A tensão é tão densa que só poderia ser destruída por uma broca. Ochako se vê incapaz de erguer a cabeça, seus olhos grudados ao chão, tratando as botas gastas do professor Aizawa como se fossem a coisa mais interessante do mundo. Sabe-se lá o motivo, mas ela chega a estar mais desconfortável agora, devidamente vestida e sob os olhares dos professores Vlad e Aizawa, do que estava há quase uma hora, quando ergueu a cabeça e descobriu estar sendo observada.

O curso de heróis os prepara para muitas situações, alguns exercícios de combate chegam a ser assustadoramente específicos, do tipo “como se preparar para enfrentar uma revoada raivosa de pombos” e afins, trabalhar como herói é pisar todo dia em direção ao imprevisível, e mesmo lendas como o All Might ainda parecem se surpreender quando ouvem sobre algum ataque de vilão na imprensa, nem mesmo ele ou o Eraserhead já viram de tudo nessa vida, e é pra esse tipo de aleatoriedade que eles estão sendo treinados. Porém, em dois anos e meio, nada que Ochako aprendeu poderia ter lhe preparado pra isso. Claro, já houve uma ou outra situação constrangedora nesse sentido no dormitório da U.A., ela já se deparou com o Kaminari sem camisa bem no meio da cozinha fazendo barulhos que poderiam facilmente ser confundidos com outra coisa não fosse pelo Kirishima logo atrás do garoto loiro coçando as costas dele. Foi estranho, mas hoje em dia é até engraçado lembrar disso.

Ela não tem certeza se em algum momento no futuro, essa situação passará a ser engraçada. Até poderia ser considerando a cara que a Setsuna e a Kendou fizeram assim que chegaram ao banheiro masculino depois de ouvirem o grito que ecoou pelos dormitórios. O jeito como a Kendou imediatamente ativou sua individualidade, fazendo sua mão crescer e usando-a para bloquear a visão do Monoma… a garota o arrastou para fora do banheiro e pedindo um milhão de desculpas e praticamente berrando para o Tetsutetsu ficar afastado.

É, isso poderia ser engraçado se Ochako não estivesse completamente mortificada, a falta de reação tanto dela quanto do Monoma, o jeito como eles se encararam por segundos que pareceram longos demais, os olhos dele correndo brevemente para baixo antes de se fixarem nos dela e o modo como ele abriu a boca para dizer algo, sendo interrompido pelas meninas, não teve nada de engraçado naquilo. Só foi tudo muito estranho.

Não mais estranho do que o silêncio que segue na sala de estar do dormitório da turma B. Obviamente uma cena dessas acabou por repercutir e, honestamente, Ochako preferia que tudo se limitasse a comentários furtivos e cochichos entre o pessoal das duas turmas, mas a confusão chegou aos ouvidos dos professores responsáveis também.

E se não havia maneira de tornar isso ainda mais desconfortável, aqui estão eles, sentados diante do professor Vlad e do professor Eraserhead, que os observam e esperam.

Pelo quê? Por um pedido de desculpas, ao que tudo indica.

— Eu não vejo necessidade de me desculpar, não sabia que havia uma garota no banheiro. — o Monoma explica, sua voz soa enfastiada, como se toda essa conversa estivesse deixando-o entediado.

— Ninguém está dizendo que você espiou de propósito. — o professor Aizawa responde pacientemente.

— Exato, não estamos culpando ninguém nem estamos bravos. — e o professor Vlad complementa — Mas, de toda forma, Monoma, acreditamos que seria melhor você se desculpar. Você causou um enorme desconforto à Uraraka-san, mesmo que possa não ter sido intencional.

— “Possa não ter sido” não. Não foi intencional, sensei. — ele responde calmamente — E honestamente, por que só eu deveria me desculpar?

— Você quer que eu me desculpe? Pelo quê? — Ochako de repente encontra sua voz e a coragem de levantar a cabeça para olhar o garoto.

— A situação da falta de água foi causada por você mesma, não?

— Eu… sim, mas não… não foi por querer, e eu não-

— Eu também não fiz nada “por querer”, e ainda assim você está exigindo que só eu me desculpe. Entende agora porque é injusto?

— Não sou eu que tô exigindo desculpas, Monoma-kun. Eu nem… — ela abaixa a voz — Eu preferia nem estar falando sobre isso.

