Um estrangeiro em Paris

3 Entre sorrisos e afrontas


Notas iniciais
Olá! Em primeiro lugar, agradeço imensamente a todos que favoritaram e estão acompanhando a história. Agradeço, também, a NessanC e a Noire, que comentaram aqui e no Spirit. Fiquei muito feliz com o review de vocês! Eu realmente quero fazer um bom trabalho, então críticas e dicas são muito bem vindas! Para os que acharam a leitura do primeiro capítulo confusa, eu vi que o Nyah havia comido meus espaços duplos, separando as cenas. Esse problema foi corrigido =) Explicações nas notas finais. Boa leitura! ❤️

Camus estava atrasado.

Os corredores da universidade circundavam o imenso jardim. Milo sentou-se em baixo de uma das árvores de modo a conseguir visualizar a sala onde iria se encontrar com o ruivo.

Estava divagando em pensamentos quando uma figura loiríssima sentou ao seu lado.

— Olá Milo! Me chamo Afrodite. Como foi seu primeiro dia de aula? O que achou do Camus? – Disse com a voz límpida, porém com um leve sotaque, qual o grego não reconheceu a origem. Milo tinha certeza que ele não havia parado para respirar enquanto falava.

Olhou a figura. Corpo esbelto e bem definido, nada de exageros. Usava uma bermuda jeans rosa clara solta nas pernas, indo em uma altura pouco acima dos joelhos. Tênis à moda vintage e blusa social branca com as mangas dobradas até o cotovelo. O colarinho estava abotoado por inteiro. Possuía longos cabelos loiros em ondas que quase formavam cachos, com certeza causava inveja a qualquer mulher. Porém o que mais chamou atenção em Milo foram seus olhos, eram estupidamente claros como os de... Como os de Camus?

— Olá Afrodite. – Disse devagar, levantando uma sobrancelha – Como sabe meu nome?

— Todos sabem seu nome, meu amor. Você é o assunto dessa universidade desde semana passada. – Respondeu calmamente, como se fosse algo óbvio. Encostou-se na árvore, cruzando as pernas esticadas.

— Como, se eu só descobri que viria há três dias atrás? – Milo indagou cruzando os braços e fitando os orbes claros.

— Shion já havia comentado que talvez um grego aparecia para grudar no Camus. – Brincava com uma mecha do próprio cabelo.

Milo estava incomodado. Pela segunda vez este tal Afrodite chamava o professor pelo primeiro nome. Será que eles eram íntimos assim? Na verdade, por que estava interessado nisso, para começo de história?

— O que quer dizer com “grudar no Camus”? – Milo se obrigou a sair de seus devaneios e perguntar.

— Quer dizer que passaremos muito tempo juntos no próximo semestre, Sr. Halkias. – Milo e Afrodite estavam tão entretidos que não viram o ruivo se aproximar.

Ambos se viraram na direção da voz. Camus havia soltado os cabelos. O colarinho da camisa tinha dois botões abertos e as mangas agora estavam dobradas até o cotovelo.

— Desculpe o pequeno atraso. – Continuou – Só fiquei sabendo de sua vinda hoje pela manhã, então fui buscar seu perfil pessoal e acadêmico. Vamos almoçar?

— Claro. – Milo respondeu ainda um pouco atônito, levantando-se e limpando os vestígios da grama com as mãos. Percebeu quando o francês se inclinou, oferecendo uma mão para Afrodite que prontamente aceitou.

— Vai almoçar com a gente, Dite? – O ruivo perguntou. Então eles realmente se conheciam e, pelo visto, tinham um grau de intimidade maior do que Milo previra.

— Não, obrigado. Não tenho mais aulas por hoje, eu e o Mask vamos para casa. – Afrodite disse com um dar de ombros.

— Ótimo, não pretendo cozinhar hoje. Eu e o Sr. Halkias estaremos ocupados procurando um lugar para ele morar.

O grego percebeu que estava excluído da conversa. Camus e Afrodite haviam se virado um para o outro. O ruivo até tinha apoiado o peso em uma perna, de modo displicente, enquanto segurava a alça da mochila lateral com a mão esquerda.

