Notas iniciais
Olar, pessoas! Agora a história começa de verdade! Boa leitura!

Ao levantar os olhos do notebook sobre a mesa e ver a figura loira entrar, o preceptor sorriu, ajeitando os óculos sobre o rosto com o indicador.

— Não pensei que viveria para presenciar este acontecimento. Milo Halkias chegando vinte minutos ANTES do horário marcado. Obviamente isto é o marco de um acontecimento extraordinário ou início de uma nova era. – Dohko disse enquanto cruzava os braços sobre a mesa.

Sentando-se na cadeira de visitantes, Milo fez menção de reclamar. Desistiu com uma expressão de enfado, enquanto entrelaçava os dedos das mãos, resquícios da ansiedade que o atormentava há dias.

— E então? Qual a resposta do diretor do departamento? – A voz grave de Milo se fez pronunciar no cômodo, enquanto as sobrancelhas se uniam em expectativa. O lábio inferior foi automaticamente mordido enquanto os dedos se apertavam com mais intensidade.

— Bom dia para você também, Milo. – O preceptor alargou o sorriso mediante a falta de compreensão do aluno. Se a resposta fosse negativa, obviamente ele não estaria sorrindo, então não havia motivos para tanto sofrimento – O diretor leu a proposta do seu trabalho e oficializei minha carta de recomendação, mesmo tal ato não sendo necessário.

Dohko fez uma pausa para prolongar o divertimento daquela cena. Milo o fitava como uma criança, os olhos azuis escuros parecendo maiores enquanto ele, institivamente, se inclinava levemente para frente.

— Achou o conteúdo fascinante. Como eu já havia dito, a retórica filosófica está se perdendo cada vez mais nas escolas de direito. Por ser um tema originado aqui, na Grécia, nada melhor que um conterrâneo para abordá-lo e trazê-lo de volta à sua devida relevância.

— Então eu poderei conhecê-lo? Poderei estudar com o Dr. Sivan? – Milo mal continha sua animação. Havia conseguido? Iria finalmente para Panthéon-Sorbonne? Seus dedos haviam se soltado e agora seguravam fortemente cada lado do apoio de madeira da cadeira. Seu corpo ainda mais inclinado para frente.

— Sim, Milo. Você poderá conhecê-lo. – Dohko riu ao ver o aluno soltar o ar dos pulmões e se jogar contra o encosto, com um sorriso imenso ostentando dentes perfeitamente alinhados e brancos – Porém, como seus irmãos são promotores públicos em Paris, você não receberá auxílio moradia, apenas as passagens de ida, volta, e uma bolsa de auxílios acadêmicos.

Milo possuía dois irmãos mais velhos. Saga e Kanon eram gêmeos e haviam se mudado há dois anos para a França após terem sido transferidos da promotoria grega. A justificativa para tal transferência nunca havia sido informada, apesar de Milo ter certeza que os gêmeos sabiam o porquê.

— Ótimo, e quando eu vou? – Disse o loiro, sem conseguir mais se conter. Estava imerso em expectativas. Finalmente conheceria o alvo de suas pesquisas, a inspiração de seu trabalho. Conseguira uma chance que poucos tinham graças à dedicação de três anos. Conheceria o Dr. Sivan, especialista em jusfilosofia da argumentação retórica. Finalmente conseguira a chance de aprender com ele.

— Domingo. Vá para casa e faça as malas, Milo. Você passará um semestre em Paris. – Dohko ostentou um largo sorriso. Seu aluno se levantou em êxtase, deu a volta na mesa de carvalho e o abraçou languidamente.

— Obrigado por acreditar em mim. – Disse Milo, imbuído de felicidade, sem soltar o abraço. – Não vou decepcioná-lo!

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Após os acertos finais e a burocracia na Pró-Reitoria de Assuntos Internacionais, Milo rumou para casa, onde daria a notícia para os pais, tentaria dormir, arrumaria as malas, e, obviamente, ligaria para os irmãos.

Sentado na janela do transporte público e olhando para o céu, agora não mais laranja e sim majestosamente azul, Milo divagou a respeito de seus futuros anfitriões. Como seria morar com Saga e Kanon? Quando a família se encontrava na França, sempre se reuniam em um hotel ou pousada no interior, nunca sequer conheceram a morada dos irmãos. O único conhecimento da família é que ainda moravam juntos sem a pretensão de segregação.

