Um empolgante acidente
3 Um par de discussões
Em geral, Neito não se incomoda em estar no centro das atenções. Ele está mais acostumado a articular seus movimentos nos bastidores, por assim dizer, e apenas se expor quando tem certeza de que seus objetivos foram alcançados como ele queria, mas estar em evidência desde o começo não é exatamente um problema. Pelo menos não até agora.
Assim que todas as duplas e o único trio são definidos, ele consegue sentir o peso dos olhares de pelo menos uns 70% dos presentes na sala de reuniões, incluindo os dos dois professores responsáveis. Neito poderia ser considerado um gênio se fizesse qualquer questão de ser visto como tal, mas não é necessário nenhum gênio para saber o que todos estão pensando. Ele e a Uraraka tiraram o mesmo número, o que faz deles uma dupla, isso depois de um enorme incidente no qual ele viu um pouco demais… em relação a ela. Esse seria o maior problema, não fosse pelo fato de que Neito se recusou a se desculpar e agora todos os seus colegas estão fazendo um punhado de suposições para as quais ele não dá a mínima, só sabe que estão todas erradas.
Porém, quando ele olha para a Uraraka… Neito se dá conta de que ela é a única aqui com um olhar totalmente indecifrável.
— Muito bem, duplas definidas. Vocês terão a última aula para se reunirem e fazerem as discussões iniciais sobre combinação de suas individualidades e estratégias. — o Eraserhead informa com seu costumeiro tom modorrento, apenas notando o clima estranho que se instaurou no ambiente quando ergue a cabeça — Qual o problema?
— Hã… sensei… — a Kendou ergue a mão hesitantemente.
— Sensei, solicito uma troca! — mas o Iida é mais rápido, naturalmente.
— Iida, se tem algum problema com sua dupla, sugiro que conversem antes de qualquer mudança e-
— Não é para mim, sensei! É para a Uraraka-kun! — ele aponta vigorosamente para ela, que parece surpresa e arregala os olhos.
— Ah. — o professor olha para o quadro eletrônico, depois para ela, e por fim para Neito — Troca permitida.
— O q- — Uraraka parece ainda mais surpresa, se é possível.
— Agradeço por intervir, Iida-san. — Neito responde, tentando não soar irônico e sabendo que ninguém irá perceber seu esforço.
— Não há necessidade de agradecer, Monoma-san, apenas faço o que julgo necessário para garantir o bem-estar de todos os colegas. — ele ajusta os óculos.
— E-então… quem vai ser minha dupla? — Uraraka pergunta.
— Bom, já que o Iida-kun levantou a questão da troca, nada mais justo que seja realizada entre essas duas duplas, não? Iida-kun vai com o Monoma, Uraraka-san vai com o Shishida. — o professor Vlad decide.
— Claro, senhor. — os três rapazes dizem juntos.
— Você é mesmo assim tão orgulhoso? — a Uraraka pergunta de repente.
— Perdão?
— Era só você admitir que foi um erro, mesmo que tenha sido sem querer.
— Eu já admiti que foi sem querer. — ele diz calmamente, evitando não reparar nos olhares curiosos dos outros.
— Mas não admitiu que foi um erro. Tanto é que agora você nem consegue me olhar na cara pra trocar de dupla.
— Eu não estou te entendendo, Uraraka. Segundo você, ontem o problema era eu ter olhado por muito tempo, agora o problema é eu não estar te olhando. Um pouquinho inconsistente, não acha?
— Ugh, você-
— E por que está tão incomodada com a troca? Você deveria estar feliz, não teremos que trabalhar juntos, não é melhor assim?
