Um amor inesperado
28 Final da sociedade?
No dia seguinte, Giane estava trabalhando na loja, quando Caio apareceu.
— A Sílvia me disse que você vai fazer a campanha! — disse Caio, feliz, abraçando-a e levantando-a.
— É. — disse Giane.
— Isso é só o começo de uma grande virada na sua vida, Giane.
— Calma, né, Caio? Eu não quero mudar a minha vida. Eu só fiz isso pra calar a boca de um pessoal aí. — disse Giane, referindo-se à Amora.
Ela ainda relutava em deixar a sociedade. Pretendia continuar na loja. Não queria abandonar. Tudo iria depender do comportamento do Bento.
— Se você quiser, o céu é o limite. — disse Caio. — E aí, vamos ao Cantaí hoje à noite? Quero te apresentar à Camila Lancaster.
— A filha da Bluma? — perguntou Giane.
— É. — disse Caio.
— Mas nem por uma... É que eu tenho horror a essas patricinhas.
— Ela não é mais patricinha, não. Agora ela é atriz.
Giane riu.
— Se você mudar de ideia eu vou estar lá. — disse Caio. — Tá bom.
Caio lhe deu um beijo no rosto, antes de ir embora. Bento acabou de chegar. Silvério estava ajudando na loja. Giane já estava sabendo que Bento havia acabado de ter mais uma briga feia com Amora. Discutiram na rua, na frente de todo mundo. Na Casa Verde, as notícias se espalhavam muito rápido. Giane pegou uma fita e foi cuidar de um arranjo de flores. Aproximou-se de Bento.
— Quer dizer que rolou barraco com a Amora?
— A Amora é página virada, Giane. — disse Bento.
Giane não acreditou. Bento e Amora brigavam, mas logo faziam as pazes. Amora sempre dava um jeito de enrolar o Bento mais uma vez.
— Conversa, né, Bento? Se ela voltar toda meiguinha você vai cair de amores, né?
— Não, não vou. A Amora não tem mais esse poder. — disse Bento, e afastou-se.
Ele havia rompido com Amora de vez. Não se sentia bem com isso. Porém, Malu andava ocupando cada vez mais seus pensamentos. Estava pensando em começar uma história com ela. Pretendia esquecer Amora para sempre, ou pelo menos tentar. Amava Amora, sempre amaria, mas ele chegou à conclusão de que amar não era o suficiente. Ele e Amora não tinham nada em comum: nem um sonho, nem um projeto, nem amigos, ideias, nada. Ele e Amora tentaram, mas na prática não dava certo.
Giane ficou feliz. Sorriu. Bento e Amora terminaram, e parecia que agora era em definitivo. Não havia mais volta. Quem sabe agora ela teria sua chance. Silvério viu que a filha ficou animada.
A garota passou o dia todo trabalhando na loja. À noite, o pai havia saído. Ela resolveu se arrumar, e trataria de caprichar na produção, para fazer uma surpresa para Bento. Tomou banho. Botou um novo vestidinho preto, maquiou-se, passou batom, enfiou um anel no dedo, fechou o zíper das botas, colocou cinto. Pretendia passar uma noite maravilhosa com Bento. Queria ver a reação dele ao vê-la tão bonita. Com certeza, Bento ficaria de queixo caído ao vê-la toda produzida.
— Ai, ai. Se prepara, Bento. Que hoje, você vai dormir com a mulher dos seus sonhos. — disse para si mesma, olhando-se no espelho. — Ai, ai, ai.
Ela ansiava por estar nos braços de Bento. Foi para a casa de Bento, e encontrou-o trabalhando na terra. Aproximou-se de mansinho, por trás, sem que ele percebesse, e cobriu os olhos dele com as mãos. Bento colocou as mãos sobre as dela e disse:
— Hum! Uma mão tão macia, já vi que a surpresa é boa.
Giane sentiu o coração disparar. Ficou quieta. Ele teria de adivinhar.
— E aí? Não vai falar quem é mesmo? — perguntou Bento.
Giane abanou a cabeça. Bento disse:
— Ah, é? Tudo bem. Nem precisa também. Eu conheço essas mãos, né, Malu?
Ele passou o dia todo pensando em Malu. Achou que só podia ser ela.
Giane ficou furiosa. Como Bento podia confundi-la com aquela patricinha? De tanta decepção, enfiou a cabeça dele dentro da bandeja de terra e saiu correndo. Ao chegar em casa, foi direto para o seu quarto, chorando.