Eram praticamente inseparáveis desde pequenos, nunca sobrando muito espaço para o mais novo. Milo não era marginalizado, ao contrário. Vindo de uma família de advogados ocupados, os irmãos aprenderam cedo a trabalhar em equipe para otimizar tarefas e afastar a solidão. Porém, a relação dos gêmeos era... diferente. Pais sempre amorosos e uma família sem cobranças, em que você tem a liberdade de se expressar foi o ambiente que cercou a infância dos três. Saga e Kanon se tornaram um só. O destino de um era o do outro, o futuro não era individual, pertencia a ambos na mesma proporção. Era um tipo de amor que o caçula nunca havia presenciado.

Já Milo cresceu com as mesmas qualidades, não acorrentado à preconceitos. Sempre afetuoso e dono de um sorriso confiante, conquistava as pessoas por onde passava. Devido à beleza natural estonteante e corpo de nadador – esporte que mantivera desde os sete anos – muitos amantes vieram e se foram, independente de sexo, cor da pele ou idade. Bastava chamar atenção e ser ingênuo o suficiente para se apaixonar perdidamente por aqueles olhos azuis.

Cercado de advogados impressionantes, sempre incentivado a expressar sua opinião e, por ser o caçula, ter que argumentar constantemente para ser levado a sério, o grego acabou se dedicando aos negócios da família, ingressando há três anos na Escola de Direito. Inevitavelmente, a retórica foi seu campo de estudo favorito. No primeiro ano de estudo, Milo optou pelas áreas de Direto Público e Direito Civil, encontrando Dohko como o melhor professor orientador de Thessaloniki.

Após inúmeras pesquisas e teses, Milo foi surpreendido. O melhor acadêmico para auxiliá-lo sobre retórica, pasmem, não se encontrava na Grécia, e sim na França. Este homem era Camus Sivan. O grego se tornou um árduo escudeiro dos artigos do Dr. Sivan, Bacharel em Filosofia, Mestre em Filosofia Antiga e Medieval, e Doutor em Retórica Jurídica. Abdicou de noites inteiras refazendo seus passos, entendendo seu raciocínio. E agora iria conhecê-lo. Melhor, iria aprender com ele.

Chegando em casa, Milo retirou os tênis, caminhando descalço sobre o chão fresco até seu quarto. Não conseguia parar de sorrir, mesmo que minimamente. Deu uma última olhada sem qualquer expressão de arrependimento, estava feliz. Pôs-se a arrumar as malas, passaria o dia empertigando-se nesta tarefa até os pais chegarem de viagem, como prometido.

À noite, combinaram de passar o dia seguinte juntos após Milo finalizar o trabalho com as bagagens. Foi um sábado frio, apesar do sol do dia anterior. O outono estava por começar. Fizeram refeições juntos, ligaram para os gêmeos juntos e compraram algumas roupas mais quentes, pelo menos tudo o que se pode lembrar na hora.

Durante a noite Milo não conseguiu dormir. Estava ansioso e virava-se de um lado para o outro incessantemente até desistir e ir ver um filme qualquer na televisão. Se fosse estudar ficaria ainda mais tenso, o ardil era colocar em um filme com muitas cores, assim sua mente trabalharia no automático e a paz, finalmente, viria.

Quando o dia amanheceu, Milo logo despertou. Verificou suas malas durante a manhã, afinal passaria seis meses fora, não queria esquecer suas conquistas acadêmicas. Juntou os livros que presumia relevância nos trabalhos futuros e, claro, obras acadêmicas de Camus Sivan.

No fim da tarde, perto do anoitecer, o grego se despediu de seus pais, confirmou partida com seus irmãos e enfim, rumou à Paris.

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A chegada não havia sido exatamente como Milo previra. Estava cansado em demasia. Apesar de apenas uma hora de fuso, a falta de sono revogou seu trono. Seus irmãos queriam levá-lo para comer, mas o loiro queria apenas dormir, então seguiram direto para o apartamento dos gêmeos.

— Seja bem-vindo ao lar, maninho. – Disse Kanon, o gêmeo mais novo, sorrindo felinamente de modo típico – Não é todo dia que temos visita. Espero que entenda.

Apesar com cansaço, Milo não poderia deixar de sentir curiosidade com a casa dos gêmeos. O apartamento era mediano. Poucos, porém espaçosos cômodos e apenas um quarto. Neste quarto havia apenas uma cama. De casal.