— Desculpe, mas acho que este assunto me convém. Você e eu vamos passar a tarde fazendo o que? – Elevou um pouco a voz, com a pretensão de ser notado.

— Bom, estou indo. Resolvam-se, crianças. – Segurou um lado da face de Camus, enquanto beijava o outro com vontade, gesto que irritou profundamente o grego – Ah! Já ia me esquecendo. Milo, tem uma reunião do pessoal daqui a algumas semanas. Você está mais que convidado a participar. Depois pego seu contato com o Camie e nos falamos mais! – Complementou abanando uma mão enquanto se afastava.

— Sobre nossa programação de hoje á tarde, conversamos no almoço. Tudo bem? – Camus disse agora em grego, olhando para o belíssimo par de olhos azuis a sua frente.

— Tudo bem. – Milo não responderia diferente, nem se quisesse. Adorava o fato de Camus não forçá-lo ao francês, era um gesto muito atencioso.

Seguiram andando juntos pelo corredor.

— Você gostaria de conhecer o restaurante da faculdade ou gostaria de comer fora?

Milo cogitou antes de responder. Andavam calmamente, lado à lado.

— Prefiro fora. Se possível você poderia me mostrar um lugar barato. – Bom, se Camus estava à disposição, iria se aproveitar disso – Depois voltamos pra gente fazer um tour pela faculdade antes da sua próxima aula, se não tiver problemas.

— Eu não tenho próxima aula. Nossos horários estão quase iguais, Sr. Halkias. Cortesia de Shion.

— Por favor, me chame de Milo. Por que estão quase iguais?

— Por que este semestre eu realmente devo me dedicar a você. Trabalharemos muito em bibliotecas, logo aulas em demasia atrapalhariam ambos. – Respondeu prontamente, olhando para frente.

— Entendi. – Milo olhou para baixo, mordendo o lábio antes de continuar – Camus, eu realmente não sabia quem era você. Quer dizer, eu conheço todo o seu trabalho, porém nunca havia me interessado em procurar sobre a sua vida pessoal. Isso inclui sua idade e aparência. Só descobri que estava em uma aula sua no meio do primeiro horário.

O ruivo levantou uma sobrancelha. Fazia sentido.

— Tudo bem, Milo, eu não faço o tipo de pessoa que posa para fotos ou que gosta de exibir a vida pessoal. É compreensível que você não tenha lido sobre mim se não procurou. – Respondeu de modo tranquilo – Como disse, só fiquei sabendo de você hoje de manhã, não estou em melhores condições.

Milo notou que ele não aparentava muita animação na última sentença.

Camus o guiou até o estacionamento privativo de professores da universidade. Caminharam em silêncio. Desativou o alarme e fez sinal com a mão para que Milo entrasse. Ele mesmo entrou logo em seguida.

— Enquanto dirijo até lá, que tal me contar seu histórico acadêmico. Ainda não tive tempo de lê-lo. – Virou-se rapidamente para o grego enquanto dirigia até a saída.

Conversaram em clima ameno até o restaurante.

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Camus estacionou o sedan negro, um Cadillac CT6 último modelo, bem em frente ao restaurante Crème fraîche. A entrada do local era aberta, com muitas mesas ao ar livre, todas ocupadas por jovens conversando enquanto comiam. Havia apenas um muro com cerca de cinquenta centímetros separando as mesas da calçada.

Milo seguiu o professor por um pequeno jardim que dividia a área das mesas ao meio. Ao entrarem no estabelecimento, o grego notou o clima descontraído, as paredes cobertas por quadros de bandas e comidas. As mesas se dividiam em redondas pequenas e retangulares maiores. Os garçons e garçonetes, todos jovens andavam sorrindo e conversando de um lado para o outro.

Camus seguiu até a área de self-service, sendo acompanhado pelo aluno. Pegou um prato para si e um para o grego. Após se servirem, buscaram uma mesa redonda para sentar, encontrando uma ao lado de uma enorme janela.

