Um empolgante acidente
1 Um par de olhos
Ochako é recebida pela Tokage com bem menos surpresa que poderia esperar. Aparentemente, uma garota coberta de gosma preta semelhante a piche segurando uma toalha e utensílios de banho e aparecendo na porta de seu dormitório não é algo assim tão chocante para a garota da Turma B, que apenas dá uma breve olhada nela de cima a baixo e se apoia na porta.
— Ei, mas o que aconteceu aí?
— Ataque de vilão quando eu tava voltando do supermercado. — Ochako explica — Eu o rendi, mas… teve uma certa resistência.
— É, dá pra ver. — ela dá um sorriso compreensivo.
— Tokage-san, me desculpe mesmo incomodar, mas é que não tem ág-
— Não tem água nos dormitórios da Turma A, né? A Itsuka tava falando que o Iida-san fez um comunicado no grupo de representantes de sala que eles têm. — ela explica — Acho que esse incidente com vilões afetou a U.A. inteira e o abastecimento de água. Já estão vindo arrumar, mas pode ser que demore um pouco, pelo que ela falou.
— Entendi, então não tem água aqui também. — Ochako abaixa a cabeça, começando a sentir seu corpo se enrijecer um pouco, a gosma parece estar endurecendo devido ao vento levemente frio do começo de outono.
— Olha, até tem, mas… é só no banheiro dos meninos.
— Oh… que azar o meu.
— Nem tanto. Você deu sorte que hoje é domingo e quase todo mundo foi pra casa dos pais, não tem quase nenhum menino aqui.
— Ah, mas… mas ainda tem meninos, né?
— Hum… é. — ela parece pensativa e se vira pro lado de dentro do prédio — Itsuka, quem dos meninos ficou por aqui esse fim de semana?
— O Honenuki, o Tetsutetsu, e acho que o Monoma, não tenho certeza. Por quê? — a representante da Turma B se aproxima da porta e arregala os olhos ao ver Ochako em sua lamentável situação — Meu Deus! O que aconteceu com você?
— Incidente com vilões quando eu tava voltando do mercado. — ela informa, lançando um sorriso desculposo.
— Nossa, mas você precisa se limpar agora! Entra aqui. — a Kendou a puxa pela mão — A água ainda não voltou?
— Não, eu tava explicando pra ela agora que só tem água na ala masculina.
— Ah, então vai lá tomar banho, você não pode ficar desse jeito, Uraraka-san!
— M-mas… é a ala masculina, e se… e se um deles quiser ir tomar banho também?
— O Tetsutetsu já tomou banho, ele saiu pra correr de manhã e já voltou, o Honenuki é tranquilo, ele não vai te espiar nem nada, e eu aviso pra ele que o banheiro tá interditado enquanto você estiver lá. E eu não tenho certeza se o Monoma está aqui... — ela olha para a Tokage.
— Não vi ele de manhã, e não teria como eu não ter visto. Ou melhor, ouvido, né?
— Hahaha, pois é, não tem como não saber quando o Monoma está presente, acho que ele não tá por aqui mesmo. Então pode ir tranquila, Uraraka-san.
— Sim, fica tranquila que a gente não tem nenhum Mineta por aqui. — Ochako ri em alívio, a preocupação dela era basicamente essa. Ela não conhece muito os meninos da Turma B e não quer presumir coisas ruins de nenhum deles, mas nunca se sabe… a confirmação da Tokage, porém, é tudo que ela precisava ouvir.
— Muito obrigada, gente. Eu vou rapidinho.
— Leve o tempo que precisar. Qualquer coisa, é só me chamar. — a Kendou diz de maneira gentil e a conduz até a ala masculina.
A configuração do espaço nos dormitórios da Turma B é idêntico ao da Turma A, a área de convivência é ampla, com um corredor próximo à cozinha que leva para as lavanderias e banheiros, ambos separados por gênero. O lado esquerdo é o das meninas, o do direito é o dos meninos. Ochako respira fundo e se encaminha à direita.
Ela não sabia bem o que esperar, mas não tem nada no ambiente que o diferencie da ala feminina, com banheiras alinhadas e os chuveiros na parede em frente. Ochako dá mais uma olhada para se certificar de que realmente não tem ninguém e se despe com certa dificuldade, suas roupas estão melequentas e grudam em seu corpo, mas depois de certo tempo, ela consegue se livrar da calça e da regata, bem como de sua calcinha e sutiã, bem menos sujos que suas roupas, ainda bem.
