Ter lido e relido todas as revistas sobre outros países durante a semana fez Júlio César odiar qualquer coisa que envolvesse palavras. Livros, panfletos, filmes legendados. Tudo. Ele só queria descansar os olhos, se esconder em quarto escuro e dormir por dois meses inteiros. Júlio dedicou a semana inteira em coisas relacionadas a ideia de intercâmbio, mesmo não tendo concordado com nada ainda. Uma pequena parte de sua mente estava analisando se era uma boa hora de deixar de ser um “bom menino” e dizer “não” para as loucuras de sua progenitora.

Quando o sábado chegou, Júlio César demorou mais que o normal para despertar. Estava exausto. Para sorte dele, suas aulas de inglês começavam apenas às nove horas da manhã — diferente do seu colégio, que começavam às sete e meia. Júlio já era fluente em inglês, mas todos os sábados frequentava aulas de conversação para não perder a fluência. Viajar para um outro país e viver um intercâmbio parecia uma ideia óbvia demais pela sua condição financeira, mas Júlio tem medo de altura.

O rapaz viajou de avião apenas uma vez. O destino foi Natal. Seus pais ainda eram casados e ele tinha apenas 9 anos. A família Albuquerque Ramos passou o Carnaval em um resort em Natal e a viagem que devia ser relaxante, virou uma dor de cabeça quando o filho mais novo da família teve uma crise de pânico no primeiro voo de volta. Júlio chorou tanto no Aeroporto de Fortaleza, pedindo para que não subisse mais em avião nenhum em sua vida para os seus pais. Helena tentou acalmá-lo, dizendo que seria só mais uma hora de voo, mas não teve quem fizesse o caçula querer entrar no avião.

André enxergou bem o pavor estampado na cara do filho. O militar alugou um automóvel e voltou com o filho para São Luís de carro, enfrentando trinta horas de estrada — contando as pausas para comer e abastecer, além do descanso de algumas horas em um hotel de beira de estrada. Durante toda a viagem, André e Júlio conversavam bastante, com o pai sempre tentando acalmar o filho, que se sentiu culpado por “estragar o feriado dos pais”.

Helena ficou uma fera. Ela brigou muito com Júlio quando eles chegaram em casa, chamando-o de mimado e dizendo que ele a fez passar “a maior vergonha de sua vida”. Joana o defendeu — mais por gostar de desafiar a mãe do que pelo irmão, mas o defendeu. André e a esposa brigaram mais algumas vezes por causa de Júlio César — que teve que frequentar um psicólogo para tentar se curar do seu trauma por muitos meses, mas o rapaz nunca quis realmente superá-lo.

Ele só queria ter seus pés no chão. Firme.

Nas manhãs de sábado, a turma de “Inglês: Pós-Avançado/Conversação” da unidade Calhau do American King possui apenas cinco integrantes. Além de Júlio César, fazem parte da turma: Caitlyn, 17 anos, aspirante a jornalista e cantora; Sônia, 19 anos, escritora de fanfictions e estudante de Publicidade e Propaganda; Diego, 20 anos, mulherengo, estudante de Arquitetura e Urbanismo e garçom nos fins de semana; Luiz, 22 anos, homem trans e estudante de Ciência da Computação.

Apesar de morarem em bairros próximos e ter a condição financeira familiar semelhante, nenhuma dessas cinco pessoas se conhecia antes do American King. Luiz e Caitlyn eram os únicos que cultivavam uma relação fora da sala de aula — mas se conheceram no curso. Fora os dois, todos se viam apenas uma vez por semana, durante duas horas, onde contavam de suas vidas um para os outros em outro idioma.

Eles podiam inventar histórias e situações. A única regra era conversar em inglês.

