entrar na edificação antiga, acenando em despedida.
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A manhã seguinte transcorreu semelhante a anterior. Professor e aluno se encontraram na academia, porém almoçaram no apartamento de Camus. A tempestade estava prevista para o fim da tarde e não queriam arriscar ficarem presos na Sorbonne.
O francês se mostrava impaciente no meio da tarde. Seu irmão havia deixado Londres juntamente com a frente fria que vinha do Norte. Não havia claridade no céu, apenas as nuvens carregadas de enormes volumes de água.
Por volta da três da tarde, Camus recebeu uma mensagem de Carlo informando que chegaram a Paris, mas ainda tinham coisas a fazer antes de vir para casa. Sentindo-se menos apreensivo, o ruivo conseguiu dedicar-se melhor às dúvidas que Milo lhe incumbira.
Pouco durou. O grego não perderia a oportunidade de aproximação ao ver o professor mais relaxado. Se ajeitou no sofá do cômodo de estudos e mirou de soslaio seu alvo: o mais velho estava imerso em alguma leitura no notebook branco, depositado sobre as pernas esticadas no divã. Apoiava o rosto na palma de uma das mãos, mordendo o mindinho despretensiosamente.
O loiro mordeu o lábio inferior, cogitando a melhor abordagem.
— Camus...
— Hum. – Resmungou sem desviar os olhos da tela.
— Você ainda tem aqueles iogurtes?
— Humhum.
– Eu posso pegar um?
Enfim seu interlocutor se virou, encarando-o com severidade.
— Pelos deuses da sua Grécia, Milo! Você já é de casa, vai lá e pega, não precisa pedir. – Voltou a mirar o notebook e fez um gesto de enxotar com a mão.
O loiro franziu o cenho. Grosso. Levantou-se e foi buscar a contragosto sua bebida. Quando voltou, encostou-se ao batente da porta, observando seu objeto de desejo.
Após alguns segundos, Camus o mirou de volta, os olhos claros se destacando por cima dos óculos.
— O que foi? – Disse enquanto subia a armação fina com o indicador.
— Estava pensando, a gente podia ver aquele filme hoje. Talvez agora... – Desviou o olhar enquanto abria a garrafinha de iogurte e retirava o lacre de metal, sorrindo.
Camus levantou uma sobrancelha, esboçando um pequeno sorriso.
— Tudo bem, acho que pode ser uma boa ideia.
Quase caindo do batente, o grego o fitou com assombro, boquiaberto.
— V-você concordou comigo?
— Sim, é uma boa ideia. Estou cansado e logo a tempestade irá cair, filme é uma boa ideia.
— Tudo bem, eu também acho. – Se recompôs, fingindo que já esperava uma afirmação por parte do francês. Este por sua vez, apenas riu da atitude do mais novo.
— Vamos fazer algo para comer antes? Pipoca?
— Sim, pipoca parece bom.
Abaixou a tampa do notebook e retirou os óculos, deixando-os sobre o divã. Passou descalço pelo grego na fronteira entre os cômodos.
Ao sentir o francês passar por si, Milo sorriu felinamente. Hoje o teria para si.
Seguiu Camus até a cozinha, parando ao ver o professor vestir o delicado avental florido. As tiras finas sobre o pescoço e cintura o provocavam, causando em Milo seu instinto mais selvagem, mais predatório.
Deixou a garrafa sobre o balcão e avançou cozinha a dentro, cercando um Camus alheio ao ambiente ameaçador.
— O que pensa que está fazendo? – O ruivo parou o que fazia ao sentir a presença de Milo excessivamente próxima. Encostou-se na bancada abaixo do armário, sentindo-se preso.
Novamente dedos firmes enlaçavam a cintura moldada do francês. Camus tentou empurrá-lo, espalmando suas mãos no peitoral largo, sem efetivamente desejar romper o contato. Uma de suas mãos desceu pelo torso do aluno, parando no cós da calça jeans e contornando o corpo bronzeado até a base das costas. A outra subiu pelo pescoço, os dedos finos passeando pelo pomo de adão, indo parar atrás da orelha, enroscando-se nos cachos aloirados.
Mediante tal contato, Milo apenas fitava o rosto salpicado de sardas a sua frente com esmero quase religioso, esperando que o outro decidisse quando romperiam a distância.
Após os azuis se encontrarem, Camus franziu o cenho e puxou o grego para perto de si através da mão na base de suas costas, unindo as virilhas bruscamente.
Tomado pela ação inesperada, Milo abriu a boca em um perfeito “o”, tamanha surpresa. Aproveitando-se do momento, o mais velho tomou os lábios abertos para si, ato que foi caprichosamente correspondido.
O grego imprimiu mais força em seus braços, diminuindo ao mínimo humanamente possível a distância que separava os dois corpos. As línguas não disputavam por espaço, ao contrário, pareciam sincronizadas, enquanto uma explorava por cima, a outra ia por baixo, no momento de troca de posições, enroscavam-se deliciosamente.
Imprensando o mais velho contra o balcão do armário, Milo desceu ambas as mãos, deslizando-as habilmente pelas laterais das coxas grossas do francês, desejando retirar o moletom para sentir a maciez da nívea tez.