Ela liga o chuveiro e deixa a água em uma agradável temperatura morna correr por seu corpo e cabelos. A garota observa o líquido preto escorrer pelo ralo, fazendo cara de nojo quando pedaços que parecem pequenos montinhos de sujeira se desgrudam de seus braços e caem no chão. Bom… ainda é melhor do que se fosse sangue. Ochako não chegou a correr nenhum perigo nesse sentido, ela estava voltando do mercado quando ouviu estrondos na entrada da U.A. e correu para ver o que era, deparando-se com um rapaz de braços que se contorciam e escorriam com o que parecia ser lodo, mas o barulho de quando acertavam a porta frontal pareciam metálicos, como se se transformassem em outra coisa conforme ele os balançava. A agitação do rapaz era tanta que ele conseguiu fazer um pouco da substância ultrapassar os limites do muro frontal que protege a escola, e um breve tremor indicou que ele havia conseguido derrubar algo grande do outro lado. Ochako agora presume que era a caixa d’água da escola.
A aspirante a heroína foi rápida em apreendê-lo, apenas mais um lunático com discurso de ódio contra a U.A. — apareceram muitos desses nos últimos meses — o rapaz não parecia ter qualquer treino físico ou em controle da individualidade, o que o tornou muito mais imprudente na forma como a atacou, fazendo uma tremenda bagunça. Ochako saiu completamente suja, mas ainda assim, vitoriosa. Não demorou para que um professor aparecesse para cuidar dos trâmites legais e para que a polícia chegasse. Assim que explicou o que aconteceu, ela foi liberada para se limpar.
O Iida a elogiou pela agilidade e eficiência para lidar com a situação, e ela com certeza estaria se sentindo muito orgulhosa e satisfeita pelo trabalho bem feito não fosse pelo fato de que assim que tentou abrir o chuveiro na ala feminina dos dormitórios da turma A, nenhuma gota de água caiu. A Tsu sugeriu que ela tentasse a sorte no prédio vizinho, e lá foi ela em sua peregrinação.
E agora Ochako está aqui, desejando muito só relaxar e se entregar ao banho, mas ainda não conseguindo por saber que não deveria estar aqui. As meninas com certeza estão de olho e avisariam qualquer menino que se dirigisse rumo aos banheiros, mas ainda assim tem um quê de desconfortável em estar num ambiente que ela sabe ser frequentado por garotos.
Permitindo-se um pouquinho de indulgência, porém, ela joga a cabeça pra trás e deixa a água correr por seu rosto, mas não é por muito tempo. Assim que se sente minimamente limpa, ela sai do chuveiro e se enrola em uma das toalhas que trouxe. A garota inclina o corpo pra frente e esfrega a outra toalha contra os cabelos, notando que ainda há algumas manchas pretas no pano, ela vai tomar um banho mais longo e minucioso quando a água voltar em seu dormitório, o de agora foi só para se livrar de um pouco da sujeira e do nervosismo que toda essa situação trouxe. Uma simples ida ao mercado em seu único dia de folga das aulas terminou dessa maneira bizarra, e ainda é de manhã, com certeza será um dia longo.
Então ela ergue o corpo e arregala os olhos, assustando-se ao perceber que não está sozinha. Ochako aperta a toalha contra o corpo instintivamente ao encontrar um par de olhos azuis arregalados.
O Monoma está congelado no lugar, a alguns metros dela.
***
Neito acorda com a sensação de que foi atropelado por um rolo compressor. O Tetsutetsu tende a ser exagerado em tudo que diz e faz, mas ele avisou que aqueles analgésicos eram fortes o bastante para derrubarem um cavalo, Neito é bem menor que um, então apagou assim que seu corpo encontrou o conforto da cama, exigindo um repouso depois dos maus-tratos infligidos devido a um treino de condicionamento físico intenso com o Tetsutetsu e o Shinsou. Tanto ele quanto o amigo de cabelos roxos estão buscando melhorar suas capacidades físicas, recorrer ao colega que praticamente mora na academia não pareceu nada além de lógico.
Sendo exagerado como é, o Tetsutetsu não pegou leve com os dois, isso foi ontem à tarde, e Neito ainda está sentindo seus músculos protestarem quando ele se levanta da cama, soltando um resmungo frustrado ao se dar conta de que já é domingo e que praticamente um dia todo já se passou. O fim de semana meio que já acabou.
O loiro penteia os cabelos e se veste, concluindo que apenas um banho pode ajudá-lo a encontrar um rumo depois de seu estado de semi-coma. Ele não se considera rabugento depois de acordar, normalmente nunca tendo problemas para encontrar seu ritmo de manhã, mas o sono profundo combinado ao barulho alto que vem da área de convivência quando ele deixa seu quarto faz sua boca imediatamente se retorcer em incômodo.
