Um estrangeiro em Paris
29 Ardentemente
Notas iniciais
Saori atravessou a porta de seu apartamento temporário com o celular preso entre a orelha e o ombro, carregando uma bandeja de cappuccinos. Ela estava em Paris acompanhada de suas duas melhores estagiárias para investigar os arquivos finais sobre o caso dos gêmeos Halkias. Os dias para a audiência corriam depressa e seu tempo para evidências sólidas estava acabando.
Fechou a porta com o salto agulha do scarpin, bufando ao não ser atendida pelo amigo.
Na sala do apartamento do hotel, as duas estudantes se encontravam no chão, imersas em papeis, escondidas sob caixas pesadas de arquivos passados da promotoria grega. A tradução era lenta, mas desistir não estava nos planos.
Saori olhou para a cena a sua frente, sorrindo de maneira vitoriosa. Lembrou-se das audiências anteriores, nas quais o representante da promotoria a havia tratado de forma paternal, explicando detalhadamente coisas que ela estava cansada de saber. Pelos deuses como o odiava! Mas isso a instigava. Ela adorava se fingir de inexperiente, adorava saber que os que não a conheciam a julgavam fútil, uma “vadia”. Ela aceitava o tratamento paternal, aceitava ser chamada de “menina” no meio da suprema corte. Eles abaixavam a guarda e ela cavava. Nada a satisfazia mais que a humilhação pública no último dia do processo. Nada a agradava mais que mostrar toda a incompetência de seus concorrentes ao público, de mostrar cada erro estúpido, de descosturar todo o caminho feito até ali e exaltar a burrice da subestimação.
O barulho da linha sendo desligada a fez acordar de seus devaneios. A espera acabou e Afrodite novamente não tinha atendido.
Deixou a bandeja no sofá, próxima as estagiárias, que agradeceram. Por via das dúvidas, ela deixaria uma mensagem. A situação era delicada demais para uma surpresa, Afrodite precisava estar a par.
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“Camus está indo para Londres”
Os olhos claros do sueco correram pela tela, fazendo-o levar a mão delicada à boca. O que estaria acontecendo?
Havia acabado de sair do banho e vestia um pijama completo, no qual a calça rosa clara com pequenas flores combinava com a camisa de manga longa e botões. Tinha chegado da galeria fazia meia hora, sua exposição havia terminado magistralmente bem, apesar de deixar um rastro de cansaço. Aproveitando que Milo ocupou o chuveiro depois de si, Afrodite respondeu a amiga com o coração batendo rápido como o de um passarinho recém capturado. Sentou-se aos pés da cama, não sendo capaz de suportar o próprio corpo.
“O que está havendo??”— A.
“Ele está indo para conversar com o Milo”— S.
“Mas e se o Milo não quiser ter essa conversa?”— A.
“Não diga nada! Se ele tiver que dar o fora no Camus, que seja pessoalmente” — S.
“Sao, você está arriscando demais!” — A.
“Eu já fui o Milo, Dite. Por mais que eu o amasse um pouco menos depois da decepção término, as coisas teriam sido bem mais fáceis pra mim se eu ao menos soubesse como ele se sentia em relação a mim” — S.
“Sao...” — A.
“Deixe que o Milo saiba, Dite” — S.
“E se não houver volta? E se eles não reatarem?” — A.
“Pelo menos o Milo saberá que foi amado” — S.
O sueco socou o colchão abaixo de si, culpando seu senso de justiça. Milo precisava saber. E Camus? Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Seu irmão, CAMUS, o seu Camus, estava mesmo atravessando fronteiras para ter uma conversa sobre sentimentos?! Afrodite levou a mão ao peito, nervoso. Como faria para disfarçar e não falar nada? Por que Saori o havia contado se ele não poderia repassar a informação?
O grego deixou o banheiro vestindo uma calça de moletom clara e uma camiseta negra com um silk puído que um dia fora uma estampa.