— Somos dois. Estão vendo? Nenhum de nós vê necessidade de falar sobre isso. Foi um acidente do qual nenhum de nós queria ter feito parte, mas aconteceu, que se há de fazer? Certo? — ela só se dá conta de que ele está falando com ela quando não ouve nenhuma resposta dos professores. Ochako se vira e encontra os olhos azuis dele e sente o rosto pegar fogo, sendo incapaz de sustentar o olhar.

— B-bom, você… ficou muito tempo olhando.

— Como é?

— Você podia- não sei, ter desviado a cara assim que viu que não era um menino, mas… você ficou lá me olhando… por muito tempo.

— O que você está sugerindo? — ele se inclina, tentando entrar no campo de visão dela — Por essa lógica, você também poderia ter se cobrido mais ou gritado quando me viu, mas você também não fez nada.

— Ela gritou- — o Eraserhead tenta intervir.

— O grito não foi dela, Aizawa, foi dele. — o professor Vlad explica.

— Ah sim. — o professor claramente está surpreso, mas precisa fingir que não, então só acena com a cabeça.

— Então agora a culpa é minha? Por ter deixado faltar água na escola e por ter um garoto me espionando? — Ochako questiona, sentindo o calor de seu rosto se transformar de constrangimento para raiva.

— Não foi exatamente o que eu disse, mas se é assim que você entendeu, o que eu posso fazer? — ele dá de ombros — Suponho que você não está interessada em pedir desculpas.

— Claro que não! Eu não fiz nada de errado!

— O mesmo vale para mim, portanto.

— Monoma, não é bem assim, você-

— Ughhhh, você é impossível! — Ochako conclui, levantando-se da cadeira e se retirando dos dormitórios da turma B, como ela gostaria de ter feito desde o momento em que notou a presença desse garoto no mesmo espaço que ela.

***

Neito boceja, sentindo os olhos lacrimejarem enquanto anda para o prédio das salas de aula.

— Não dormiu bem? — a grande ironia é essa pergunta partir de ninguém mais ninguém menos que o Shinsou, que caminha ao lado dele.

A resposta é “não”, Neito não dormiu bem. Ele mal dormiu, na verdade. Seria perfeitamente plausível culpar o fato de que os analgésicos do Tetsutetsu o derrubaram no dia anterior, portanto não restou sono para a noite, mas não seria verdade, a origem de sua insônia é outra.

A toalha cor de rosa, os cabelos castanhos molhados, as curvas… e os olhos arregalados em choque e horror, não importa o quanto ele tente, a imagem da Uraraka está impregnada em sua mente, grudada como um selo. Toda essa confusão não serviu para mais nada além de lhe trazer uma enorme dor de cabeça e, mesmo assim, lembrar-se do que viu não lhe traz o desconforto que deveria, há um pouco sim, mas… não por completo.

Ele também deveria estar com mais raiva dela. “Você ficou olhando por muito tempo…”, ora, faça-lhe o favor! Ela estava cronometrando o tempo em que eles passaram se encarando? Que tipo de insinuação foi aquela? Ainda mais feita em um tom tão relutante e inocente, ele poderia até achar que isso tudo foi uma armação para prejudicá-lo, não fosse pela maneira como ela deixou a sala de convivência da turma B, praticamente fumegando de raiva, raiva essa que ele não consegue ter dela mesmo depois de tudo que transcorreu. Neito só fez o que tinha que fazer para se proteger, não abaixou a cabeça e não permitiu ser subjugado em algo que foi um acidente de ambas as partes envolvidas. Não é uma questão de orgulho, e sim de princípios.

Então porque ele foi incapaz de pregar os olhos à noite vai além de sua compreensão, sua consciência deveria estar limpa.

— Pelo contrário, acho que dormi demais, ainda estou sonolento. — ele mente.

— Claro.

— Por que o sarcasmo? — ele pergunta, olhando o Shinsou de soslaio, o garoto não parece surpreso pela acusação.

— Eu teria problemas para dormir se acabasse virando o assunto dos dormitórios de duas turmas.

— Você teria problemas para dormir se a temperatura caísse ou aumentasse um grau, não é necessário muito para sua insônia. — ele rebate, o Shinsou não responde e apenas dá de ombros — Não posso controlar o que falaram ou falarão de mim.

— Claro.

— Mesmo que o que possivelmente estejam falando seja infundado e absurdo.