O Tetsutetsu está próximo às janelas, observando algo lá fora quando Neito se aproxima. O barulho é tanto que ele leva um tempo para notá-lo, o loiro pigarreia algumas vezes até que consiga chamar atenção.
— Olha só quem tá vivo! — o garoto de cabelos prateados ri — Tá tudo bem, cara?
— Nunca estive melhor. — ele se espreguiça, fazendo uma careta quando os barulhos lá fora aumentam — Mas o que é isso?
— Parece que rolou um acidente na entrada da U.A., um doido tava tentando entrar na escola e acabou derrubando a caixa d’água, aí tão parafusando de volta no lugar.
— E o que aconteceu com “o doido”?
— A Uraraka da Turma A deu um jeito no cara.
Neito revira os olhos, claro que tinha que ser alguém da Turma A envolvido nisso, eles nunca têm atenção suficiente, não é mesmo? A garota não fez mais que sua obrigação e é provável que será louvada como a grande salvadora da honra da escola ou qualquer coisa assim. Ótimo mesmo.
— Bom, que seja… vou tomar banho. — ele dá de ombros e se vira, indo em direção ao corredor que dá para os banheiros.
— Beleza, vai lá! — o Tetsutetsu sorri, mas o chama de volta de repente — Não, peraí!
— O que foi?
— É… a Kendo e a Setsuna falaram pra não entrar no banheiro masculino agora.
— Por que não?
— Não sei, a Kendo ia me falar, mas aí o Hound Dog-sensei chamou ela, a Setsuna foi junto.
— Provavelmente o banheiro estava interditado por falta de água, mas se já estão arrumando, então deve ter voltado ao normal. — ele conclui.
— Ah… é, acho que sim. — o garoto coça a cabeça — Bom, você vai lá e vai ver se tá faltando água ou não, de qualquer jeito.
— Claro. É bem provável que esteja, um aluno da Turma A se envolveu nisso, é claro que faria algo que prejudica a escola no fim das contas.
— É da Uraraka que você tá falando, você tá ligado, né?
— E daí? — o loiro abre seu sorriso mais sereno.
— Bom, é que… você… bom… enfim- — é o suficiente para desarmá-lo de qualquer comentário minimamente espertinho que ele poderia ter.
O Tetsutetsu é seu amigo, mas Neito não acredita que alguém tão denso e que em geral se esquece de qualquer coisa que não envolva musculação, carne e coisas que a Kendo lhe disse tenha guardado na memória uma conversa estúpida que aconteceu há meses no banheiro masculino, quando eles estavam fazendo joguinhos bobos de “O que você prefere?” e Neito foi questionado pelo Kosei sobre beijar uma garota da Turma A ou beijar um vilão, a resposta era óbvia, mas ele se recusou a responder. Então o Awase perguntou se o garoto deixaria de beijar, por exemplo, a Yaoyorozu, e o que se sucedeu foi nomes de garotas da Turma A sendo despejados aleatoriamente, o último foi o da Uraraka, e sua falta de resposta parece ter gerado um delírio coletivo entre os garotos de que ele tem qualquer interesse na manipuladora de gravidade.
Não tem.
Neito se dirige ao banheiro, ouvindo o barulho de água correndo. Não só não está faltando água, como tem algum menino usando os chuveiros. Deve ser o Honenuki, ele normalmente não volta para casa nos fins de semana.
Assim que entra no banheiro, Neito descobre que não é o Honenuki, não chega nem perto disso. Uma toalha cor de rosa enrolada em um corpo curvilíneo, cabelos de um tom castanho escuro se estendem até que ela joga a cabeça pra trás e revela um par de bochechas rosadas.
Ele sempre se orgulhou de sua capacidade de pensar rápido e não ceder à pressão, independente da situação em que se encontra. Nesse momento, porém, Neito não tem ideia do que fazer, completamente paralisado quando a Uraraka nota sua presença, os braços suspensos no ar em um movimento que ela não finaliza, a toalha fazendo um trabalho bem precário em cobrir a parte superior dos-
E então um grito agudo e estridente ecoa pelo banheiro.
Notas finais
Chego hoje com minha nova empreitada huhsuhs, dessa vez uma short fic com meu crackship favorito com a Ocha, monochako é maravilhoso e eu tô aqui pra defendê-los!
Meu planejamento pra postagem é quinzenal, tô tentando aderir à técnica de uma autora que admiro muito, que tem um monte de fics em andamento e vai atualizando uma diferente a cada semana, quero aprender a fazer isso também, então o próximo capítulo dessa aqui deve vir daqui a duas semanas, semana que vem eu devo trazer uma kacchako, então pra quem gosta do casal, fique de olho!
Obrigada por ler e por acompanhar, espero que esteja curtindo!
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