Um amor maior

48 Capitulo 47 - Bebé


Notas iniciais
Boa noite e boa leitura :*

Enquanto não eram chamadas pela doutora Sarah, Maura e Jane permaneceram sentadas num canto da sala de espera, tentando passar despercebidas, Jane tinha um braço sobre os ombros da loira que estava praticamente deitada sobre o seu ombro.

Naqueles intermináveis minutos enquanto não as chamavam para entrar a cabeça de Maura parecia um disco riscado, no entanto as lágrimas pareciam ter parado por instantes.

Não posso, não posso, não posso, se superei até aqui, não é agora que vou por em risco tudo outra vez— sussurrou a loira palavras quase inaudiveis, mas suficientes para que Jane ouvisse.

Mas quando percebia as palavras que dizia e o que isso implicava tudo voltava ao mesmo, as lágrimas voltavam mais fortes do que antes, lágrimas de culpa, de terror, de medo, ela tinha medo de morrer, mas ao mesmo tempo sentia culpa por a solução para manter a sua vida ser matar o bebé que há tempos foi tão desejado, culpa por arrancar a chance de Jane ser mãe novamente, desta vez desde o primeiro dia, o dia em que aquele bebé chorasse ao levar uma palmadinha no rabo, do médico no dia do parto.

A morena tinha estado praticamente o tempo toda lívida e em silêncio mas ao ouvir aquelas palavras apertou mais forte o braço de Maura, rodou a cabeça, depositou-lhe um beijo sobre a cabeça e sussurrou para que ela ouvisse.

— O que fizermos será a pensar no teu bem Maur, o resto não importa Maura— sussurrou a morena quase como se pudesse ler os pensamentos de Maura – Sem culpas Maur, sem culpas…— concluiu a morena.

Eram praticamente cinco horas da tarde quando a doutora Sarah chamou, discretamente Maura para entrar.

As duas mulheres sentaram-se à frente da médica que permanecia com a mesma expressão serena de sempre. A médica pegou no relatório das analises que lhe tinham sido enviado pelo laboratório durante a tarde, abriu a carta e calou-se por alguns instantes a ler o que ali estava escrito e a analisar cada numero.

A médica voltou a olhar para Jane e seguidamente para Maura e respirou fundo

— Maura, você não está grávida, você está muito grávida. Não sei como isto aconteceu, como é que isto nos escapou. É um erro demasiado grave, não só nosso mas do Dr. Miller, que é um renomado ginecologista e obstetra especialista em reprodução medicamente assistida.. — a médica parecia incrédula com a situação que via.

— Mas como é possível a fertilização deu errado? O Dr Miller fez o exame para confirmar e ele deu negativo, a Maura não está grávida... — falou a morena, que embora tentando manter-se forte e calma, estava apavorada.

— Não tenho explicação para isso Jane, mas a Maura está grávida o valor da HCG não engana – falou a doutora Sarah— Às vezes, muito raramente, mesmo que seja por zero ponto zero ponto um porcento de hipóteses os exames erram.

— HCG? — perguntou Jane em total incompreensão

— Jane, a Beta hCG ou BhCG é a sigla usada para uma hormona chamada gonadotrofina coriónica humana, a gonadotrofina corionica humana é uma hormona importante e necessária para a manutenção e desenvolvimento da gestação. Ela é produzida pelo trofoblasto, um grupo de células do embrião que dá origem à placenta. – falou Maura usando toda a capacidade de raciocínio que ainda tinha.

— Ok entendi, essa hormona só se produz portanto durante a gravidez?— questionou Jane

— Isso mesmo Jane – concluiu a médica

— Mas, continuo sem entender, como é que erram e como é que mesmo indo a tantos médicos, fazendo tantos exames nenhum colega seu percebeu?

— Como lhe disse Jane não tenho resposta para isso.

