Um estrangeiro em Paris
31 Admiração
Notas iniciais
TOC TOC TOC
— Anda, Milo! Não estamos por sua conta, não! – Camus bateu na porta do banheiro com uma mão enquanto segurava o notebook branco com a outra.
— Já estou indo! Pare de me incomodar!
Após ouvir a voz abafada do namorado, Camus sentou-se na beirada da cama com uma careta em sua face. Olhou de soslaio para a poltrona, sobre a qual um terno impecável esperava por si. Usava os minutos restantes de sua pequena folga para resolver assuntos relacionados à Sorbonne. Tinha que fechar oficialmente o diário letivo antes da formatura, mesmo que todos os alunos já estivessem com as notas em mãos.
O ruivo levantou a cabeça ao ouvir o som da porta a sua frente ser aberta e ajeitou os óculos de armação fina com o indicador. Veria Milo sair do chuveiro todos os dias e ainda assim seria incapaz de não desejar que a toalha enrolada na cintura delgada caísse. Seu pescoço girou junto com o movimento do mais novo.
O grego passou por Camus, indo buscar sua roupa na biblioteca – havia deixado seus pertences longe do quarto por medo de arruinar todo o trabalho que Camus havia tido durante a manhã, separando ternos e becas cuidadosamente.
— Não olhe para a minha bunda. – Advertiu ainda de costas, antes de deixar o cômodo.
Camus assustou-se.
— Eu não estava olhando!
— Claro, como se isso fosse possível. – Gritou do corredor, prepotente, fazendo o francês sorrir.
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Após terminar seu banho, Camus fez a barba cuidadosamente e se vestiu no banheiro. Jogou a gravata escura sobre o colarinho e abriu a porta com o intuito de dar o nó enquanto verificava o andamento das atividades do namorado. Para a sua surpresa, Milo ainda não havia se vestido. Estava de bruços na enorme cama, vestindo apenas uma cueca folgada enquanto mexia vigorosamente no smartphone.
Camus sentiu seu sangue ferver. Milo iria se formar! Seu irmão iria se formar! O namorado deveria estar pronto.
Olhou em sua volta, vendo seu cachecol vermelho sobre a poltrona. Antes de pegá-lo, livrou-se do paletó e da calça social com rapidez, não queria que tais vestimentas fossem amassadas. De cueca boxer, camisa social completamente abotoada e cachecol vermelho em mãos, Camus andou até a cama, engatinhando sobre o corpo seminu do namorado.
— Ei, o que você está...
Os braços do loiro foram puxados para trás em uma velocidade impressionante, fazendo com que o celular caísse sobre o colchão macio. Camus prendeu os pulsos do mais novo com uma mão enquanto puxava a gravata do colarinho com a outra. Lembrando-se do acontecimento na biblioteca, usou a gravata para imobilizar qualquer movimento do grego.
— CAMUS!
—Shhhh... – Usou o cachecol para vender os olhos azuis de Milo, sorrindo sadicamente durante o processo – Agora nós vamos conversar, você e eu.
Milo gemeu ao tentar se mover. Camus sentou-se em seus glúteos, não deixando de tocar as mãos unidas do homem abaixo de si com seus dedos longos em um carinho discreto.
— Você só tinha um trabalho, Milo. Qual era?
— Formar? – Gemeu.
— Antes disso. – O sotaque parisiense estava carregado, cada pronuncia caindo como gotas de chumbo líquido dos lábios finos.
— Ficar pronto. – Milo gemeu, Camus estava sexy demais.
— Isso mesmo. E você ficou pronto em tempo hábil, Sr. Halkias? – Escorregou seu corpo pelas coxas torneadas, deixando o tronco forte exposto para si.
— Não...
— Isso mesmo, você não ficou pronto. – O francês subiu o pano macio da cueca do namorado, expondo uma das nádegas firmes. Com os dedos bem abertos, deu um tapa estalado e ouviu o namorado gemer outra vez, logo o formato da palma de sua mão surgia na pele clara.
— Camus...
— Você precisa ser punido por isso, Milo. – Deu um novo tapa, mais forte que o anterior.
— EI! – Grunhiu.
— Desculpe, eu machuquei você? – Preocupado, Camus inclinou o corpo sobre o namorado e retirou a venda avermelhada.
Uma risada cristalina escapou dos lábios grossos do grego.
— Você precisa ser mais firme, Camus.
Emburrado, o francês afastou os cachos dourados e depositou uma mordida generosa na nuca exposta. Milo grunhiu novamente, ouvindo um gemido em algo que aparentava ser russo. Camus sorriu, espalhando diversas mordidas mais brandas enquanto inspirava deliciado o cheiro do homem que tanto amava.
Resolveu libertar os pulsos do grego, massageando carinhosamente a área avermelhada pela pressão da gravata. Milo foi guiado pelo colchão até segurar com ambas as mãos na borda da cama, ajoelhado de costas para o francês. Com a mão espalmada nas costas largas do amante, Camus o fez inclinar o corpo, deslizando os dedos até o cós da cueca macia, admirando a imagem a sua frente.
Milo sentiu os braços fortes do namorado, cobertos pela camisa social, circundarem sua cintura, os dedos deslizando pelos músculos de seu abdome. Camus pressionou o corpo forte com o seu, fazendo com que Milo tivesse que aguentar o peso de ambos. Descendo a mão delicadamente, o francês decidiu parar seus movimentos no cós da virilha, inclinando o pescoço sobre o ombro do loiro para verificar o que seu tato indicava.
— Cueca nova? – Sussurrou com a voz grave ao ver o short, agora apertado, moldar o falo ereto do namorado.
— Humhum. – Não conseguiu responder ao sentir os dedos alvos cobrirem sua extensão.
— E você estava pensando em ir na formatura com isto? – Indagou com rouquidão propositada, ainda acariciando de cima para baixo.
— Qual é o problema? – Sorriu rebelde, ainda mais corado devido à excitação – Vai me dizer o que devo ou não vestir, Camus? – Pronunciou de forma provocante.
— Jamais seria um namorado tão abusivo... – Mordeu levemente a orelha do grego antes de prosseguir – Somente sinto que não poderia me controlar em público sabendo que está usando isto. – Apertou o volume com delicadeza, ouvindo a respiração do outro falhar – Por que, veja, – enfiou ambos os dedões pela borda da cueca frouxa como se fossem ganchos e abaixou o tecido suficientemente para que o membro do grego saltasse de lá, vibrando – é muito fácil libertar você.
— Camus... – Milo abaixou a cabeça, mirando o próprio pênis, agora refém dos dedos alvos do namorado.
— E depois de liberto, como eu poderia não o tocar? – Segurando firmemente a base com uma mão, começou a masturba-lo com a outra. Era fácil, pois nessa posição Camus sentia como se masturbasse a si mesmo. O loiro pareceu derreter a sua frente, como um biscoito de açúcar sob a incessante chuva parisiense.
Com um leve pressionar dos dedos, Camus começou a subir e descer o prepúcio do mais novo em um ritmo lento, porém cadenciado, enquanto uma de suas mãos subia para acariciar um dos mamilos enrijecidos. A língua deslizava pelo pescoço exposto até alcançar o lóbulo da orelha, mordendo-o e sentindo os pelos deliciosamente arrepiados. Apesar de ser quem protagonizava os toques, Camus se sentia assustadoramente excitado. Beijou delicadamente a nuca descoberta antes de aumentar o ritmo, deliciando-se com o gemido rouco que escapou do grego que se controlava a sua frente.
Camus levantou o braço esquerdo e inclinou o rosto para frente. Milo o observou lamber a palma da própria mão, sem entender o que viria a seguir. Quando julgou que sua mão estava devidamente lubrificada, Camus cobriu a glande do namorado e realizou movimentos circulares, como se abrisse uma maçaneta redonda, sem interromper o bombeamento com a mão direita. Jogando a cabeça para trás, Milo chamou pelo homem que o tocava.
O grego se sentia completamente estimulado. O corpo inteiro ardia em chamas, tenso e contraído, esperando pelo orgasmo que sabia que Camus não permitiria tão cedo. Tentava ignorar o quão próximo do clímax estava para não sofrer tanto quando o toque fosse cessado, mas estava sendo complicado com toda a precisão do francês. Cerrou os olhos com força, decidindo sentir a carícia que lhe era dada com atenção. Os dedos subiam e desciam com maestria, a palma quente e lubrificada deslizava por todos os seus pontos sensíveis. A onda vinha e ia, cada vez se aproximando mais, prestes a sufoca-lo.
