Um amor inesperado
42 Outra pessoa
Horas depois, Giane foi para casa. Contou ao pai tudo o que aconteceu.
— Então, você foi no casamento do Bento só pra isso? — perguntou Silvério, indignado pela filha ter feito escândalo. — Você ficou louca, Giane?
No ponto de vista de Silvério, a filha não tinha nada que ter feito barraco, interrompido a cerimônia. Ela agora era uma pessoa pública, tinha uma imagem a zelar. Ele não queria que a filha se prejudicasse.
— Louco é ele, que ainda assim, casou com a Amora. — disse Giane. — Pra piorar, ainda terminei com o Caio.
Ouviram a voz de Fabinho, lá do quarto.
— Não, pai...
— Pai, como é que ele tá? — perguntou Giane.
— Se a febre não baixar, vamos ter que levar pro hospital.
Giane e Silvério foram ao quarto dar uma olhada no rapaz. Fabinho continuava febril, inconsciente, mexia-se inquieto e balbuciava:
— É meu, pai. É meu, é meu.
— Meu Deus do céu, pai! Ele tá delirando! — disse Giane, preocupada.
— Pior é que já tomou o remédio e a febre não baixa de jeito nenhum. — disse Silvério. Estava realmente preocupado com Fabinho.
Giane não estava suportando ver o sofrimento do garoto. A febre não abaixava e ele estava delirando. Ela tinha medo que ele tivesse uma convulsão.
— Para de frescura, hein? Para com isso. — disse Giane, aproximando-se e sentando-se na cama, ao lado dele. Não sabia o que fazer. Só queria, de alguma forma, acabar com o sofrimento dele, ou ao menos amenizá-lo.
— Pai... — balbuciava Fabinho.
— Delírio é coisa de mulherzinha, hein? — disse Giane, com carinho.
Ela continuou cuidando dele. Não saiu do lado de Fabinho um minuto sequer. Algum tempo depois, estava limpando a ferida quando Fabinho finalmente acordou.
— Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! — o garoto gemeu.
— Ué, acordou? — perguntou Giane, aliviada.
Ela tinha medo de que ele não acordasse mais. Notou a surpresa e a confusão no rosto do rapaz. Fabinho não esperava estar ali, no quarto dela. Ele parecia estar com medo também. Mais do que isso, era pânico. Será que ele ainda achava que ela iria chamar a polícia?
— O que eu tô fazendo aqui? Me tira daqui! — disse Fabinho, tentando levantar, porém, sentiu dor na perna. — Ai! — gemeu.
Giane não conseguia entender. Por que Fabinho tinha horror a ela? Por que ele não conseguia confiar nela? Por que era tão arredio, tão resistente aos outros? O que havia acontecido com ele, qual era o problema dele?
— Ué, você quer ir, vai. — disse Giane. — Mas se você ficar, você vai ficar quieto, vai me obedecer e vai me deixar cuidar de você. Shiu, quietinho!
Pelo visto, Fabinho resolveu ficar, pois não tentou se levantar, nem protestou mais. Giane continuou limpando o machucado e, em seguida, fez um curativo. Fabinho ficou quieto, nem puxou conversa. Acabou adormecendo. A princípio ele parecia dormir tranquilo, porém, seu sono tornou-se muito agitado. Giane permanecia ao lado dele. Fazia compressas frias, passava um pano úmido na testa dele, na tentativa de abaixar a febre.
— Minha bola. Minha bola, minha bola. — balbuciava o rapaz.
Silvério entrou no quarto para ver como Fabinho estava. Estava disposto a se oferecer para ficar com ele, para a filha descansar.
— Hein, filha, não vai dormir, não? — perguntou Silvério.
Giane achava que não conseguiria dormir, de tanta preocupação.
— Pai, não consigo. Não consigo deixar ele aqui desse jeito.
— Minha bola! O carro, o carro! Minha bola, minha bola! — dizia Fabinho, segurando o braço da garota. A mão dele era macia e estava muito, muito quente.
— Ô pai, ele fica falando dessa bola, não sei por quê! — disse Giane.
— Bom, eu... Eu tô na sala. — disse Silvério, apontando para a sala. — Se precisar de alguma coisa, só chamar. — saiu do quarto.
