Um amor maior
41 Capitulo 40 - Energia
Notas iniciais
Jane vestiu um short curto de corrida preto e um top curto cinza que deixava à mostra os seus abdominais bem definidos, prendeu o cabelo num rabo de cavalo e calçou uns ténis de corrida, por sua vez Maura vestiu umas calças leggins pretas, uma blusa regata azul turquesa e calçou uns ténis, sempre acompanhada da sua inseparável peruca.
As duas saíram de casa e seguiram até ao Boston public garden numa marcha calma, quando lá chegaram começaram por fazer um aquecimento básicos para dessa forma evitar lesões nos músculos e articulações, fizeram alguns movimentos com a cabeça para um lado e para o outro, giraram os braços, os pulsos e os tornozelos, fizeram saltos afastando as pernas e os braços ao mesmo tempo e alongaram os membros.
Depois de bem aquecidas Maura e Jane começaram a correr num ritmo bom, iam a correr lado a lado, mas alguns quilómetros depois Maura começou a ficar para trás, cedendo ao cansaço que começava a sentir.
Então Maura travou a corrida, arqueou o corpo, colocou as mãos sobre os joelhos e procurou recuperar o fôlego
— Vamos Maura corre – falou Jane num tom de incentivo vendo que a loira havia parado de correr
— Não consigo mais Jane, os tratamentos estão a dar cabo de mim— falou Maura com uma expressão super desiludida enquanto ofegava.
— Não podes desistir assim Maur anda…— falou Jane aproximando-se de Maura — Eu ajudo-te amor.
— Obrigada Jane
Jane entrelaçou os dedos em Maura, passando-lhe confiança e começou a correr calmamente puxando a mão de Maura que a seguia, o caminho era tranquilo, não haviam altos e baixos, era praticamente uma linha recta, o que facilitava bastante a corrida.
Jane soltou a mão de Maura devagar, olhou-a nos olhos e Maura sorriu-lhe confirmando que estava bem e então Jane começou a aumentar o ritmo da corrida sendo seguida por Maura, que fazia o maior esforço para se manter ao lado da morena, que embora aumentasse o ritmo sabia quais eram os limites de Maura e não os iria forçar.
— C´amon Maura c´amon— falava Jane com um sorriso incentivando a loira
Quando faltava alguns metros para acabarem a corrida, começaram a baixar o ritmo da marcha, até que seguiram a andar, procurando recuperar o fôlego. Depois de descansarem um bocadinho fizeram alguns dos exercícios que Maura tinha no seu plano de treino, fizeram alguns abdominais, alguns agachamentos e também algumas pranchas.
Já passava das nove da noite quando voltaram para casa, mais uma vez o Fred tinha ido dormir na casa da avó, desta vez na companhia do primo T.J. com quem adorava brincar.
Maura e Jane subiram ao quarto tomaram um duche rápido vestiram o pijama e desceram até à cozinha para comeram uma refeição leve, no fim de jantar voltar a subir para o quarto e deitaram-se na sua cama.
Trocaram alguns carinhos e alguns beijos, mas estavam tão cansadas que adormeceram rapidamente, sentiam o corpo exausto, Jane tinha tido um dia longo no departamento e ainda tinha ido fazer exercício com a Maura e a Maura os tratamentos deixavam-na praticamente sem energia.
Os tratamentos de Maura continuavam e, embora ela continuasse a ir à clínica todos os dias, via pouco aquele homem que tanto tinha contribuído para que os tratamentos de quimioterapia fossem menos duros, o enfermeiro Raul.
Maura não conseguia subir até ao piso da quimioterapia, o cheiro que aquele tratamento deitava causava-lhe náuseas e aquele vermelho continuava a povoar a sua mente e a atormenta-la.
Um dia, durante a segunda semana de radioterapia, em conversa com a administradora da clínica Sarah, Maura falou das saudades que sentia do enfermeiro Raul e da psicóloga que a havia acompanhado durante a fase da cirurgia, era estranho como em tão pouco tempo Maura conseguiu criar laços estai fortes, quando durante toda a sua vida, havia preferido viver fechada dentro da sua própria bolha, na sua inteligência, no meio dos mortos, dos documentários.
— Nunca mais vi o enfermeiro Raul nem a psicóloga, gostava de ir visita-los, mas só de pensar em subir até ao piso da quimioterapia fico enjoada— falou Maura dirigindo-se a Sarah.
