Um conto cinza
5 O Poeta e o Anjo
Tão imerso no baile de sopros e folhas secas, o Poeta por pouco não se perdera na trilha apagada. O vento travava um combate contra os galhos, curvando-os e fazendo-os sussurrar em tom quase audível. Absorto na apreciação da bela Floresta do Outono definhando e morrendo, o Poeta teve seu leve senso de humor poético adoçado pela ironia. Uma pura beleza, dando as caras quando moribunda. Suas pegadas, visíveis no solo, estavam em inúmeros cantos e vilarejos do domínio humano. Esse bardo à moda antiga, buscava, desesperadamente, algo dentro de si. Algo no mundo que partiria os grilhões de seu talento, que seria o útero da mais bela das artes. O Poeta buscava a mais verdadeira inspiração.
A trilha fraca, ao encontrar seu fim, daria à uma vila sem nome. Fora dos traçados de um mapa, longe dos olhos curiosos, qualquer flor poderia florescer. O bosque foi ficando mais raso, até ser possível avistar as pacatas construções, perfumadas com a simplicidade. Caminhou por entre as casas de madeira e sentiu o cheiro dos jardins em seus telhados. Sentiu vontade de compor, mas suprimiu o desejo, ainda não era hora. Devia ter aproveitado a época, enquanto ainda tinha talento.
O som caótico de trotes à distância atiçou seu interesse, fazendo de sua origem, seu rumo. A neblina, gentil, dividia-se em duas conforme passava, sem a necessidade de pedir licença. Dedilhava por entre cordas imaginárias e, imitando a névoa, separava a realidade em duas, como uma história sem um final. O som de violinos expandia as barreiras da mente, arquitetando um cenário. Entre a orquestra, ouviu uma trombeta, sinalizando o começo da peça.
Apressou-se. Deixou o soar das trombetas guiá-lo, levando-o para onde precisava estar. O céu, que tinha seu sol oculto por cinzentas e espessas nuvens de tempestade, fora substituído por luzes de vela, iluminando o centro do palco e, ao depositar seus olhos entusiasmados sobre a situação, notou e compreendeu que a peça já estava em execução, mas não era ele o protagonista.
Com olhar descrente, viu uma virtuosa dama, com corpo oculto por brancos trajes fúnebres. A sua volta, um grande círculo de madeira, como uma roda, circulava seu corpo, com seus membros superiores e inferiores atados à estrutura posicionada, com maestria, por cima de um palco. O Poeta manteve-se atrás da plateia, até mesmo dela era preciso excluir-se.
O algoz da decente dama fez duas incisões laterais, com precisão de um sábio, em suas costelas. Esse seria o dia que o Poeta aprenderia a primeira valiosa lição, de como seres humanos se tornam anjos. O trabalho do homem indignou-o, na realidade. O homem encarava os céus com o mesmo desdém que a plateia encarava a moça, mas, arrogante, ia além e ditava regras. Olhou nos olhos do Perpétuo e tomou a firme decisão de criar um novo anjo, sem nem sequer indagar-se se o Altíssimo tinha o desejo de receber mais um sagrado servo no reino de prata. O algoz, pelas incisões feitas, colocou suas mãos dentro da dama, procurando suas costelas e, ao encontrá-las, puxou-as para fora, criando algo belo.
A decente dama urrou, dando seu último grito humano. Ela se tornou mais, ela ascendeu ao reino alto. A plateia presenciou a cena e o desdém virou adoração e amor. Viram, a sua frente, um anjo nascer. A orquestra que tocava na cabeça do Poeta consolou-o, deixando o êxtase dividir espaço com a indignação.
Viveu pouco, mas existiu muito. Presenciou pouco, mas viu demais. Presenciou mais do que devia. Pois esse é o trovador das inúmeras pegadas.
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