Um amor maior
49 Capitulo 48 - Resiliência
Notas iniciais
Com uma mão no volante, outra na alavanca das velocidade e completamente perdida nos seus pensamentos Jane conduzia em direcção a casa. Embora estivesse frio na rua, Jane levava o vidro aberto, sentia-se praticamente a sufocar e aquele ar que corria pela janela era como se fosse a diferença entre viver ou morrer. Jane sabia o que tinha de ser feito, mas não conseguia ser indiferente aquela vida. Enquanto conduzia, olhava para Maura e o olhar sempre fugia em direcção à barriga da loira, era ali que ele estava, era involuntário, ela não queria fazê-lo e muito menos queria que a loira percebesse, jamais poderia colocar aquele peso nela, Maura não suportaria a culpa.
— Pára Jane, pára— a morena balançava a cabeça para acabar com aqueles pensamentos – Não podes ser tão egoísta Jane, é a Maura – pensava a morena para si.
Era a Maura e era o seu filho, o amor por um teria de se sobrepor ao amor pelo outro, e Jane já amava aquele pequeno ser desde o momento em que o vira através daquele ecran, e foi esse o motivo maior para ela o ter desligado, sabia que quanto mais o olhasse, mais aquele amor aumentava, e não poderia ser, não era justo para Maura, como ela poderia pedir à loira que deixasse aquele bebe nascer quando para isso poderia morrer?
— Não, não posso.— pensava Jane para si – Outros bebés poderão ser feitos ou adotados. Mas é a Maur, a sua vida…
Maura por sua vez levava os olhos presos no vidro e o rosto totalmente inexpressivo, desde que saíram da clínica que em nenhum momento Maura olhou Jane nos olhos temendo encontrar neles algum resquício de raiva, de recriminação, o seu maior medo era esse, Jane a odiar... Naquele momento Maura sentia-se completamente desesperada como se a vida naquele instante tivesse se tornado algo insustentável, e ela não fosse capaz de sustenta-la em cima dos ombros.
Durante todo o caminho Jane e Maura permaneceram praticamente em silêncio como se não houvesse assunto , o que na verdade não havia mesmo, naquele momento as cabeças delas não conseguiam pensar em mais nada que não fosse aquele bebé e naquele momento aquele era o único assunto que nenhuma queria tocar com a outra.
As duas chegaram a casa e Fred e Ângela estavam à espera de ambas, enquanto Fred as recebeu com abraços apertos, Ângela percebeu perfeitamente que algo de errado se passava, mas manteve-se calada, sabia que o que Jane e Maura não queriam era preocupar o menino, e se o tinham feito até ali não seria ela a acabar com a paz do menino.
Como Ângela havia preparado o jantar, as três mulheres e o menino sentaram-se na mesa e jantaram e depois Fred subiu para o seu quarto, para brincar um pouco antes de dormir.
Quando viu que o menino já não estava ali, Ângela fitou as duas mulheres e questionou-as sobre o motivo para ambas estarem abatidas,
— O que é que aconteceu no médico?— questionou a mulher mais velha, olhando para as duas mulheres.
Ao ouvir aquela questão, Maura mais uma vez voltou a chorar, e foi Jane que começou a contar à mãe o sucedido.
— É complicado ma— falou a morena
— Mas se é algo de ruim eu quero saber Jane, eu preciso Jane— falou a mulher mais velha, com ua expressão evidente de preocupação.
— Ok— respondeu a morena – Vamos sentar-nos no sofá.
As três mulheres levantaram-se da mesa, Ângela seguiu para o sofá e Jane aproximou-se de Maura, colocou as mãos no rosto da loira, que respondeu colocando as mãos em cima da cintura da morena.
— Posso contar?— questionou a morena
Sem pronunciar uma palavra a loira assentiu com a cabeça positivamente.
— Nós vamos ficar bem, nós vamos – Jane beijou a testa de Maura e puxou-a para um abraço.
Alguns minutos depois as duas separam-se do abraço e dirigiram-se para o sofá onde Jane já as esperava atentamente, procurando decifrar o motivo da preocupação das duas através dos gestos que tinham. Maura e Jane sentaram-se no sofá e entrelaçaram as mãos sobre os joelhos da loira.
— Então vamos começar – a morena olhou para Maura e de seguida para Ângela – Ma lembraste que há cinco meses atrás eu e a Maura fizemos uns tratamentos de fertilidade para poder ter um bebe?