Então Camus parou.
Como salvo de um afogamento, Milo abriu os olhos azuis e puxou todo o ar que seu pulmão era capaz de abrigar, sentindo a agonia tomar conta de si.
— Camus... – Girou o corpo, choroso.
— Fique de quatro para mim. – Apesar de sustentar um tom autoritário, o grego conhecia aquela entonação. Camus estava tão excitado quanto ele mesmo.
Obedecendo, Milo ficou de quatro no colchão, esperando a próxima ordem ou o próximo toque. Seu corpo estava sensível em expectativa.
Sem notar, Camus mordeu o próprio lábio inferior. Sentou-se sobre os joelhos enquanto seus dedos passeavam pelo corpo do namorado sem rumo, imerso na mais pura admiração. Tendo a intimidade de Milo ali, exposta para si, o francês olhou para o próprio membro, terrivelmente ereto entre suas pernas e exigindo ser tocado. Suspirou antes de abrir as nádegas definidas, lambendo o indicador antes de fazê-lo deslizar carinhosamente pela fenda rosada.
Assustado pelo toque, Milo quase se esquivou para frente, porém, teve seu corpo preso no lugar pela mão grande do amante envolvendo sua perna. Soltou um gemido longo sob o toque interminável. Como se analisasse algo de extrema delicadeza, Camus uniu a ponta de sua língua ao indicador em movimentos de subida e descida, fazendo o loiro fraquejar.
— Ca-mus... pelos deuses... o que você está fazendo comigo?
O francês não ousou parar, mas se sentiu satisfeito em estar acertando. Milo merecia mais, Milo merecia tudo. Inseriu o dedo mindinho em meio as lambidas, não notando qualquer desconforto por parte do namorado, muito pelo contrário.
Quando percebeu que o corpo a sua frente estava pronto e relaxado o suficiente, Camus se ajoelhou sobre a cama. Reparou, admirado, na curvatura que as costas largas faziam e não se deteve em tocar a pele macia, contornando cada músculo cuidadosamente. O grego em si era uma obra de arte. Sugeriria que Afrodite o pintasse para poder admirá-lo até mesmo em sua ausência.
Ofegando, Milo ordenou que prosseguisse. Como saindo de um transe, Camus obedeceu. Era impressionante como o loiro sempre possuía o controle da situação.
— Uhm... estamos com um problema... – O francês levou os dedos até a franja farta, puxando os fios acobreados para trás.
— O que foi? – Virou o pescoço o suficiente para mirar os orbes claros.
— Não temos mais camisinhas. – Mordeu o lábio inferior enquanto se remoía em arrependimento.
— Como não temos? – O grego disse em tom recriminatório.
— Não temos, oras. Acabou e fiquei de comprar hoje quando saíssemos.
— Bom... – Milo pensou que poderia ser um bom momento para dar mais um passo no relacionamento que eles construíam – eu nunca transei sem camisinha na vida... Acho que talvez estejamos prontos para isso. – Sorriu de maneira tímida.
— Nunca?!
— Eu nunca tive um relacionamento sério, Camus, você sabe.
Camus tossiu algumas vezes, pensando na melhor maneira de externar o que passava em sua mente.
— Você já fez isso muitas vezes? – Milo indignou-se, sentindo um ciúme irracional.
— Só com a Saori! – Defendeu-se rapidamente – Além disso faço exames regularmente e não há nada de errado comigo!
— Sorte a sua que ela é minha amiga agora! – Bufou, ignorando o horroroso sentimento de posse que o assolava. Quem era ele para julgar o que Camus havia feito no passado? O importante é que eles estavam juntos e ele o havia escolhido.
— Então... vamos dar esse passo? – Camus coçou a nuca, tentando desviar sua timidez.
— Acho que estamos prontos. – Milo sorriu confiante, derrubando qualquer estranheza no ambiente e tornando o momento acolhedor e único novamente.
Com carinho, tempo e paciência, Camus conseguiu introduzir seu membro no grego. A sensação era singular para ambos, pois naquele momento eles estavam unidos em todos os sentidos. Além disso, a responsabilidade daquele ato, o comprometimento futuro, todo o significado inerente ao ato deixava tudo ainda melhor.
Quando o intervalo entre as estocadas diminuiu, Milo se sentia próximo, não contendo os grunhidos roucos que abandonavam sua garganta. As gotas de suor corriam quentes por seu rosto e molhavam a cama.
Camus, por outro lado, parecia não estar presente. Ser deliciosamente comprimido pelo grego havia lhe tirado os sentidos. O suor ultrapassava as sobrancelhas partidas, as gotas caindo sobre os olhos nublados de desejo que pestanejavam para afastá-las. Não controlava a força de seus dedos no quadril, usados para impulsionar o grego que se mexia, entrando em ressonância, fato que o faria se arrepender no dia seguinte ao ver as marcas avermelhadas maculando o corpo do amante.
O orgasmo veio primeiro para Milo, arrebatando-o de tal maneira que Camus não pode suportar por muito mais tempo. Caíram separados sobre a cama gigantesca, arfando sofregamente. O grego mirou a bagunça causada pela falta da camisinha e esboçou um sorriso, que logo se transformou em uma risada cristalina. Camus o acompanhou, ainda incrédulo pelo ato recém ocorrido.
As vozes graves ecoavam pelo quarto, abafando o som do relógio de pulso sobre um dos móveis ao lado da cama. O tempo corria.
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Afrodite não havia dormido direito, acordando primeiramente Carlo e, em seguida, o casal do andar de baixo. O sueco havia ligado para seus pais insistentemente, pouco se importando com a diferença de fuso. Tudo tinha que funcionar perfeitamente naquele sábado.
Milo se encarregou de ajudá-lo com a vestimenta e Camus assumiu o preparatório final para receber as visitas que passariam alguns dias nos dois apartamentos. Apesar da organização em massa no dia anterior, sempre faltavam coisas para ajeitar.
O desembarque de Natássia, Bengt e Hyoga aconteceria momentos antes da formatura. Hyoga viria sozinho, pois as aulas eram encerradas em março no Japão, fazendo com que seu namorado não obtivesse permissão dos pais para comparecer a formatura de Afrodite.
Carlo se prontificou em buscá-los no aeroporto e levá-los diretamente à Sorbonne após auxiliar o cunhado nos detalhes finais. Visualizando o horário em seu relógio, seguiu apressadamente em direção ao enorme quarto do casal.
— Amore mio, hora de ir. Estou descendo e depois vou ao aeroporto. Qualquer coisa me ligue, capito?
Não obtendo resposta, o italiano deu alguns passos até parar atrás de seu amante, não percebendo que suas mãos tremiam secretamente. Sorriu para o reflexo na penteadeira, vendo Afrodite largar o pincel que usava para se maquiar e lhe retribuir o sorriso.
— Só isso? Eu não mereço nem que você se vire e me dê um beijo? – Carlo sorriu de um jeito que o namorado considerava cafajeste e charmoso.
— Amor, eu estou no meio de um processo aqui. – O sueco fez um muxoxo, pois se deixasse seu posto iria perder completamente a sequência de sua maquiagem. Levantou a mão delicada para que o namorado a tocasse, sentindo o contato da pele quente contra a sua.
— O que este batom vermelho escuro está fazendo fora da nécessaire principal? – O italiano apontou para o vidro vermelho vivo sobre a superfície da penteadeira – Você já está usando um batom avermelhado.
Afrodite sorriu, surpreso e orgulhoso do desempenho do namorado.
— É que não gostei deste que estou usando. Quero um mais escuro para combinar com meu vestido.
— Então você pode atrapalhar este que está usando agora, certo? – Carlo formou uma lua minguante com os lábios grossos, fazendo o outro rir baixinho.
— Vem aqui. – Afrodite segurou o queixo anguloso, depositando cuidadosamente um beijo sobre a barba malfeita que cobria a face do italiano.
Sorrindo apaixonadamente, Carlo se mirou no espelho, dando uma atenção especial para a tatuagem momentânea dos lábios do amante em sua pele.
— Tudo bem, por hora eu estou satisfeito.
O sueco riu novamente, oferecendo um lenço entre o indicador e o polegar, ambos com as unhas longas e finas, pintadas em um preto reluzente.