Giane continuou passando o pano úmido no rosto do rapaz. Não sabia o que fazer para tirar o garoto daquela angústia. E era estranho para ela estar tão perto dele, cuidando dele. Por muito tempo, sentiu muita raiva dele. Ele lhe despertava sentimentos muito ruins. Desprezo, até mesmo ojeriza. Ela não suportava estar no mesmo ambiente que ele. A presença dele a incomodava muito. Ela sentia a energia negativa e pesada que ele emanava. Além disso, ele a tirava do eixo. Ele mobilizava o que ela tinha de pior, e a fazia se lembrar do quanto podia ser grosseira, estúpida, mal-educada e agressiva. Agora, por incrível que pareça, Fabinho estava lhe despertando sentimentos completamente diferentes. Compaixão, pena, medo, carinho. Ela nunca tinha visto aquele menino tão fragilizado. Nunca tinha estado tão perto dele, nem tinha sentido o calor de sua pele, nunca tinha sentido tão próxima sua respiração.
— Minha bola, minha bola! — disse Fabinho, com lágrimas nos olhos.
Neste momento, Giane lembrou-se de sua infância. Do tempo em que ainda existia o lar, e ela brincava com as crianças do lar. Ela e Bento eram as únicas pessoas que brincavam com Fabinho. As outras crianças o deixavam de lado, o excluíam. Fabinho não era exatamente uma criança bacana. Ele sempre teve um gênio difícil, e sempre aprontava, infernizava todo mundo por conta da inveja que sentia do Bento. Fabinho sempre mentia, intrigava e Bento era seu alvo principal. As outras crianças não o suportavam. E com razão, pois Fabinho era injusto com Bento e acabava sempre jogando uns contra os outros quando achava que convinha. Além disso, as mentiras e intrigas faziam com que as crianças não confiassem nele. Fabinho tinha o péssimo hábito de criar brigas, confusões, discussões ou tumultos por onde passava. Mas Bento não guardava rancor e procurava incluir Fabinho nas brincadeiras, tentava ficar amigo dele, e Giane se esforçava para seguir o exemplo do amigo. Ela e Bento brincavam com Fabinho para que ele não ficasse completamente isolado. Eles partiam do princípio deque não era correto excluir ninguém, por mais que as outras crianças tivessem suas razões para não gostarem de Fabinho.
Giane lembrou-se de uma vez em que estava brincando com Fabinho. Os dois jogavam futebol. Viviam competindo, desafiando um ao outro. Ela até gostava de brincar com ele, sobretudo de desafiá-lo, provocá-lo. Ela começou a brincar com ele por bondade, compaixão, mas o que a fez continuar foi o fato de gostar de um desafio. Além disso, ela sentia que estava fazendo bem a ele ao não ignorá-lo, não excluí-lo. Ela se sentia nobre ao brincar com o garoto que a maioria das crianças evitava.
— Vem! Vem! — disse Giane, chutando a bola. — Vem, Fraldinha, vem, vem!
— Você vai ver, sua maloqueira! — disse Fabinho, correndo atrás dela.
Giane chutou a bola, que foi parar no meio da rua. Um carro estava passando naquele momento.
— Minha bola! — gritou Fabinho, desesperado.
O carro acabou passando por cima da bola.
— Não! — gritou Fabinho.
Fabinho e Giane correram em direção a bola, que estava destruída. Fabinho pegou a bola do chão.
— Olha o quê que você fez! — disse Fabinho, furioso, começando a chorar.
— Tudo bem, vai, meu pai te compra outra! — disse Giane.
— Compra nada! Seu pai é faxineiro e essa bola é cara, sua idiota! — xingou Fabinho, chorando. — Foi meu único presente de natal!
O garoto saiu correndo. Ela disse:
— E precisa chorar, Fraldinha? Moleque fresco!
Giane despertou-se de suas lembranças. Como Fabinho ainda podia se lembrar daquele episódio da bola, depois de tanto tempo? Ela nem se lembrava mais. Tinha esquecido completamente. Era incrível como ele assim, debilitado, tão frágil, lembrava tanto aquele garotinho, que chorava por causa de uma bola perdida. Quando criança, ela achou frescura da parte dele, chorar por causa de uma bola de futebol que podia ser facilmente substituída. Para ela, era apenas uma bola. Agora sentia pena, ternura por aquele menino. Lamentava tê-lo feito sofrer.
Foi então que ela se deu conta. Se ele estava delirando, lembrando deste episódio da bola, tantos anos depois, era porque esta história o marcou. Conhecendo Fabinho como ela conhecia, ele na certa achou que ela tinha destruído a bola de propósito, por pura maldade. Só que ela não fez de propósito. Foi um acidente, e ela nunca imaginou que Fabinho pudesse ter ficado tão magoado. Se bem que ela não pediu desculpas, o que pode tê-lo levado a interpretar da maneira errada. Na época, ela não deu importância ao ocorrido. Para ela foi bobagem, um acontecimento trivial. Ele chorou, e ela o chamou de fresco. Agora, finalmente ela estava entendendo. Sem querer, ela havia causado um trauma profundo que ele não superou. Será que era por isso então que Fabinho tinha tanta raiva dela? Fabinho mal olhava na cara dela, estava sempre evitando-a. Giane nunca achou normal a maneira como ele reagia quando ela chegava perto. Com certeza, era por esta razão que Fabinho não conseguia confiar nela, acreditar nela. Este episódio da bola o feriu tão fundo que ele nem conseguia falar sobre isso. Fabinho nunca tocou neste assunto com ela.