— Dite, está tudo bem? – Milo indagou, sentando-se próximo ao amigo.
— Humhum. – Maneou com a cabeça – Vamos ver um filme?
— Claro! Qual filme você quer ver?
— Vamos ver Mulan?
— Ótima escolha! Será que tem no catálogo infantil do hotel? – O grego buscou pelo controle sobre a cama.
— Tem sim, já andei dando uma olhada. – Engatinhou até seu lado na cama de casal, manteria sua mente ocupada para não pensar onde seu irmão estaria naquele momento. Sentia o peito ser comprimido pelo amor que sentia por Camus. Não saber o que acontecia com ele o afligia. Não era somente preocupação, Afrodite queria participar de tudo que acontecesse na vida do primogênito. Camus era um dos amores de sua vida e o machucava não entender suas ações. Se sentia negligente, talvez enciumado por não estar presente.
— Pronto, começou. – Milo enfiou o corpo embaixo do grosso edredom, engatinhando até alcançar a cabeceira da cama.
— Agora toda a China sabe que chegaram. – Afrodite pronunciou orgulhosamente, limpando os pensamentos. Se manteria distraído.
— O que disse?
Milo não teve resposta. Pouco tempo depois, a voz de um personagem do filme ecoou a mesma frase anteriormente dita pelo amigo. Deu uma risada honesta, Afrodite literalmente conhecia todos os filmes infantis.
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Raul estava na porta do quarto de hotel, olhando para um corredor vazio e escuro.
Teve uma enorme surpresa quando a recepção anunciou o nome do filho. O primeiro pensamento que atravessou sua cabeça foi de repreensão. Era uma atitude de extremo mau gosto interromper o sono de alguém a essa hora da noite. Além disso, não se deve fazer visitas sem antes deixar o anfitrião a par de suas intenções. Esfregou os olhos castanhos com o polegar e o indicador, hábito compartilhado por Camus.
Seu quarto era distante do elevador, logo não pode visualizar os números dos andares no display superior. Contudo, ouvia o barulho suave dos cabos de aço em movimento. Endireitou a postura, nunca era tarde para ensinar ao filho boas maneiras. Ajeitou o cabelo com os dedos, deixando os fios lisos e curtos menos espetados. Estava sem os óculos, mas era tarde demais para buscá-los.
Uma figura alta pode ser vista na outra extremidade do corredor, coberta por um longo sobretudo negro enquanto dava passos firmes. Como odiava aquele longo cabelo esvoaçante! Odiava o excesso de presença feminina na vida do filho. Ele se arrependia de não ter lutado pela guarda de Camus na justiça, de não ter tirado sua única e inocente criança das mãos de uma devassa como Natássia. Lembrou-se de ver a imagem da ex-esposa em jornais, expondo suas peças de ballet ao redor do mundo. Por que diabos ela lhe exigia pensão? Não era uma mulher bem-sucedida?
Raul não teve tempo de continuar divagando, pois teve a visão foi tomada por um homem alto e imponente.
Reparou na seriedade do filho. Camus carregava em sua mão direita uma espécie de bolsa de viagem na cor escura. Subiu o olhar, deparando-se com a cascata ruiva. Seu filho deveria passar por tratamentos hormonais, lhe faltava testosterona.
— Isso são horas, Camus? Sua visita é completamente inadequada.
— Eu não me importo. Preciso falar com você agora.
— Pois bem, entre. – Virou o corpo, dando espaço para que o outro passasse por si.
— Na verdade eu estou com pressa, o que tenho a dizer pode ser feito aqui mesmo.
Raul maneou a cabeça, decepcionado. Seu filho era um rebelde.
— Saori conseguiu milagrosamente uma passagem de Eurostar para Londres. Meu trem sai em uma hora, portanto não posso perder tempo.
— Do que está falando, Camus? Seja mais claro. – Levantou uma sobrancelha. Não entendia absolutamente nada.
Camus inspirou brevemente e arrumou sua postura.
