Um amor inesperado
29 Finalmente, a declaração
Giane foi com Caio até a emissora, como o combinado. Caio mostrou para ela todos os cantos, todas as salas da emissora.
— É, e é aqui que os atores esperam pra gravar. — disse Caio, assim que entraram em uma das salas.
Camilinha estava sentada no sofá.
— E aí, Camilinha, tudo bem? — cumprimentou Caio.
— Tudo bem? — cumprimentou Camilinha.
— Essa aqui é a Giane. — disse Caio.
— Tudo bom? E aí? — cumprimentou Giane.
— Outra amadora no elenco? — perguntou Camilinha.
— Não, não. A Giane é só uma amiga. — disse Caio. — Mas tá aí, você me deu uma boa ideia! Se precisarem de mais alguém, eu já sei quem indicar.
Giane riu. Jamais passou pela cabeça dela ser atriz. Caio tinha cada ideia! Ser modelo já era mais do que suficiente para ela. E ela só topou ser modelo porque precisou sair da Acácia Amarela.
— Coitada, relaxa. — disse Giane. — Não vim fazer concorrência, não. Você pode atuar mal sozinha, nem sou atriz.
Sandrona entrou na sala neste momento. Tinha ouvido parte da conversa.
— Ih, minha filha, aqui, ninguém é. — disse Sandrona. — Você sabe ler? Ah, então, pronto. Não precisa nem esquentar a cabeça. Você chega aqui, faz assim, ó. — fez o gesto de cuspir com as mãos. — Cospe o texto.
— Pelo amor de Deus, quanta ignorância, senhor! — disse Camilinha, levantando-se. — Não aguento!
Giane riu. Sandrona disse:
— Liga, não. Ela tá treinando pra Bárbara Ellen.
— Ah, coitada! — disse Giane.
Caio e Giane passaram horas agradáveis na emissora, até irem embora. Horas mais tarde, Jonas avisou à Giane que o estúdio, onde ela tiraria fotos para a propaganda da You, estaria liberado a partir das seis horas. Giane se arrumou, se maquiou, colocou suas melhores roupas e saiu. Na rua, encontrou Bento, que acabou de sair da casa do Gilson. Assim que a viu, Bento perguntou:
— Giane! Por quê que você não me disse que você vai ser modelo?
Até então, Bento sabia apenas do book, mesmo que não tivesse olhado ainda. Mas não sabia que ela já estava trabalhando como modelo. Giane concluiu que Bento já estava sabendo que ela iria estrelar a campanha. Certamente, já viu suas fotos. Deviam ter mostrado para ele. Ela pediu tanto para o Jonas, a Sílvia e o Érico não contarem nada para o Bento.
— Falei pra aqueles idiotas não te contarem. — disse Giane.
Queria ela mesma ter contado, no momento que julgava oportuno.
— Mas que diferença isso faz? — perguntou Bento. — Eu ia acabar te vendo aí, toda linda, que nem você tá agora.
Bento ficou impactado ao ver Giane toda arrumada nas fotos. As fotos dela haviam ficado maravilhosas. Ela era fotogênica. E ao vê-la agora, na frente dele, ainda se espantava. Não que achasse Giane feia. Muito pelo contrário. Mas nunca havia notado o quanto ela era bonita. Até porque até pouco tempo atrás, Giane não tinha vaidade nenhuma. Não ficava nem cinco minutos se arrumando e usava sempre umas roupas largas, masculinizadas. Ele bem que havia notado que nos últimos tempos, Giane estava se arrumando mais. Ela ficava diferente naquela roupa, com aquele corte de cabelo, aquela maquiagem. Estava mais feminina. Parecia outra. Bento quase não a reconheceu. Ela parecia menos garotinha, mais mulher. Ainda assim, o olhar dele era de uma admiração estética. Ele a estava elogiando como um irmão orgulhoso ao ver a irmã toda arrumada para um ensaio.
— Para você ver, que se eu quiser, eu consigo ficar tão bonita quanto a Amora. — disse Giane.
Bento não estava entendendo nada. Como assim? Ela se achava menos que Amora? Será que Giane não percebia que ela não era melhor nem pior, era apenas diferente? Ela devia parar de se colocar para baixo, e parar de ficar se comparando com Amora. Ela era uma mulher bonita, podia ter o homem que quisesse. Giane tinha uma beleza natural, autêntica, sem afetação. Será que ela se dava conta disso? Ele tinha certeza de que cedo ou tarde os homens iriam cair aos pés dela, com exceção dele mesmo, porque a via como irmã, não como uma mulher por quem sentisse desejo.
— Eu sempre te achei bonita. — disse Bento.
Giane não acreditou no que ele disse.
