Um estrangeiro em Paris
32 Controle
Notas iniciais
Sentia o próprio pulso trovejar em uma área extremamente dolorida em seu crânio. A percussão era forte, potente e alta, ribombando em seus ouvidos e contraindo pálpebras e sobrancelhas. Com dificuldade, abriu os olhos para o mundo exterior, analisando o ambiente parcialmente iluminado. Camus pestanejou algumas vezes para dar nitidez a imagem a sua frente, lembrando-se de ser atingido enquanto fumava nos jardins entre os dormitórios dos alunos. Havia se afastado da república principal para que Milo não notasse o ato – Milo!
A recordação do namorado fez com que o francês se lembrasse do momento de carinho compartilhado em público. Tentou se mexer e notou que seus pulsos haviam sido imobilizados nas costas da cadeira em que se sentava. Seus tornozelos, por sua vez, estavam presos nos pés do móvel. Sentindo gotas de suor escorrem pela face alva, o ruivo conseguiu focar sua visão no grupo de homens que discutia no canto direito da sala. Franziu o cenho, se surpreendo ao notar que aqueles eram seus ex-alunos.
— Philippe?!
O grupo se virou imediatamente na direção da voz grave e rouca. Camus notou que algumas das faces estavam assustadas, outras, em menor quantidade, sustentavam uma expressão de raiva.
— Surpreso, professor? – Ironizou Philippe com um sorriso enviesado. Deixou o grupo para se aproximar de seu interlocutor.
— Você poderia me dizer o que exatamente eu estou fazendo aqui? – Mexeu-se na cadeira e fez um movimento contido com as mãos – Por que estou preso?
— Bom, meu caro professor, hoje na festa descobrimos que o senhor gosta de ver os seus alunos após o término das aulas, então aqui estamos. – Seu sorriso se desfez, restando apenas o olhar desobediente e colérico.
— O que eu faço na minha vida particular não diz respeito a ninguém. – Camus devolveu a rigidez sem desviar o olhar.
Comprimindo os lábios, Philippe sacodiu veementemente a cabeça em uma negação.
— Aí que você se engana, a sua relação com seu aluno orientado interessa a todos nós. – Sorriu ao receber a confirmação do grupo atrás de si.
— Muito bem. – Camus concordou calmamente – Então me denuncie ao departamento, faça com que todos saibam. Ainda não consigo visualizar a razão da minha presença neste cômodo.
O orgulho e altivez do mais velho incomodaram Philippe, que se aproximou em um rompante, apoiando ambos os braços nas laterais da cadeira que o docente ocupava.
— Ah, pode ter certeza de que eu farei isso, todo mundo vai saber. – Acenou positivamente – Mas só depois que eu quebrar essa sua cara cínica em pedaços.
Surpreendendo a todos, Camus esticou seu corpo até estar o mais próximo possível do rosto do aluno, encarando seu conterrâneo em desafio.
— Se isso amenizará o sentimento de mediocridade que te assola, por favor, fique à vontade. Mas aviso desde já que isso não vai passar, você vai continuar sendo um aluno, ou melhor, uma pessoa completamente desimportante, que nunca vai ter sucesso em nenhum aspecto da vida.
Tomado por semestres inteiros de mágoa e raiva, Philippe desferiu o primeiro soco, quase derrubando a cadeira a sua frente. Camus manteve a cabeça pendente, deixando que o sangue escorresse por seus lábios em um fio constante e avermelhado. Os demais estudantes deram um passo para trás, esperando pelo próximo movimento.
Após alguns segundos de absoluto silêncio, o ruivo comprimiu as pestanas cor de cobre e levantou a cabeça novamente, abrindo os olhos para fitar a face de seu agressor.
— Você sabe que não tenho culpa, não é? – Sorriu sugestivamente, mostrando os dentes sujos – Você sabe que sempre fracassou por conta própria.
Foi surpreendido por um novo golpe e levou um pouco mais de tempo até que conseguisse encarar o aluno novamente. Sua cabeça começava a girar e seu nariz ardia.
— Você me perseguiu, Camus! A sorte foi que eu registrei todos os nossos confrontos ao longo da minha graduação. – Bradou em uma confiança descontrolada – Tudo o que eu precisava para reverter a minha expulsão por baixo desempenho era descobrir que você e o grego nojento estão juntos. – Sorriu em conclusão, claramente aliviado pela chance de solucionar todos os seus problemas.
— Eu não persegui aluno nenhum, Philippe. Tenho guardado cada uma das suas atividades acadêmicas, assim como os demais professores das outras disciplinas em que você também fracassou. A verdade é que você nunca deveria ter entrado na Sorbonne, você não tem intelecto suficiente para acompanhar os outros estudantes.
O golpe que se seguiu arremessou o professor ao chão. Camus sentiu sua consciência girar no momento seguinte ao encontro de sua cabeça contra o piso frio. Quando deu por si, era brutalmente atingido por pontapés no estômago, tomando todo o seu ar e enchendo sua boca de sangue. Em meio ao caos, lembrou-se de contrair o abdome em um escudo, tornando mais fácil receber os golpes furiosos e desajeitados. Cuspiu o líquido quente e viscoso que queimava em sua garganta e notou a liberdade em seu pulso causada pela queda. Com puxões não planejados que esfolavam sua pele, conseguiu se libertar e segurar uma das pernas do ex-aluno, fazendo-o cair. Enquanto os demais homens vinham em auxílio do francês mais novo, Camus rapidamente liberou seus pés, levantando-se vacilante.
