Um amor improvável
56 Expulso da rua
No dia seguinte, a primeira coisa que Fabinho fez foi conversar com Gilson, para conseguir o emprego de volta.
— Tio, tô te pedindo mais uma chance. Você viu como eu tava mandando bem. Foi uma questão humanitária. — disse Fabinho.
— Tá bom. Você tenta de novo hoje. Mas é a última chance! — disse Gilson.
— Tá. Obrigado. Você não vai se arrepender, tá bom? — disse Fabinho.
— Tá bom. — disse Gilson, retirando-se.
Fabinho viu Socorro andando pela rua e resolveu ir atrás dela. Queria saber se a acusação que ela fez contra Amora tinha algum fundamento.
— Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! — chamou Fabinho, correndo em direção a ela.
— Fabinho, tô com pressa! Tô com pressa! — disse Socorro.
— Não, olha só, eu quero saber: aquilo que você falou pra Amora ontem é verdade? — perguntou Fabinho.
— Olha, Fabinho, ontem eu não tava bem, entendeu? Eu tomei um monte de remédio pra dormir, tava muito nervosa, não tava falando...
Socorro havia acusado Amora de ter sabotado o bufê, agora ia dar para trás? Fabinho não iria deixá-la escapar. Ela tinha de explicar esta história. As pessoas precisavam saber quem Amora era de verdade.
— Não! Não! Não! Não! Teatrinho pra cima de mim, não, Socorro! Na boa! — disse Fabinho.
— Fabinho, desculpa, eu tô muito nervosa. Me deixe em paz! Me deixe em paz! — disse Socorro, afastando-se de Fabinho.
— O que foi isso, Fabinho? — perguntou Giane, aproximando-se. Acabou de ver Fabinho e Socorro discutindo.
— É pior do que eu pensava, com certeza. — disse Fabinho.
— Fabinho, você não aprende, né? Eu falei pra você não se meter... Cara... — disse Giane, puxando-o pelo braço. Saíram andando.
Ouviram Tina gritando atrás deles:
— Giane! Fabinho!
Fabinho e Giane viraram-se. Tina correu em direção a eles.
— Graças a Deus! Perfeito! — disse Tina. — Finalmente, encontrei assim um cara gato e uma fotógrafa! Tira uma foto minha com o Fabinho. Rapidinho, por favor. Obrigada. — entregou o celular para Giane.
— Claro, Tina. Mas por quê? — perguntou Giane.
— Ah, não, porque eu quero fazer ciúmes no Lulis, sabe? Que vive na casa da patroa e não tá me dando a devida assistência! — disse Tina.
Tina tinha um rolo com Lucindo, mas ele também tinha um caso com a Damáris, ex-mulher do Wilson, e com uma tal de Gladys do Cabuçu, que Damáris dizia ser sua irmã gêmea. No fundo, quase todo mundo sabia ou ao menos desconfiava que Damáris e Gladys eram a mesma pessoa, porque as duas nunca foram vistas juntas.
Fabinho não queria tirar foto nenhuma com Tina. Ela que pedisse para outra pessoa, mas o deixasse fora dessa. Não queria briga com Lucindo. Fazia algum tempo que havia resolvido se manter bem longe de confusão. Ele não tinha nada a ver com os rolos do Lucindo e não queria se meter.
— Tô indo embora, tá? Tchau! — disse Fabinho, retirando-se.
Porém, Tina puxou-o pelo braço:
— Ai, Fabinho, rapidinho! — disse Tina. — É só uma foto comigo dando uma sensualizada de leve. Quer dizer, não precisa ser tão de leve, né? Pode rolar um beijo técnico. Seria até melhor. Mas, pensando bem, não precisa ser tão técnico assim...
Nunca que Fabinho toparia fazer algo assim. Giane era muito ciumenta.
— Tina, para e pensa no que você tá falando! — disse Giane, enciumada. — Você tá louca? — devolveu o celular para ela. — Ai, vai se tratar, garota!
Fabinho e Giane afastaram-se, e Tina falou atrás deles:
— Giane, você é egoísta, sabia? Garota, você é egoísta!