— Gostou? – Camus foi o primeiro a falar, após uma garfada – É um restaurante com público alvo universitário. É barato e serve de emprego para os que precisam. Meus alunos costumam gostar daqui. – Completou, voltando a comer.

— Eu adorei! E é muito perto da Sorbonne. – Milo disse com a boca meio cheia, achando graça ao ver o olhar reprovador de Camus sobre si.

— Sobre os planos, gostaria que fôssemos procurar um apartamento para você agora a tarde.

Um garçom jovem e sorridente apareceu.

— Olá professor! O de sempre? – Perguntou em francês e Camus assentiu – E você, o que quer para beber?

Milo pediu um suco e o rapaz desapareceu entre as mesas.

— Eu não quero atrapalhar seus horários, Camus. – Milo retornou ao idioma grego, dessa vez sem comida na boca.

— Não irá. Shion montou nossas grades de modo que na maioria das vezes tivéssemos compromisso ou a falta dele no mesmo horário, como eu disse. – Respondeu dando outra garfada.

— Ah sim, tudo bem então. – Deu de ombros – Camus, posso te fazer uma pergunta indiscreta?

Viu o ruivo retrair levemente.

— Pode, mas não prometo respondê-la.

O loiro não fez a pergunta de imediato, pois o garçom havia voltado com as bebidas. Esperou que ele se retirasse.

— Quantos anos você tem? – Indagou.

Camus riu. Foi apenas uma risada rápida e discreta, mas Milo sentiu-se maravilhado! Queria fazê-lo rir mais.

— Não é uma pergunta indiscreta. Tenho vinte e quatro anos. – Camus se sentiu relaxar. Até mesmo seu perfeito grego tinha traços de sotaque agora.

O loiro não conseguia parar de fitar os lábios a sua frente. Perfeitamente delineados e convidativos. Que gosto será que teriam?

— Então você é só três anos mais velho que eu! – Sorriu largamente, fato que não passou despercebido pelo francês – Todos os seus materiais como Professor Sivan são recentes. Achava que você só havia resolvido disponibilizar há dois anos atrás. Então se tornou professor um mês após sua formatura. Que incrível, não?

— Na verdade não. Eu fiz as matérias do mestrado junto com a graduação, então ficou fácil. Depois pude lecionar enquanto fazia o doutorado. – Respondeu finalizando com uma golada do suco recém-chegado.

— Seus pais devem ter muito orgulho de você. – Após pronunciar a última sentença, Milo viu o ruivo virar a cabeça de modo a fitar o lado exterior do restaurante. Segurava o copo com suco enquanto mirava em nada. Tudo que se ouviu foi um murmuro de assentimento.

O grego estava perdendo-o de novo. Seria o momento certo de perguntar o que tivera vontade o dia todo.

— Você é solteiro, Camus? – Simples, direto.

O francês se virou, os perplexos olhos azuis claros se encontrando com os divertidos azuis escuros.

Após um tempo conseguiu formular uma resposta.

— Sou, Milo. Por que a pergunta? – Recuperou a expressão fria, fitando indiferentemente o loiro a sua frente.

— Por nada. – Deu de ombros para em seguida olhar felinamente para o francês – Só queria saber com quem terei que dividi-lo no próximo semestre.

Milo não podia crer no que estava acontecendo. Camus, o professor inabalável havia corado? Pelos deuses, havia sim! Riu internamente, divertido. Sentia ânsias de tocar a constrangida face alva e beijar suavemente os lábios agora mais rosados.

— Não há com o que se preocupar, Milo. – Respondeu olhando para o lado, segurando o saleiro entre os dedos longos e mirando-o como se fosse a coisa mais interessante do mundo – Teremos muito tempo para estudarmos. Bem, já que terminamos nosso almoço, vamos procurar sua moradia? – Camus procurou mudar de assunto. Não entendia por que estava com dificuldades em encarar o loiro e responder à altura. Por que estava travando?

Limpou os lábios com o guardanapo e se levantou, enquanto buscava a guia de pagamento entre seu prato e o de Milo. Pegou a guia dele também.