— Bento, você nunca nem me enxergou, né? Tive que trocar de roupa, mudar meu cabelo, fazer caras e bocas pra você prestar um pouco atenção em mim. — disse Giane, chateada, afastando-se.
— Que bobagem, Giane! Para com isso! Como é que eu não ia prestar atenção em você? Você é minha melhor amiga! — disse Bento.
Giane não aguentou mais. Será possível que ele ainda não tenha percebido? Ela o amava loucamente, e não queria apenas amizade. Será que ele não enxergava? Ela que era mulher para ele, não Amora ou Malu.
— Bento, você é cego, cara? Não é possível!
Bento continuava sem entender.
— Eu não quero ser sua amiga, Bento. Eu quero ser sua mulher. Eu te amo, Bento. Eu sou a mulher certa pra você. — explodiu Giane, chorando.
Bento ficou chocado. Sempre viu Giane como uma irmã mais nova, e pensava que ela o enxergava como um irmão também. Bento sabia que ela gostava dele, que tinha ciúmes, mas acreditava que era amor de irmã, não de mulher. Ela nunca deu nenhum sinal de interesse romântico. Não que ele tenha percebido. Giane nunca falou nada, nem jogou charme para ele. Jamais flertou com ele. Silvério lhe dissera que Giane estava apaixonada por ele, Malu também. Mas ele não acreditou.
Giane percebeu que o amigo ficou chocado. Ele não emitiu um som.
— Você vai ficar aí, assim? Você não vai me dizer nada?
— É que Giane, eu não imaginava que fosse...
— Como não, Bento? Muito antes da Amora voltar pra atormentar a gente, eu já gostava de você. — disse Giane. — Todo mundo aqui sabe disso.
Bento não estava entendendo nada. O que ela estava dizendo? O que tinha Amora a ver com a história? Deque maneira Giane achava que Amora os atormentava?
— Giane...
— Olha, se... Se é de mulher produzida que você gosta, eu também posso ficar. Olha só! Só que com a diferença que... Que eu amo você de verdade. Ao contrário da Amora, né, que nunca ia ser feliz vivendo aqui, com você. Ela pode ser bonita e produzida... Ou daquela sonsa, daquela santa da Malu, né? Que é mais... Mais falsa do que a Amora ainda. — disse Giane, emocionada.
Giane se perguntou se Bento não percebia que nenhuma outra mulher no planeta iria amá-lo com ela amava. Amora dizia que gostava dele, mas amava mais a fama, o luxo e o glamour. Do contrário, não teria enrolado para assumi-lo. Amora dizia amá-lo, mas nunca iria querer viver na Casa Verde. Bento nunca seria a prioridade de Amora. Para Giane, Malu era ainda pior do que Amora, porque era uma sonsa, se fazia de boazinha, de santa, defensora da natureza e das crianças carentes. Mas era outra patricinha, e ao contrário de Amora, era nascida em berço de ouro. Malu era outra acostumada com a vida boa, e sempre teve tudo de mão beijada. Dizia defender crianças carentes, mas não entendia o que era ser pobre. Na opinião de Giane, Bento era um otário por cair na conversa da Amora e da Malu. Ele não percebia que seria mais feliz ao lado dela. Eles tinham
tanto em comum! Eles tinham os mesmos valores, saíram do mesmo lugar, pertenciam ao mesmo mundo, fundaram juntos a cooperativa. Eles compartilhavam o mesmo amor pela natureza, pelas flores. Eram companheiros de batalha, dividiam o trabalho pesado, as contas e os sonhos de prosperidade. Ela era a pessoa que mais o conhecia, e a recíproca era verdadeira.
— Giane, eu não sei o que te dizer. — disse Bento.
— Ué, Bento. — disse Giane, fungando. — Diz que... Diz que você me dá uma chance. Bento, eu amo você do jeito que você é. Você não vê que entre a gente, as coisas são tão fáceis, são tão simples? Bento, a gente foi feito um pro outro. Fica comigo.
Para Bento era difícil de acreditar que Giane era apaixonada por ele. Para ele, ela era como uma irmã. Achava até esquisito ela enxergá-lo como homem. Ele até conseguia imaginar Giane se apaixonando por qualquer outro homem. Mas não por ele. Será que ela não estava confundindo as coisas? Não estava confundindo amizade, carinho com paixão? Na opinião dele, só podia ser isso. Talvez o problema fosse que ele e Giane andavam juntos demais. Mas o que eles tinham era uma amizade, uma parceria. Ao olhar para Giane, ele só conseguia enxergar a moleca travessa.
— Ô Giane, a gente é muito amigo. — disse Bento. — A gente trabalha junto, a gente vive junto pra cima e pra baixo. Será que você não tá misturando as coisas, de repente?
