Um caminho de Rosas
5 Capítulo 5 - Entre o sonho e a realidade
Notas iniciais
Albafica estava sentando em sua cama escorando-se na cabeceira de madeira, a janela estava aberta e uma brisa suave entrava refrescando aquela noite quente de verão e fazendo as cortinas tremularem levemente. Ele ficava ali fintando as estrelas e a lua prateada que estava no céu. Seus olhos estavam distantes assim como sua mente, seus cabelos caiam um pouco em seu belo rosto dando um ar de desleixo. Estava vestindo apenas uma calça de um tecido fino, um pouco larga e de cor branca, sentia a brisa tocar seu peito exposto, desejando que aquela sensação de angustia fosse embora junto com a brisa.
Realmente ele era o mais belo entre os doze Cavaleiros de Athena. Seu físico era o de um Deus, adquirido pelos anos de treinamento pesado, seu rosto tinha uma expressão angelical, tudo nele era harmonioso e aquela pequena pinta embaixo do seu olho esquerdo lhe conferiam um charme especial. Seus cabelos de um azul celeste único e muito liso emolduravam seu belo rosto.
Estava distraído olhando as estrelas como se procurasse algo entre elas, repostas para suas dúvidas e algo que acalmasse seu coração, até que sua meditação foi quebrada pelo som da porta que se abria revelando as feições de Sirena. A menina entrava e fechava a porta atrás de si, fintou os olhos de Albafica profundamente, fazendo o jovem cavaleiro corar. Ela ficou escorada na porta e com uma voz melodiosa e um pouco arrastada dizia:
─ Tive um pesadelo mestre. Posso ficar aqui com o senhor? – Sirena levava as mãos até seu peito na altura do coração.
Albafica respondeu surpreso e um pouco constrangido com o olhar de Sirena:
─ Claro pequena, sente-se aqui do meu lado. – Albafica se ajeitava na cama para que Sirena pudesse sentar ao lado dele.
Sirena então caminhava lentamente em direção a cama. Os olhos de Albafica não saiam da menina que vestia uma camisola branca, um pouco transparente, ressaltando os contornos do corpo de Sirena, o volume de seus seios, as curvas de sua cintura e sua pele alva. Os cabelos dela caiam pelos ombros em uma enorme cascata de cachos dourados que chegavam à cintura. A luz da lua entrava pela janela e tocava o corpo da menina conferindo a ela uma beleza divina.
Sirena sentou-se bem próximo a Albafica que olhava o rosto dela iluminado pela lua, em uma harmonia perfeita, deixando seus olhos com um verde ainda mais vibrante. A
boca de Sirena era rosada de lábios finos e delicados, suas bochechas rosadas contrastavam com seus olhos verdes como duas esmeraldas reluzentes. Ele sentia seu corpo desejar o de Sirena colado ao dele, ele queria sentir o calor e suavidade de sua pele. A boca de Albafica ficou seca e sentia seu corpo estremecer na presença dela. Ela o olhava de forma doce e amorosa, mas ele podia ver algo dentro dos olhos dela arder e chamar por ele.
A menina levou suas delicadas mãos ao peitoral de Albafica que estava exposto, deslizando lentamente os dedos, sentindo a pele macia e quente dele. O cavaleiro sentia seu corpo reagir estranhamente ao toque dela, mas era tão gostoso que ele apenas fechou os olhos para poder sentir. Ele podia ouvir Sirena rindo ao vê-lo daquela forma tão entregue as suas caricias e a menina passava delicadamente os dedos pelo peitoral e abdômen do seu mestre, arrancando suspiros velados do mesmo. Albafica nunca havia sentido nada parecido, seu corpo arrepiava com o toque de Sirena e sentia algo dentro de si aquecer, ele abria os olhos e fintava a menina que o olhava com desejo.
Albafica a puxou para mais perto de si, deixando seus rostos próximos, ele podia sentir o aroma de rosas que o corpo dela exalava e o doce cheiro de menta do seu hálito. Os lábios de Sirena estavam entreabertos e sua respiração era um pouco ofegante, suas bocas estavam quase se tocando. Ele queria tanto tocar aqueles lábios que eram tão rosados e tão chamativos a ele, levemente passou um dos dedos sentindo o quanto era macios e quentes, se olharam profundamente e sentiam suas almas se tocarem naquele instante. Albafica falava de forma ofegante e pausada procurando as palavras:
─ Sirena… Eu não posso… Mas é tão difícil resistir. Isso é tão forte dentro de mim. – Ele a envolvia com seus braços desejando que ela nunca mais saísse dali.
