Um caminho de Rosas

4 Capítulo 4 - Aquele perfume


Notas iniciais
Seria o tempo e a distância capaz de separar o sentimento de duas pessoas? Depois de quatro longos anos de treinamento árduo chega o momento de voltar para casa.

Era uma tarde morna, o sol estava alto no céu iluminando as ruas movimentadas do pequeno vilarejo de Rodorio. O comércio era intenso e pessoas caminhavam de um lado para o outro, o barulho era alto e crianças corriam pelas ruas. Três moças andavam juntas pelas ruas do pequeno vilarejo, conversavam, riam, seriam três garotas como as outras, se não fosse pelas máscaras em seus rostos e as caixas de pandora em suas costas. Uma delas pulou na frente e andando de costas falava muito animada:

–- Nem acredito que estamos voltando para o santuário!!! Que saudade desse lugar.

Ela era baixa, tinha cabelos vermelhos longos e estavam soltos. No seu rosto havia uma máscara branca com alguns símbolos em preto. A que andava mais a direita respondia:

–- Verdade… Já faz algum tempo desde que partimos… Mas além de matar as saudades do santuário vou aproveitar para dar uma olhada nos cavaleiros. Dizem que são lindos!

Era uma menina de estatura mediana, corpo com formas bem definidas, seus cabelos lisos e negros chegavam aos ombros, seu rosto era coberto por uma máscara metade branca e metade vermelha. A garota de madeixas vermelhas respondia empolgada e dando pequenos pulos no mesmo lugar:

–- Verdade! Também quero ver se são tão bonitinhos como dizem. Aqueles homens fortes, de olhos perfeitos, gentis… Ai.. Tudo que eu sempre sonhei.

–- Dizem que os cavaleiros de ouro são muito lindos. -- a morena batia palmas enquanto falava isso.

A ruiva então abraçou o braço da amazona que estava calada e falava:

–- Então Sirena? É verdade que eles são lindos? Você treinava com um cavaleiro de ouro! Como eles são? Fala!

A bela jovem de cabelos loiros respondia séria e um pouco sem paciência pela conversa:

–- Sei lá! Eu nunca fiquei reparando se eles eram bonitos. E eu era uma menina quando sai daqui assim como vocês. Nem lembro deles mais. E da pra largar meu braço!? Não sei por que eu ainda deixo vocês pegarem em mim!

A jovem de cabelos negros falava um tanto maliciosa:

–- Ah!!! Mas tem um que você nunca esqueceu Sirena! O Cavaleiro de Peixes, que por sinal é o mais bonito de todos!

Antes mesmo que a jovem respondesse a ruiva continuou:

–- Sim! Dizem que o Cavaleiro de Peixes é o mais belo de todos! Ele é mesmo tão bonito assim Sirena?

A loira meio impaciente respondia:

–- Acho que é! Sei lá!

–- Como assim sei lá? Ele é seu mestre Sirena! E eu sei que ele foi te ver algumas vezes. Deixa de ser chata e fala! — dizia a morena um pouco irônica.

A ruiva falava:

–- Ah... Se ele for tão belo quanto dizem, eu não me importaria se ele tirasse minha máscara, só para escolher ama-lo.

Sirena com uma voz ranzinza falava:

–- Vocês duas podiam ter mais respeito? Vocês estão falando do MEU mestre! E sei lá se ele é tão bonito assim!

Ela ficou reflexiva por alguns instantes, lembrando-se daquela figura que lhe fazia tanta falta. Com um tom mais ameno e saudosista ela falava:

–- Quando eu era mais nova, eu falava que ele era um anjo. Um lindo anjo de cabelos e olhos da cor do céu…

Sirena então se perdia em seus pensamentos, lembranças daquele homem de traços tão delicados e olhos azuis profundos, cabelos que pareciam o céu, vestindo aquela armadura dourada como o sol. Ela sentiu quando seu coração bateu forte, pois depois de quatro longos anos estava de volta. A última vez que ela o viu foi há dois anos, ele estava a caminho do Egito, se viram por alguns instantes e desde então apenas cartas amenizavam um pouco a saudade, mas ainda assim parecia haver um abismo dentro de sua alma.

