Um amor inesperado
43 Anjo adormecido
Giane continuava cuidando de Fabinho. E estava cuidando do ferimento dele quando contou a ele que Bento havia se casado com Amora, e que os dois haviam acabado de partir em lua-de-mel para o Chile.
— O Bento casou com a cocotinha, é? Tá louco! Ai, ai, ai! — Fabinho gemeu, enquanto Giane limpava sua ferida.
— Aguenta aí, que o negócio tá feio. — disse Giane.
— O negócio tá feio? O negócio tá feio pro Bento, né? — disse Fabi-nho. — Casar com aquela cobra vai pagar por todos os pecados dele.
Giane nunca pensou que algum dia ouviria Fabinho dizer isso. Logo ele, que sempre foi obcecado pela Amora, queria conquistá-la a qualquer preço, até a chantageou e ameaçou para que se casasse com ele. Pelo visto, ele não estava nem um pouco chateado por Amora ter se casado com Bento. Não parecia estar se mordendo de inveja, muito pelo contrário.
— Tá aí, primeira coisa que a gente concorda. — disse Giane. — Aliás, aproveitando que você tá um pouquinho melhor, me conta a história do incêndio da Toca direito.
— Não tenho nada a ver com isso. — disse Fabinho.
— O Bento me falou que ele chegou lá, te pegou no flagra, você ia botar fogo na Toca, aí vocês brigaram e ele desmaiou. — disse Giane.
— É. E aí eu desisti e fui embora. Eu não botei fogo na Toca. — disse ele.
Ela acreditava. E deixou isso bem claro para ele, na maneira como o olhou. Giane disse que Malu também acreditava na inocência dele. Também disse que ela e Malu suspeitaram desde o início que foi Amora quem botou fogo na Toca. Giane explicou que Amora disse ter tido uma intuição deque algo ruim iria acontecer, e resolveu ir até à Toca. Mas Giane e Malu duvidavam. Era sorte demais Amora ter chegado a tempo de salvar o Bento, na hora exata em que estava ocorrendo o incêndio. A Toca do Saci ficava muito longe dos Jardins, onde Amora e Malu moravam.
Na verdade, Amora devia ter visto a mensagem que Fabinho enviou para Malu pelo celular do Bento. Apagou a mensagem e foi no lugar da Malu. Chegando na ONG, Amora encontrou Bento desmaiado, sentiu cheiro de álcool e resolveu riscar o fósforo. Amora certamente quis se vingar de Fabinho. Colocá-lo na cadeia. Também quis atingir a Malu, que pratica-mente a obrigou a montar um bazar para vender sua coleção de sapatos por preços mais baixos, e doar a renda para a ONG. E é claro que Amora não podia deixar de aproveitar uma oportunidade de posar de heroína para impressionar o Bento. Malu só descobriu porque encontrou o celular de Bento no local do incêndio, e viu a mensagem, que foi enviada às sete da noite, horário em que ela estava no banho. Bento disse não ter enviado mensagem nenhuma. E se não foi o Bento que enviou a mensagem, só podia ter sido o Fabinho. Se Fabinho enviou a mensagem, ele não tacou fogo na Toca. E se isso era verdade, então Amora mentiu ao dizer ter tido uma intuição. Fabinho confirmou para Giane que tinha sido ele quem enviou a mensagem.
Claro que Fabinho e Giane não falaram apenas do incêndio da Toca. Conversaram sobre outras coisas. Era incrível que estivessem se entendendo depois de tanto brigarem e baterem de frente. Giane nunca imaginou que algum dia teria uma conversa de verdade, civilizada, com Fabinho. Achava até estranho estarem se dando bem. Até poucos meses atrás, ela achava Fabinho um babaca, um mau-caráter. Ela não conseguia ver nele nada além dos desvios de caráter. Agora via que ele tinha qualidades que antes nem notava. Ele tinha personalidade, inteligência, esperteza e senso de humor. E era mais sensível do que ela pensava. Giane agora se dava conta que finalmente ela e Fabinho estavam se conhecendo. Ela se deu conta de que antes não o conhecia o suficiente.