Sirena respondia, deixando os lábios se tocarem levemente:
─ Não resista mestre. É tudo que eu mais quero. – Sua voz estava ofegante e arrastada, como se falar naquele momento fosse um enorme sacrifício.
Ao ouvir as palavras da menina, gentilmente ele colocou uma de suas mãos sobre o rosto dela, sentindo o calor de suas bochechas e um de seus dedos começou displicentemente a passear pela face dela, conhecendo cada detalhe. A outra mão foi de encontro com a nuca dela e depois seus dedos se entrelaçaram aos fios dourados e macios do cabelo da menina. Aproximou seus lábios suavemente dos dela, permitindo um primeiro contato superficial, que logo se transformou em um beijo apaixonado e cheio de desejo, saciando assim a ânsia de suas almas.
Albafica então abria os olhos e via apenas o teto branco de seu quarto, a janela estava aberta e os primeiros raios de sol da manhã invadiam o lugar sem pedir licença. Sentou-se na cama, passando as mãos pelos cabelos azuis que caiam ao rosto, escondendo seus olhos celestes. Olhava para os lados procurando Sirena, mas não havia nada, nem um vestígio da presença dela ali. Porém sua respiração estava ofegante e aquela sensação de desejo ainda dominava seu corpo completamente, seu coração batia descompassado em seu peito e jurava que podia sentir o cheiro dela grudado em sua pele. Respirava fundo enchendo seus pulmões de ar e murmurava:
─ Foi só um sonho Albafica… Só um sonho. – Apesar de aliviado havia uma ponta de tristeza nessas palavras.
Deixou que seus pés tocassem o chão gelado e se levantou olhando mais uma vez o dia que começava. Caminhou até a cômoda onde havia uma jarra com água e uma bacia. Ele encheu o recipiente maior com água e depois jogava pouco em seu rosto querendo voltar a realidade. Sentia a água fria tocar sua face e ele olhava o próprio reflexo na água tentando, achar respostas para seu sonho, mas viu que era inútil. Caminhou até o guarda roupa, olhou por alguns instantes até achar algo para vestir, o que para ele não era uma tarefa difícil, afinal não tinha tantas opções assim e logo ele já estaria com sua armadura.
Quando saiu Sirena estava sentada a mesa tomando seu desjejum, já estava vestida para ir treinar e com uma enorme rosa vermelha atrás da orelha. Os olhos de Sirena encaravam os do mestre de forma sapeca e estava radiante como o dia, além do enorme sorriso que ela tinha ao rosto. Segurava em suas mãos uma xícara de chá de menta, estava tão quente que as bochechas da menina ficavam vermelhas e o aroma da bebida tomava conta do lugar. Ela colocou a xícara sobre a mesa e falava risonha e muito animada:
─ Bom dia mestre! Improvisei o café da manhã com o que tínhamos. Depois precisamos ir a vila buscar mantimentos. Pelo visto não andou comendo direito esse tempo que estive fora. – ela colocava os cotovelos na mesa e apoiava o queixo nas mãos.
Albafica olhava o sorriso de Sirena e logo as lembranças de seu sonho tomavam sua mente, ele fechou os olhos sentindo o aroma gostoso de menta que estava no ar. Sorriu para Sirena e sentava-se a mesa junto com ela, levou sua mão a bochecha dela e apertava suavemente enquanto respondia:
─ Bom dia pequena. Você sabe que sou desatento com essas coisas. Faça como achar melhor. – Ele olhava a xícara de chá e ficava curioso, não se lembrava de Sirena tomar chá. Muito pelo contrario, sempre fazia uma careta quando tinha que tomar. Curioso ele perguntava:
─ Desde quando você toma chá?
Ela dava um largo sorriso e passando a mão pelo cabelo ajeitando uma mecha atrás da orelha.
