Um conto de Inverno
3 Parte 3
Notas iniciais
Yuri sentia-se bonito e elegante como nunca pudera sentir-se antes. Os longos cabelos loiros estavam em um belo coque com flores "contrabandeadas" por Jean durante o dia; usava uma calça preta, uma camisa social branca e um colete cinza por cima, deixando de lado o paletó que não lhe favorecia as curvas e ao corpo esguio. Mila, após toda a recepção de Viktor, fugiu para o último andar com Georgi e Jean, usando os dois como dispersão para os guardas e ajudou o loiro a arrumar-se, deixando a máscara por último.
— Dance, converse, sorria para todos e seja o garoto gentil que eu sei que é. Aproveite essa noite, querido. — beijou-lhe o ombro de forma maternal e lhe colocou a máscara. O coração de Yuri falhou uma batida e poderia chorar ali mesmo. Virou-se abruptamente e abraçou Mila, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Obrigado, por tudo. Eu me sinto tão bem. Eu estou até bonito, Mila. — a mulher riu baixinho, acariciando os fios dourados com cuidado para que não bagunçassem. Ela conhecia demais o menino para saber o quão teimoso e rude ele poderia ser, então, se estava carinhoso, realmente era algo importante para ele.
Tanto a ruiva, quanto os outros empregados que trabalhavam diretamente para manter a proteção do rapaz não entendiam o excesso de proteção, ou o fato do próprio imperador concordar com os pensamentos retrógrados empregados por Viktor. Porém, ela o respeitava, afinal, não suportaria ver algo acontecer com Yuri, e se não podia tirá-lo da torre, pelo menos transformaria seus dias e anos em momentos mais "suportáveis".
— Vamos descer logo antes que seus guardas percebam que Jean e Georgi são apenas distrações.
Os dois saíram pela porta após a dama de companhia determinar que o corredor estava "limpo". Desceram cautelosamente as escadas da torre, escondendo-se no corredor da antiga biblioteca, enquanto um grupo de homens rumavam novamente para prostrarem-se diante do quarto de Yuri. O garoto seguiu Mila até encontrarem-se com Jean.
Leroy estava encantado em como seu menininho loiro e rabugento havia se transformado em um garoto lindo, digno de ser pintado e eternizado em um dos grandes quadros do palácio de inverno; não pôde se conter ao abraçá-lo pela cintura e o erguer alguns centímetros do chão, ouvindo claramente seus resmungos.
— Georgi teve de voltar pro baile para Viktor não estranhar. Vamos descer e nos misturar com os nobres franzinos — debochou, recebendo uma gargalhada contagiante do loiro. Mila ergueu o vestido vermelho com tule que usava e ajeitou a máscara da mesma cor, segurando no braço de Jean como se o mesmo fosse seu acompanhante. Ele, diferente dos outros empregados, estava vestido apenas com uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, o cabelo jogado para o lado e a máscara preta lhe cobrindo ao redor dos olhos, deixando-o mais informal do que o planejado. Entretanto, seu marido quem o havia arrumado e, se para Lee estava bonito, então, nenhuma outra opinião lhe importava.
O "casal" seguiu na frente, tampando a visão dos outros de Yuri, enquanto o mesmo, um tanto nervoso, caminhava um pouco atrás, de cabeça baixa. Parecia que seu coração iria sair do peito, considerando a forma que ele batia freneticamente.
Quando seus pés tocaram o mármore da escadaria, ergueu os olhos, vendo todas aquelas pessoas ali, dançando com seus pares de um jeito animado. Lembrava daquela cena quase que vagamente, no dia que seus pais morreram. Era um sentimento estranho, mas, ainda sim, aquele curto período longe das paredes de pedra fria que rodeavam seu quarto lhe era revitalizante.
— Divirta-se, Yuri. E em hipótese alguma diga as pessoas o seu nome ou quem é. — assentiu, já que, se aqueles eram os termos impostos para uma noite mágica, não se importava em os seguir.
Conglomerando-se entre aquelas pessoas, o príncipe caçula desapareceu das vistas de seus criados e amigos, entregando-se para uma das noites mais especiais de sua vida, se não a mais especial.
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Não era a primeira vez de Yuuri no palácio, nem sua primeira vez em um baile nobre, entretanto, sempre se encantava com as decorações e convidados. Phichit parecia saber exatamente o que fazer, quem cumprimentar, com quem conversar, mesmo que todos usassem máscaras que os deixavam quase irreconhecíveis.