Impressionantemente, Milo não sentiu espanto e nem fez menção de questionar. Pelo contrário, ficou feliz. Duvidava fervorosamente que alguém poderia completar Saga sem ser Kanon e a recíproca era verdadeira.

— Milo, amanhã iremos procurar um apartamento para você perto da Panthéon-Sorbonne, tudo bem? – Saga, sempre razoável, enfim se manifestara após o tour pelo lar.

— Sa, não quero que se preocupe, eu vou arrumar um emprego e resolver isso. Só preciso de alguns dias com vocês e eu prometo não incomodar – Milo havia deixado as malas em um canto da extensa sala de estar e remexia em sua mochila em busca de escova de dentes, pijama e algo para prender o cabelo.

— Nem pense nisso. Você não vai perder seu tempo trabalhando em Paris. Mal você fala francês. – Kanon apoiou-se na bancada da cozinha que dava para a sala de estar, olhando de modo repreendedor para o caçula – Você veio aqui para estudar e queremos que faça um bom trabalho, Milo. Essa é sua chance, não a desperdice.

— Por mais que me doa dizer isso, Kanon tem razão. Nós recebemos muito bem na promotoria francesa e não pretendemos agregar dinheiro para a “faculdade das crianças”. – Saga falou enquanto sentava displicentemente sobre o sofá. O longo cabelo loiro preso em um rabo de cavalo alto foi jogado de lado, de modo a não incomodar se prendendo entre suas costas e o encosto. Cruzou uma perna sobre a outra desmazeladamente, apenas apoiando o calcanhar esquerdo na coxa da perna direita – Você ficará sob nossos cuidados em um apartamento só para você. Poderá manter sua individualidade, ao contrário de repúblicas instaladas nas proximidades da universidade. Terá tranquilidade de estudos.

— O que exatamente quer dizer com “por mais que me doa”? – O gêmeo mais novo caminhou empertigado até estar em frente a Saga. O cabelo loiro revolto que havia sido jogado para trás com um gesto das mãos grandes, agora caindo em cascatas pelas costas e ombros largos. Aguardou a reposta com as mãos na cintura e um olhar desafiador.

— Quero dizer que você estar correto a respeito de algum assunto é algo realmente inusitado. – Saga respondeu com tranquilidade.

Milo os olhava divertido. Já havia prendido os longos cabelos ondulados em um coque baixo, com pijamas e escova de dentes nas mãos. Por mais que não falasse a respeito, sentia falta de ambos.

— Obrigado aos dois. De qualquer modo vou pensar em um modo acadêmico de ganhar dinheiro, não quero depender de vocês no próximo semestre. E gêmeos, obrigado pela hospedagem. Não sei se teria conseguido essa oportunidade sem vocês para me acolherem. – Milo disse. Murmuraram juntos um “disponha”. Estavam ocupados demais mantendo a tensão recém-criada.

— Bom maninho, eu e o Saga temos algumas coisas para resolver ainda hoje, estamos indo dormir. Boa noite e se prepare para seu primeiro dia. – Kanon falou, ainda sem desgrudar o olhar do mais velho, que retribuía divertido.

— Boa noite, meninos. – Milo sorriu travesso, porém é claro que os gêmeos não perceberam. Estavam concentrados demais em si mesmos.

Ambos rumaram para o quarto de casal, deixando Milo na sala. Aproveitando a solidão, o loiro se desfez das roupas sujas, de modo a não ter que ir com elas para o banheiro e despois guardá-las. Ajeitou tudo que usou durante o dia e separou as roupas da manhã seguinte, antes de ir ao banho.

Seria mais uma noite mal dormida. Milo ainda não tinha se dado conta. Estava em Paris! Amanhã iria para Panthéon-Sorbonne ter suas primeiras aulas. Talvez por isso não sentisse fome, ou sono.

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O ruivo misturava seu café preguiçosamente na mesa da sala de confraternização dos professores com uma pazinha transparente de plástico. Pendia a cabeça em uma mão, cujo cotovelo estava apoiado na mesa enquanto remexia o líquido com a outra. Lia um romance tranquilamente na manhã fria, com o sol fraco por trás de algumas nuvens refletindo dentro da sala. Raramente gozava do cômodo até os outros professores chegarem para então se retirar. Camus não muito sociável e se estivesse em sua sala, sabia que Shion iria encontra-lo antes da hora. Todo início de semestre era igual.

