Um estrangeiro em Paris
4 A famigerada mudança
Notas iniciais
Milo havia passado por maus bocados na noite anterior.
Não somente o bairro era desconhecido, como o país inteiro era uma incógnita!
Ao descer e constatar que Camus não estava de brincadeira, descobriu que sua mochila havia sido deixada com o porteiro, que por sinal de chamava Jean.
Guardou as chaves do apartamento e os termos de contrato no maior bolso que sua mochila possuía e pediu informações à Jean. Com custo e um péssimo francês, Milo conseguiu chegar são e salvo na casa dos gêmeos.
Saga estava perigosamente irritado e Kanon queria matá-lo pelo atraso. Estavam preocupados com o sumiço e a falta de notícias do caçula.
Quando Milo lhes contou sobre a nova casa, os gêmeos pronunciaram “O que?!” em uníssono. Conversaram durante horas a fio, apesar do mais novo estar irredutível. Por fim, Saga desistiu e foi para o quarto. Kanon, olhando o ser semelhante a si desaparecer pela porta, levantou-se do sofá e suspirou.
— Foda-se, maninho. Você irá mudar de ideia em breve mesmo. – Calçou os chinelos e seguiu o caminho percorrido pelo mais velho.
Pela manhã, Milo deixou cedo o apartamento dos gêmeos e passou no supermercado. Comprara inúmeros produtos necessários à limpeza e extermínio de insetos antes de rumar à sua nova casa.
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Camus havia acordado mais cedo que de costume para ter tempo de realizar seus afazeres matinais antes de se encontrar com Milo. Se alongou, correu na vizinhança, voltou para casa e fez exercícios de musculação antes de se alongar novamente e ir para o banho.
O dia estava consideravelmente quente, então o francês optou por uma calça de moletom cinza escuro e uma camisa verde de algodão. Calçou um par de tênis confortáveis e seguiu para a cozinha. Se tudo acontecesse como previra, passaria o dia na mudança e não tinha pretensão de comer naquele bairro, então prepararia algo para si e para o aluno.
Antes de sair, pegou as garrafas de água parcialmente congeladas que havia deixado no freezer na noite anterior, além de alguns sacos com gelo e preparou a caixa de isopor antes de inserir as bebidas. Também arrumou cuidadosamente a comida e algumas frutas na cesta antes de pegar carteira e chaves para deixar o apartamento.
Chegando na garagem, retirou a alça da caixa de isopor do ombro, depositando-a no chão para conseguir abrir o porta-malas. Quando se abaixou para pegá-la, fartas mechas do cabelo longo caíram sobre sua face e Camus questionou a decisão de não os lavar essa manhã.
Após entrar no carro e engatar a primeira marcha, colocando o veículo em movimento, começou a refletir. Obviamente não estava arrependido de ir auxiliar Milo na mudança e em momento algum cogitou realmente em não ir. Também questionou o fato de ter vestido roupas tão mal arrumadas e estar com o cabelo sem lavar. Previu que iria se sujar bastante com a mudança, então não valeria a pena ter se aprontado melhor, valeria? A reflexão foi tanta que quando percebeu já estava no hall de entrada do grego.
Cumprimentou o porteiro e subiu os degraus de dois em dois, não entendendo o porquê da ansiedade em chegar rápido ao terceiro andar.
Ao final do segundo andar, seu caminho pelas escadas foi impedido por um homem carregando nos ombros um fogão.
Isso mesmo, um fogão. Camus pestanejou perante a visão.
Milo estava com os cachos presos em um rabo de cavalo alto, vestindo uma bermuda azul e uma regata branca. As cores claras estavam terrivelmente manchadas de poeira, apesar do móvel carregado estar perfeitamente limpo. Os pés, para o desgosto de Camus, estavam descalços.
O grego não o viu, estava por demais ocupado em terminar de subir os degraus restantes. O professor reparava nos músculos fortes e contraídos, exibidos ao seu bel-prazer. Havia uma camada, não muito fina nem muito grossa, de pelos aloirados cobrindo a pele bronzeada, tanto nos braços quanto nas pernas torneadas. Porém, o que mais chamou atenção do francês foi a largura das costas e a definição dos músculos ali presentes. Milo deveria praticar algum esporte ou frequentar academias ferrenhamente. Aquele corpo não era de um cidadão comum.