Margot agradeceu Silvério por ter socorrido Fabinho. Silvério até contou que Charlene havia acabado de se mudar. Charlene se casou com Wilson, e ela e Pedrinho foram morar no apartamento que Wilson havia comprado de Maurício. Douglas passaria a morar com Gilson e Salma. Margot resolveu se mudar para a casa que era da Charlene. Falou com Fabinho, e ele concordou. Giane foi para a Toca do Saci, contar para Malu que havia encontrado Fabinho. Só contou porque Malu também acreditava na inocência dele. Por enquanto, ninguém mais deveria saber. Giane jamais deixaria que Fabinho fosse preso por um crime que Amora cometeu. Ela não estava disposta a permitir que a Amora se safasse dessa.
— Agora, ele tá todo direitinho. De curativo feito, banho tomado, sem febre. — disse Giane. — Mas, quando chegou lá em casa, tava destruído. Nem parecia o Fraldinha, sabe?
— E quem é que tá sabendo que ele tá na sua casa? — perguntou Malu.
— Ah, só quem não vai chamar a polícia. — disse Giane.
— Obrigada pela confiança. — disse Malu, sorrindo, batendo com a mão aberta na de Giane. Riram. — Quem diria que a gente ia se dar bem, né, Giane?
— E não é, menina? Eu acho que é essa cara de são-paulina que tu tem. — brincou Giane, rindo.
— Opa! Ê! São-paulina com muita honra! — disse Malu.
— Então, vambora lá pra casa, ver o são-paulino arrebentado?
— Vamos. — disse Malu.
Ultimamente, Giane vinha conversando bastante com Malu e descobriu muitas coisas sobre ela, inclusive o time do coração dela. Malu era uma pessoa bacana, generosa, sensível, inteligente e simpática. Giane agora percebia que havia perdido tempo demais brigando com a Malu por causa do Bento. Malu era uma boa amiga. Ela e Malu pensavam de uma maneira parecida a respeito de vários assuntos. Ao contrário de Amora, Malu não era fútil, superficial. Apesar de ser filha de uma atriz e de um cineasta famoso, Malu era discreta. Não gostava de aparecer o tempo todo na mídia. Não ligava para a fama, nem para a moda. E por incrível que pudesse parecer, Malu era uma pessoa humilde. Não se deslumbrava por ser rica, por ter pais famosos. E assim como ela, Malu não ia com a cara da Amora. Malu não gostava da Amora, porque Amora nunca a tratou bem.
Giane havia percebido há tempos que as irmãs Campana não eram amigas.
Malu, por sua vez, também percebeu que Giane era muito legal, inteligente, esperta, parceira, e amiga nas horas tristes e felizes. Malu percebeu que Giane era alguém com quem sempre poderia contar. Antes, achava Giane muito chata, muito pentelha. Tentou se aproximar de Giane, sempre a tratou com gentileza, mas ela não dava abertura. Era sempre rude. Malu achava Giane grossa, uma mala sem alça. Mas não pensava mais assim. Passou a admirá-la. Bem que Malu gostaria de ter Giane como cunhada. Até dissera a Bento uma vez que gostaria de que ele se acertasse com Giane. Mas não tinha jeito, Bento gostava era da Amora.
Mais tarde, Plínio, Irene e Malu vieram à casa de Giane falar com Fabinho. Queriam saber a versão do garoto sobre o que havia acontecido na noite do incêndio da Toca do Saci. Fabinho negou ter incendiado a ONG. Contou tudo o que aconteceu na noite do incêndio. De fato, ele pretendia botar fogo na ONG. Bento tentou impedi-lo, e eles lutaram. Bento caiu, bateu a cabeça e desmaiou. Fabinho desistiu de incendiar a ONG e foi embora. Antes de ir embora, ele enviou uma mensagem para Malu, pelo celular do Bento, para que ela o socorresse.