— É ótimo que esteja de pé, eu vou alegar que você partiu para cima de mim quando te flagrei com o grego. Anda, me dá um soco antes que a gente te imobilize de novo. – Maneou o maxilar de forma a incitar seu oponente, sorrindo em desafio.
Com a feição séria e incomodado pelo gosto de ferro em sua boca, Camus sorriu, mostrando novamente os dentes manchados de vermelho. Aquele momento era só seu e iria aproveitá-lo devagar. Deu um passo à frente, fazendo com que Philippe recuasse dois. Rápido como um felino, fechou os dedos da mão esquerda nas mechas escuras do aluno, puxando a cabeça assustada para baixo e ouvindo-o gritar.
Com um sorriso ainda maior, Camus o atingiu no estômago com um soco potente dado pela mão direita. Seus músculos estavam tão contraídos que veias grossas pintavam longas ramificações nos braços alvos.
Os demais estudantes fizeram menção de defender o amigo que tossia, dobrado ao meio, mas se sobressaltaram quando o francês o soltou, dando um passo para trás. Com calma e deleite, Camus empurrou os ombros do ex-aluno, deixando-o minimamente ereto antes de atingi-lo com um novo soco certeiro no nariz.
— Agora eu e você estamos quites. – O ruivo sorriu, dando dois tapas na face contraída de dor.
Em uma virada atrapalhada, Philippe tentou se distanciar do professor, segurando o nariz quebrado com ambas as mãos.
— Mas a nossa conversa ainda não acabou, precisamos acertar as contas do meu irmão e do meu namorado. – Camus apertou o ombro do francês mais novo, fazendo com que este se virasse novamente. Em um golpe rápido de kickboxing, o ruivo girou o corpo no próprio eixo para tomar impulso e acertou o calcanhar no maxilar do mais novo. Em frações de segundos ouvia-se o baque surdo causado pelo encontro do crânio de Philippe com o piso já ensanguentado.
Sem demonstrar espanto com a própria força, Camus se abaixou para sentir o pulso no pescoço do ex-aluno. Suspirou ao notar que Philippe estava apenas desacordado, levantando-se em seguida para encarar os demais.
A visão do docente coberto de sangue fez com que a turma encarasse o chão, dando espaço para que ele deixasse o cômodo.
O ruivo passou pela pesada porta de madeira, comum nos dormitórios antigos da Sorbonne. Cambaleou pelo corredor escuro até encontrar as escadas que o levariam até a saída enquanto tateava o bolso frontal da calça, localizando seu celular. A tela estava rachada, mas conseguiria ligar para o grego. Deslizou o dedo algumas vezes, sentindo o vidro moído arranhar sua pele, e esperou para que a chamada fosse completada.
— Onde você está?! – Milo atendeu ansioso, fazendo Camus gemer de dor ao sorrir de saudade – Que barulho é esse? Está tudo bem?
O ruivo pigarreou, testando as cordas vocais antes de prosseguir.
— Está tudo bem. Onde você está? – A voz saiu mais rouca do que planejara. Tossiu novamente.
— Estou ao lado do seu carro, te esperando. Onde você está, Camus?
Ao alcançar o jardim, o ruivo cobriu parcialmente os olhos claros com o antebraço, buscando se localizar. O sol nascia sem pressa, contribuindo ainda mais para a tranquilidade que se apossava de seu corpo e mente. Ele era um professor renomado que havia espancado um aluno e dormido com outro. E em breve todos saberiam. Riu de si mesmo, antes de contar para Milo sua localização. Sentou-se em um dos degraus da enorme escada de concreto que dava acesso ao prédio antigo, apoiando as costas doloridas no corrimão e inclinando o corpo em busca do maço de cigarro. O barulho do isqueiro foi reconfortante e os lábios parcialmente grudados por sangue espesso se separaram para uma tragada profunda. Enfim veria o sol nascer, dando lugar a mais um cinza dia familiar.
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Milo gritava, Carlo o imobilizava e Afrodite tremia em choque. Camus sentia cada centímetro de seu corpo pulsar, lhe causando dores consoladoras, pois o distraiam das consequências futuras de seus atos. Com dificuldade e apoiando-se no irmão mais novo, cambaleou até alcançar o Cadillac estacionado na grama coberta de orvalho. Fechou os olhos ao se sentar no banco claro e perceber com satisfação que não era mais necessário usar energia para se manter equilibrado. A última coisa que conseguiu ouvir foi o grito de Afrodite para que eles deixassem aquele lugar.
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Abriu os olhos com cuidado, deixando que a luz do sol tomasse conta de sua visão pouco a pouco. Vagarosamente, sua consciência e as lembranças do dia anterior retornavam. Primeiro sentiu a dor generalizada, depois percebeu que estava deitado em um ambiente confortável e limpo. O cheiro de amaciante, suficientemente diferente do cheiro de sangue, invadiu suas narinas, ajudando-o a se localizar. Aquele era seu amaciante, estava em casa.