Mesmo podendo criar uma narrativa interessante, Júlio César não mentia sobre nada — isso quando partilhava algo. Ele era o mais quieto da classe e o seu silêncio sempre fazia com que “Mr. Santos” (professor da turma) dedicasse uma atenção especial ao jovem com nome de imperador romano. Apesar do esforço de seu mestre, Júlio não se preocupava em demonstrar riqueza de vocabulário e suas respostas se resumiam em dizer “Passei o dia jogando videogame!” ou “Assisti a meu seriado favorito de novo! É triste que ele tenha sido cancelado!” em inglês.

Na hora do intervalo, Júlio César leu uma mensagem recebida no Green Chat. Era sua mãe dizendo que ele deveria almoçar em um shopping ou na casa do pai pois ela passaria o dia fora. Júlio bufou, pois almoçar na casa do pai estava fora de cogitação — restando apenas uma opção para almoçar: um dos dois shoppings próximos ao American King do Calhau.

A priori, Júlio César iria tomar sua decisão baseada no preço do táxi entre ambos, mas acabou escutando seus colegas comentando que iriam almoçar em um dos shoppings pois iriam comprar alguns adereços para suas fantasias de Carnaval. Todo fim de semana de Janeiro estava tendo programação de pré-carnaval no Centro Histórico de São Luís e aparentemente Júlio era o único que não sabia disso.

— Posso ir almoçar com vocês também? — acabou perguntando por impulso. Júlio fez um esforço hercúleo para o arrependimento dele não transparecer em seu rosto.

— Claro que pode, Júlio! — Caitlyn respondeu com um sorriso sincero. — Que pergunta boba!

— Ai, meu Deus! Júlio está saindo com a gente! — Sônia disse dramaticamente, com a palma das mãos coladas no rosto.

— Você não quer ir para a Beira-Mar conosco? Vai ser legal! — Luiz perguntou, corado.

Todos os quatro pares de olhos estavam encarando Júlio César, que segurou uma mão na outra, negando com a cabeça. O rosto pardo ameaçando ruborizar.

— Não gosto de Carnaval, gente! — foi sincero. — E a última coisa que eu quero hoje é estar na rua escutando músicas que não curto ouvir. Vocês já viram a previsão do tempo? Vai chover muito! — brincou.

Os colegas de Júlio César sorriram e começaram a conversar sobre os filmes que estavam em cartaz nos cinemas da cidade antes do sinal sonoro anunciando o fim do intervalo tocasse.

Ter pego um ônibus parecia ser a coisa mais anormal do mundo para Júlio César. Assim que entrou, não sabia nem o valor da passagem e nem para quem entregar o dinheiro — visto que as empresas de ônibus estavam extinguindo a existência dos cobradores. O próprio não sabia recordar se já havia pego ônibus urbano uma vez sequer em sua vida.

Como eram cinco, ir em só táxi era uma missão impossível. Júlio deixou claro que poderia pagar por um táxi e ir sozinho, mas seus colegas insistiram que seria melhor ir de ônibus, já que eles teriam mais tempo para conversar.

— Vai ser divertido! — Luiz prometeu, entusiasmado.

Depois de terem que pegar dois ônibus, todos chegaram no shopping esfomeados, subindo direto para a praça de alimentação e entrando na fila de um restaurante self-service. Durante a refeição, Júlio foi o centro das atenções. Foi difícil para o jovem lidar com o interesse dos colegas em sua vida. Ele sentia-se com um recém-chegado em outro planeta, sendo questionado sobre seu estilo de vida.

No começo da conversa, tudo ocorreu tranquilo. Júlio César falou sobre Legendary Warriors — seu jogo favorito —, como era ter pais divorciados e se estava com saudades de sua irmã. Ele foi sincero com tudo, disse que já estava acostumado com o distanciamento da mãe e pai dele e que sentia muita falta da irmã, mas o que eles quase não conversavam porque Joana estava totalmente concentrada em viver tudo o que a Europa pode oferecer.

— E você não pensa em visitá-la? Eu daria tudo para passar as férias na Europa — comentou Caitlyn. — A única vez que saí do Brasil foi nos meus 15 anos, pra Disney.