Giane ficou chateada. Mais uma vez, ele não levava a sério os sentimentos dela.
— Bento, eu sei muito bem o que eu sinto. — disse Giane. — Ao contrário de você, né? Que viveu a vida inteira sonhando com uma Amora que todo mundo sabe que não existe.
— Esquece a Amora, Giane! Esquece a Amora, porque eu já quase me esqueci! — disse Bento, e fez um carinho no rosto dela. — Eu não quero te magoar, Giane. — colocou as mãos nos ombros dela. — Eu amo você. Eu te amo muito. Mas é como uma irmã, como uma amiga, minha sócia.
Nunca passou pela cabeça dele namorar Giane. Para ele, Giane era a irmã que ele nunca teve, assim como a Socorro. Ela era sua melhor amiga. Ele não conseguia enxergá-la de outra maneira. Sempre foi apaixonado por Amora, a vida inteira, e agora estava interessado na Malu. Bento até achava Giane bonita, ainda mais agora, toda arrumada. Mas ela não era para ele. Até porque, para ele, ela seria sempre sua irmãzinha do coração.
Eles cresceram juntos, sempre muito próximos um do outro. Giane era filha de Silvério, a quem Bento considerava seu pai de coração. Para Bento, Gilson e Silvério eram seus pais. Ele e Giane foram criados pelas mesmas pessoas, porque Gilson e Salma cuidavam de Giane para que Silvério pudesse trabalhar sossegado. Bento conhecia Giane profundamente, como ninguém. Era completamente diferente da relação com Amora, que viveu só um ano no lar e que ele reencontrou recentemente, e da relação com Malu, que ele conheceu há poucos meses. Com Giane não havia mistério, nem surpresa. Ele a conhecia bem demais para sentir atração por ela, além do mais, ele a via de maneira pura, fraternal. Bento torcia para que Giane encontrasse um cara bacana que a amasse de volta.
Giane ficou magoada. Não era bem esse tipo de amor que ela queria.
— Bento, pode parar de me amar. Eu não sou mais sua sócia.
Giane andou até sua casa. Ainda bem que resolveu deixar a sociedade. Não dava mais para continuar na loja. Não havia condições. Ela precisava se afastar de Bento. Ainda mais agora que sabia que não tinha a menor chance com ele. Ela mudou o visual, passou a andar mais arrumada, mais feminina, mas de nada adiantou. Finalmente, ela se deu conta de que Bento jamais a enxergaria como mulher. Ele a via como uma irmã. Giane não alimentaria mais ilusões. Pretendia ficar um tempo sem vê-lo, sem falar com ele. Mas a rejeição de Bento doía demais. Giane sentia como se seu mundo tivesse desmoronado, porque seu sonho de uma vida inteira acabou não se realizando. A vida inteira ela esperou que Bento a olhasse de maneira diferente e se desse conta de que ela era mulher para ele.
Ela se dedicou a ele uma vida inteira. Por muito tempo, ela foi a leal escudeira, a amiga que estava sempre lá, para ajudar a administrar a floricultura, para ouvir os problemas dele, os desabafos sobre Amora e Malu. Mas não foi amada de volta, não como ela queria. Para Bento, ela seria sempre a amiga, a irmã ou a moleca, nunca uma opção romântica.
A vida inteira Giane acreditou que ela e Bento eram feitos um para o outro e que estavam destinados a ficarem juntos. Ela acreditava que a amizade, a parceria na floricultura e na cooperativa era um ensaio de vida a dois, de como seria a vida de casados. No pensamento de Giane, não havia outra opção lógica: se eles se conheciam tanto e se davam tão bem, obviamente seriam marido e mulher. Mas foi tudo uma dolorosa ilusão.
— Giane, Giane! — chamou Bento, porém a garota não deu ouvidos.
Bento ficou mexido. Não queria magoar Giane, de jeito nenhum. Giane era importante para ele. Era mais do que uma amiga, uma parceira. Ela sempre foi seu braço direito na loja. Giane o ajudou a construir a loja, a cooperativa, a estufa, tudo. Sem ela era como se ele tivesse perdido parte dele. Podia não ser apaixonado por ela, mas tinha um carinho enorme por Giane. Para ele era uma pena que a sociedade tenha acabado. A última coisa que ele queria era brigar com Giane, que ela rompesse com ele.
Giane precisou retocar a maquiagem, pois chorou muito. Mas logo se recompôs. Ela tinha de ir ao estúdio na Vila Leopoldina. Chegando ao estúdio, Sílvia e o fotógrafo estavam à sua espera. Giane trocou de roupa.
— E aí? — cumprimento Sílvia e o fotógrafo, levantando um polegar.