Lentamente, lembrou-se de chegar em segurança no apartamento do décimo primeiro andar e tomar banho com o auxílio de Milo, enquanto seus irmãos mais novos discutiam no único quarto. Ao sair trôpego do banheiro, recordou que Hyoga se prontificou em ajudar o grego em seu transporte até a cama enquanto Afrodite gritava algo sobre médicos. Isso era tudo.
Se mexeu sob o edredom, sentindo pontadas mais intensas de dor e percebendo curativos que não se lembrava de colocar. Sua cabeça doía, mas isso não o impediu de se sentar na beirada da cama, segurando o colchão firmemente com ambas as mãos para se equilibrar da vertigem que borrou seus olhos. Agradeceu a cortina aberta sobre a porta da varanda, pois não sabia se seria capaz de se situar no escuro.
Pouco tempo depois já se sentia habilitado a ir até a sala. Apoiado em ambas as paredes do corredor, viu Hyoga deitado no sofá cor de chumbo enquanto lia um de seus livros. O caçula desviou o olhar das páginas amareladas ao ver um vulto a sua frente e se levantou em um pulo para auxiliar mais velho.
— Está tudo bem, Hyoga, eu estou bem. – Camus disse enquanto se apoiava no ombro do russo, sendo gentilmente guiado até o sofá.
— Você deveria estar deitado. O médico disse que você precisa descansar, já que teve várias contusões aparentes.
— Que médico? – Camus levantou a sobrancelha, mirando o russo de soslaio.
— O Dite chamou um médico hoje pela manhã. – Deu de ombros, sentando-se na baixa mesa de centro, ficando em frente ao irmão.
— Eu não me lembro de ser examinado. – Sentado confortavelmente no sofá, Camus apoiou os cotovelos nos joelhos, tentando invocar lembranças que não pareciam estar em lugar nenhum.
— Ele mexeu no seu corpo inteiro e você nem ameaçou acordar.
— Eu estava muito cansado. – Cobriu os olhos claros com dedos longos, parcialmente incomodado pela luz.
— Quer que eu feche a cortina? – Apontou para o pesado tecido atrás de si.
— Não precisa. – Mirou o irmão com estranheza, Hyoga estava cada dia mais fisicamente parecido com Afrodite, mas seu tom calmo e atento o fazia lembrar de si mesmo – Eu quebrei algo?
— Ele acredita que não, mas você vai precisar de radiografias. Dite quer te levar assim que te ver em pé.
— E onde ele está? – Percebeu pela primeira vez que tudo estava calmo demais – Onde estão todos?
— Discutindo no andar de cima. Não queriam te acordar e o clima estava meio... caloroso. – Fez uma careta, sorrindo.
Camus sorriu também.
— Eu estou bem.
— Nota-se. – Hyoga manteve o sorriso, fingindo que concordava com o mais velho – Além disso eu recebi ordens estritas para convocar o circo assim que você acordasse, mas preferi te dar um tempo para que você consiga se familiarizar antes, então... – Lançou um olhar sugestivo, prontamente entendido pelo francês.
— Pode deixar, nosso segredo está bem guardado. E obrigado, eu realmente preciso desse tempo. – Sorriu, respirando fundo. Muito em breve teria que lidar com a realidade em um ritmo extremamente diferente do que seu corpo clamava – O que você está lendo? – Apontou para o livro roubado de sua biblioteca.
Hipnotizado pelos hematomas no rosto do irmão, Hyoga levou um tempo para digerir a pergunta e então virar o livro em seu colo de modo a exibir a capa.
— Uma compilação de contos do Oscar Wilde.
— “Não sou jovem o suficiente para saber tudo”. – Citou, desolado.
— O que?
Camus apenas maneou a cabeça em uma negação automática. Seus pensamentos eram rapidamente guiados em direção as lembranças de seus atos na madrugada anterior. Estariam as consequências já em curso? O que ele deveria fazer?
— Há algo que eu deva saber? – O ruivo envolveu a franja farta entre seus dedos, apoiando a testa na palma de sua mão direita – A polícia veio?
— Polícia?! – Hyoga se alarmou – Por conta da agressão que você sofreu?
— Na verdade, – hesitou – por conta da agressão que eu cometi.
— O que nós todos entendemos foi que você estava se defendendo e tentando escapar.
— Mais ou menos... Pode ser que eu tenha exagerado um pouco. – Lembrou-se do baque oco que ecoou em sua mente após a cabeça de Philippe se chocar contra o chão – Você poderia pegar um cigarro e o isqueiro no meu esconderijo?
— Mas é claro que não. Onde é o seu esconderijo?
— Está vendo? Por isso não te contei antes, queria ver em qual lado você está.
— Pelo visto você já teve seu tempo. – Hyoga estreitou os olhos enquanto se levantava com o celular em mãos – Hora de ligar para o Dite. E só para constar, não te dar o cigarro mostra que estou do seu lado.
Camus franziu o nariz, fazendo uma careta. Apoiou-se no encosto macio do sofá escuro, tocando o abdome e costelas delicadamente, testando quais eram seus novos limites. Um minuto depois, uma verdadeira tropa surgia em seu apartamento.
Sem se virar, pode ouvir sua mãe e Afrodite discutirem algo com veemência. Milo sentou-se com cuidado ao seu lado, perguntando baixinho se estava tudo bem. Sorrindo, encarou os tranquilizantes olhos cor de mar e roubou um beijo do namorado atento. Acenou positivamente em seguida.
