Notas iniciais
Oi, meus amores, como vão? Pois é, sei que nunca demorei tanto para postar, mas está complicado. Terminei esse capítulo semana passada e achei que teria tempo de betar, mas se não postar agora só posto semana que vem, então vai sem revisão mesmo. Espero que vocês não se importem ♥ Meu muito obrigada a todos os novos favoritos, acessos e a todos os comentários lindos que recebi. As melhores coisas que eu levarei dessa fic são as palavras de vocês e as amizades que fiz. Muito obrigada mesmo! Capítulo dedicado a Kiki-chan (Kiaramcg) por me acompanhar desde o início e não me deixar sumir de jeito nenhum ♥ Obrigada, amiga! ♥ Esse é o primeiro dos três últimos capítulos! Boa leitura! ♥

O abraço era sufocante, mal planejado, apertado e incrivelmente necessário.

Camus podia sentir o coração do grego trovejando junto ao seu, os músculos de seus corpos contraídos pela força. Faltava ar, mas nenhum dos dois desejava desfazer aquele nó. O cheiro, o toque, o calor, tudo soava dolorosamente familiar.

A euforia inicial havia sido substituída pela ansiedade de ambos em não saber o que iria acontecer quando o abraço chegasse ao fim. Era como se eles não se conhecessem mais, como se houvesse uma barreira que impedia qualquer leitura mútua, qualquer previsão de comportamento. Eram novamente dois estranhos.

Os braços se afrouxaram até que eles estivessem frente a frente, inseguros e tímidos. A ponte invisível entre ambos havia sido cruelmente destruída. Apesar disso, Camus colocou o primeiro suporte para a viga mestra, indicando que se Milo desejasse, ele reconstruiria tijolo por tijolo. Não que ele quisesse forçar a reconciliação, pois seu discurso havia sido verdadeiro. Milo era o amor de sua vida e estaria tudo bem se a recíproca não fosse verdadeira. Ele se despediria do grego com amor e gratidão, desejando o melhor que o mundo tivesse a oferecer. Contudo, Camus prometera para si mesmo que não mais esconderia seus sentimentos, que não mais seria o ditador que toma todas as decisões.

— Eu não acredito que você veio até aqui me dizer essas coisas... – Os olhos cor de mar do grego sorriram, encontrando conforto nos olhos claríssimos do homem a sua frente. Aqueles orbes semitransparentes o acompanharam por todo o seu refúgio na face do melhor amigo, Milo mal podia acreditar que agora os via sob as pálpebras salpicadas de sardas.

— Eu não conseguiria esperar até amanhã. – A voz grave de Camus trovejou insegura, envergonhada.

A conversa foi interrompida pelo som de um soluço curto. O contato entre Camus e Milo foi quebrado ao se virarem na direção do choro baixinho.

Afrodite comprimiu as mangas compridas do pijama entre os dedos e as palmas das mãos, abrindo os braços em um convite mudo. Camus deu alguns passos a frente, buscando redenção no homem que mais o amou e torceu por sua felicidade até então.

— Eu estou tão feliz que você veio... Tão orgulhoso...– Sussurrou em alívio, soltando todo o ar que apertava seus pulmões.

— Você sabe que é meu anjo da guarda, não sabe? – Camus sussurrou de volta fazendo o irmão sorrir.

Afrodite logo interrompeu o abraço, apontando o braço na direção do grego em um pedido mudo que Milo segurasse sua mão. Mirou cuidadosamente o ex-casal, lado a lado, com um carinho que beirava o infinito.

— Eu vou preparar algo quente para você beber, seus lábios estão roxos. – Olhou para o irmão e depois puxou ambos os homens, um em cada mão, até a mesa da cozinha do pequeno apartamento.

Enquanto Afrodite começava a preparar o café na máquina de expresso, Camus e Milo, sentados frente a frente, não desviaram o olhar. Queriam conversar, queriam fazer perguntas, queriam ouvir a voz um do outro...

— Camus, amor, pode começar a falar. – O sueco cortou o silêncio denso que se alastrava pela cozinha – Como você conseguiu nos achar? Como conseguiu chegar até aqui?

— Saori. – O francês disse simplesmente, sorrindo enquanto mirava o copo de café que lhe foi oferecido – Ela entrou no meu apartamento sem ser anunciada, já abrindo a porta, acendendo as luzes e me mandando levantar. – Camus cruzou os braços sobre o tampo da mesa, a expressão exaltando o respeito que tinha pela japonesa.

— E aposto que, como sempre, vestida de um jeito magnífico. – Afrodite queria quebrar aquele clima. Camus e Milo deveriam conversar depois, quando estivessem aquecidos e com os pensamentos limpos. Ainda não era hora.

— Mas é claro que sim. Eu pude ouvir os saltos altíssimos reverberando nos meus sonhos antes mesmo de acordar.

— Pare de agir feito homem, a gente quer detalhes! – O sueco fez uma cara fofíssima de irritação, buscando apoio no grego, que riu gostosamente.

— É, Camus, pare de agir feito homem! Queremos detalhes! – Milo arrastou a cadeira do amigo até que ele estivesse ao seu lado, ambos olhando atentamente para o ruivo que corou, envergonhado.

— Bom, ela me disse algumas coisas sobre mim, sobre meu relacionamento com ela, sobre o passado e sobre o Raul. – Afrodite estranhou que o irmão não tivesse pronunciado a palavra “pai”, mas julgou ser uma boa mudança e o deixou prosseguir – Não que eu não tivesse ouvido aquilo tudo antes, mas eu estava em uma situação tão... vulnerável... que eu pude realmente absorver a mensagem.

O ruivo observou o copo quente entre suas mãos por alguns segundos, antes de prosseguir.

— Então ela me disse que você estava aqui, Milo. – Olhou fixamente para o grego, fazendo com que o aluno perdesse momentaneamente o controle de suas ações – E eu percebi que precisava te falar tantas coisas... Que eu precisava te ver...

Afrodite apoiou o queixo nas mãos e sorriu.

