Um empolgante acidente
4 Um par de pares
Ochako estica as pernas e se alonga levemente enquanto está sentada no banco. O Shishida oferece uma garrafa d´água para ela, a qual a garota prontamente aceita com um sorriso.
— Lamento profusamente se porventura eu tenha passado dos limites e lhe ferido de alguma maneira, Uraraka-san. — ele abaixa a cabeça como se estivesse prestes a se ajoelhar completamente em busca do perdão dela.
— Não, Shishida-san! Pode ficar tranquilo! — Ochako se apressa em tranquilizá-lo, ainda um pouco perplexa pela forma como ele transforma seu comportamento. Há alguns minutos, quando estava com a individualidade ativada, ele estava agitado, parecia até um tanto bravo, e ela teve que ser ágil com a Gravidade Zero para se levitar e sair do alcance dele. Agora, o rapaz está com os ombros caídos e uma expressão séria, quase lembrando um cachorro triste depois de levar uma bronca.
— Como deve ter notado, minha técnica não equipara minha velocidade e força quando estou com a individualidade ativada, é relativamente fácil perder o controle e me tornar inconsequente, creio que é um aspecto que precisarei revisar.
— Oh, claro… — ela acena com a cabeça, tentando ter certeza se entendeu tudo que ele falou nesse tom todo formal — Bom, eu… tenho um bom controle da minha técnica, só não tenho tanto a velocidade nem a força, então acho que a gente acaba por se complementar nesse sentido. Só precisamos bolar um plano, o ideal pra nós é neutralizarmos o adversário o mais rápido possível para não passarmos muito tempo usando nossas individualidades, já que elas nos afetam também.
— De fato. Poderíamos iniciar com um ataque impactante logo no início, eu poderia me transformar em fera e atacar diretamente, a senhorita poderia vir em minhas costas e fazer uso de suas habilidades em artes marciais.
— Hum… interessante… ou então… — ela olha para cima e tenta visualizar a cena em sua mente para explicar melhor — Eu poderia começar com o ataque direto, posso me mover pelo ar e distraí-los enquanto você vem pela terra, por assim dizer. Acho que é mais inesperado, não acha? Muitos imaginariam que você estaria me escondendo por ser maior que eu e já viriam preparados para atacar suas costas, mas acho que quase ninguém esperaria o contrário. — Ochako termina quase falando mais para si mesma do que para ele, mas encontra o Shishida observando-a atentamente — A-ah, desculpa, Shishida-kun, só tô pensando alto, por enquanto, nós podemos tentar das duas maneiras. Se conseguirmos avançar, não podemos ter só uma estratégia, de qualquer jeito. Mas enfim… é só uma ideia…
— E é bastante pontual.
— Ah, você acha?
— Sim, peço perdão se a deixei desconcertada, Uraraka-san, é que a maneira como você expôs seu raciocínio me remeteu a alguém de minha sala.
— Oh… sério? Quem? — ele a olha com tamanho pesar que Ochako quase fica assustada, mas a julgar por isso, só pode ser uma pessoa — O Monoma-kun?
— Queira me perdoar, imagino que ser comparada a ele após o que se sucedeu é um tanto indelicado de minha parte.
— Não, tudo bem! — Ochako dá uma risadinha nervosa — Nós, hã… conversamos e está tudo bem agora. Bom… bem o suficiente.
— É mesmo? — ele ergue suas sobrancelhas peludas — Isso é bastante inesperado considerando o comportamento prévio dele.
— É, ele não… reagiu do melhor jeito, mas eu… meio que entendo o lado dele também. Tá tudo bem agora, eu já o desculpei.
— Suponho que ele não tenha pedido perdão de maneira direta.
— Como você sabe? — ela não esconde a surpresa, lembrando-se que apesar de ter entendido o que o garoto loiro disse como um pedido de desculpas, em nenhum momento ele disse a palavra “desculpa” de maneira clara e direta.
— Só o conheço o suficiente. — ele dá um leve sorriso cansado — O Monoma-san pode ser um tanto intransigente, mas não é uma pessoa vil.
— Não, claro. Acho que foi só uma situação muito estranha que saiu do nosso controle muito rápido e ele não soube reagir bem, mas é… tá tudo resolvido agora. — ela suspira — Só sinto muito que você tenha que ter sido envolvido nisso e acabado como minha dupla, Shishida-san, você não tinha nada a ver com isso. — e dá um leve sorriso desculposo.