O dia estava incômodo. Tendo sua vida metodicamente organizada, o francês sabia quando algo daria errado. Aquele não seria um bom dia, presumiu.

Interrompendo seus pensamentos e sua leitura, uma figura loiríssima entrou pela porta. Os cabelos longos e macios cascateando de um lado para outro quando se virou para fechar a porta atrás de si.

— Já disse a você que não pode ficar aqui. Quando vai aprender? – Camus desviou mansamente os belos orbes azuis claros das páginas do romance para fitar o recém-chegado. – Esta sala é destinada a professores, Dite. Até onde eu saiba, namorar um não lhe dá o direito de permanecer aqui.

Afrodite fez uma cara de enfado, rolando os olhos claros. Se aproximou do homem ruivo, lhe dando um beijo na bochecha e sentando-se ao seu lado.

Camus sorriu com o gesto.

— Em primeiro lugar, eu estar aqui não lhe diz respeito. – Afrodite também sorriu, levantando o longo indicador na altura do rosto do ruivo – Em segundo lugar, ninguém saberá, só você e o Mask.

Mask era o apelido de Carlo, namorado de Afrodite e professor do Departamento de Ciências Humanas da Panthéon-Sorbonne. Seus alunos costumavam chama-lo de Máscara da Morte. Como todo bom professor das humanas, Camus nunca questionou o porquê, mas tinha interesse em assistir uma aula dele.

— O que o fez levantar da cama tão cedo, em plena segunda? – O ruivo questionou, jogando o corpo para trás na cadeira, enquanto usufruía de uma longa golada de seu café forte, feito na cafeteira da sala. Sentiu saudades do café cremoso que tomava todos os dias na lanchonete, fugir de Shion esmigalhava sua preciosa rotina.

— Esse semestre tenho uma aula no primeiro horário da segunda, acredita? – Afrodite gesticulou as mãos enquanto falava, demonstrando toda a sua indignação.

— Sim, acredito. O que eu não entendo é por que você chegou antes do Mask se vocês moram juntos e ambos têm o mesmo destino pela manhã. – Camus disse.

— Ahá! Como sempre perspicaz, Camie! Obviamente eu vim aqui para saber do seu grego. – A expressão indignada sendo substituída por curiosidade. Os olhos muito claros – característica herdada por ambos da mãe em comum – abrindo-se como botões de rosas em uma manhã de primavera.

Camus sentiu-se engasgar. Tossiu algumas vezes antes de indagar sobre o que o loiro dizia.

— Meu o que? – Recomposto, colocou o copo de café sobre a mesa, e virou-se para seu interlocutor.

— Pelos deuses, Camus. Não me diga que Shion ainda não conversou com você? – Afrodite estava tremendamente arrependido. Não é possível que chegara antes!

— Dite, do que está falando? Shion marcou uma reunião comigo antes do primeiro horário. Na verdade, eu estou indo para a sala dele agora. Mas antes, me explique essa história em detalhes.

Camus sentiu uma veia pulsar em sua têmpora. O francês se perguntava o que exatamente estaria acontecendo. Por que era sempre o último a saber das coisas que lhe diziam respeito?

— Tudo bem, eu conto. Mas por favor, seja uma boa pessoa e se faça de desentendido quando falar com o chefe, sim? Mask não quis me contar com medo de eu atrapalhar os planos do Shion e ele acabar levando a culpa por isso. – Afrodite arrumou sua postura na cadeira e suspirou rapidamente antes de continuar – Nosso digníssimo chefe de departamento aceitou um intercambista de Direito. Ele vem de Thessaloniki, e quer se especializar em retórica jurídica. Advinha quem será o orientador do grego?

Afrodite terminou a sentença com um sorriso malicioso, tomando um susto quando Camus se levantou tão rapidamente que, por pouco, não jogou a cadeira no chão.

— Não, isso não irá acontecer. – Dizia mais para si mesmo que para o loiro, enquanto jogava o copo de plástico na lixeira. Vestiu-se da alça da mochila lateral, guardando o livro dentro da mesma. Deu um beijo no topo da cabeça de Afrodite e rumou em direção a sala de Shion.

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— Camus, eu sinto muitíssimo pelo engano. – Shion, chefe de departamento da Escola de Direto da Panthéon-Sorbonne, disse com tranquilidade. Viu o rosto pálido a sua frente se tranquilizar – Em momento algum você deveria ter pensando que essa ocasião era opcional.