— Então ela fez algumas ligações e conseguiu uma passagem da Eurostar para mim.

— O que são 180 dias de reserva quando se é amigo de Saori Kido, não é mesmo? – O sueco riu.

— Caramba! – Milo afirmou, impressionado.

— Daí ela me ajudou a fazer aquela mala – Apontou para o objeto ao lado da porta – e me expulsou da minha própria casa. Disse que se eu não saísse da França naquele momento ela me esperaria sentada na minha cama, não com um báculo ou com uma katana, mas com o modelo mais novo da metralhadora que matou todos os seus antepassados samurais. – Sorriu perante a lembrança.

— Que mulher! Santa Saori. – Afrodite acenou positivamente a cabeça, extremamente orgulhoso de possuir uma amiga tão forte, tão implacável.

Camus mirou o chão, pensando em sua trajetória até então. Seu corpo começava a pedir por descanso. Seu estado era lamentável, um conjunto de dias imerso em analgésicos para as dores de cabeça provocadas pelo choro, palidez excessiva e alimentação escassa e desregular.

— Eu... – Ganhou a atenção dos outros dois, mas não se deu conta – eu passei no Raul antes de vir para cá.

— Você fez o quê?! – O sueco se assustou, aprumando o corpo em alerta.

— Eu não quero vê-lo nunca mais... – Ainda mirando o café fumegante, Camus estava anestesiado, entorpecido.

Afrodite se levantou em silêncio, indo em direção ao irmão e aconchegando a cabeça ruiva entre seus braços em um ato maternal.

— Não existe amor incondicional, Camie. Eu te manterei longe dele se você me permitir.

Milo mirava a cena sem entender, completamente perdido. Há algumas horas atrás, acreditava que nunca havia sido amado, que nunca havia sido prioridade na vida do francês a sua frente. Agora, Camus havia atravessado fronteiras para lhe ver no meio da madrugada. Havia cumprido quilômetros de distância para anunciar que o amava. E agora descobria que, além de tudo isso, Camus havia tido uma conversa com a razão de todos os problemas entre eles?

— Sabe, eu devo ir, está tarde. – Camus se desfez delicadamente do abraço, levantando da cadeira e correndo os dedos pelos fios ruivos.

Os olhos do grego o seguiram. Estava impossível prever o comportamento do professor.

— Desculpe acordá-los a essa hora da noite. – Camus franziu os lábios timidamente, apertando o par de luvas escuras entre os dedos.

Ansioso, Milo negou a afirmação com um movimento de cabeça, a expressão facial indicando que ele tinha algo a dizer. Não queria que o professor fosse embora. Não queria que Camus achasse que havia incomodado.

— Onde você vai passar a noite? – Afrodite se prontificou – Você pode dormir no sofá. Eu e o Milo estávamos dividindo a cama.

— Não se preocupe, estou hospedado no 1112. Acho que vou embora amanhã cedo. Passo aqui para me despedir.

Milo queria, mas nenhum som saía de seus lábios. As sobrancelhas curvadas demonstravam a vontade reprimida de realizar qualquer movimento, de expressar alguma reação.

Camus caminhou até a porta do apartamento, virando-se para o grego antes de ganhar os corredores até o elevador.

— Milo, muito obrigado por me ouvir. Mais uma vez peço desculpas por não demonstrar todos os dias o quanto você é único e especial. Obrigado por todo o tempo que você dividiu comigo. – Sorriu, verdadeiramente feliz e grato – Eu amo vocês dois.

Com um sorriso satisfeito, Camus deixou o apartamento, caminhando confiante para o sono mais tranquilo de toda a sua vida.

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Chegou ao pequeno apartamento após atravessar um corredor solitário, abrindo a porta com cuidado para não acordar seus vizinhos. A sala e cozinha eram menores que as do apartamento do irmão, fazendo-o questionar se não teria sido melhor simplesmente alugar um singelo quarto. Repreendeu-se mentalmente, ele não pensaria nesse detalhe durante a reserva nem se pudesse voltar no tempo.

Tirou os sapatos, sentindo o chão frio sob seus pés. Uma garoa fina tamborilava em mil dedinhos nas janelas, fazendo com que ele se lembrasse de Paris. Ele conseguiria dormir em sua cama, agora. Estava se sentindo literalmente leve, até mesmo se sentia mais novo. Quando estabeleceu que lecionaria na Sorbonne para sempre, não havia sido uma ideia desgostosa. Ele amava a universidade e conseguiria cumprir seu objetivo de estudar para sempre e transmitir seu conhecimento. Contudo, saber que ficaria ali para sempre o fez envelhecer longos anos. Após semestres lecionando as mesmas disciplinas, tendo sempre a mesma rotina, Camus tomou aquele cotidiano como seu. Seria sempre assim.

Devido aos últimos acontecimentos, algo deveria mudar. Ele continuaria com as aulas porque gostava. Continuaria perdendo horas de estudo em sua biblioteca e cozinhando a própria comida. Mas afinal, o que mudaria? Bom, a Dra. Frontin o ajudaria a descobrir.

Retirou primeiro o sobretudo pesado, seguindo por peça por peça até estar apenas com o short do pijama que dormia quando Saori o acordou, além da blusa velha e puída. Suspirou fundo antes de arrumar a enorme cama de casal.

Toc toc

Camus virou-se na direção do som. Pestanejou algumas vezes antes de caminhar descalço até a entrada do apartamento. Abrindo sem checar pelo olho mágico, o ruivo deparou-se com Milo a sua porta, com um pijama velho e semelhante ao seu, descalço e com um travesseiro comprimido em seu peito.

— Posso dormir com você? – Lançou seu melhor sorriso, fazendo o coração do francês derreter de saudades.

Camus apenas acenou positivamente, apaixonado pelo sotaque grego que tanto o fez falta. Deu espaço para que o aluno entrasse.

Ao ver a porta da frente ser trancada, Milo sumiu pelos corredores até chegar ao quarto do pequeno apartamento, onde desfez a cama perfeita e deitou-se embaixo dos pesados cobertores. Estava se sentindo confiante o suficiente para realizar todas aquelas ações. Camus o seguiu, ligando o aquecedor do quarto e buscando um edredom extra no maleiro do guarda-roupas.