Era algo novo para si e gostava daquela sensação de ser importante, por mais que não passasse de um simples vendedor de flores que possuía uma pequena banca com as trigêmeas filhas de Yuko e Takashi. Ao olhar para o centro do salão, a dança majestosa lhe enfeitiçou de tal modo que não podia desviar seu olhar e acabou perdendo-se do amigo, não que esse fizesse muita questão de parar em um mesmo lugar. A instrumental era alegre e os pares giravam e sorriam enquanto seus corpos acompanhavam o ritmo, perdendo-se em sensações. Yuuri queria aquilo. Queria ser chamado para dançar, rodopiar pelo recinto, enquanto braços fortes o guiavam de forma majestosa, porém, como já citado anteriormente, Yuuri tinha tantas habilidades em ser social quanto uma parede branca. Caminhou até uma das pilastras, se apoiando nela e observando atentamente, atraindo a atenção de um certo príncipe que estava do outro lado.
Alguns serviçais se aproximaram com bandejas cheias de petiscos e algumas taças com bebida, entretanto, Yuuri não se sentia muito a vontade em comer em público, levando em conta seu histórico de momentos vergonhosos. Avistou Pitchit facilmente – devido à sua roupa extremamente chamativa –, entretanto, sentiu-se hesitante em caminhar até o mesmo, visto que estava com Christophe e mais alguns homens da elite e, certamente, passaria vergonha se lhe fosse dirigida a palavra.
Suspirou pesadamente, mordendo o lábio inferior e desapoiando-se da coluna, rumou para uma das mesas espalhadas ali, sentando-se e deixando que a esperança de ser chamado para dançar prevalecesse. Yuuri sentia que nada lhe era certo e que, por muitas vezes, seu pai suprimia suas expectativas de ver o filho casado, com o sentimento de derrota. Admitia que Yuuri não havia sido feito para aquilo, que ele mesmo não havia sido preparado o suficiente antes da morte da esposa para ajudar o garoto a perder a vergonha e ser seguro. Yuuri odiava aquilo e ele não era alguém rancoroso, longe disso, só não gostava de ver seu pai tão impotente com coisas que eram de sua própria culpa. Todos aqueles homens e mulheres que sorriam de forma exultante uns para os outros, deliberadamente encontrando a pessoa que lhe completava, mostravam ao jovem – não mais tão jovem assim – sua inutilidade perante a sociedade, que só tinha um único trabalho realmente duradouro: O de encontrarem suas almas gêmeas, formarem uma família e serem felizes.
Bufou rolando os olhos, sabendo o que Mari diria se estivesse presente, lendo seus pensamentos. Ela que nunca havia se dobrado para uniões amorosas, mudou-se logo que completou maioridade para o reino da luz, desejando muito mais que frio e romances tórridos que culminavam ao casamento. Queria uma aventura e assim teria. Yuuri só a viu uma última vez há quatorze anos atrás, dois anos depois dela ter saído de casa, no funeral de Hiroko Katsuki, vítima do atentado contra a família real.
Por muitos anos, Yuuri não tinha nem a mínima condição de passar em frente ao palácio, sem que memórias daquela noite o assombrasse. Era como se todo aquele momento de terror voltasse para o assombrar, entretanto, atualmente, ao invés de pesadelos, apenas olhos azuis acinzentados apareciam em sua mente, lhe trazendo conforto e deixando com que o medo e a angústia desaparecessem e, estranhamente, naquele momento, sentia como se estivesse sendo observado pelos mesmos. E, realmente, ele estava.
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Viktor sentia-se incomodado. Desde que avistara o rapaz de máscara prateado e olhos de Zircon marrom, perdera total atenção no que o Sr. Boloutovich dizia. Era uma sensação estranha de que já o conhecia de algum lugar, não deixando de lado o fato de seu terno cair feito uma luva em seu corpo atraente. Teria abandonado imediatamente o velho patético e sua história irritante sobre as uvas crescerem bem em sua estufa, para falar com o rapaz e dar um jeito de tê-lo em sua cama naquela noite. Entretanto, Nikolai estava ali, não só para o vigiar, como também para lembrá-lo que aquele baile era sua chance de encontrar um alguém qualquer que lhe pudesse trazer a coroa diretamente para o todo de sua cabeça. Sorriu falsamente para Mikhail Boloutovich e continuou a fingir a se importar com o que quer que ele estivesse falando, ao fim das contas, era apenas o começo do baile e teria tempo o suficiente para caçar sua presa.
