Um estrangeiro em Paris
9 Acontecimentos inesperados
Notas iniciais
Milo acordou ansioso.
Apesar da conversa com Camus na noite anterior ter perdurado até a madrugada, a falta de sono não havia podado seu entusiasmo. Com um planejamento bem estruturado, arrumou o restante de suas coisas antes de deixar o apartamento.
Camus o veria nadando, sendo essa sua prioridade. Isso significava fingir que não sentia frio, mostrar o quanto era ágil, habilidoso e, principalmente, bonito. Ficou em dúvida entre usar alguma sunga ou uma vestimenta hidrodinâmica. Como desejava aparentar profissionalismo, optou pela segunda alternativa, restando apenas escolher qual peça vestir. Uma delas lembrava uma roupa de mergulho, cobrindo seu tronco e braços por inteiro. Diferenciava-se apenas pelo short, que descia até metade de suas coxas. A outra era apenas uma calça na cor preta, colada ao corpo e presa na sola do pé, deixando os dedos e calcanhares livres. Concluiu escolhendo a calça.
Para passar o dia, incentivado pelos raios de sol que trespassavam sua janela, vestiu-se com uma larga calça capri de jeans claro, calçou seu fiel par de tênis verde musgo sem cadarços e completou com um moletom fechado, munido de bolso frontal e capuz.
Alguns itens, como pijamas e objetos pessoais, já estavam em uma mochila separada. Esqueceu-se apenas dos chinelos, já que não tinha o hábito de usá-los.
Após conferir seu lar uma última vez, o grego deixou as chaves com Jean e seguiu para o metrô.
No caminho, lembrou-se da noite anterior. Enquanto o deixava em casa, Kanon havia comunicado sobre uma viagem que planejava juntamente com Saga. Ambos queriam levar o caçula e amigos ao litoral do sul em uma pequena confraternização de fim de semana. Extasiado, Milo sentiu que o sol e o mar poderiam cobrir suas necessidades momentâneas, já que constantemente se sentia deslocado, como se não pertencesse àquele lugar frio e cinza.
Quando deu por si, já se encontrava próximo à academia. Ao entrar, viu Afrodite concentrado na aula de spinning, não percebendo seu aceno. Deu de ombros, dirigindo-se aos armários da área da piscina.
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Já vestido para treinar, andou lentamente, arrepiado pelo tempo frio, até estar em frente a água imóvel. Como habitual, seus pulmões foram invadidos pelo cheiro de cloro. Fechou os olhos por apenas um instante, contudo, foi tempo suficiente para que Camus chegasse.
Pestanejou para ter certeza que o ruivo realmente estava ali parado, olhando para si. Se portava maravilhosamente, como sempre. Calça social marrom, sapatos escuros e blusa branca com finas listras também escuras. Possuía todos os botões fechados, apesar das mangas estarem dobradas até os cotovelos. A gravata descansava por cima de alguns livros que o professor carregava junto ao peito.
Milo prendeu a respiração e acenou.
Camus, por sua vez, não se lembrava de respirar desde que adentrara na área da piscina. Ao seu ver, o grego era a personificação do pecado. Finalmente podia visualizar os músculos fortes e perfeitamente esculpidos nos braços grossos e peitoral largo. Apesar de não expostas, o mais velho percebia o delineado das pernas através do tecido extremamente justo. O preto definitivamente o favorecia.
O loiro ostentava uma postura que havia deixado Camus fora de si. Os ombros para trás, o peito inchado para a frente, as pernas levemente abertas e os punhos cerrados. Postura de atleta.
Com certo atraso, conseguiu responder ao aceno do grego com um movimento de cabeça, já que seus braços apertavam fortemente os livros contra o próprio peito.
Viu o grego se virar na direção da piscina, fazendo com que os cachos loiros emoldurassem o rosto bronzeado de forma selvagem. Milo correu e saltou no ar, se alongando completamente. Mergulhou de ponta.
Camus só conseguiu se mover quando perdeu o aluno de vista. Percebeu a enorme ereção que mal se continha no tecido social e corou violentamente. Agradeceu a todos os deuses por estar sozinho e andou apressado até o banco mais próximo, depositando os livros em seu colo. Abriu um deles para completar seu disfarce.