Ele não se lembrava dela como a menina generosa que brincava com ele, e sim como uma menina cruel, que destruiu de propósito, por pura maldade, o único brinquedo que ele tinha ganhado de natal e ainda tratou a tristeza dele como bobagem, como frescura, fraqueza. A tristeza dele era legítima. Ela havia acabado com a única alegria que ele tinha. Para ele, aquela bola era o que ele tinha de mais precioso. Ele não ganhava muitos brinquedos quando morava no lar do Gilson. Fabinho na certa se sentiu muito humilhado e rejeitado por ela, porque ela havia dado a entender que não ligava a mínima para os sentimentos dele, para o que era importante para ele, como se ele não tivesse importância alguma. Ela não demonstrou a menor empatia e nem pesar pelo ocorrido. Isso havia doído muito nele.
Ao chamá-lo de fresco, foi como se ela o tivesse diminuído, embora esta não tivesse sido a intenção dela. Se tratando de Fabinho, isso era uma tragédia, porque ela era a única criança que brincava sozinha com ele, voluntariamente, dando a ele uma atenção exclusiva que ninguém mais dava. Ela era a única que não o ignorava completamente, além de Bento. Ele se sentia sozinho e rejeitado pela maioria das crianças. Ela podia não se considerar grande amiga dele, mas na prática, era a criança mais próxima a ele, mesmo que a relação deles não tivesse profundidade. Ele tinha mais intimidade com ela do que com qualquer outra criança, embora não se comparasse ao nível de amizade e intimidade que ela tinha com Bento. A única experiência de algo próximo do afeto que ele teve foi com ela, e isso havia se perdido. Giane agora se dava conta do quanto havia sido insensível, dando a entender que a dor dele não importava. Ela, sem querer, fez com que ele se sentisse humilhado, inferiorizado.
O problema não foi o fato de ela ter destruído a bola sem querer, foi o que aquilo significou para Fabinho. Ele passou os últimos quinze anos acreditando que ela foi cruel com ele, que ela o humilhou e rejeitou. Para Fabinho, não havia nada pior do que se sentir rejeitado pela única criança próxima a ele. Giane agora se dava conta de que para ela, ele era um colega de chuteiras. Para ele, ela era o mundo, sua única fonte de alegria. Ele se apegou a ela por se sentir sozinho e invisível. As outras crianças não ligavam a mínima para ele, era como se ele não existisse para ninguém. Fabinho se sentiu chutado a vida inteira, por todo mundo, inclusive por ela. Ela teria de fazer alguma coisa para desfazer este mal entendido. Ela nunca teve a intenção de chutar ninguém, nem de ferir, menosprezar.
Giane entendia bem o que era a rejeição: ela foi rejeitada como mulher por Bento, o que para ela era doloroso, pois Bento era o centro do seu universo. Ela também sabia o que era se sentir invisível. A vida inteira ela se sentiu invisível e indesejável como mulher. Ninguém a queria, nenhum homem a achava linda e maravilhosa, nem mesmo o único homem que importava para ela. Ela também finalmente entendeu que ela e Fabinho tiveram reações opostas ao mesmo sentimento: a sensação de não serem bons o suficiente. Fabinho sentia inveja por se sentir menos e ofuscado perto de Bento, por estar sempre à sombra dele, ela sentia que nunca seria boa o suficiente para que Bento a desejasse como mulher. Claro que, no ponto de vista dela, nada justificava Fabinho tentar destruir Bento, mas ela podia entender melhor do que ninguém a sensação de inadequação, de insuficiência, de ser invisível. Ela sabia o que era olhar para Bento e se sentir menor, sem valor, sentir que não estava à altura dele.
Ela se deu conta do quanto Fabinho era sensível, frágil e carente de afeto, pois fazia de tudo para chamar atenção, ainda que de maneira negativa. Aquele jeito durão dele era fachada. Por trás daquela agressividade, empáfia e amargura, havia um garoto ferido e magoado que nunca havia se sentido amado e valorizado na vida. Ele passou a vida inteira se sentindo rejeitado e indesejado. A infância no lar de adoção o marcou muito mais do que ela pensava. Além de ele nunca ter aceitado a orfandade, se sentir abandonado, ele era o garoto problemático que ninguém queria por perto, que a maioria das crianças evitava.
