Um conto de Inverno
2 Parte 2
Notas iniciais
Talvez, a visão do lado de fora fosse mais atraente do que estar, realmente, lá, certo? Talvez, Viktor estivesse correto todo aquele tempo e, o mais certo era permanecer trancafiado em sua torre, não é mesmo?
Yuri não pode negar que essas coisas passaram por sua mente ao longo do dia, mas recusava-se a se render as ideias falhas e ultrapassadas de Viktor. Seria livre. Não havia sido posto no mundo para ser um simples pássaro engaiolado, um animal enjaulado.
A máscara negra estava em cima da cama dossel. Havia demorado um longo tempo até que pudesse ficar pronta, entretanto, Jean era bom em manusear cristais e pedras preciosas. Era uma máscara preta com alguns arabescos vazados que, ao seu entorno, levavam pequenos cristais de Clinoclase polidos, enquanto algumas pequenas turmalinas azuis lapidadas foram colocadas nas pontas e no centro, deixando-a delicada como quem a usaria. Não importava o que Viktor havia dito, Yuri iria para o baile, nem que pudesse ficar apenas cinco minutos. Podia se imaginar dançando e sorrindo como todas as pessoas que estariam ali, e aquela simples expectativa lhe deixava animado.
Escutou batidas firmes na porta e, rapidamente, guardou a peça única em sua gaveta, tendo a certeza de que, quem quer que fosse, não bisbilhotaria.
— Entre. — se escondeu embaixo dos lençóis.
— Yuratchka, estava indo dormir? — Nikolai não era alguém que sorria na maioria das vezes, entretanto, sempre que Yuri estava em sua presença, seu coração parecia amolecer.
— Vovô. — o garoto, um tanto confuso, não deixou de sorrir. Já havia passado um longo tempo desde que o vira e, querendo ou não, sentia saudades. Colocou-se de joelhos na cama, abraçando fortemente o homem mais velho, sentindo-se como uma criança. — O que faz aqui? Pensei que não voltaria tão cedo do reino da luz.
— Um dos meus netinhos estava arrumando confusão, então vim saber o que está acontecendo. — acariciou a maçã rosada do rapaz, sorrindo de forma amena. — Yuri, sabe que tudo o que fazemos é para o seu bem.
— Mas vovô, isso é tão injusto! — cruzou os braços, em um sinal claro de aborrecimento. — Nem o senhor e nem Viktor entendem como é estar trancafiado em uma torre onde só vejo você, ele, Mila, Chris, Jean, Georgi e às vezes Lee trás Ailaa.
— E não é bom nos ter? — arqueou a sobrancelha grisalha.
— É, é bom sim, mas eu quero amigos, quero poder sair, patinar no gelo, fazer um anjo na neve, conversar com os aldeões, dançar nos bailes, viver um amor igual nos livros que Vitya me deu.
— Os livros não são reais, Yuri. É tudo ficção. O mundo não é como você pensa. Temos-- Eu tenho medo de você se machucar, querido...
— Não sou mais criança, vovô. Tenho 20 anos e posso arcar com as consequências dos meus atos. Deixe-me descobrir as coisas por mim mesmo. — segurou a mão calejada do imperador, quase em um suplício.
— E... Se eu negar isso?
— Então eu continuarei tentando fugir, vovô, até que possa alcançar minha liberdade. — Nicolai suspirou, sabendo o rumo daquela conversa. Yuri era como Kira: teimoso e sonhador.
Olhou o garoto de forma cansada e beijou-lhe a testa. — Durma, querido. Tenho que falar com seu irmão. Yuri assentiu, deitando-se e permitindo que o avô o cobrisse com a amabilidade que só pertencia única e exclusivamente a ele.
Com um 'bom sonhos' ameno, levantou e partiu, deixando o rapaz loiro ali, sem saber se o veria novamente em um curto período.
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Yuuri via-se em meio a tantos ternos e vestidos que se sentia enjoado. Muitas cores, muitos tecidos, muitas gravatas. Se pudesse, usaria o que Guang-Hong lhe dera de aniversário junto da máscara que havia visto na caixa de recordações de seu pai, entretanto, tanto Toshiya e Takeshi quanto Phichit e Chris exigiram que ele levasse aquela oportunidade a sério e se vestisse adequadamente.