Camus, por sua vez, não ficava parado. Enfiou sua mão pela barra da camiseta que o grego usava, testando a ardente pele cor de bronze sob seus toques. Subiu os dedos delicadamente pela espinha, até ter o braço inteiro submerso pelo tecido ao alcançar a nuca do aluno. Enroscou novamente os dedos alvos nos cachos loiros, puxando-os para baixo.
Mediante tal ato, Milo se viu obrigado a apartar o beijo e inclinar a cabeça para trás, dando livre acesso para que o francês explorasse seu pescoço. A primeira carícia foi uma lambida no pomo-de-adão, ato que Camus desejava fazer desde o momento que seus dedos passearam por ali. Sua língua molhada subiu até o queixo proeminente, mordendo-o levemente em seguida. Milo expirou rapidamente ao sentir os dentes do professor sobre sua pele.
Passando a ponta do nariz afilado pelo contorno da face grega até chegar no lóbulo da orelha, Camus sussurrou com a voz mais rouca e grave que possuía.
— Acha que não percebi suas intenções, Milo? – Depositou um beijo atrás da orelha ao terminar.
O grego apenas sorriu, malicioso, olhando para o teto devido aos dedos em sua nuca.
— Eu tinha que fazer alguma coisa, não é mesmo? Se dependesse de você, veja bem, ainda estaríamos estudando.
Camus soltou as duas mãos do couro cabeludo aloirado e as desceu suavemente, até encontrar as de Milo em seu quadril. Entrelaçou seus dedos longos nos dele. Os olhares se cruzaram.
— Então, já que dependo de você, o que quer fazer agora? – Esboçou um pequeno sorriso, além de levantar uma das sobrancelhas.
Sentiu os dedos do grego abandonarem os seus, segurando sua face imediatamente, tomando-a em outro beijo. Este, porém, era firme e brusco, fazendo Camus ter a certeza que seus lábios ficariam vermelhos e inchados.
Interrompendo o beijo, Milo grunhiu sobre a boca do professor.
— Eu sempre quis tirar isso de você. – Postou as mãos sobre as tiras finas do avental florido, tencionando rasgá-lo. Era claramente capaz de esfrangalhar o tecido delicado em mil pedaços.
— NÃO! – O grego via Camus se exaltar pela primeira vez. Assustado, soltou o professor e levantou os braços em sinal de rendição.
— O que foi? – Perguntou preocupado.
— Se você rasgar isso o Dite COM CERTEZA me mata!
Uma gargalhada alta e gostosa pode ser ouvida pelo cômodo. Camus sorriu divertido em resposta.
Após pendurar o avental em seu devido lugar, o francês se virou para o aluno, sem saber o que fazer. Ao mesmo tempo que o queria declaradamente, também se sentia intimidado por toda a experiência do aluno.
Milo respondeu por ele, sorrindo e retirando a própria camisa, puxando Camus para outro beijo. O francês se ocupou de tocar a pele morena em todo canto alcançável. A tempestade começou, batendo forte nas paredes e ecoando pelos cômodos.
O mais novo espalmou as mãos na bunda do professor, sentindo-o retesar levemente. Girou os corpos até conseguirem sair da cozinha, esbarrando nas paredes. Claro que interromper o beijo não era uma opção.
Bateram na lateral do sofá, rindo com as faces coladas. Separando-se, Milo fitou o professor sedutoramente, espalmando as mãos no peito forte do francês e empurrando-o violentamente contra o estofado macio. Porém, Camus caiu muito próximo à beirada, rolando em seguida e caindo no tapete fofo, rindo.
— Camus! Me desculpe! – Milo logo estava ao seu lado, preocupado.
O outro não se levantou, cobrindo os olhos com o antebraço enquanto ria contidamente. Milo lembrou-se do motivo de sua persistência, de sua força de vontade. Estava ali, bem à sua frente. Bastava Camus sorrir, apenas isso.
O grego sorriu de volta, inclinando-se para beijá-lo novamente. Deitou-se sobre o professor, posicionando uma de suas pernas entre as dele, pressionando o corpo abaixo de si com seu peso.
Ao sentir o choque do corpo semidespido, Camus sentiu-se incendiar. O volume em sua virilha há muito o incomodava e sentir o de Milo não ajudava em muito.
De súbito, ouviram uma batida na porta.
Como duas crianças, ambos se sentaram rapidamente no tapete felpudo, olhando sobre o estofado chumbo em direção à porta.
— Você costuma receber visitas sem que o porteiro avise? – O aluno perguntou ainda olhando para a entrada.
— Nunca. É impossível passar pela portaria sem ser anunciado.
Do lado de fora vinha uma voz abafada que ambos conheciam muito bem.
— Não, não precisa bater! Espere um instante... Carlo!
Ambos se entreolharam, assustados. Apesar de não entenderem bem o que estava acontecendo, algo era fato: Milo deveria se vestir. Levantaram-se, ainda apreensivos.
— Eu disse que você pode ir entrando! Só vou falar com o Carlo. – O sueco gritou de forma impaciente.
De modo incrivelmente rápido, Camus empurrou Milo na direção do corredor, sussurrando “vista-se”. Aprumou-se, arrumando sua roupa do melhor jeito que pode e correu para a cozinha, esbarrando o dedinho na parede durante o percurso.
A maçaneta foi virada e uma senhora loira lhe sorriu após perscrutar rapidamente o local.
— Mãe?!
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