— Acredito que eles também sentem a sua falta Maura. Vi que você e Jane criaram uma bonita relação de amizade com o enfermeiro Raul— falou a administradora da clinica
— Sim, é verdade. O enfermeiro é uma pessoa muito especial, ajudou muito a mim e à Jane durante os primeiros tratamentos de quimioterapia – respondeu a loira
— Então e a Jane não a tem acompanhado a estes tratamentos?
— Não é necessário, são apenas alguns minutos e ela faz muita falta lá no departamento. Mas por ela viria a todos, ela é cabeça dura, deu um trabalhão convence-la— respondeu a loira não escondendo o sorriso que surgia naturalmente na sua cara quando falava da morena.
— Nisso tem razão a Maura é bem acompanhada por nós... Dá para ver no vosso olhar que são completamente apaixonadas uma pela outra
— É— Maura assentiu com a cabeça – não sabemos viver uma sem a outra.
—Acredite Maura, infelizmente ainda é comum relacionamentos desfeitos a partir do diagnóstico de cancro, não é fácil superar tudo o que acontece desde então , vocês as duas são um verdadeiro exemplo, o amor que vemos nos olhos da Jane é indescritível, ela não somente a ama, como a admira.
— E eu a amo e a admiro mais do que a qualquer coisa nesta vida. Eu sei que não tem sido fácil para ela e que teria sido mais fácil para ela desistir de mim, mas ela não o fez nem mesmo quando eu própria estava decidida a fazê-lo, ela acreditou que seria possível vencer muito antes de mim. E eu a admiro mais por saber que sem ela eu não teria forças para superar, foi ela quem lutou por mim, pela nossa vida, pelo nosso filho, pelo nosso amor – os olhos de Maura marejavam ao pronunciar aquelas palavras.
A partir do dia em que Maura falou com Sarah tanto o enfermeiro Raul como a psicóloga passaram a vir cumprimenta-la, sempre que podiam, no piso da radioterapia.
— Olá doutora Isles— falou o enfermeiro ao entrar na sala onde Maura fazia o tratamento de radioterapia.
—Oh – murmurou Maura em sinal de espanto ao ver aquela figura à porta da sala— que surpresa boa enfermeiro, que bom que veio— falou aproximando-se do homem.
Naquele momento Maura sentiu de novo aquele cheiro que a deixava apavorada
—Não é possível, o cheiro vem agarrado ao tecido — pensou Maura para si,
Então, imediatamente antes de se chegar totalmente ao homem, Maura susteve a respiração e deu um beijinho e um abraço apertados ao enfermeiro.
— Já sentia a sua falta doutora, aquela sala já não é a mesma coisa, sem as suas histórias e as ironias de Jane – falou o homem de forma carinhosa enquanto afagava as costas de Maura no abraço. O homem olhou ao redor e estranhou a ausência de Jane – Oh onde é que anda a nossa detective durona? Achei que iria encontra-la aqui.
— Sabe como é enfermeiro, Boston sente falta da sua melhor detetive. Ela precisou de ir trabalhar e eu achei que não seria necessario ela acompanhar-me aos tratamentos de radioterapia— respondeu Maura
— Então terá de lhe dizer que ficarei à espera de uma visita dela, doutora, antes da vossa viagem. Quando é que vão viajar mesmo, doutora?
— Direi com certeza enfermeiro Raul. Daqui a dez dia acho eu, mas é a Jane que está a tratar de tudo, eu não sei de nada, nem mesmo o destino.
— Acredito que será uma boa surpresa para si doutora.
Os dias passavam e os tratamentos radioterápicos de Maura continuavam a realizar-se na maior descontracção.
Por esta altura do tratamento, a segunda semana, a mama direita de Maura, onde tinha sido operada, começou a ficar vermelha, depois empolava, como uma bolha e nessa altura Maura começou a sentir muitas dores, qualquer toque por mais simples que fosse tornava-se agoniante.
Para tentar diminuir o desconforto que sentia Maura colocava compressas de água gelada e andava sempre com bastante creme, para poder hidratar a região. Dessa forma sentia-se um bocadinho aliviada, mas como não podia fazer uma pausa nas sessões de radioterapia, aquele ardor permanente, que mais parecia uma queimadura solar em ultimo grau, nunca passava, muito pelo contrário, há medida que as sessões aumentavam a dor só piorava, nesta altura Maura nem conseguia apanhar qualquer tipo de sol, só o calor fazia Maura sentir dor, mesmo através da roupa.