Via Milo subir a superfície em busca de ar e se virar majestosamente dentro da piscina quando atingia seu fim, traçando o percurso de volta. Usava as pernas torneadas para tomar impulso e os braços fortes para se locomover.
Agora a ereção era completa. Como se livrar dela? Teria que pensar em algo menos excitante. Fechou os olhos e visualizou o senhor que o acompanhava durante alguns dias da semana na corrida matinal. Lembrou-se do quanto ele suava e fez uma careta, colocando a língua para fora.
Abriu os olhos satisfeito e viu Milo ondular o corpo dentro d’água. Os braços esticados, as pernas unidas, a bunda compacta se mexendo com o corpo de forma sensual... pronto, estava mais uma vez dolorosamente excitado.
Esperou que Milo mergulhasse novamente e enfiou a mão por baixo dos livros, apertando sua ereção e sentindo-a pulsar em resposta. Estava corado, tinha certeza. Pressionou delicadamente a ponta de seu pênis enquanto mirava as costas musculosas. Umedeceu os lábios com a ponta da língua e abriu mais suas pernas, todo o volume o incomodava.
Milo não se cansava e o ruivo imaginou se ele agia assim na cama. Desceu a mão, apertando levemente os testículos sobre o tecido fino da calça social. Se sentia dolorido pela falta de estímulo mais efetiva. Segurou toda a extensão de seu pênis de maneira mais rude e suspirou. Estava na hora de parar de agir como um promíscuo em público. Cruzou os braços, iria apenas observar.
Após um tempo, Camus viu Milo fazer menção de sair da piscina. A visão do grego subindo as escadas com gotas d’água escorrendo por seu corpo fez com que o francês sentisse uma fisgada intensa em seu pênis.
Nadadores não paravam rápido, paravam? Por quanto tempo permaneceu ali, admirando-o?
— Vou tomar água e já volto. Aceita? – O loiro perguntou, solicito.
Ao perceber que sua voz falharia, Camus apenas negou com a cabeça. Viu uma figura loira surgir na porta da área da piscina e agradeceu aos céus por ser Afrodite. Não tinha certeza do que mais seria capaz de fazer.
— Veio cedo observá-lo nadar, não é? – Perguntou em sueco, sentando-se no mesmo banco que Camus. Inclinou-se para ver o que o ruivo lia – Não sabia que você treinava leitura de cabeça para baixo. Deve ser muito interessante. – Riu baixinho.
Camus suspirou, resignado.
— Sim, eu vim observá-lo. Mas é só isso.
O grego retornou, gesticulando para cumprimentar o recém-chegado antes de pular na piscina novamente.
— Sabe, mon amour, não há problema nenhum nisso. – Virou-se de modo a observar os movimentos do amigo – Só que você está se esquecendo de algo importante.
Os pares de olhos claros se encontraram.
— Essa é uma via de mão dupla. – Prosseguiu fazendo um sinal de “v” com os dedos longos.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que nada impede que o Milo goste de você também.
— Dite... primeiro que ninguém gosta de ninguém aqui, não ao ponto de largar tudo como você quer. Ambos perderíamos muito nesse relacionamento.
— Camie, ninguém precisa saber disso! – Exasperou-se.
— Não é simples assim e você sabe. Se eu me envolvesse com Milo, tudo daria errado para ambos! É isso que você quer?
— Sabe, Camus, honestamente eu nunca vi alguém gostar de você como o Milo aparenta. Ele só... gosta. Sabe? Já pensou que você pode estar perdendo a chance da sua vida de ser feliz?
— Dite, ele seria cassado como na época da Inquisição e perderia o diploma que ainda nem conseguiu. E eu, como seria feliz sem a Sorbonne?
— Tem tempo? Por que eu tenho incontáveis exemplos para te dar sobre isso. – Levantou uma sobrancelha em desafio.
— Tudo bem, conversamos sobre isso depois. – Suspirou mais uma vez.
— Soube que o Shion te chamou ontem para conversar sobre o Philippe. Deu tudo certo? Não quis perguntar na frente do Milo.
— Como? – Camus se virou surpreso – O Mask nem aqui está, como você soube disso?
O outro riu. Prolongaram a conversa até Milo terminar suas séries.