— Não adianta, né? Não adianta! — disse Giane, sentando-se na cama.
— Você nunca vai gostar de mim, né, Bento? — tirou as botas. — Nunca, né?
Levantou-se, foi até a penteadeira e tirou um lenço de dentro do pote. Passou o lenço na região do queixo.
— Mas essa é a última vez. — disse Giane, e tirou o batom da boca. Limpou o olho direito. — Essa é a última vez que eu choro por sua causa, Bento. — limpou o olho esquerdo. — A última. — limpou mais uma vez a boca e jogou o lenço.
Mais tarde, Giane estava fuçando no computador, quando o pai apareceu. Silvério não percebeu que a filha estava chorando, pois ela estava de costas para ele:
— E aí, filha, tudo bem?
— E aí, pai? — disse Giane, digitando no teclado.
— O que você está fazendo? — perguntou Silvério.
— Tô procurando uns negócios aqui de moda. — disse Giane. — Sabe que quando eu faço uma coisa, eu faço direito, né?
— Eu tenho o maior orgulho de você, filha. — disse Silvério. — Tenho certeza que você vai ter sucesso. Só pensa direitinho se é isso mesmo que você quer fazer, tá? Bom, eu vou dar um pulinho até a casa da Salma. Beijinho!
Silvério saiu e Giane ficou sozinha com seus pensamentos. Suspirou. Continuava sofrendo pela rejeição do Bento.
— Será que não tem um jeito do Bento ver que... Eu sou a mulher certa pra ele?
No dia seguinte, cedo, Bento e Giane foram colher as flores no jardim.
— Eu e o Jonas passamos lá no Cantaí ondem à noite. — disse Bento. — A gente te ligou, mas seu pai falou que você já tava dormindo.
— É, fui dormir cedo ontem. — disse Giane.
— Vem cá, eu te contei que uma louca me atacou ontem à noite?
— Ah, é? Atacou como? — disse Giane, se fazendo de desentendida, cheirando umas flores.
— Não sei. — disse Bento. — Eu estava semeando umas mudas, ela tapou meus olhos e enfiou minha cara na bandeja de terra.
— Nossa! Você não viu quem era? — perguntou Giane.
Bento não podia imaginar quem fez a brincadeira de mau gosto com ele. Podia ter sido a Renata, a Charlene, ou a Socorro. Ele não sabia. Malu não podia ser. Ela não enfiaria a cara dele na terra, nem sairia correndo. Não teria por que fazer isso.
— Não vi nada. Aí, o Jonas me arrastou pro Cantaí. — disse Bento. — Mas você sabe que foi ótimo? Hoje eu acordei me sentindo outra pessoa.
— Hum... Que bom. Como você era, né? Antes de reencontrar a dona Amora. — disse Giane.
— A gente teve bons momentos, Giane. — disse Bento. — O único problema é que a gente queria coisas muito diferentes. Enfim, não era pra ser.
Bento esperava que Amora aproveitasse a rasteira que a vida estava dando e mudasse de vida. Esperava que Amora se desse conta de que não valia a pena viver em função da fama. Na opinião dele, o meio midiático era perverso, cruel. Era um mundo onde muitas vezes as pessoas tinham de sobreviver na base da mentira, da dissimulação. Bento achava que Amora não seria feliz enquanto tivesse que vender sua alma para embolsar cachê. Mas Amora não concordava com ele e não queria abrir mão da fama, do luxo. Ela valorizava demais tudo o que conquistou, e estava arrasada por perder tudo. Andava nervosa, estressada. Só pensava em reconstruir a carreira. Bento achou melhor terminarem. Ele e Amora não estavam conseguindo se entender. Eram diferentes demais e queriam coisas diferentes da vida. Não estavam na mesma sintonia. Bento concluiu que foi melhor assim. O triste era que um dia ele e Amora tinham tudo a ver. Se davam tão bem quando eram crianças! Mas o tempo passou, ele e Amora mudaram e alguma coisa se perdeu.
— Agora que você está na pista de novo, aposto que você vai pegar a outra patricinha, né? — disse Giane, enciumada. — “Ah, Bento, o nosso projeto”! — riu.
— Quer parar de tirar sarro do meu projeto com a Malu? — disse Bento. — Que ele vai ajudar muita criança. E você devia querer participar, em vez de ficar aí, zoando, viu?
— Ih, desconversou. Já vi tudo. — disse Giane.