Ao ver a hesitação do francês, Milo bateu no colchão em um convite mudo que foi calmamente obedecido. Camus levantou o pesado conjunto de cobertores, sentindo o breve encontro entre as pernas peludas quando se aconchegou. Imitou a posição do aluno e ambos ficaram frente a frente.

— Oi. – Milo sorriu.

Camus não pode deixar de rir. Por todos os deuses, como o amava.

— Oi. – Respondeu, sentindo-se o convidado ao invés do anfitrião. Milo sempre teve esse poder.

— Obrigado por ter vindo me ver. – Mirou os olhos claros com carinho.

— Obrigado por ter me escutado.

— Então, – Milo desviou o olhar por uma fração de segundo – você realmente sentiu a minha falta?

— Nada em toda a minha vida foi mais difícil do que enfrentar a semana que acabou de passar. Eu não parei de pensar em você um segundo sequer.

O grego uniu as sobrancelhas em um sinal de tristeza.

— Eu também senti muito a sua falta. Achei que nunca mais voltaria a ser eu mesmo, tudo o que eu sabia era pensar em você. Acreditava que você já estava em um processo bem-sucedido de me excluir da sua vida.

— Definitivamente não foi isso que aconteceu. Eu não consegui dormir na minha própria cama, Milo.

— Por que não?

— Porque acordar sem você foi era doloroso demais.

O grego avançou, rompendo a distância entre eles. Sem tocá-lo, apenas aproximando os corpos e, consequentemente, as faces avermelhadas. O francês olhou para os lábios tão próximos aos seus e depois para os olhos agora escuros devido à escassez de luz.

— Eu não sei o que fazer a partir de agora, mas acho que conseguiremos caminhar lado a lado. – Milo franziu mais as sobrancelhas antes de prosseguir – Na minha cabeça, a nossa relação caminhava em direção a um precipício, mas apenas você o enxergava. Você não me avisou, Camus, e não estávamos de mãos dadas.

Milo buscou ar e continuou.

— Mas ao mesmo tempo, eu não fui capaz de compreender a dimensão dos seus problemas. Eu não respeitei o seu espaço e depois clamei por ele, como se aquilo me pertencesse.

— Mas pertencia. Você não conseguiu compreender a dimensão dos meus problemas porque eu não falava sobre eles. Eu não conseguia me abrir para você, Milo. E você sabe, você sabe que foi extremamente paciente comigo e só foi embora quando não conseguia mais segurar o peso por nós dois.

Camus cobriu os dedos do aluno com os seus antes de prosseguir.

— Eu sei que feri você de inúmeras maneiras. – A feição era de tristeza, como se algo o machucasse internamente ao dizer aquelas palavras – Quando eu disse que deveria ter demonstrado o meu amor todos os dias, eu falava sério. Eu entendi a importância de te mostrar que você foi e é amado. Mas isso não estava em mim, eu precisava ligar essa função, sabe? Eu não entendia como demonstrar amor era importante, imaginava que só amar já era suficiente.

— Mas era... – A voz do grego soava embargada.

— Não era. – Camus negou com a cabeça – Não era.

Os olhos de ambos brilhavam com as lágrimas que se recusavam a cair.

— E eu também entendo que para que nós dois possamos andar lado a lado eu preciso mudar, Milo, isso é inevitável. Juro que já dei início à mudança e estou dedicado a deixar a minha zona de conforto, estou me esforçando muito para isso. E eu quero muito poder te dizer que mudei, que estou pronto para ser completo em um relacionamento, mas não sei se isso seria a verdade.

— Eu não quero ficar longe de você até descobrir. – Milo inverteu as mãos, sendo ele a deitar seus dedos sobre os de Camus – Não quero te encontrar em um café em Viena daqui há alguns anos e falar sobre o passado, ver que você finalmente estará curado de todos os seus pesadelos. Eu não quero estar com você só nos bons momentos, Camus. Quero passar o processo com você, quero te dar forças e apertar sua mão quando as coisas estiverem difíceis. Quero deitar sua cabeça no meu colo e dizer que vai ficar tudo bem.

O grego apertou os dedos sob os seus antes de continuar.

— Mas para isso eu precisava saber se você realmente queria mudar. E agora eu sei.

— Eu errei tanto com você, Milo...

— E eu também errei com você. Mas acho que nós aprendemos muita coisa em todos esses meses juntos. Não quero jogar tudo o que construímos fora sabendo que podemos finalmente estar em sintonia.

— Milo... – Camus negou com a cabeça, preocupado. Ele queria o grego novamente em sua vida, mas não poderia arriscar machucá-lo novamente. Era um momento instável para si, como ele poderia ter certeza?

— Eu amo você, Camus.

Ao ouvir o aluno dizer que o amava pela primeira vez, o francês pestanejou emudecido. Ele estava instável, isso era verdade, mas ele sabia que lutaria por Milo, que o respeitaria e o amaria todos os dias. Então, por que não?

Por que não?

Amar não era suficiente, mas a vontade de mudar e de fazer dar certo dentro si seria.

— Eu amo muito você, Milo.

Ambos alongaram os lábios em sorrisos sutis.

— Antes que essa conversa acabe, preciso te perguntar algo mais.

— Eu estou aqui para você, pode perguntar o que quiser.

— Você... – Se não perguntasse naquele momento, jamais perguntaria – você um dia foi apaixonado pela Saori?

Apesar de não entender onde o outro queria chegar, Camus respondeu com franqueza.

— Acredito que sim. – As sobrancelhas do francês de curvaram enquanto sua mente buscava por memórias – Você já percebeu o quanto ela é especial, não percebeu?

Milo concordou com um aceno e Camus prosseguiu.

— Nós nos conhecemos na faculdade, como você já sabe. Eu estava na minha aula de retórica quando ela surgiu. Ela entrou uma semana depois das duas primeiras aulas pois tinha brigado com o professor da turma dela. Dizia que ele não era qualificado para dar aulas e deveria ser substituído.