— Eu gostaria de te dizer que se um dia você tentou agir como um pai, você falhou miseravelmente. – Disse pausadamente, apesar de ter o coração acelerado. Seu corpo tremia levemente, mas ele não desistiria, não dessa vez. Desafiaria a autoridade que pesava sobre si há anos.
— Como? – Abriu a boca em surpresa. Os olhos arderam pela falta dos óculos, obrigando-o a pestanejar, apertando os cílios alaranjados contra a pele clara.
Camus inspirou nervosamente. Não conseguiria manter o roteiro que havia escrito em sua cabeça no caminho. Ele se sentia pequeno, muito pequeno. O longo silêncio o obrigava a falar, mas o que ele falaria? Seu coração tinha uma pergunta, e, com sua mente estava desprotegida de qualquer controle, a pergunta escapou, soando inimaginavelmente densa.
— Alguma vez você já me amou? – Havia verdadeira curiosidade. Virou a cabeça enquanto analisava a expressão do pai.
Um silêncio profundo se instaurou entre ambos. Tão profundo que não havia luz. Raul não conseguiu responder e Camus continuou.
— Sabe, pai, você me critica desde que eu era uma criança, só cobrando, nunca me incentivando a nada. Você sabe do que eu gosto? Você tem alguma ideia do que acontece na minha vida? – E mais palavras escaparam. Elas nem passavam por um filtro, apenas pulavam de sua língua.
Raul estava surpreso e ao mesmo tempo desarmado. Enquanto recuperava sua defensiva, Camus prosseguiu.
— Eu não sei onde a minha mãe está agora, mas eu tenho absoluta certeza que ela sabe exatamente onde eu estou. – Pensou na relação entre Saori e sua mãe. Pensou na corrente grossa e inviolável que envolvia sua família, composta por sua mãe, Afrodite, Hyoga, Carlo, Saori, Mu...
Natássia sabia!
Uma luz clareou a mente de Camus, lhe dando um pouco de paz. Eles eram sua família e estavam consigo naquele momento, ele não precisava passar por aquilo sozinho. Continuou seu monólogo, dessa vez um pouco mais confiante.
— Acho que posso aceitar o fato de nunca ter sido amado por você. Sabe... Acredito que isso não seja o que mais frustra em você. O que mais me frustra, sinceramente, é te ver desvalorizando as pessoas que eu amo. O que me lembra – estalou os dedos, focando sua mente – este é exatamente o motivo de eu estar aqui hoje. Vim em defesa dessas pessoas, pois isso é algo que não conseguirei deixar para trás nessa nova vida. – O francês invocou em sua memória todas as ofensas que Raul já havia direcionado à sua família, iria numerá-las – Em primeiro lugar, o Hyoga é realmente jovem, mas tem maturidade suficiente para viver sozinho com o namorado porque a minha mãe o educou muito bem. Em segundo lugar, o Afrodite é umas das melhores pessoas mais maravilhosas que existem no mundo e você não tem o direito de julgá-lo por qualquer motivo que seja. Aliás, quem você pensa que é para julgar alguém? Se o a orientação sexual das pessoas te ofende pessoalmente, você deveria procurar um psiquiatra. O que as outras pessoas fazem não é da sua conta.
Camus respirou fundo, prosseguindo. Ele estava falando!
— Por último, mas não menos importante, eu fui criado por pais maravilhosos. O Hillesheim e a minha mãe, sim, se esforçaram para que eu tivesse uma família. Além disso, quero ressaltar que você pode criticar minha mãe quantas vezes quiser, mas saiba que isso não mudará o fato de que ela é uma mulher belíssima e independente, perdidamente amada por onde passa. Se ela troca frequentemente de namorados ou tem três filhos com pais diferentes, isso não é problema seu ou de ninguém. A vida é dela, as contas são pagas por ela e não há nada de errado nisso.
– Então quer dizer – Raul elevou a voz para ser ouvido – que você veio até mim, neste horário completamente inadequado, para bombardear ofensas maldosas sem nenhum motivo?