As três continuaram seu caminho conversando e sorrindo, as pessoas da vila as olhavam, algumas com medo, outras com respeito e outras admiradas, pois mesmo de máscara eram lindas. Sirena olhava aquele lugar e tantas lembranças vinham a sua mente, de uma época em que era muito feliz. Por mais que estivesse bem, sentia dentro de si um vazio irreparável, como se parte da sua alma faltasse, mas que talvez agora fosse preenchido.

Depois de alguns minutos de caminhada chegaram aos pés do santuário da Deusa Athena. As meninas paravam e observavam os detalhes daquele lugar, cada construção, cada pessoa, uma suave brisa tocou o corpo das três, fazendo seus cabelos balançarem. Depois dos minutos de contemplação, as três colocaram as caixas de pandora ao chão e as abriram. Dentro de cada uma estavam suas armaduras, seus cosmos se elevaram e ao comando das meninas as armaduras as vestiram. Agora podiam continuar sua caminhada até seu destino.

Elas andavam pelo santuário, olhando as arenas cheias de aspirantes treinando e ao longe avistaram as doze casas do zodíaco e mais acima o destino delas, o templo do Grande Mestre. Alguns guardas abordaram as meninas, mas logo as deixaram passar, pois eram guerreiras de Athena. Os aspirantes ficavam olhando as amazonas que andavam de forma tranquila pelo santuário, com suas armaduras refletindo o sol delicadamente. Aproveitaram a caminhada ate a casa de Aries para matar um pouco a saudade.

Assim que subiram as escadas encontraram com o Guardião da primeira Casa, Shion de Áries. Ele olhou as três meninas que se aproximavam, seus olhos estavam atentos e analisava cada uma delas, logo ele reconheceu a jovem aluna de seu amigo, trajando uma armadura prateada, com detalhes em roxo, ele nunca havia visto essa armadura antes, na cintura dela ele logo pode ver um lenço azul amarrado. As três pararam diante do imponente cavaleiro e Sirena tomou a frente se apresentando:

–- Bom dia Senhor Shion. Sou Sirena de Cassiopeia. O Grande Mestre nos aguarda. Poderíamos passar pela sua Casa?

Shion deu um leve sorriso e respondeu:

–- Como você mudou menina. Está uma bela moça. Eu vou acompanhar vocês até o Grande Mestre. Eu já aguardava por vocês, sigam-me.

Os quatro caminhavam pelo longo caminho, as amazonas que estavam falantes, na presença de Shion, apenas observavam o lugar. Sirena já estava acostumada com esse caminho, mas para as outras meninas era a primeira vez. Sirena achava engraçado a admiração de suas amigas, com certeza isso seria assunto para vários dias, escutava apenas os cochichos das amigas enquanto ela seguia ao lado de Shion.

Caminharam por algum tempo até que chegaram a frente da Casa de Peixes. Sirena parou e ficou olhando por um tempo aquele lugar. Ela olhou para a lateral da construção e logo viu o caminho que dava acesso ao jardim de rosas demoníacas e a casa de seu mestre. Sirena respirou fundo e seu coração acelerou um pouco, lembranças doces invadiram sua mente, ela suspirava e tentava achar o que tanto faltava a seu coração. A garota de cabelos vermelhos, aproximou-se de Sirena, vendo que a amiga havia ficado um pouco triste, ela colocou a mão no ombro de Sirena e falava:

–- Esse é o jardim que você tanto fala?

Sirena com uma voz melancólica respondeu:

–- É sim… O Jardim das Rosas Demoníacas. No final dele está a casa do meu mestre. — Sirena sem perceber levava as duas mãos ao coração.

–- E quando vamos conhecer a sua casa? — A ruiva falava alegre e se apoiando na amiga.

Sirena virou-se para ela e respondia séria:

–- No dia que você conseguir passar pelo jardim! — Sirena dava uma risada e voltava as suas lembranças.

Shion caminhou até ela e falou:

–- Está tudo bem Sirena?