— E ele era?

— Bom, quem dá aula de retórica para os alunos de Direito hoje em dia?

Viu o grego abrir a boca em surpresa e sorriu.

— Ele era realmente um homem desprezível, mas tinha uma ligação antiga com a Sorbonne, o que tornava o afastamento complicado. Sabe como é, cursos conservadores em universidades conservadoras... Alunos dificilmente conseguem ser ouvidos, ainda mais quando o professor tem anos de carreira na Universidade.

— Mas ela conseguiu...

— Ela sempre consegue. – Sorriu ainda mais, lembrando-se da garota exemplar e durona de alguns anos atrás – Bom, eu perdi o posto de melhor aluno para ela.

— Me deixe adivinhar: ficou intimidado, vocês tinham disputas na sala de aula e acabaram sentindo atração um pelo outro.

— Errou feio. Eu fiquei admirado e a chamei para sair.

O grego jogou a cabeça para trás enquanto revelava uma risada cristalina.

— Um dos maiores sonhos da minha vida é conhecer o Camus de humanas da época da faculdade.

— Bom, – Com um sorriso, Camus prosseguiu – nós saímos e nos demos incrivelmente bem. Ela era inteligente, divertida e eu poderia ouvir seus pensamentos por horas sem me cansar.

Milo perdeu um pouco da confiança que havia recuperado há pouco tempo. Camus sempre ouviu os seus pensamentos por horas. Qual seria a diferença entre ele e Saori afinal?

— Mas depois, com o tempo, vimos que nos gostaríamos para sempre. Vimos que nos dávamos bem e que nos preocupávamos um com o outro, mas nenhum dos dois desejava seguir o mesmo caminho. Nós torcíamos um pelo outro verdadeiramente, mas permanecer juntos não estava nos planos. E não houve uma briga, entende? Quando nos formamos, nós percebemos que éramos melhores amigos no fim das contas. É claro que eu não tinha muito a perder ao segui-la pelo mundo, mas, você sabe... Eu quis ficar.

Mirando os dedos entrelaçados, Milo decidiu que compartilharia seus receios.

— O meu medo é que um dia nós dois passemos por isso. Que havendo uma situação decisiva, como a minha formatura, por exemplo, tudo mude.

— Milo, você ainda não entendeu o que significa eu estar aqui hoje. Eu e a Saori nos amamos de um jeito único, mas descobrimos que estávamos interpretando esse amor erroneamente. Com você foi um caso totalmente diferente. – Em um impulso, Camus se inclinou ainda mais na direção do aluno – Eu estou me esforçando para mudar a minha vida porque você me deu forças, Milo. Querer ser uma pessoa melhor para você me deu forças. E se eu não puder compartilhar a minha vida com a sua, ainda irei querer ser uma pessoa melhor por mim e pelas pessoas a minha volta. E isso, Milo, eu aprendi com você. Eu não acho que há sentimento mais puro que esse. Não é sobre posse, é sobre liberdade.

Ainda havia mais uma pergunta a ser feita. Milo precisava falar sobre que o havia sido evitado durante todo o semestre.

— Então... quando você pensa no futuro, eu estou nele?

— Milo, meu amor, – Camus suspirou, sorrindo – você é ele.

Com os olhos úmidos, o grego sorriu. Através de uma lentidão cuidadosa, Milo soltou os dedos compridos do francês para apoiar sua mão com carinho no rosto alvo. Mirou os lábios finos e cuidadosamente os moldou com os seus. Camus não conseguiu fechar os olhos, tinha medo de acordar de um sonho cruel.

O contato, a princípio estranho e desconhecido, revelou-se familiar. Camus conhecia aquele beijo e Milo conhecia aquela entrega. Devagar, os corpos se uniram em um abraço que despia cada músculo, cada toque. Sentindo seu interior estremecer, Camus retribuiu. O contato dos lábios foi carregado de saudade e um verdadeiro encontro foi celebrado. Os dedos do francês subiram pelo corpo grego em uma carícia delicada, testando a realidade daquele momento até alcançarem a nuca e se enroscarem nos cachos aloirados. Milo segurou a cintura a sua frente por baixo da camiseta do pijama, puxando Camus ainda mais para si.

Apesar de ainda haver muito o que corrigir, ambos estavam dispostos a se dedicarem pelo sucesso do relacionamento. Naquele momento, nada estava fora do lugar.

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Na manhã seguinte, Milo foi o primeiro a despertar. Abriu os olhos levemente, conseguindo enxergar apenas o teto avermelhado. Pestanejou para se certificar que não era um sonho e levou os dedos à própria face. Sorriu ao retirar os fios delicados de seu rosto, levando-os até as narinas e inspirando o cheiro que seu antigo quarto emanava.

Deitado de costas com uma mão sobre o abdome, Camus dormia profundamente. Milo apoiou o corpo no cotovelo, observando cuidadosamente o rosto abaixo de si. Com a feição séria, examinou cada linha do francês. Tocou o centro da testa alva com a ponta de seu indicador e escorregou o dedo delicadamente pelo nariz afilado, parando no centro da boca fina. Pensou no francês pronunciado pela junção daqueles lábios rachados pelo frio e sorriu.

Bonjour, toujour, mon amour...

Rompendo o contato, Milo mirou as olheiras profundas e arroxeadas. Para si, os traços de Camus eram perfeitos. Era definitivamente o homem mais bonito da Terra. Lembrou-se de quando quis beijá-lo adormecido e não o fez por se tratar de um assédio. Porém, eles agora eram um casal e ele estava livre para amar Camus o quanto quisesse.

Com um sorriso espontâneo, natural e inevitável, Milo rompeu a distância com delicadeza, beijando sem receios os lábios ressecados. Viu os olhos semitransparentes brilharem e seu sorriso aumentou.