— Estivemos tão preocupados. – Milo sussurrou languidamente. Havia dor em sua expressão, fazendo com que o coração de Camus se comprimisse. Os lábios heterogeneamente inchados do francês se separaram, articulando um pedido de desculpas que não aconteceu, pois sua atenção foi tomada pelos diversos olhares inquietos a sua frente.
— Como você está, meu amor? – Afrodite foi o primeiro a se pronunciar, abaixando o tom de voz e torcendo os dedos longos em frente ao ventre estreito.
— Estou me sentindo muito melhor. – Segurou a mão de Milo delicadamente sob a sua e sorriu, pretendendo trazer tranquilidade ao irmão.
— Sente algo quebrado? Nós podemos ir ao médico nesse exato instante. – O sueco disse com certa ansiedade e Bengt passou atrás de si, apertando delicadamente os ombros pequenos em uma carícia antes de sumir em direção à cozinha.
— Eu estou bem, Dite, de verdade. Acredito que minhas lesões foram todas superficiais. O que aconteceu depois da agressão é o que me preocupa, então assim que eu estiver a par de todas as novidades eu prometo que nós iremos fazer alguns exames. Pode ser assim? – Olhou com expectativas.
O sueco suspirou, concordando.
— O Shion ligou. Os pais do Philippe entraram em contato com a Sorbonne e ele imediatamente quis ouvir qual era a sua versão da história, mas você ainda estava desacordado. Então ele nos contou o que sabia e tentamos juntar as peças do que de fato aconteceu ontem.
— E a polícia?
— Não está envolvida, ainda. – Agitou-se novamente, fazendo com que as ondas loiras cascateassem em suas costas – Eu acho que nós devemos processar esse marginal por sequestro e agressão. Advogados não nos faltam.
O ruivo apenas acenou negativamente, envergonhado não somente de suas atitudes, mas também da falta de remorso. Não conseguiria explicar tudo agora, estava se sentindo tão cansado...
— Que tal deixarmos isso para depois? Ainda há muita coisa que precisamos saber. – Carlo entrou na conversa, avaliando o cunhado com atenção – Basta perceber qual dos dois está no hospital com ossos quebrados nesse exato momento. Camus irá nos contar em detalhes quando ele estiver se sentindo melhor, amore mio.
O sueco concordou em resignação antes de continuar o relato.
— Eles se apressaram em informar o ocorrido ao Shion porque querem garantir a sua expulsão da Sorbonne. – Afrodite prosseguiu com um suspiro – Disseram que a briga começou porque o Philippe te viu com o Milo e se sentiu injustiçado pelo seu... favoritismo.
Camus jogou a cabeça para trás e mirou o teto com tristeza. Sabia o que aquilo significava. Ele não lecionaria mais, em lugar algum. Nenhuma universidade iria aceitar um profissional expulso por tal comportamento. Além disso, se ele não fizesse tudo corretamente, Milo poderia perder o diploma que adquirira no dia anterior. Estava tudo acabado. Toda a luta árdua que o francês travou ao longo do semestre tinha chegado ao fim, e ele havia perdido.
— Algum de vocês pode buscar o meu celular, por favor? – Ele precisava passar a sua versão para Shion o quanto antes.
— Você precisa ir a um hospital antes. – Afrodite insistiu, terrivelmente angustiado.
— Por favor, querido. Estamos tão preocupados com você. – Natássia se pronunciou pela primeira vez, apertando as mãos pequenas no braço cedido Carlo.
— Dite, mãe, – Mirou os olhos dos familiares que tanto amava – me desculpem, mas eu preciso resolver isso primeiro. Há problemas que podem ser evitados se eu conseguir falar com o Shion antes que seja tarde. – Os orbes claríssimos se desviaram na direção de Milo por fragmentos de segundos.
Respirando fundo e apertando a ponte do nariz afilado entre o indicador e o polegar, Afrodite cedeu.
Bengt surgiu novamente com uma bandeja repleta de xícaras de chá, obrigando Camus e Afrodite a finalizem o conteúdo de duas delas antes que qualquer plano fosse posto em prática.
Sentindo os pensamentos mais organizados, o francês se manteve em pé sob a vigilância do namorado. Carlo retirou o celular rachado do bolso, entregando-o ao cunhado com um aceno encorajador.
Mancando de leve, o ruivo buscou o silêncio de seu quarto enquanto discava para Shion. Seu coração bradava no tórax que, de repente, parecia pequeno demais.
— Camus? – A voz do outro lado da linha cortou a magia. Era hora de encarar a realidade.
— Olá, Shion, bom dia. – O francês não sabia distinguir a dor física da emocional. Correu os dedos longos pelos fios avermelhados enquanto se dirigia para a varanda milagrosamente ensolarada. A Sorbonne era sua, seu segundo lar, sua conquista. Tanto havia sido posto em jogo para que, no fim, Philippe simplesmente a removesse de si.
— Sabe, – A voz no outro lado da linha soava desolada – eu mediei incontáveis desavenças entre você e o Philippe ao longo dos últimos semestres...
— Eu sinto muito. – Camus caminhou a esmo, retornando ao quarto e parando em frente a porta do banheiro. Mirou o rosto arroxeado no reflexo do espelho sob a pia, desviando-se o mais rápido que seu corpo permitia. Estava terrivelmente envergonhado.