De algum lugar, ele consegue ouvir a Kendou soltando um longo e exasperado suspiro. Ela com certeza acha que ele está errado na forma como está procedendo com isso de novo. Direito dela, Neito sabe que é o melhor para ambos. Eles poderiam fazer coisas incríveis se combinassem suas habilidades, e isso não se restringe às individualidades, mas infelizmente isso não é o suficiente, são necessários companheirismo e confiança. Ela com certeza não sente nada disso por ele no momento, e ele… ele não sabe qual é seu problema, mas sente que é particularmente difícil manter a compostura diante da Uraraka. Desde o dia de ontem, Neito se sente fazendo um esforço acima do normal para sustentar sua atitude distante e desdenhosa, principalmente ao falar com ela, como se fosse isso o que o mantivesse certo de que não está fazendo uma grande bobagem.
Por mais que odeie, ele sabe o quanto o Shinsou tem razão, essa fachada toda é para fazer parecer que está acima disso tudo, é só uma garota que estava no lugar errado na hora errada, assim como ele, e tê-la visto nua não é grande coisa. Mas é a primeira garota que ele vê nua ao vivo, é alguém que ele nunca imaginou ver nessas condições e foi… uma bela visão. Pedir desculpas e assumir seu erro lhe parece uma admissão de algo na qual ele não quer pensar. E não vai, eles não serão uma dupla.
— Hã, Uraraka-kun, eu… eu confesso também não ter compreendido sua queixa, sinto muito. — o Iida admite — Você quer… manter sua dupla?
Ela suaviza o olhar.
— Não precisa se desculpar, Iida-kun. Obrigada por querer me ajudar.
— Claro. Mas, então… você quer manter a dupla?
Uraraka volta a olhá-lo, e ele arrisca devolver o olhar, novamente sendo incapaz de decifrá-la. Os olhos dela são tão brilhantes e expressivos, ela parece ser do tipo que não conseguiria mentir nem se quisesse muito, seus olhos a trairiam no mesmo instante. Mesmo assim, ele não sabe dizer o que isso significa, ela o encara com tanta determinação, mas não parece estar com raiva propriamente dita. Também não está com medo ou mesmo asco, qualquer que seja o problema dela com ele, não envolve pensar que ele é algum pervertido acéfalo como o garoto da sala dela.
— Não, não quero. Vai ser um prazer trabalhar com você, Shishida-san. — ela sorri.
De toda forma, ainda é um olhar que transmite sentimentos ruins, ela parece desapontada com ele.
***
— Está tudo bem, Uraraka-san? — o Deku pergunta cautelosamente depois que eles se sentam para almoçar no refeitório. Ele estava conversando animadamente com ela e com a Tsu na fila para pegar comida, mas deve ter percebido que, mesmo falante como sempre, tem algo de diferente nela.
— Tá sim, Deku-kun. E com você?
— Ah, tudo bem. — ele sorri — Eu tava perguntando mais porque… por causa do que rolou antes… com o Monoma-kun e tal.
— Ah, isso. — ela tenta soar casual. como se já tivesse se esquecido. O Deku com certeza percebe, mas não comenta nada — Tá tudo bem, sim. Eu acho que posso fazer um bom trabalho com o Shishida-san.
— Claro! Ele tem grande precisão na sua técnica e parece ser alguém bastante calmo e inteligente, vocês vão fazer um bom trabalho!
— Obrigada, você e o Honenuki também, com certeza. E ó, se a gente sair um contra o outro, pode ir se preparando, eu não vou pegar leve com você, hein? — ela dá um pequeno soquinho no braço dele, talvez um pouco mais forte do que o necessário.
— Haha, digo o mesmo! — ele esfrega o bíceps levemente.
— Eu só não entendi uma coisa. — o Todoroki, cuja presença Ochako quase se esqueceu já que ele se sentou para comer e só tem feito isso desde o momento em que se sentaram, manifesta-se de repente — Por que você ficou brava com o Monoma querendo trocar de dupla? Não é melhor já que ele te viu nua e causou um grande desconforto? — ele pergunta como se não estivesse causando desconforto nenhum com sua maneira direta de sempre.