— Alteza, fiquei sabendo que há um planejamento para a reunião entre os dois reinos que partiu do senhor e quero parabenizar-lhe por essa grande iniciativa. — o bigode grosso do homem parecia atrapalhar sua fala, tornando-a grave e abafada, extremamente irritante ao olhar do príncipe herdeiro que, percebia toda a bajulação excessiva de Boloutovich, tentando se reaproximar de todas as formas da família real, em busca de renome e prestigio.
Viktor arqueou uma sobrancelha, querendo não demonstrar sua confusão; não sabia sobre nada daquilo e nem ao menos apoiava, era um absurdo sem lógica, visto o discurso de ódio que sempre pregava contra o reino da luz.
— Eu não--
— Viktor está extremamente centrado em unir a aliança que os dois reinos construíram ao longo de seis séculos. — espantado, o rapaz viu-se interrompido pelo avô que apertava seu ombro em um claro sinal para apenas sorrir e concordar. — Como porta-voz, viajei até o reino vizinho e tive uma assembleia com o rei Celestino e com a rainha Kanako. Ainda tive a oportunidade de trocar algumas palavras com seus filhos, os herdeiros gêmeos, Sara e Michele e o caçula Minami. São bem... Calorosos, por assim dizer. — finalizou, dando uma pequena risada.
O homem gargalhou, pousando a mão na barriga rechonchuda, o rosto ficando em um tom carmesim; Viktor revirou os olhos uma segunda vez. Patético.
Um movimento diferente foi percebido de esguelha. O rapaz havia levantado da mesa e seguia para o lado de fora, apressadamente. Aquela talvez fosse sua última chance de lhe propor sexo casual e não deixá-lo-ia escapar.
— Com suas licenças, senhores, mas, preciso resolver algo. Sr. Altin, fique com meu avô. — sorriu falsamente. — Aproveite a festa, Sr. Boloutovich; Majestade. — curvou-se respeitosamente e saiu em passos largos para o jardim.
Podia vê-lo de costas, com as mão dentro dos bolsos da calça. Pensou em se aproximar, entretanto, era preferível observar atentamente antes de dar o bote. Nem mesmo Viktor sabia de onde havia surgido aquela necessidade em descobrir quem era aquele rapaz e o quão sexy seriam seus gemidos de prazer, entretanto, às vezes o tesão tomava conta da razão.
— Qual é o meu problema? Não deveria ficar tão ofendido por aquela proposta.— Yuuri murmurava dando suspiros baixos. — Qualquer homem da minha idade já deve ter beijado muitas pessoas, mas, só beijei Pitchit uma vez e eu quero aguardar o momento certo para ser beijado... Parece tão ridículo da minha parte... — por mais próximo que Viktor estivesse, não conseguia entender muita coisa, levando em conta o quão baixo o rapaz falava. — Em meus sonhos dou um beijo de amor/Em um príncipe encantador/É o que faz o final feliz da história — mordeu o interior da boca, retirando as mãos do bolso e, com uma, tocou seus lábios, com a outra, tocou com a ponta da luva negra na folha de uma das árvores preservadas ali, naquela estufa. — E é por isso que os lábios são/Uma porta para o coração/Só um verdadeiro beijo diz/Se achou a pessoa que sempre quis...
Era o momento, quando Viktor preparou-se para aproximar-se, foi parado por um guarda, um dos que vigiavam a torre de Yuri. O mesmo se curvou respeitosamente e sussurrou no ouvido do príncipe, de forma discreta para evitar alardes.
— Sua Alteza, não sabemos como isso ocorreu, entretanto, o príncipe Yuri fugiu do quarto e não conseguimos encontrá-lo ainda. — Viktor respirou fundo, olhando com desprezo para o homem.
— Inúteis. Procurem novamente, não importa, não deixem que ninguém saia deste castelo sem que o garoto seja achado e não ousem em contar o motivo real. Darei meu jeito de encontrar meu irmão. — o homem saiu às pressas, seguindo com a ordem que lhe fora dada. Viktor olhou atentamente Yuuri, aproximando-se em passos rápidos. — Ei você!
O moreno deu um salto, colocando as mãos no peito; virou-se rapidamente, encarando o homem mascarado. Contudo, seu interior pareceu relaxar instantaneamente ao que seus olhos se encontraram aos azuis acinzentados.
— Sinto muito, não sabia que era um local proibido... — disse baixo.
— Tenho que resolver um problema. Espere-me aqui. — Viktor sentenciou, correndo novamente para dentro do salão, deixando um Yuuri confuso, entretanto, curioso em saber o que aquele homem queria consigo.