— Desconversou o quê? Ô Giane, eu acabei de terminar um namoro. — disse Bento. — Tudo o que eu quero é minha vida de volta. Trabalhar, dar risada, tocar violão, curtir meus amigos. A começar por você, que é a garota mais chata que eu conheço, mas que a minha vida não teria a menor graça sem ela.
Bento estava pensando em começar uma história com Malu, mas queria ir devagar. Ele tinha acabado de terminar com Amora.
Giane sorriu.
— Nossa, que meigo! — disse Giane, pegando as flores que Bento lhe estendia.
— Um pouco de meiguice também não ia cair nada mal em você. — disse Bento, e tomou as flores dela. — Devolve. Você não está merecendo.
— O que é isso? Bento... — disse Giane, colocando as flores que havia colhido no chão. — Você me deu! Devolve!
Giane correu atrás dele. Bento disse:
— Não te dei nada! Tá aqui, ó... Não quero saber!
— Eu vou te pegar! — disse Giane, correndo atrás dele.
Mais tarde, Giane e Bento estavam trabalhando na loja. Bento estava saindo, com uns buquês de flores nas mãos, e avisou:
— Giane, vou lá, fazer as entregas e não demoro, tá?
— Vai lá. — disse Giane, fazendo anotações no caderno.
Bento saiu. Nem bem ele saiu, Malu apareceu na loja atrás dele:
— Giane, o Bento está por aí?
Bastou ver Malu para Giane ficar de mau humor. Tinha Malu atravessada na garganta desde a noite anterior. Agora que Bento terminou com Amora, ele só queria saber da Malu.
— Você não viu? Ele acabou de sair. — disse Giane.
— Ah, que pena! — lamentou Malu.
— É. — disse Giane.
Giane estava sem paciência. Malu vivia atrás do Bento, não largava do pé dele e ela acabava sempre tendo de dar conta da loja sozinha. Além disso, agora que Bento terminou com Amora, Malu era uma forte concorrente. Giane não suportava a ideia de Bento namorar Malu. Ela não queria perder Bento nem para Malu, nem para nenhuma outra mulher. Ela o amava desesperadamente e queria Bento para ela.
— Você fala pra ele me ligar, quando ele voltar? — perguntou Malu.
— Não. — disse Giane. Estava cansada de ser educada.
— O quê? — surpreendeu-se Malu.
— Eu não vou pedir pra ele te ligar, Malu. — disse Giane. — Se dependesse de mim, ele nem olhava na sua cara.
— Peraí. Por quê que você está falando assim comigo? — perguntou Malu.
— Olha só, Malu. Desde que você e sua “it” irmã apareceram, a vida do Bento virou um inferno. — disse Giane. — Aliás, não só a dele, a minha também.
— Caso você não tenha percebido, eu não sou como a Amora.
No ponto de vista de Giane, Malu era uma sonsa que se aproximava do Bento sempre com a desculpa de fazer o bem, cuidar das crianças, salvar a natureza. Quando na verdade, estava era de olho nele. Ficava comendo pelas beiradas para depois dar o bote. Amora pelo menos não se fazia de amiguinha e não ficava se fazendo de santa defensora da natureza e das crianças. Amora era fútil e transparente em suas ambições. Amora não fingia ter os mesmos interesses, defender as mesmas causas e querer as mesmas coisas que o Bento, e foi a diferença de princípios que os separou. Já Malu ficava se fazendo de santa, de idealista para conquistar o Bento e o tonto caía como um patinho. Malu era rica, mas se fazia de humilde, de simples, e na opinião de Giane, esta era uma tática de sedução mais perigosa do que a futilidade explícita de Amora. O fato de Malu ser gentil e mais compatível com Bento irritava Giane mais do que a futilidade de Amora, a quem ela considerava mais fácil de se desmascarar.
— Não, você é pior. Fica aí, se fazendo de boazinha, né? Enrolando ele com essa Toca do Saci.
— O que foi que eu te fiz? Por quê que você tá falando assim comigo?
— Porque você atrapalha a nossa vida, Malu. — disse Giane. — Por quê que você não desaparece, arruma um mauricinho desses aí, e volta pros Jardins? Anda, Malu! Vai! Some da vida do Bento! Some da minha vida também! A gente tinha uma vida boa antes de vocês aparecerem.