Camus parou de falar ao ver o grego subir novamente a escada da piscina. Conseguiu se controlar melhor com Afrodite ao seu lado. Aquela cor bronzeada... será que ele tinha marca de sunga? Pensou o francês.
Milo parou em frente ao banco, colocando as duas mãos na cintura. Pelo menos não sentia frio, estava quente devido aos exercícios físicos.
— Oi, Dite! – Disse contente – Quer um abraço?
— Oi, Miluxo! Sinto, mas terei que recusar. – Riu.
— Só vou tomar um banho e vamos almoçar, pode ser?
— Vai mesmo, amor, esse cloro não faz bem para esses cachos. – O sueco disse convicto, fazendo um movimento de enxotar com a mão.
— Querem me esperar lá dentro? – Se arrependeu assim que as palavras deixaram seus lábios. Por mais que fosse tentador se exibir nu para Camus, tinha medo de se excitar e comprometer seus planos.
O professor sentiu o despertar de seus sentidos mais primitivos. Sem chance veria Milo no banho. Seria uma afronta contra seu autocontrole.
— Ah... – Tentou soar despretensioso – Nós te esperaremos aqui mesmo, pode ir com calma.
— Tudo bem, até daqui a pouco.
O ruivo observou as nádegas perfeitas do grego que se afastava.
— Terra chamando Camus... – Afrodite abanou a mão na fronte do irmão – Honestamente, não achei que você seria um bissexual tão convicto no fim das contas.
— O que quer dizer? – Perguntou confuso.
— Sendo justo, eu achei que você começou a gostar do Milo sem pensar muito nas consequências, que quando percebesse que ficar com ele implicava em tocá-lo, você mudaria de ideia. Pensei que o corpo masculino não fosse te agradar tanto.
Camus pensou em contradizer o loiro, contudo desistiu. Era Afrodite, afinal.
— Pois é, eu também. – Disse simplesmente.
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Já na saída da academia, Afrodite usou o celular como desculpa para seguir na frente. Por mais que sentar-se ao lado de Camus fosse um costume de toda a vida, hoje iria ceder seu lugar ao amigo. Esgueirou-se pelo banco de trás assim que o ruivo destravou o Cadillac, deixando o assento do passageiro para Milo.
— Você sempre sai com o cabelo molhado desse jeito? – Camus perguntou ao aluno enquanto ligava o aquecedor.
— Normalmente sim, não trouxe meu secador da Grécia. – Deu de ombros.
— Eu tenho um antigo, posso te emprestar. Me lembre quando chegarmos em casa.
— Eu adoraria, obrigado.
— Disponha.
Ainda passando o tempo no celular, Afrodite esboçou um sorriso discreto.
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Como o tempo se mostrou mais ameno, optaram pelo almoço ao ar livre no Crème fraîche. Escolheram uma mesa redonda e branca, embaixo de um guarda sol. Milo olhou em sua volta, reparando nas ruas movimentadas e calçadas delicadas. Havia certo romantismo em todos os lugares que o professor frequentava, isso era inegável. Seria Camus um romântico, afinal?
Afrodite engatou em uma conversa animada sobre as telas que planejava expor. O ruivo ouvia atentamente, se propondo em ajudar em alguns pontos que não envolviam talento artístico, como transporte, assessoria, ligações e contatos.
— Eu também posso ligar para o meu pai, talvez ele consiga algo em Londres.
— Ai, Camie... – Bufou – Sabe como o Raul é complicado quando se trata do “homossexual que desvirtuou o caminho perfeito de seu único filho”. – Dramatizou, fazendo sinal de aspas com os dedos.
Camus revirou os olhos.
— Posso tentar, ao menos? – Disse diplomático.
— Não sei por que ainda insiste com aquele velho rancoroso!
— Dite, eu e ele estamos em paz já tem um tempo. Me faça feliz e permita, por favor. – Esticou o braço sobre a mesa para poder cobrir a mão do irmão com a sua.
O sueco olhou com desconfiança para o gesto, logo em seguida para a face alva. Suspirou.
— O que eu não faço por você...
Camus sorriu, sendo observado atentamente por Milo, que curvou os lábios em um discreto sorriso apaixonado.