Sirena cordialmente respondeu:

–- Sim! Claro! É que tenho tantas lembranças desse lugar… Que me distrai um pouco pensando nisso. Desculpe senhor Shion.

Ele sorriu e falou:

–- Tudo bem… Eu entendo.

Shion se aproximou da menina falando um pouco mais baixo para ela:

–- Tem alguém que está muito ansioso para vê-la. Passou a semana aqui em cima para que ninguém notasse.

Sirena nada disse apenas fez um movimento de positivo com a cabeça, mas as palavras de Shion encheram o coração da menina de alegria, seus olhos brilharam e ela pensava “Que bom que ele não se esqueceu de mim”. Durante todo esse tempo ela imaginava como seria voltar para a casa de seu mestre, como seria abraça-lo novamente e ser feliz somente por olhar nos olhos dele. Continuaram seu caminho passando pela ultima casa, Sirena podia sentir aquele perfume tão familiar e tão delicioso.

Quando chegaram à porta do templo do Grande Mestre, Shion entrou e pediu que esperassem até fossem chamadas. As meninas então ficaram ali do lado de fora aguardando quando a ruiva aproximou-se de Sirena que olhava as rosas que ficavam abaixo do templo e falou:

–- É verdade que só de sentir o perfume daquelas rosas as pessoas morrem?

–- É sim — Respondeu Sirena.

–- Então por que você não morre? — a menina falava dando uma risada.

–- Pelo mesmo motivo que eu não morri quando uma Naja me picou e minha amiga teve uma crise de pânico ao invés de me ajudar lembra? — Sirena ria, falava apontando para o tornozelo e tentando imitar os sons e os movimentos de uma cobra.

–- Você não queria que eu pegasse aquele bicho? — a menina ficava toda arrepiada só de lembrar da cena.

A amazona de cabelos negros ria e falava:

–- Com certeza foi a cena mais engraçada que eu já vi em toda a minha vida! Você pulando e gritando por causa da cobra — Assim como Sirena ela tentava imitar os movimentos de uma cobra.

–- Vocês duas são umas chatas isso sim! — dizia a menina brava com os comentários e virando o rosto.

As três meninas conversavam em um tom de deboche quando uma jovem sacerdotisa apareceu na porta. Ela usava um vestido branco em estilo grego e tinhas seus cabelos presos em um alto rabo de cavalo, em sua cabeça havia uma linda coroa de flores. Ela falava docemente para três:

–- Boa tarde amazonas! O Grande Mestre e a Deusa Athena esperam por vocês. Acompanhem-me, por favor.

As três então seguiram a jovem. Era a primeira vez que Sirena entrava na sala do Grande Mestre e seus olhos logo percorreram todo o salão. As três amazonas ficaram impressionadas com a beleza do lugar, os afrescos que decoravam as paredes e as imensas pilastras. Um tapete vermelho estava ao chão, ao fundo o Grande Mestre estava de pé ao lado de Athena. Ela era uma linda menina, de olhos doces e aparência delicada, Sirena olhava admirada para ela.

Assim que deu seu primeiro passo dentro do salão ela pode ver os doze cavaleiros de ouro, seis de cada lado formando um corredor, seus olhos rapidamente observaram os rostos de cada um até que chegaram aos olhos dele, seu querido Mestre. Sirena ficou parada, olhando para ele, mas dessa vez foi diferente. Algo havia mudado, Sirena podia sentir isso dentro de si, mas não sabia o que era, sentiu um frio correr sua espinha e seu rosto ficar vermelho.

Albafica estava próximo à porta de entrada, estava ansioso e claro morrendo de saudades da sua pequena. Sentia muito orgulho ao vê-la voltar e ainda mais como uma Amazona. Quando Sirena deu seu primeiro passo dentro do salão Albafica sentiu algo que nunca antes havia sentido, ela estava maravilhosa, linda como nunca antes, seu coração e sua alma clamavam por Sirena, queria toma-la em seus braços ali mesmo.. O Cavaleiro que esperava uma menina encontrou uma linda mulher, de formas perfeitas e harmoniosas, corpo esguio e delicado. Mesmo ela estando de mascara, ele sabia que seus olhares haviam se chocado e isso fez o coração dele disparar, sentir algo dentro de seu peito que nunca havia sentido antes. Era uma mistura de saudade e necessidade que ele não conseguia explicar.