— Não são ofensas, são verdades. Se você se ofende com elas o problema é seu. E meu motivo para estar aqui foi dito no começo desse diálogo, preste atenção. Além disso, gostaria de te informar que irei lecionar pelo resto da minha vida e, acredite, se você deixar essa odiosa empresa para mim, irei vendê-la e doar todo o dinheiro para organizações humanitárias. – Olhou o pai de cima a baixo – Eu não quero nada que venha de você. – Camus se sentiu fraco, ele iria desmaiar? Precisava se esforçar, aquele ela o momento de uma vida – Agora, se me dá licença, irei para Londres dizer ao Milo o quão devastador é meu amor por ele. Eu já perdi tempo demais. – Girou nos calcanhares, em rumo ao elevador.
Como se acordasse de um transe, Raul perdeu toda a compostura, seguindo o filho momentaneamente pelo corredor.
— Do que está falando?! Camus? Você é gay?
O mais novo se virou parcialmente com ar blasé.
— Impressionante. Eu gasto o tempo que não tenho para vir te dizer todas essas coisas e a única relevância para você é minha orientação sexual. Como fui benevolente durante esses anos.
O elevador chegou e com ele a liberdade. Começava a maratona de Camus.
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O olhar de Milo se perdeu durante o filme. Os olhos cor de mar desviaram da tela, as pestanas esquecidas abertas enquanto o grego virava o corpo para o centro da cama e simulava um cochilo. Sua cabeça estava cheia demais.
Afrodite, sempre atento, virou o corpo de modo a estar frente a frente com o melhor amigo. A profundidade no olhar do grego o assustou. Milo não estava bem. Poderia aparentar que estava, poderia sair para almoçar com novos conhecidos, socializar em sua exposição, sorrir para uma pessoa interessante... Mas estava lá. O peso sempre estava lá.
— Um dólar por seus pensamentos.
— Estava pensando em como será voltar para Paris. Eu não quero que isso aconteça. – Sorriu tristemente, como uma criança pega numa travessura.
— Sabe, não é vergonha pensar nele.
— Mas eu quero seguir em frente, Dite. Eu realmente quero. Preciso ser positivo, preciso expulsá-lo do meu peito.
— É aí que você se engana, meu amor. – Viu o olhar do amigo ser erguido em curiosidade – Você precisa pensar nele. Você precisa passar pela tristeza, ou ela vai estar constantemente presente. Veja bem, o seu relacionamento com o meu irmão era repleto de verdades completamente implícitas. Primeiro era evitado falar sobre a situação de vocês como um casal, mesmo que todos já soubessem que vocês eram um casal. Depois, era evitado falar sobre um namoro mais sério. Por fim, era evitado falar sobre o futuro. Veja quantas verdades estavam lá o tempo todo e não podiam ser ditas? Você não pode continuar nessa linha de pensamento. Se permita sofrer, Milo.
Os olhos do grego marejaram. Ele estava sofrendo! Mas sustentava forçosamente uma postura positiva para se sentir um pouco melhor, um pouco mais digno. Havia sido chutado sem explicações, sem grandes hesitações. Camus sempre soube o que escolheria quando o momento chegasse e ele se sentiu usado e descartado sem qualquer respeito, sem qualquer resquício de amor.
— Eu não quero sofrer, Dite. – Sua voz estava chorosa e isso o machucava. Chorar novamente por Camus o machucava.
— Se permita, Mi... – O sueco sussurrou de volta enquanto retirava do rosto claro um cacho dourado molhado pelas lágrimas que desciam solitárias, únicas. Milo precisava de sol.
— Sabe o que mais me faz sofrer? – Fungou silenciosamente. Seu choro era tão secreto, tão envergonhado, que fazia Afrodite desejar prantos profundos. Seria mais fácil lidar com uma explosão de sentimentos do que lidar com a vergonha da rejeição sentida pelo amigo.