Camus tinha que admitir que só o fato de estar analisando outro homem e institivamente mordendo seu lábio era algo novo para si.
Alcançando o apartamento 302, Milo colocou com bastante esforço o objeto no chão. Estava cansado e seus músculos doíam. Enxugou com o antebraço o suor que escorria pela testa. Magicamente, sentiu uma mão pousar em seu ombro e se virou, recebendo tudo que havia ansiado desde o início da manhã: água.
— Você veio! – Sorriu de modo encantador, desarmando o francês. Pegou a garrafa d’água e bebeu ruidosamente.
Camus se sentiu ridículo por achar o gesto excitante. Até então, julgava impossível alguém chamar atenção bebendo água, porém Milo tinha o dom. Observava o pomo de adão subir e descer. Quando o loiro o fitou com os lábios molhados, pela primeira vez o francês assumiu para si mesmo a vontade de beijá-los.
— Claro que eu vim. Não ia te deixar carregar tudo sozinho. – Camus deu de ombros, entrando no apartamento e deixando as coisas que trouxera sobre uma mesa limpa na sala.
— O que é isso? – Milo indagou enquanto fitava a cena. Os cabelos invejáveis jogados para trás em um ato displicente teimavam em cair para a frente. O grego notou que as mangas da camiseta verde que o ruivo usava se fechavam perfeitamente em torno de seus músculos. Ele tinha o corpo muito semelhante ao seu, tudo em suas devidas proporções. Seria Camus também um atleta?
— Comida e bebida. Supus que você não teria nada aqui. – O francês respondeu, andando até a cozinha e abrindo a geladeira – E eu acertei. – Sussurrou a última sentença para si mesmo enquanto fitava o interior do eletrodoméstico.
— Obrigado. – Apesar de constrangido, Milo abriu a cesta – Tem um cheiro ótimo!
— Minha vez de agradecer. Então, qual é a sua ideia aqui? – Camus perguntou enquanto voltava para a sala.
— Estou lavando e secando os móveis lá no porão. Tem uma mangueira disponível e trouxe bastante material de limpeza. Já faxinei o apartamento, como pode ver. Só faltam os móveis mesmo, daí quando finalizo, os trago para cá. Dona Esme só interviu quando eu quis trazê-los de elevador, pois afirmou ser velho demais para aguentar tanto peso. Então resolvi usar a escada.
Camus percebeu que o apartamento realmente estava com a aparência mais limpa.
— Você começou bem cedo... – Deu uma última olhada ao redor – Vamos para o porão, quero ajudar.
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Após muita água, sabão e escadas, o serviço estava quase no fim. O relógio marcava 12:05h. Camus estava começando a se cansar e Milo estava completamente exausto.
O ruivo pegou as últimas partes da pesada cama de casal, de modo que só sobravam para o grego as portas do guarda roupa antigo. Apesar de serem apenas portas, a madeira era grossa, característica típica de móveis com décadas de idade.
Milo suava e respirava com dificuldade para finalizar o trajeto. Seguia atrás de Camus, levando os objetos empilhados sobre a cabeça, segurando apenas o suficiente para equilibrá-los.
Enfim, venceram os lances de degraus, entrando uma última vez no apartamento. O ruivo apoiou o encosto da cama e seu estrado na parede, virando-se rapidamente para oferecer ajuda.
Ao forçar os músculos para descer as pesadas portas, Milo se sentiu fraquejar e estava bastante disposto a desistir. Que caíssem! Estava de mudança, barulhos eram perfeitamente compreensíveis. Fechou os olhos em expectativa, porém nenhum som pode ser ouvido. Camus havia se interposto assim que viu o loiro fraquejar, segurando as portas por cima da cabeça de ambos com maestria. No fim das contas, estava bem menos cansado que o aluno.
Ao abrir os olhos, Milo percebeu o rosto do francês a centímetros do seu. Enfim viu as pequenas sardas na superfície do nariz e abaixo dos olhos arrebatadoramente claros. Olhou para a boca entreaberta, desejando moldar seus lábios ali.
Por sua vez, Camus acompanhava a análise de Milo. Sentiu-se corar ao ter a face perscrutada, mas não conseguiu desviar quando os olhares se encontraram. O mundo parecia ter parado de girar por alguns instantes. Viu o aluno se inclinar em pouquíssimos graus, apenas o necessário para que os narizes não se trombassem caso a aproximação fosse efetiva.