Gilson e Salma eram pessoas bondosas e fizeram o possível para proporcionar um lar seguro e amoroso para crianças que não tinham para onde ir, porém nada do que fizeram foi o suficiente, por mais bem intencionados que fossem. Infelizmente, não foi o suficiente para Fabinho se sentir amado, seguro, pertencente. Era como se ele tivesse um buraco no peito que nada nem ninguém conseguia preencher. Além disso, Fabinho era visto como criança problemática. Os adultos viviam reclamando dele, e ele devia ter se sentido um fardo, menos amado, ainda mais em comparação a Bento. E como Margot só o adotou porque Bento não quis ser adotado, ele certamente se sentiu a segunda opção. Talvez por isso ele tivesse tanta raiva do mundo. Não era apenas arrogância, orgulho. Ele não se sentia amado, aceito, se sentia sem valor e não havia encontrado pertencimento em lugar algum. Ele havia reagido à dor do abandono de maneira oposta ao Bento. Fabinho simplesmente não conseguiu reagir ao trauma com a mesma maturidade e resiliência que Bento. Ele se sentia um objeto descartável. Atacar as pessoas era na verdade uma maneira torta que ele havia encontrado de se defender, ou de se fazer notar. Ele usava a agressividade para se defender do mundo, assim como ela, Giane.
Ela admirava tanto Bento pelo otimismo, pela bondade e generosidade, pela sua vocação para a felicidade, por ele não ter se amargurado nem se revoltado com a orfandade. E ela vivia criticando Fabinho por descontar suas frustrações nas pessoas, por ele não dar valor às coisas boas da vida, se amargurar, se comportar como se o mundo devesse alguma coisa a ele. Mas ela agora se perguntava se o fato de Bento focar no que tinha e não no que faltava não seria também uma maneira de se defender, um jeito que ele encontrou de não sofrer pelo abandono, como Fabinho. Era óbvio que Fabinho sofria pelo abandono, por se sentir rejeitado.
Ela não tinha noção do tamanho ou da profundidade de sua dor, do quanto ele se sentia sozinho. Ela não percebeu antes porque nunca havia se colocado no lugar dele. Não de verdade. Nem tinha como, pois ela não tinha como saber o peso de ser a criança problemática que todos evitavam. Ela não fazia ideia do que era crescer sob o estigma da criança encrenqueira. O comportamento e o jeito de Fabinho não ajudavam, mas não devia ter sido nada fácil para ele lidar com tanta rejeição. Ela podia não ter sido a criança mais popular da rua, mas também estava longe de ser a mais rejeitada. Ela teve uma infância feliz, tinha Bento como melhor amigo, sempre jogou futebol com os meninos da rua, era aceita entre eles, era querida por todos na vizinhança. Ela tinha amigos. Fabinho não, ele sempre foi o rejeitado, o excluído e não tinha ninguém além dela. Mas Fabinho não se permitia mostrar fragilidade, ela só via a empáfia dele. Agora ela entendia que por trás daquela arrogância havia dor. Ele no fundo era um garoto que se sentia sozinho e sentia falta de ser amado. Ela só entendeu a dor dele quando sentiu uma dor parecida, quando cresceu e se tornou a mulher invisível e inadequada que nenhum homem queria namorar. Ela passou anos se comparando com mulheres mais femininas, mais delicadas, se sentindo sempre em desvantagem e achando que nenhum homem iria querê-la. Ela conhecia bem a sensação de se sentir inferior e indesejável. E sabia o que era ser rotulada. Fabinho passou a vida toda carregando o rótulo de menino malvado e problemático, e ela carregava o rótulo da menina moleca, fora dos padrões, que era vista como um dos meninos.
Agora Giane estava vendo Fabinho com outros olhos, não mais como o garoto malvado que machucava as pessoas que ela amava, mas como o garoto ferido. Ela se deu conta de que era a primeira vez na vida que ela enxergava Fabinho de verdade. Ela o conhecia desde a infância, mas nunca o havia enxergado. Antes, ela estava cega. Ela nunca havia dado muita importância para Fabinho, nem quando eram crianças. Ela não podia nem dizer que se conheciam profundamente, porque não eram assim tão íntimos. Quando eram crianças, tudo o que faziam era competir no futebol, eram adversários no jogo. A vida os separou, e na vida adulta estavam distantes um do outro. Além do mais, a lembrança que ela tinha de Fabinho não era de um menino carente, e sim da peste do lar de adoção, que tentava aparecer mais que o Bento. Para ela, Fabinho era o garoto invejoso que tentava apagar o brilho do Bento. Ela só enxergava o Bento e via Fabinho como o rival do homem que ela amava. Foi assim por muito tempo.