— Não, obrigado. – Negou em um aceno de cabeça e um movimento com a mão, fazendo o namorado sorrir ainda mais. Afrodite amava a quantidade de gestos utilizada pelo amante para responder perguntas simples. Italianos...
— Vai sair assim?
— Por que não? – Carlo levantou uma sobrancelha, petulante. Obteve um aceno de rendição como resposta.
— Agora me deixe terminar, sim? Hoje eu preciso estar perfeita.
— Você já é perfeita. – Sorriu antes de depositar um beijo no topo das ondas platinadas – Então estou indo. Nos encontramos na Sorbonne, amore mio.
Um beijo lhe foi soprado, antes do sueco recuperar sua concentração. Carlo parou no batente da porta, mirando o amor de sua vida uma última vez antes de deixar o quarto.
Enquanto fechava a porta da frente, viu Milo sair do elevador.
— Olá, Uxô! – Imitou a pronúncia de Camus em uma brincadeira. As vezes o francês se perdiano idioma e chamava o namorado de Milô, quase imperceptível para os demais, mas não para si. Carlo era um bom observador na maior parte do tempo, atento a tudo que estava a sua volta.
— Olá, Mask! – Milo riu – Dite está de bom humor ou muito ansioso?
— Acredito que a segunda opção, mas ainda não está mal-educado. Aproveite!
— Obrigado. – Se despediu rindo, vendo o homem alto sumir pelas escadas.
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— Camus! Camus! – Atravessou a porta de entrada do apartamento do cunhado em puro desespero.
— O que houve, homem?! – O francês surgiu assustado no corredor.
— Eu o deixei lá. – Respirou fundo, sorrindo de nervosismo e felicidade simultaneamente.
— Trouxe com você? – Camus esboçou um largo sorriso, andando em direção ao italiano.
— Sim, trouxe! Veja só, é hoje! – Retirou uma caixinha do bolso frontal da calça social, abrindo-a imediatamente.
Havia ali um belíssimo anel de noivado. A estrutura era fina e delicada, sustentando uma encantadora pedra de diamante. Era feminino e sutil, mas de maneira alguma imperceptível, assim como Afrodite.
— Pelos deuses, ele vai gritar tão alto. – Camus fez uma careta.
— Eu não estou me aguentando! Quero subir e propor agora mesmo!
— Não, senhor! – Camus se portou atrás do italiano gesticulador, guiando-o com destreza pela sala e corredor até chegarem no quarto – Você vai sentar naquela poltrona e me esperar terminar de passar a minha camisa.
— Camus... – Choramingou – Você não faz ideia do que eu tive que aguentar para não propor a minutos atrás.
— Não, nem comece. Você aguentou firme até agora, planejou isso o semestre inteiro. Não te deixarei arruinar tudo no último segundo. Sossegue que logo logo chegará a hora de ir ao aeroporto.
— Preciso de uma ocupação. – Passou as mãos pela face, estava nervoso.
— Vejamos só o que você pode fazer... – Olhou em sua volta, tendo uma ideia – Já sei, separe alguns edredons do maleiro para o Hyoga, por favor?
Sorriu ao ver o cunhado parar de tremer os joelhos e se levantar. Se tudo corresse bem, seu irmão teria o melhor dia de sua vida.
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— Pronto, como estou? – Virou-se para Milo, que terminava de ajeitar sua beca no plástico.
— Uau! Você vai estar mais bonita e elegante que qualquer outra garota. Inclusive, Shina e Marin ficarão com inveja.
— Elas não vão ficar com inveja, pare de rivalizar mulheres. – Ralhou – Elas vão estar tão lindas quanto eu, e falo isso com toda a certeza do mundo.
Milo mirou o teto, tentando imaginar como as amigas estariam vestidas para a formatura, sorrindo ao constatar o óbvio.
— Tem razão, elas vão estar incríveis. Foi um comentário machista, me desculpe.
— Está desculpado. – Sorriu.
Afrodite vestia um vestido longo e estreito de cor vermelho sangue. O tecido grudava em seu corpo, suspenso apenas por duas alças finíssimas nas extremidades de seu peito. Nos pés, sandálias de salto alto e tiras finas completavam o visual elegante. O cabelo estava partido de lado, fazendo com que as longas ondas platinadas caíssem como penteados dos anos 20. Por fim, exibia no rosto impecável um batom da mesma cor do vestido e olhos carregados, sustentando cílios longuíssimos.
— Você acha que vão implicar com sua roupa? – Milo tocou em um assunto delicado, porém relevante.
— Acredito que não. Realmente a Sorbonne é bastante conservadora, mas as pessoas que estarão lá são funcionários de alto cargo que nunca sequer nos viram perambular pelos pátios. E meu nome engana, além de estar com a beca por cima do vestido. Não acho que irão me repreender na hora da entrega do diploma.
Carlo havia cogitado informar Milo sobre os futuros acontecimentos, mas Camus o alertara. Sabia que o namorado ficaria sorrindo feito bobo, entregando a surpresa de bandeja para o sueco.
— Agora vamos descer porque eu já não aguento mais ficar aqui! – O nervosismo de Afrodite começava a aflorar. A universidade havia sido a melhor época de sua vida e ele desejava encerrar tal etapa de forma memorável. Mal sabia ele que outras pessoas teriam o mesmo propósito naquela noite.
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Camus ouvia o som das vozes do namorado e do irmão vindas da sala. Quando terminou de separar a roupa de cama dos convidados, colocou seu paletó e olhou ao redor, torcendo para não estar se esquecendo de nada. Fechou os botões enquanto ganhava o corredor na direção da conversa, varrendo os detalhes em sua mente uma última vez. Tudo deveria ser perfeito.
— Dite, tudo pronto, Carlo já foi para o aeroporto e nós podemos... – Camus sentiu as palavras o abandonarem – Pelos deuses, você está incrível!
— Eu sei. – Afrodite deu uma última olhada em seu reflexo na parede de vidro. Puxou metade das longas ondas platinadas para frente, mantendo o penteado planejado.
O francês o encontrou sobre o tapete felpudo, segurando suas mãos e o olhando de cima a baixo. Afrodite estava belíssimo! Se bem que, com aquela roupa, sabia que o irmão iria preferir pronomes e adjetivos no feminino. Pois bem, estava belíssima.
— Até eu estou arrependido de não colocar um vestido. Me sinto apagado nesse terno. – O grego sorriu.
— Milo, eu nunca vi seu cabelo tão desalinhado e volumoso, você definitivamente não está apagado e terá sorte se o deixarem entrar. – O ruivo completou e o namorado sabia que havia sido um elogio. Trocaram sorrisos cúmplices.
Por mais que Afrodite amasse observar por longas horas a troca de olhares entre o irmão e o melhor amigo, estava nervoso e sua ansiedade aumentava.
— O sol está começando a enfraquecer, nós já podemos ir? – Uniu as mãos em um aperto involuntário, seus dedos se cruzando com força.
— Claro, meu bem. – Camus deu passagem para que ambos seguissem na frente, vendo Milo desviar do caminho e passar na cozinha para pegar uma garrafa de iogurte.
— Não acredito que você vai tomar isso. – Afrodite o mirou com espanto.
— Eu não estou de maquiagem, não vai atrapalhar nada. – O grego deu de ombros, tirando o lacre e bebendo no caminho.
Os melhores amigos começaram a discutir enquanto Camus mirava o apartamento cuidadosamente antes de trancar a porta. Tudo aparentava estar onde deveria estar. Sorriu, pensando que aquele fim de semestre não poderia ser mais imprevisível.
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A entrada da Sorbonne contava com uma pequena multidão que se aglomerava em frente ao auditório principal. Inúmeros formandos conversavam com seus familiares, portando a beca cor de vinho tinto ainda em seus braços. Afrodite desconfiava que alguns de seus colegas de classe poderiam ser barrados por conta do excesso de cores em seus rostos. Alguns deles usaram a própria face para um último trabalho acadêmico, o que era desafiador até mesmo nos tempos atuais.
O sueco já estava coberto pela beca bordô, trocando o peso de uma perna para a outra ansiosamente. Perscrutava o ambiente com os olhos claros em busca do namorado e de sua família.
Camus sentiu o bolso vibrar, buscando pelo celular em seguida.
— Algum problema? – Atendeu receoso, era Carlo.
— Nenhum, só estou com dificuldade para estacionar na área comum. Vou ter que ir para o estacionamento dos professores. Você poderia buscar todo mundo para que a Senhora Natássia não tenha que andar tanto?
