Um amor maior
64 Capitulo 63 - Nasceu
Notas iniciais
(POV. MAURA )
Ontem à noite caiu-me a ficha de que 32 semanas igual a sete meses completos, entramos no oitavo mês já. E que o grande dia está a chegar cada dia mais perto.
Senti medo, medo do meu bebé ter algum problema, medo de ser uma péssima mãe, de não dar conta, de ver a minha filha doente e não saber o que fazer, dela não me amar, do puerpério, de como vai ser nossa vida a partir do momento em que ela nascer.
No fundo no fundo, eu sei que vai dar tudo certo. Mas por alguns minutos me permiti sentir medo, de chorar, de colocar tudo para fora, e fez-me bem, sinto-me mais aliviada, mais leve. Ter consciência daquilo que vai lá no fundo do meu coração ajuda inclusive a processar cada angústia e a lidar melhor com elas, a superá-las.
As minhas costas já começaram a doer e até mesmo a virilha, os pés andam inchados, a barriga começa a pesar, mas tudo continua suportável.
Há duas semanas atrás, na consulta passada com trinta semanas, a Brianna pesava apenas 1240 gramas e a médica mandou-me estar em repouso quase absoluto e tomar vitaminas para ajudar no crescimento da bebé.
Ontem tivemos outra ecografia, com 32 semanas, ao fim de quase duas semanas imóvel, na cama sem praticamente me levantar da cama tivemos boas noticias a bebé cresceu bem embora continue sendo pequenina.
***
As restantes semanas de gravidez foram relativamente tranquilas, não houve mais atribulações ou más notícias, mas é óbvio que para Jane e Maura a preocupação não desapareceu. Pode sempre haver problemas que não são detectáveis até ao nascimento, ou mais tarde, e na situação delas o desfecho, depois de tantas adversidades, era ainda mais incerto.
Desde que Maura havia terminado os tratamentos, a apreensão que sentiam passou a ser com a bebé. Maura continuou a fazer análises que pudessem indiciar qualquer a existência de cancro e também ecografias mamárias regulares.
A grande preocupação dos médicos era certificarem-se de que estava tudo bem com ela. Sobre a bebé não se sabia tanto. Apesar disso, tanto Maura como Jane tentavam não pensar no que podia acontecer. Não havia nada que pudessem fazer para evitar o que quer que fosse e por isso só lhes restava esperar o mais tranquilamente possivel.
Começaram a ponderar e a decidir sobre o nascimento, quiseram que fosse na mesma clinica onde Maura tinha sido operada, fizera os tratamentos e depois tinha sido acompanhada durante a gravidez. Tanto Jane como Maura tinham muitos laços afectivos com aquela instituição, óptima em termos clinicos e em termos humanos excepcional. As pessoas sentem-se como em casa.
Com a aproximação das trinta e nove semanas a ansiedade das duas só aumentou, mas tanto uma como outra preferiram fingir-se tranquilas e despreocupadas. Maura começou a ter uma fome incasiavel e o bebé já se tinha posicionado de cabeça para baixo encaixando lentamente na cérvix .
A semana havia passado rápido, no final da semana, de quinta pra sexta, Maura não dormiu nada, naquele dia completava quarenta, estava com dor, algumas contrações mas não eram frequentes nem ritmadas.
Jane e Maura levantaram-se pelas 8 da manhã, tomaram duche juntas, vestiram-se e Maura conferiu a mala da maternidade, assim evitaria stress nos minutos finais, quando poderia estar em trabalho de parto. Na sua mala Maura tinha colocado camisolas, calcinhas grandes e confortáveis, robe, chinelo de dedo, meias, sutiã, alguns produtos de higiene pessoal e roupas para a saida do hospital, na malinha do bebé, tinha colocado macações, bodies, calcinhas com pé, uma manta, casaquinhos de lã, fraldas de tecido, meias, paninhos de boca, e desceram para tomar um bom pequeno almoço, suco e umas torradas.
Maura despediu-se de Fred, antes de Jane o levar para o colégio, beijou-o, abraçou-o e explicou-lhe que havia completado quarenta semanas e que teria uma nova consulta para ver como estava a irmazinha.
Por volta das dez horas, sairam de casa, quando chegaram a porta da clinica, embora estivessem ansiosas, ambas estavam felizes, entraram e a doutora Sarah começou a ecografia, viu o coração do bebé, a pressão e conversou um pouco com Jane e Maura avisando as duas para o caso de Maura sentir algum mau estar ligarem imediatamente para ela.
Maura e Jane voltaram para casa e com o avançar da noite as contrações começaram a aumentar, na noite de sexta-feira para sábado, as dores voltaram mais intensas e Maura começou a anotar a frequência delas. Viu que elas tinham uma frequência e duração parecida e estavam a aumentar, teve a certeza de que eram as contrações que antecederiam o parto.