─ Na Etiópia não tinha muitas opções para uma menina da minha idade. Mas esse é chá de menta, apesar de quente é refrescante. O senhor quer um pouco?
Ele fintava aquele sorriso e podia se perder ali, não deixou transparecer seu encantamento por aquele sorriso, fez um sinal de positivo com a cabeça esperando que ela lhe servisse o chá. Com muito cuidado ela colocava o líquido quente na xícara e entregava ao mestre, depois já colocava um pedaço de pão em um pequeno prato e deixava ao lado da xícara. Falava muito brincalhona enquanto pegava a sua xícara:
─ O senhor come muito pouco para um cavaleiro! – Ela leva à xícara a boca e deixava o líquido esverdeado e quente entrar em sua boca.
Albafica franziu a testa tentava falar com uma voz firme para ela:
─ E você come demais para uma amazona. – Deu uma risada gostosa e tomou um pouco do chá que por sinal estava ótimo.
Sirena com a xícara nas mãos respondia sorridente:
─ Eu sei mestre... Bom... Mais tarde vejo essa questão dos mantimentos. Agora pela manhã irei treinar com Sophie e Yumei. Elas são muito preguiçosas! Tenho que ficar no pé delas.
Enquanto Sirena se levantava Albafica respondia um pouco mais sério e contido:
─ Bom... Na parte da tarde vamos retomar seu treinamento. Espero você após o almoço.
Ela arrumava a bagunça dela do café da manhã enquanto respondia o mestre com a voz firme e um pouco baixa:
─ Tudo bem mestre. Mais tarde retomamos… Preciso ir. As meninas já devem estar me esperando. — Ela prendia o cabelo com uma fita vermelha em um rabo de cavalo bem alto enquanto caminhava e para finalizar colocava a rosa bem presa ao laço.
Sirena dava a volta na mesa, indo até seu mestre, um suave beijo foi depositado na testa de Albafica e saia colocando sua máscara, deixando-o sozinho. Estava radiante naquela manhã, mesmo usando vestes de treino ela tinha uma beleza divina e que ela adornava com aquela rosa presa ao cabelo. Sirena não saia de sua cabeça, seu sonho ainda o perturbava, porém o cavaleiro tentava espantar tais coisas de sua mente, pois não podia estar desejando Sirena. Ele chegava à conclusão que devia estar impressionado pelas mudanças da menina, não era mais a menininha que ele carregava nos braços, ela era uma mulher. Logo estaria acostumado e todas essas sensações passariam, foi o que ele presumiu. Tomou um pouco mais do chá e ficou perdido em seus pensamentos.
Sirena descia seu longo caminho até a arena, muitos aspirantes já treinavam a àquela hora da manhã, seus olhos percorreram toda a arena até que encontrou suas amigas escoradas em um canto conversando descontraídas. A amazona caminhou até as amigas e chegava alegre.
─ Bom dia meninas! Vamos começar com esse treino logo. – Ela ficava escorada na mureta pelo lado da arquibancada.
Sophie respondia logo, totalmente eufórica:
─ Bom dia! Quanto bom humor Sirena. Foram aqueles belos olhos azuis que a deixaram assim? – A menina colocava as mãos embaixo do queixo.
Sirena pulou para dentro da arena enquanto respondia rindo:
─ Por favor, Sophie nem começa! Vamos treinar logo que vocês duas estão muito moles isso sim! – Ela chamava as amigas com as mãos.
─ Ah amiga! Conta vai!? Como foi a noite com seu belo mestre? ─ Ela batia palmas e dava alguns pulinhos.
─ Eu no meu quarto e ele no dele ora — Sirena cruzava os braços e olhava para o lado.
Yumei então aparecia na conversa falando em um tom irônico e um tiquinho arrogante:
─ Fala logo Sirena! O que aconteceu? Essa sua cruzada de braço te entregou!
Entre elas não haviam segredos, os anos de treinamento na Etiópia fizeram delas amigas inseparáveis e conheciam muito bem uma a outra. Sirena colocava as mãos para trás e chegava perto de Yumei. Sophie se aproximava rapidamente para ouvir a conversa muito curiosa. Sirena meio acanhada dava um longo suspiro tentando achar as palavras e começava.