O estômago de Milo se revirava perante a expectativa que precedia ao beijo, deixando-o ansioso.
Este que por sinal, não aconteceu.
Camus se desviou rapidamente, colocando as portas no chão. Se repreendeu mentalmente. Por pouco não havia beijado um aluno! Terminada a fase de aceitação, assumira para si mesmo o interesse que possuía por Milo. O espantava a rapidez com que sua sexualidade, de repente, mudara. Como se o aluno tivesse libertado um gatilho até então desconhecido dentro de si. Ainda sentia desejo por mulheres, obviamente, mas também sentia desejo pelo grego. Além do mais, o interesse era recíproco, agora tinha certeza disso.
Contudo, Milo ainda era um aluno, e pior: seu aluno orientado. Pelas regras da Sorbonne, contatos afetivos entre estudantes e professores terminavam em exoneração do cargo de docente. Camus teria que se afastar.
O grego continuou estático, sem entender direito por que tinha forçado tamanha aproximação. Por mais que sentisse interesse pelo ruivo, só estavam há dois dias juntos, deveria ter esperado mais, não deveria? Entretanto, tempo nunca foi um empecilho em conquistas anteriores.
— Devemos almoçar. Já está ficando tarde. – Camus resolveu agir como se nada tivesse acontecido, caminhando até um canto da sala onde o grego havia deixado os produtos de limpeza restantes. Escolheu uma das pequenas garrafas de detergente para ir lavar as mãos no banheiro.
— Sim, devemos. – Milo saiu da letargia em que se encontrava, seguindo-o.
O ruivo foi o primeiro a entrar e foi observado enquanto limpava as mãos e antebraços.
— Pelos deuses, estamos imundos. – Disse Milo.
Camus terminou e se olhou no espelho. A camiseta de algodão perdera muito do antigo verde. Haviam manchas escuras de poeira e muitas partes estavam molhadas. O tecido dos ombros possuía inúmeros cortes e partes consideravelmente puídas, onde a carga havia sido carregada. A calça estava esbranquiçada nos joelhos e onde havia limpado as mãos, na altura dos quadris.
Os cabelos ruivos estavam uma completa bagunça, fazendo com que o francês retirasse um elástico de um dos bolsos para amarrar um rabo de cavalo alto.
Após admirar a cena, Milo se permitiu lavar as mãos, tomando o lugar do professor. O grego tinha grandes vergões nos ombros e nos joelhos, além de estar tão molhado que sua regata branca beirava a transparência.
— Por que prende o cabelo tão alto? – Perguntou enquanto se ensaboava.
— Por que nessa altura consigo prender boa parte da minha franja. – O professor respondeu com um dar de ombros.
— Então por que ainda mantém a franja, se não gosta dela?
O ruivo pensou por alguns segundos antes de responder.
— Não é que eu não goste dela, eu gosto. Porém quando eu prendo o cabelo é por que não quero ser atrapalhado por ele, isso inclui a franja.
— Seu corte é irregular, muitos fios caem. – Milo respondeu de modo vago. Com a mão molhada, retirou alguns fios do rosto do francês.
Camus se afastou levemente.
— Deixe meu cabelo em paz, sim? E esses ombros, estão doendo? – Apontou para as marcas avermelhadas, resistindo a vontade de tocá-las.
— Não, está tudo sobre controle. Obrigado. – Não deu muita importância.
— Tem certeza? Podemos passar em uma farmácia e fazer alguns curativos. Tem muitos arranhões, sua antitetânica¹ está em dia? – Enrugou a testa, como Milo poderia ser tão descuidado com a própria saúde?
— Está sim, pare de se preocupar. – Deixou o banheiro com mau humor. Não era uma criança.
Escolheram um dos cantos da sala para se sentarem, frente a frente. Abriram a cesta que o ruivo trouxera e se serviram. Apesar de sentir-se aliviado pelo merecido descanso, Camus achou o chão frio o suficiente para comprometer a saúde do aluno. Não a dele, claro. Ele dificilmente ficava resfriado.
— Milo, amanhã vou lhe enviar por email uma lista com todas as bibliografias em critério de relevância para começarmos nosso estudo. Se já tiver lido alguma, pule para a próxima.
— Uau, isso está muito bom! – Elogiou com a boca cheia.
— Obrigado. Agora, não fale enquanto há comida em sua boca, é nojento.