— Camus, poderia me entregar a guia? – O aluno perguntou enquanto o seguia, estendendo a mão direita.

— Hoje é por minha conta. – Respondeu simplesmente – Cortesia de boas-vindas.

— Obrigado. – Milo estava perplexo. Pensava que o ruivo estaria bravo pelas provocações e foi surpreendido por mais um gesto de gentileza.

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Dentro do carro, Camus dirigia habilmente pelas ruas de Paris.

— Você procura uma república ou um apartamento? – O ruivo perguntou olhando para rua movimentada a sua frente.

— Um apartamento. – Respondeu Milo. Estava sentado no banco do carona com a mochila no colo.

— Conheço alguns ótimos e bem próximos da faculdade. O pai de um dos meus melhores amigos que construiu, podemos conseguir um desconto.

— Ótimo, minha renda não é muito alta. Gostaria do mais barato possível. – Cruzou os braços institivamente.

— Está com frio? – Camus se virou ligeiramente perante o gesto do grego, fechando as janelas e ligando o aquecedor. – Bom, vamos ver o que podemos fazer.

— Você não sente frio, não? – Milo perguntou, rindo – Está esfriando consideravelmente e você, além de não reclamar, ainda subiu as mangas da sua blusa.

— Eu não sinto muito frio. – Sorriu – Passei boa parte da minha vida na Rússia, acho que me acostumei com esse tipo de clima. – Finalizou enquanto fazia uma curva e ligava a seta para estacionar.

Milo ficou surpreso. De repente tinha vontade de saber tudo sobre o ruivo, de compartilhar todas as suas memórias.

— Chegamos. – Camus interrompeu o grego de seus pensamentos.

Ambos desceram. Milo olhou inseguro para a alta edificação. Entrada de estilo contemporâneo em cores claras.

— O que foi? – Percebeu as sobrancelhas unidas do aluno. Havia visto esse olhar mais cedo na aula.

— Sabe, eu estava pensando em algo bem mais simples... – Frisou – Eu não tenho dinheiro para pagar um apartamento aqui, Camus. – Colocou as mãos nos bolsos da frente.

O mais velho notou os lábios cheios levemente arroxeados. Abriu a porta de trás do carro, se abaixando para pegar algo no banco. Voltou segurando uma jaqueta de couro, que cedeu silenciosamente ao loiro. Percebeu o olhar surpreso que Milo fez antes de aceitar com um agradecimento.

Fitou-o colocando a vestimenta, os braços fortes deslizando por dentro das mangas. As mãos grandes ajeitando o colarinho e retirando os longos cachos do interior da veste, para depois sumirem nos bolsos da calça novamente.

Milo sorriu. Camus também sorriu.

— Bom, vamos continuar procurando, então. – O ruivo disse, sem entender o que estava acontecendo consigo naquele dia.

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Após muita procura sem nenhum resultado, Camus se afastou do centro de Paris em busca de alugueis mais baratos.

— Milo, você não pode alugar um apartamento nos subúrbios. – Falou enquanto balançava a cabeça, relutante. É distante da universidade e perigoso.

— Camus, com todo respeito, eu agradeço a preocupação, mas já está decidido, sim? – O grego perscrutava da janela do passageiro, atento os edifícios, inclinando um pouco a cabeça para vê-los até o topo.

— Mas até onde eu sei, seus irmãos podem acolhê-lo. – Camus dirigia com cuidado, as ruas eram levemente estreitas e com sinalizações confusas.

— Podem, mas não quero essa dependência. Eles têm uma vida por demais complexa para cuidar, não precisam de mais um incômodo. – Respondeu enquanto colocava a mão perpendicularmente a testa, de modo a cobrir os vestígios de sol do fim de dia que atravessavam o vidro da janela, atrapalhando sua visão.

— O que quer dizer com por demais complexa? Eles não são casados, são jovens e bem-sucedidos, até onde eu li. Podem cuidar de você. – Camus foi interrompido pelo grito de Milo. O loiro apontava eufórico para um dos edifícios.

— Ali, Camus! Estacione! – Imperou enquanto retirava os cintos de segurança.