— O que? – Uniu as sobrancelhas, triste.
— Eu não sei se ele me amou de verdade, Dite. Eu me entreguei por inteiro, doei cada célula do meu corpo. – Mais soluços silenciosos – E agora ele deve estar na biblioteca lendo um romance antigo sob cobertores quentes no divã, tomando uma vodka cara e importada. E eu estou aqui, chorando por ele.
E então o sueco fez esforços hercúleos para se manter em silêncio. Milo se recriminava pela falta de amor próprio, enquanto seu irmão sofria pelo mesmo motivo. O mundo era um lugar terrível de se viver. As pessoas se sentem assustadas com a possibilidade de humilhação ou de sofrimento ao ponto de esconderem os sentimentos que as permeiam. Mascaram a insegurança com o silêncio. No fundo, ninguém se sente digno de nada. Todos se sentem uma fraude, mas são impedidos de pronunciarem seus medos em voz alta, não podem expor suas inseguranças e são incapazes de acreditarem em si mesmos.
Milo só queria se sentir digno. Camus só queria se sentir digno.
Saori estava certa, ele precisava saber.
“Camus, onde você está?”
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Após embarcar no Eurostar, Camus não conseguiu relaxar. Seus músculos estavam rígidos como as estruturas do trem. Estava ansioso demais, apreensivo demais, precisando desesperadamente de um cigarro. Apalpou a caixa em seu bolso, ciente de que não poderia fumar naquele ambiente. O que Milo estaria fazendo naquele momento? Será que o grego havia sofrido como ele? A quem ele estava querendo enganar, é claro que havia. Ele entendia, ele havia sido amado, perdidamente amado. Milo lhe demonstrava seu amor todos os dias.
Camus mirou a janela do trem tristemente. Ele nunca havia dito “eu te amo”. Quantas vezes o grego desejou lhe dizer tal frase e foi impedido pela falta de segurança no relacionamento que eles tinham?
Por mais rápido que o Eurostar fosse, Camus não julgava que fosse veloz o suficiente. Precisava chegar até Londres.
Lembrou-se da bagunça que havia deixado em sua casa antes de sair e sorriu. Tudo aconteceu tão rapidamente que ele mal podia se lembrar do passo a passo. Para uma mulher tão vaidosa, Saori era capaz de arrumar uma mala em questão de poucos minutos.
Camus negou com a cabeça, sentindo-se envergonhado. Nem ele estava livre do machismo intrínseco à sociedade em que vivia. Recriminou-se por estar comparando a tão habilidosa amiga a um estereótipo feminino ridículo e infundado. Saori fazia dez coisas ao mesmo tempo com maestria, era ágil e livre como uma gata. Ao contrário dele, que mal conseguia ouvir música e conversar ao mesmo tempo.
Aproveitou o tempo livre para encontrar a localização exata do hotel em que o irmão estava hospedado. Ele deveria reservar um quarto? Talvez acordar Milo de madrugada não fosse a melhor abordagem. Seria mais apropriado adiar sua conversa para a manhã? Reservou um dos três últimos quartos restantes pela internet, decidindo que deveria ter paciência. Estava sendo terrivelmente impulsivo em um momento que era preciso ter controle, pensar calmamente em tudo que desejava que Milo soubesse.
Inspirou fundo e permaneceu durante todas as quase duas horas e meia de viagem olhando para a janela, sem conseguir ao menos ler o romance que havia trago para se distrair.
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Tempos depois era anunciada a chegada em Londres. Borboletas voltavam a inundar seu estômago, com o habitual bater de asas completamente aleatório. O gosto da ansiedade já se encontrava sob sua língua. A certeza que a pouco culminara no trem se esvaía desesperadamente por entre seus dedos. Prendendo-se a um fio de sanidade, manteria a decisão de esperar até o amanhecer. Desse modo, rumou até a lanchonete da estação.
Por fora seus passos transmitiam serenidade, por dentro seu coração já começava a se perder nos batimentos, aumentando a frequência exponencialmente. Queria vê-lo!