Pouco menos de duas semanas, depois de ter começado a fazer o plano de exercícios com Jane, que Maura seguia à risca mesmo nos dias de maior cansaço, Maura já notava alguns resultados, as suas pernas começavam a voltar a estar secas, magras, definidas, braços e costas também já haviam recuperado alguma da sua forma anterior. Mas na barriga tudo continuava igual, por mais abdominais que Maura fizesse, continuava com uma barriga saliente, alias neste tempo parecia que até tinha aumentado.
— Como é que isto possivel, nem com os abdomnais a minha barriga volta ao normal – pensava Maura para si
Então Maura decidiu contactar uma nutricionista à procura de uma dieta que a ajudasse a perder a barriga.
Era sexta-feira, o ultimo dia de tratamento radioterápico da segunda semana, depois de sair da clínica onde realizou o tratamento, Maura foi até a uma clínica de nutrição que lhe haviam sugerido, a nutricionista que a iria atender chamava-se Carol Smith e tinha um currículo invejável, para além de ser considerada uma das nutricionistas com mais sucesso no estado, muitos eram os casos de pacientes com excelentes resultados que saiam das mãos de Carol e por isso Maura sentiu-a total confiança nos resultados que ela própria iria apresentar.
Maura entrou no consultório da nutricionista Carol apresentou-se e explicou a Carol todo o seu processo clínico e os motivos que a levavam até ela.
— Maura já ouviu falar de dieta liquida?- questionou a nutricionista Carol Smith
-Sim doutora, mas nunca experimentei, alias nunca fiz dieta mas mantenha uma alimentação bastante saudavel. Mas não tem resultado ultimamente!— respondeu Maura olhando para a mulher à sua frente
— A dieta líquida é ideal para quem quer emagrecer rápido.É uma dieta à base de líquidos e elimina aproximadamente três quilos em cinco dias, pelo que vejo a Maura também não precisa de emagrecer muito mais. O cardápio da dieta líquida, é composto basicamente por alimentos líquidos, como sucos, sopas, vitaminas e oferece mil calorias diárias.
— Acha que poderá ser viàvel no meu caso Carol? — questionou Maura
— Sem duvidas doutora. Mesmo sendo líquida, esta dieta não compromete a saúde e nem a disposição. Isso porque as refeições são nutritivas, preparadas com frutas, verduras, legumes e cereais— concluiu a doutora Carol
— Sendo assim como e quando poderei começar? – questionou Maura
— Já amanha Maura, vou lhe preparar um plano alimentar, com seis refeições diárias, que quero que siga a risca, é importante fazer várias refeições ao dia, como a doutora deve saber.
— Sim, eu sei Carol. – concluiu Maura com um ligeiro sorriso
A nutricionista pensou um bocadinho, olhou alguns livros e foi escrevendo no seu portátil o plano de dieta liquida de Maura e por fim mandou a folha imprimir:
— Doutora aqui está – falou a nutricionista colocando a folha sobre a mesa – Esta dieta só pode ser feita durante cinco dias, então tracei-lhe um plano para esses mesmos dias. Depois quando acabarem os cinco dias pode fazer uma alimentação normal, mas regrada, como já fazia antes. — concluiu Carol

— Sendo assim começarei já amanha doutora – falou Maura dando um sorriso à nutricionista.
— A Maura tem mais alguma duvida que queira colocar?
— Não doutora — respondeu Maura
— Então por hoje é tudo. Até mais Maura. – falou a mulher erguendo-se da cadeira e estendendo a mão para se despedir de Maura
Maura saiu da clínica toda empolgada e com intenções de começar a por em prática aquela dieta liquida já a partir do dia seguinte, Maura estava decidida a emagrecer e para isso não se importaria de fazer qualquer esforço.
Antes de ir para casa passou no supermercado e comprou todos os produtos que seriam necessário para seguir o plano à risca. Quando chegou a casa e à sua espera já estavam Jane e Fred, que estavam sentados no tapete da sala a a fazer os trabalhos de casa.
Quando Maura abriu a porta, ambos sorriram ao ver entrar a loira.
— Olá meus amores— falou Maura ao entrar em casa, aproximando-se de Jane e Fred.
— Olá mamã— respondeu Fred, correndo até Maura para lhe dar um beijo e um abraço apertado.
— Olá Maur - falou Jane levantando-se e dando um beijinhos nos lábios da loira – Onde é que foste?— questionou a morena curiosa.