Ao término do almoço, o mais velho recolheu as três guias e se retirou para o caixa, sumindo na infinidade de pessoas que tiveram a mesma ideia de almoçar ao ar livre.
— Ei! Espere! – Gritou em vão, Camus já não era mais capaz de lhe ouvir – O que ele acabou de fazer?
— Foi pagar nosso almoço, oras. – Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Mas por que? Eu posso muito bem pagar pelo meu próprio almoço. – Franziu o cenho.
— É claro que você pode. Está muito enganado se pensa que ele faz isso por pena. Abaixe esse orgulho. – Repreendeu o amigo de forma autoritária – O Camus simplesmente é assim. Inclusive eu tenho uma hipótese forte que ele nem percebe o que está fazendo. Veja o meu exemplo, apesar de não trabalhar em uma universidade parisiense, eu tenho tanto dinheiro quanto ele. Mas se o ruivão quer pagar meu almoço, qual o problema? Ele é uma pessoa protetora, acostume-se.
Milo cruzou os braços, emburrado.
— Acredite, ele fará muito mais por você. – O sueco completou.
— Então ele é gentil com todo mundo, ótimo. – Não sabia o porquê de ter dito aquilo.
— Não, não é. Ele só se preocupa com quem gosta.
— Ou com alunos que ele supõe que sejam uma responsabilidade. – Rebateu.
— Pelos deuses, homem, o que você tem bonito tem de teimoso! – Apertou a face do amigo com ambas as mãos e riu gostosamente.
Camus se aproximou e parou em frente à mesa, sem entender.
— Vamos? – Disse hesitante.
— Claro, Camie! – Ainda sorrindo, Afrodite levantou-se em um pulo.
O ruivo buscou respostas no olhar do aluno, que apenas sorriu. Não se conteve, devolveu o sorriso de Milo com outro.
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Camus dirigia atentamente em direção à Sorbonne quando uma dúvida lhe acometeu.
— Dite, quer que ficar com o carro? – Mirou os olhos claros do sueco através do espelho retrovisor.
— Ah é! Você pegou tudo, não é? – Afrodite se inclinou para frente, portando-se entre os bancos do amigo e do irmão.
— Peguei. – Camus acenou com a cabeça.
— Olha, seria ótimo. Eu fiquei arrependido de ter saído sem carro hoje de manhã.
— Para ser honesto, nem sei se caberia tudo se você tivesse vindo com o Porsche.
— Teríamos que ter trocado os carros.
Milo levantou uma sobrancelha.
— Verdade. Aliás, vai conseguir tirar tudo sozinho? – Camus cumprimentou os homens na portaria e se voltou para o retrovisor, aguardando a resposta.
— Faço mais de uma viagem. Então sem problemas deixar o carro comigo?
— Não, nenhum. Você nos busca mais tarde?
— Claro.
— Combinado, então. Milo, pode deixar o que não for usar no banco de trás, assim não precisa carregar peso durante o dia. – Olhou de soslaio para o loiro ao seu lado.
— Tudo bem, obrigado. – Disse simplesmente.
Camus estacionou no bloco das Ciências Humanas e se virou para entregar a chave ao irmão.
O grego ficou imóvel por alguns segundos. Estava impressionado com a intimidade que os dois possuíam. Definitivamente eram ex-namorados que deram muito certo em traçar uma nova amizade.
— Vamos, Milo?
O loiro acenou com a cabeça e se despediu do sueco, que já estava pronto para assumir o posto de motorista.
Camus e Milo seguiram lado a lado, atravessando os pátios majestosos. No caminho foram vistos por alguns alunos, fato que rendeu inúmeras fofocas. Afinal, não era dia de aula e ambos vieram juntos do estacionamento. Apesar de saber das consequências, o ruivo não se intimidou, no fim das contas eles não estavam fazendo nada de errado.
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Ao alcançarem a sala do francês, Camus abriu uma das gavetas de sua mesa e buscou por um pequeno objeto. Estendeu a mão fechada para Milo, que o mirou surpreso ao sentir o toque frio em sua palma.
— É da minha sala. – Esclareceu, tímido. Inseguro, sentou-se na beirada da mesa, segurando a madeira com ambas as mãos ao lado do corpo.
— Camus... – Milo mirou a chave entre seus dedos.