— Mas como é que é possível se a Maura continuou a ter menstruação até começar com a quimioterapia? – questionou Jane assustada

— Como a doutora Isles deve saber— a médica olhou para Maura — Não é comum menstruar na gravidez, porém no primeiro trimestre pode ocorrer um ligeiro sangramento acompanhado de pequenas cólicas, a sensação é que a mulher está menstruando ou vai menstruar, trata-se de uma pequena perda de sangue que dura no máximo 3 dias. Esse pequeno sangramento ocorre devido à fixação do óvulo fecundado na parede do útero, o sangramento dá-se por um pequeno rompimento de um vaso sanguíneo e não tem relação nenhuma com menstruação.

Maura continuava a ouvir a conversa entre Jane e a doutora Sarah.

— Não sei o que dizer— a morena rendeu-se às evidencias.

— Eu em mais de quinze anos de serviço nesta clínica, nunca vi nada assim e acreditem já me passaram pelas mãos muitos casos, alguns bem complicados e invulgares. – a médica falou— A Maura nunca sentiu nada que pudesse já indicar a gravidez? Alguns sintomas não sei… — a médica olhou para Maura tentando obter dela uma resposta.

— Não— a resposta da loira foi curta e grossa, logo ela que era sempre tão meiga e carinhosa.

—Sim Maura, há uns tempos atrás antes de começares a quimioterapia sentiste enjoos matinais e pensamos ser da ansiedade— falou a morena olhando para Maura e de seguida para Sarah. – Também houveram alguns desejos, mas apareciam sempre a seguir a quimioterapia, uma vez encontrei a Maura a comer alface de manhã.

—Já poderiam ser indícios sim, mas também poderiam ser ansiedade como julgaram – a médica falou.

— Sarah o que é que vamos fazer agora?— questionou a morena

— A primeira coisa a fazer é uma ecografia

— E quando é que a Maura a pode fazer Sarah?

— Já hoje, vou ligar para a colega da area e peço-lhe que ainda vos atenda hoje, dada a gravidade da situação, com certeza não haverá problema. – respondeu a médica pegando no telefone e digitando o numero da médica ecografista.

Depois de falar com a médica a doutora Sarah informou Jane e Maura que seriam atendidas dai a meia hora no consultório da doutora. Como Sarah era a administradora da clínica e mais sendo amiga de Maura a médica decidiu acompanha-las na ecografia.

Dirigiram-se ao consultório da médica e esperaram na sala de espera até serem chamadas. Não demorou muito até serem chamadas, a médica apresentou-se, Maura apresentou-se e explicou-lhe o seu caso e tudo o que ele envolvia e a médica encaminhou-a juntamente com Jane e Sarah até à marquesa.

Maura desapertou as calças que trazia vestidas puxou a camisa para cima, deitou-se na marquesa a médica aplicou um gel sobre a barriga e olhou para Maura. Jane aproximou-se da marquesa, no lado oposto ao ecran onde iriam aparecer as imagens da ecografia e deu a mão a Maura, depositando um beijo sobre as costas da mão da loira.

Está preparada Maura? Posso começar?— questionou a médica com um sorriso simpático na cara.

Sim — respondeu Maura abanando a cabeça em afirmativo.

A médica colocou o transdutor sobre a barriga de Maura e começou a desliza-lo. De repente um bebé, com todas as formas cabeça, braços, pernas apareceu na tela. Não era um embrião, não era um feto, era um bebe, de vinte semanas e dois dias.

Ali estava a confirmação, já nada poderia alterar aqueles testes, não havia mais hipóteses de estarem errados, elas poderiam ver com os próprios olhos através daquele monitor, costuma-se dizer que só devemos acreditar naquilo que vemos e ali estava ele, o bebé, o filho que há cinco meses e umas semanas atrás tanto desejavam mas e agora? Continuava a ser tão desejado como naquela altura?