— Em primeiro lugar, senhora não, meu querido. – Camus pode ouvir a mãe se pronunciar em tom ofendido – Em segundo, acha mesmo que minhas pernas não dariam conta de sustentar esses saltos?
— Carlo, diga que já estou indo. E outra, essa mulher foi a primeira bailarina do Bolshoi Moscou durante anos, não a ofenda. – Sorriu, antes de deslizar o dedo pela tela do celular, encerrando a chamada.
— O que houve? Sabia que algo daria errado. – Afrodite gemeu.
— Fique calma, nada deu errado. Todos já chegaram e está tudo bem, só vou buscá-los no estacionamento principal já que o Carlo não consegue achar uma vaga mais próxima. – Disse gesticulando para que o irmão sossegasse.
— Ah sim. – Suspirou, satisfeito.
— Você vem comigo, Milo? – Camus ofereceu a mão ao namorado, esquecendo-se momentaneamente de onde estava.
Afrodite não deu tempo para que o amigo respondesse.
— De jeito nenhum! Acha que eu vou ficar sozinha aqui?!
Camus mirou o namorado com certo assombro. O sueco estava começando a perder o controle.
— Pode ir, Camie. Nos encontramos depois. – Seus olhos tranquilizavam o mais velho, indicando que seu papel naquele momento era ao lado do melhor amigo.
O ruivo sufocou um sorriso, assentindo com um aceno de cabeça. Girou o corpo em seu próprio eixo, colocando-se em movimento através dos pátios e corredores da universidade.
Após um tempo caminhando, sozinho e já distante do auditório, sua mente começou a invocar lembranças da família completa, bombardeando-o como as gotas das chuvas agora tão frequentes. Involuntariamente seus passos se tornaram apressados, a madeira do solado de seus sapatos ressoava no corredor em um “toc toc toc” constante. O sol começava a se pôr e um vento frio corria pelos pátios solitários.
Quando deu por si, pessoas começaram a aparecer nos corredores anteriormente vazios, indicando que seu destino se aproximava. Ao chegar no estacionamento principal, localizou sua família em meio a inúmeras pessoas vestidas com pesadas peças de inverno. Seria possível que Afrodite sentiria frio a noite? Se ele usasse um agasalho no jantar acabaria se arrependendo pelo resto de sua vida.
Se esquivando de desconhecidos, Camus conseguiu alcançar seus pais. Foi recebido por sorrisos calorosos, abraçando sua mãe, o irmão caçula e por último o padrasto sueco. Bengt era elegante como Afrodite, apesar de muito mais alto. Possuía cabelos, barba e cílios tão claros quanto um dia de verão grego.
Sentiu-se saudoso. A mãe estava magnífica como sempre e Hyoga estava maior do que se lembrava, com feições mais adultas. O padrasto havia conseguido manter o semblante bondoso, paciente e gentil que havia permeado sua infância.
— Sejam bem-vindos. – Sorriu verdadeiramente, ansioso por aquele dia – Como foi a viagem?
— Perfeita. – Natássia respondeu animada – Eu e o Bengt conseguimos vagas na primeira classe da Lufthansa, foi um dos voos mais tranquilos que tive em toda a minha vida.
Camus levantou uma sobrancelha.
— Você estava em Estocolmo, mãe?
O primogênito viu a russa dar de ombros e considerou melhor as fofocas feita por Afrodite. Estariam ambos tendo um caso? Se fosse verdade, ele não poderia estar mais feliz.
— E você, Hyoga, como foi?
— Foi ok, só queria que o Shun estivesse comigo, mas fora isso deu tudo certo. – O caçula possuía ondas selvagens em seus cabelos claros, não tão rebeldes quanto as de Milo, mas longe de estarem alinhadas como as de Afrodite. Vestia um terno sob medida e uma gravata avermelhada.
— Você está grande. – Camus sentiu-se velho. Nada era mais desmotivador em relação a idade que ver pessoas mais novas atingirem o auge da vida adulta. Isso significava que o seu auge havia passado. Apesar disso, envelhecer não o assustava. Ele já sabia o que era melhor para si e isso facilitava muito as coisas. São vantagens que apenas o tempo fornece.
— Eu sei. – Hyoga retrucou, sorrindo.
Camus virou-se para o padrasto, os olhos perdidos na tentativa de criar um diálogo.
— Como está Estocolmo? Muito frio nessa época do ano?
O sueco lhe sorriu, surpreso por ser questionado.
— Muito frio. – Respondeu com um francês limitado. Bengt falava russo devido à convivência com Natássia, mas tudo o que sabia de francês havia aprendido na escola. Camus não conversaria em russo naquele momento pois Carlo não entenderia e ele não desejava ser rude.
— Bom, Afrodite e Milo estão nos esperando no salão do auditório principal, vamos cortar caminho por aqui? – Gesticulou, falando de maneira mais limpa e devagar, sendo entendido por todos. Carlo se despediu, indo estacionar o carro na ala reservada aos professores.
Conversaram amenidades no caminho, finalmente em um russo claro para que todos pudessem participar. Hyoga contou rapidamente sobre a faculdade, Shun e a família japonesa tradicional que o namorado possuía. Natássia pontuou que a próxima formatura seria a dele e o caçula revirou os olhos com os comentários óbvios da mãe. Camus e Bengt se mantiveram em silêncio enquanto observavam a discussão entre mãe e filho, fazendo com que o francês percebesse que talvez parte de seu comportamento e personalidade haviam sido diretamente influenciadas pelo padrasto e ele nem ao menos havia se dado conta. Ambos eram silenciosos, atentos e adoravam ouvir as pessoas amadas com carinho e dedicação. Além disso, ambos eram calmos e extremamente pacientes. Pelo o que Camus se lembrava, Bengt sempre era a pessoa que preparava as refeições. Ainda criança ele havia tido alguns momentos de ensinamentos na cozinha.
Ele se segurava para não sofrer naquele momento. Não era hora de se arrepender por não ter dado o valor merecido, de não ter chamado o sueco de pai. Aquele definitivamente não era o momento ideal para pensar sobre isso.
Chegando no hall principal do auditório, Afrodite rompeu a distância que os separava rapidamente, abraçando Natássia e Bengt ao mesmo tempo, soltando o ar aprisionado em seus pulmões em um suspiro de alívio. Recebeu inúmeros elogios e votos de felicidades. Agora só faltava Carlo para que o momento fosse perfeito.
Natássia abraçou o grego com muita animação, feliz de poder vê-lo novamente e apresentá-lo ao caçula e a seu ex-esposo como o namorado de Camus.
— Então você é o famoso Hyoga. – Milo estendeu a mão para cumprimentar o russo.
— Olá. – Deu um sorriso educado enquanto retribuía o aperto de mãos, claramente desconfortável em ser sociável.
Naquele momento, Milo viu seu namorado estampado no mais novo dos três. Hyoga era tímido e recluso à primeira vista, assim como Camus. Muitas vezes deveria ter a timidez confundida com má educação ou rispidez. E lá estavam os olhos característicos daquela família. O grego desejou saber o sobrenome de Natássia, se Camus havia lhe contado ele havia esquecido. Era injusto que aqueles três tivessem sobrenomes diferentes da matriarca, pois aquela família era claramente dela. Milo foi além, pensando na injustiça de só o nome do pai prosperar, quando em muitas vezes nem presente o homem é. Por sorte as coisas estavam mudando e crescia a tendência dos filhos herdarem o sobrenome dos dois progenitores.
Camus se portou ao lado do namorado, impedido de fazer além disso. Havia visualizado alguns de seus ex-alunos chegando e deveria se manter imparcial. Ele só estava ali para saudar o bom trabalho do aluno e ver o irmão se graduar, “mera conveniência”.
— Camie, onde está Carlo? Por que a demora? – Afrodite disse com a voz preocupada, sendo abraçado pela mãe em seguida.
— Calma, meu amor, ele só foi estacionar o carro e já vem. – A russa respondeu.
— Dite, você e o Milo não querem ir entrando? O aviso para que os formandos se alinhem logo será dado. – Camus foi ignorado. Afrodite só entraria após ver o namorado surgir por entre a multidão.
Bengt esticou os braços em um convite mudo. Afrodite se aninhou em seu peito, aparentemente mais controlado. Camus pestanejou perante a cena, sentindo-se ainda mais desolado. Aquele homem abraçava protetoramente seu único filho, vestido em roupas completamente femininas, maquiado e portando saltos altíssimos. Para si, aquela cena era comum e delicada, contudo, pensando socialmente, aquilo seria um absurdo para a maioria dos pais. Doía pensar que aquele homem gigante que abraçava Afrodite com carinho e cuidado havia desejado ser seu pai e não fora correspondido.