Quando foi sua vez de ser atendido na 'Toca', Lilia o encarava com certo desprezo. Era óbvio que precisaria mais do que só um terno novo e uma máscara para que Yuuri conseguisse ao menos um sorriso de qualquer pretendente, ele estava terrivelmente malvestido e com os cabelos desarrumados.
— Crianças, venham aqui. — Takeshi, Minako e Guang-Hong deixaram o que faziam e se aproximaram da estilista, esperando as ordens. — Vamos dar um jeito nesse garoto.
Sorriram animados, cada um segurando em um braço e o arrastando para trás das cortinas. O colocaram sobre um pequeno tablado de madeira, tirando suas roupas, peça por peça e o levaram até uma tina que saia fumaça, onde o mesmo entrou, sentindo a água lhe esquentar.
— Este caso é muito raro/Mas jeito sempre tem/Um banho perfumado/E vai ficar bem. — Guang-Hong passava a esponja por todo o corpo delgado de Yuuri, enquanto Minako lhe massageava os cabelos e Takeshi esfregava-lhe os pés. Sentia-se relaxado e um tanto constrangido de tê-los lhe banhando, contudo, o olhar de Lilia era para si o mais constrangedor. — E então vai estar/Pronto para encontrar seu par/Um noivo mais que exemplar/traz mais honra a todos nós.
Saiu da tina, sendo logo enxugado pelos três, enquanto Lilia colocava alguns ternos em sua frente, tentando achar o que mais combinasse.
— Vai ver só/Virá um/Bom rapaz que não tem vício algum... — Minako sorriu para ele como a mãezona que era.
— Tendo sorte/Não é incomum... — Takeshi enrolou a toalha em sua cintura e Yuuri agradeceu aos deuses pela 'Toca' possuir aquecedor.
— Traz mais honra a todos nós. — Guang-Hong colocou a toalha nos cabelos negros de Yuuri, para que sugasse toda a água acumulada.
Os três trabalhavam juntos em perfeita harmonia, completando um ao outro, nunca desviando o foco do serviço principal.
— O moço vai trazer a grande honra ao seu lar/Achando um bom par/Com ele se casar.
— Mas terá que ser bem calmo/Obediente/E ter vigor — Lilia levou um belo terno branco para que o mesmo o vestisse. Havia pequenos enfeites por todos os cantos de cor prateada. Ela sorriu de forma satisfeita quando esse o serviu.
— Com bons modos e com muito ardor/Traz mais honra a todos nós. — Yuuri foi sentado em uma cadeira e lentes colocadas em seus olhos, fazendo com que o uso de seus óculos de armação azulada fosse desnecessário.
— Servimos ao imperador que é o nosso protetor/Com muita devoção/E sempre com ardor. — Minako retirou a toalha e começou a pentear os cabelos de Yuuri, deixando-os em um topete resistente e sexy.
— Mas não vá fracassar/Com a sorte um dia vai achar/E irá sempre junto a ele estar — era o gran finale. Guang-Hong que havia desaparecido por alguns instantes voltou à sala com uma máscara prateada em mão, com vários cristais de gelo maciço que formavam pequenos talhos no material de que ela era feita. Ele o colocou em Yuuri enquanto todos aguardavam ansiosos por sua reação. — Traga honra a todos nós...
Yuuri poderia chorar naquele momento, talvez. Aquele não era ele, era alguém mais bonito, mais seguro de si, alguém que poderia arranjar um amor. Sorriu como o nascer do sol, mexendo levemente com o coração carrancudo da estilista e saiu para mostrar seu novo visual ao Toshiya e ao Phichit.
— Ancestrais, ouçam bem/Eu vos peço proteção também/Que encontre logo um alguém/E a minha mãe eu vou honrar... — suspirou, vendo seu pai levantar e receber-lhe em um grande abraço.
— Encontrará um marido hoje, Yuuri. Eu tenho certeza e sua mãe também, onde quer que ela esteja...