Camus, tomado de sobressalto, acionou a seta, olhou em todos os retrovisores em frações de segundos e girou o volante. Ouviu sons de buzinas atrás de si, se virando para ver motoristas nervosos pelo vidro de trás. Se voltou para Milo, que vestia novamente a jaqueta cedida. Precisaria dela fora do alcance do aquecedor do carro.

Abaixou o tronco, segurando o volante com as duas mãos enquanto visualizava pela janela do passageiro a fachada do prédio que o aluno havia escolhido.

— Você só pode estar brincando se acha que vai morar aqui. – Disse ainda inclinado, observando as pichações, cartazes aleatórios fixados nos muros ao redor do prédio e as pessoas que ali passavam.

Assim que terminou a frase, o francês viu Milo sair do carro.

— Hei! Espere! – Retirou o cinto apressadamente, se atrapalhando um pouco no processo. Abriu a porta e, tropeçando, foi atrás do grego.

Quando entrou no edifício, Camus percebeu que sim, havia como piorar.

Havia um homem alto que presumira ser o porteiro. Vestia inúmeras camadas de roupas, algumas leves, outras pesadas. A calça era desbotada e os sapatos puídos. Lia um jornal sentado em um sofá antigo e desgastado.

O hall de entrada não estava em melhores condições. Haviam cascas de tintas claras sobrepostas e, por baixo, notavam-se camadas ainda fixas. Infiltrações em alguns pontos revelavam mofo. No inverno a neve colaboraria para deixar aquele mofo intoxicante, Camus pensou.

Os móveis eram todos velhos e o ruivo podia sentir o cheiro de celulose antiga, suprimindo a vontade de espirrar. Havia uma porta de madeira entalhada em losangos abertos, porém corroída pelos cupins, que pertenceria à um elevador. Mas não havia nenhum pelas frestas, apenas um buraco e a parede do outro lado.

Milo dirigiu a palavra ao suposto porteiro enquanto verificava as horas. Eram 18:03h.

— Boa noite. Gostaria de conversar com o responsável pelo apartamento no terceiro andar com a placa de aluga-se na janela, por favor. – Disse solícito em francês.

O homem suspirou entediado. Dobrou o jornal e o depositou sobre a mesa de centro em frente ao sofá. Olhou nos olhos de Milo antes de responder.

— Só um momento que irei chama-la. – Levantou-se, sumindo por uma porta no canto contrário à entrada.

— Você só pode estar brincando comigo. – Camus sussurrou de forma colérica, também em francês.

Milo riu.

— Não se meta. – Disse em tom de deboche.

Ao seu lado, Camus olhou incrédulo. Não acreditava que teria um pupilo tão desaforado.

— Boa noite. Qual dos dois tem interesse no 302? – Uma mulher de baixa estatura surgiu pela mesma porta que o homem havia sumido.

— Boa noite, Senhora...

— Esme. Me chame de Esme. – A pequena idosa se dirigiu à porta com losangos do elevador e apertou um botão em sua lateral com os dois homens em seu encalço.

— Boa noite, Esme. – Os lábios de Milo se delinearam em um sorriso estonteante enquanto a mão foi estendida para um aperto. Camus cruzou os braços e rolou os olhos. Estava começando a entender que o aluno tinha plena noção do quando chamava a atenção.

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Ao chegarem no terceiro andar, Camus só queria sair dali, imediatamente. Andaram por corredores escuros e sem nenhuma janela de circulação. A porta do apartamento 302 era feita de madeira antiga.

Esme a abriu e ambos entraram.

Camus fitou o local. Antigo, malcuidado e com mofo. Muito mofo. Era por isso que a placa de “Aluga-se” na janela denotava um preço tão baixo. Não haviam móveis e as paredes não eram pintadas. No lugar de tinta haviam papeis de parede enrugados por infiltrações e com coloração esverdeada em alguns pontos, devido ao mofo. O francês cruzou os braços, depois levantou um deles, levando a mão à boca discretamente. Precisava espirrar.