Por mais que a vontade de Sirena fosse de dar toda a sua atenção para Albafica naquele momento não podia fazer isso. Ela voltou a olhar para frente e juntamente com suas companheiras caminhou pelo belo salão, mas sentia os olhos dele a acompanhando. Aquele frio tinha desparecido, e ela só escutava o eco abafado de suas botas ao caminhar pelo tapete, naquele momento não era mais Sirena e sim a Amazona de Cassiopeia.

As três jovens paravam diante do Grade Mestre e de Athena e ficaram ajoelhadas, com uma voz plácida Sage começou a falar:

–- Que bom vê-las de volta amazonas. Ainda mais trajando suas armaduras. Agora vocês são guerreiras de Athena.

A jovem Deusa caminhou até as meninas e docemente falava:

–- Fico feliz por vê-las amazonas. Sei que no coração de cada uma de vocês habita a bondade e a força. Agora vocês são guerreiras destinadas a lutar pelo amor e pela justiça neste mundo, nunca se esqueçam disso.

A voz de Athena era doce e todo seu cosmo emanava amor, Sirena ficou encantada com a figura daquela menina a sua frente e percebeu quando ela a olhou nos olhos e deu um lindo sorriso. Agora ela entendia o porquê de lutar por ela e pela humanidade, somente sua presença era capaz de trazer paz onde quer que esteja. Sirena contemplava a figura da bela deusa e pensava “eu lutarei pela esperança Athena, eu lutarei por você”. O Grande Mestre então ficou ao lado dela e falava:

–- Lembrem-se, estas armaduras jamais deverão ser usadas em proveito próprio, podendo ser usada somente para lutar e proteger o amor, a justiça, a paz e a própria deusa Athena encarnada neste mundo. Agora meninas se apresentem.

A menina de cabelos vermelhos então falou:

–- Sophie, amazona de bronze de Lince.

A menina de cabelos negros logo em seguida falava:

–- Yumei, amazona de bronze de Camaleão.

Sirena então falou por último:

–- Sirena, amazona de Prata de Cassiopeia.

O Grande Mestre voltou a falar:

–- Muito bem, logo passarei missões para vocês, mas tirem o dia de hoje para descansar, fizeram uma longa viajem. Estão dispensadas. Sigam com as bênçãos
de Athena.

As três responderam ao mesmo tempo:

–- Obrigada Grande Mestre. Obrigada Athena.

As três meninas caminhavam ate a saída, mas Sirena sabia que os olhos do seu mestre não pararam de olha-la um só minuto. Albafica não sabia o que pensar e notou que enquanto as meninas saiam havia mais olhos cobiçando a beleza das três. Ele pode ver os olhos de Regulos que também não saiam de Sirena um instante se quer.

As meninas então saíram do salão principal e pararam na escadaria, Sirena estava de braços cruzados e olhando para o nada enquanto ouvia Sophie falar:

–- Sirena!!! Seu mestre é lindo!!! Meu coração quase saiu pela boca quando eu o vi. — Ela dizia isso se escorando em Yumei.

–- O Cavaleiro de Leão também é lindo. Não me importaria de ficar na casa dele. — Yumei falava meio que suspirando e se abanado com as mãos.

–- Como vocês duas estão a perigo hoje. Estou até com medo de vocês. — Sirena falava colocando as mãos na cintura.

–- Sorte tem você sua rabugenta. Que vai ficar olhando aquele homem perfeito todos os dias ou quem sabe até tirar uma casquinha dele. — Sophie segurava no braço da amiga e apoiava a cabeça no ombro dela.

–- Olha o respeito Sophie! Eu te jogo lá no meio daquelas rosas! Vamos logo para o dormitório das amazonas?