O ruivo olhou o homem de longos cabelos castanhos claros a sua frente com expressão de assombro. Shion continuou:

— Esta ocasião, meu caro, tem caráter mandatório. Você terá que cumprir um semestre de orientação com o aluno grego. Discussões já estão vetadas.

— Não é possível! – Camus se indignou – Eu sou um dos professores que mais fornecem artigos para a Sorbonne. Dou aula em dois departamentos diferentes e estou sempre um passo à frente nas pesquisas de outros professores. Shion, eu faço mais do que essa universidade me cobra, por que tenho que orientar um aluno? Achei que nós já havíamos discutido isso!

— Eu sei Camus, você é um ótimo profissional, todos sabemos. Porém, justamente devido aos seus ótimos resultados acadêmicos, temos muitos alunos querendo trabalhar com você. A Sorbonne me exige todo ano uma vaga de orientação e eu sempre nego, Camus, eu conheço você e sempre nego. – Shion disse nervoso, gesticulando. Arrumando os fios de cabelo que se soltaram de trás da orelha com o movimento, o chefe prosseguiu – Porém dessa vez é diferente. O aluno que está vindo tem um excelente desempenho escolar desde seu primeiro período. Escolheu precocemente as áreas de atuação e se empenhou para aprender. Ele está estudando jusfilosofia retórica e, Camus – Disse frisando seus olhos nos olhos claros do professor – eu não conheço ninguém melhor que você para complementar este aluno e torna-lo excepcional.

— Então é isso, eu não tenho escolha. – Havia sido mais uma afirmação que interrogação por conta do ruivo. Camus recostou-se informalmente na cadeira, apoiando o cotovelo de um braço no encosto e cobrindo com a mão os lábios finos, de modo estoico. Olhou em uma direção qualquer, já imaginando como seria ter um semestre inteiro perdido.

— Camus, – Shion o trouxe de volta de seus pensamentos – se serve de consolo, desde que eu ministrei aulas no seu primeiro período soube de sua paixão declarada pela Grécia. Acredito que seu novo pupilo também terá muito a acrescentar, não sendo fluxo unilateral de conhecimentos.

Camus apenas suspirou. Olhou no relógio, percebendo que era o momento de se retirar, em dez minutos deveria estar dentro de sala de aula.

— Qual o nome deste aluno, Shion? – Abria a porta da sala quando se virou, percebendo que não havia perguntado o essencial sobre seu novo pupilo.

— Milo Halkias. Aluno da Escola de Direito da Universidade Aristóteles de Thessaloniki. Ênfase em Direito Público e Direto Civil. Boa sorte. – Shion sorriu.

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Camus andava apressado pelos longos corredores da Sorbonne, também conhecida por Paris I, desde a divisão da Universidade de Paris em treze universidades autônomas. O bom gosto da edificação, sóbria e elegante, muitas vezes se destoava dos alunos que ali frequentavam. Por ser uma universidade renomada, inúmeras pessoas da pós-graduação, pesquisas, empresas e governo ali rondavam, trajando roupas devidamente apuradas. Porém, a maioria dos alunos, principalmente das ciências humanas, ainda insistiam em se destacar, indo com roupas confortáveis e pouco apropriadas.

O ruivo havia franzido o cenho ao ver um aluno com sandálias de couro, jeans desbotado e camiseta, apesar do frio. Passou pelo estudante, causando um claro contraste devido sua elegância. Vestido em uma blusa social clara com listras verticais finas, também claras, calça social de tecido escuro e sapatos da mesma cor, Camus não pode deixar de sorrir, após o garoto ter ficado para trás, lembrando de quando era um graduando em filosofia. Já esteve em trajes piores.

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Chegou ao seu destino, confirmando sua pontualidade no relógio de pulso e entrando na sala cheia, fechando a porta polidamente.

— Bom dia. – Cumprimentou educadamente com a voz grave e masculina. Ouviu alguns múrmuros de descontentamento. Rumou em direção à mesa do professor, depositando ali sua mochila lateral e sentando-se na beirada da mesma, olhando para a turma e cruzando os braços.