Quando se reencontraram, ela passara a enxergá-lo não como seu amigo de infância, mas como um ingrato, um oportunista, alpinista social, um babaca invejoso de quem ela queria distância. Ela estava ocupada demais amando e protegendo Bento para sentir empatia por Fabinho. Para ela, Fabinho fazia maldades por inveja do Bento e porque se achava superior aos pobres. Ela não fazia ideia que ele carregava tanta dor, tanta mágoa, tanta raiva dentro de si nem havia passado pela cabeça dela que ele se comportava daquela maneira porque no fundo sentia sozinho e invisível. Aos olhos dela, tudo o que ele fazia era por pura maldade, por ingratidão, por se achar superior, prazer em pisar, por ver as pessoas como pedra no sapato, empecilho para ele conseguir ter a vida de príncipe que ele julgava merecer e por não suportar ver Bento feliz. Agora ela via que não era maldade pura. Ele não fazia maldades gratuitamente nem por esporte. As maldades dele eram reativas. Tudo de ruim que ele havia feito fora por carência, rancor, mágoa, ele queria dar o troco no mundo.
Não que ela acreditasse que havia alguma justificativa para os crimes, as mentiras e as intrigas. No pensamento dela, Fabinho havia errado feio e devia se arrepender sinceramente e buscar o perdão das pessoas. Por mais razões que ele tivesse para se sentir rejeitado e magoado, isso não significava que as pessoas deviam aceitar que ele as tratasse mal. Mas não seria ela a crucificá-lo, além do mais, ele havia levado porrada de tudo quanto é lado da vida, já devia ter tido tempo suficiente para refletir sobre suas atitudes e perceber as besteiras que havia feito.
— Quero minha bola! Minha bola, minha bola! — disse Fabinho, chorando, fazendo com que Giane se despertasse de suas lembranças.
A garota não aguentou vê-lo chorar. Sentiu um impulso de protegê-lo, acalmá-lo.
— Calma, cara! Calma, eu vou te dar outra bola. Não chora, não chora, não chora! — disse Giane, abraçando-o, emocionada, como se abraçasse o garotinho que ele foi.
— Por favor... — dizia Fabinho.
Giane não saiu mais de perto dele. Acabou adormecendo. Acordou sobressaltada com o movimento do rapaz. Já havia amanhecido.
— O quê que você está fazendo aqui, maluca? — perguntou Fabinho, sentando-se na cama.
— Ué, eu tô no meu quarto. — disse Giane, irritada. — Onde eu passei a noite cuidando de um palhaço que baixou aqui fedido, imundo e pelando de febre!
Ela sabia estar sendo grosseira, mas não se importava. Ele também havia sido rude com ela, logo que acordou. Ela estava respondendo à altura. A fera estava desperta. Era o Fabinho, o mesmo babaca de sempre. Naquele momento, ele não lembrava em nada aquele menino frágil e sensível da noite anterior. Era impressionante a capacidade que ele tinha de irritá-la, tirá-la do sério.
— Ai, tá bom, fala baixo, que eu não sou surdo. Ai, ai, ai, ai! — Fabinho gemeu.
— E aí, a febre baixou? — perguntou Silvério, entrando no quarto.
— É. Baixou, né, pai? Tanto que já acordou reclamando de tudo. — disse Giane, enquanto o rapaz cutucava na ferida.
— Ainda bem que você melhorou, né? — disse Silvério. — Senão, ia ter que internar. Bom, eu vou comprar mais antibiótico. Já volto.
Silvério saiu do quarto. Giane olhou para Fabinho.
— Por quê que você ficou assim, hein, cara?
O rapaz abaixou a cabeça.
— O quê que houve com você? — perguntou Giane.
O garoto não respondeu. Continuou com a cabeça abaixada.
— Ei! Qual é, mané? — disse Giane, irritada.
Será que ele não iria falar com ela? Não iria nem olhar para a cara dela? Fabinho continuava de cabeça baixa.
— O quê que é isso? — disse Giane, levantando a cabeça dele. — Olha pra mim, quando eu falo com você!
Quando viu as lágrimas nos olhos do rapaz, Giane disse:
— Desculpa.