— Desculpe. – Disse após engolir, sem aparentar qualquer constrangimento – Seus pais devem ter sido muito exigentes com você.
— Não é exigência, é educação básica. – Contrapôs Camus, colhendo mais uma garfada com ar blasé.
— Exigência. – Rebateu com indiferença, sabendo que irritaria. Sentiu satisfação ao vê-lo levantar uma sobrancelha em desagrado. Percebeu que não havia perguntado muitas coisas e decidiu que era uma hora propícia para tal ato, afinal, o professor dava espaço para conversas.
— Camus, – Continuou – o que fazem seus pais?
O ruivo se surpreendeu com a pergunta. Normalmente as pessoas percebiam que este assunto era frequentemente evitado e não faziam maiores indagações. Contudo, bom senso é uma qualidade que não esperava que o grego possuísse.
— Nada demais. – Respondeu, apenas.
— Não é nada demais. Você estudou na Sorbonne, ao menos bem-sucedidos seus pais são. O que eles fazem? – Ao perceber que o francês não renderia, continuou – Se você é Bacharel em Filosofia, seu pai deve ser um professor da área, talvez de história... – Deu um pulo – Seu pai é grego? Explicaria o fato da sua fluência perfeita em meu idioma!
— Não Milo, meu pai não é grego. – Viu o loiro se preparar para falar algo e levantou o indicador impedindo-o – Nem minha mãe.
Camus suspirou, resignado. Não haveria como escapar, teria que prosseguir.
— Meu pai é engenheiro civil e minha mãe bailarina. – Não pode deixar de sorrir, vendo a expressão de surpresa do outro. Milo havia parado uma garfada no ar, os lábios entreabertos congelados no tempo.
— E você se formou em Filosofia?! – Disse alto – Caramba, isso que é história! E você possui mais irmãos? Eles seguiram rumos diferentes também? – Desistiu de comer e cruzou os braços no joelho, prestando atenção.
O francês se sentiu um pouco desconfortável, porém prosseguiu.
— Tenho dois meios-irmãos. Nós três escolhemos áreas completamente diferentes. – Terminou com um tom que denotava a pretensão de não persistir no assunto.
Mas é claro que Milo não se importava.
— Nossa, cada vez fica mais interessante! – Estava genuinamente entusiasmado – E são por parte de mãe, de pai ou de ambos?
— Por parte de mãe. Na verdade, – Camus disse saudoso enquanto sorria levemente, o olhar perdido em saudade – minha mãe é uma romântica incurável. Ela teve três maridos, três divórcios e atualmente está namorando o diretor de uma escola de balé húngaro.
— Ok, tenho que admitir que sua família é única e eu, DEFINITIVAMENTE, preciso conhecer sua mãe. – Milo ria gostosamente. Camus devolveu o sorriso, era contagiante.
Posteriormente, conversaram amenidades até que ambos terminassem o almoço. Continuaram o processo de mudança, agora dispondo os móveis em seus lugares finais.
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A tarde passou calmamente. Os dois homens ligaram e testaram o fogão, geladeira, rede de abastecimento de água e os encanamentos de esgoto. Montaram a cama, o guarda roupa e uma pequena cômoda, grossa o suficiente para manter a umidade distante dos livros. Limparam cuidadosamente o chão após tudo estar em seu devido lugar. Com uma vassoura, retiraram as teias de aranha nos cantos do teto.
— Obrigado pela ajuda hoje, Camus. – Milo agradeceu sorrindo.
— Não precisa agradecer, não foi nada. Onde irá arrumar um colchão?
— Claro que foi, você perdeu um dia inteiro comigo. Sobre o colchão, amanhã eu e o Kanon iremos a um brechó procurar.
Camus suspirou. O grego dormiria em um colchão de brechó em um quarto mofado. Ótimo, pensou. Isso tudo por orgulho.
— O que mais deve ser feito? – Perguntou solícito.
— Acho que por hoje acabamos. – Olhou ao redor para se certificar que tudo estava certo.
— Vamos embora, então. – Disse Camus, enquanto juntava as coisas que trouxera.
— Vamos entrar sujos no seu belíssimo Cadillac? – Indagou divertido – E macular os divinos bancos de couro?
— Suponho de deva ter uma sugestão, Sr. Halkias. – Camus levantou uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito largo.
