Um ano de escolhas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Júlio César Albuquerque Ramos era um garoto que estava muito distante dos estereótipos de um canceriano comum. O jovem rapaz com nome de imperador não era nem um pouco apegado à sua família — muito menos pensava em constituir uma — e nunca havia se apaixonado por ninguém em nenhum momento sequer da sua curta existência no mundo.
Talvez por ter sempre pessoas dizendo o que ele deve ou não fazer, Júlio César não adquiriu nenhuma paixão ao longo da vida. Ao invés de agir como um “adolescente normal” e rebelar-se contra tudo e todos enquanto faz uma viagem psicodélica para encontrar a si mesmo, Júlio apenas dançava conforme a música, agindo com indiferença com tudo que acontece em sua vida — direta ou indiretamente.
Bom, Júlio não se importava muito em ter os outros fazendo escolhas por si — isso lhe poupava de pensar e geralmente o isentava das consequências —, mas o rapaz começou a achar que a sua mãe estava indo longe demais quando começou a espalhar para todos que ele estava com depressão.
— Mãe, você tá louca? — Júlio disse segurando seu celular com a tela aberta em uma conversa com o seu pai, que perguntava para ele se já havia tentado se matar. — Como você fica falando pra todo mundo que eu estou com depressão sendo que nem psicólogo eu frequento?
— Oh, meu filho, eu sei! Coisa de mãe, sabe?! Vejo pelo seu rostinho triste que desde que a sua irmã foi para o exterior, você só vive no seu quarto, mexendo no computador.
A única irmã de Júlio, Joana Darc, foi para Portugal estudar Engenharia da Computação. Ela é apenas um ano mais velha que ele e, fisicamente, a versão mais nova da mãe deles. Por não lidar muito bem com o jeito fútil de Helena, Joana vive colorindo seu cabelo, desejando que seus fios nasçam ruivos naturalmente.
— Mãe, eu sempre fico no meu quarto! — Júlio afirmou isso com escárnio. Para ele, suas palavras formam um argumento irrefutável e uma informação óbvia demais. — Eu sempre fico no computador porque eu vivo jogando. Quando me canso, leio alguma mangá, assisto algum filme ou seriado… às vezes simplesmente ouço música. Não há nada de depressivo nisso.
— Querido, eu sei que você é muito apegado a sua irmã e ficar longe dela é triste. Sei também que isso pode desencadear emoções ruins que você pode canalizar de uma maneira destrutiva. Que tal usar sua energia para se aproximar de mim e sermos amigos? Não quero ser apenas sua mãe, quero ser também sua amiga.
Júlio bufou. O jeito como Helena ignorava completamente o que ele dizia— como se ela não o escutasse — estressava-o muito, mas ele sempre deixa pra lá. Agindo da mesma forma da sua progenitora, Júlio bloqueou o celular, virou as costas para Helena e trancou-se no quarto, voltando para concentrar-se no jogo online em seu computador.
A cabeça de Helena era uma coisa complicada. Para Joana, ela não passa de uma burguesa fútil e frustrada. Por outro lado, Júlio nunca se interessou em adjetivar a mãe dele. Ele acreditava que sua mãe era apenas uma mulher excêntrica que quer viver como a mãe de uma patricinha de filme adolescente da década de 1990.
O que realmente passava na cabeça dela era mais uma maneira de extorquir dinheiro do seu ex-marido e pais de seus filhos: André Raimundo Ramos.
A ideia original era fazê-lo gastar com terapia para o filho, mas graças a um comercial de feira de intercâmbio que ela assistiu em um canal de televisão, Helena estava articulando um plano para fazer com que André Raimundo gastasse o que tinha e o que não tinha com um intercâmbio para Júlio César — ou com algo que não fosse a nova esposa de André, que era dez anos mais jovem que ela.
Duas semanas depois, Júlio parou em uma agência de intercâmbio. Mesmo explicando para o pai que não estava com depressão e que sua mãe era maluca, Júlio estava sentado na frente de um vendedor de sorriso falso. O jovem observava o funcionário da agência folhear e explicar para a sua mãe os benefícios e exclusividades de cada destino, como se viajar para outro país fosse uma oportunidade única.
Para muitas pessoas realmente é, mas não para ele.