— De forma nenhuma, eu compreendo o quão atípica foi a situação. Nossa função como heróis em treinamento é estarmos aptos para imprevistos e termos capacidade de nos entrosarmos com qualquer outro colega independente da situação.
— É, mas… acho que você com o Iida-kun teria sido uma dupla perfeita. — ela ri, notando agora que os dois rapazes têm certas semelhanças no jeito de falar e no fato de estarem sempre ajustando os óculos — Os dois são bem inteligentes e rápidos, acho que teriam mais facilidade em combinar suas habilidades.
— Bom, sendo assim, você e o Monoma-san também apresentariam bastante compatibilidade. A individualidade dele lhe permite certa versatilidade, tal qual a sua, e ambos possuem notável capacidade de pensar em estratégias criativas, como eu acabo de perceber.
— Oh, é… talvez. — ela concorda timidamente, mas por dentro Ochako está acenando com vigor.
Quase se esquecendo da situação do banheiro, assim que viu seu nome pareado com o dele no quadro eletrônico, mil ideias lhe correram pela cabeça de como eles poderiam explorar o potencial da Gravidade Zero para duas pessoas, e o Monoma ainda poderia copiar pelo menos mais duas individualidades, com o controle de técnica preciso que ambos têm, eles poderiam dar muito trabalho até mesmo para as duplas mais fortes como Deku e Honenuki, Todoroki e Tokage, Yaomomo e Kendou… é, a dupla mais complicada é essa última, mas Ochako sente que com os conhecimentos do Monoma, eles poderiam ser páreo até mesmo pra elas. Nada contra o Shishida, ele claramente é tão brilhante quanto alguns dos maiores cérebros das duas turmas e, como ela já tinha percebido antes, assemelha-se bastante ao Iida, mas suas individualidades não são exatamente compatíveis com ambos tendo que se preocupar com os efeitos que elas causam neles mesmos. Claro que ela irá se esforçar ao máximo, e Ochako pode ter sim certa confiança de que eles irão avançar dependendo de quem podem vir a enfrentar, mas… vai ser dureza.
Com o Monoma, mesmo com a personalidade dele sendo horrível, seria mais fácil, quase natural…
— Bom, retornemos ao treino. — o Shishida decide e se levanta, ajustando os óculos mais uma vez.
Mas as coisas são como são, e embora Ochako ache que ela poderia ter feito funcionar com o Monoma, agora isso não importa mais.
***
— ... e dessa forma, podemos nos organizar em um ataque combinado. — o Iida conclui os apontamentos que pediu para compartilhar um pouco antes de eles iniciarem o primeiro treino conjunto.
— Interessante. — Neito comenta enquanto observa a detalhada folha de esquemas táticos montados pelo representante da turma A — E vejo isso funcionando com 77% das duplas formadas para o torneio.
— E quem seriam os 23%?
— Equipes um pouco mais imprevisíveis que devem apostar no improviso ou se apoiarão na individualidade de somente um deles. O Bakugou e o Kuroiro, o trio do Shinsou com a Kinoko e a Ashido, o Kaminari e o Rin e… é, a Uraraka com o Shishida. — ele enumera calmamente.
— São equipes relativamente equilibradas por terem integrantes de habilidades bastante opostas. Eu consigo ver o Bakugou-kun simulando uma grande cena de que está agindo sozinho e criando grandes explosões para gerar luz e consequentemente, mais espaços escuros para o Kuroiro-kun. A Komori-san pode resolver uma batalha rapidamente com seus cogumelos mais letais, mas o Shinsou-kun deve estar trabalhando em um esquema que dê espaço para os três. O Kaminari-kun não possui muita confiança nas próprias estratégias e decidirá como proceder na hora, e… a Uraraka-kun…
— Deve estar pensando em como quebrar as expectativas e partir para a ofensiva com o Shishida de suporte, já que a maioria estará esperando o oposto deles. — ele complementa.
— Você acha?
— É o que me parece mais inteligente, e ambos são bastante espertos nesse sentido. — ele dá de ombros — Enfim… acredito que sua estratégia é eficaz, Iida-kun, podemos usá-la com duplas mais estáveis.
— E o que você sugere que façamos com os mais imprevisíveis?