— Mas, Camus, – Ouviu o antigo professor orientador exalar o ar de seus pulmões – eu nunca, nunca imaginei que isso tudo fosse realmente acontecer algum dia.
Sem saber o que dizer, o francês optou pelo silêncio. Shion prosseguiu.
— Você poderia me encontrar na Sorbonne e me explicar como tudo aconteceu?
— Eu posso ir agora? – Mordeu o lábio inferior, sentindo os cortes arderem momentaneamente.
— De modo algum, por favor.
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Camus havia encontrado um tênue equilíbrio em sua vida através do estabelecimento de uma rotina que ele julgava ser ideal. Consequentemente, tal rotina se tornou sua zona de conforto, transformando-o em uma pessoa metódica. Seguir exatamente os mesmos passos do dia anterior garantiria que nada daria errado, pois ele já conhecia o caminho, já sabia onde pisar e sabia que o trajeto era seguro.
Por este motivo, Afrodite não conseguiu levá-lo até a universidade. Por este mesmo motivo, a ideia de um motorista de aplicativo ou um taxi foi rapidamente descartada. Camus desejava percorrer seu caminho seguro uma última vez, exatamente como havia feito nos últimos anos.
Bom, quase que exatamente. Desta vez Milo iria lhe acompanhar, guiando o Cadillac e magistralmente pacificando seus sentimentos.
Em pouco tempo ambos já conseguiam visualizar as edificações imponentes da Universidade de Paris. O grego remexeu o compartimento entre os bancos em busca do crachá de docente e estacionou cuidadosamente na vaga de sempre, próxima à escada.
— Te espero aqui? – Contemplou o namorado com carinho sobre o capô brilhante do veículo.
— Me acompanha até a lanchonete? – Elevou as sobrancelhas acobreadas e esboçou um sorriso conformado.
— Lá vai estar aberto? Hoje é domingo.
O francês confirmou com um aceno afirmativo.
— Muitos professores vêm trabalhar na papelada de fim de semestre, o consumo de café e doces é alto.
— Bom, sendo assim, – Devolveu o sorriso, tentando soar positivo – é claro que eu te acompanho.
Atravessaram lado a lado os longos pátios e corredores que davam acesso ao bloco de ensino. Com a postura ereta e feição entristecida, Camus se esforçava para manter a dignidade enquanto transformava o cenário em uma lembrança.
Observou cuidadosamente uma das salas de aula através da porta esquecida aberta, fitando com esmero o quadro, as mesas, quase sendo possível visualizar amontoados de alunos apressados, imersos em um emaranhado de vozes. Aquele era o único ambiente que conhecia desde que se mudara para a França. Não era justo, com o que mais ele poderia trabalhar? Era um filósofo, um professor que muito em breve estaria proibido de lecionar.
O coração do francês se comprimiu ao perceber que no fim o seu pai ganharia, pois ele iria abandonar o rumo que havia escolhido com tanta coragem, a sua primeira e orgulhosa revolta.
Deixaram os corredores para se aventurarem pelos pátios que levavam até a lanchonete. Quando a avistaram, o ruivo sentiu o toque leve do namorado em seu pulso, invocando gentilmente sua atenção.
— Quando for a minha vez, você me chama?
Camus o fitou por longos segundos e pestanejou, sem conseguir assimilar o que lhe havia sido dito.
— Você sabe... – Milo continuou – Quando começar a discussão sobre o meu diploma.
Para Camus a solução do problema do grego era óbvia e seria executada sem impedimentos. O grego jamais seria prejudicado sob a sua vigília. Contudo, ele esteve tão absorto em sua despedida silenciosa que não se lembrou de acalmar o homem que tanto amava, se repreendendo por isso.
— Milo, não haverá qualquer discussão sobre o seu diploma. Ontem, unicamente por mérito seu, você se formou com excelência e isso é indiscutível. Eu não vou deixar que nada de ruim aconteça com você ou com as suas conquistas.
— Mas, Camus, isso não é certo. Nós dois quebramos as regras, eu quebrei as regras. – Já sob o toldo da lanchonete, o loiro interrompeu seus passos e fitou os olhos claríssimos com severidade – Eu não posso negar que fui avisado das consequências de me envolver com um professor. Não é justo que você lide com isso sozinho.
O ruivo sorriu, instintivamente levando os dedos em direção ao rosto do grego. Lembrando-se de onde estava, porém, parou antes de completar o ato.
— Por favor, me deixe fazer isso por você. – Estacionou a mão em riste no ombro a sua frente, depositando ali um aperto consolador. Sua voz era grossa e rouca, porém doce e indiscutivelmente segura.
— Cam...
— Eu volto em breve, me espere aqui. – Cortou a fala do namorado, dando alguns passos para trás. Sorriu antes de se virar e se afastar em direção as escadas que o levariam até Shion.
O corpo de Milo estava coberto por angústia, mas não havia mais nada a ser feito. Só lhe restava esperar.
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Toc toc toc
— Entre, Camus.
O ruivo pode ouvir a voz abafada pela grossa porta de madeira. Com um suspiro resignado, girou a maçaneta e entrou.
— Pelos deuses! – Ao ver o estado do aluno, Shion imediatamente se pôs em pé.