— Eu quero te dizer bom dia todos os dias, meu amor. – Forçou o biquinho durante a pronuncia, rindo da brincadeira secreta.¹

— Bom dia, Milo... – Camus sorriu e esfregou os olhos com as costas da mão, fechando-os novamente ao ser incomodado pela claridade – Deveríamos ter fechado as cortinas ontem a noite.

— Mas hoje nem tem sol. – O grego mirou a janela descoberta, vendo as mesmas nuvens nubladas de sempre.

— Tem sim, mas está acima das nuvens. Dias nublados com sol são os piores, os raios são refletidos para todos os lados.

— Bom, podemos usar isso como incentivo para levantar. Já é quase hora do almoço.

— Quem é você e o que fez com o Milo? – Ironizou, olhando-o de soslaio.

— Eu não posso querer levantar e resolver a vida? – Esbravejou de maneira indignada, ato que fez Camus rir. Eles brigavam como se nada tivesse acontecido, como se fossem um casal com anos de bagagem.

— Não faz muito o seu tipo. – Ao terminar de falar, Camus recebeu em seu tronco o travesseiro do grego em um golpe bem executado.

— Não faz é o seu tipo. Até onde eu saiba, quem dorme feito uma rainha aqui é você! – Devolveu com os dentes trincados enquanto se sentava para bater no outro com mais força.

— Tudo bem, TUDO BEM! – Reclamou enquanto cobria a cabeça com uma mão e levantava a outra em sinal de rendição.

— Agora vamos que eu estou com fome. – Largou o travesseiro e jogou para trás as ondas aloiradas que cobriram seu rosto no momento de fúria.

Camus sentou-se na cama com um sorriso quase imperceptível. Ele jamais conseguiria dormir sem Milo novamente. Levantou-se também descalço, seguindo-o até o banheiro.

— Vamos almoçar no hotel? – Camus perguntou enquanto buscava sua escova de dentes na pequena nécessaire.

— Pensei em comermos fora. Essa área de Londres tem restaurantes incríveis. – Respondeu enquanto esfregava o indicador coberto de pasta de dente na boca.

— Em Paris também existem ótimos restaurantes, nós que não temos o hábito de sair. – Deu de ombros, o cenho levemente franzido.

Percebendo a crise nacionalista e irracional, Milo se sentiu na obrigação de provocar. Reprimiu o sorriso e mirou o reflexo do namorado atrás de si com ar indiferente.

— Mesmo assim não teria comida melhor que a daqui. Tem um ótimo restaurante para turistas há dois quarteirões.

— Você nunca reclamou quando eu investia na culinária francesa.

— Mas não tem o que reclamar. Ambas as cozinhas são ótimas, eu prefiro a britânica, mas a francesa não é ruim. – Não conseguiu conter um pequeno sorriso enquanto observava o professor revirar os olhos em um deboche infantil.

Quando Camus voltou a mirar os reflexos no espelho, sentiu-se um idiota. Milo sorria largamente, virando-se em seguida para abraçá-lo.

— Seu estúpido. – Resmungou.

— Desculpe, eu senti muita falta de te tirar do sério. – Suspirou – Por que sente ciúmes de um pedaço de terra e não de mim?

— Mas é claro que eu sinto ciúmes de você.

— Não parece.

— Eu só não acho necessário expor um sentimento tão feio quanto o ciúme. Confio em você, sei que tudo é uma insegurança minha sem qualquer fundamento. Não considero bonito, louvável e muito menos uma prova de amor.

— Então você nunca vai brigar por mim? – Milo brincou, aproximando as faces.

— Você realmente quer que eu brigue com outras pessoas quando estiver com ciúmes de você?

— Claro que não, estou brincando. – Roubou um selinho do homem a sua frente – Mas seria inusitado ver você batendo em alguém.

— Quem sabe um dia você não me veja quebrando a cara de um idiota qualquer. – Fez movimentos de boxe no ar, fazendo Milo sorrir.

— Não quero te ver brigando por aí. Tenho orgulho do meu namorado elegante e muito bem educado.

“Meu namorado”

Camus sorriu, sentindo um calor surgir no centro de seu peito e se espalhar gradualmente, aquecendo seu corpo. Estar ali, naquele banheiro, escovando os dentes enquanto era abraçado por Milo era muito mais do que ele poderia imaginar, muito mais do que ele poderia desejar para o resto de sua vida.

Qual era o peso que uma palavra era capaz de carregar?

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Pela primeira vez, Milo guiava Camus através de ruas movimentadas, liderando a expedição Londres. Na calçada, pessoas apressadas se escondiam sob roupas pesadas, afinal o inverno começaria na semana seguinte. Os ilustres ônibus vermelhos tomavam conta das ruas, muitos até se encontravam fora da “bus lane”, faixa avermelhada e reservada para transportes públicos.

Camus olhava para Milo com espanto contido enquanto desviava dos demais transeuntes. O grego seguia na frente, quase sumindo sob tanto tecido, a mão enluvada segurava a sua com força e, por um momento, o ruivo pareceu entender.

Então era assim.

Era assim que pessoas que amavam se sentiam.

Olhou para a cascata aloirada a sua frente como se mais nada existisse, as pessoas ao seu redor se tornando rabiscos desfocados, em um mundo onde apenas Milo importava. Seus olhos seguiram uma trilha pelo pescoço e braço até encontrarem os dedos entrelaçados.

Então era assim.

E assim, foi decidido que esta seria a sua prioridade. Aqueles dedos enlaçados aos seus seriam o combustível para ir à psicóloga, para revirar seu passado, para mudar o seu dia a dia. Ele não era mais um homem sozinho.

Como seria envelhecer ao lado dele? Camus sorriu, se imaginando de cabelos brancos, com um livro na mão, indo encontrar seu esposo também grisalho na saída da promotoria.

Milo se virou de repente, fazendo com que os olhares se encontrassem.

— Por que diminuiu o ritmo? Estou com fome! – Franziu o cenho.

Ao contrário do que imaginava, Camus não se sentiu um idiota por ser pego fantasiando. Um sentimento deliciosamente agradável tomava conta de si e ele definitivamente não o deixaria escapar.