Malu percebeu que Giane estava era mordida de ciúmes. Por isso estava soltando os cachorros em cima dela. Ela sempre desconfiou que Giane gostava do Bento. Até porque Giane sempre fechava a cara e a tratava com grosseria toda vez que ela se aproximava do Bento. Mas agora tinha a mais absoluta certeza. Giane estava caidinha pelo Bento. Estava na cara. Do contrário, Giane não gritaria com ela, não mandaria ela arrumar um namorado e sumir da vida do Bento. Malu não imaginava que Giane tivesse tanta raiva dela. Era óbvio que Giane a via como uma rival. Ainda mais agora, que Bento parecia estar gostando dela.
— Giane, eu sabia que você gostava do Bento, mas eu não tinha noção que você era tão apaixonada assim. — disse Malu.
— Eu não sou apaixonada. — disse Giane, envergonhada. — O Bento é meu amigo e meu sócio também. Também, tô de saco cheio de ver vocês duas disputando ele, como se ele fosse um brinquedinho! E detalhe, o trabalho sobrando todo pra mim, né?
— Eu não devia te dizer isso, Giane. — disse Malu.
Giane se perguntou o que será que Malu pretendia dizer.
— Diga. — disse Giane.
— Mas... Vai à luta! Assume o que você sente pelo Bento! — disse Malu. — Não fica assim, espantando a concorrência, porque, desse jeito, ele vai acabar com raiva de você.
Giane sentiu mais raiva ainda. Ela acabou de ofender a Malu, e a Malu ainda vinha fazer a boazinha para cima dela? Ainda dava conselhos? Por que Malu não a ofendia de volta? Ela nunca tratou bem a Malu, e a Malu insistia em ser legal com ela. A bondade da Malu já estava cansando. Isso se a bondade da Malu fosse genuína, o que ela duvidava. Na opinião de Giane, Malu tinha de parar de bancar a santa. Ela odiava gente falsa.
— É. Vai, fofa, querida! Vai embora. Ridícula! Imbecil! — xingou Giane. Malu foi embora e Giane ficou sozinha, morrendo de raiva.
— Que ódio! Que ódio! — murmurou para si mesma.
Algum tempo depois, Bento voltou para a loja. Érico chegou.
— Ô, Bento! Bom te ver! — disse Érico, estendendo a mão para ele.
— Fala, Érico! — disse Bento, apertando-lhe a mão.
— Vem cá, preciso de um favor seu. — disse Érico, entrando na loja com Bento.
— Fala. — disse Bento.
— Eu quero o ramalhete mais bonito que você tiver! — disse Érico. Giane estava por perto, e estava cuidando de um ramalhete de flores.
— Pô, pelo visto, boas notícias! — disse Bento.
— É! Estou indo encontrar a Palmira! — disse Érico.
Érico havia conhecido uma tal de Palmira Valente no Cantaí. Giane entregou o ramalhete de flores a Érico.
— Então, boa sorte. — disse Giane.
— Ô, Giane, ficou lindo! — disse Érico. — Obrigado, viu, gente? Tchau, tchau!
— Até. — disse Bento, observando Érico ir embora.
— É. Sabia que a Amora vai fazer a campanha do Wilson? — disse Giane. — Nem acreditei, quando o Jonas me disse que ela tinha topado e estava superfeliz com isso!
Bento tratou de mudar de assunto. Ele não queria falar disso. Discutiu e terminou com Amora por causa disso, e era uma decisão definitiva. Aliás, não foi bem por causa disso que terminaram, e sim porque ele e Amora eram diferentes demais e isso pesou no relacionamento. Mas Amora ter aceitado fazer a campanha do Kim Park foi a gota d’água. Bento havia finalmente se dado conta de que Amora nunca iria entender seus motivos, nem ele conseguia entender os dela. Não havia como dar certo.
Bento odiava Wilson, e Amora estava cansada de saber disso. Ela também não gostava do Wilson, estava cansada de saber que Wilson não valia nada, mas ainda assim aceitou estrelar a campanha do Kim Park, porque queria reconstruir a carreira, limpar a barra dela.
Bento estava decepcionado com Amora. Amora parecia esquecer que Wilson os expulsou do parque. Além do mais, Wilson aterrorizou Pedrinho. A filha do Wilson, Mel, difamou Amora. E ainda assim, Amora iria fazer propaganda para o pai da garota que a caluniou. Ou seja, ajudaria o pai da Mel a lucrar mais. Isso sem falar no filho do Wilson, Tito, que atropelou a Renata. Mas para Amora, o que importava era reconstruir a carreira a qualquer preço. Bento não conseguia entender. Se ela queria reconstruir a carreira, tudo bem, mas fazer campanha logo para o Wilson? Amora não precisava ficar tão desesperada. Apareceriam outros clientes. No entanto, Bento resolveu deixar esse assunto para lá, para não se aborrecer.