Sílvia lhe entregou o produto. O fotógrafo começou a tirar fotos.
— Você tá tapando isso. Abre pra gente ver mais. — disse Sílvia, referindo-se ao produto.
Giane tirou a mão do rótulo. Exibiu o produto para que pudessem ver.
— Isso, assim. Com vontade! — disse Sílvia.
— Tá linda! — elogiou o fotógrafo.
— Você fotografa muito! — disse Sílvia.
Giane fazia várias poses, exibindo o produto.
— Isso! Olha que demais! — disse o fotógrafo.
Giane deu uma ajeitada no cabelo.
— Tá legal isso? — perguntou a garota.
— Tá. — disse o fotógrafo.
Giane apontou para o produto e sorriu. O fotógrafo continuava tirando fotos.
— Isso! — disse o fotógrafo.
— Olha aí! Que delícia! — disse Sílvia.
O fotógrafo deu uma pausa. Sílvia aproximou-se de Giane e elogiou:
— Você tá indo muito bem, Giane.
— Ah, não sei não, Sílvia. Esse negócio de... Não sei onde botar a mão, sabe? Tá difícil. — disse Giane, insegura, ajeitando a saia.
— Tá ficando lindo assim mesmo. — disse Sílvia. — Imagina quando você tiver experiência? Você vai arrebentar, menina! — deu-lhe um tapinha no braço.
— Pô, valeu. Show de bola. — disse Giane, feliz.
No dia seguinte, Giane acordou cedo. Para ela era estranho não estar colhendo as flores, não estar trabalhando na loja. Não sabia bem o que fazer. Sentia-se mal por não estar trabalhando. Tentou assistir televisão, porém desistiu. Logo desligou. Deu uma olhada nos jornais e também mexeu um pouco no computador. Giane estava olhando lá fora pela janela quando Silvério entrou na sala.
— E aí, filha? Como é que tá o seu primeiro dia de férias, hã?
— Tá um porre, pai. Chato, né? Ficar sem nada pra fazer. — disse Giane, sentando-se no sofá.
— Você não disse que queria aprender inglês? — perguntou Silvério. — Entra na internet. — apontou para o computador.
— Ah, não, não. Não tenho paciência pra isso, não. — disse Giane, abraçando a almofada. — Fico vendo na janela as pessoas trabalhando lá fora. Fico me sentindo mal, sabe?
— Então, retoma a sociedade com o Bento. — disse Silvério.
Giane estava decidida a se afastar de Bento. Doía demais ficar perto dele, sabendo que não tinha chance alguma, que ele jamais a corresponderia, que a veria sempre como uma irmã. Seria muito sofrimento para ela vê-lo sair com a Malu. Giane não cuidaria mais da vida do Bento. Ela agora queria ter vida própria. Era uma decisão que ela devia ter tomado há tempos. Só ficou mais tempo na loja porque ainda tinha esperança de conquistar Bento. Ela pensava que se Bento a visse produzida, se apaixonaria por ela. Afinal, se Caio se interessou por ela, ficou caidinho por ela, por que Bento não a enxergaria? Mas agora ela não criaria mais ilusões.
Nunca tinha tomado nenhuma iniciativa em relação ao Bento, antes de Amora voltar, porque era insegura, não confiava no próprio taco. Acreditava que era incapaz de conquistar alguém, que Bento jamais olharia para ela. Giane achava que os homens não gostavam de mulheres como ela. Além disso, ela tinha medo de ser rejeitada, e de estragar a amizade. Ela sabia agora que era bonita, atraente, cheia de qualidades e que qualquer homem podia gostar dela. Prova disso era que Caio foi capaz de enxergar beleza nela. Agora ela queria mudar de vida, mudar de ares.
— De jeito nenhum! — disse Giane. — Eu virei uma página na minha vida. Só que parece que eu me deparei com uma... Uma página em branco, sabe?
— Você vai saber preencher essa página. — disse Silvério. — É só ter um pouco de paciência, tá?
O celular de Giane tocou. Giane pegou o celular.
— Se for o Bento, não tem jeito, que eu não vou...
Giane levantou-se do sofá e atendeu. Era Caio.
— Oi, Caio. E aí? Não, tô em casa. Não tô trabalhando hoje, não. É? Não sei. Não, vou. Vou, sim. Tá, tá. Valeu. Sei. Sei onde é. Até mais.
Ela desligou o celular.
— O Caio me chamou pra ver lá uma gravação. Vou lá.
— Isso, filha. Vai mesmo, vai mesmo. — disse Silvério. — O Caio é um bom menino. Quem sabe, você não conhece outras pessoas, consegue novos trabalhos, hã?
— É, pode ser. — disse Giane.
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