TRÊS ANOS DEPOIS, DE NOVO.
Seattle, 6h32 a.m, 05/02

Hoje era quarta-feira, e eu estava à caminho da escola, pois o ônibus que eu pego só vai até a parada, e não faz mal andar um quarteirão.
Senti uma presença por trás de mim, e resolvi olhar. Era apenas aquela garota, Lily, que conheci ontem. Ela dançava conforme a música, que ecoava em seus ouvidos, com ajuda do fone.
De olhos fechados, dava pequenos saltos no ar. Usava uma calça jeans apertada, e um suéter rosa. Ela era bonita. Sim, era.
E então ela abre os olhos, me pegando olhando-a, paralisado.

—Desculpe -sorriu a menina.

—Tá tudo bem —confortei.

— Vamos apressar os passos, Tyler, se não nos atrasaremos para aula. —brincou, tirando os fone dos ouvidos.

Não demos uma palavra até lá, mas percebi que ela sorria.
Na aula, uma grande reviravolta de bolinhas de papel, pra lá e para cá, o professor tinha faltado, ou seja, era aula vaga.
Quando, uma bolinha cai em mim, e percebo um garoto gritando:

—Joga de volta, bichinha.
E todos começam a rir de mim, exceto...

—Você é muito idiota, Hunter. Não vê que isso só te faz mais infantil? —denfende Lily, se levantando da carteira.

Vi que Hunter —o grandalhão dos fundos —abre a boca para revidar, mas o professor entra na sala, e todos se calam.

—Obrigado —sussurro pra Lily, que sorriu, como sempre fazia.

No intervalo, sentei em uma das mesinhas que sobravam, e Lily sentou-se comigo, para minha surpresa.

—Oi. —cumprimentou.

—Não precisa ficar se não quiser.

—Eu quero, a menos que você queira que eu vá embora...

—Não, você é a única pessoa que falou comigo nesses três dias.

—Ah, não fale isso, o Hunter também falou -brincou ela.

E nós rimos.

—Foi legal o que você fez por mim lá.

—Está tudo bem, caras como o Hunter deveriam saber o seu lugar.

—Sim, tenho certeza disso. Mesmo assim, obrigado.

—Não há de quê. Hey, porque não me fala um pouco sobre você.

—Não tem o que dizer... —pensei —eu sou filho único, moro com meu pai, e é só.

—E a sua mãe?

—Ela faleceu, bem, já fazem três anos —digo.

—Eu sinto muito.

—Agora me fala sobre você.

—Eu me chamo Lily Fields, e tenho 16 anos, também sou filha única, e eu... Amo a Deus.

—Isso é bem profundo.

—Você o ama também?

—A Deus? Bem, minha mãe o amou mais que sua própria vida, sabe...

—Quero saber de você. Você ama a Deus, Tyler?

E então, o sinal tocou, impedindo a minha resposta.

—A gente se vê —Lily disse, se perdendo em meio a multidão.

TRÊS ANOS E SEIS MESES ANTES.
Seattle, 18h p.m, 06/06.

Mamãe foi levada novamente ao hospital hoje, o médico dissera que ela tinha piorado. Minha mãe não chorou, o que foi estranho, pois meu pai chorou bastante.
Eles me abraçaram como num filme de despedidas, mas eu não queria dizer adeus.
—Vai ficar tudo bem. —minha mãe sussurra.
—Seu otimismo me surpreende —fala o doutor, entrando na sala —é assim que deve ser.
E ela sorria, logo após começava a cantar, era algo como:
"Mas mesmo que eu passe pelo vale das sombras, tu estarás comigo", suponho que esteja falando sobre Deus, eles eram melhores amigos.
—Eu vou buscar uma água pra vocês... —avisa meu pai.
Eu chego mais perto da mamãe, que está deitada na cama de hospital, e ela me diz carinhosamente:
—E como vão as coisas na escola?
—Vão bem, os professores são legais, e as pessoas também, só não gosto de uma turma que fica rindo de nós.
—Quer um conselho, Ty? Não ligue pra isso, estude bastante, você será um grande profissional —ela disse, com brilho nos olhos —, me prometa que nunca vai deixar de estudar.
—Nunca mãe, eu prometo.
Aquela promessa não foi lá tão difícil porque eu amava estudar, eu sonhava em ser astronauta, ou cientista e coisas bobas de crianças. Estou um pouco mais crescido agora.
—Mãe?
—Sim?
—O que queria ser quando crescesse?
—Médica ou psicóloga, mas o que ansiava mais forte no meu peito eu consegui. — ela sorri ao responder.
—E o que foi?
—Ser mãe de um garoto tão lindo, e fazer parte de uma família tão boa quanto a nossa!

E isso de certa forma me alegrou, ela tinha realizado seu desejo.
—E as outras profissões, por que não fez?
—Porque eu não me sentia preparada, meu pai sempre me pressionou muito com tudo isso, não o culpo, mas sei que sou feliz exatamente como sou.
Minha mãe é formada em moda, e foi uma estilista de muito sucesso no nosso bairro, mas ela logo parou de trabalhar porque ficava doente todo santo mês.
Meu pai é biólogo, na maior parte do dia, e nas quintas e sextas ele é professor de biologia na escola comunitária.
Não acho que eles conquistaram exatamente tudo que queriam, mas sei que são felizes. E isso basta pra mim.