As lágrimas do menino partiam o coração dela. Ela imaginava que ele devia ter sofrido muito nas ruas. Não devia ter sido nada fácil para ele viver como mendigo. Logo ele, que era filho único de uma família que um dia foi muito rica. Foi criado no luxo, no conforto. Para qualquer pessoa, viver na rua devia ser horrível. E para alguém como Fabinho, certamente era o fim do mundo. Ele chegou ao fundo do poço. Ela não fazia ideia, não conseguia nem imaginar o que ele devia ter passado. E ela imaginou que Fabinho só podia ter sofrido um acidente, para ficar com um machucado tão feio na perna. Na certa, caiu e se machucou. Ela ficou com pena dele.
Fabinho começou a enxugar os olhos com a mão.
— Eu não tô entendendo como eu vim parar aqui. — disse o rapaz, com a voz embargada. — Você que me encontrou?
— É. Você estava desmaiado ali na praça. — disse Giane.
— E aí, você me trouxe pra cá por quê? — perguntou Fabinho.
— Porque eu costumo ser legal quando alguém precisa de alguma coisa. — disse Giane, enquanto ele continuava enxugando as lágrimas. — Mesmo sendo um metido, safado, sem-vergonha, que não vai ter um pingo de gratidão depois.
— Assim, me dá muita vontade de agradecer. — disse Fabinho, irritado. — A pessoa ajuda e depois, fica jogando na cara, né? Dá vontade de ficar na rua.
Giane ficou furiosa. Ela o socorreu, o trouxe para casa, passou o dia anterior inteiro e a noite também, cuidando dele, e ele não era nem capaz de agradecer. Começou a se arrepender de tê-lo ajudado. Era melhor ter chamado um resgate e deixado que outras pessoas cuidassem dele.
— Mas você não tem jeito mermo, né? Não muda, cara! — disse Giane, irritada, levantando-se da cama. Ouviu batidas na porta e foi ver quem era.
Era o Bento. Giane ficou nervosa e quis impedi-lo de entrar. Bento não podia saber que Fabinho estava ali, senão chamaria a polícia.
— Como assim, não posso entrar? — perguntou Bento. — Era eu que tinha que estar bravo com você, depois do que você aprontou!
Depois que Giane deu aquele escândalo durante a cerimônia, a festa foi um verdadeiro fiasco. Giane conseguiu estragar tudo. Ele quis ir embora mais cedo, e ele e Amora ainda discutiram quando chegaram em casa. Ainda assim, ele acreditava que o amor que os unia resolveria todos os problemas. Esperava que a lua-de-mel fosse melhor que o casamento.
— Bento, eu fiz o que eu achei que devia fazer. — disse Giane, segurando a porta para que ele não entrasse. — Se você não gostou, então... Então, dane-se.
— Ai, ai, ai! — gemeu Fabinho, lá do quarto.
— Tem alguém aí? — perguntou Bento.
— Não tem ninguém. Não tem ninguém, Bento. — disse Giane. — É, se você já disse o que tinha pra falar, então, agora, você já pode ir embora.
— Não, peraí! Eu não disse o que eu tinha pra falar! — disse Bento. — Eu vim aqui pra pedir pra você cuidar da Acácia Amarela, enquanto eu estiver fora.
— Tá bom, eu cuido, eu cuido. Agora, dá licença, por favor? — disse Giane, apressada.
— Giane! — gritou Fabinho, lá do quarto. Giane ficou desesperada. Não queria que Bento soubesse que ela estava abrigando Fabinho. Pelo menos, por enquanto. Precisava mandar Bento embora.
— Peraí. Eu conheço essa voz. — disse Bento.
— Bento, dá o fora! — disse Giane, tentando fechar a porta.
— Não! — disse Bento, empurrando a porta e entrando. — Não enquanto você não me contar quem você tá escondendo aqui dentro!
— Ô Bento, você não é dono dessa casa, você não manda em mim. — disse Giane. — Eu... Eu já disse que eu cuido da Acácia. Agora, dá licença?
— Oi, Bento. — cumprimentou Silvério, que chegou neste momento.
Havia ido até a farmácia, e estava trazendo o remédio.
— Ô tio Silvério, a Giane tá escondendo alguém aí dentro? — perguntou Bento.
— É o Caio! É o Caio, que tá lá no meu quarto! — disse Giane, depressa.
— E o senhor deixa? — perguntou Bento, espantado.
No ponto de vista de Bento, Giane tinha todo o direito de transar com o namorado. Mas Bento não esperava que Silvério deixasse a filha dormir com o Caio no quarto. Silvério não era o homem mais moderno do mundo. Para Silvério, Giane sempre seria a menininha dele. Para Bento, foi uma surpresa. Além do mais, Bento continuava achando Giane uma criançona. Podia ter corpo de mulher, mas não tinha experiência, vivência nenhuma. Ele ainda não se acostumou com a ideia de ela estar namorando. Não sabia se confiava no Caio e para ele era difícil aceitar que Giane cresceu.