Reconheceu muitos alunos de semestres anteriores. Era isso que o incomodava: seguia um profissionalismo invejável, lecionava inúmeras disciplinas, tanto no departamento de direito, tanto no de filosofia. Nenhum outro professor da Paris I ou Paris II – onde a maioria das disciplinas da Escola de Direito ocorria – produzia tantos artigos para a Universidade. Com isso, fazia mais horas de trabalho que qualquer um, e, ainda assim, perderia seis meses de sua vida como babá de graduando.

Para variar, babá de um aluno ausente, pois Camus já havia pelo menos visto pelo uma vez cada um daqueles estudantes, nada de novo, nada de grego.

— Por mais que eu conheça muitos de vocês de semestre anteriores e alguns até mesmo dessa disciplina – Camus sorriu com cinismo, ouvindo os reincidentes na matéria gemerem baixo em protesto – gostaria de me apresentar. Meu nome é Camus Sivan e serei seu professor de Retórica Jurídica. Se tiverem dúvidas peço que mandem email para agendarmos, certo? – Verificou um assentimento geral da turma – Meu endereço eletrônico está na página da disciplina. Enfim, melhor começarmos.

O ruivo levantou-se da mesa e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo alto, de costas para a turma. Não percebia o olhar da porcentagem feminina em suas costas largas e postura perfeita. Com as longas madeixas ruivas presas, pegou os óculos de aros finos dentro da mochila e, enquanto buscava a caneta no suporte do quadro branco, a porta da sala foi aberta.

Ao virar na direção do barulho, Camus deparou-se com um homem de aparência cansada e roupas inadequadas. Os cabelos, coincidentemente tão longos quanto os seus caindo em ondas aloiradas pelas costas fortes de modo desalinhado.

Porém, não haviam sido essas características que fizeram o ruivo parar o que estava fazendo, esquecendo-se até mesmo do que era, e apenas encará-lo. A atitude inerte de Camus foi devido aos orbes azuis escuros, encarando os seus. O rosto anguloso portando um nariz afilado possuía lábios cheios e entreabertos, provavelmente deveria ter vindo às pressas, pensou o ruivo. O peito largo subindo e descendo em uma camisa de manga longa branca, realçando seus braços fortes. Nas pernas, um jeans claro pouco surrado e nos pés um tênis verde musgo, de modelo sem cadarços. A mochila pendia em apenas um ombro.

A estática entre os dois homens foi quebrada pela voz grave e carregada de sotaque.

— Com licença, professor. Eu poderia entrar? – Camus foi tirado de seus devaneios pelo ser parado no batente da porta. Um francês horrível, tinha que admitir. Ouviu risadas fracas da turma. Balançou levemente a cabeça de modo a afastar aqueles pensamentos estranhos. Retomou a postura sóbria antes de responder.

— Tem permissão dessa vez, Senhor Halkias. – Milo se surpreendeu com o tom de voz firme do homem a sua frente pronunciando seu nome. Caminhou em direção a um lugar vazio, depositando sua mochila sobre a mesa.

O grego estava tão curioso em relação ao professor que não se lembrou de tirar cadernos ou canetas para tomar anotações. Apenas sentou e prestou atenção nos movimentos do ruivo. E que ruivo! Milo pensou. Jamais havia visto alguém tão exótico. Os cabelos longos não eram acobreados, como a maioria dos ruivos que já havia visto. O professor tinha cabelos avermelhados, com algumas mexas mais claras. Os olhos de um tom próximo ao diamante mais polido que poderia existir, além do corpo maravilhosamente esculpido. Será que se trataria de um atleta nas horas vagas? Institivamente quis se aproximar para verificar se haviam pequenas sardas e se sua barba nascente continha fios vermelhos. Poderia descobrir mais tarde. Milo sorriu maldoso com este pensamento, já sentindo suas qualidades galanteadoras aflorarem.

— Ao invés de escrevermos hoje, o que acham de aula prática, garotos? – Camus disse, sorrindo de modo maroto, enquanto voltava a se sentar de modo invejável na beirada da mesa – Eu particularmente acho que o melhor modo de aprender argumentação é em uma discussão, o que acham? Senhor Halkias, gostaria de convencer-nos que teve um bom motivo para se atrasar hoje?

Os olhos de Milo se dilataram, fazendo com que os longos cílios claros quase tocassem as sobrancelhas, a expressão transmitindo um misto de assombro e surpresa. O professor achou graça, mas procurou se manter sério. Camus percebia naqueles olhos algo inusitado, algo que não harmonizava com a postura confiante que o grego transmitia. Algo como... timidez? Milo estaria corando? Era difícil para o professor ver, devido à distância e ao bronzeado de sua pele.