A cena na agência de intercâmbio ilustrava muito bem como era a sua vida inteira — todos os seus dias, sem exceção de nenhum. Ele apenas observava sua mãe fazer as escolhas por ele, enquanto seu pai — que é naturalmente reservado — acompanha tudo em silêncio, assim como o filho. A única diferença entre os dois era nos papéis que exerciam na vida de Júlio César. O filho encarna forçadamente o papel de protagonista de sua própria história, enquanto seu pai está apenas o auxiliando — financeiramente, apenas assim.
As diferenças acabavam ali mesmo. Assim como o filho, André era negro — com o tom de pele levemente mais escuro —, os cabelos cacheados nunca tinham muita vida e eram podados por um barbeiro quase semanalmente, possui olhos castanhos claros e bastante pelos pretos pelo corpo.
Como espectadores experientes, pai e filho observaram Helena começar sua atuação de “boa mãe”.
— Júlio, meu filho, você gostou de algum país em especial? — seu tom de voz era lírico. — Algo me diz que você está louco para conhecer o Canadá.
— Por que a gente só não pega essas revistas e eu decido isso em casa? — Júlio tenta.
— O Reino Unido pode ser uma boa opção! — André comenta, sem ser chamado. — Ficar perto da irmã pode deixá-lo mais animado. As viagens dentro da Europa são baratas, você pode se encontrar com sua irmã todo fim de semana.
Seu filho o encara dizendo telepaticamente: “Você está do lado de quem?”, embora não tenha fortes laços afetivos com o pai.
— Não vou decidir isso agora — Júlio César afirmou com firmeza, o que era estranho vindo dele. — Escolher qual país fazer intercâmbio não é uma coisa simples como decidir o que comer na praça de alimentação do shopping.
O adolescente agradecia mentalmente por estarem em uma sala privada, pois não suportava chamar a atenção. Júlio esperava que seu pai fosse sensato e não escutasse as lorotas de sua mãe, mas ele não devia esperar atitudes sensatas de seu pai — que era tão covarde quando o assunto era se impor.
— Me dê todas as revistas dos países com escola de inglês, por favor — ordenou Helena. — Não esquece aquela ali da Austrália e Nova Zelândia, porque eu amei — apontou para uma revista pendurada na prateleira atrás do vendedor, em uma posição de destaque.
Apesar de ter nascido em uma família abastada e ser bem elitista, Helena nunca foi boa com idiomas e era quase uma caipira, pois foram poucas as vezes que saiu do Brasil. A única coisa que a paranaense sabia sobre Austrália e Nova Zelândia eram países com um custo de vida elevado e fazer intercâmbio para qualquer um dos dois significava uma coisa: caro.
E quanto mais o seu ex-marido gastava dinheiro com os filhos, melhor pra ela.
— Podemos só ir embora logo? — Júlio bufou.
Helena agradece muito falsamente o agente e promete voltar para acertarem o pacote. Eles trocam de telefone para garantir seu compromisso. A mãe de Júlio César queria transmitir que tinha poder e condição financeira o tempo inteiro, então não comprar algo na mesma hora que ela queira a deixa incomodada, como se não tivesse dinheiro gastar — mesmo tendo.
Júlio pega todas as revistas e André resolve ajudar, tomando quase todas para si e levando para o seu carro. Eles percorrem o caminho sozinhos, pois Helena se despede logo após saírem da agência de intercâmbio avisando que tinha hora no salão.
André leva seu filho para o apartamento que Júlio mora com a mãe. O percurso até sua casa é constrangedor, dominado pelo silêncio. Apesar de gostar da calmaria, Júlio César se incomodava quando estava sozinho com alguém pois sentia-se obrigado a interagir com a outra pessoa.
As únicas palavras que André pronunciou no carro foram um aviso de que ele poderia conectar seu celular no carro para ouvir música e um pedido de que ele não escolhesse um destino muito caro pois estava economizando para fazer uma viagem com sua nova esposa para Cancún.
Apesar de não se sentir incomodado com a indiferença dos seus pais — pois a indiferença era recíproca —, Júlio César sentia-se chateado com as interações robóticas de seu pai pois o fazia ter certeza de que isso era falta de amor.
Assim que André estacionou em frente ao condomínio em que morava, Júlio abriu a porta do carro e pegou todas as revistas e levou-as para casa em seus finos braços. Despediu-se de seu pai sem expressar emoção alguma e decidiu esquecer suas frustrações. Afinal, ele devia ser grato por ser rico e ter tudo de mão beijada, não é?
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