O francês sacudiu a cabeça, aquele não era o momento. Milo sentiu o desconforto do namorado e pousou os dedos sobre a base das costas largas, fazendo um carinho discreto.
— Está tudo bem?
Camus acenou para os olhos cor de mar. Realmente estava tudo bem.
— Carlo! – Afrodite se soltou do ninho protetor para encontrar o namorado com visível alívio.
— Amore, o que ainda está fazendo aqui? Você e o Milo precisam entrar!
— Tudo bem! – Sorriu, confiante – Vamos, Uxo? – Ofereceu a mão para o melhor amigo, que prontamente aceitou.
— Sentem-se na frente e na extremidade do corredor, quero ver todos vocês! – Afrodite gritou, recebendo um coro de “boa sorte” e “estamos orgulhosos de vocês”.
O momento havia chegado, eles deveriam entrar. As conversas há muito guardadas deveriam ficar para depois.
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Camus e Carlo haviam guiado os demais até um dos bancos mais favoráveis ao desejo de Afrodite. Todos ficariam visíveis e acessíveis. Logo antes da cerimônia começar, Saga e Kanon surgiram até o local indicado pelo francês. Os gêmeos estavam estudando para a audiência que teriam com Saori e com a juíza encarregada do processo na semana seguinte. De acordo com a japonesa eles deveriam arrumar as malas, pois o caso estava ganho.
O encontro de Saga e Camus foi adulto e compreensivo. O mais velho dos gêmeos entendeu e acreditou nas palavras do irmão, fazendo com que o francês fosse bem-vindo à família de maneira efetiva. Mais uma vez, todas as possíveis conversas foram adiadas para o fim da cerimônia.
Pontualmente no horário indicado no convite da colação, os formandos adentraram no imenso auditório, sendo recepcionados por uma banca de docentes da Sorbonne, contendo o reitor e os diretores dos departamentos envolvidos. Naquele momento, Afrodite e Milo puderam ver seus familiares orgulhosos de si. A universidade pode ser simultaneamente a melhor e a pior fase da vida de uma pessoa e vencer essa etapa era digno e louvável.
O nome de Afrodite foi um dos primeiros da grande lista de alunos e logo um desfile solene e confiante pode ser visto enquanto a belíssima garota loira abraçava o professor que representava seu curso e assinava o livro de formandos antes de pegar seu diploma. Carlo não foi capaz de resistir, gritando algo incompreensível em italiano, enquanto batia palmas. O orgulho que sentia era puramente genuíno.
Quando o grego foi chamado, Camus foi o primeiro a se levantar e bater palmas, seguido pelos gêmeos. Milo abraçou Shion e buscou pelos olhos claros do namorado enquanto atravessava o palco para assinar seu nome. Ele estava se formando em Paris, com Camus Sivan, o ídolo de sua graduação, batendo palmas para si. Aquele momento era só seu.
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Camus se ergueu e bateu palmas para cada um de seus alunos favoritos, pois incrivelmente ele se lembrava de todos, até os que não haviam cursado o último semestre consigo. Se orgulhava dos futuros profissionais que deixariam aquela universidade, sabendo de cada dificuldade enfrentada, cada desafio superado e cada aprendizado absorvido.
Quando a turma de direito foi finalizada, Carlo se aproximou do cunhado para uma pergunta discreta.
— Philippe não se formou, não é?
Camus negou com um aceno antes de responder.
— Ficou apenas pela minha disciplina. – Apesar da seriedade em sua voz, ele sorriu.
— Os pais dele vão surgir, você sabe, não é?
— Não tem problema, eu tive que aguentá-lo por três semestres consecutivos e a nota dele simplesmente não muda. A culpa não é minha, tenho tudo registrado.
— Espero que ele seja expulso por baixo desempenho. – Carlo não tinha remorso em sua voz, lembrando-se do medo que sentiu todas as vezes em que o francês petulante ameaçava Afrodite apenas por existir.
— Eu também. – Camus confidenciou em um sussurro. Se alguém o ouvisse, aquele seria seu fim. A Sorbonne era bastante rígida com regras relacionada à ética de seus profissionais.
Voltaram a assistir o restante da colação, ambos tentando apagar a imagem de Philippe em suas mentes e substituí-la pela imagem de seus respectivos amores.
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Ao fim da cerimônia, muitas fotos foram tiradas para registrar o momento. Camus se atreveu a abraçar um sorridente grego pela cintura para uma foto. Milo aproveitou o momento para criar um álbum especial sobre o intercâmbio, exigindo fotografias com cada um de seus amigos.
Após retirarem as becas, as turmas se despediram momentaneamente. Como a festa universitária aconteceria no fim da noite, muitos estudantes aproveitariam o tempo para comemorar com seus familiares presentes. Milo havia convidado os gêmeos para um jantar em conjunto com a família do namorado e, consequentemente, do melhor amigo.
O jantar de comemoração aconteceu em um dos estabelecimentos mais elegantes de Paris, escolhido por Natássia por se tratar de um dos seus restaurantes favoritos, o Chanson. Uma mesa longa, capaz de acolher todos os convidados foi reservada com dificuldade, pois o local era amplamente disputado em dias de formatura na Universidade de Paris.
O ambiente íntimo e repleto de familiares trouxe perfeição ao momento único na vida dos formandos. Ambos estavam prontos para começar uma nova etapa da vida, prontos para serem acolhidos pelo mundo. Por mais difícil que a nova trajetória se mostrasse, nenhum dos dois estaria sozinho, todos os presentes naquela mesa reforçavam tal fato.
O Chanson compreendia um enorme salão circular, cercado por um jardim verde vivo, no qual as plantas eram iluminadas por pequenas lâmpadas circulares. Dentro do salão, o piso refletia lâmpadas de filamento que desciam do teto como uma chuva de estrelas. A mesa era coberta por um tecido perolado, sustentando arranjos de rosas de diferentes cores claras.
Natássia se ocupou em saber mais sobre a família do novo genro, impossibilitando momentaneamente que os gêmeos pudessem interagir com os demais. Curioso como era, Milo tentou alguma interação com o caçula do namorado, constatando que sua intuição estava correta. Hyoga era apenas tímido, mas sabia ser interessante e convidativo quando à vontade. Camus e Carlo ouviam Afrodite inteirar o pai das novidades, já que Bengt não era um adepto ao Skype como Natássia. As conversas se estenderam durante toda a refeição.
No fim do jantar, uma música lenta começou a tocar, fazendo com que alguns casais rumassem para o centro do salão, comemorando suas conquistas. Carlo lançou um olhar apreensivo para o cunhado, que acenou em um movimento imperceptível para os demais.
— Dite, amore, quer dançar comigo? – Ofereceu, recebendo como resposta um sorriso claro com um dia em Amalfi. A propósito, Amalfi seria um local mais que apropriado para uma lua de mel, pensou o italiano.
— É claro que eu quero dançar com você. – Afrodite se levantou, oferecendo a mão alva para o namorado.
Ainda sentado, Carlo mirou os olhos claros a sua frente, levantando-se sem desviar o olhar. Recebeu a mão delicada na sua, sorrindo de um jeito enigmático e apaixonado. Espalmou a mão livre nas costas pequenas, sentindo o tecido macio do vestido avermelhado. A partir daquele momento, apenas o som dos saltos pode ser ouvido pelo italiano. A música foi abafada, as pessoas desapareceram, apenas Afrodite existia para si.
Camus puxou Milo abruptamente, interrompendo a conversa animada que namorado travava com Hyoga.
— O que foi?!
Como resposta, o grego recebeu apenas dois tapas leves em seu ombro, indicando que ele deveria se virar para o centro do salão. Todos pararam de conversar aos poucos, inclinando seus corpos em direção à pista de dança.
— Você está linda. – Carlo deslizou seus dedos rudes pela cintura fina, segurando os dedos alvos com a outra mão.
— Você está mais. – Afrodite lhe sorriu, retirando a mão livre do ombro largo e contornando a gola do paletó negro que o namorado usava distraidamente.