Após receber seu pedido, buscou uma mesa afastada para comer. Seu corpo começava a denotar sinais de descontrole, o nervosismo reivindicava seu trono. Retirou as luvas para comer e lançava grandes mordidas no sanduíche em suas mãos, mastigando rapidamente enquanto uma de suas pernas subia e descia compassadamente sob a mesa.
Não dá.
Se levantou, abandonando metade de seu lanche na lixeira mais próxima. Rumou para o banheiro com o intuito de lavar o rosto com água fria. Apesar de nunca se achar bonito, dessa vez se considerava especialmente feio. Sua pele muito branca contrastava com as olheiras escuras e sua expressão era abatida, quase doente. Desferiu pequenos tapas em sua face para que alguma cor fosse adicionada, conseguindo apenas que a marca de seus dedos fosse impressa nas bochechas claras. Grunhiu, resignado, recolocando as luvas negras. Apoiou ambas as mãos na pia, mirando-se profundamente no espelho. Precisava ir ou enlouqueceria.
Saiu apressado, buscando pelo cigarro em seu bolso. Fumou enquanto entrava no primeiro taxi disponível. Se sentia culpado por fumar em uma das janelas do banco traseiro do automóvel, mas não conseguiria dar mais um passo sem que a calmaria fornecida pela nicotina o ajudasse. Tragava lentamente, enchendo seus pulmões com a recompensa imediata. Londres passava a sua volta, mas ele mal conseguia vê-la.
Antes de acender o segundo cigarro, Camus se lembrou dos adesivos em sua pequena mala. Milo não gostava do cheiro do tabaco, ele deveria ter usado os adesivos de nicotina antes de se entregar ao vício. Abriu o sobretudo e levantou parcialmente a camisa que usava por baixo, colando dez adesivos em seu abdômen. Estava quase chegando.
Nunca se imaginou fazendo como nos filmes, jogando notas de alto valor no banco da frente de maneira bastante mal-educada, por assim dizer, e quase correr em direção à recepção do hotel.
Quando o balconista começou a lhe dar instruções sobre a edificação, cortou da maneira mais polida que conseguiu, sinalizando que estava terrivelmente afetado pelo fuso – o que era uma clara mentira – e que precisava descansar urgentemente. Após pegar sua cartilha de boas-vindas e sua chave eletrônica, Camus rumou apressadamente para o elevador e apertou o número de um andar que não era o seu.
Quando chegou ao corredor do irmão, viu as luzes se acenderem devido ao sensor de presença e buscou pelo quarto certo. Parou ofegante na porta, apesar de não se sentir cansado.
Ele estava ali atrás. Milo estava logo ali!
Inspirou fundo e tocou a campainha do quarto em um impulso. Acordou de seu transe ao ouvir sons de passos ressoarem no silêncio da madrugada. Estava feito, agora não poderia mais voltar atrás. Sorte a sua que essa possibilidade nem passou por sua cabeça.
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Milo e Afrodite acordaram assustados ao som estridente da campainha. O grego se adiantou, verificando as horas no celular. Eram quase três da manhã, quem poderia ser?
Afrodite sentou-se na cama com um salto. Era Camus! Só poderia ser Camus.
— Milo, você pode atender para mim, por favor? – Pediu com tranquilidade. Ele estaria lá para qualquer coisa que ambos precisassem. Afrodite sabia que, independente do resultado da conversa, os dois saberiam que foram amados e isso por si só bastaria.
— Lógico que atendo. Vou processar esse hotel por nos acordar a essa hora da noite. – Saiu do edredom a contragosto. Jogou o cabelo para trás numa vã tentativa de domar as grandes e desordenadas ondas aloiradas.
Andou descalço pelo corredor enquanto esfregava os olhos e destrancou a porta com uma raiva contida. Abriu a porta sem verificar o olho mágico, dando um passo para trás ao descobrir quem era.