Lá pelas duas horas da madrugada, Jane ligou para Sarah, a obstetra, Maura não aguentava mais ficar sentada de tanto que as contrações estavam fortes, decidiu tomar um banho e ficar pronta para ir para a clínica. Na hora em que entrou no chuveiro sentiu uma água quente escorrer-lhe pelas pernas. Tomou o banho, colocou um vestido e um top por baixo. Jane penteou os cabelos entre uma massagem pélvica e outra nas contrações, e sairam para a clinica.
No caminho, enquanto iam no carro, as contrações vinham a cada cinco minutos, a dor que aumentava conforme o nervoso de Maura. Chegaram, assinaram alguns papeis, levaram Maura para o quarto que agora estava mais calma e com quase nada de dores, Jane e Maura conversaram com a enfermeiras, explicaram a situação e continuaram a monitorizar as contracções…
Por volta das oito horas a doutora chegou, com a mesma cara da tranquilidade, sorriso no rosto e um livro debaixo do braço. Examinou Maura que tinha 1,5 cm de dilatação, as contracções tinham acalmado.
Sarah encaminhou Maura para a sala de pré parto e Jane entrou com as malas, os minutou passavam e as contracções começaram a aumentar. Por volta das dez horas e meia as contracções começaram a ser numa intensidade que Maura não conseguia aguentar, Sarah examinou novamente e Maura tinha atingido oito cm de dilatação!
(POV. MAURA )
A dor só aumentava, eu tinha vontade de gemer, cantar, berrar, chorar, silenciar. Eu fiz tudo isso que tive vontade de fazer. Gemi alto, cantei baixinho, gemi baixinho e cantei alto. Sentia minhas mãos formigando. Meus lábios tinham vida própria. Entoei cânticos que conscientemente conhecia, mas intuitivamente foram ganhando mais força dentro de mim.
Ela estava ali, a minha Jane. A presença dela fortalecia-me e ao mesmo tempo preocupava-me, pois havia tensão, medo da parte dela e emoção, muita emoção. Mas, ao mesmo tempo, ela passava-me uma força tão grande e magnífica que me protegia e me amparava naquele momento. Eu tinha dor, muita. E tinha medo, muito, mas sentia-me segura.
***
Quinze minutos depois Maura estava desesperada de dores, agarrou a mão de Jane com tanta força que podia sentir as articulações da morena estalar, Jane e a obstetra continuavam com um sorriso, a médica um sorriso sereno e Jane um sorriso que escondia toda a sua aflição.
— Calma Maura, está quase— pedia a médica
— Doutora por favor dê-me anestesia— pediu Maura de forma suplicante.
Quando a médica saiu para ir buscar o anestesista Maura vomitou, vendo isso a médica resolveu examinar Maura de novo…
— Dez centímetros! – falou Sarah com empolgação - Não dá tempo para mais nada senhoras e senhores, nem anestesia!
Jane foi a correr para o vestiário, colocar a bata verde do hospital e a máscara.
As enfermeiras encaminharam Maura para a sala de parto enquanto a ensinavam a fazer força correta, com queixo no peito, movimentos de remador. Maura subiu na cama de partos e foi apresentada ao pediatra da clinica, naquele momento Jane entrou na sala esbaforida com um enorme sorriso no rosto e uma maquina fotográfica.
As contracções pareciam ter parado, a dor já não era mais tão forte, afinal a dilatação estava completa.
Na primeira onda de contracções inesperadas Maura gritou de dor e esqueceu-se de fazer força para empurrar a bebe para baixo.
(POV. MAURA )
Dor intensa, corpo aberto, mãos formigando, córtex frontal desligado, eu era apenas coração. Gritei um grito de dor. Um grito de cansaço. Um grito de renascimento. Gritei. Urrei. Eu estava lentamente inspirando e fortemente expirando a minha filha.
***
Sarah continuou a pedir para Maura fazer força e nas duas contracções seguintes Maura fez toda a força que podia
— Aaaaaaaaaaaaaa— gritou Maura
E ali estava ela, a cabecinha toda pra fora. Empelicada. A querer respirar. Sarah tirou a bolsa do seu rosto e pediu a Maura que eu fizesse um pouco mais de força
— Aaaaaaa - Maura fez força novamente e num respiro estava ali fora, 12:34… NASCEU
(POV. JANE )
Esses foram os minutos mais demorados de minha vida, a cada contracção a Maura fazia força e eu ajudava segurando a mão dela, lembrando-a de colocar o queixo no peito para fazer força. Nada diferente do que todo o trabalho de parto anterior, o processo foi lento, o avanço a cada contracção era mínimo, a diferença é que agora ela sentia apenas a pressão das contracções, não mais a dor.
A Maura demonstrou ser uma mulher muito forte, encontrava reservas de energia sobre-humana, e a cada contracção fazia força de forma a impressionar as enfermeiras que de tempos em tempos passavam por lá.