Milo possuía uma expressão pensativa enquanto vasculhava o local. Viu insetos pelos cantos dos cômodos, mas com uma boa limpeza se livraria deles. O mofo daria trabalho, mas nunca fora alérgico mesmo. Sua maior preocupação era quanto aos móveis.

— Como a senhora pode perceber eu sou estrangeiro. Não possuo nada na França e realmente precisava de um apartamento mobiliado. Por este motivo acho que não aceitarei esta oferta, mas agradeço pelo tempo que a senhora dispôs para nos mostrar o local. – Milo disse desolado, enquanto colocava uma mecha loira que o incomodava atrás da orelha.

Camus suspirou de alívio, mas Esme logo se interpôs.

— Isso não é problema, garoto. Temos mobília suficiente no porão coletivo, lá embaixo. Você pode escolher o que quiser e o preço do aluguel não será alterado.

O ruivo grunhiu baixo, inclinando a cabeça para trás com a mão espalmada sobre os olhos. Não acreditava nisso.

— Posso conhecer este porão? – Milo estava animado.

—Claro.

Ambos acompanharam a mulher até a saída.

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O elevador passou do primeiro andar e estacou ruidosamente no subsolo. A perfeita escuridão se amainou quando Esme acendeu um interruptor. Imediatamente algumas lâmpadas fracas foram acesas em pontos espalhados sobre o local. Haviam grades separando pilhas de móveis e eletrodomésticos velhos e empoeirados.

Camus inicialmente se assustou, depois sentiu repúdio. Olhou para Milo e viu os olhos azuis escuros brilharem.

— Eu fico o apartamento! – O grego estava eufórico.

A expressão de Esme não foi alterada, continuava transparecendo tédio.

— Vamos até o meu para acertarmos os papéis do contrato. – Disse enquanto voltava para o elevador, sendo acompanhada pelos dois homens.

Para o alívio de Camus, sairiam daquele porão. Ao mesmo tempo, para seu desespero, Milo moraria ali.

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De volta ao apartamento, Milo perscrutava cada canto com atenção, anotando mentalmente o que teria que trazer para a mudança no dia seguinte. Na análise, descobriu que uma das janelas da sala possuía um buraco, que o quarto era o cômodo com mais mofo e que o banheiro era propício a entupimentos. Seguiu para a cozinha.

— Milo, amanhã eu não dou aula, podemos continuar procurando. Você não pode simplesmente escolher onde vai morar no primeiro dia. – Camus disse em um grego cauteloso. Queria que o aluno prestasse atenção em si. Estava com o corpo apoiado no batente da porta.

— Camus, nós visitamos apartamentos a tarde toda. Eu aprecio a ajuda que me deu hoje, mas preciso arrumar um local para ficar. – Recostou-se na pia, apoiando as mãos nas quinas de pedra.

— Fique mais uns dias com seus irmãos... – Pretendia argumentar mais, porém foi interrompido.

— Não comece. – Milo encarou os olhos azuis claros do francês, levantando o indicador na direção deles – Já disse, não quero atrapalhá-los. Morando aqui, consigo pagar o aluguel apenas com a bolsa permanência que a universidade me cede e ainda me sobra dinheiro para outras coisas que quero fazer. Você não vê? É perfeito, Camus!

Não, ele não via.

— Mas a que custo? – O ruivo abriu as mãos, as palmas viradas para cima enquanto o encarava – Você terá que pagar condução para chegar até a Sorbonne, andará por essas ruas perigosas todos os dias, pode ser assaltado dentro e fora de casa! – Apontou na direção da sala, indicando a janela com o vidro quebrado.

— Por que está tão preocupado comigo, Camus? – Milo indagou, substituindo a expressão de confronto por curiosidade.

O ruivo cogitou antes de responder. Qual seria mesmo o motivo?

— Sou o seu orientador e sou responsável por você. Shion me designou a tarefa de te encontrar um lar e isso, meu amigo, não é um. – Camus varreu o indicador em frente ao rosto do grego para finalizar com os braços cruzadas no tronco.