Ao avistar Otabek parado atrás do imperador, Viktor o chamou com o olhar, sendo atendido rapidamente pelo general.
— Encontre meu irmão. Ele é loiro e não mede mais que 1,64. — seus olhos pareciam faiscar. — Não faça eu me arrepender de confiar em seus soldados.
O general apenas assentiu, tomando aquilo como um desafio, afinal, seguiria as ordens, mesmo não vendo algo realmente problemático em deixar o rapaz se divertindo pelo castelo.
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Loiro com menos de 1,70 de altura? Qual seria a probabilidade de encontrá-lo em meio a tantas pessoas iguais? Talvez fosse algo difícil para qualquer outro homem, mas, assim que saiu de perto de Viktor, Otabek o encontrou. Talvez fosse pelos cabelos presos por uma presilha de turmalinas, cheios de flores ou pela roupa inigualavelmente refinada que era a marca da família real invernal, entretanto, aqueles olhos verdes e cheios de um brilho fascinante foram o que traiu o disfarce do príncipe caçula. Ninguém daquele salão, ou até mesmo daquele reino, possuía íris tão extraordinárias como as da família Nikiforov-Plisetsky e, assim que o notou, Altin poderia apostar sua vida que aquele rapaz era o irmão mais novo do herdeiro do trono.
Se aproximou lentamente, como quem não quer nada, ao fim das contas, acercá-lo precipitadamente só o faria fugir. Não que a caçada fosse se complicar, entretanto, Otabek não gostaria de estender seu trabalho por mais horas do que o necessário.
A orquestra se preparava para tocar uma nova canção, fazendo com que todos escolhessem seu par novamente. O rapaz que dançava anteriormente com Yuri, beijou as costas de sua mão, reverenciando-o em respeito, como era feito de par para par; Otabek não tardou em se aproximar, afastando o homem disfarçadamente e curvou-se para convidá-lo à uma nova dança.
— Senhor, não pude deixar de notar seu talento genuíno e gostaria de admirá-lo ainda mais de perto. Aceite ser meu parceiro nesta valsa e me fará o homem mais realizado desta noite. — Otabek sabia mentir quando necessário, sabia usar artimanhas para conquistar o inimigo e sabia bem como usar as palavras para persuadir quem quer que fosse. Usar aquilo com um garoto que nunca teve a chance de aprender o quão falso e traiçoeiro é o mundo, de fato, era algo extremamente fácil e logo recebeu um sorriso animado.
Prontamente, a filarmônica começou a tocar Rondo Capriccioso de Camille Saint-Saëns e os pares juntaram-se em um círculo em meio ao salão. Otabek segurou firmemente a cintura de Yuri com uma mão, enquanto a outra segurou a palma coberta pela luva, sentindo seu pescoço ser envolvido delicadamente.
Começou de uma forma suave, em um ritmo que exalava desconfiança, assim como as notas agudas do solista ao reproduzir a op. 28. Os casais rodopiavam em seu próprio eixo enquanto giravam no anel formado pelos nobres. Parados um em frente ao outro, Otabek segurou a outra mão de Yuri, o volteando de uma forma que suas costas colassem em seu abdômen e eles seguissem pelo círculo; o soltou apenas para voltar a antiga formação, onde os dois giraram pelo salão até que Otabek pousasse as duas mãos nas ancas do garoto, o erguendo, enquanto o mesmo se apoiava em umas omoplatas. O general o colocou no chão novamente, unindo seus corpos em uma dança que requeria certa malícia e movimentos sexuais com os quadris. Yuri se inclinou para trás, sentindo Otabek se inclinar sobre ele, subindo sua coxa até o quadril. Os olhos negros fixando-se nas íris verdejantes que já haviam descoberto seu disfarce de bom homem. Voltaram a colar os corpos, desta vez, com o loiro tentando fugir sempre que uma brecha se abria, entretanto, os braços fortes de Altin não lhe deixavam escapar e aquela dança sensual se perdurou até o fim, quando um grupo pequeno de soldados capturaram, enfim, sua presa e, com um olhar magoado e enraivecido, o príncipe caçula foi guiado novamente para sua torre solitária, não antes de jurar vingança contra Otabek, mesmo que seu corpo ainda estivesse entorpecido pelos toques intensos de suas mãos.
Otabek suspirou pesadamente. Sua noite estava apenas começando.
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MÚSICAS DO CAPÍTULO (em sua respectiva ordem) :
Beijo de amor - Encantada
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