Giane e Fabinho não deram ouvidos. Fabinho conversou um pouco com Giane, e contou a ela que Gilson resolveu dar uma nova chance a ele. Ele continuaria como garçom no Cantaí. Fabinho foi para casa. Um pouco mais tarde, andando na rua, Fabinho acabou recebendo uma ligação de Amora:
— Fabinho? Escuta aqui, ô seu lixo! Você pensou que eu ia deixar barato aquela sacanagem que você aprontou com a minha irmã? Eu falei com o tio Gilson, ele vai te demitir do Cantaí!
— Amora, fala que você não fez isso. — disse Fabinho, e Amora confirmou que tinha feito Gilson demiti-lo do Cantaí. Fabinho ficou furioso. — Eu vou acabar com você, sua desgraçada! Bota o pé pra fora de casa! Bota o pé pra fora de casa!
— Ui! Ui! Ui! Nossa, que medinho de você! — disse Amora, irônica, rindo, e desligou. Dirigiu-se à Tábata. — Pronto, agora o show vai começar.
Até então estava tudo dando certo, como ela havia planejado. Provocaria Fabinho para abriga, e todo mundo iria pensar que ela perdeu o bebê por causa dele. Ela forjaria um aborto para ninguém descobrir que não estava grávida. Não poderia sustentar a mentira por muito tempo. Bento insistiu para ela ir ao médico. Ela não queria ir ao médico, pois o médico logo iria descobrir que ela não estava grávida. Por isso ela resolveu forjar um aborto. Bento ficaria com pena e comeria na mão dela. Assim, finalmente ela conseguiria convencer Bento a se mudar da Casa Verde, a botar mão em parte da herança e comprar uma casa nova.
Ela precisou mentir, dizer que estava grávida, para Malu não falar nada a ninguém a respeito da troca dos exames de DNA. Principalmente para o Bento. Bento jamais iria perdoá-la se soubesse, e ela não queria perdê-lo. Bárbara já havia sugerido que ela engravidasse, para salvar o casamento. Amora achou uma loucura, pois ficaria cheia de estrias e celulites. Além do mais, o que faria com a criança? Ela não tinha experiência com crianças, além disso, crianças a lembravam de sua infância traumática. Bárbara a convenceu, dizendo que ela era jovem, e que depois de ter a criança, poderia fazer lipoaspiração, dieta, exercícios. Ela poderia contratar uma babá para cuidar da criança, e poderia conseguir um bom acordo, ter uma vida confortável. Amora já tinha falado com Bento sobre ter um filho. Depois que Malu tentou obrigá-la a confessar que mandou trocar os exa-mes, a ideia da gravidez veio a calhar. Malu não tinha provas contra ela. Socorro morria de medo de ser presa, logo, negaria tudo até a morte. Ela, Amora, já havia deixado bem claro para Socorro que se a história do DNA vazar, ela seria a única a ser responsabilizada. Socorro não tinha como provar que ela foi a mandante. Ela diria para todo mundo que Socorro agiu por conta própria. Ela ainda engravidaria de verdade, para manter o casamento e para a Malu ficar de bico fechado. Ela não deixaria a invejosa da Malu destruir seu casamento. Se bem que levaria tempo até ela engravidar. Mas acreditava que Malu não iria falar nada, porque todo mundo iria achar que ela havia perdido o bebê. Estariam todos preocupados com sua saúde. Depois ela pensaria no que fazer para calar a boca da Malu. Daria um jeito. Ela bolaria uma nova estratégia, e também pensaria em outras formas de envolver o Bento. Ela não gostava de mentir, mas também não podia dizer a verdade, pois não queria perder Bento.
Foi uma sorte Tábata ter aparecido ali na rua. Amora resolveu pedir para Tábata ajudá-la a sair desta enrascada. Pagaria muito bem, até porque Tábata não a ajudaria de graça. Felizmente, Tábata conhecia um médico que havia tirado o apêndice do irmão dela sem precisar. Iria custar mais uma grana, mas para Amora, dinheiro não seria problema. Agora, ela decidiu usar o velho truque de manipular a fragilidade de Fabinho.
— Tábata, descobre para mim onde está a Giane. Sabe aquela menina do comercial de iogurte? Então! Ela mora aqui na rua. Descobre onde ela está. Rápido! — disse Amora.