— Eu sei que você já sabe, mas eu preciso te dizer mais uma vez. – Carlo varreu o rosto a sua frente lentamente, parando na pequena pinta sob um dos olhos claros – Eu me apaixonei por você no momento em que te vi. Eu me lembro de parar o café no meio do caminho, antes do copo alcançar minha boca, e só te observar passar como um raio na minha frente.
— Você já me disse isso. – Sorriu com diversão.
— Mas eu preciso dizer de novo.
— Você sabe que isso não é possível, não é? Você nem me conhecia, como poderia me amar?
— Essa é uma pergunta interessante. Você acredita em destino, amore mio?
— Você sabe que não. – Inclinou a sobrancelha em desafio e sorriu ainda mais.
— Pois eu acho que estamos destinados a passar a eternidade juntos. – Disse confiante.
— E como você pode ter tanta certeza? – Havia desafio em sua voz.
— Eu te conheço a minha vida inteira, Afrodite.
Os olhos claros vacilaram, o sorriso desafiador substituído pelo deleite em ser pego de surpresa. O italiano prosseguiu, balançando ambos os corpos ao som da música lenta.
— Eu conheço o som dos seus passos, cada item do seu portfólio de manias, conheço a frequência com que seus olhos piscam... Eu consigo prever seus movimentos porque você faz parte de quem eu sou. Estamos em harmonia há muito tempo.
Afrodite deslizou os dedos pelo pescoço do namorado até pousá-los sobre o cabelo grisalho na nuca. Seu olhar havia sido feito cativo pelo olhar cruelmente hipnotizante do italiano.
— É incrível o quanto eu sou capaz de te admirar. – Carlo divagava em voz alta – Você distribui amor, assim como a deusa dona do seu nome.
— Carlo... – Inclinou a cabeça, pestanejando para afastar a umidade de seus olhos cuidadosamente pintados – Você vai me fazer chorar! – Bateu de leve no peito forte a sua frente.
— Eu amo você, Dite. – Disse seguro de si e de sua afirmação.
— Eu também amo você. – Dessa vez, os dedos longos se aventuraram pela face morena – Mais que tudo nesse mundo. – Sorriu.
E então Carlo soube que o momento havia chegado. Libertou suas mãos e afastou-se do corpo quente rente ao seu, recebendo um olhar de dúvida.
Todos na mesa olhavam para o casal. Milo apertou os dedos de Camus contra os seus, prevendo o que estava prestes a acontecer, e só os largaria quando o momento chegasse ao fim.
Ainda prendendo o olhar de Afrodite ao seu, Carlo foi incapaz de conter um largo sorriso de felicidade. Então, sob fina observação de todos os familiares presentes, o italiano se abaixou lentamente em um só joelho, retirando uma caixinha de veludo do interior de seu paletó. Afrodite levou ambas as mãos à face surpresa, cobrindo os lábios avermelhados com os dedos trêmulos.
— Afrodite Hillesheim, – Abriu a caixinha e sentiu seus próprios olhos umedecerem – você quer se casar comigo?
Como em um passe de mágica, o tempo havia sido congelado para o sueco. Toda aquela situação seria real? Há muito tempo atrás seu príncipe encantado aparecera, oferecendo amor e dedicação. Carlo havia estado ao seu lado em todos os momentos, havendo sol ou chuva. Nada importava para o italiano, absolutamente nada. Sua identidade de gênero nunca havia sido questionada, assim como a orientação sexual de ambos¹. Nenhuma opinião alheia era determinante, muito menos o posicionamento da Sorbonne com relação ao relacionamento de ambos. Carlo era muito mais que seu príncipe encantado. Ele era o cavaleiro fiel e protetor, pronto para defender e exaltar sua rainha. Ele sempre estaria ali, de joelhos para si, mostrando sua fidelidade e comprometimento.
Incapaz de pronunciar qualquer palavra e ciente de que sim, aquele momento era real, Afrodite apenas acenou, sentindo as lágrimas deslizarem abundantes por sua face e por seus dedos.
Ainda sorrindo, Carlo mostrou a palma de sua mão em um convite, esperando que os dedos do namorado ali pousassem. O toque foi suave, porém vacilante. O delicado anel de diamante encaixou-se perfeitamente, como se fizesse parte do corpo de Afrodite. O italiano se levantou com uma risada cristalina, rodeando a cintura fina em um abraço apertado antes que um beijo fosse roubado.
Camus foi o primeiro a explodir em palmas, sendo seguido pelos membros da mesa e por observadores anônimos, atentos a cena. Em poucos segundos todo o restaurante prestigiava aquele belo momento.
O francês soltou o ar há muito aprisionado em seu pulmão. Afrodite merecia. Por todos os deuses, como ele merecia. Ele não conseguia parar de aplaudir.
O casal retornou a mesa sob calorosa recepção. Milo, Kanon e Natássia gritaram em euforia para que o sueco exibisse o anel. Surpreendendo a todos, Hyoga foi o primeiro a exigir um abraço do irmão do meio. Carlo foi abraçado por um sorridente Camus, logo em seguida por um orgulhoso Bengt. Atrás de seu gêmeo, Saga observava a cena com atenção. A alegria de Milo era genuína. Já completamente inserido naquela família louca e amorosa, o caçula com certeza seria feliz. E pelo visto ele e Kanon também haviam sido adotados.
— EU PRECISO LIGAR PARA A SAORI! – A voz de Afrodite provocou um silêncio mortal, fazendo com que Camus imediatamente realizasse uma chamada de vídeo para a amiga, passando seu smartphone para o irmão em seguida.
A japonesa atendeu, belíssima como sempre e tendo como fundo o ambiente neutro e elegante de alguma corte.
— Seja breve Camie, estou no meio de um julgamento.
— SAO AMIGA EU VOU ME CASAR, OLHA!!! – Afrodite mostrou o anel para a câmera frontal, completamente vibrante de alegria.
— AH NÃO, MENTIRA! – Saori imediatamente cobriu os lábios pintados com os dedos, ciente de que não podia gritar naqueles corredores. Sorrindo como se tivesse feito uma travessura, a japonesa correu sob os saltos até alcançar as calçadas de Nova Iorque, deixando que alguns fios se soltassem do coque intencionalmente casual – Eu não acredito nisso! Eu vou ser a madrinha principal, não vou?
— É claro que vai! – O sueco gritou do outro lado da linha.
— Eu queria tanto estar aí... – Bateu com o pé na calçada para afastar a frustração – Parabéns, meu amor, você merece tanto isso! Tudo de bom que está acontecendo na sua vida agora foi cultivado, Dite. Eu não poderia ter recebido uma notícia melhor que essa.
— Obrigada, Sao... – Iria chorar novamente.
— Deixe-me ver todos! Estou com saudades! – A japonesa piscou para afastar as lágrimas, rindo de alegria.
Afrodite virou o celular no modo paisagem, andando até que todos coubessem na tela. Carlo estava atrás de si, pleno. Ao seu lado Milo sorria, sendo abraçado discretamente por Camus. Natássia acenava entre Hyoga e Bengt e os gêmeos completaram um coração com as mãos, gratos por todo o trabalho que a japonesa havia feito por eles.
— Estão todos aí? Oi, gente! – Acenou, contente – Me contem tudo, como foi o pedido, alguém gravou?
Uma conversa animada tomou conta, deixando o momento ainda mais animado. Ainda em êxtase, Afrodite só sabia sorrir. Tudo estava perfeito em seu mundo particular. Aquele havia sido o melhor dia de sua vida.
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Ao fim da reunião, todos se dividiram entre os carros disponíveis após a despedida dos gêmeos. Carlo e Afrodite iriam juntos, levando Natássia e Bengt no banco traseiro. Apesar de querer compartilhar a felicidade do irmão, Hyoga optou por escapulir de conversas românticas, além de ganhar um tempo a mais com o grego. O russo planejava comprar sua primeira moto e Milo o encorajava, sendo o dono de detalhes valiosos que nem Camus nem Afrodite seriam capazes de fornecer.
Quando a curta viagem de volta terminou, Milo e Afrodite mal podiam se conter. Deveriam se preparar para a última festa da universidade. A grande despedida enfim havia chegado.
Enquanto Camus e Carlo conversavam com os hóspedes na sala do décimo segundo andar, os melhores amigos se preparavam para o encerramento daquele período. Afrodite havia escolhido previamente um curto vestido rosé de tecido solto que deixava seus ombros à mostra. Nos pés, uma sandália de saltos finos com uma fosca cor dourada. Por sua vez, Milo vestia um jeans claro com rasgos em ambos os joelhos. No tronco, ostentava uma camiseta raglan vermelha e branca com a palavra “Grèce” estampada em seu centro.