Yumei com uma voz irônica falava:

–- Eu e a Sophie vamos Sirena. Você vai para a casa do seu belo mestre…

As duas riam enquanto cutucavam Sirena com a ponta dos dedos e a amazona de prata respondia com uma voz ranzinza:

–- Quem disse que eu vou para lá? Eu não sei se ele quer que eu continue com ele… Meu mestre é um homem muito ocupado!

–- Ocupado eu não sei, mas lindo ele é Sirena… Com todo o respeito. — Sophie falava entre os risos e fazendo uma cara de apaixonada.

–- Hoje vocês duas estão impossíveis viu! Vamos para o alojamento, vou ver se me arrumo por lá. — Dizia Sirena um pouco irritada.

Sirena olhava as duas que pararam de rir assim que Sirena acabou de falar e pareciam espantadas. Uma voz familiar então veio de trás de Sirena em um tom sério, mas que fez o coração dela disparar e seu corpo estremecer:

–- Achei que você ia voltar para casa Sirena. Mas se preferir ficar com suas amigas, tudo bem.

Quando Sirena se virou Albafica estava parado atrás dela, a olhando com aqueles olhos doces e amáveis. Sirena sentiu o ar lhe faltar nos pulmões e suas bochechas corarem, meio sem jeito ela falou:

–- Não quero te dar trabalho mestre. Eu…

Antes que ela terminasse de falar ele a interrompeu:

–- Você nunca me atrapalha e seu quarto está te esperando.

Sirena um pouco tímida respondia:

–- Então tudo bem mestre. Também estou morrendo de saudade daquela casa. Nos vemos mais tarde meninas.

Sophie e Yumei se olharam e a ruiva falou:

–- Então Sirena… Mais tarde nos encontramos. — Os olhos de Sophie estavam vidrados em Albafica e a menina tentava esconder isso, as palavras saíram com alguma dificuldade.

Yumei puxava Sophie pelo braço que parecia não querer ir embora, ela arrastava a amiga pelas escadas que toda hora olhava para trás. Albafica olhava Sirena todo o tempo e parecia maravilhado com o que via, nem prestou muita atenção nas outras meninas. Um tanto impressionado ele falava:

–- Como você cresceu pequena. Está uma menina linda… Ou melhor, uma mulher linda.

Sirena ficava sem graça e respondia acanhada:

–- Obrigada mestre. O senhor também mudou.

Ele estendia a mão para Sirena e falava gentilmente:

–- Vamos então?

A menina segurou a mão do cavaleiro, que era quente e macia como ela se lembrava, ela olhou em seus olhos mais uma vez e deixou que ele a guiasse. Andaram por alguns minutos em silêncio, ambos tinham muito que falar, mas parece que as palavras haviam sumido. Albafica sentia seu coração bater forte e estava louco para abraçar aquela menina que tinha o poder de fazê-lo sorrir. Sirena olhava admirada. Seu mestre não parecia um anjo, com certeza ele era um anjo, o coração dela batia forte ao vê-lo e sentia suas bochechas coradas.

Estavam quase em casa, quando passaram pelo jardim de rosas demoníacas. Sirena soltou a mão de Albafica e foi correndo para o meio das rosas, ela parou, tirou a máscara de seu rosto e respirava fundo querendo sentir o doce perfume daquele lugar. Por um instante ele tentou segura-la, esquecendo-se que as rosas eram inofensivas para ela. Ele a observava de braços abertos, no meio daquelas rosas, ela girava e corria como quando era uma menininha, depois caiu deitada de costas no meio das rosas.

Albafica ria de Sirena, mas vê-la ali novamente era reconfortante para ele. Esses anos longe dela foram um verdadeiro castigo para ele. Não ouve uma só noite ou um só dia que ele não pensasse nela. Lia as cartas e tentava sentir o doce perfume dela. Ele caminhou até ela e ficava a olhando deitada entre as rosas, era a coisa mais bela que podia existir, lembrou-se de quando a achou nesse mesmo jardim deitada. Albafica sentia algo dentro de si que ele não sabia explicar, seu coração batia rápido, suas mãos estavam frias, ele então falou:

–- Vamos pequena, quero que veja seu quarto.