— Não, mas como é que eu vou procurar essa garota, Amora? — perguntou Tábata.
— Pergunta pra vizinhança. Inventa alguma coisa. Vai, anda. Rápido. — disse Amora, empurrando-a.
Fabinho foi andando em direção à casa de Bento.
— Essa pilantra está pensando que pode me ferrar. — murmurou. — Eu acabo com você, sua cachorra!
Tábata foi procurar Giane, a pedido de Amora. Ficou sabendo, pelos vizinhos, que Giane foi dar uma entrevista no Luxury. Pouco tempo depois, ela ligou:
— A Giane foi dar uma entrevista, não deve voltar tão cedo.
— Perfeito. — murmurou Amora, depois de desligar o celular. Assim que Fabinho chegasse, ela inventaria uma história. Diria que Giane brigou com ela para defendê-lo, que partiu para cima dela com violência e que, para se defender e para defender o bebê, ela acabou matando Giane. Fabinho iria surtar. Afinal, ele pensaria que ela destruiu o que ele mais amava. Ele ficaria desesperado, revoltado e a agrediria. Ele era louco. Com sorte, talvez Fabinho não soubesse que Giane foi dar entrevista. Se não funcionasse, ela inventaria outra história. O importante era fazer Fabinho agredi-la na frente de todo mundo. Logo todos na rua ouviriam os gritos e veriam Fabinho agredindo-a. Todos veriam o monstro que Fabinho era. O pessoal ficaria revoltado e expulsaria Fabinho da rua. Várias pessoas ali da rua odiavam Fabinho e acreditariam nela. Ainda mais o Érico, a Renata e a Odila. Além do mais, ninguém iria duvidar do que estava vendo.
Amora não sentia nenhuma culpa em prejudicar Fabinho. Até porque ele já havia aprontado muito com ela. Não apenas com ela, com Bento também. Fabinho tinha de pagar por tudo o que fez. Amora tinha ódio de Fabinho, queria era destruí-lo. No ponto de vista dela, Fabinho era um encosto que só atrapalhava a vida dela e do Bento. Nada tirava da cabeça dela que era Fabinho quem mandava aquelas mensagens. Ela sairia por cima e no que dependesse dela, ela e Bento se livrariam do encosto de vez, porque desta vez Fabinho seria preso. Ele iria mofar na cadeia. E ainda corria o risco de ser agredido fisicamente, pois a vizinhança estaria muito revoltada. Amora não estava nem aí para Fabinho. Ele que se lascasse. Ela não sentia a menor empatia por tipos como Fabinho.
Fabinho continuou andando até o quintal da casa de Bento.
— Amora! Amora! — gritou.
Ouviu um barulho muito estranho vindo de dentro. Amora saiu da casa toda descabelada, e estava com uma cara de horror. Tábata havia lhe enviado uma mensagem pelo celular, avisando que Fabinho estava chegando, e ela teve tempo de se preparar para o show.
— Fabinho, meu Deus do céu! — disse Amora, chorosa.
— O que foi? O que aconteceu? — perguntou Fabinho.
— Eu não queria. A Giane, ela veio pra te defender, ela começou a brigar comigo e eu... Eu acho que matei a Giane. — disse Amora.
— O quê? — disse Fabinho, sem querer acreditar.
Não, não podia ser verdade. Fabinho pensava que Amora só podia estar inventando isso. Giane não podia estar morta.
— Eu matei a Giane. Eu não queria. Eu não queria! — gritou Amora, histérica. — Eu não queria, mas ela... Ela veio muito violenta pra cima de mim, eu tinha que proteger o meu bebê!
— O quê que você fez com a Giane? — gritou Fabinho, desesperado, e ia entrar na casa, porém, Amora o impediu.
— Não! Não! Não vai lá, não! — gritou Amora.
— Sua bandida! — gritou Fabinho.