— Algum recado pra mim, Giane? — perguntou Bento.
— Não, Bento. Ah, quer dizer, a Malu esteve aí. — disse Giane.
— A Malu? O que ela queria? — perguntou Bento.
— Não sei, nem me interessa. — disse Giane. — Agora, se você me deixar sozinha pra ir atrás da Malu, eu vou fechar a loja, tá?
— Nossa, Giane! Que bicho te mordeu? — espantou-se Bento.
Bento não conseguia entender. Por que a amizade e a parceria dele com Malu incomodavam tanto a Giane? Ele não podia ter uma amiga? Em vez de implicar com Malu, Giane devia ficar amiga dela. E se ele quisesse namorar a Malu, qual era o problema?
— Bento, só tô te avisando que eu estou cansada de carregar a loja sozinha enquanto você sai pra se divertir com essas patricinhas, né? — disse Giane.
Ela estava cansada de ver Bento deixar o trabalho de lado para resolver assuntos da Amora ou da Malu. E não era apenas porque o trabalho acabava sobrando todo paraela. Mas ela sentia que Bento se afastava cada vez mais dela. Antes, ela e Bento estavam sempre juntos. Porém, tudo mudou quando Malu apareceu e trouxe Amora de volta. Bento a deixava de lado para correr atrás das patricinhas. Giane sentia falta da vida de antes, quando passava o tempo todo com Bento, no trabalho e nas horas livres também. Bento não dava mais atenção para ela.
Continuaram trabalhando. Até que Giane saiu para almoçar e deixou a loja com Bento e Wesley. Quando voltou, viu Lucindo e Wesley colocando as flores dentro de um carro, em frente à loja. Era uma encomenda para Charlene. Charlene pretendia adotar Pedrinho, um menino de rua, que havia sido atropelado na frente da Toca do Saci há tempos atrás. Charlene conseguiu a guarda provisória de Pedrinho. O menino havia conquistado a todos da rua. Naquele dia, a assistente social iria visitar a casa de Char-lene. E Lucindo estava ajudando Charlene a arrumar a casa, deixar tudo pronto para a visita da assistente social.
— E aí, galera? — Giane cumprimentou Wesley e Lucindo.
Giane viu que Bento não estava na loja. Será que ele havia saído?
— Gente, vocês viram o Bento? — perguntou Giane a Lucindo e Wesley.
— Ô Giane, ele disse que ia resolver uns negócios aí, estava voltando. — disse Wesley.
Para Giane era conversa fiada. Com certeza, Bento foi na Toca do Saci atrás da Malu. Isso deixou Giane soltando fogo pelas ventas.
— Então, fala pra ele que a sociedade acabou. — disse Giane, furiosa.
— Ô Giane, para de Talibã, mano! O Bento é maior gente boa! —defendeu Lucindo.
— Então, vira você sócio dele. — disse Giane. — Eu avisei, ele vacilou. Agora, que se vire.
Giane saiu da loja.
— É uma capeta mesmo. Vai, demônio! Vai se lascar! — disse Lucin-do.
A garota caminhou até a rua onde morava. Foi descendo a rua, passou em frente à sua casa, quando encontrou Caio:
— E aí, Giane? — perguntou Caio.
— O que você tá fazendo aqui, Caio? — perguntou Giane.
— Agora, eu sou seu vizinho. — disse Caio. — Acabei de alugar um quarto na pensão da dona Cida.
Caio se mudou para a pensão para ficar mais perto de Giane.
— Então, se liga, que aqui na Casa Verde só tem vacilão! — disse Giane.
— Tá tudo bem? — perguntou Caio. Ele percebeu que ela estava furiosa.
— Não. Tá tudo uma porcaria. — disse Giane. — Pode me arrumar mais trabalho aí se quiser, que eu saí da Acácia.
— O que aconteceu? — perguntou Caio.
— Aconteceu que eu tô cansada de carinha burro e patricinha esperta folgando comigo. — disse Giane.
— Hoje, o dia também não foi bom pra mim, não. — disse Caio. — Vamos tomar um sorvete? Você fala do homem burro e da patricinha e eu te conto a minha vida.
Quando chegaram à lanchonete, Giane desabafou com Caio. Reclamou que Bento saía toda hora da loja para ir atrás das patricinhas.
— Não quero ver o Bento nunca mais na minha vida.