Sorriu largamente, o que fez com que Milo levantasse uma sobrancelha. Por fim, o grego deu de ombros e voltou a puxá-lo, costurando por entre uma manada de pessoas, cercado por prédios altíssimos que aparentavam cortar as nuvens cinzentas ao meio.

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Almoçaram em um restaurante grande, porém aconchegante. A contragosto, Camus elogiou a comida.

Passaram a tarde ajudando Afrodite a terminar de desmontar a galeria. O sueco estava em êxtase com os acontecimentos da noite anterior e assumiu que mal havia conseguido dormir. Tinha ligado para Carlo e o incomodou durante toda a noite com seus devaneios. Camus era importante em demasia para si e ver a felicidade do irmão era o mesmo que viver sua própria felicidade. Conversava eufórico e assumiu já ter contado para quase todos as importantes notícias. Por incrível que pareça, não foi repreendido.

— Mamãe ficou completamente fora de si, nem preciso falar. Ela estava ensandecida no Skype.

— Deve ser por isso que haviam 12 chamadas dela no meu celular quando acordei. – Camus revirou os olhos – Eu fico impressionado com o quanto você é capaz de produzir em uma madrugada.

Os três estavam sentados na pequena mesa da cozinha da galeria, tomando o café buscado pelo grego.

— E você não retornou? – Milo se indignou.

— Depois eu converso com ela. – Deu de ombros.

— Camus, é sua mãe! Eu daria qualquer coisa para ter uma mãe presente e que se importa como a sua.

— Ele tem razão, é sua mãe! – Afrodite lhe deu um tapa no ombro – Além disso, ela está curiosa para saber sobre o Raul. Todos estamos.

Camus não disse nada, se limitando a fitar o copo de isopor entre seus dedos.

— Mas isso fica para depois. – Afrodite prosseguiu, percebendo que aquela não era a hora certa – Eu posso ser sua mãe presente e preocupada, Milo.

Os três tentaram segurar uma risada, que porventura escapou.

— Você faz mesmo o estilo mãe, Dite. – Milo pontuou.

— Eu sei, serei uma ótima mãe e uma ótima esposa no futuro. Nunca tive dúvidas.

— Comigo você fez um ótimo trabalho. – Camus deu de ombros.

— Isso é verdade. – Milo esfregou o queixo com o indicador, olhando para o namorado – quando nos conhecemos eu te julguei completamente impenetrável. Porém, depois que tive acesso a sua vida pessoal, percebi o quanto você é manipulável. – Sorriu ao ver a expressão ofendida na face do francês.

Em segundos o ruivo se recompôs, pronto para responder.

— É verdade. – Disse simplesmente, bastante sério e fazendo Milo rir alto.

Camus sorriu e aguardou que o grego se acalmasse.

— Então você concorda? – Finalmente estava em condições de falar.

— Claro que concordo. – Suspirou, resignado – Eu sei que sou uma pessoa trouxa.

— Fora todo aquele “Veste um casaco, Milo”, – Afrodite engrossou a voz para imitar o irmão, fazendo o sinal de aspas com os dedos – “Não fique sem almoço, Milo”, “Olhem pra mim, eu sou muito sério”, “Milo, comprei seu iogurte favorito”, “Eu sou muito sério, tá ouvindo, Milo?”.

Foi a vez do grego gargalhar e Camus enrubescer. Com dó, o grego se aproximou, passando os braços sobre a cintura do namorado e lhe dando um beijo estalado na bochecha. Afrodite observava tudo com um sorriso no rosto. Ele havia aprendido com Shun, o namorado de seu irmão mais novo, que há um nome específico quando você torce pela felicidade de um casal, sendo indicado pelo verbo imaginário “shipar”, advindo da palavra “relationship”. Torcer por aqueles dois, ou “shipar” aqueles dois sempre foi e sempre seria a sua função.

— Sabe, aproveitando que estamos em Londres, tem uma expressão na língua inglesa que eu acho que combina tanto com vocês... – Afrodite pontuou, recebendo a atenção do casal – É a expressão “home from home”, que significa mais ou menos “casa longe de casa”. Eu acho lindo como cada um de vocês é a casa longe de casa do outro. – Sorriu ainda mais, não se importando de compartilhar seus devaneios.

— Aaaaawn... que bonitinho! – Milo sorriu, apertando o namorado ainda mais contra seu corpo.

— Minha nossa, Dite, você é muito brega. – Camus negou com a cabeça, fazendo uma expressão de desgosto.

Os três riram em seguida, aproveitando aquele momento de paz antes de retornarem para casa.

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Camus não havia conseguido uma passagem de volta no mesmo voo dos outros dois. Iria embora em outra frota e em outro horário.

Carlo havia ligado para o lembrar que, pela primeira vez na história, ele faltaria a uma aula. Como poderia ter se esquecido da aula de segunda? Era sua profissão! Milo o tinha feito passar por muitas primeiras vezes.

Por sorte o cunhado havia avisado à Shion que Camus havia sido obrigado a fazer uma viagem de emergência. O chefe do departamento se encarregou de informar aos alunos através do moodle.

No início da noite, os três seguiram juntos para o aeroporto. Milo gostaria de ter visitado Londres na companhia do namorado com mais afinco, mas o francês lhe prometera que iriam voltar, assim como voltariam em Amsterdam. E iriam apenas por diversão.

O voo de Milo e Afrodite saiu antes, deixando o ruivo sozinho por mais algumas horas até seu embarque. Aproveitou para escrever um email à turma, se desculpando pelo infortúnio e criando uma enquete para que os alunos decidissem qual seria o melhor horário para a reposição da aula perdida. A prova iria acontecer na quinta-feira e não havia mais conteúdo a ser estudado. A aula de segunda havia sido reservada para dúvidas gerais, até mesmo em respeito à formatura.

Levantou os óculos de armação fina com o indicador ao ouvir seu voo ser anunciado. Enfim voltaria para casa.

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Quando entrou em seu apartamento, Camus notou a luz da copa acesa. Porém, o silêncio o incomodava. Será que Milo havia ficado com os gêmeos por mais uma noite? Ao alcançar o corredor, sorriu ao ver a figura loira recolocando os cabides no guarda-roupa.