— Está tudo bem. – Camus sinalizou com as mãos abertas para que o outro permanecesse onde estava. Sentou-se com dificuldade na cadeira em frente ao seu supervisor e inspirou fundo.
— O que foi que aquele bastardo fez com você? – Imitou o gesto a contragosto, claramente irritado.
— Bom, nada que eu não tenha devolvido. – Sorriu divertidamente, ganhando uma falsa repreensão do mais velho.
— A verdade é que eu não sei o que dizer. – Suspirou antes de continuar – A mãe de um aluno me liga às 6h da manhã em um domingo, completamente fora de si, para contar que filho dela teve o nariz e o maxilar quebrados em uma festa universitária. Parece ruim, não é? Mas piora, quem quebrou foi o professor dele. Tem noção do quão impactante isso soa, Camus?
Após se encararem em silêncio por alguns segundos, ambos deixaram um riso baixo escapar. O do ruivo, por sua vez, foi seguido de um gemido baixo enquanto pressionava institivamente um ponto em seu abdome.
— Eu te entendo. – O francês finalmente se manifestou – Eu não pretendia causar toda essa cena, Shion, você me conhece, você sabe! Eu simplesmente saí da festa com o intuito de fumar um cigarro – Estendeu o indicador, parcialmente aflito – e acordei amarrado em uma cadeira. O que mais eu poderia fazer?
A gravidade da situação provocou um novo suspiro nos lábios do supervisor. Dedos ansiosos pinçavam a ponte do nariz aquilino.
— Sabe o que me foi dito? Que a briga aconteceu no espaço da festa. Porém ninguém testemunhou porque você e o Milo escolheram um lugar mais afastado para terem mais privacidade.
— Não foi isso que aconteceu. – Camus negou com um aceno, aprumando o corpo dolorido.
— Pelos deuses... – Shion apoiou os cotovelos na mesa a sua frente e afundou o rosto na palma de suas mãos, inquieto.
— Ele acertou a minha cabeça com alguma coisa enquanto eu me afastava para fumar. Depois me levou desacordado para uma das repúblicas, me imobilizou e me agrediu por puro ódio. – Viu o supervisor levantar a cabeça para fitar seus olhos e continuou – Ódio que foi acumulado durante todos esses semestres... ódio das repreensões, das reprovações, ódio de mim, das pessoas que eu amo e, principalmente, ódio dele mesmo. Ele é um fracasso, Shion.
O mais velho se levantou, buscando em um de seus armários uma garrafa de whisky. Retirou a tampa e serviu dois copos, entregando um deles ao ruivo. Sentou-se novamente, levando a garrafa consigo.
— Eu acredito em você. – Observou o líquido brilhante através do vidro e o finalizou em um único gole antes de prosseguir – Como você conseguiu sair?
— Durante a agressão a cadeira tombou e eu consegui me soltar. – Camus mostrou os pulsos esfolados antes de também findar o conteúdo que lhe foi oferecido.
— Era mesmo necessário quebrar o nariz e o maxilar dele? – Shion se inclinou com a garrafa em mãos, servindo novamente ambos os copos.
O ruivo retribuiu com uma expressão de redenção, pois sabia que a resposta não agradaria o chefe.
— Camus...
— Shion, eu não planejei nada disso. Eu estava me defendendo.
— Você deveria levar o caso à polícia. Ele merece isso e um pouco mais.
— Eu não quero. – Recostou-se com pesar – Estou cansado, sabe? Eu só quero que tudo acabe, já que não posso fazer com que as coisas voltem ao normal.
— Sobre isso... mesmo sem envolver a polícia vocês precisarão responder à Sorbonne. Vocês são aluno e professor e tudo ocorreu dentro das nossas edificações. – O tom era de aviso, não de ameaça. Deixou escapar mais um longo suspiro e capturou os olhos do ex-aluno antes de continuar – Mas você sabe que eu ficarei do seu lado, não sabe?
Camus acenou, finalizando o segundo copo em poucos goles. Estava calmo pois havia entendido o que deveria ser feito, era só contar a verdade.
— Shion, antes de continuarmos, eu tenho um único pedido a fazer, se você puder e desejar me ouvir. – Viu a confirmação no olhar do supervisor – Por favor, não tire o diploma do Milo. Eu invoco todas as boas lembranças e a confiança que você tem em mim, como seu antigo aluno e como seu atual funcionário. Eu te juro pela minha honra, por tudo o que eu mais amo, pela minha família: não houve favoritismo. Tudo o que o Milo conquistou foi com muito estudo e dedicação, eu te garanto com tudo o que tenho que ele é merecedor dessa patente.
O mais velho finalizou sua nova parcela de whisky antes servir novamente ambos os copos. O silêncio suspenso no cômodo foi quase insuportável.
— Eu acredito em você. – Disse com convicção.
Exalando o ar aprisionado com visível alívio, Camus se recostou mais confortavelmente na cadeira.
— Sabe, – Shion começou e parou logo em seguida, escolhendo com cautela as palavras que usaria. Sua voz era densa e perigosamente baixa – eu confio em você com a minha alma, Camus. O que você disser daqui pra frente será a verdade, entendeu? – Levantou uma sobrancelha sugestivamente.
Os olhos claros do francês se abriram descomunalmente em resposta.
— Shion, você está sugerindo que...