— É para você não ficar carregando as coisas, sabe... – Coçou a cabeça, desviando o olhar – Como você vem de transporte público, pode deixar algumas coisas aqui, como livros, por exemplo, assim evita andar com a mochila pesada.
Levantou-se, apontando para uma pequena cômoda em um canto, artefato que Milo ainda não havia notado.
— Isso é seu.
— Camus... – Os orbes com diferentes tons de azul se encontraram – Eu nem sei como te agradecer, vai ajudar muito.
O ruivo soltou o ar em seus pulmões. Estava aliviado.
— Fico feliz, era a intenção.
— Você confia mesmo em mim? – Girou o objeto na mão.
— Por que não confiaria?
Milo sorriu.
— Obrigado, Camus.
— De nada. – Disse polido, disfarçando a timidez com seriedade – Então, vamos para a biblioteca?
— Vamos sim!
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Milo mordia a ponta da lapiseira, compenetrado, sem perceber que pisava com a ponta de um pé no calcanhar do outro, retirando parcialmente o tênis. Parou de ler e olhou para baixo, decidindo que seria uma boa ideia ficar descalço.
Camus, que mantinha cabeça apoiada sobre as mãos enquanto lia uma produção do aluno, resolveu parar para observá-lo. Jogou a franja para trás e empurrou os óculos com a ponta do indicador, tentando entender o que se passava.
Ao finalizar seu trabalho, Milo levantou-se e deu a volta na mesa. Camus o acompanhou com o olhar, vendo-o arrastar uma cadeira até posicioná-la ao seu lado. Supôs que o aluno possuía alguma dúvida a tratar consigo.
Porém, o grego apenas retornou ao seu lugar. Olhou para Camus em sua frente e piscou, divertido. Sabia que o professor não estava compreendendo absolutamente nada. Sentou-se e esticou os pés, apoiando-os na cadeira ao lado do francês, que o mirou atônito.
— Você ficará resfriado! – Disse autoritário, franzindo o cenho.
— Não vou. Gosto de ficar descalço. – Sorriu.
— Milo, pelos deuses, calce os seus tênis! – Irritou-se, a voz grave reverberando nas paredes.
— É proibido ficar descalço na biblioteca? – Perguntou, fingindo inocência.
— Não, mas você ficará doente!
— Não irei calçá-los. – Deu de ombros, puxando o livro que lia anteriormente.
— Milo, coloque seus tênis imediatamente. – Imperou, irrefutável.
— Não. – Estava sendo propositalmente insolente. Se divertia em tirar o francês do sério – Me obrigue. – Olhou desafiador, sorrindo de canto.
Camus fechou o cenho e levantou-se obstinado. Milo apenas observava.
Deu a volta na mesa, posicionou-se atrás do grego e segurou em ambos os lados do encosto da cadeira. Puxou o móvel bruscamente para trás, fazendo com que o loiro se sobressaltasse, assustado, agarrando as laterais do assento. Milo era pesado, mas Camus era forte o suficiente para carrega-lo.
O mais novo gargalhou alto ao sentir o professor inclinar a cadeira para derrubá-lo.
Devido a tanto barulho, uma bibliotecária baixinha e irritada surgiu entre as estantes, pisando firme, pronta para repreender os desordeiros.
— Silêncio, rapazes! – Disse a senhora de face enrugada.
A cena foi paralisada: Camus inclinando a cadeira, Milo esforçando-se para se manter sentado e ambos olhando para ela de modo assombrado.
— Senhor Camus! Que absurdo! Comporte-se, você deveria estar dando o exemplo! – Disse ao reconhecer o professor.
O francês corou imediatamente. Levantou as mãos com as palmas viradas para cima, fazendo com que a cadeira batesse com força no chão. Milo gemeu e fez uma careta, mas não reclamou.
— Desculpe, senhora Antoinette. – Disse bastante envergonhado – Isso não acontecerá novamente.
Quando não puderam mais vê-la, Milo pretendia voltar aos seus afazeres, ignorando o ocorrido. Porém, foi surpreendido por dedos ágeis que uniram seus pulsos em questão de segundos. Com uma rapidez impressionante, Camus desfez o nó de sua gravata com o indicador e a arrancou do colarinho. Amarrou fortemente o tecido em volta dos pulsos erguidos do loiro, que estava assustado demais para tomar alguma atitude.