Ser testemunha de um momento tão difícil, mágico, dramático e lindo foi um privilégio, uma iniciação, onde as lágrimas contidas, por medo de desestimulá-la, explodiram em um forte choro compulsivo na hora que vi a Brianna.
As palavras também são escassas para descrever o momento em que primeiro vi a Brianna e a escutei, ainda presa ao cordão umbilical, chorar pela primeira vez.
Posso afirmar que essa foi a maior experiência da minha vida, sou uma sortuda por poder participar do começo ao fim deste momento e ter ao meu lado uma mulher, única que nem a Maura. As minhas emoções estão à flor da pele, senti medo, muito medo, e angustia por ver a Maura a sofrer daquele jeito a cada contracção. Mas agora sinto-me tão feliz, não sei descrever o que sinto neste momento.
***
Era linda, muito rochunchudinha, o nariz, a boca, a cara, muito cor-de rosa. Logo ao nascer a médica passou uma tesoura para as mãos de Jane e a incentivou a cortar o cordão umbilical, com um sorriso no rosto e lágrimas a escorrer pela cara a morena pegou na tesoura e cortou.
Em seguida Maura pediu que a colocassem em cima do seu peito para que pudesse tocá-la. as enfermeiras colocaram a pequena sobre o Maura e por momentos lá ficaram as três, abraçadas, a rir e acima de tudo a agradecer!
Maura tocou-lhe o rosto, contou-lhe os dedos dos pés e das mãos, olhou todo o seu corpo procurando certificar-se que estava tudo bem.
Era perfeita, tinha 2456 Kg, robusta e a chorar bem.
Ela era saudável.
Naquele momento tanto Jane como Maura sentiram um enorme alivio, uma alegria ainda maior.
Nada nesta gravidez tinha sido normal, a pediatra e o enfermeiro Raul que havia chegado entretanto estavam em lágrimas. Jane também não controlava as lágrimas, e os abraços dentro da sala de partos multiplicavam-se repetidamente.
Toda a gente à volta de Maura, naquela sala de partos, chorava e Maura pensava se devia fazê-lo também, mas não conseguia, transbordava de felicidade e alivio, só conseguia sorrir e olhar a pequena Brianna que havia sido levada pelas enfermeiras, para lhe darem banho e lhe vestirem uma roupa adequada.
Quando Maura saiu da sala de partos, transportada numa maca, em direção ao quarto, no corredor avistou a sua familia, olhou para Angela e viu a mulher a chorar, os olhos correram para Constance e a mulher também chorava, Hope e Caillin também, Frost, Korsak, Frankie e Tommy estavam comovidos, até o seu pai Arthur, um homem tão contido e racional tentava disfarçar as lágrimas. Estava a ser muito emotivo para todos.
Já era noite quando Jane e Maura ficaram sozinhas no quarto, durante praticamente todo o dia haviam recebido visitas da família, já durante a noite Jane escreveu uma mensagem a anunciar que a bebé tinha nascido e enviou para todos os amigos e família que não puderiam estar presentes:
«Os estados unidos acabaram de ver nascer a sua principal esperança médica! Chama-se Brianna e é linda. A futura médica e mamã estão em excelente forma!»
Na verdade, ainda faltava algum tempo para Maura ficar em excelente forma, mas com certeza o peso que tinha saido de cima dela, deixava-a numa situação bem mais confortável e descansada.
— Enfim sós.— murmurou Jane aproximando-se da cama de Maura
— O dia foi puxado. Não vais para casa ficar com o Fred?— questionou Maura
— Ele fica com a ma, eu quero ficar aqui contigo. Como te sentes?
— Bem — respondeu Maura
— Não sentes dor?
— Não.
— A nossa menina é linda – falou Jane aproximando-se da pequena que dormia num bercinho ao lado da cama de Maura e ajeitando a mantinha que a cobria.— Parece-se contigo.
— Jane, é só um bebé, ainda não se parece com ninguém.
— Eu sei que ela vai ser como tu, ela é loirinha – murmurou Jane aproximando-se novamente da cama de Maura, sentando-se sobre ela.
— Tive tanto medo que não corresse bem
— shiiiiii— Jane colocou um dedo sobre o lábio de Maura. – Já passou Maur, olha ali — falou fazendo um gsto com a cabeça em direção à bebe – ela e linda perfeita.
— É, estas feliz?
— Muito, fizeste-me a mulher mais feliz do mundo. Temos a familia mais linda do mundo. Devias descansar, não tarda ela acorda para mamar.
— Os médicos acham melhor eu não amamentar, terei de secar o leite, por causa de não sobrecarregar o peito. – falou a loira.
— Sim eu sei, mas de qualquer forma ela vai acordar para mamar por isso descansa, eu ficarei ali – Jane apontou a poltrona.
— Ok. – Maura recostou-se na almofada e procurou fechar os olhos.
Jane inclinou o corpo sobre Maura e depositou-lhe um suave beijo nos lábios e depois na testa.E andou até à poltrona.

Fale com o autor