Milo simplesmente supôs que estava sonhado. Lá estava Camus no corredor, girando as luvas de couro nos longos dedos alvos, que as apertavam firmemente na altura do ventre. O cabelo ruivo estava despenteado e o rosto estava queimado pelo vento frio. Além disso, olheiras se destacavam abaixo dos olhos claros. A roupa escura estava desalinhada e havia uma pequena mala de mão no chão.
O grego separou os lábios para dizer algo, desistindo ao notar que não havia nada em sua mente. Ele não tinha que o que dizer.
— Milo. – Camus engoliu a saliva, corando. Respirou a contragosto, colocando suas ideias em ordem sem deixar de mirar os olhos gregos uma única vez – Milo, eu tenho muito a te dizer e simplesmente não poderia esperar até que você retornasse à Paris.
E então o coração do francês bateu mais lentamente. Não seria difícil falar com Milo como havia sido com seu pai. Ele amava o grego e não se importaria e falar tudo, não temeria falar mais do que “deveria”. Ele iria dizer absolutamente tudo que o outro já deveria saber há meses.
— Eu sinto muito pelo modo como te tratei durante o semestre, sinto muito por não ter me entregado ao nosso relacionamento, sinto muito por não ter te assumido perante meu pai e, principalmente, sinto muito por não ter dito que te amava todos os dias.
O grego piscou, sentindo que iria chorar novamente. Ele não conseguia ter qualquer reação, então iria apenas ouvir.
— A verdade é que tudo estava certo até você chegar. Você entrou na minha vida sem pedir permissão, monopolizou meus dias e destruiu a minha rotina. E com isso eu percebi que compartilhar coisas incertas era muito melhor que a certeza da solidão, era muito melhor do que tudo o que eu tinha antes. – Sorriu tristemente e fez uma pequena pausa – Porém, eu não estava pronto para você.
Camus retorceu mais as luvas entre os dedos, prosseguindo com seu segundo monólogo em menos de 12 horas.
— Não vim aqui te dizer que estou pronto agora, pois não sei se estou. Vim aqui te dizer que eu te amei durante cada segundo desse semestre. Eu me encantei por você na primeira vez que nos vimos, me interessei na primeira vez que conversamos e me apaixonei perdidamente desde então. E eu irei te amar para sempre porque a importância que você teve em minha vida jamais será esquecida. E eu só estou aqui hoje porque preciso que você saiba disso.
Milo não conseguia piscar, fazendo com que as lágrimas descessem livremente. Camus continuou.
— Eu sinto muito por ter comandado todas as decisões referentes ao nosso relacionamento e peço desculpas por cada sofrimento que te fiz passar. Você é o homem mais incrível do mundo, e isso não é um exagero. Estranho seria se eu não me apaixonasse por você¹. Você é inteligente, responsável, gentil, humano, independente e definitivamente é o amor da minha vida. Contudo, eu posso não ser o amor da sua, e está tudo bem. Eu sei que não fui suficiente para você e que não demonstrei meus sentimentos como deveria. Entretanto, eu gostaria de demonstrá-los antes de ir.
As lágrimas do grego aumentaram, formando uma fonte cristalina sobre a pele clara. Milo levou a mão a boca antes de libertar seu primeiro soluço.
— Eu amo você, Milo.
Os soluços aumentaram.
— Ardentemente². – Completou imerso em uma certeza genuína.
Camus fez uma pequena reverência, demonstrando todo o respeito que tinha pelo grego. Sentiu os olhos marejarem pela primeira vez ao erguer o rosto e se deparar com o pranto do aluno e ex-namorado.
Antes que Camus tencionasse voltar por onde veio, o grego deu dois passos à frente, rompendo a distância que os separava em frações de segundos e tomando Camus para si em um abraço apertado e esmagador, cheio de confiança mútua. Camus afundou sua cabeça nas ondas aloiradas e Milo fez o mesmo nos desalinhados fios ruivos.
Finalmente havia paz entre eles.
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