─ Hun… Sei lá… Acho que ele tentou me beijar ontem. – Sentiu suas bochechas pegarem fogo.
─ O que? — Sophie falava alto toda animada
─ Fala baixo Sophie! — Sirena repreendia a amiga, puxando ela pelo braço.
─ Mas beijaram ou não? -- Yumei perguntava curiosa chegando mais perto de Sirena.
─ Não! E nem sei se foi isso mesmo! Ele é meu mestre e me criou depois que fiquei órfã. Não pode acontecer esse tipo de coisa entre eu e ele! – Sirena afirmava aquilo com tanta veemência, que ela mesma quase acreditava em suas palavras.
─ Por que não? Qual o problema? — Yumei perguntava indignada
─ Ele é meu mestre Yumei! Eu não posso pensar nele assim! -- Sirena respondia angustiada.
─ Deixa de ser boba Sirena! Ele é seu mestre, não é seu pai e nem seu irmão! Se fosse eu não perderia a chance. -- Sophie falava animada.
─ Depois falamos sobre isso ok? Vamos treinar. ─ Sirena caminhava para o centro da arena enquanto se alongava.
─ Eu vou primeiro! -- Sophie dizia animada e seguindo Sirena.
Sirena parou ao ouvir as palavras da amiga e olhou as duas, mesmo com as máscaras escondendo seus rostos eram capazes de saber quais expressões faciais tinham, Sophie e Yumei já temiam a de Sirena naquele momento. Com uma voz imponente e desafiadora a amazona de Cassiopeia falou:
─ Tem certeza que vai querer treinar sozinha Sophie?
─ Você vai treinar sério Sirena? — Yumei falava com certo desanimo e caminhando lentamente para a arena.
─ Pode ter certeza que sim… Vocês duas andam com a cabeça nas nuvens! -- Sirena já ficava parada em posição de defesa.
─ Sem as rosas, por favor! Não quero passar o resto do dia na cama. -- Sophie falava desanimada também e arrastava seu corpo ao centro da arena.
As três meninas começaram a treinar, Sirena tinha mais técnica e força, devido o seu treinamento com Albafica, conseguia esquivar com certa facilidade do ataque das duas amazonas de bronze, mesmo quando elas combinavam os ataques. Vários aspirantes pararam para olhar, era realmente incrível a forma como as três treinavam. Sirena sentiu quando dois cosmos fortes se aproximavam da arquibancada e entre uma esquiva e outra viu Kardia de Escorpião e Dégel de Aquário assistindo o treino. Ela nem se incomodou continuou com seus movimentos e ataques, exigindo muito das duas meninas que a acompanhava. Dégel olhava tudo com olhos curiosos e suas mãos estavam atrás de seu corpo, enquanto Kárdia comentava alguma coisa com ele e tinha um sorriso malicioso no rosto e seus olhos em direção a arena.
Pelo meio da manhã decidiram fazer uma pausa para beber água e se refrescarem, o verão grego era quente, mas não se comparava as altas temperaturas da Etiópia, era fácil para elas treinarem forte mesmo com todo aquele calor. Sirena estava escorada em uma das paredes da arena esperando suas amigas voltarem, quando ouviu uma voz familiar chamar sua atenção.
─ Bom dia Sirena! Estou impressionado com a sua técnica. Gostaria de treinar com vocês se possível.
Sirena virou-se apenas para confirmar logo viu Regulos de Leão, não estava com sua armadura, usava roupas de treino igual dos demais aspirantes, uma túnica, calça e sandálias amarradas até o meio da panturrilha. Seus cabelos estavam arrumados de um jeito meio desleixado e os olhos vivazes do leonino encaravam Sirena. Mesmo a amazona estando de máscara Regulos pode sentir quando os olhos de Sirena foram diretos aos seus, com imponência e beleza, sua postura esguia e séria não se deixando intimidar pela presença do cavaleiro de ouro, demonstrava apenas respeito. Ele riu e falou com ares de brincadeira:
─ Você é uma cópia do Albafica. Mesmo jovem age e pensa como ele.