Yuuri sabia, tinha isso em mente e em coração. Pôde apenas assentir, retribuindo o gesto de afeto do pai.
— Vamos, vamos, falta menos de uma hora para o início do baile e não estamos nem na metade do caminho. — Phichit reclamou, pousando as mãos na cintura, já vestido em seu próprio terno vinho e usando uma máscara dourada chamativa, assim como ele.
Despediram-se dos outros e entraram na carruagem disposta por Christophe para que nem o namorado e nem o amigo tivessem que andar por horas. Assim, Yuuri começou a noite que sonhara tanto.
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Viktor estava deveras elegante, como sempre. O príncipe de gelo sempre atraíra a atenção, entretanto, todos sabiam que teriam apenas sexo e poucos eram escolhidos para estar na mesma cama, desfrutando de seus corpos. O fraque negro era de linho e a camisa branca de botões pretos pareciam destacar ainda mais os olhos azuis acinzentados fascinantes e, ao mesmo tempo, tão gélidos e indiferentes. A cartola no topo de sua cabeça era acompanhada pela máscara negra que escondia apena um lado de seu rosto, no melhor estilo de The Phantom of the Opera*, como personagem icônico que era. Viktor lia bons livros e adorava caracterizar-se nas personalidades marcantes. Quando criança, Yuri adorava quando o mesmo se vestia de Lestat de Lioncourt* na melhor forma vampiresca que poderia interpretar. Dias dourados que não voltariam.
Afastou os pensamentos nebulosos e segurou a bengala que estava pendurada no encosto de ferro da cama; olhou-se no espelho tempo bastante para que Christophe batesse na porta, convidando-se a entrar.
— Parece uma megera. — brincou, fechando a porta atrás de si. Viktor arqueou a sobrancelha, nunca surpreso com as insolências de seu 'braço direito'.
— Por qual razão mesmo eu ainda não lhe mandei para a forca, Christophe?
— Por que sou o único que entende sua mente perversa? Ou por que tenho belos olhos e uma massagem relaxante? — segurou os ombros do príncipe platinado, olhando para o espelho que agora refletia os dois. — Não consigo lhe imaginar encontrando alguém, Viktor. Será que é um sinal dos tempos e há uma revolução por vir? Alguém há de conquistar o coração do nosso belo príncipe herdeiro?
Viktor revirou os olhos em desprezo. Olhou fixamente para o rapaz pelo reflexo e sorriu de forma irônica. — Sabe muito bem que o Imperador impôs a ideia maluca de que, para eu assumir o trono, deveria estar casado, lembra-se? Não aja como se fosse algo meu, como o sonho de ter uma família e alguém para chamar de "amor". É nojento e ridículo e me sinto enjoado só de pensar em ter que viver com alguém e apresentar como minha esposa ou esposo. Yuri é quem tem sorte de não carregar este fardo.
— Se ele ao menos pudesse sair daquela torre, Viktor... — suspirou. — Não terá nem mesmo a oportunidade de se apaixonar ou até mesmo assistir ao casamento do irmão. Não acha que quatorze anos são o bastante para tanta proteção?
— Já conversamos sobre isso e minha decisão é inalterável. Yuri permanecerá a salvo até que eu possa me livrar de todos que o desejam mal. — seu tom era definitivo e nem ao menos falhava ao repetir seus motivos, como sempre.
— Mas, não há nem ao menos um sinal de perigo, Viktor. Os aldeões acreditam piamente que o jovem Yuri nem mesmo vivo está. — argumentou exasperado. Sentia na pele todas as vezes que seu olhar encontrava aos do loiro de cabelos longos que vivia em uma torre e escapa poucas vezes na troca de guarda.
— Deixem que acreditem. Eu só quero o melhor para ele, sabe disso como ninguém. — Giacometti assentiu, não totalmente conformado, porém, aceitando as palavras do herdeiro. Chris sabia do amor de Viktor por Yuri e de como perder os pais lhe causou sequelas emocionais acarretadas pelo trauma. Ele era daquele jeito e o rapaz esperava do fundo de seu coração que surgisse alguém capaz de acalentar o coração gelado do príncipe.