— Eu trouxe roupa limpa. Pensei em tomar um banho. – Deu de ombros.
— Por que trouxe roupa limpa?
— Oras, você disse que não viria, como achou que eu iria voltar para casa? Imundo e fedorento? O porteiro do prédio dos meus irmãos não me deixaria entrar vestido desse modo. – Respondeu sorrindo.
Camus percebeu que não era implicância. Eles realmente estavam em um estado pavoroso. Os bancos de couro claro de seu carro não mereciam tal imundice.
— Aguardo você tomar banho. – Disse simplesmente.
Milo aquiesceu, pegando a mochila que deixara em cima da mesa. Resistiu à vontade de convidar o francês para se juntar a ele.
Ao ouvir o barulho do chuveiro, Camus deu uma última volta pelo novo lar do aluno. Procuraria formas de diminuir o mofo, ou Milo adquiriria problemas respiratórios.
Parou ao lado da mesa de estudos, tocando a superfície arranhada com as pontas dos dedos. Era velha e bastante desconfortável, quem quer que a usasse sentiria dores nas costas. Suspirou profundamente. Aquele não era um lugar para Milo, a vizinhança era perigosa e o apartamento estava caindo aos pedaços, literalmente.
Como conseguiria convencê-lo a se mudar? Se seu pai investisse em imóveis como o pai de Mu, seu melhor amigo, tudo seria mais fácil.
Ouviu o chuveiro ser desligado e corou ao imaginar o grego molhado em busca da toalha. Para seu conforto, Milo saiu vestido, com o cabelo, agora solto, caindo em uma cascata aloirada. Usava uma blusa preta, coberta pela jaqueta que Camus havia lhe emprestado no dia anterior. Jeans escuros e o mesmo par de tênis verdes sem cadarços. Mesmo com as camadas de roupas, o aluno possuía um porte incrivelmente chamativo.
— Sua vez. – Sorriu, percebendo que era observado.
— Ao contrário de você eu não trouxe roupas limpas. – Levantou a caixa de isopor pela alça, colocando a mesma em um ombro. Segurou a cesta com a outra mão.
— E seu carro? – Milo indagou, colocando a mochila e conferindo as trancas da janela. Havia colado um papelão marrom na janela danificada, como se fizesse alguma diferença.
— Acho que tenho uma blusa de frio limpa no banco de trás. O que está mais sujo é a minha camiseta mesmo, de tanto carregar as coisas... – Disse enquanto abria a porta da frente.
— Quantas blusas tem no seu carro? – Riu, olhando para a própria jaqueta.
— Honestamente, não sei. – Deu espaço para que Milo passasse, segurando a porta do lado de fora com o braço esticado, fechando-a em seguida – Eu não sinto muito frio, mas sempre que o Afrodite está lá em casa eu sou obrigado a levar ao menos um agasalho. Daí jogo no carro e a pobre roupa passa a viver lá.
Novamente esse Afrodite, pensou Milo. Então ele visitava a casa do francês. Trancou a porta e seguiu emburrado pelo corredor, apertando com força o botão do elevador.
Por sua vez, Camus estava completamente alheio ao comportamento do outro. Não imaginava que alguém poderia ter ciúmes de seu irmão. Desceram em silêncio e ambos se despediram de Jean.
O alarme foi desarmado e Milo abriu a porta do passageiro. Camus foi direto na parte traseira e se inclinou para ver se havia algum agasalho por ali, não sendo surpreendido quando encontrou um.
O outro apenas observava com os olhos semicerrados, vestígios da raiva que o sentimento de ciúme trouxe.
Bela bunda, pensou. Fazer o que, ainda era um humano.
Camus contornou o Cadillac, entrando pelo lado do motorista. Ao ver ambas as portas fechadas, o francês abriu o porta-luvas em busca de um saco plástico. Em seguida, livrou-se da camiseta imunda.
Milo parou de respirar. O tórax do ruivo era sensacional. O abdome esculpido em nove divisões bem delimitadas ficava logo abaixo do peitoral largo. Os braços, como já havia visto, fortes e em uma proporção perfeita, possuíam alguns pelos de cor entre o laranja e o amarelo. Ficou um tempo olhando para a entrada proeminente de sua virilha. Notou a pele descorada sentindo uma vontade intensa de tocá-la para atestar sua maciez.
Finalizando com um nó apertado, Camus jogou o saco no banco de trás e vestiu o agasalho que repousava em seu colo.