Quando Sirena pensou em responder algo percebeu a aproximação de Yumei e Sophie. Conhecendo as suas amigas muito bem logo notou a empolgação das meninas com o jovem cavaleiro de leão. Assim que estavam próximas a ele, cada uma grudou em um braço e o encheram de perguntas, o treinamento delas havia ido para o espaço. Em uma ultima tentativa de ter um treino Sirena falou com a voz séria:
─ Bom... Então vamos treinar juntos. Será uma honra senhor Regulos.
O cavaleiro de Leão abria um largo sorriso, tinha expressão desafiadora. Era um rapaz bonito realmente, não era por acaso que as duas amigas de Sirena estavam empolgadas com ele, mas Sirena tinha olhos apenas para a beleza de Albafica. Regulos pulou para dentro da arena, Sophie e Yumei já o cercavam. Muito alegre e gentil o leonino falava:
─ Que ótimo! Vamos começar então! E por favor, me chame de Regulos. Sou muito novo para ser chamado de senhor.
Retomaram os treinos, mas Sirena logo viu que suas amigas estavam muito mais preocupadas em se exibir para Regulos do que treinar, Sirena propositalmente acertou alguns golpes mais fortes nas amigas, para deixá-las com raiva. O cavaleiro de Leão parecia estar gostando da situação e continuava ali com as duas meninas que estavam empolgadas e sempre davam um jeito de se atrelar a ele. Achava engraçada aquela situação, não conseguia entender o porquê de tanta empolgação. Sirena então se sentou na arquibancada e ficou olhando suas amigas se exibirem e com seu pensamento longe dali. Estava tranquila, sentindo o calor do sol quando uma voz firme chamou sua atenção:
─ Mesmo sendo um Cavaleiro de Ouro Regulos age como um menino às vezes.
Sirena olhou em direção a voz, mas o sol ofuscava um pouco sua visão, o cavaleiro sentou-se de forma largada na arquibancada esticando as pernas, Sirena então pode ver melhor, um rapaz de cabelos negros e lisos, olhos cor de mel, um belo sorriso estava em seu rosto e ela podia ver os dentes brancos dele. Estava usando uma armadura de prata, que Sirena não soube identificar, ele voltou a falar:
─ Desculpe. Não me apresentei. Sou Antares de Centauro. Acho que você não se lembra muito de mim.
Sirena então o olhou tentando achar algo de familiar nas feições dele, mas não conseguia se lembrar e ficava um pouco sem graça por isso. Ela tirava seus cabelos do ombro jogando – os para trás.
─ Eu sou Sirena de Cassiopeia. Desculpe-me, mas não consigo me lembrar de você.
Ele sorria cordialmente virando seu rosto para o de Sirena, como se estive fintando os olhos atrás daquela máscara, respondia com uma voz mais amena:
─ Eu me lembro de você, pupila de Albafica de Peixes, mas já imaginava que você não se lembraria de mim. Sou pupilo de Kárdia de Escorpião. – Ele apontava para o Cavaleiro de Ouro alguns lances de acentos acima deles — Acho que a última vez que nos vimos foi quando você derrotou Cyrus antes de partimos. Lembra-se?
Sirena esforçava-se para se lembrar e lá o fundo de suas memórias lembrava-se levemente do menino de olhos cor de mel e um tanto arrogante. Muito se falava do aluno de Kárdia pelo santuário, uma vez que ele adorava se exibir, mas agora ele parecia estar um pouco diferente, mais contido. Ele e Sirena conversavam enquanto Sophie e Yumei se esbaldavam com Regulos na arena. Antares havia voltado já algum tempo e conversava com Sirena sobre as missões que já realizara e ela empolgada escutava tudo e o enchia de perguntas. Pareciam amigos de longa data e Sirena nem percebeu a hora passar, quando se deu conta tinha que voltar correndo para casa, afinal Albafica a esperava. Um pouco afoita e levando uma das mãos a testa falava:
─ Desculpa Antares preciso ir. Tenho treino com meu mestre agora à tarde e ele não gosta de atrasos.