Jane levantou-se de rompante e desligou o monitor para onde olhavam. Estava ali, mesmo que elas não quisessem acreditar no que viam não podiam, ele estava ali, com dois braços, duas pernas, um narizinho, estava ali o filho que elas desejavam.

Agora que a confirmação estava ali Maura mais uma vez não conseguia falar, só chorava, estava em pânico.

— Mas porquê? Como é que isto aconteceu? Como é que aquele médico falhou, ele não podia. Eu vou morrer— Maura falava de forma desesperada com a cara inundada de lágrimas.

Jane andava de um lado para o outro da sala totalmente descontrolada com as mãos na cabeça a prender o cabelo.

Maura acalme-se tudo se resolverá— falou Sarah tentando acalmar Maura

— Como é que me pede calma, eu vou morrer— falava Maura praticamente aos berros, perto de desabar.

Maura sentou-se na marquesa, com as pernas de fora, e Jane aproximou-se dela. A morena colocou as mãos sobre os joelhos da loira e olhou para os seus olhos, ambas reconheciam aquele olhar que tanto uma como outra tinham, desespero, medo, angustia, o brilho que sempre tinham quando estavam perto uma da outra estava apagado, só pairava a névoa que aquela noticia lhes tinha trazido.

Não era para ser uma boa noticia? — pensavam as duas para elas próprias

A resposta era óbvia, era sim uma boa noticia, mas não agora, não neste momento, não nestas circunstancias, não com tantos erros.

— Jane eu vou morrer— a loira sussurrou quase sem força para mexer os lábios

— Shhhhh— a morena colocou o dedo indicador sobre os lábios de Maura, para interromper qualquer palavra que a loira pensasse em soltar e puxou-a para um abraço apertado – Eu não deixarei. Não deixarei!

Enquanto as duas ali estavam, entregues aos braços uma da outra à procura de algum equilíbrio e conforto, a doutora Sarah ligou para o Dr Miller, pedindo que ele se dirigisse à clínica, porque se tratava de um assunto de extrema gravidade e da qual ele em grande parte tinha culpa.

Maura levantou-se da marquesa, apertou as calças, puxou a camisa para baixo e enquanto o doutor Miller não chegava andava de um lado para o outro, como um animal enjaulado, a gesticular e a vociferar de cabeça perdida, por sua vez Jane estava sentada na cadeira em frente a secretária com os cotovelos apoiados nos joelhos, e a cabeça enterrada nas mãos. Ambas estavam em pânico.

O ginecologista-obstetra que fez a inseminação a Maura chegou, entrou e fechou apressadamente a porta do consultório, atrás de si. A médica que tinha feito a ecografia a Maura contou-lhe tudo o que se passava e ele ficou sem ração, totalmente lívido.

— Calma, vamos resolver isto— disse o médico com total segurança fitando as duas mulheres à sua frente.

O médico chamou um colega que se juntou a eles, passado um bocado, naquele pequeno gabinete e explicou-lhe a situação.

Vá ter comigo amanhã ao serviço de obstetrícia do hospital de Boston, onde eu trabalho. Acho que não temos alternativa se não interna-la e proceder a uma raspagem (corretagem uterina).

Aquelas palavras atingiram que nem balas o coração de Jane. Ela não pensava que Maura pudesse continuar com a gravidez, o importante era salvar a vida de Maura, mas aquele já se tratava do seu filho, ali já havia uma vida e tinha sigo gerada por elas, pelo amor delas.

O senso comum diz, entre outras coisas, que o sonho de toda mulher é ser mãe, que só nos tornamos completas quando temos filhos, que o relógio biológico sempre fala mais alto e para Jane havia-se tornado verdade a partir do momento em que ela e Maura formaram uma família. O senso comum também diz, entre outras coisas, que quem engravida é porque quer e no caso delas também tinha sido, mas não era para ser assim, tinha tudo para ser um momento feliz não com o peso de uma nova vida contra a morte e essa morte tratava-se de Maura, como Jane poderia viver sem ela, como Jane poderia ficar a cuidar de um menino e um bebé sem Maura.