— Seu cabelo está particularmente rebelde. – Afrodite apontou para os cachos abundantes e definidos. O grego aparentava ser um leão dominante, pronto para atacar.
— Está mesmo. – Milo balançou a cabeça em frente a penteadeira do amigo, percebendo que seu cabelo nunca esteve tão longo. Afinal, ele não o havia cortado em Paris, então fazia certo sentido – Será que seu irmão vai gostar?
— Hum... – O sueco fez uma falsa expressão de divagação, sorrindo em seguida – Meu irmão irá adorar, cunhadinho.
— Então vamos? – Milo sugeriu, devolvendo o sorriso.
— Com certeza! – Puxou a mão do melhor amigo até a sala de estar, onde foram encarados pelos recém-chegados.
Camus mirou o homem a sua frente com esmero. Milo estava fantástico, jovem, chamativo, cheio de vida. Sorriu com gratidão ao pensar na oportunidade que a vida lhe deu em tê-lo assim novamente. Ele cuidaria todos os dias para que o namorado nunca deixasse de ser ele mesmo, para que o namorado fosse livre e feliz.
— Vocês não vão se trocar logo? Estou com pressa, Marin e Shina já estão lá! – Afrodite reclamou, vendo o noivo murmurar um pedido de desculpas em sua língua natal e sumir em direção ao quarto.
— Eu tenho que me trocar? – Camus murmurou, olhando para baixo e mirando seu terno impecável.
Afrodite rolou os olhos, incrédulo.
— Camie, você usava bermuda e sandália hippie nas suas festas de graduação, desse modo eu não aceito que vá na minha vestido como um pai de família. – Tentou ser gentil, arrancando um sorriso abafado de Hyoga e Natássia. Bengt apenas observava, cuidadosamente tentando reconhecer algumas palavras em meio ao diálogo em francês. Apesar de não ser fluente nos três idiomas como os três meninos eram, ele se esforçava, pois os considerava seus filhos e isso era importante para si.
Rindo, Milo caminhou até o namorado e se ofereceu para retirar o paletó negro que o mesmo usava. Após deitar a vestimenta sobre o encosto de um dos enormes sofás que Afrodite possuía, o grego desabotoou os punhos e dobrou as mangas da camisa social até os cotovelos, abriu dois botões e afrouxou a gravata, sem retirá-la. Com uma volta no corpo atlético do francês, Milo soltou os fios ruivos, espalhando-os sobre as costas largas.
— Pronto, te permito ir assim na minha festa. – Sorriu para o namorado, vendo-o enrubescer e desviar o olhar.
— Eu não! Ainda parece um pai de família. – Afrodite franziu o cenho, inconformado.
— Mas Dite, ele ainda é o meu professor orientador. Olha só que incrível essa imagem de docente festeiro. – Apontou para o corpo ao seu lado, ouvindo uma reclamação instantânea – Estou brincando, não desista de ir... – Sua expressão era doce, fazendo com que Camus relevasse o acontecido.
Os amigos voltaram a conversar sobre as expectativas da festa, incluindo Hyoga, que havia recusado o convite. Não tinha vontade de ir a festas sem seu namorado por perto, não havia graça. Naquele momento, Camus viu uma oportunidade surgir. Com calma e buscando aparentar espontaneidade, andou até parar ao lado de Bengt, sem deixar de mirar o centro da sala.
— Estava vendo esses dias que o pico mais alto da Suécia sofreu um degelo inesperado. – Disse em sueco, puxando assunto.
Bengt o mirou com espanto, os lábios entreabertos quase totalmente escondidos pela barba loiríssima e bem cuidada.
— Sim, é verdade. Estamos passando por temperaturas completamente atípicas este ano. – Respondeu também em sueco.
— Milo ainda não conhece a Suécia, pensei em dar uma volta com ele em Estocolmo nessas férias. – Deslizou os dedos nervosamente pelo encosto do sofá.
— Se quiser vocês podem ficar lá em casa. Ainda é uma casa espaçosa demais para um homem só.
Camus fechou os dedos sobre o tecido sem notar, olhando para Bengt pela primeira vez.
— Eu adoraria. – Acenou lentamente com a cabeça, comprimindo os lábios em um sorriso tímido – Eu gostaria muito de apresentar a ele o local onde eu tive os melhores momentos da minha infância.
Surpreso, Bengt apenas acenou, desviando o olhar. Assim como Camus, voltou a mirar as pessoas que conversavam animadamente no centro do cômodo.
— Mas isso é fácil, foi o único lugar onde você passou a sua infância. – Riu – Quando Natássia se mudou para a Rússia vocês já eram adolescentes.
— Na verdade não, passei boa parte da minha infância na casa do Raul. – Tomou o cuidado de não chamá-lo de pai – Meu maior arrependimento na vida é não ter aproveitado as férias de verão com meu pai, minha mãe e meu irmão, com a minha família. – Voltou a mirar os olhos do sueco, dessa vez firme e confiante – Espero que vocês me perdoem por tê-los deixado tantas vezes.
Bengt o olhou com um repentino assombro, os olhos azuis dilatados em surpresa, os longos cílios claríssimos tocando o alto de suas pálpebras. Sua face se transformou em um semblante bondoso e o sueco sorriu.
— Aquela casa sempre será de vocês. Não sei se sua mãe iria passar o verão conosco e Afrodite muito menos, agora que irá se casar. Mas você e seu namorado são muito bem-vindos em abril, ou em qualquer outra época do ano.
“Você e seu namorado”
Sentindo o peso daquelas palavras, Camus sorriu e agradeceu. Não era tarde demais para escolher o pai certo.
Carlo retornou, fazendo um grande alvoroço. Milo e Afrodite puxaram seus namorados pelas mãos em direção a saída, ansiosos por estarem juntos aos amigos na festa de despedida. Camus conseguiu puxar seu cachecol vermelho do gancho de agasalhos antes de sair, iria enrolar o grego nele até que o álcool o esquentasse.
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A república principal estava cheia, fazendo-os tremer em expectativas. Aquela era a grande despedida, a água que dividia a vida daqueles estudantes. Uma nova etapa havia começado e a saudade da graduação se arrastava sobre os ex-alunos da Sorbonne.
Camus e Milo soltaram as mãos, dividindo um último olhar antes de atravessarem o gramado em direção ao som ensurdecedor. Encontraram seus amigos e amigas antes mesmo de adentrarem na enorme e iluminada edificação.
A presença de Camus por si só era um evento, todos os alunos queriam compartilhar suas nostalgias ao lado do professor, rindo e se divertindo ao falar das aulas de retórica enquanto bebiam com o docente até então responsável pela disciplina. A cada cerveja, Milo se esforçava para não se esquecer de seus deveres. Não poderia abraçá-lo, não poderia beijá-lo.
Afrodite invocava lembranças dos primeiros anos de faculdade, fofocas e acontecimentos que marcaram aqueles anos na Sorbonne, fazendo com que alunos de todos os cursos gargalhassem saudosos. Carlo o abraçava a todo momento, cumprimentando seus alunos vez ou outra, vendo-os correrem para longe de si. Havia visto de longe o estudante que o apelidara de Máscara da Morte, mostrando aos demais o dono de tal façanha.
Quando todos decidiram entrar e dançar, Camus abandonou o copo de vodka, pois dali em diante queria se manter sóbrio. Encostou-se em uma das paredes ao lado da janela que dava para o jardim, no qual brilhava uma gigantesca fogueira cercada de alunos. A sua frente, via Milo dançar com seus amigos, claramente se divertindo como nunca. O ruivo sorriu, sentindo o álcool esquentar suas bochechas. Apoiou um pé sobre a parede e inclinou o corpo para trás, cruzando os braços sobre o peito. Então, ele pensou na definição de felicidade. Estava na república central três anos depois de sua própria formatura, sob a batida absurdamente alta de uma música que não conhecia, observando seu namorado dançar cercado de amigos. Estar ali, vendo Milo sorrir e se divertir, talvez aquilo fosse a definição de felicidade.
Camus uniu as sobrancelhas, tentando focar seus olhos turvos pelo efeito do álcool. Viu Shina trazer um copo de cerveja e dançar em frente ao grego enquanto lhe contava algo e arrancava uma gargalhada cristalina. Afrodite e Carlo se aproximaram, compartilhando a risada pouco tempo depois. Talvez não. Talvez a felicidade estivesse relacionada a compartilhar. Talvez ser feliz significasse apenas dividir momentos como aquele, apenas estar por perto de quem se ama.