— Você demorou. – Disse enquanto arrumava a gola de um sobretudo que havia comprado com Afrodite em Londres.

— O trânsito estava ruim. A chuva veio acompanhada de vento, então tudo fica um caos.

— Mesmo sendo quase uma da manhã?

— Humhum. – Camus acenou enquanto retirava o cachecol avermelhado.

— E vai nevar? – Virou-se para o namorado, entristecido. Definitivamente não queria neve.

— Não sei. Não é sempre que neva em Paris. O pior é que, apesar de eu gostar muito da neve em si, tudo se transforma em um grande inferno. – Começou a se despir, colocando toda a roupa usada no cesto do banheiro, não considerava aviões limpos o suficiente para reutilizá-las – As ruas ficam cheias de lama e tudo fica imundo.

— Achei que você teria opiniões melhores a respeito da neve.

— Bom, eu particularmente acho lindo acordar e ver lá da sala os telhados branquinhos. Mas quando sou obrigado a sair de casa... – Fez uma careta – a quebra da magia é inevitável.

— O que mais me preocupa é o frio. Eu odeio neve. – Milo virou-se, enfático. Admirou o corpo a sua frente e se preocupou internamente, Camus havia emagrecido.

— Mas você já sobreviveu à metade. No quesito clima os piores meses são novembro e fevereiro.

O grego pensou em toda a chuva, vento e frio que havia enfrentado nesse final de outono. Fez uma careta ao imaginar que haveria outro mês tão ruim quanto.

Camus seguiu para o banho, encontrando o namorado na cama ao sair. O grego já estava deitado, apenas com a lamparina de leitura ligada, deixando o quarto com sombras amareladas.

— E quais os planos para a semana? – Milo levantou o edredom para acolher o ruivo que havia terminado de se vestir. Deitaram-se lado a lado.

— Bom, amanhã de manhã irei até a Sorbonne me explicar para o Shion.

— O que vai dizer?

— Que não estava muito bem e tive que fazer uma viagem de emergência. Todos já haviam percebido isso mesmo... – Deu de ombros – Como é minha primeira falta eu não estou preocupado.

— E a tarde, Sr. Responsável? – Sorriu, se aproximando do corpo ainda gelado.

— Vou buscá-lo na academia para almoçarmos – Camus abraçou Milo com carinho, olhando para cima como se pensasse arduamente sobre o assunto – e se você animar, podemos resolver a questão da sua licença para pilotar.

— Caramba! Eu nem me lembrava disso!

— Que desfeita com o presente dos seus irmãos. Tsc. – O mirou com falsa recriminação – Mas depende do horário que meus alunos votarem para a reposição. Deixei a enquete no moodle até a hora do almoço.

— Qual o melhor horário para você? Digo, em qual horário devo votar?

— Honestamente, tanto faz. – Cogitou por uns instantes – Pensando bem, no meio da tarde parece bom, porque aí podemos olhar sua habilitação, eu dou aula e ainda acabaremos cedo. Dá tempo de ir comer alguma coisa no Le Chaos.

— Fechado. – Milo selou o assunto com um beijo no queixo alvo. Olharam-se por alguns segundos, até o grego moldar os lábios finos com os seus em um beijo amoroso.

— Eu amo você. – Camus deslizou sua mão pela face dourada, iluminada pela luz da lamparina.

— Eu também te amo. – Beijou-o novamente.

Mãos se esgueiraram por dentro dos pijamas, aproximando os corpos. O grego mordeu o lábio inferior do namorado após um beijo intenso e fuzilou os olhos claros com os seus. Apertou a pele branca sob seus dedos com desejo, ouvindo um som delicado do ar que deixava os pulmões do homem a sua frente. Subindo sobre o corpo grego, Camus o mirou profundamente, imerso apenas no som pesado da chuva. A lamparina foi apagada com um clique, deixando a iluminação por conta da claridade da cidade ao redor, ao mesmo tempo em que os toques recomeçavam.

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No dia seguinte, Camus deixou Milo na academia antes de seguir para a Sorbonne. A conversa com Shion correu tranquilamente. O chefe não estava bravo, e sim preocupado.

No almoço, Afrodite e Carlo se juntaram para contar sobre os planos de formatura. Os alunos receberiam seus diplomas em uma cerimônia que aconteceria ao final da tarde de sábado. À noite, todos os alunos se encontrariam em uma última e memorável festa.

Checando a enquete, Camus viu que a maioria dos alunos optou por aula às 15h, o que permitiu que os planos com o grego funcionassem.

Devido às autoridades francesas não reconhecerem qualquer carta de habilitação estrangeira, seria necessária a realização do teste teórico, o Le Code, e posteriormente o teste prático caso o grego quisesse pilotar a moto em Paris sem qualquer restrição. Milo conseguiu agendar o teste teórico para quando voltasse da Grécia, pois deveria receber seu diploma uma semana depois do término do semestre em Paris.

O resto do dia passou tranquilamente. Camus se surpreendeu em ver a turma completa na aula de dúvidas, todos ali queriam se formar. Sorriu ao seu lembrar da quantidade de estudantes no primeiro dia e da grande porcentagem que desistiu após a primeira avaliação.

À noite, enquanto comiam despretensiosamente no Le Chaos, Milo mordeu o lábio inferior antes de fazer uma pergunta ousada.

— Camus, você realmente não vai me contar o que vai cair amanhã? Eu não estudei, você sabe...

— Não. – Simples e direto. O ruivo nem ao menos se limitou em olhar para seu interlocutor, apenas remexia seu sorvete com a pazinha de plástico na cor rosa.

— Mas não é justo! Eu estava na mesma situação que você. – Empertigou-se, apontando o indicador acusatoriamente para o rosto alvo e indiferente.

— Não se faça de vítima. – Camus resolveu entrar na briga – Você estudou o semestre inteiro e sabe todo o conteúdo da disciplina.