— Camus, por favor, me escute com atenção. No passado você foi o meu melhor aluno. Hoje, no presente, você é o meu melhor funcionário. Eu escolhi te orientar e depois escolhi te empregar, você teve esse voto duplo de confiança porque eu te conheço e conheço o seu caráter. Eu acompanhei e contribui para o seu amadurecimento como pessoa e como profissional e eu definitivamente não vou aceitar te perder para alguém como o Philippe. Então, por favor, me diga qual será a verdade que nós iremos adotar.
Instantaneamente, Camus se sentiu desperto. A sensação de apatia, de anestesia auto administrada, havia desaparecido em um estalar de dedos. De repente, o controle da situação estava novamente em suas mãos e sua mente começava a arquitetar um novo trajeto, garantindo que tudo ficasse exatamente como deveria estar.
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Milo lançava o copo de isopor de uma mão a outra, fazendo o objeto deslizar sobre o balcão da lanchonete.
Solitário e inconsolável, o grego se curvou no espaço que o banco alto ocupava, unindo as sobrancelhas involuntariamente enquanto pensava em Camus. Não era justo que o namorado passasse por toda a situação sozinho. Ele havia sido alertado sobre as consequências de sair com um professor por incontáveis vezes ao longo do semestre, por inúmeras pessoas diferentes. Havia gastado muito tempo convencendo o francês a se arriscar por ele e agora que tudo havia desmoronado, sairia ileso. Bom, figurativamente ileso, pois a tempestade que cairia sobre Camus seria sua maior punição. Seria muito menos doloroso simplesmente carregar o fardo sozinho.
E eles tinham tantos planos...
Conversaram sobre o tempo que esperariam até ser possível assumir o namoro publicamente, planejaram a rotina secreta em casal, inventaram até mesmo codinomes, tornando um pouco mais divertido o processo que seria levemente exaustivo.
Além de todos esses pontos, ele sabia que o namorado entraria em uma espiral de melancolia. Justo agora que Camus estava subindo alguns degraus, que estava motivado e cuidando de si mesmo... Era como ver a punição de Sísifo, o ruivo trabalhava arduamente, vencendo todas as dificuldades por um longo período de tempo, e então a pedra rolava de volta para o ponto de partida e ele deveria recomeçar.
Mas ele estaria lá, ele sempre estaria lá. Iria ajudá-lo na transição, a encontrar um novo caminho e subir novamente.
— Um café com o creme mais doce que você tiver, por favor. – A voz grave do namorado o fez pular. Virou-se alarmado e percebeu que Camus estava... sorrindo?
— Como foi? – Se virou ansioso e agitado, falando mais alto do que pretendia.
— Deu tudo certo. – Sorriu amplamente, se sentando no banco ao lado do grego – O Shion me deu um cheque em branco, ele confiou em mim. Eu escolhi exatamente, com todos os detalhes possíveis, a ação que a Sorbonne irá tomar sobre o caso.
Ainda com as sobrancelhas unidas, Milo sorriu de alívio. Impulsionou-se para frente, tencionando abraçar o namorado da maneira mais forte que conseguisse. Contudo, recuou rapidamente, segurando o copo de isopor vazio para dar alguma atividade as suas mãos inquietas.
— Então... está tudo bem? Tudo bem mesmo?
— Está tudo ótimo! As coisas finalmente se ajeitaram. – Havia tanta ternura no olhar de Camus que a expressão do grego foi suavizada. O ruivo lhe passava quietude, tranquilidade, lhe passava paz.
O café chegou e ambos se levantaram, lado a lado, em direção ao pátio aberto. Apesar do sol que brilhava tímido acima deles, a chuva ameaçava retornar.
— Sabe, eu tive tanto medo por você. Eu estava completamente aterrorizado naquela lanchonete, não conseguia pensar em mais nada.
— Obrigado por se preocupar tanto comigo. – Camus buscou pelos dedos do grego, entrelaçando-os aos seus e fazendo um carinho suave com o polegar.
Como se tivesse sido queimado por uma barra incandescente, Milo se soltou com brusquidão.
— Camus! Quer ser pego no flagra, é? – Estava alarmado, o namorado havia acabado de escapar da guilhotina e já estava baixando a guarda? Até para o amor deveria haver limites.
O ruivo sorriu com afeto e buscou novamente pela mão do grego, não permitindo que ele escapulisse dessa vez. Com um sorriso ainda mais amplo, Camus se explicou.
— Eu decidi largar a Sorbonne.
— VOCÊ O QUE?! – E se afastou com violência uma outra vez, dando alguns passos cegos para trás.
— Será que você pode segurar a minha mão enquanto eu te conto? – Riu, divertido.
Milo correu os dedos pelos cachos loiros, puxando-os para trás.
— Camus, pelos deuses, o que você fez? – Paralisado pelo choque, não foi capaz de impedir que o namorado se aproximasse e o envolvesse em seus braços.
— Eu poderia ter tudo de volta, Milo, poderia fazer com que as coisas retornassem ao que eram antes. Mas foi então que eu percebi que eu já havia aceitado o fim dessa etapa, o fim da Sorbonne e tudo o que ela representava para mim. Eu aceitei o luto e passei por ele, agora estou preparado para seguir por uma nova direção.