Ela se levantava e já ia sair correndo quando o Cavaleiro de Prata segurou sua mão de forma firme e gentil a fazendo parar. Sirena lançou seu olhar a ele e ficou impressionada com a atitude, mas sentiu um leve arrepio passar por seu corpo. Ele com olhos pidões e um enorme sorriso falava:
─ Podemos conversar mais tarde? Sei lá. Falar sobre as missões, essas coisas…
A voz dele ecoou pela sua cabeça e aquela sensação logo passou, por instinto ela puxou a mão que ele segurava e respondia um pouco confusa:
─ Desculpe, mas preciso mesmo ir. Não posso prometer de encontrarmos mais tarde, não sei até que horas vou treinar.
Antares nada disse apenas sorriu para Sirena de forma doce e meiga, a amazona saia correndo em direção a Casa de Peixes, nem se lembrou de despedir-se das amigas. Sirena podia sentir o olhar de Antares a seguindo, mas nesse momento só pensava no seu atraso, Albafica não gostava quando ela se atrasava ainda mais sem motivo justo, o que era o caso. Ela corria e quando chegava à porta de cada uma das doze casas ela diminuía o ritmo e pedia licença para seus guardiões para que pudesse adentrá-las, depois voltava correr. Ela observava como todos eles eram tão diferentes uns dos outros, mas no fundo amavam e lutavam com suas vidas pela mesma Deusa.
Sirena chegou ao jardim de rosas demoníacas ofegante, subir correndo as doze casas não era uma tarefa das mais fáceis e exigiam um bom treinamento. Assim que chegou diante do jardim parou tentando encontrar ar para respirar, puxava com vontade para encher seus pulmões, então ao longe avistou seu mestre sentado de forma serena e plácida. Contemplou por um instante a visão daquele lugar que lhe fazia tão bem. Caminhou um pouco mais adentrando o lugar, para ir de encontro aquela visão divina que fazia o coração de Sirena bater mais forte só de olhar. Sentiu-se hipnotizada por ele, em sua mente podia ver-se nos braços dele, se entregando ao sentimento que carregava dentro de si. A brisa fazia os cabelos celestes do cavaleiro balançarem de forma graciosa, a jovem amazona olhava aquele rosto de feições delicadas e perfeitas, seus olhos azuis tão profundos que pareciam ver a alma dela. Ele vestia uma túnica de cor bege clara, as mangas iam até metade do braço e era um pouco aberta em cima, usava calça da mesma cor da blusa e sandálias simples aos pés. Os olhos de Sirena e Albafica se chocavam de uma maneira que ambos pareciam estar presos um ao outro.
Albafica levantou e caminhava na direção de Sirena que também caminhava lentamente até ele, era uma distância tão pequena, mas que parecia tão grande. Ela balançou a cabeça como se quisesse acordar de um sonho, levou a mão ao rosto tirando a máscara e falava um pouco sem graça:
─ Desculpa pelo atraso mestre. Eu me distraí na arena.
Ele com um tom sério, porém plácido respondia a aluna, mas por mais que quisesse ser duro com ela, não conseguia:
─ Depois conversamos sobre seu atraso. Mas que ele não se repita mais Sirena. Vamos começar seu treinamento.
─ Tudo bem mestre. -- Ela respondia e caminhava em direção ao lugar que treinavam.
Albafica sentou-se em um pequeno tronco enquanto Sirena ficava de frente para os alvos e começava sua concentração. Sirena havia dominado a técnica das rosas demoníacas muito bem e não tinha dificuldade para manipular, o cavaleiro de ouro cada vez mais aumentava a dificuldade para aumentar a precisão de Sirena. Ele a olhava no meio daquelas rosas, cada vez que Sirena se movimentava algumas pétalas iam ao ar e caiam ao redor dela, por mais que fossem movimentos de luta Sirena os fazia com suavidade, Albafica tinha a sensação que ela dançava entre as rosas. O Cavaleiro não sabia explicar, mas sentia que Sirena era a única coisa que lhe importava, sentia que precisava dela como se suas vidas fossem ligadas e suas almas fizessem parte de uma só.
Sirena quando treinava ficava concentrada, tinha uma dedicação que era exemplar, estava tão absorvida por aquilo que nem percebeu quando Albafica chegou por trás dela e suavemente segurou seu pulso. Ele estava parado atrás dela e seus corpos colados, Albafica falava próximo ao ouvido dela:
─ Seja firme Sirena, mas seja leve. Quanto mais suave o movimento que você fizer mais preciso ele será. Suas armas são rosas Sirena, lembre-se disso.