Ele estendia a mão para ela, que segurou forte, Albafica a puxou para ajuda-la a levantar, mas Sirena, quando ficou em pé, se desequilibrou e o cavaleiro a segurou. Sirena sentiu os braços dele ao redor de sua cintura e seu corpo colado ao dele, o toque da pele dele fez Sirena se arrepiar e Albafica sentiu as mãos ficarem frias e um leve calafrio percorreu por sua coluna. Seus rostos estavam a poucos centímetros um do outro, sentiam a respiração forte e ofegante de ambos e seus olhares se encontraram. Podiam ver suas almas naquele momento e até toca-las se quisessem, Albafica fintava os olhos de Sirena, querendo que aquilo durasse para sempre e Sirena se entregava ao olhar dele por completo. Podiam sentir suas almas se desejando e seus corações batendo forte. Albafica então levou sua mão ao rosto dela e Sirena apenas se entregou aquilo esperando o que vinha depois, naquele momento ela desejava algo a mais, mesmo não sabendo o que era, mas logo na cabeça do cavaleiro veio a imagem da sua pequena menina e ele parou o que estava preste a fazer, olhando para baixo para não ter que fintar os olhos de Sirena e perguntava:

–- Está tudo bem pequena?

Sirena um pouco vermelha respondeu:

–- Sim… Esta sim mestre.

–- Então vamos. — Dizia ele soltando Sirena.

Ele dava um sorriso para ela, mas Sirena podia notar que as bochechas dele estavam levemente coradas. Ele segurou a mão da menina e saiu a puxando pelo meio das rosas, pareciam duas crianças no meio daquele lugar. Sirena por sua vez sentia-se feliz de estar naquele lugar e o acompanhava, segurando forte a mão dele, pois sentiu tanta falta disso nesses anos que se passaram. Ela queria matar a saudade, queria deitar na cama para ele brincar com seus cabelos, queria abraça-lo como fazia antigamente.

Chegaram a simples casa, tudo estava como Sirena se lembrava, Albafica havia mantido todos os detalhes e o delicioso perfume das rosas estava por todo o lugar. Ele caminhou até a porta do quarto de Sirena, suavemente ele abriu a porta e disse um pouco tímido:

–- Espero que você goste.

Sirena deu alguns passos até chegar a porta e quando olhou dentro do quarto, seus olhos não acreditavam no que viam. Albafica tinha arrumado tudo como ela deixou, cada detalhe, o mesmo lençol, a mesma cama, parecia que ela nunca tinha saído dali. Por todo quarto havia lindos ramalhetes de rosas vermelhas e ele havia espalhado pétalas de rosas por todo o quarto, uma brisa entrava pela janela e fazia as brancas cortinas tremularem. Assim que Sirena olhou em direção ao guarda roupa, havia um delicado lenço de cor azul pendurado na porta, ela não sabia que tecido era, mas muito delicado e nas pontas duas lindas rosas bordadas junto com o nome da menina. Ela entrou e ficou olhando tudo aquilo maravilhada, pegou o lenço nas mãos e olhava como se fosse uma joia. Sirena caminhou até a cama e quando se sentou notou que havia um pequeno envelope com o nome dela em cima do travesseiro, a letra ela logo viu que era a do seu mestre. Ela o olhou um pouco ansiosa e sorriu gentilmente para ele, abriu o envelope querendo ler o que tinha escrito. Não era muita coisa, ele apenas havia escrito “Bem vinda ao lar minha pequena, senti muito a sua falta. Com carinho Albafica”.

O cavaleiro ficava parado na porta, apenas observando cuidadosamente as reações de Sirena, cada passo, cada olhar. Ela ficava ainda mais bonita quando sorria e ele não conseguia tirar os olhos dela. Mas estava preocupado, afinal não sabia se ela ia gostar de tudo que ele havia preparado para ela. Não demonstrava, mas estava impaciente, ficou escorado ao batente da porta olhando a menina que nada falava, apenas olhava tudo.