O barulho do freio de mão despertou Milo, trazendo um sentimento de melancolia. Quando acordou pela manhã, jamais teria ideia do quão perfeito seu dia seria. Mas como tudo nessa vida, o momento havia acabado.
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Conversaram amenidades até o apartamento dos gêmeos. Assim que o Cadillac foi estacionado, Milo retirou o cinto de segurança.
— Gostaria de entrar e conhecer meus irmãos?
— Não acho que hoje, sem avisar, seja uma boa ideia. Ser promotor de justiça não é uma tarefa muito simples, seus irmãos devem chegar exaustos. – Respondeu – Mas agradeço o convite.
— Deixamos para outro dia então. Obrigado pela ajuda hoje. – Sorriu lindamente.
— Já disse, disponha. Bom, te darei um tempo para ler a bibliografia que passei. Depois dela começaremos nossos estudos. Qualquer dúvida pode me procurar. – Camus disse de modo solícito.
— Tudo bem, obrigado. Boa noite! – Milo abriu a porta que dava para o saguão de entrada com uma mão, segurando a alça da mochila com a outra. Acenou para o francês, que maneou a cabeça em despedida. Camus arrancou o Cadillac, sumindo pelas ruas de Paris.
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Os gêmeos estavam no banho quando ouviram a porta da frente bater. Por sorte tinham seu banheiro pessoal dentro do quarto.
— Droga! – Kanon resmungou quando Saga se desvencilhou de seu corpo – Ele bem que podia demorar só mais um pouquinho... – Agarrou a cintura do irmão por trás, puxando-o de volta.
— Me solte, idiota! – Segurou os antebraços do mais novo com as mãos grandes, afastando-o.
— Fique claro que continuaremos depois! – Falou alto, vendo o outro sumir pela porta do banheiro.
Saga vestiu pijamas: uma calça de tecido leve e blusa de manga longa com botões, ambos na cor azul marinho. Kanon preferiu receber Milo apenas de roupão, desse modo seria mais fácil continuar onde ele e o irmão haviam parado.
O caçula notou em ambos os cabelos recém molhados, preferindo não comentar a respeito.
— Como foi a mudança, Milo? – Saga questionou, entrando na cozinha. Kanon sentou-se na poltrona em frente ao sofá onde o mais novo estava.
— Bastante cansativa. – Suspirou – Mas tive ajuda do Camus.
— Camus ham... – Kanon sorriu, maroto – Você não perde tempo mesmo hein, maninho? Tem dois dias na França e já está se engraçando, não com um francês ou francesa comum, mas com seu orientador!
Saga surgira com uma bandeja contendo três sanduíches e três copos.
— Kanon, busque o suco, por favor. – O gêmeo mais velho sentou-se ao lado de Milo – Você está mesmo flertando com seu orientador? – Disse mais baixo, de modo que o outro não ouvisse.
Milo estava arrumando as roupas sujas em uma sacola e separando limpas.
— Não é bem flertando. Eu gosto dele. – Deu de ombros.
— Milo, isso não é demais não? Você o conhece há menos de 48 horas. – Volveu Saga.
Kanon voltou com uma caixa de suco de pêssego, sentando-se novamente na poltrona.
— Você nunca teve um relacionamento sério, como pode saber que realmente está gostando dele? – Saga prosseguiu com a conversa.
— Eu não sei. Só sinto que pode ser algo diferente, sabe? Não é como das outras vezes. – Cogitou por alguns segundos – Ele é uma delícia? Com toda certeza. Quero tirar cada pedaço de roupa que ele veste a todo instante? Pode apostar. Mas além disso eu quero conhecê-lo, quero saber tudo sobre ele... Não sei, Sa, dessa vez parece diferente.
— Puxa maninho, parece intenso. – Kanon entrou na conversa.
Milo assentiu, pegando um dos sanduíches da bandeja.
— E o que pretende fazer? – Saga inquiriu – Sabe ao menos se ele é gay ou bissexual?
— Não sei. – Disse de boca cheia. Parou, lembrando-se de Camus. Terminou de engolir antes de prosseguir – Acho que ele retribui meus olhares. Além do mais, tem um cara que beija ele no rosto e pelo o que eu descobri hoje, ambos estão sempre juntos. Mas é claro que isso não significa nada.
— Então ele pode ser compromissado. – Disse Kanon, também de boca cheia.