— Ah, eu… é complicado…
A verdade é que nem ela mesma sabe. Ochako deixou o dormitório da turma B ontem soltando fogo pelas ventas. A situação toda tinha sido constrangedora, claro, mas poderia ser algo a ser levado com mais calma e leveza, inclusive por ela mesma. Sim, foi um acidente, ela sabe que o Monoma não estava lá há muito tempo e não ficou espionando-a de propósito. Sim, ela entende que não foi justo ele ser encurralado pelos professores, que praticamente exigiram um pedido de desculpas. Não, Ochako não queria que as coisas tivessem se desenrolado daquele jeito, ela preferia só ter voltado para o dormitório e nunca mais falado nisso. Ela e o Monoma nem conversam com frequência mesmo, não seria grande coisa. E se tivesse sido assim, ela não teria que ter ouvido ele insinuar que tudo que aconteceu é culpa dela.
Ochako não o conhece muito bem e teve pouquíssimas interações com ele ao longo dos últimos anos. As meninas da Turma B falam dele de vez em quando num tom que remete a tias falando de um sobrinho muito inteligente porém de gênio difícil, e ela supõe que ele seja exatamente assim. O garoto tem um ar debochado e prepotente, mas parece ser um consenso entre as garotas que convivem com ele que o Monoma é alguém confiável.
Parecia ser, pelo menos.
Porque a atitude dele foi bem babaca, não dá pra resumir de outro jeito. Não tinha a mínima necessidade de ele ficar tão na defensiva, e se antes ela sentia uma morna indiferença quanto ao Monoma, agora Ochako está possessa em raiva. Que garoto insuportável!
Então sim, ela deveria estar aliviada pelo Iida ter interferido e solicitado uma troca em nome dela. Àquele ponto, ela já estava resignada em ter que trabalhar com o garoto, mas estava encarando também como uma oportunidade de conversar com ele com mais calma. A postura do Monoma diante disso conseguiu deixar tudo ainda pior.
— Não quero bancar o advogado do diabo. Acredite em mim, não quero mesmo, — o Shinsou, outro que só sentou pra comer com eles e não falou mais nada, decide falar também — mas ele provavelmente ficou nervoso, não acho que ele realmente quisesse trocar a dupla ou ter te tratado daquele jeito, Uraraka.
— Mas manter aquela dupla seria inconcebível depois do que transcorreu entre eles. — o Iida aponta.
— Seria mesmo? Você não perguntou pra ela o que ela realmente acha. — o Shinsou retruca.
— Oh… Uraraka-kun, você tinha intenções de manter a dupla? Se eu impus minha visão, sinto muito, não foi essa minha intenção, eu apenas queria-
— Tá tudo bem, Iida-kun! Tudo mesmo! Obrigada por ter interferido. Eu… não sei se seria confortável trabalhar com ele, mas… fiquei com a sensação de que… não sei, se a gente pudesse conversar só nós dois sem os professores, talvez ele… ele pediria desculpas.
— Sim, talvez. — o Shinsou concorda. E sendo ele tão amigo do Monoma, para ela isso conta como se o próprio estivesse aqui confirmando — Acho que ele ainda não tinha entendido qual foi o problema, exatamente. Mas… agora ele deve ter entendido, eu acho.
— Ele é um tanto orgulhoso, ribbit. — a Tsu observa.
— Normalmente não é, mas… essa é uma situação um pouco atípica. — o Shinsou conclui, fazendo-a corar quando a olha bem nos olhos.
— Porque ele a viu nua. — e o Todoroki, claro, precisa falar em voz alta o que todo mundo já tinha entendido nas entrelinhas.
— É, Todoroki, por isso. — o garoto de cabelos roxos suspira — Enfim, Uraraka, você sabe que ele é meu amigo, mas não tô aqui pra defendê-lo, acho que ele foi um completo idiota e já falei isso pra ele, inclusive. Só queria que você soubesse que o problema dele não é você, exatamente, então… sei lá, não esquenta a cabeça muito com isso.
— Tudo bem. Obrigada por isso, Shinsou-kun, de verdade. — ele só acena com a cabeça enquanto toma um gole de seu suco.