— Eu confio na minha filha, tá? — disse Silvério, saindo da sala.
Giane achava que era impressionante como Bento ainda a tratava como se fosse criança. Ela era já era adulta, era livre para fazer o que quisesse, e não devia satisfações a ninguém. O que ela fazia, ou deixava de fazer, não era da conta de ninguém. No ponto de vista de Giane, Bento não tinha nada que se meter na sua vida. Ficar escandalizado porque um cara estava no quarto dela? Só ele podia namorar?
— Ô Bento, o quê que você tem a ver com isso, hein, cara?
— Tem que eu sou seu amigo, Giane! Eu fico preocupado com você.
Bento se preocupava com Giane. Será que ela estava usando camisinha? Estaria ela preparada para iniciar a vida sexual?
Giane achava que Bento devia era cuidar da vida dele, se preocupar mais consigo mesmo e com a estupidez que fez ao se casar com Amora. Porém, não deu nem tempo de ela responder.
— Giane! — gritou Fabinho.
— Peraí. Essa voz não é do Caio! Mas não é mesmo! — disse Bento.
Giane tratou de arrastar o amigo até a porta:
— Ô Bento, dá licença! Feliz lua de mel!
— Que é isso, Giane? Giane, Giane, Giane! — protestou Bento, enquanto a garota o empurrava para fora e fechava a porta.
— Beijo, beijo, beijo, tchau, tchau! — disse Giane, e correu parao quarto.
Quando chegou ao quarto, Silvério já estava dando remédio a Fabinho.
— Ô cara, fala baixo, pô! — disse Giane, entrando no quarto e fechando a porta. — Ou você quer se ferrar? Se o Bento descobre que você tá aqui, ele chama a polícia, sabia?
Ela realmente se importava caso ele fosse parar na cadeia. Devia ser porque ela se sentia responsável por ele.
Fabinho tomou um gole d’água do copo.
— Ainda mais com a raiva que ele e a Amora estão de você. Hum. — disse Silvério, enquanto o rapaz tomava outro gole d’água.
— Fabinho, olha só, ninguém pode saber que você tá aqui, entendeu? — disse Giane.
— Nem minha mãe? — perguntou Fabinho.
Giane surpreendeu-se com o tom do garoto ao se referir à mãe, todo sentimental. Ela achava que ele não se importava com a mãe adotiva. Afinal, ele a botou na cadeia, deixou a mãe assumir a culpa por um crime que ele cometeu. Mas a primeira coisa que ele fez foi pedir para chamar a mãe. Quem sabe estivesse arrependido, querendo se reconciliar com a mãe. Devia ter sentido falta dela, depois de meses na rua da amargura. A mãe era sua única família. Giane acabou ligando para os números que Fabinho deu, do celular e do telefone fixo. Margot atendeu ao celular.
— Tem certeza que é mesmo o meu menino? — perguntou Margot. — E como é que ele tá agora? Sei. Me diz, onde é que você mora? Tá. Tô indo pra aí. Muito obrigada.
Giane respondeu a todas as perguntas de Margot. Informou que ela e o pai haviam encontrado Fabinho. Contou sobre o estado do rapaz, onde o haviam encontrado e informou onde ela e o pai moravam. Agora, Silvério, Giane e Fabinho estavam esperando Margot.
Giane resolveu se despedir do Bento, que naquela hora estava partindo em lua-de-mel com Amora. Quando Giane saiu de casa, Bento e Amora estavam se despedindo de Gilson e Salma. Estavam indo para o aeroporto. Viajariam para o Chile.
— Vamos, amor? Tchau, gente! — disse Amora, entrando no táxi.
— Tchau. — disse Salma.
Bento veio falar com Giane. Estava decepcionado. Sabia que Giane estava escondendo alguém, e não era o Caio. Giane devia confiar nele.
— Tô muito decepcionado com você, Giane. — disse Bento. — Por quê que você não abriu o jogo comigo, ao invés de ficar tentando me enrolar? Pô, a gente é amigo, lembra?
Do táxi, Amora olhou feio para a Giane, e bateu a porta. Continuava furiosa por causa do escândalo que Giane fez em seu casamento. Lara Keller não conseguiu gravar o escândalo, pois Peixinho ficou tão chocado que nem conseguiu gravar nada. Mas a Mel filmou Giane xingando Amora e acusando-a de incendiar a Toca do Saci, e enviou para a Sueli Pedrosa. Agora o Brasil inteiro estava sabendo do barraco.