— Só de olhar para ele, acredito que tenha percebido hoje de manhã que a vida não é só ouzo, festas e gritaria. – Falou Philippe, um dos estudantes reincidentes na disciplina. Camus já tivera inúmeros problemas com ele.

Alguns alunos da sala acharam graça do comentário. Obviamente, o professor não repreenderia Philippe. Como um bom professor de humanas, desejou que ele e Milo se entendessem em uma discussão. Olhou para o grego e não parecia haver sinais de manifestação. Sim, ele definitivamente estava corado, percebeu o francês.

— Deixe ele em paz, Philippe. Não estamos mais no ensino médio. – Disse Marin, assim como Milo, uma estudante estrangeira. A diferença que a moça havia feito toda a sua graduação na França. É claro que isso não impedira alunos como Philippe de importuná-la.

— E você, não deveria estar fazendo algo mais feminino? Arrumando casa, por exemplo? – Ele rebateu.

O professor, ainda olhando para Milo, resolveu, inusitadamente e pela primeira vez em sua história como docente, entrar na discussão.

— Então o Sr. gosta de estereótipos, não é? – “Por que, diabos, eu estou respondendo a um aluno?”, Camus pensou, finalmente desviando seu olhar para Phillipe. – Pois me diga, então, por que neste momento o Sr. não está fazendo algo mais masculino, como bater uma laje? Ou soldar uma viga? Ou abrir potes, que tal? Talvez por ser francês, o modo afeminado estereotipado de nossa nacionalidade nos impeça, não é mesmo?

A grande maioria, que não havia rido anteriormente com o comentário ácido de Philippe, riu baixo dessa vez.

O ruivo sabia que seria repreendido por isso, mas valera a pena. Continuou, agora para toda a classe.

— Agora temos um novo tema: preconceito, especificadamente xenofobia. Tomem um partido e montem grupos com semelhantes. Discutam, argumentem.

Camus sorriu satisfeito com o burburinho na sala, os alunos pegando fogo.

Ao levantar-se da mesa com a pretensão de se sentar confortavelmente na cadeira, o professor percebeu que Shion acenava na porta.

Rumou para a saída, fechando a porta atrás de si.

— Desculpe atrasá-lo. – Shion se referia ao grego – Eu o recepcionei mal. Ele veio a minha sala pegar os horários, que por sinal esqueci de enviá-lo por email, e acabei demorando. Escrevi os códigos da disciplina e salas a mão para o garoto. – Completou de uma vez, sem parar para respirar.

— Então foi você. – Camus franziu o cenho. Tinha atacado Milo atoa. Ou não tinha? Por que estava ficando tão mole? Era um aluno, um futuro advogado, deveria estar preparado.

Então por que o ruivo se sentia tão culpado?

— Tem mais uma coisa, ele não tem referência alguma. Leve-o para comer hoje e ajude-o em arrumar um lugar para ficar. – O chefe disse enquanto voltava a caminhar rapidamente olhando o relógio em seu pulso.

— O que?! Como assim em algum lugar para ficar? Espere! Shion! – Camus não poderia continuar gritando no corredor enquanto o outro se afastava. Arrumou um fio que se soltara do rabo de cavalo, colocando-o atrás da orelha. Suspirou resignado.

Este semestre seria realmente uma babá.

Porém, havia desgostado tanto assim do grego, à primeira vista?

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Enquanto isso, Milo e Marin sentaram-se juntos.

— Tem muito tempo que você chegou na França? – A jovem perguntou com interesse.

— Na verdade não, cheguei ontem. – Milo respondeu com um francês carregado de sotaque. Ainda se sentia inseguro sobre sua pronúncia. Não admitiria, mas havia sido o principal motivo de seu desconforto quando foi confrontado por Philippe.

— Nossa! E sua primeira aula já é com o Camus, hein? É minha terceira disciplina com ele, acostume-se, ele sempre exigirá mais da gente que os outros professores. – Marin disse enquanto pegava uma folha em branco.

— Camus?! Aquele homem é Camus Sivan? – Milo levantou-se da cadeira devido à surpresa. Apoiava o corpo nas mãos espalmadas sobre a mesa, enquanto olhava enfaticamente para a moça. Pelo fato da turma estar em discussão, não notaram o comportamento anormal do grego.