Albafica então fazia o movimento que desejava segurando as mãos de sua aluna. A amazona sentia o calor do corpo dele e a suavidade das mãos dele na suas, seus dedos se entrelaçaram com carinho. Sirena sentiu seu coração acelerar e o ar faltar ao peito, à voz dele fez o corpo de dela arrepiar e levemente estremecer. Albafica lembrou-se do toque de Sirena em seu sonho e a pele dela era realmente como ele sonhara macia como um algodão e um suave perfume de rosas exalava do corpo dela. Ele com seus braços fortes sentiu quando o corpo da jovem estremeceu e ficou todo arrepiado, ele a trouxe para mais próximo do seu peito afim de ter mais daquele contato.
Sirena virou seu rosto e fintava os olhos azuis de Albafica que agora pareciam estar fixos aos dela, a aquela distância era capaz de sentir a respiração ofegante dele. Ela passou a ponta do seu nariz levemente pela pele dele sentindo o aroma amadeirado que a mesma tinha. “Tão macia” pensava ela inebriada pelas suas sensações. Seus corpos pediam um pelo outro intensamente.
Albafica descia suas mãos até a cintura de Sirena enquanto mantinha seu olhar ao dela, suavemente ele girava o corpo da menina para que ficasse de frente para ele. As mãos de Sirena repousaram nos ombros dele entre seus fios celestes, ela podia sentir o doce perfume de lavanda que exalava dos fios e sem perceber as mãos da menina foram se arrastando ate chegar à nuca dele por onde passeavam. Albafica fechava os olhos e passava a ponta de seu nariz no dela, deixando que suas bocas quase se tocassem, o coração dele batia forte e pedia por isso como se sua própria existência dependesse do que viria depois.
Sirena fechava os olhos também e se entregava a emoção do momento, aguardando por algo que ela muito desejava sem nem saber e quando o inevitável iria acontecer Sirena abriu os olhos soltando-se dos braços de Albafica, que parecia acordar de um transe. Ambos estavam corados e sem palavras pelo que havia acabado de acontecer. Ela o olhava com lágrimas nos olhos e falava:
─ Eu não posso mestre. Desculpe-me. Desculpe-me.
Ela saia correndo em direção a casa deles. Albafica ficava ali parado sem reação, apenas levantou a mão em direção a menina como se quisesse segura-la e sussurrou seu nome:
─ Sirena…
Ele ficava ali parado se culpando pelo que havia acontecido, estava confuso e com raiva de si mesmo, havia feito Sirena chorar. Não compreendia o porquê de estar sentindo tais coisas por ela. Ele sabia que era amor, mas era um amor diferente de tudo que ele já sentiu antes. Talvez por Sirena ser a única pessoa que ele tocava estava ficando confuso com os próprios sentimentos, mas ela era sua pequena, aquela menina que ele criou, não podia amá-la como mulher. Ele pegou a máscara dela que havia ficado ao chão e ficava ali remoendo seus sentimentos.
Sirena correu para seu quarto e fechou a porta, ficou escorada na porta, ofegante, as lágrimas caiam de seu rosto. Algo parecia sufocar seu peito e cada vez ficava maior, o ar lhe faltava, fechava os olhos e podia ver ela e Albafica se beijando, tais imagens faziam Sirena suspirar e sentir uma sensação boa tomar conta do seu corpo. Mas a jovem amazona se culpava por pensar em seu mestre dessa forma, ele havia cuidado dela, era como um irmão. Foi então que as palavras de Sophie ecoaram pela cabeça da menina “Ele não é seu pai e nem seu irmão Sirena”. Ela entre as lágrimas falava baixo para si mesma:
─ Ah mestre… Eu… Eu… Eu não posso pensar no senhor assim… Por Athena.
Ela olhava pela janela e podia ver Albafica parado no meio daquelas rosas, pensativo. E de alguma maneira ela sabia que a mesma dor que ela sentia era a dor que ele sentia agora, mas nenhum dos dois sabia como curá-la ou talvez soubessem, mas não queriam aceita-la.
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