— Eu disse-te ontem, fui à clínica de nutrição – respondeu a loira — Vou começar a fazer uma dieta liquida durante cinco dias.
— Isso consiste em quê? – questionou Jane fazendo uma cara estranha
— A dieta líquida é um regime alimentar em que só é permitida a ingestão de líquidos como água, chás, sucos sem açúcar, sopas e vitaminas – explicou a loira
— Tens a certeza que não será prejudicial para ti Maur?
— Não há problema Jane as refeições são nutritivas, preparadas com frutas, verduras, legumes e cereais e muita água.
— Ok, mas eu vou estar atenta, se eu vir que estás a por em risco a tua saude, tu acabas com essa dieta maluca imediatamente. Não quero que nada de mal te aconteça Maur – respondeu Jane aproximando-se de Maur fazendo-lhe um carinho na face
— Não irá acontecer Jane, prometo que não irei fazer nada que coloque em risco a minha saúde.
— E essa dieta começa quando?
— Só amanha Jane
— Então hoje ainda estas liberada para comer as minhas porcarias. Fred o que achas de pizza para o jantar? — questionou a morena olhando para o menino sentado no tapete da sala
— Iupi mama iupi – respondeu o menino dando pulos de alegria
Jane ligou para a pizzaria e encomendou, duas pizzas, uma calabreza para Fred e para ela e outra pizza vegetariana para Maura.
O jantar como sempre foi muito animado animado, Maura, Fred e Jane riram, brincaram e Fred contava toda as suas histórias da escola, era impressionante, como com o avançar do tempo, o menino estava cada vez mais parecido com Jane, descontraído, preocupado, destemido, começava a saber usar as ironias e tinha um humor bastante afiado, mas uma coisa ele era totalmente parecido com Maura, era doce e carinhoso como a loira, para além de ter uma inteligência que se misturava com as duas, era inteligente nas relações interpessoais como Jane e culto como Maura.
Quem não conhecesse a história de Fred não diria que ele não tinha nascido delas.
Ao fim de quatorze sessões de radioterapia em outros tantos dias, Maura preparava-se para entrar naquela que seria a ultima, a décima quinta. Tinham-se passado três semanas.
Era exatamente meio dia, todos os tratamentos radiológicos de Maura tinham sido aquela hora, todos os doentes têm um horário fixo. Maura entrou na sala de radioterapia como sempre, calma e bem disposta, acrescido o facto de esta ser mais uma etapa terminada dos tratamentos e isso deixava-a muito feliz, sentou-se na mesa do acelerador, o terapeuta ajeitou-a de forma correta, saiu da sala deixando Maura sozinha e minutos depois estava terminado, parecia que desta vez tinha passado em segundos.
— Muito bem doutora, tratamento de radioterapia terminado. Portou-se muito bem nestas quinze sessões.— falou o terapeuta ao reentrar na sala.
— Não via a hora de terminar— respondeu Maura com um sorriso-
— Agora pode ir para casa e festejar, mais uma etapa terminada com sucesso. Quantas sessões de quimioterapia ainda lhe faltam doutora?
— Três dolorosas sessões— respondeu Maura.
— Passam num instante Maura e valerá a pena— falou o homem com um sorriso – Depois quero voltar a vê-la para festejarmos. Não se esqueça! Há e ouvi tanto falar da Jane que quero conhecê-la.
— Não esquecerei. Ser-lhes-ei eternamente grata, o mínimo que posso fazer é voltar aqui – respondeu a loira com um sorriso.
— Agora vá para casa Maura, ouvi dizer que irá fazer uma viagem, aproveite e divirta-se.
Maura saiu da clínica com um sorriso radiante espantado no rosto e assim andou durante os dois dias que antecederam domingo, dois dias haviam passado desde que Maura terminou os tratamentos radioterápicos, amanhã ela e Jane iriam viajar.
Jane ainda não tinha contado nada da viagem a Maura, apenas que deveria levar apenas uma mala pequena, com vestidos, saias, tops e regatas, casacos de malha, sandália e tenis, ou seja roupas apropriadas para uma estação quente e que teriam de estar no aeroporto para apanhar o avião às sete da manha, de segunda-feira.
Há muito tempo que Maura não se sentia tão bem, fazer aquela viagem era uma como uma brisa suave num dia de altas temperatura, seria reconfortante, rejuvenescente e pelo menos durante seis dias, o tempo que duraria a viagem, ela iria esquecer de tudo e ser feliz, amar muito e ser muito amada, pelo menos era o que ela desejava.
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