— Não estou me fazendo de vítima, só não quero ser reprovado e ter que fazer uma única matéria semestre que vem. E pior, na Grécia! Você quer que eu passe seis meses em Thessaloniki, Camus? É isso? Você quer se livrar de mim?

— Pelos deuses, Milo, como pode ser tão dramático... – Massageou a têmpora, irritado.

— Não é drama, você vai me reprovar! – Oscilava entre bravo e choroso.

— Acha mesmo que eu iria te reprovar, Milo? – Camus o fitou seriamente.

— ...

— Responda! – Agora estava mesmo colérico. O grego falava sem parar e agora ficava em silêncio?

— Não sei... – Coçou a cabeça, indeciso sobre sua resposta – Você me ama, – Levantou o indicador da mão esquerda – mas também é um excelente profissional... – Levantou também o indicador direito, mirando os dois ao mesmo tempo.

— Você quer a prova? Tudo bem, então eu lhe darei a prova. – Retomou o ar blasé e voltou a tomar seu sorvete despreocupadamente.

— ...

Milo cogitou sobre o que acontecera em silêncio. O francês havia concordado? Bom, ele realmente queria aquela prova e passar na frente de seus amigos? E Marin? A ruiva não era sua melhor amiga? Ele era mesmo melhor que ela somente por namorar o professor? Problemas pessoais não eram uma exclusividade sua, todos tinham. Além disso, teve a chance única de estudar um semestre inteiro com Camus, coisa que nenhum aluno da Sorbonne teve. Era claro o quanto estava preparado.

— Quer saber... não precisa me passar a prova. – Disse cruzando os braços sobre a mesa, envergonhado de suas atitudes.

O ruivo apenas sorriu levemente, sem tirar os olhos do próprio sorvete. Psicologia reversa sempre funcionava.

– Muito bem. Estou orgulhoso de você. – A voz grave se destacou acima do som baixo do jazz nos alto-falantes.

— Obrigado...

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Na quinta-feira, todos os alunos combinaram um almoço coletivo após a última prova do semestre. Quando o último estudante deixou a sala, Camus o seguiu, fechando a porta atrás de si. Olhou para o grego no jardim a sua frente, cercado de amigos em uma conversa animada. O namorado lhe retribuiu o olhar e sorriu, fazendo com que Camus sorrisse também.

O ruivo seguiu para o estacionamento, almoçaria no Crème fraîche e voltaria para corrigir as provas até Milo deixar a confraternização.

Enquanto ganhava os corredores, pensava em como seria voltar ali no semestre seguinte sem o grego. Além disso, queria andar de mãos dadas com o namorado, como em Londres. Queria poder dizer a todos coisas do tipo “Não posso, o Milo está resfriado e tenho que ficar cuidando dele” ou “A reunião pode ser por volta das 14h? Milo e eu precisamos comprar uma geladeira nova no horário de almoço”.

Suspirou profundamente, sem arrumar uma solução. Não haveria jeito, teriam que esconder o relacionamento por um tempo pelo bem do futuro de ambos.

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Na sexta, o casal dividiu a faxina e fizeram as compras da semana. Carlo e Afrodite apareceram no horário de almoço.

— Já temos tudo pronto para a formatura amanhã. – O sueco disse entre uma garfada e outra.

— Mas é claro que tem, vocês das Belas Artes são muito responsáveis. – Camus rebateu.

— Queria que meus alunos de História seguissem o exemplo. – Carlo suspirou, fazendo com que os demais rissem.

— Mas ainda não decidi o que usar na festa a noite! – Afrodite completou em tom choroso, não percebendo o olhar suspeito que Carlo havia lançado à Camus.

— Não se esqueça que vamos jantar com a mamãe antes da festa, pense nas duas roupas para não nos atrasar amanhã. – O francês pontuou.

— Eu ainda não pensei sobre isso, mas não pode ser tão difícil. – O grego volveu com a boca cheia. A repreensão não veio, todos já estavam acostumados a tal hábito.

— Como que não pode ser difícil, Milo? – O sueco volveu indignado – É a sua formatura, pelo amor dos seus deuses!

— O importante é que não vou tirar os olhos de vocês dois. – Carlo formou um “V” com seus dedos e apontou para Milo e Afrodite de uma só vez.

— Não se preocupe, não quero nunca mais sujar a lataria do Cadillac do Camus. Eu nunca esqueci do abraço gelado que ele me deu no estacionamento. – O loiro sorriu, virando-se para o namorado – Pode ir dormir despreocupado, ninguém irá ligar para você pedindo socorro.

— Mas não há motivos para que eu me preocupe. Não sairei do seu lado amanhã à noite. – Camus disse dando de ombros.

Por alguns segundos, ninguém realmente entendeu o que havia acontecido. Completamente chocado, Milo ousou perguntar.

— Camus... você vai me acompanhar na festa? – Estava receoso, porém com uma ponta de esperança.

— Mas é claro. Você é meu namorado agora. – Levantou os olhos, sorrindo.

O grego parou o que estava fazendo, incrédulo. Com um grito de alergia, jogou seu corpo sobre o ruivo, derrubando ambos no carpete enquanto gargalhava de felicidade.

Notas finais
[1] A brincadeira de Milo faz referência à frase francesa "Eu quero te dizer bom dia todos os dias, meu amor", ou seja, "Je veux te dire bonjour, pour toujours, mon amour", cheia de "biquinhos", como ele havia invocado a lembrança de Camus falando em seu idioma nativo segundos antes. É minha gente, eles se entenderam ♥ E teremos uma festa no penúltimo capítulo! E o Camus vai nela? Será que dará tudo certo? Ah, finjam que a capa é o Dite shipando os dois, ok? xD Amores, obrigada por me acompanharem até aqui! Eu só tenho gratidão a oferecer em troca ♥ Espero que o final agrade e que a fic tenha divertido vocês. Um beijo bem quentinho pq aqui em BH ta frio Até o próximo ♥ P.S.: A música desse capítulo é Abrigo, da Roberta Campos c: (sugestão perfeita da minha amada Dri)