— Bom… Minha mãe quer que eu faça intercâmbio e mesmo não concordando com isso, eu sei que no fim do ano vou estar embarcando para ir para outro país.

Luiz e Caitlyn deram gritinhos de entusiasmo. O resto da refeição teve a conversa toda focada no tema “Intercâmbio de Júlio César”. Todos queriam saber para onde iria, iam dando palpites. Diego, que havia feito uma eurotrip no final do ano passado, contou com euforia sobre os jogos do campeonato inglês que ele havia assistido quando passou pelo Reino Unido.

Quando a refeição acabou, Júlio César acompanhou seus colegas para as compras de fantasias e adereços para o Carnaval e acabou sendo convencido a experimentar algumas — o que resultou em eles indo a pé para a casa de Caitlyn, que mora em um condomínio ao lado do shopping.

Normalmente, Júlio jamais sairia de casa para ir em um bloco de Carnaval — ainda mais na rua —, mas enquanto negava o convite de seus colegas, acabou lembrando das revistas e anotações sobre intercâmbio empilhadas na sua mesa de estudo e decidiu aceitar a oferta dos amigos. Estar no se quarto e olhar aqueles papéis era a última coisa que Júlio César queria fazer no momento.

E lá dentro do seu inconsciente, ele pensou que seria bom estar um pouco longe da sua mãe também.

Marcos e Reinaldo são melhores amigos, próximos desde a infância. Eles moravam no mesmo condomínio e estudavam na mesma escola durante toda educação infantil e ensino fundamental. Depois disso, Reinaldo fez intercâmbio e foi estudar no Canadá — depois na França — e Marcos mudou de escola também.

Por ser muito popular, Marcos não sentia tanta falta de Reinaldo no dia-a-dia, pois estava cercado de colegas e paqueras, mas quando precisava de um ombro amigo, era no amigo quase gringo que ele se refugiava. Felizmente, para Marcos, os pais de Reinaldo resolveram lembrar que tinham um filho para cuidar o trouxeram para o Brasil para terminar seus estudos.

Fazia apenas dois dias que Reinaldo havia chegado da Europa e ele passou mais da metade das últimas quarenta e oito horas dormindo. Estava exausto. Ao raiar do sol no sábado, Reinaldo estava descansado e resolveu ir ao bloco de Carnaval junto com seu melhor amigo — e junto dos outros colegas dele. Reinaldo iria finalmente conhecê-los.

Assim que chegaram na Avenida Beira-Mar, Marcos não teve dificuldade em encontrar seus colegas de escola. Eles estavam próximos ao palco principal, segurando latinhas de cerveja na mão — mesmo sem ter idade legal para beber.

— Reinaldo, esses são meus colegas: Ivo, Dante e Henrique — os apresentou. — Rapaziada, esse é o meu melhor amigo que tava no exterior pegando todas as gatinhas do mundo, Reinaldo.

— Nome de velho! — Dante comentou rindo, acompanhado de Ivo e Henrique.

Reinaldo estava revirando os olhos por dentro, mas decidiu que, por fora, deveria sorrir e apertar a mão de cada um dos três colegas babacas de Marcos. Durante o começo da tarde, Reinaldo teve que aturar Dante e seus lacaios — Reinaldo havia percebido quem era o manda-chuva do trio — flertar (e até assediar) algumas meninas, enquanto Marcos estava visivelmente constrangido tentando fazer seus colegas parecerem menos babacas do que eram.

Ele não conseguiu.

Os garotos só deixaram de falar de garotas quando se espantaram com algo que não esperavam: Júlio César estava ali. Com exceção de Reinaldo, todos os meninos estavam espantados de encontrar o tímido e calado Júlio César — da mesma escola que a deles — em um bloco de Carnaval fantasiado.

Quando olhou na direção que Marcos e os amigos babacas dele, Reinaldo encontrou um garoto negro de pele clara sorrindo com um grupo de amigos. Ele usava uma tiara de orelhas de coelho na cabeça e estava de perfil, não notando que era tema da conversa de uma roda de garotos bem próxima a ele.