O professor abaixou o corpo, apoiando as mãos na lateral do assento até estar na mesma altura da face do aluno.
— Se você me envergonhar de novo, eu farei com que se arrependa. – Disse sério.
Milo delineou um sorriso atrevido. Aproveitou que seus braços estavam unidos acima da cabeça de ambos e os desceu rapidamente, posicionando o francês entre eles. Puxou o corpo do professor em direção ao seu, as faces ridiculamente próximas.
— E como você pensa que fará isso? – Sussurrou em afronta.
Camus se sentiu mergulhar fundo nas piscinas que eram os olhos do grego. Fechou os seus próprios, em busca de uma fagulha de controle. Em vão. Ao se privar da visão, seu olfato denunciou o aroma leve e intrínseco que emanava do aluno. Milo era perfeito demais.
Tudo que precisava fazer era se mover milímetros para frente e acabar com a frustação que havia começado pela manhã na piscina. Não, estava enganado, a frustração teve início no momento em que visualizou o estrangeiro cruzar a porta de sua classe.
Sua classe...
Abriu os olhos, lembrando-se da profissão.
Era tudo que tinha.
Ao contrário das vezes anteriores, não se esquivou do grego rapidamente. Mirou os orbes azuis piscina que o fitavam com expectativa e esboçou um semblante triste, como se pedisse desculpas.
Abaixou-se lentamente até abandonar os braços fortes do grego. Sentou-se na mesa da biblioteca e esticou as mãos, pedindo as de Milo.
Este, sem entender, lhe esticou os pulsos amarrados. Camus acolheu as mãos unidas e desfez cuidadosamente o nó da gravata, olhando com carinho para os dedos entre os seus. Passou o polegar sutilmente em uma das fendas avermelhadas do pulso machucado, observando a pele que jamais poderia tocar além disso.
Com um suspiro resignado, jogou a gravata amassada sobre o ombro e pousou sua mão sobre a de Milo, separando os pulsos. Entrelaçou os dedos com firmeza e ambos permaneceram de mãos dadas até que o ruivo se pronunciasse.
— Me desculpe.
Milo não entendeu se o professor se desculpava pelo nó ou por ter se afastado. De qualquer maneira, acenou positivamente com a cabeça. Viu Camus girar o punho, sem soltá-lo, apenas para verificar o relógio. Já era fim de tarde.
— Está com fome? Vamos tomar um café e ligar para o Dite?
— Claro.
Com dificuldade, Camus rompeu o contato, indo em direção a sua cadeira para guardar os livros e anotações.
Milo olhou para suas mãos, sentindo falta do toque frio de segundos atrás. Forçou-se a levantar e fazer o mesmo.
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A lanchonete se encontrava vazia. Já era tarde e muitos alunos haviam deixado o campus. Milo se interpôs, fazendo um único pedido. Era sua vez de fazer algo por Camus. A moça retornou algum tempo depois, trazendo dois cafés para viagem e um chocolate. Sem dizer nada, o grego pagou a conta e dividiu a pequena barra ao meio, oferecendo metade dela ao professor.
Comeram em silêncio durante o caminho.
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Sentaram-se no lance de escadas que ligava o estacionamento aos corredores dos pátios internos, onde Camus finalizava uma ligação com o sueco.
— Ele prometeu estar aqui em breve. – Desligou o aparelho.
— Camus... – Milo disse sem desviar os olhos do copo de isopor em sua mão.
O francês virou-se para fita-lo.
— Sexta tem uma festa entre os alunos. Meus amigos estarão lá. Gostaria de ir comigo? – Continuou.
O sol se punha delicadamente, iluminando ambas as faces em tons avermelhados.
— Milo, eu não posso ir. Sou professor.
— Mas o Dite tinha dito que vai com o Mask, que também é professor, então qual o problema?
— O problema é que eu sou seu orientador, são coisas diferentes.
— Diferentes como? – Finalmente levantou o rosto e fitou o ruivo – Nós somos amigos, não somos?
— Milo, eu gosto de você.
O grego sentiu o coração falhar uma batida. Os olhos azuis se abriram em surpresa.