Bom… a interpretação dela não estava tão errada assim, o Monoma realmente entrou na defensiva por conta de toda a loucura da situação. Se fosse o contrário, Ochako honestamente não sabe como teria reagido, é provável que ela não teria feito como ele, mas… se fosse o contrário, a garota gostaria de ter a chance de ser ouvida sem pressão.
Talvez ela se arrependa um pouco disso, mas… nada parece mais certo agora.
***
Ochako espera que ele vá fingir que não a vê e virar a cara para entrar no prédio do dormitório, é o que realmente parece quando o Monoma se aproxima da porta e a olha de soslaio.
— Quer entrar? — mas então ele pergunta, indicando a porta aberta para ela.
— Bom… se você não se importar de conversar aqui fora mesmo.
— Imagino que eu me importar ou não não faz diferença. — ele dá de ombros e fecha a porta — E então?
— Eu… não devia ter dito que você ficou me olhando tempo demais. Foi um susto muito grande pra nós dois e nem sei se foi mesmo tempo demais, foi tudo tão… estranho. Enfim, eu não devia ter dito aquilo, ainda mais na frente dos professores. — ela o encara firmemente.
— Foi realmente muito estranho. — ele concorda — E se eu tivesse?
— Hum?
— Olhado tempo demais. Como você teria interpretado isso?
— Que você… ficou curioso em me ver… em ver uma menina desse jeito.
— Você não pensaria que eu sou um pervertido?
Ao ser questionada assim, Ochako percebe que nem tinha levantado essa possibilidade. Já há um pervertido assumido em sua classe e talvez um ou outro garoto que reprima essas curiosidades de maneira fervorosa, ver o Monoma como um desses garotos nunca lhe passou pela cabeça porque ela nem o conhece direito, mas… se fosse pra supor qualquer coisa, então não, ela não consegue vê-lo como um pervertido.
— Acho que não.
— Você “acha”?
— Ué, eu nem te conheço direito! E eu… você não pode me culpar por qualquer má impressão que eu tenha de você depois do que você disse, Monoma-kun. Não adianta querer discutir comigo nisso. — ela cruza os braços.
— Eu não ia.
— Ah, bom… que bom. Enfim… você pode ser muitas coisas, arrogante e cansativo, mas pervertido não.
— Ora, obrigado. — soa genuíno e sarcástico ao mesmo tempo, e Ochako revira os olhos — Acredito que eu exagerei um pouco.
— “Um pouco”? — ela ironiza, mesmo um pouco surpresa pela admissão dele.
— Foi tudo muito estranho, como você mesma apontou. Mal tive tempo de entender o que houve e logo já estavam todos querendo saber o quanto eu vi e o que eu iria fazer. — ele suspira e olha para as árvores que cercam o prédio — Mas não gosto de ficar inventando desculpas. Lamento pelo modo como falei com você, não foi culpa sua também e espero que você sequer tenha duvidado disso. — ela balança a cabeça negativamente, e ele sorri — Ótimo.
— Ótimo. — ela repete, apenas porque não sabe o que responder, Ochako não esperava que seria assim tão fácil depois de toda a teimosia dele, mas assim como ela teve tempo para conversar com seus amigos e reavaliar a situação, ele também deve ter repensado com mais calma — Bom, então…
— Então?
— Eu, hã… eu vou encontrar o Shishida-kun para discutir mais sobre nossos planos.
— Ok…? — ele parece não estar entendendo, e tudo bem, porque ela também não sabe porque sentiu essa necessidade de se explicar.
— Sim, então… até mais.
— Até.
Ochako se retira, curiosa para olhar para trás e ver se ele ainda está lá, mas acaba se segurando. Mesmo que eles meio que tenham se entendido, ela ainda fica pensando se ser uma dupla com ela seria assim tão ruim.
E agora é um pouco tarde, mas agora ela tem uma resposta para a pergunta do Todoroki mais cedo. Por que a garota ficou tão brava com o Monoma querendo trocar as duplas?
Porque ela queria fazer dupla com ele.
Simples assim, mas nada simples de verdade.
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