Giane não estava nem aí para Amora. Ninguém mandou Amora armar, mentir, ficar enrolando o Bento. Giane só quis tentar abrir os olhos do amigo mais uma vez, para a falsidade daquela cobra. Era uma pena que não havia dado certo, mas ao menos ela tentou. Sabia que havia estragado a festa. A vizinhança toda andou comentando que o casamento foi um desastre total. Mas Giane não se importava. Aquela humilhação ainda era pouco para Amora. A patricinha havia feito por merecer.
Além do mais, Amora não gostava de aparecer? A maior prova de que ela não havia mudado é que ela continuava querendo aparecer na mídia. Não que Giane achasse que aparecer na mídia fosse um problema em si. Ela mesma passou a aparecer na mídia quando virou modelo. O problema era que Amora mentia. Dizia que não iria mais levar vida de celebridade, que não queria mais ser famosa, mas sempre dava um jeito de aparecer, sempre chamava a imprensa e quando Bento questionava, Amora botava a culpa na mãe adotiva. Só mesmo sendo muito idiota para acreditar.
Giane achava que aquela não era uma boa hora para Bento cobrar explicações dela. Quando ele voltasse da lua-de-mel, ela contaria tudo.
— Bento, vai logo, pra não deixar sua noivinha esperando.
Iria se afastar, porém, Bento a deteve.
— Escuta. Quando eu voltar de viagem, você vai me contar quem você estava escondendo na sua casa. — disse Bento.
— Tá. Vai, vai, vai. — disse Giane, dando uns tapinhas no ombro dele, antes de ir para o lado da Salma, que havia acenado para ela.
Bento entrou no táxi, que partiu para o aeroporto. Depois, Giane voltou para casa. Silvério havia preparado uma sopa para Fabinho. Giane trouxe a sopa para o quarto.
— Você pode me ajudar? Eu tô meio zonzo ainda. — disse Fabinho, deitado na cama.
— Hum. — disse Giane, sentando-se na poltrona. — Neném quer papar na boquinha? Então, pede com jeitinho, vai. Vai.
— Você pode me ajudar, por favor? — pediu Fabinho.
— Ah, não. Assim, não. Você vai falar alto, né? Você esqueceu que eu sou surda? — disse Giane.
Margot bateu na porta, que estava aberta e entrou no quarto. Silvério entrou atrás dela.
— Meu filho! Ô, meu Deus! — disse Margot, desesperada ao ver o estado em que o filho se encontrava. — Meu filho! — sentou-se na beira-da da cama e passou a mão no rosto do garoto, que havia se sentado na cama.
— O antibiótico já tá fazendo efeito, dona Margot. — disse Silvério, procurando tranquilizá-la. — Ele já melhorou bem, né?
— Por quê que você não me procurou? — perguntou Margot ao filho. — Eu tava tão aflita, pensei tanta coisa ruim! Ô meu filho, eu tenho uma notícia boa. O meu inquérito foi arquivado. Eu não devo mais nada pra justiça. Eu posso mudar pra cá para cuidar de você.
Fabinho olhava para a mãe com carinho.
— Quer dizer, se você quiser, é claro. — disse Margot. — Olha só, a gente não precisa morar junto. Eu posso arrumar um cantinho pra mim...
— Não, mãe, eu quero morar com você, sim. — disse Fabinho.
Margot ficou surpresa. Antes, o filho não queria viver com ela, por não suportar viver na pobreza. Agora, o rapaz disse que queria morar com ela. Mesmo sabendo que ela nada tinha a oferecer, além de seu amor.
— É isso mesmo que você quer, Fabinho? Viver comigo?
— Cuida de mim? — pediu Fabinho.
Margot emocionou-se.
— Cuido, meu filho. Eu vou cuidar sempre de você. Eu nunca vou deixar nada te acontecer de mal. — disse Margot, abraçando-o. — Nada, nada, nada, nada. — deu um beijo no rosto do filho.
Giane e Silvério ficaram comovidos com a reconciliação entre mãe e filho. Depois de ser resgatado das ruas, Fabinho parecia ser outra pessoa. Ele estava tratando bem a mãe. Estava mais carinhoso. Não tinha mais aquele brilho de raiva no olhar. Fabinho estava se comportando como gente, enfim. E mais uma vez, Fabinho demonstrou o quanto era carente ao pedir para a mãe cuidar dele. Giane nunca imaginou que o garoto tivesse uma carência tão grande. Ela estava realmente cega, para nunca ter notado isso antes, e se deu conta do quanto foi injusta ao julgá-lo de maneira tão dura, como se ele não tivesse coração, como se ele fosse alguém pior do que era. Giane também ficou feliz por Margot. Deu para ver que ela realmente amava o filho. Também deu para ver que Fabinho finalmente estava começando a dar valor para a mãe que tinha.
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