— Sim. Mas não resultou não foi?— a mulher mais velha abanou a cabeça em afirmativo
— Deixa-me concluir – pediu a morena— Lembras que ontem a Maur, pediu-te para passares na farmácia e trazeres um teste de gravidez? – a morena continuou
—Sim Jane, mas tu não estás a querer dizer…— a mulher mais velha não concluiu
— O teste deu positivo, assim como mais dois e hoje um exame de sangue
— Positivo?— questionou a mulher — Mas como é…— novamente a mulher tinha ficado sem palavras
— Sim ma, a Maura esta grávida – a morena concluiu suspirando fundo.
Ao ouvir as palavras que a filha acabava de pronunciar, Ângela olhou para Jane apavorada
— Maura nós temos de resolver isso – a mulher começou a falar agora para Maura que permanecia calada - Tens de curar-te para estares com o Fred e com a Jane e eu quero-te bem. Não te está a passar nada pela cabeça, pois não?— questionou a mulher mais velha.
— Não Ângela, nem pensar – respondeu Maura com uma voz quase sumida
— Vais ter de fazer uma raspagem, é muito doloroso querida, não é fácil, mas tem de ser. Tens de ir preparada para sofrer— falou a mulher mais velha com uma voz meiga e compreensiva, ao mesmo tempo determinada.
— A Ângela parece que sabe do que fala? – afirmou Maura num tom questionador.
— Sei melhor do que desejava, querida. – respondeu a mulher mais velha – Antes da Jane nascer eu também perdi um filho.
— Mamã, mamã, mamã Jane— começou a ouvir-se no andar de cima.
—Acho melhor ir ver o que ele quer, eu volto já — a morena levantou-se e deu um beijo na cabeça da loira e subiu para o quarto onde Fred se encontrava.
— Desculpe Ângela, eu não queria – Maura não concluiu a frase.
— Já passou minha filha, agora eu estou bem – respondeu a mulher mais velha deslizando o corpo sobre o sofá para agarrar as mãos da loira que permaneciam sobre os joelhos.
— Posso fazer-lhe uma pergunta? – questionou a loira
— Todas as que precisares Maura – respondeu a mulher mais velha
— Como é perder um filho?
— a mulher respirou fundo à procura das palavras certas e respondeu— Vai doer Maura, vai doer muito, mas quero que saibas que com o tempo a dor vai acalmar e depois vai ficar só uma lembrança.
— Já dói Ângela, já dói tanto… E eu sei que a Jane está igual mas…
— Eu sei como é a minha Jane, querida— falou a mulher mais velha – Ela prefere guardar para ela.
— É, ela prefere, mas eu tenho receio que isto nos afecte, que a afaste de mim, eu sei quanto a Jane queria este bebe. E eu posso superar tudo, mas não posso superar perdê-la. – olhos da loira começaram a marejar.
— Não irás Maura, antes de tudo ela ama-te e quer o teu bem, ela daria a vida por ti Maura. Vocês podem tentar mais tarde.
— Eu também daria a minha vida por ela…Será que nós nunca vamos ter sossego?
A mulher mais velha aproximou-se de Maura mais um pouco e puxou-a para um abraço, depois de interromper o abraço a mulher mais velha agarrou novamente as mão da loira e falou convictamente:
— Claro que vão Maura, ainda vão ser muito felizes – falou a mulher mais velha — Maura o importante é não te culpares, não tens alternativa, a culpa não será tua, há muita gente que depende de ti.
— Nós queríamos tanto este bebé Ângela, nós é justo – falou a loira
— A vida não é justa minha querida, mas vocês têm o Fred, têm-se uma à outra, têm tudo para felizes.
— Eu sei, mas…
— Maura o importante és tu!
Jane ia a descer as escadas e parou nos últimos degraus quando Ângela pronunciou aquela frase, e naquele momento penitenciou-se, como ela poderia pensar em aquele bebe nasceu quando a vida de Maura estava em risco.
Maura olhou para as escadas e viu Jane ali parada e estranhou
— O que aconteceu Jane?— questionou a loira
— Como assim?
— Porque é que estas ai parada?
— Há não foi nada, estava só a pensar— respondeu a morena
— O que é que o Fred queria?
— Queria que eu lhe contasse uma historia para ele dormir… — respondeu a morena com um sorris.
— Agora que a Jane chegou, eu vu retirar-me também, já esta a ficar tarde – falou a mulher mais velha levantando-se do sofá.
— Ângela amanhã pode pegar o Fred na escola e ficar com ele? – questionou a loira.
— Claro que sim querida – respondeu a mulher – Boa noite minhas filhas
— Boa noite ma
— Boa noite Ângela
E ali estavam as duas novamente sozinhas, com o pensamento naquele bebé.
— Jane— a loira olhou para Jane e chamou-a
— Sim Maur
— Senta-te aqui – falou a loira batendo no sofá.
— Porque não subimos a conversamos na cama, precisamos de descansar – a morena sugeriu
A loira levantou-se e andou até Jane, parando à sua frente
— Nós estamos bem Jane? — questionou a loira fitando os olhos da morena.