Não tendo visto seus colegas de classe — nem escutado os comentários nojentos a seu respeito —, Júlio César sorria nervoso ali no meio de tanta gente. Ele só conseguia pensar no quão caro era o seu celular e em como nada podia dar errado, pois ele não pretendia contar para a sua mãe sua “aventura”.

Enquanto o bloco seguiu caminho, Júlio estava alheio ao seu redor, focando apenas em se divertir com os seus colegas. Aos poucos, ele foi se soltando mais e dançando várias marchinhas — com a ajuda de Diego e de umas doses de álcool.

No início da noite, eles terminaram em um bar na Rua Portugal chamado Gota D’Água. Tocou uma música internacional bem popular no bar. Júlio e seus colegas do inglês berraram sem muita afinação a letra e ao acabar a canção e começar um hit brasileiro atemporal, Júlio sentiu uma mão em seu ombro e virou-se, encontrando um par de olhos castanhos conhecidos por ele.

O dono deles era Marcos Antônio Freitas Barbosa.

— E aí, Júlio? Curtindo o Carnaval? — perguntou, coçando a nuca. — Não sabia que você curtia vir a bloquinhos também. Se eu soubesse, teria te chamado pro sábado passado. Estou com os meninos lá da sala — e apontou para Ivo, Dante, Henrique e um garoto que Júlio não conhecia.

Não, Marcos não teria o chamado. A realidade era que eles não eram próximo de Júlio e nem queria estar conversando com ele naquele momento, mas seus colegas estavam insistindo para se fazerem presentes para o canceriano. A ideia era deixá-lo envergonhado dando um aviso indireto de: “Eu vi o que você fez hoje!”.

Marcos estava tímido — pois não queria estar ali fazendo papel de babaca — e como estava visivelmente envergonhado, os colegas de inglês de Júlio estavam começando a achar que ele estava tentando flertar com o amigo e acharam fofo.

— Vim por acaso! — Júlio comentou, depois de se recuperar do choque. — Estou com meus amigos do inglês.

— Posso ficar aqui um pouco com vocês?

Ao ouvir aquela pergunta saindo da boca de Marcos, Júlio fez um esforço hercúleo para não demonstrar seu desconforto. O único dos garotos que não era conhecido por Júlio também se juntou a eles, deixando Ivo, Dante e Henrique sozinhos em pé em sua própria roda.

— Gente, esse é o Reinaldo, meu melhor amigo! — Marcos o apresentou (depois de se apresentar também). — Somos amigos desde a infância, mas esse carinha ficou uns anos fora do país.

Reinaldo sorriu. As bochechas pálidas ficaram ruborizadas. Todos se apresentaram — Júlio ficando por último. Foi Marcos que apresentou os dois, referindo-se a Júlio César como um colega de classe para Reinaldo — o que foi totalmente desnecessário, já que Reinaldo escutou comentários estúpidos a tarde toda vindo dos colegas de seu amigo.

— Seu amigo disse que você morou fora do país — Caitlyn lembrou. — Onde você morou?

— Eu fiz intercâmbio pro Canadá, fiquei lá por um ano e depois passei um ano na França, em outro intercâmbio.

— O Júlio também vai fazer intercâmbio — Luiz soltou.

— Vai? — indagou Reinaldo, virando-se para ele. — Pra onde?

Antes de pensar no que responder, o celular de Júlio César brilha em cima da mesa. É uma ligação de sua mãe, que pergunta nervosa onde o filho está assim que ele atende. Júlio mente dizendo que está no condomínio de Caitlyn, em um churrasco de família que ele havia ficado depois de fazerem juntos um trabalho de inglês. Helena não gosta do que ouve e pede para que o filho retorne logo pra casa.

— Desculpa, galera, tenho que ir!

Júlio se despediu rápido de todos, pegou a mochila dele e andou sozinho em direção a Praça Benedito Leite na esperança de achar um táxi para poder chegar em casa o mais rápido possível.