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Otabek sentia-se estranho usando aquele estilo de roupa que não estava habituado. Nunca havia feito questão de participar de algo proposto pela família real, principalmente se o uso de roupas formais fosse obrigatório. O terno preto lhe caiu bem, junto com a camisa da mesma cor, entretanto, não trocaria seu uniforme verde-oliva por todo aquele luxo, afinal, seria um milagre se ao menos pudesse mover seus braços sem que o pano fino — e extremamente caro, diga-se de passagem — rasgasse de ponta a ponta. Seus cabelos, jogados para o lado pareciam mudar sua aparência e a máscara negra o deixava praticamente irreconhecível, o que seria bom, poderia se camuflar entre as pessoas e proteger tanto o príncipe quanto o Imperador de forma mais anônima.
Se prostrou diante da enorme escadaria de mármore, de guarda, enquanto os convidados começavam a chegar, acompanhados ou não, todos bem vestidos para a ocasião. Foi cumprimentado por alguns nobres e confundido muitas vezes como um dos empregados, entretanto, permaneceria ali, esperando a grande entrada triunfal do príncipe herdeiro.
— Vossa majestade real, o Imperador Nicolai Plisetsky. — o pajem mais jovem anunciou enquanto o homem descia vestido em um traje que deixava nítido sua importância para a realeza. O terno vinho lhe deixava mais sério do que realmente era, o manto por cima dos ombros combinavam com a máscara no estilo teatral veneziano que usava. Otabek respirou fundo, sabendo que começaria seu trabalho naquela noite logo.
Viu Christophe Giacometti descer também com alguns homens e mulheres, serviçais, que estavam bem vestidos e mascarados.
— Abram caminho pra observar/ Vocês já vão ver o grande Vitya passar/E quem quiser ver, /Chegue aqui, mas chegue mais. — todos se afastaram e direcionaram seus olhares para o topo da escadaria.
— Os sinos tocando, /Tambores rufando, /Pra receber o rapaz. — todos estavam espantados com a beleza do outro. Viktor era realmente o mais belo do reino e era algo irrefutável. Começou a descer degrau por degrau, deixando que o som claro da bengala contra o piso ficasse nítido.
— Príncipe Vitya é este aqui, ele arrasa. / Ajoelhar, reverenciar, será legal. /Espero que ele os ame, /Ouvindo o seu salam/Saudando seu séquito sensacional.
O platinado beijou as costas da mão do avô, em sinal de respeito e lançou seu sorriso insolente e desprezível para os convidados. Georgi colocou uma taça de champanhe em sua mão, para um brinde.
— Aproveitem o baile. — ergueu-a em poucas palavras, recebendo uma salva de palmas. Deixou-se ser guiado para cumprimentar seus convidados e amigos de seu avô, sempre com Otabek em seus encalços.
Para ele, a noite de trabalho maçante estava apenas começando, afinal, treinará bem seus homens para ter a certeza de que nada passaria pelos mesmos. Por ora, apenas acompanharia os membros da família real com alguma distância significativa, esperando que Lee o deixasse passar a noite em sua casa com direito à uma massagem relaxante.
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GLOSSÁRIO:
The Phantom of the Opera: Na obra de Gaston Leroux, O Fantasma, em seu esconderijo em baixo de uma casa de ópera em Paris, no Século 19, planeja uma forma de se aproximar da vocalista Christine Daae. Ele, usando uma máscara para esconder um defeito congênito, consegue os papéis principais para a estrela, mas ela se apaixona pelo benfeitor das artes, Raoul. Apavorado com a ideia de sua ausência, o Fantasma cria um plano para manter Christine ao seu lado, enquanto Raoul tenta derrubar o esquema.
Lestat de Lioncourt: Lestat de Lioncourt é um personagem fictício, parte dos romances de Anne Rice que formam as Crônicas Vampirescas
MÚSICAS DO CAPÍTULO (em sua respectiva ordem) :
A casamenteira — Mulan
Príncipe Ali — Aladdin
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