Ouviu gritos contentes ao redor da fogueira e se virou para a janela, rindo ao lembrar de si mesmo, três anos antes, retirando sua única camiseta para queimá-la na fogueira alta. Afrodite estava consigo, assim como Saori. Ouviu os gritos contentes em sua memória e se virou para a festa, vendo Milo falhar ao tentar beber cerveja de duas garrafas ao mesmo tempo.
Camus gargalhou, não sendo ouvido devido à batida alta. Caminhou até o namorado, vendo todos os presentes hesitarem mediante sua presença. O francês se portou atrás do aluno, colando as costas largas do nadador em seu peitoral de boxeador. Inclinou ambos os corpos, dando ordem para que Afrodite e Shina virassem ambas as garrafas de cerveja ao mesmo tempo. Milo conseguiu mirar seus olhos e sorrir, antes de se concentrar em beber tudo, gritando de alegria ao conseguir.
Enquanto todos comemoravam, Milo virou na direção de Camus, desejando ardentemente beijá-lo.
— Dance comigo? – Pediu com um sorriso após parar de tossir.
— Eu não se dançar. – Camus sentiu-se enrubescer novamente.
— É só mexer os braços, assim. – Fez movimentos aleatórios e sem sincronia, arrancando um sorriso do francês.
— Acho que posso dar alguns passos para os lados enquanto você dança. – Levou os dedos longos ao queixo, fingindo cogitar o assunto.
— Sim! Vai ser divertido! – Então o grego chamou todos para dançarem com eles, evitando que a dança entre o casal se tornasse uma fofoca no dia seguinte.
O plano funcionou durante horas após aquele momento. Todos se divertiram em grupo e os formandos tiveram uma despedida honrosa. Camus se recusou a ingerir mais álcool, tendo o exemplo seguido por Carlo.
Milo não queimou sua camisa na fogueira, apesar de tentar. O francês o impediu, deixando claro que o namorado sentiria frio e ele definitivamente não estava disposto a ceder a sua própria camisa.
Após deixarem a bagunça ao redor da fogueira, Carlo se ofereceu para buscar água e refrigerantes, estava na hora de encerrarem as bebidas. Camus, parcialmente sentado na mureta baixa que rodeava o jardim da república principal, viu Milo se encolher sob o vento frio, revirando os olhos em seguida.
— Está vendo! Se estivesse sem a sua camisa nesse momento eu seria trouxa e cederia a minha.
Milo cruzou os braços sobre o peito e fez uma reclamação a respeito da dureza de Camus.
— Pobre Uxo, Camie! Seu namorado está cansado e com frio e é assim que você o trata? – Afrodite ralhou, tendo uma aparência ainda mais feminina e infantil devido as bochechas completamente rosadas por conta do álcool.
Revirando os olhos, Camus o chamou para um abraço, aquele contato havia sido desejado a noite inteira. Pensou na distância que os separavam da maioria dos estudantes e cogitou que talvez um simples abraço não faria mal algum.
Milo andou até estar entre as pernas abertas do francês, passando os braços ao redor do pescoço coberto por longos fios avermelhados. Camus segurou a cintura do homem a sua frente, mantendo a distância de segurança. Sorriu ao ver os olhos cor de mar mirarem os seus com saudade e carinho.
— Nem tente. Sem abraços de verdade. – Ralhou sem qualquer vestígio de real seriedade, rendendo-se quando Milo deu um passo a frente, apoiando sua cabeça sobre a camiseta raglan escrito “Grèce”.
Camus apenas o abraçou de volta, ouvindo o coração compassado do namorado bater contra sua orelha direita. Fechou os olhos por um momento, permitindo-se àquele contato e sentindo o maxilar do grego apoiado no alto de sua cabeça. Suspirou longamente, pensando que momentos como aquele também significavam felicidade.
O francês sentado sobre a mureta ainda vestia sua camisa social branca e amassada, sob a qual pendia a gravata frouxa. A calça social estava suja de alguma bebida anteriormente derrubada e seus sapatos caros estavam encharcados pelo orvalho que cobria a grama. Milo, por sua vez, tinha a camiseta colada em seu tórax, coberta pelo cachecol vermelho. O jeans rasgado o deixava com frio, mas seus pés ainda estavam aquecidos sob o tênis acolhedor.
Rompendo o toque confortável, Milo levantou o queixo do namorado com ambas as mãos, fazendo com que os pares de olhos azuis se encontrassem novamente. Olhando para o francês a sua frente, Milo pensou na admiração que sentiu por Camus antes mesmo de conhecê-lo. Pensou em como conviver com o ruivo havia lhe dado muitas coisas a mais para admirar. Franziu o cenho, cogitando a impossibilidade de amar alguém sem qualquer vestígio de admiração.
Fez uma carícia discreta com o polegar, sentindo-se infinito². Viu Camus fechar os olhos e deitar a cabeça em sua mão, aceitando o gesto de carinho.
Esquecendo-se por uma fração de segundo das regras que deveria cumprir, das consequências que poderia abater sobre ambos, o grego roubou um beijo proibido, rápido e doce, porém não menos perigoso.
Ao sentir o toque quente sobre seus lábios, Camus se afastou com brusquidão, levantando-se e quase derrubando o namorado para trás. Seus braços rapidamente envolveram Milo, impedindo a queda. Apesar dos mil e um pensamentos que atravessaram sua mente como raios em uma tempestade, o francês não se afastou, colocando naquele abraço desajeitado toda a sua preocupação.
O silêncio tomou conta de ambos, fazendo-os pensar sobre o ocorrido e sobre possíveis testemunhas daquele ato.
— Camus... – Afrodite disse cautelosamente, tocando os ombros do irmão em um aviso.
De olhos fechados contra os cachos aloirados, o francês apenas negou com a cabeça, recusando à realidade que lhe era oferecida.
— Me perdoa... – Milo começava a tremer de preocupação.
— Vai ficar tudo bem, ninguém nos viu. – Camus sussurrou de volta.
Ao redor da fogueira trepidante, um grupo de alunos mal podia acreditar no que haviam presenciado.
— Ligue para o Philippe, ele precisa saber disso. – Uma voz masculina ordenou.
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Ao não notar nenhuma mudança no ambiente, Afrodite recomendou que eles voltassem para o interior da república, pois ir embora naquele momento seria demasiadamente suspeito. Após detalharem o acontecido à Carlo, foi acordado que os professores ficariam conversando separadamente enquanto Milo e Afrodite aproveitariam o restante da festa longe dos mais velhos.
— Acha que alguém viu algum movimento estranho entre você e o Milo? – O italiano indagou ao se ver sozinho com o cunhado.
— Não sei... Conseguimos manter isso em segredo durante todo o semestre, não acredito que... – Camus parou de falar e tamborilou os dedos nervosamente sobre a mesa – Carlo, tem algum cigarro com você?
O italiano negou com a cabeça e deixou um suspiro escapar. Seus dedos correram pela calça social, encontrando um maço de Camel – Eu não deveria ter isso, ok? – Balançou a caixa na frente do cunhado.
Camus retirou delicadamente um dos cilindros brancos, girando-o entre seus dedos.
— Vigie os dois, eu já volto. – Disse com a voz grave, vendo Carlo acenar e correr os dedos pelos fios grisalhos de maneira inquieta.
O ruivo atravessou o salão principal sentindo todos os olhares sobre si. Sabia que estava sendo paranoico. Ficaria tudo bem, ninguém os havia visto.
Andando até a fogueira e esticando seus dedos sem medo de ser queimado, Camus acendeu o cigarro e caminhou a esmo enquanto tragava lentamente, preenchendo todo o seu pulmão com dedicação. Parou distante do coração da festa, colocando uma mão no bolso enquanto manuseava o cigarro com a outra. Mirou a lua que desaparecia acima de si. Em breve o dia amanheceria.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Sentindo algo atingir suas costas com violência, Camus observou atentamente a fumaça que deixava seus lábios enquanto seu corpo desvanecia lentamente sobre a grama.
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“Mas eu continuava viva, e a vida, com suas necessidades e dores e responsabilidades, me chamava. O fardo precisava ser carregado, as necessidades satisfeitas, o sofrimento enfrentado, as responsabilidades assumidas.”
Jane Eyre (Charlotte Brontë)
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