Milo quis puxas aquelas mãos de modo a aproximar os corpos. Reparava no rosto alvo e perfeitamente delineado. Os lábios finos e cor de rosa, o nariz afilado e os olhos claríssimos. Durante o dia, devido à proximidade, pode perceber os cílios longos e levemente alaranjados. Ainda não tinha como saber se haviam sardas ou não, mesmo a curta distância a pele parecia uniforme.

Não obtendo uma resposta do grego, que aparentava estar absorto em pensamentos, Camus continuou.

— Se seus irmãos te amam como suponho, ficarão decepcionados com sua escolha.

— Não ouse incluir Saga e Kanon nisso! Eu mesmo vou conversar com eles, irão entender. – O grego também cruzou os braços. Estavam em um empasse – E então, vai me ajudar amanhã na mudança ou não?

— Quer saber, você quer morar aqui? Então pode começar a se virar pelas ruas de Paris. – O ruivo deixou o aposento, se dirigindo para a porta que dava para o corredor. – E não, eu não vou te ajudar a manter essa ideia idiota.

Milo usou as mãos apoiadas na pia para impulsionar-se em direção a porta da cozinha. Segurou no batente, olhando para Camus atravessando a porta da frente, batendo-a com força. O loiro abriu levemente a boca em surpresa, enquanto os olhos se dilatavam.

Ele o deixara ali, pensou. Ele realmente o deixara ali.

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Camus dirigia fervorosamente, costurando os carros que se interpunham em sua frente, ouvindo o motor rouco do Cadillac rugir em seus ouvidos. Antes de deixar o subúrbio, havia pensado em voltar, mas seu orgulho havia falado mais alto.

Se o grego queria andar sozinho por aí, que começasse hoje à noite. Quem sabe desistiria da mudança.

Cogitara ir até o endereço dos gêmeos Halkias para contar a ideia estúpida do caçula. Mas, não era da sua conta, era? O que iria dizer? Que estava preocupado com um homem de vinte um anos que acabara de conhecer? Um homem com mais de 1,80m de altura, com costas definidas, ombros largos, pernas que pareciam perfeitamente esculpidas? Maneou a cabeça com a direção que seus pensamentos estavam seguindo. Fechou o cenho em uma expressão irritada. Tinha avançado um sinal sem querer. Praguejou em francês, pensando na multa que receberia em breve.

Estava chegando em casa.

Estacionou o carro na garagem da luxuosa edificação e puxou o freio de mão irritado. Desceu do veículo e abriu a porta de trás para pegar sua mochila lateral. Bateu ambas as portas do Cadillac com força antes de rumar aos elevadores que o levariam ao décimo primeiro andar.

Chegou em casa, indo direto para o banho. Retirou as roupas sujas, depositando a camisa, as meias e a cueca em um cesto embaixo da pia do banheiro. Quanto a calça, dobrou-a cuidadosamente antes de deixa-la sobre a poltrona cor marfim em frente à sua cama. Tomou um banho rápido pensando no dia tumultuado que tivera. Será que todos os dias do próximo semestre seriam assim?

Vestiu apenas uma calça preta de moletom. Calçou os chinelos de tiras finas, também pretos, antes de seguir em direção à majestosa cozinha. Camus adorava cozinhar, desde sempre. Fez questão de ter uma cozinha perfeita quando reformou seu apartamento.

Enquanto preparava o jantar, ouviu a porta ser aberta. Apenas precisou se virar para ver quem era. Entre a cozinha e a copa não havia parede, apenas uma bancada. Após constatar que era Afrodite, voltou-se para o fogão.

— Achei que não iria fazer comida hoje. – O loiro sentou-se em um dos bancos altos e apoiou o cotovelo na bancada, recostando a face na palma da mão.

— Achei que não viria hoje. – Retrucou sem desviar o olhar da panela enquanto mexia seu conteúdo com uma colher de pau – Não ia sair com o Mask?

— Ele me fez raiva. – Disse com uma mistura de enfado e irritação.

— Entendo.

— Como foi o grego bonitão?

— Ele também me fez raiva.

— Eu deixaria ele me fazer a raiva que quisesse. – Retorquiu, sorrindo divertido.