— Estamos Maur – a morena agarrou a mão de Maura— Anda…
A loira assentiu com a cabeça e Jane puxou-a pela mão conduzindo-a pelas escadas. As duas foram para o quarto dela e encolheram-se debaixo do cobertor abraçadas, Jane abraçou Maura pela cintura e aconchegou-se junto a ela. Dava para ver que Maura estava mais tranquila que antes e isso deixava Jane mais leve. Jane não suportara ver Maura desesperada e a chorar. Jane balançou a cabeça e deu mais um beijo sobre a testa de Maura tentando afastar os pensamentos maus.
— Maura porque é que no caminho para casa nunca me olhaste?
— Tenho medo Jane. Este bebé… — a loira procurou as palavras— Eu sei quanto o desejavas.
— Oh – murmurou a morena. – O bebé é importante sim, não posso negar que há cinco meses o desejava com todas as minhas forças. Mas agora eu só quero que fiques bem. Nós podemos tentar de outras formas.
— Não preferes que eu arrisque e que ele nasça? — questionou a loira. – Se for o que tu desejares eu faço Jane, eu faço— respondeu a loira
— Não se isso implicar a tua saúde… Maura tu és mais importante. Como eu poderia pensar em por-te em risco, como eu viveria sem ti?
— Tu não me vais odiar Jane?— questionou a loira com os olhos praticamente a marejar.
— Como eu poderia odiar-te, se eu te amo? Amo-te, amo-te— respondeu a morena, colocando a mão sobre a face da loira acariciando-a.
— Desculpa Jane, desculpa-me por favor…— a loira falava com as lágrimas a escorrer pela cara.
— Não há nada para desculpar… Tu és a pessoa que menos culpa tem Maura… Acredita que se eu pudesse socava aquele médico…
— Jane— a loira repreendeu
— Eu sei, mas ele merecia Maura, ele não podia enganar-se desta voz Maura, ele não podia.
— Tu bateres-lhe não vai mudar nada Jane… Eu só quero voltar ao que eu era – respondeu a loira
— E vais voltar… E nós não podemos ficar com este bebé, mas nós podemos tentar mais tarde.
— Quem sabe… – respondeu a loira
— Estás melhor amor? – falou Jane de forma calma enquanto deslizava a mão sobre as costas da loira.
— Sim — disse com um esgar de lábios.
Maura ainda estava desesperada por tudo que aconteceu, acima de tudo ainda estava revoltada pelo erro grave que o médico cometeu, mas contar com o apoio de Jane, de Ângela, da sua família e poder ouvir os conselhos deles ajudou a enxergar de uma outra forma tudo aquilo que estava a viver. Não havia alternativa, por mais que ela quisesse aquele bebé não havia alternativa, não era só a vida dela que estava em causa, como ficaria a Jane sem ela, como ficaria o Fred depois de perder a mãe pela segunda vez, como ficaria a sua mãe Constance e o seu pai Arthur se perdessem a única filha, mesmo não sendo presentes na sua vida, Maura reconhecia neles o amor que tinham por ela, e aquele bebe? Estaria saudavelmente perfeito para poder nascer e ter uma vida descansada como todas as crianças deveriam ter, estaria saudavelmente perfeito para poder correr pelas ruas como as outras crianças, estaria saudavelmente perfeito para crescer e se tornar auto suficiente, sem depender delas para viver durante toda a vida?
— Maura eu amo-te acima de tudo. Preferia morrer a ficar sem ti.
— Eu também te amo muito… Obrigada por me compreenderes, por estares sempre ao meu lado, por não me deixares ir ao fundo. Eu amo-te com todas as forças que habitam no meu corpo.
— Amanhã tudo vai voltar a ficar bem Maur – falou a morena enquanto acariciava a loira.
— Jane?
— Sim Maur?
— Nada, esquece – respondeu a loira
— Qual é Maur, podes perguntar o que quiseres.
— Como seria se nós pudéssemos ter este bebe? – questionou a loira
— Seriamos muito felizes Maura – respondeu a morena— Mas não adianta pensar Maura, só vai ser mais doloroso — concluiu Jane.
— É, eu sei
— E que tal se eu te der um beijo, entrelaçar-me em ti e dormirmos agarradinhas? Nós precisamos de descansar.
— Eu adoraria Jane.
Jane aproximou-se mais da loira, colando os dois corpos e a segurar os braços de Maura colou os lábios num selar profundo, sentido e demorado. Maura aconchegou-se no corpo da morena, colocando as suas costas junto ao peito da morena e a morena passou os braços sobre a barriga da loira e de repente deposita-lhe um beijo calmo no pescoço.
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