— Sim, você não sabia? Ele é bastante famoso dentro da universidade. – Marin respondeu com um dar de ombros.

Milo voltou a se sentar, pensando no que ocorrera. Havia se empenhado tanto em aprender de modo exemplar todo o conteúdo já produzido por Camus Sivan que nem sequer havia pensando em pesquisar mais sobre sua vida pessoal.

— Já li todos os artigos que ele publicou. – O grego respondeu, ainda atônito, olhando perdidamente para a frente. Apoiava a testa na palma da mão, enquanto os dedos da mesma enroscavam-se em seus cabelos loiros. Como havia deixado isso acontecer?

— E não sabia quem ele era? Ruivo desse jeito, você se lembraria se tivesse visto alguma foto. – Marin disse, solidária.

— Na verdade, em nenhuma das publicações dele consta alguma foto. – Ok, isso não justifica, poderia ter procurado sobre a vida do francês, Milo pensou.

— O Camus não é muito fã de fotos. Faz sentido. Em todas as palestras, workshops, as vezes em apresentações de artigos, ele foge antes da foto. – Concluiu Marin, vendo o ruivo retornar a sala.

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A aula prosseguiu fervorosamente. Os alunos haviam se divertido e alguns até criaram novos laços passageiros de inimizade. Efeito da aula do Professor Sivan, como diziam os estudantes.

Milo tentava se decidir sobre o que falar, arrumou suas coisas de modo lento para ser um dos últimos a deixar a sala.

Não foi preciso calcular como tudo seria feito, quando deu apenas alguns passos, enquanto colocava a mochila nas costas, foi chamado por Camus.

— Sr. Halkias, gostaria de conversar com você. – O ruivo disse em um grego maravilhosamente pronunciado.

Milo se surpreendeu antes de responder. Parece que teriam um confortável diálogo grego, pensou.

— Claro, Professor Sivan. Gostaria mesmo de me explicar. – Parou em frente à mesa. Os dois olhos azuis se cruzaram de modo intenso. Milo sentiu as mãos úmidas de suor.

— Não há necessidade. O Professor Spyanki me disse que você não tem um tutor para introduzi-lo nesses primeiros dias. Onde será sua próxima aula? – Camus perguntou, fazendo um esforço enorme para não demonstrar o quanto a beleza do loiro o arrematava. Cruzou as pernas por baixo da mesa, em sinal de nervosismo.

— Quem? – Milo indagou.

— Shion. Shion Spyanki, chefe do nosso departamento. – Camus respondeu levantando uma sobrancelha. O grego estava realmente perdido, pensou.

— Ah sim, claro! Bom, sobre minha próxima aula... – Milo apoiou uma perna no degrau que dava para o palco do professor. Retirou a mochila das costas, apoiando-a no joelho levantado. De um dos bolsos da frente, resgatou um papel amassado com escritas à mão e leu seu conteúdo – É a duas salas daqui, se a numeração estiver correta.

Voltou a fitar os olhos muito claros de Camus.

— Me encontre aqui quando acabar. Vamos almoçar. – O ruivo disse polidamente, enquanto se levantava arrumando suas coisas.

— Isso é um convite, Professor Sivan? – Por que havia dito isso? Milo pensou. Camus não era um conhecido qualquer, era o homem que iria orientá-lo ao longo do próximo semestre! Ainda assim, o grego não pode deixar de esbanjar seu melhor sorriso.

Houve um delay de dois segundos antes que o ruivo se sentisse apto a continuar. O que significava aquele sorriso? Por que não conseguia parar de olhar para aqueles lábios?

— Claro. Te encontro daqui a uma hora e quarenta, Sr. Halkias. – Disse de maneira indiferente enquanto caminhava para a saída, ainda sem entender o que acontecera. Milo permaneceu estático, virando o corpo para olhar o ruivo se afastar. Camus também se virou, antes de fechar a porta. – A propósito, me chame de Camus.

Notas finais
Créditos: 1 - O nome Carlo foi usado pela primeira vez nas histórias da autora Pipe. 2 - O parentesco entres Milo e os gêmeos e a sugestão de Dite e Camus como meio irmãos foram uma singela homenagem a melhor história que já li na vida: Aprendendo a Seduzir, da autora Amarthwen, recomendo. Um enorme beijo e nos vemos no próximo capítulo!