Caio percebeu que Giane só podia estar apaixonada por Bento. Estava na cara que ela estava morrendo de ciúmes. Não era só o fato de Bento deixá-la sozinha na loja. O que realmente a deixou chateada era Bento ter ido atrás da Malu. Além do mais, Giane só falava no Bento.
— Como, se ele é teu vizinho? — perguntou Caio. — Sabe o que eu acho? Que essa raiva toda aí é amor, Giane.
Caio bebeu um gole do café.
— Você não ouviu nada do que eu disse, né? — perguntou Giane.
Pelo contrário, Caio ouviu muito bem e entendeu tudo. Ele já havia desconfiado que Giane gostava do Bento. Não era a primeira vez que ela tinha uma crise de ciúmes. Ele havia percebido o clima tenso entre Giane e Bento naquela noite, no Cantaí. Giane estava invocada, quis ir embora. Bento estava ao lado de uma garota, que devia ser a tal da Malu.
— Então, seja mais clara. Comigo e com ele. — disse Caio. — Vai lá, abre o jogo pro Bento, cara. Você é corajosa pra tantas coisas.
Caio jamais jogaria Giane para cima do Bento. Mas ela precisava admitir o que sentia e resolver logo essa história. Só assim ela poderia seguir em frente e quem sabe dar uma chance a ele, caso fosse rejeitada pelo Bento. Giane precisava parar de sofrer e ficar resmungando pelos cantos. Na opinião de Caio, era curioso como a Giane tinha coragem de falar o que pensava, mas não de assumir seus sentimentos.
Giane ainda não se sentia preparada para falar sobre seus sentimentos com Bento, se é que algum dia estaria. Era difícil para ela.
— Você não ia me falar da sua vida? Fala aí. — disse Giane.
— Você tá querendo mudar de assunto, não saber da minha vida.
— Você não disse que o seu dia foi ruim? Conta! — insistiu Giane.
— Eu tenho que partir pra emissora. Você quer ir comigo? — disse Caio. — Assim, você fica sabendo de perto, como é a minha rotina.
— É, boa ideia. — disse Giane. — Sabe que eu nunca fui num estúdio de televisão? Deve ser maneiro, né?
— Então, fechou. Eu passo pra te pegar em uma hora. — disse Caio, dando-lhe um beijo no rosto e saindo.
Giane voltou para aloja, para pegar as suas coisas. À essa altura, Bento já havia voltado para a loja. Bento perguntou:
— Giane, Giane, que história é essa que você vai deixar a Acácia Ama-rela?
— É isso mermo que você ouviu, Bento. Eu só vim buscar as minhas coisas. — disse Giane, furiosa. — Te avisei, né, que eu não ia carregar a loja sozinha.
Bento não estava entendendo. O que ele fez de errado?
— Peraí, Giane. — disse Bento, segurando-a. — Por quê que em vez de deixara sociedade, você não me fala o que você está sentindo de verdade? Se abre comigo, pô! A gente é amigo!
Giane achava que não era possível que ele ainda não tivesse percebido que ela o amava:
— Eu preciso me abrir, Bento? Você é cego, cara? — perguntou Giane.
Amora entrou na loja neste exato momento:
— Bento, você tinha razão, você estava certo!
Ela viu que não valeu a pena estrelar a campanha do Kim Park. Assim que soube que ela seria a garota-propaganda, Wilson soltou os cachorros em cima dela, do Érico e de toda a equipe da Crash Mídia. Wilson estava possesso por ela ter dado uma surra na Mel, não dando chance para ela se defender. Wilson não valia nada, era grosseiro, destratava todo mundo. Ele a humilhou, foi cruel, a tratou como se ela fosse uma marginal, uma menina de rua. Nunca foi tão ofendida na vida.
— O que houve, Amora? — perguntou Bento.
Giane ficou com mais raiva ainda. Quando não era Malu, era Amora.
— O que houve é que eu tô indo embora! — disse Giane, saindo da loja.
— Não, peraí, Giane! Peraí, Giane! — Bento chamou.
— Não tem jeito mermo! — disse Giane, andando em direção à saída.
Na rua, Giane encontrou Socorro, que disse:
— Oi, Giane! A dona Cida disse que a Amora está aí na rua. Você viu?
— Ah, eu quero que você e a Amora vão pra pu... — disse Giane, furio-sa.
— Peraí, Giane, não precisa ser grossa! — disse Socorro, pegando no braço dela.
— Me solta! Capacho! — esbravejou Giane, puxando o braço.
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