Um conto cinza
4 Beco das lamentações
Na crônica de desgraças, a lua se mantém, lutuosa, a observar no mais arrastado silêncio. Ainda não sendo mais que uma miragem, preserva sua posição como uma importante personagem, derramando suas graças, acolhedoras e miseráveis, sobre as cabeças dos moradores do Sonho de Laetenir. O único lugar que mesmo carregando o título de mais perigoso, também se torna o mais seguro. O “Sonho” tinha seus estandartes postos no solo mais solitário que os pés humanos são capazes de alcançar. Antes, quando os tambores de guerra ecoavam por entre os troncos em brasa do outro lado do mar, o antigo regente revolucionário, Laetenir Van Evergold, juntou quatro famílias e seus juramentados para navegar longe dos cais que foram feitos de cemitério, com os cadáveres de inocentes. As torres e os quatro castelos, as casas e fazendas, as estátuas e as masmorras, todos foram erguidos a beira do Abismo, na “Ilha não Nascida” a oeste dos campos e montanhas do reino humano. O sangue “dourado” dos Evergold corre pelas veias de ditadores e rebeldes. Mesmo hoje, 61 anos depois do nascimento do Sonho, isso permanece imutável.
Elmyrod mancava dentro de um estreito beco, distante de qualquer fonte de luz. Em algum ponto do longo corredor de tijolos, situava-se uma grade de barras de ferro, facilmente despercebida por todos os olhos, que não os do carrasco. Daquele mesmo ponto, quase no meio do beco, se olhasse para frente ou para trás, incapaz seria de ver qualquer coisa que não as trevas. Elmyrod se encostou em uma das paredes e deixou-se deslizar, sentando por fim, enquanto fitava a parede oposta. Ele sabia que diferença alguma fazia olhar para dentro das grades, de qualquer forma não veria nada. Com voz rouca, não mais que um sussurro, o carrasco murmura:
— Leahnar, minha irmã?
Aguardou, por um breve momento, como se esperasse por uma resposta que nunca viria.
— Leahnar... Eu deveria parar de procurar-te apenas na hora de lamentação, mas se importaria de me ouvir uma vez mais, nessa que talvez seja a última? Acabaram-se as preparações, sem mais etapas as quais se segurar e esquecer o inevitável. Amanhã o Executor virá pela estirpe dos Signord, e tudo que enxergo ao fim dessa campanha é a morte medíocre. Sejamos nós os vencedores ou a maldita criança que desonrou nossa irmã, não será um desfecho glorioso, não tocarão trombetas da conquista. Morreremos como indigentes, é isso que eu vejo.
E então o badalar teve início. O enorme sino no centro da cidade tocou seis vezes, ressoando até os confins da floresta, espantando as aves. Na terra onde não existe um sol, a sinfonia dos seis badalares marcava o começo de um novo “dia”. Elmyrod esperou, inquieto, o cessar dos sons. Abriu a boca, mas palavras não saíram. Encarou a lua uma vez mais, perdido. Se sentiu jovem novamente, ao perder tempo observando mentiras.
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Darius Signord sentava-se sobre o trono, sem luz alguma a iluminar os rasgos nas pedras e mármore. A espada de seu pai, desembainhada, jazia grosseira em seu colo. Encarava as rupturas do chão, como se contasse os segundos até as vinhas se enroscarem por completo nos pilares. O barulho do tremular dos trapos vermelhos ecoava, alto, fundo dentro de si. A ansiedade se misturou com o medo e Darius se perdeu no breu do salão, sem notar seus ossos tremendo.
Tão preso no vazio, só foi despertar quando os seis badalares ressoaram por entre seus domínios. Um dia, apenas mais um dia. Suspirando, empunhou a espada com as duas mãos e se esforçou para enxergá-la através das sombras. Uma espada bruta, como de um bárbaro. Antes, o antigo Signord, seu pai, brandi-a com apenas um punho e com força o bastante para não só destroçar as armaduras de seus adversários, como também ceifar sua fé e coragem. Uma lâmina feia, bastarda. Em seus aposentos, uma bela espada ornamentada à ouro estava presa à parede, como um troféu. Presente do próprio Laetenir, na coroação de seu genitor como Segundo Trono. Perguntou ao seu pai, bons anos atrás quando ainda menino, porquê a espada mais bela do burgo estava escondida fundo no castelo, enquanto a lâmina bastarda estava sempre ao lado do trono. “E por acaso foi ouro a conquistar liberdade? Pois não foi o trabalho de belas espadas, mas sim o ferro. ” — respondera seu pai, com um sorriso quase tolo no rosto. Contudo, agora nenhuma diferença isso faria. Lâminas nada faziam ao corpo do Executor, pois este não tinha um corpo. A força não ceifaria sua fé e coragem, pois ele era o profeta do temor. E seu Deus, o abismo.
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De volta a seu lar, repousava Elmyrod sobre uma cadeira mofada. Vivia sozinho — senão pela companhia dos ratos — em uma casa velha e comum, nos subúrbios do Sonho. As casas aos lados estavam vazias, com seus proprietários mortos há muito tempo. O bairro era um dos mais sujos e perigosos, sem patrulhas para rondar, sem postes para acender com fogo. Ainda assim, ninguém desafiaria o torturador. Todos aprenderam a temê-lo, ainda mais do que o próprio Primogênito, mesmo que perdesse para o Executor. O carrasco, mais de uma vez, mostrou a todos o que ele faz com suas vítimas. Mostrou, em praças públicas, nos troncos das árvores escuras, em becos, nas masmorras, nas torres dos castelos. Nem mesmo aqueles que compartilham seu sangue, nem mesmo seus irmãos escaparam da sua raiva insaciável. Elmyrod quase não dormia, muito menos sonhava. Quando acordado, as vezes se pegava tentando forjar um sonho, inventar histórias. Era impossível manter por muito tempo, tudo que nascia na cabeça do torturador se desfazia em ódio. Seus pensamentos eram colonizados por completo pela fúria, incapaz ele era de fazer outra coisa. O assusta pensar o quão isso lhe caiu bem. A desgraça, o açoite nas mãos do cruel e maldito Caçador, o transformaram em um monstro. Em um amontoado de carne que servia como máscara para uma personificação da crueldade. Elmyrod sentia vergonha de seus atos, nojo de suas palavras, mas sendo desumano ele se sentia tão... vivo.
Para esquentar suas mãos, Elmyrod as pôs em seus bolsos. Mesmo dentro de sua casa, com toras alimentando o fogo precioso, ainda sentia frio. O frio era real ou era apenas uma manifestação do receio?
A bengala estava ao lado da cadeira, igual um rei mantém a espada ao lado do trono. O torturador fechou os olhos e tentou forjar uma história para si, uma vez mais. Lá fora, o Sonho de Laetenir se movia. Ainda possuía vida, mesmo que fraca. O povo ainda via esperança, mesmo sem um sol que iluminasse. Mais um “dia” na vida de todos os sortudos habitantes, daquela cidade a beira do abismo.
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