— Podemos pensar em estratégias específicas contra eles, embora isso talvez tome um certo tempo…
— Não, vamos fazer isso. Temos a vantagem de podermos estimar como você pode copiar as individualidades em nosso favor, então vamos usá-la. — ele decide de maneira séria.
— Que calculista, senhor representante. — ele dá um sorriso debochado — Se fosse eu falando algo assim, já estariam dizendo que sou manipulador e egoísta.
— Vou ser franco, meu objetivo é vencer. Houve contratempos e idealmente você não seria minha dupla, Monoma-kun, mas consigo reconhecer seus pontos fortes e acredito que temos que fazer bom uso deles.
Neito pisca duas vezes, surpreso pela franqueza do Iida. Ele consegue acreditar nessa atitude pragmática, mas tem a impressão de que agir assim é mais por uma necessidade do que pela real natureza do garoto. Uma certa frieza se vê necessária em bons líderes, mas pelo que ele sabe, o Iida pode sim ser um tanto passional e cabeça quente dependendo da situação. Ter que se unir a alguém com quem não tem entrosamento para possivelmente enfrentar colegas a quem ele admira e está acostumado a ter como aliados pode ser uma dessas situações, mas a razão pela qual ele se apega tanto a esse profissionalismo talvez seja outra…
— Entendido. Mas sabe, se você é assim tão contrário à minha… bom, a mim, não deveria ter se oferecido para trocar de dupla. A Kendou ia levantar a mão também, sabia? Ela poderia ter se oferecido ou quem sabe até sugerido outra ideia…
— Eu não havia notado a Kendou-san, só agi conforme me pareceu mais adequado para proteger a integridade de uma colega que também é uma grande amiga.
— Claro, claro. Você tem algum interesse romântico na Uraraka, Iida-san? — ele abre um sorriso ardiloso, tentando buscar no rosto quadrado de seu colega o rubor que denunciaria tudo que ele precisa saber.
— Não vejo a necessidade de explicar isso, mas não, tenho a Uraraka-kun como uma irmã. Ela é alguém que estimo muito e não a quero desconfortável e distraída de seus objetivos por conta de um garoto que nem ao menos pediu desculpas por tê-la visto em uma posição tão vulnerável. — mas não há rubor nenhum, e Neito não identifica qualquer traço de mentira no que ele diz.
— Heh, e eu não vejo a necessidade de se armar contra mim por conta dessa situação.
— Sua postura não foi adequada.
— Não foi, mas isso é algo para que eu resolva com a Uraraka, não acha? — ele dá as costas — E eu resolvi, caso queira saber.
Bom, ela resolveu vindo falar com ele, na verdade. Mas Neito não precisa nem vai apontar isso.
— Você se desculpou com ela?
— Chegamos em um entendimento mútuo. — ele explica — Então não se preocupe tanto, sua… “irmãzinha” está em bons termos comigo.
— É difícil de acreditar quando você usa um tom tão sarcástico. — o Iida volta a fazer anotações em sua folha — Mas tudo bem, se a Uraraka-kun está mais tranquila, eu também fico.
— Agora falta a parte em que você diz para eu não ousar tentar machucá-la de novo ou terei que me ver com você e com o esquadrão protetor dela, é isso?
— Conto que você não ousaria fazer algo proposital para magoá-la novamente, você é inteligente o bastante para isso, não?
Neito sorri. É, parece que ele está se tornando meio previsível.
Porque é claro que ele não faria nada propositalmente prejudicial para a Uraraka, qual seria o ponto? O que ele teria a ganhar? Toda essa situação foi um acidente e já lhe deu uma tremenda dor de cabeça, imagine se dar ao trabalho de elaborar algo para deixar a Uraraka chateada, seria uma enorme perda de tempo e energia, e ele não quer ter que lidar com mais nenhum dos pensamentos que tanto o afligiram depois daquela confusão. Os dois conversaram, ela o perdoou, está tudo resolvido.
Exceto pelo fato de que Neito não consegue deixar de imaginar como seria estar discutindo estratégias para enfrentar seus colegas com ela.
E também pelo fato de que a Uraraka não sai mais de sua mente, não apenas a cena dela no banheiro, mas também… o jeitinho meio atrapalhado porém firme com que veio falar com ele.
O sorriso dela fica voltando à sua cabeça durante toda a reunião com o Iida.
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