— Eu zelo por você, é minha responsabilidade. Não quero que pensem que estou te favorecendo de algum modo. Todas as suas conquistas serão mérito seu, mas, se nos julgarem mais que profissionais, poderão confundir isso.
— Ah... – Disse amuado, voltando a mirar seu copo – Bom, eu não me importaria.
Ouviram a buzina do Cadillac e Camus agradeceu pela chance de encerrar a conversa.
Afrodite saiu do carro, cedendo o posto de motorista ao irmão. Já no banco de traseiro, notou o clima pesado entre os recém-chegados. Desejou entender o que se passava e anotou mentalmente que Camus lhe devia uma conversa séria.
— Como foi hoje, Dite? Conseguiu organizar todas as telas?
— Deu tudo certo! Tive muito trabalho, mas valeu a pena! – Respondeu animado.
Milo preferiu se manter em silêncio, alheio a conversa dos outros dois. Precisava entender a torrente de novos sentimentos que o assolavam. Estaria sendo rejeitado?
Tempo depois, Camus diminuiu a velocidade e apertou um botão no painel do Cadillac, abrindo a garagem de um suntuoso edifício. O francês girou o volante para que o carro entrasse no vão e Milo se inclinou para observar através da janela. Questionou-se internamente sobre o motivo do professor ter o controle do prédio do sueco, mas nada disse.
Camus estacionou calmamente e os três desceram. Milo os acompanhou até o elevador, observando a vaga vazia entre o Cadillac e o Porsche amarelo. Viu o ruivo apertar o botão o botão da cobertura no 12° andar e, pela primeira vez, teve curiosidade em conhecer a casa do amigo.
Desceram em um corredor pequeno, contendo apenas uma porta. Enquanto o sueco procurava pelas chaves em sua bolsa, todos viram a maçaneta girar sozinha, revelando um homem alto e musculoso.
O estranho, que Milo supôs ser Mask, sorriu e puxou o Afrodite para um beijo. Tinha a barba por fazer e usava o cabelo grisalho penteado para trás, apesar de aparentar pouca idade.
— Senti sua falta, amore mio. – Disse carregado de saudade.
— Você voltou! – Soltou-se dos braços fortes que o enlaçaram para fitar o rosto másculo – Por que não me avisou? Seu carro não está na vaga!
— Quis fazer uma surpresa, parei lá fora! – Riu, maroto.
Afrodite levantou a cabeça para beijá-lo brevemente.
— Amor, esse é o Milo. – Deu espaço para que Carlo fosse apresentado.
— Oi, Milo, é um prazer enorme te conhecer. – Estendeu a mão, recebendo um aperto firme do grego.
— O prazer é meu! – Sorriu.
— Eu ouvi muito sobre você, espero te ver com mais frequência. – Olhou descaradamente para Camus.
Afrodite viu ali sua chance de agir.
— Bom, Miluxo, eu e o Mask temos muita saudade para matar. Se importaria de não dormir aqui hoje?
— Claro que não, eu entendo perfeitamente! – Disse solícito, se preparando para pegar o elevador novamente.
— Que isso, amor, ele pode ficar tranquilamente no quarto de hóspedes. – Carlo se pronunciou, mesmo tendo acabado de descobrir que teriam visitas.
— Na verdade eu pensei que ele poderia ficar com o Camus. – Mirou sugestivamente o rosto do francês. Sabia que o irmão era educado demais para recusar.
— Se você não se importar, Camus... – O italiano entendeu prontamente.
— Não, eu não me importo. Bom, foi um prazer revê-los. – Levantou a mão em despedida – Seja bem-vindo de volta, carcamano. Vamos, Milo?
— Claro. Boa noite, foi um prazer!
— O prazer foi meu, Milo. Nos vemos amanhã! – Carlo abraçou o namorado com força enquanto se despedia.
No momento em que a porta do elevador foi fechada, Milo se interpôs na frente do professor, que apertava novamente os botões internos.
— Camus, isso não é necessário. Eu posso dormir com os gêmeos, não se preocupe. Não precisa me levar para a sua casa.
Quando terminou de falar o elevador parou.
Camus saiu enquanto buscava pelo chaveiro no bolso de sua calça.
— Na verdade, Milo, nós já estamos na minha casa.
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