— Uhum.

— Ou mesmo que estejam milagrosamente dizendo algo correto e sensato.

— Aham.

— Não imagino que estejam… estão?

— Hum?

— Estão falando que eu sou um pervertido? Não que eu me importe, mas… estão?

— Ah, não sei direito. Tinha muita mensagem nos grupos, fiquei com preguiça de ler tudo. — típico — Só vi que tinha muita gente indignada por você não ter pedido desculpas.

— Hum.

— Você podia, sabe.

— O quê?

— Ter pedido desculpas. Não ia te custar nada.

— Ia me custar a razão. Eu não vou admitir um erro que não cometi.

— Ok.

— Além do mais, não é como se fosse mudar o que aconteceu. Eu vi o que vi, pedir desculpas não vai automaticamente apagar a cena de minhas memórias. — se apagasse, ele consideraria se desculpar. Neito pensa, mas obviamente não diz isso em voz alta.

— Não ia, mas… sei lá.

— O quê?

— Nada não.

— Só diga logo, ou o quê? Está com medo de ferir meus sentimentos?

— Não, só acho que se você tá tão decidido assim, é porque não vai entender.

— Está dizendo que eu sou estúpido?

— Tô dizendo que você não quer assumir que fez merda. Tudo bem, você não viu a Uraraka pelada de propósito, mas sei lá, pedir desculpas e seguir em frente como se não tivesse sido nada demais faria a situação parecer nada demais mesmo, você ficar criando caso com isso faz parecer que foi uma grande coisa. A impressão que fica pra mim é que isso aí te afetou mais do que você quer admitir pra si mesmo, aí você descontou na Uraraka.

Neito segue andando e procura não transparecer o quão cirúrgica foi a observação do Shinsou. É claro que a situação o afetou, uma garota nua num espaço no qual não deveria estar pegaria qualquer um de surpresa, até mesmo garotos mais calmos como o Honenuki ou o Rin, ou até mesmo o próprio Shinsou.

— Você pediria desculpas sem nem pensar se fosse com você?

— Pra ter certeza que essa história tá enterrada e que a Uraraka não ficaria achando que eu sou um babaca arrogante? Óbvio.

— Ela disse isso em um dos grupos?

— Não sei, mas por que tá perguntando? Você disse que não liga.

E com isso, Neito se cala, os dois garotos seguem em silêncio até chegarem ao prédio das salas de aula. Porém, antes que possa entrar na sala da turma B, ele é impedido por um baixinho com esferas roxas no lugar de cabelo. Mineta da Turma A.

— Oi, Monoma-kun.

— Olá…?

— Acho que você já sabe porque eu tô aqui.

— Porque você bateu a cabeça e de repente não se lembra mais que sua sala é na próxima porta?

— Tsk, engraçadão. — o Mineta não vacila e segue de braços cruzados, encarando-o — Isso é sobre o que aconteceu no banheiro masculino ontem. Você viu a Uraraka pelada.

— E…? — ele ergue uma sobrancelha — Está aqui para defender a honra de sua colega de turma? Você não me parece ser do tipo que compra esse tipo de briga, sinceramente, Mineta-kun.

— Ha! E não sou mesmo! Não gosto de brigas e não tô aqui pra isso. Só quero que você me diga sinceramente, Monoma-kun… — ele se aproxima e leva uma mão próxima à boca, como se estivesse sussurrando — De 0 a 10, que nota você dá?

— Perdão?

— Pra Uraraka. Pode dar nota por parte também. Tipo, 8 pros peitos, 10 pra bunda, 10 pra-

— Atenção! Atenção, pessoal da turma B! O Vlad King-sensei pediu que nos dirigíssemos à sala de reuniões no fim do corredor! — a Kendou interrompe com duas palmas que, produzidas por suas mãos aumentadas pela individualidade, chegam a fazer vento no corredor das salas — Mineta-kun, o Iida-san está orientando o pessoal da Turma A a fazer o mesmo, pode ir lá com ele.

— O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando, Kendou-chan? Com licença… — ele se afasta com um meneio de cabeça ridículo.

— Obrigado, Kendou, me livrou de ter que arremessar um aluno da turma A pela janela.

— Bom, seria a segunda vez que você se envolve em encrenca com alunos da A, pelo menos com ele seria justificado.

— Ah não… você também? — ele suspira ao perceber que ela mantém uma expressão severa enquanto o encara.