Milo franziu o cenho. Será que passaria a reparar quem come educadamente e quem não? Maldito francês.
— Não é, eu perguntei ontem. – Respondeu antes de continuar comendo.
— Não acredito na sua indiscrição, Milo. – Saga estava surpreso – Você definitivamente não perde tempo. E os relacionamentos na Grécia? Foi difícil deixá-los?
— Mamãe disse que ontem você foi procurado por duas garotas diferentes, sobrando para ela informar que agora você é internacional. – Kanon complementou.
— De modo algum! Muito pelo contrário, eu prefiro sumir a dar explicações – Milo sorriu.
— Que grande filho da puta você é. – O gêmeo mais novo maneou a cabeça em reprovação.
— Sábado queremos te levar para conhecer melhor a cidade. – Saga mudou de assunto, animado – Pelo menos os pontos turísticos principais. À noite podemos ir em algum bar bem legal. Por que não chama o Camus? Desse modo nós conheceremos nosso futuro cunhado e você alguns dos nossos amigos.
— Acho uma ótima ideia! É bom que eu o vejo no fim de semana também. – Milo sorriu. Estava terminando seu sanduíche quando se lembrou de algo importante – Kanon, você poderia anotar o endereço de onde você e o Saga treinam?
O caçula se referia à natação. O esporte era cultivado em família durante toda a vida dos três irmãos. Milo havia pensado na mensalidade da academia quando escolheu o apartamento nos subúrbios. Nadar era algo que não abriria mão.
— Claro, podemos ir lá amanhã depois do brechó, que tal?
— Ótima ideia. – Milo declarou.
Os irmãos permaneceram na sala conversando sobre o dia e sobre os planejamentos do fim de semana.
Quando o mais novo demonstrou cansaço, Saga olhou sugestivamente para Kanon. Ambos se levantaram, despedindo-se e desejando uma boa noite.
Milo rumou descalço para o banheiro, dessa vez vestido e levando um pesado pijama nos braços.
Ao se despir e ligar o chuveiro, institivamente Camus lhe veio à cabeça. Enquanto se ensaboava, lembrava da pele alva, dos músculos definidos, do tórax perfeito. Sentiu-se excitar e olhou para baixo. Seu pênis já estava completamente desperto, clamando por atenção.
Quando foi que deixou isso acontecer?
Sem cogitar, abriu a tampa do condicionador, depositando uma pequena quantidade na palma da mão direita. Jogou o pote de qualquer jeito no chão do box e esfregou uma mão na outra, de modo a espalhar o produto também na esquerda.
Com ambas as mãos devidamente lubrificadas, o grego as direcionou para baixo. Fechando as palmas ao redor de seu membro, uma na base e outra na ponta, Milo começou o movimento de vai e vem. Se recostou na parede fria, imaginando seus lábios nos de Camus, depois os lábios de Camus em seu corpo. Ao imaginar a boca rosada do francês em seu pênis, o grego se sentiu pulsar e aumentou levemente a pressão na mão que estava por cima, comprimindo gentilmente a glande. Se sentiu vibrar e estremecer.
Não poderia nem conseguiria demorar muito. Soltou a mão que segurava a base, usando-a para envolver os testículos firmes, puxando-os para baixo de modo a adiar momentaneamente o orgasmo. Os dedos apertavam sua glande na subida e relaxavam na descida, roubando todo o ar de seus pulmões.
Com o corpo dobrado, olhava para baixo, imaginando os longos dedos de Camus cravados em sua coxa, enquanto a boca ia e vinha, sem parar. Quando conseguiu visualizar o francês interrompendo o movimento e olhando de baixo para cima, em sua direção, sentiu as pernas tremerem mais.
Estava quase.
Fantasiou uma das alvas mãos do ruivo abandonar sua coxa e se fechar em torno de seu pênis, apertando-o com leveza antes da língua macia subir da base até a cabeça, engolindo-o novamente.
Na realidade do banheiro, Milo entreabriu os lábios para respirar melhor, sentindo a face terrivelmente quente. Aumentou a intensidade dos movimentos e soltou os testículos, segurando a parte superior do box com a mão livre.
Gozou em um jato forte, respirando com extrema dificuldade.
Olhou para a mão melada antes de pensar novamente em Camus.
“Ah francês, se soubesse o que está me fazendo passar...”
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