— Pelo visto sua briga com o Mask foi feia mesmo, não? – Devolveu com um meio sorriso, ainda fitando o conteúdo da panela.

Afrodite exibiu uma careta infantil, mesmo sabendo que não seria visto.

— Pode dizer o que quiser, mas ele está afim de você.

— Dite, para você, todos estão interessados em mim. – Virou o conteúdo da panela em uma vasilha de vidro. Checou o arroz, estava quase pronto. Girou o corpo de modo a ficar em frente ao loiro, do outro lado da bancada, imitando sua posição propositalmente.

— Nesse caso é diferente. Não digo que ele gosta de você, digo que ele está afim de você. – Esticou a mão livre de modo a tocar uma mecha ruiva que se espalhou sobre superfície da bancada.

Camus mediu aquelas palavras, olhando para o vazio. Nunca havia sentido interesse por homens. Como um bom estudante de humanas, preconceito era algo que nunca o assombrou. Todos eram iguais e todos mereciam respeito. Só nunca havia tido afeição por alguém do mesmo sexo. De qualquer modo, se relacionar com Milo não era uma opção, pensou.

— Você gostou dele? – Afrodite continuou.

— É um bom garoto. – Voltou ao trabalho, colocando diversas vasilhas com comida em uma bandeja. Seguiu em direção à sala ao lado da copa, depositando o objeto na superfície da pequena mesa de centro. Também não haviam paredes dividindo estes cômodos.

— Então por que ele te fez raiva? – O loiro questionou enquanto abria a geladeira em busca de um jarro de suco. Seguiu Camus, sentando-se em uma das extremidades da tal mesa, cruzando as pernas sobre carpete felpudo.

O objeto deveria ter no máximo 40cm de altura. Como o francês não convidava muitos amigos, Afrodite resolveu dar uma utilidade ao pobre móvel. Usavam-na para comer regularmente, ignorando a mesa de refeições da copa. De acordou com o loiro, a sala era um cômodo bem mais aconchegante.

— Por que ele não quer incomodar os irmãos promotores públicos e cheios de dinheiro, então decidiu morar nos subúrbios da cidade para poder pagar o aluguel sem auxílio. – Camus imitou o irmão, sentando-se com as pernas cruzadas e servindo-se de comida em um dos pratos que trouxera.

— Amanhã nós conversaremos e acrescento juízo ao repertório dele. – Afrodite respondeu com um dar de ombros.

Camus achava impressionante como o loiro presumia que tudo na vida era simples. Porém, não conseguiu sorrir, como de costume. Só conseguia pensar em ter abandonado o aluno e nos péssimos momentos que ele deveria estar passando.

Deveria ceder ao imenso arrependimento que o tomava e voltar?

Notas finais
Então, gente, não é que o Camus abandonou o Milo mesmo? hehehe Eu ri um bocado escrevendo esse capítulo. Sobre a relação deles, vai ser exatamente assim a história inteira: hora eles estão se entendendo, hora estão discutindo. Eu gosto bastante desse casal por que eles possuem personalidades muito diferentes, então sempre vai rolar uma briguinha! xD Agora os esclarecimentos: Em Paris, a maioria dos estabelecimentos não começam já na calçada. Os bares, restaurantes e cafeterias costumam ter mesas ao ar livre, daí você atravessa elas para poder entrar. Inclusive, os locais sem espaço para isso colocam as mesas no meio da calçada mesmo. Agora sobre os títulos acadêmicos: Na França, no último ano de graduação, você pode escolher entre fazer um estágio obrigatório ou começar o seu mestrado. A maioria das pessoas optam pelo estágio, que é bem mais fácil de conciliar com as matérias do último ano. Porém, eu quis colocar o Camus como aluno estrelinha para não ter uma diferença muito grande entre a idade dele e a do Milo. Lembrando que quem tem mestrado pode dar aula na graduação e quem tem doutorado pode dar aula no mestrado e graduação, logo ele pode dar aula assim que ganhou o título de mestre, se tornando professor bem cedinho. Um beijo e nos vemos no próximo capítulo!