TRÊS ANOS DEPOIS
Seattle, 14h p.m, 06/02.

Num belo dia de sexta, já tinha retornado da escola, e meu pai estava conversando com minha tia Megan.
Ela é advogada, e bem séria também —na maior parte do tempo — ah, e ela também tem um filho, Mike.
Inclusive, ele está aqui, no meu quarto, jogando vídeo game.
Mike é acima do peso, e é um ano mais novo que eu, ele é engraçado, e bem direto.
—E ai primo, e as garotas? —pergunta Mike, me fazendo ficar surpreso.
—O quê? Por que?
—Porque sim ué, eu namorei por dois dias uma 'mina' da escola. E você? Pegando geral?
—Não, oh mané! —dei uma tapa de leve na sua cabeça, o que o desconcentrou do jogo.
—Mas deveria...
—Você acha?
—Claro, cara.
—Vamos Mike! —grita tia Megan no andar de baixo, e nós descemos.
—Filho, corre lá no porão e pega uma papelada pra sua tia.

Quando chego ao porão, reconheço que ele precisa de uma polida. Está coberto por teias de aranhas, e poeira.
Isto porque minha mãe usava esse porão como sua confecção, ela criava tudo aqui.

Procuro pela papelada, e encontro a bíblia antiga da minha mãe, e em cima dela uma fotografia, da mamãe na igreja, com o microfone na mão, como se estivesse cantando.

Viro a foto, e leio a dedicatória:
"De todo coração, sua esposa" e logo abaixo o endereço da igreja. Dobro-a e ponho no meu bolso, e mal percebo meu pai descendo as escadas do porão.
—Por que demorou tanto?
—Ahn... Por nada, não consegui encontrar, só isso.
—Mas está bem aqui —falou, estendendo a mão pra uma prateleira empueirada. —Venha Tyler...

No meu quarto, observei aquela pequena foto, e senti vontade e curiosidade sobre esse lugar que a minha mãe gostava tanto de frequentar.

DOIS ANOS E NOVE MESES ANTES:

Seattle, 18h:45 p.m, 02/03.

Minha mãe colocou seu melhor vestido florido, e arrumou seu cabelo em um coque.
Ela iria se apresentar na igreja, como quase sempre fazia, papai afirmou que não iria porque estava com dor de cabeça de tanto trabalhar, e ela o deixou dormir.
—Bem, mas Tyler virá comigo, não é? —pergunta mamãe, me fazendo cócegas.
Eu esbanjo um sorriso, e corro pelo meio da casa, ela me veste um casaco e nós vamos para a igreja.
Ela canta seu hino preferido, e percebe-se um olhar de alegria, e bondade nela, algo que ela compartilha com todos, inclusive comigo.
—O que você achou, Tyler? —ela pergunta —Sabe que sua opinião sempre me alegra muito.
—Você foi ótima, mãe! Espero que próxima vez o papai esteja aqui para ver você cantar.
—Tenho certeza de que ele estará! —disse mamãe, amavelmente.
E depois da pregação, voltamos pra casa, como deveria ser.
Papai tinha feito o jantar, sentamos todos à mesa, nós comentamos sobre a apresentação dela, e de como ela estava linda, e realmente estava.
—Não acredito que perdi —papai lamentou —me desculpe, querida.
—Tudo bem, pai... Haverá mais vezes —eu sorri, e olhei para a mamãe que assentia com a cabeça.

Mas não houve mais vezes.