— Como? – As mãos espalmadas no peito do namorado estavam prontas para empurrá-lo para longe, mas ele não seria capaz de fazer isso. Os braços soltos e despreocupados de Camus que se entrelaçavam em sua cintura eram mais fortes de qualquer tipo de amarra.
— Eu contei a ele o quanto você se esforçou ao longo do semestre. Disse que você realmente foi um excelente aluno e que há pilhas e pilhas das suas anotações e dos seus trabalhos que comprovam isso. Então ele confiou que eu não te dei nenhum favoritismo, muito menos acesso a testes e avaliações das aulas que eu ministrava. Porém... – O ruivo olhou para o céu em uma pausa dramática intencional.
— Camus!
O francês não pode evitar um sorriso.
— Eu disse a ele que gosto de você, Milo. – A expressão tranquila e sincera apaziguou os vórtices violentos que giravam dentro do grego – Eu só não pude dizer que o amo e menti sobre o nosso relacionamento. Disse que me interessei por você ao longo do semestre que dividimos, mas, para não atrapalhar o seu desenvolvimento, esperei até você se graduar para realizar alguma tentativa. Desse modo, nossa relação foi sempre acadêmica e isso é suficiente para não te prejudicar.
— Mas foi suficiente para que te mandassem embora?
— A Sorbonne é muito rígida, é uma universidade antiga e bastante conservadora. Eu seria caçado pelos demais funcionários e terminaria expulso pelo comitê de avaliação se o Shion não o fizesse.
— Por que não jogou a culpa em mim? Poderia ter dito que eu estava bêbado, que fiz uma aposta e me joguei em cima de você...
Camus suspirou pesadamente, cansado e aliviado ao mesmo tempo.
— Porque eu não quero mais viver em duplicidade. Eu não quero mais ter que te esconder, que me esconder – quebrou elo do círculo ao redor de Milo e espalmou a mão no próprio peito – eu quero ter uma vida normal ao lado do homem que eu amo.
Com as sobrancelhas novamente unidas, contrastando com o sorriso tímido, o grego inverteu os papeis, aconchegando o namorado em seu corpo. Camus retribuiu o abraço, incapaz de acreditar que aquele momento estava realmente acontecendo. Não pode evitar um sorriso quase imperceptível enquanto fitava os corredores largos através dos fios aloirados.
Au revoir, mon cher Sorbonne, merci pour tout.¹
Um vento frio fez com que cabelos e cachecóis voassem com ferocidade, engatilhando em Camus a lembrança das inúmeras vezes em que essa mesma cena ocorrera ao longo do último semestre. Porém, agora era possível fazer o que nunca havia sido feito antes e, com este pensamento se alastrando por seu corpo e guiando seus atos, o francês se afastou e esfregou as mãos nuas nos braços do homem a sua frente. Em seguida, os dobrou na altura do peito de ambos, com a familiaridade e o cuidado de uma criança que guarda seu brinquedo favorito. Avançando um passo, uniu novamente os corpos e usou o seu próprio torso como um casulo protetor, blindando o namorado do vento que o havia importunado tantas vezes. As pontas dos narizes se tocaram e os lábios do ruivo se curvaram em um sorriso, logo antes de serem tomados com reverência pelo grego para uma demonstração púbica de amor.
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Foram necessárias várias idas e vindas da sala de Camus até o Cadillac para que todo o conteúdo do francês fosse retirado da universidade. Milo o auxiliava animado e cheio de planos, provando o quão facilmente as pessoas se acostumam a algo que as faz bem e o quão simples a mudança nesses casos se apresenta.
O ruivo optou por abandonar todos os móveis que havia adquirido com seu próprio dinheiro, juntamente com a mobília padrão fornecida pela Sorbonne. Ele não precisaria deles e, além disso, estava em um momento de desapego.
Carregando a última leva de livros, manuscritos, trabalhos acadêmicos e provas antigas, o casal conversava animadamente, lado a lado, enquanto caminhavam sem pressa por entre os corredores. O francês ainda mancava e agradecia silenciosamente o ritmo lento mantido por Milo. A edificação estava cheia devido ao fim do semestre e Camus não se importava de tocar o grego vez ou outra ao longo do diálogo entusiasmado, atraindo olhares curiosos. Em breve o comunicado sobre sua saída seria disponibilizado aos demais funcionários, mas ele já estaria distante, assistindo à graduação oficial do namorado na ensolarada Grécia.
Com certo malabarismo, o ruivo liberou sua mão direita e roubou alguns dos livros que Milo carregava, depositando-os em sua própria pilha. Desse modo, conseguiu esvaziar o conteúdo da mão esquerda do grego e a tomou para si. Terminaram o trajeto até o estacionamento privativo com os dedos orgulhosamente entrelaçados.
Após montarem uma armadilha de objetos no banco de trás do veículo e outra no porta-malas, o francês indicou que já se sentia bem o suficiente para dirigir. Entregou seu passe de estacionamento para professores na guarita de saída, não pretendendo repetir esse ritual de despedida. Se tivesse que voltar à universidade para assinar algo, retornaria como um membro da comunidade não acadêmica, gozando de sua nova vida.
O Cadillac foi obrigado a parar diante de um sinal vermelho e Camus mirou a Sorbonne uma última vez pelo retrovisor, despedindo-se com um sorriso cheio de amor.
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