— A Uraraka-san está bem magoada, Monoma.

— Eu também estou com as acusações dela, nem por isso estou fazendo cena.

— É exatamente o que você tá fazendo. — o Shinsou se intromete e aponta — Não adianta, Kendou, eu já expliquei e ele não quer entender.

— Bom, já era de se esperar, você não sabe como é pra uma garota. — ela dá um suspiro cansado — Enfim, vocês ouviram meu anúncio. Shinsou-kun, pode ir com a Turma A, nós vamos nos encontrar na sala de reuniões.

— Ok. — ele põe as mãos nos bolsos e se afasta depois de lançar um último olhar reprovador na direção de Neito.

— Não me diga que essa reunião é sobre o que houve ontem.

— Eu deveria te deixar aflito e fazer você pensar que sim, mas não, o Vlad-sensei me avisou que teríamos essa reunião há uma semana.

— E o que te faz pensar que eu ficaria aflito? Eu não fiz nada de errado, Kendou.

— Se é o que sua consciência te diz, não tem nada que eu possa te dizer. Só… fica longe da Uraraka-san, ok?

— Não precisa me pedir isso. — ele sorri serenamente — Bom, vamos então, Presidente? Você precisa ser a primeira a chegar à sala de reuniões.

A Kendou revira os olhos, mas acaba indo na direção da sala. E a consciência dele não está dizendo nada, por sinal. Talvez… esteja sussurrando um pouco para ele se incomodar com o fato de que o tal Mineta achou que eles poderiam ter algum tipo de cumplicidade nessa situação, como se fossem parecidos.

Não são.

***

— Quer começar, Eraser? — o professor Vlad oferece.

— Muito bem, reunimos as duas turmas aqui hoje para um anúncio importante acerca de uma atividade extracurricular que desenvolveremos nas próximas semanas. O Diretor Nezu propôs a integração entre as duas turmas do curso de heróis em um mini evento de combates.

— Como fizemos no primeiro ano, sensei? — o Iida, representante da turma A, questiona com uma mão erguida.

— Não, será um pouco diferente. Daquela vez vocês trabalharam em quartetos, dessa vez teremos duplas e um chaveamento para definir os confrontos. — o professor Eraserhead explica.

— Sim, outra diferença é que os combates daquela vez foram entre as turmas, dessa vez misturaremos as duas turmas. — o professor Vlad complementa.

Um breve burburinho se inicia, e Neito já sente a pontada de repugnância no estômago em pensar que terá que se sujeitar a trabalhar com alguém da turma A. Claro, há muitos ali com habilidades interessantes, mas as personalidades… ugh. Só de se imaginar em uma dupla com alguém como o Bakugou, por exemplo, já o deixa exausto mentalmente.

— Como definiremos as duplas, sensei? — a Kendou pergunta.

— Por sorteio. Façam duas filas, uma por turma, e dirijam-se àquelas caixas para sortear uma bola. As bolas estão numeradas de 1 a 20 em ambas as caixas, com exceção de um número que possui três bolas, então teremos um trio devido ao número ímpar de estudantes. Vamos rápido, não há a mínima necessidade de que esse sorteio demore.

Ugh, não tinha como ficar pior! Se ele ao menos tivesse a opção de poder escolher com quem trabalhará, seria mais fácil, mas um sorteio? Ele pode muito bem terminar numa dupla com o Kaminari, por exemplo, e que dupla inútil eles seriam! Só lhe resta torcer por cair numa dupla com alguém de individualidade versátil como a Yaoyorozu, ou pelo menos com alguém mais palatável de se trabalhar como o Shinsou. Há outra pessoa com individualidade versátil e que dizem ser uma boa companheira de equipe, mas essa é a última pessoa com quem Neito poderia trabalhar devido aos acontecimentos recentes.

E essa pessoa tirou a bola número 14, segurando-a na mão com um dedinho em riste para que todos possam ver e para que os professores possam computar o número dela.

E claro, como parece haver algum tipo de força externa fazendo com que o mundo vire de cabeça para baixo, Neito nem se surpreende quando enfia a mão na urna e retira a bola de número 14 também.

Notas finais
E lá vamos nós, né? Hushuhh Obrigada pelo apoio e carinho de sempre com minhas histórias, o próximo capítulo deve vir em duas ou três semanas :) Beijos!