Sirena ficou alguns segundos com o papel nas mãos e então as lágrimas caíram de seu rosto. A jovem se levantou e foi em direção ao cavaleiro, ela o olhou por alguns segundos e então o abraçou, tentando saciar a vontade de sentir os braços dele. Ele por sua vez envolveu a jovem em seus braços, precisava sentir os braços dela, somente assim seu coração ficaria calmo. E como foi bom sentir Sirena ali novamente, o cavaleiro passava a mãos pelos cabelos macios e dourados dela sentindo o perfume, Albafica a abraçava ainda mais apertando como se não quisesse que ela nunca mais saísse dali.

Ela falava com a voz chorosa:

–- Eu senti tanto a sua falta mestre!

Ele tentando acalmar a menina falava:

–- Eu também minha pequena. Senti muito a sua falta.

Ele se afastava um pouco para que pudesse olhar nos olhos dela, aqueles olhos verdes tão profundos. Albafica limpava as lágrimas do rosto de Sirena com uma das mãos, passando seus dedos suavemente. A pele dela era tão macia e quente, os dedos dele percorriam toda a face dela como se quisesse conhecer cada detalhe. Os dois se olharam mais uma vez e Albafica sentia seu coração acelerar e algo dentro do seu peito gritar por Sirena, ele ficou ali por alguns minutos apenas contemplando os olhos da jovem. Piscou os olhos como se tentasse acordar e com sua voz suave falou para Sirena:

–- Descanse agora pequena, temos tempo para conversar depois.

Ele deu suave beijo na testa da menina que sorriu para ele docemente, Sirena foi para seu quarto descansar, enquanto Albafica foi para o jardim, precisava pensar naquele momento. Sua mente estava confusa e ele tinha noção do que quase fez no jardim, porém não entendia o porquê, aquilo deixava o cavaleiro confuso e agitado.

Albafica ficou parado diante do majestoso jardim, em sua mente aquela cena que a pouco havia acontecido ali não parava de se repetir. Ele fechava os olhos e podia ver o rosto dela próximo ao dele, aqueles olhos verdes, a respiração dela um pouco ofegante. O cavaleiro abria os olhos e tentava tirar aquilo de sua mente, precisava tirar aquilo de sua mente. Mas no fundo ele sabia que o que mais queria era ter tocado os lábios de Sirena. Mais uma vez ele se repreendeu dessa vez falando para si mesmo:

–- O que é isso que eu estou sentindo? Eu não posso pensar nela assim. Não posso.

Ele pegava um rosa e olhava divagando enquanto falava:

–- O que houve pequena? Você voltou tão diferente. Mas continua sendo a minha pequena. Eu não posso desejar você.

Albafica ficava ali, perdido no que ele mesmo sentia, com uma chama consumindo seu peito. Ele queria abraça-la, cuidar dela, fazê-la feliz, mas não como antes. De alguma forma seus olhos não queriam mais enxerga-la como aquela menina de antes, queria ver apenas a bela mulher que ela havia se tornado e que fazia seu coração bater mais forte. Porém o cavaleiro tentava a todo custo sufocar esse sentimento, pois acreditava que tal sentimento era proibido, mas até quando ele conseguiria negar o que estava sentindo?

Sirena ficava em seu quarto, sentindo a doce fragrância das rosas e segurando o lenço que ele deu de presente a ela. Sua mente então voltava aos minutos atrás no jardim, na sensação do toque dele em seu rosto e aquele olhar tão profundo. “Será que ele ia me beijar?” ela pensava e um sorriso aparecia em sua face e ela suavemente passava os dedos nos próprios lábios e depois na sua testa onde ele havia beijado. Mas logo seu sorriso se foi, pois Sirena se condenava pelo que estava sentindo. Ele era seu mestre, cuidou dela como se fosse sua irmã mais nova, não podia ter tais pensamentos com ele. Seus olhos então foram em direção ao jardim e ao longe viu a figura dele parado entre as rosas. Ela falava para ela mesma:

–- Será que é realmente errado? O que eu faço?

E ambos compartilhavam da mesma dúvida e tentavam negar o que sentiam um pelo outro. Porém o sentimento e os laços que os uniam eram bem maiores do que eles mesmos podiam imaginar, pois o destino de ambos já havia sido traçado.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo! Obrigada a todos que acompanham.