Malu acabou confirmando suas suspeitas de que foi Amora quem botou fogo na Toca do Saci. Irene acreditou em Fabinho. Nunca duvidou da inocência dele. A princípio, Plínio não acreditou na inocência de Fabinho, achou que ele podia estar mentindo, mas acabou se convencendo com os argumentos de Malu, apesar de continuar com o pé atrás em relação ao garoto. Ainda assim, não havia provas contra Amora.
Plínio, Irene e Malu decidiram não denunciar Amora à polícia. Afinal, não adiantaria de nada acusar Amora. Não havia contra ela provas concre-tas, que não deixassem dúvidas. Malu tinha certeza da culpa de Amora, mas não conseguiu provar. Era apenas a palavra de Fabinho contra a da Amora. E Fabinho não era uma pessoa confiável. Aprontou demais. Além do mais, Bento não concordaria. Se denunciassem Amora, Bento se afas-taria deles todos. Bento acreditava que Fabinho era o culpado e que Amora salvou sua vida. E também não denunciariam Fabinho. Também não havia provas suficientes contra ele. Ninguém o viu atear fogo na Toca e, além do mais, Malu e Irene acreditavam piamente na inocência dele.
A família Campana foi embora, e na casa ficaram apenas Giane e Fabinho. Silvério foi trabalhar na loja. Fabinho acabou adormecendo. Giane ficou observando-o dormir. Achava o garoto bonito e charmoso. Olhando de perto, reparando bem, ele tinha o rosto lindo. Tinha um ar de rebeldia, com os cabelos castanhos, fartos e sempre bagunçados, e a barba serrada. Usava até franja. Os olhos eram escuros, e ele tinha a boca e o queixo mais perfeitos que ela já tinha visto. Parecia um anjo adormecido.
Fabinho, um anjo? O que ela tinha na cabeça? Que pensamentos eram aqueles que ela andava tendo? Isso só podia ser culpa da sua mania de tirar fotos, e também por estar inserida no mundo da moda. Devia ser por isso que ela andava reparando na beleza de tudo. Só podia ser por isso.
Giane pegou a câmera fotográfica. Que mal havia em tirar algumas fotos do rapaz? Quem sabe mostraria para o Caio. Quem sabe Fabinho fosse fotogênico. Ela faria tudo para ajudá-lo a se reerguer, ainda mais agora que ele resolveu criar juízo. Giane ajoelhou-se ao lado da cama e começou a tirar várias fotos do garoto. Fabinho acordou.
— O que você está fazendo? — perguntou o rapaz.
— Fazendo o que eu mais gosto, fotografando. Não se mexe.
Fabinho ficou envergonhado.
— Não faz isso não, cara. Numa boa. Eu devo estar um lixo.
— Ah, para! Lixo você estava quando chegou aqui. — disse Giane, levantando-se e sentando-se na cama. — Dá um sorriso, vai.
Fabinho sorriu. Giane achou o sorriso lindo. Nunca havia reparado no sorriso dele antes. Também, ele raramente sorria, e quando o fazia, não parecia de verdade. Ele costumava andar de cara amarrada. Giane riu.
— Tá me sacaneando, né? — perguntou Fabinho, brincando.
— Não. Até que você não fotografa tão mal, não. — disse Giane, levantando-se e sentou-se ao lado dele, na cama. Mostrou a foto dentro da câmera. — Ó, dá uma olhadinha.
— Nossa! Isso é bom? — disse Fabinho, apontando para a foto. — Acho que quem não fotografa mal é você. Aliás, muito melhor do que a Amora.
O garoto sentou-se na cama. Giane surpreendeu-se com o elogio. Meses atrás, ele vivia zombando dela, chamando-a de macho mal-acabado. Será que estava sendo sincero ao dizer que ela fotografava melhor do que a Amora? Não, Fabinho só estava dizendo aquilo porque ela estava cuidando dele.
— Não precisa jogar confete só porque eu tô cuidando de você, não.