Falar de arrancar o seu bebé com aquela leviandade era uma tremenda crueldade para elas, elas sabiam que poucas alternativas restavam a essa, mas esperavam um pouco de compreensão por parte dos médicos.

Vocês sabem que o meu colega tem razão, Maura tenha calma, vamos resolver isto. Tem o útero completamente intoxicado, não pode ter esse bebé, nem pensar em circunstancia alguma. – acrescentou o dr Miller

— Mas o resultado deu negativo. Como é que eu posso estar grávida? – descontroladamente e aos gritos Maura virou-se para ele.

— Foi exatamente o resultado do exame Maura, negativo.

— Então mas como é que o doutor não percebeu que ele estava errado? Alguma coisa foi mal feita doutor – continuou Maura descontrolada.

— Realmente eu já não tenho idade para brincar aos médicos, foi uma falha minha gravíssima. Talvez eu devesse ter acompanhado melhor o caso posteriormente… — falou o médico com uma voz praticamente sumida

Aquele bebé estava na barriga de Maura há mais de cinco meses. Estava lá quando Maura Maura fez inúmeros exames para detectar o cancro da mama, estava lá quando Maura foi submetida à intervenção cirúrgica de remoção do nódulo, estava lá quando Maura começou a fazer as primeiras sessões de quimioterapia, estava lá quando Maura fez as quinze sessões de radioterapia, estava lá quando Maura começou a limitar muitíssimo a sua alimentação, estava lá quando Maura fez exercício intenso para emagrecer, estava lá quando Maura bebeu álcool sem preocupação na festa de aniversário de Jane, em Itália, estava lá quando desmaiou e caiu estatelada no casco da gondola e estava lá quando Maura começou a usar cinta para apertar a barriga, que julgava ser efeito do tratamento. Sobreviveu a tudo.

Aquele bebé estava lá, na barriga de Maura, quando o prestigiado médico ginecologista-obstetra fez o exame, quinze dias após a implantação dos embriões no útero de Maura e deu negativo

— Com muita pena minha o resultado não é o esperado, mas não quero que desistam, tentaremos outra vez e da próxima vez o resultado será o esperado”

Aquela frase passava insistentemente na cabeça de ambas, como se tivesse sido dita ontem.

Por causa disso Maura descobria que estava grávida para lá do limite legal para a interrupção voluntária da gestação.

A vida que se desenvolvia dentro de Maura, tinha, resistentemente, passado de embrião a feto. Lutara sozinho contra todas as agressões, incluindo aqueles tratamentos que deixaram Maura devastada.

Se ela que era forte, resistente não fora capaz de resistir aqueles tratamentos sem se deixar abater, como um bebé que era um ser indefeso, com poucas gramas, ainda sem nada conhecer da vida, sem estrutura corporal suficiente, sem os órgãos totalmente formados tinha sido capaz de aguentar?

Para Maura a gravidez poderia implicar graves recidivas do cancro. Para a vida que crescia dentro de Maura a maior ameaça era o facto de Maura não poder permitir que ela continuasse, mas, ainda que que fosse possível a intoxicação de químicos e radiação do corpo de Maura. Havia ali vida, mas ninguém sabia que forma de vida.

Maura e Jane despediram-se da doutora Sarah e do doutor Miller, desejando nunca mais encontrar aquele homem, porque se tiveram a capacidade para desculpar o primeiro erro, quando o médico insistia que nódulo canceroso que Maura tinha na mama não era nada, atrasando o seu diagnostico e podendo aumentar dessa forma os riscos que isso implicava, não seriam capaz de perdoar uma segunda vez.

Maura estava apavorada e tudo por causa da negligencia de um médico demasiado confiante em si próprio, demasiado egocêntrico…

Notas finais
O que acharam do capitulo? Gostaram?