— E eu sou lá de jogar confete? Ainda mais em moleque de rua. Tá louca? — implicou Fabinho.
Giane ficou furiosa. Estava cansada de ser tratada como moleque. Queria ser vista como mulher. Porque era isso que ela era, mulher.
— Mas você é babaca, né? — Giane levantou-se, irritada, e partiu para cima dele. — Moleque de rua? Eu vou te dar um...
— Giane! Giane, olha só! Olha só, calma aí. Calma aí. — disse o rapaz, segurando nos braços dela. — Você não pode ter mais reação de menino, não. Você é uma mulher agora, tá?
Então ele a enxergava como mulher.
— Você é um babaca! — disse Giane, atirando um travesseiro nele e saindo do quarto. Fabinho riu.
À noite, Silvério voltou para casa e ajudou a cuidar de Fabinho. Giane ligou várias vezes para o Bento. Precisava contar a ele tudo o que sabia, tudo o que descobriu a respeito do incêndio na Toca do Saci. Porém, Bento não atendia às ligações.
— Pai, já liguei várias vezes pro Bento. Só dá caixa postal. — disse Giane, assim que entrou em seu quarto.
Silvério estava sentado no sofá, ao lado da cama, onde Fabinho continuava deitado. Silvério deixou o jornal que estava lendo de lado.
— Que tanto você tem que falar com o Bento, hein? É sobre a Amora?
No ponto de vista de Silvério, de nada adiantava ligar para o Bento. Ele estava em lua-de-mel no Chile e não daria ouvidos à Giane. O incêndio na Toca não era assunto a ser discutido por telefone. Além do mais, Bento havia escolhido em quem acreditar e ele acreditava na versão da Amora.
— Ô pai, se ela fez o que ela fez, ela é uma bandida! Ele tem que tomar cuidado! — disse Giane, preocupada.
— Gente, vem cá. Parou, né? — disse Fabinho. — Por favor. Não quero mais ficar ouvindo falar Bento e Amora, não. Deixa, acabou de picuinha, por favor.
Giane surpreendeu-se. Até pouco tempo atrás, Fabinho vivia se metendo no relacionamento de Bento e Amora, fazia de tudo para separá-los. Armou intriga. Até tirou fotos dos dois e postou na internet, dizendo que estavam tendo um caso e que Amora estava traindo Maurício. Fabinho era bem chegado numa picuinha. Agora vinha com essa?
— Você tá fazendo o bom moço só pra me mostrar que você mudou, né?
— Eu mudei? Não, quem mudou foi você. — disse Fabinho. — Teu pai me disse que estava até namorando.
Pior que Fabinho tinha razão. Até poucos meses atrás, ninguém diria que ela, Giane, viraria modelo. Nem passava pela cabeça dela entrar no mundo da moda. E ela mesma achava que nunca iria arrumar um namorado. Era vista pelos garotos da rua como se fosse mais um deles. Os rapazes não a enxergavam como mulher, e sim como um companheiro que jogava futebol com eles. Mas tudo mudou depois que ela passou a andar mais arrumada, mais produzida e foi introduzida no mundo da moda. Os rapazes agora a olhavam de outra maneira.
— Um cara bacana. Foi o Caio quem mudou a Giane. — disse Silvério, e levantou-se do sofá. — Pena que tenham desmanchado, né? Eu fazia gosto nesse namoro. Olha, não esquece de tomar o remédio, não, tá?
Fabinho levantou o polegar.
— Boa noite. — disse Silvério.
— Boa noite. — disse Fabinho.
— Boa noite, filha. — disse Silvério.
— Boa noite, pai. — disse Giane.
Silvério saiu do quarto. Foi se deitar. Fabinho perguntou:
— Por quê que você brigou com o Caio, hein?
— A gente não brigou, a gente... A gente virou amigo. — disse Giane. — É isso que a gente faz quando a gente gosta de alguém. A gente se afasta pra não magoar. Agora, vai dormir e não me enche o saco! — saiu do quarto.
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