Fabinho tinha vontade de matar a desgraçada, de fazer justiça com as próprias mãos. Estava com tanto ódio, que tinha vontade de destruir tudo à sua volta. Precisava se controlar, pois estava em liberdade condicional. Mas não era nada fácil. Amora matou a mulher que ele amava. Ele duvidava de que Amora tivesse agido em legítima defesa. Ela fez isso por maldade. Para se vingar dele, ela fez Gilson demiti-lo e ainda matou a Giane. Amora estava era inventando história, para não ser punida, porque Giane seria incapaz de agredir uma mulher grávida. Ela não devia ter feito isso. Mexesse com ele, não com a Giane. E agora, o que seria dele sem Giane? Ela era importante para ele. Não podia imaginar o mundo sem ela. Não era justo. Esperou a vida toda para ser amado por alguém de quem ele também gostasse, e quando finalmente encontrou a mulher de sua vida, ela morria?
Amora gritou:
— Deus sabe que eu não queria matar ela, mas eu matei a Giane!
Fabinho estava triste, desesperado e ao mesmo tempo, com muito ódio. Amora iria pagar pelo o que fez. Ela podia muito bem ter evitado isso. O lugar dela era na prisão. Que ela sumisse da frente dele, senão ele não respondia pelos seus atos. Não suportava nem olhar para ela.
— Eu vou matar, sua desgraçada! — disse Fabinho, descontrolado, apertando o pescoço dela. — Eu vou te matar!
— Alguém me ajuda! Socorro! Socorro! Socorro! — gritou Amora.
— Eu vou te matar, sua desgraçada! Vou te matar! — gritava Fabinho.
Salma, Gilson e os vizinhos entraram no quintal e viram Fabinho tentar estrangular Amora.
— Ai, Socorro! — gritou Amora.
— Eu vou te matar! — gritou Fabinho.
Érico e Gilson separaram Fabinho de Amora. Seguraram-no.
— Larga ela, moleque! O que é isso? — disse Érico.
— É ela que vocês têm que pegar! Ela matou a Giane! — gritou Fabinho.
— Minha filha! Filha! Filha! — disse Silvério, desesperado, entrando na casa. Não podia acreditar, a filha não podia estar morta.
— A Giane está morta lá dentro! — gritou Fabinho.
— Você tá louco? O que você tá falando? — gritou Amora.
— Você que falou que matou a Giane! — gritou Fabinho.
— Você que chegou aqui dizendo que ia me matar! — gritou Amora. Fabinho entrou voando na casa, desesperado.
— Cadê a Giane? Cadê a Giane? — gritou Fabinho, procurando Giane pela casa, sem encontrá-la.
— Não tem ninguém aqui. — disse Silvério.
— Vambora! Ela deve estar escondida! — disse Fabinho, correndo para dentro do quarto.
— Gente, peraí! Eu vi ela saindo hoje de manhã! — disse Odila, entrando na casa, sendo seguida pelo Nestor. — Ela foi dar no... No... No... Dar uma entrevista no programa da Brunettý!
— É isso aí, Silvério. Liga a televisão, que você vai ver. Olha aí. — disse Nestor.
Fabinho pegou o controle e ligou a televisão. Todos viram que Giane estava no Luxury, sendo entrevistada pela Brunettý.
— E aí, Giane? Conta pra gente, como vai o seu coração?
— Tá ótimo. Eu tô namorando, mas é segredo. — disse Giane. Ao ver a filha na televisão, Silvério suspirou aliviado.
— Graças a Deus! Graças a Deus! Tá tudo bem com a minha filha! Graças a Deus! — disse Silvério.
— Isso não é verdade. Isso deve ser gravado. — disse Fabinho.
— Não é. É ao vivo. Ela tava com essa roupa. Eu vi. — disse Odila, apontando para a televisão.
Fabinho nem havia se lembrado da roupa que ela estava usando. O desespero não o deixou raciocinar, não conseguiu pensar em mais nada.
Érico e Renata entraram na casa. Odila apontou para a televisão. — Olha aí.
— Então a Amora blefou. Essa ordinária mentiu pra mim. — disse Fabinho.
— Não, quem tá mentindo aqui é você! Você não presta, cara! — disse Érico, revoltado, apontando para Fabinho.
— Olha, não é de hoje que você vive atormentando a coitada! Eu sei porque eu vi! — disse Renata.
— Não é verdade! — protestou Margot, que também havia entrado na casa.
— Não, ela aprontou pra mim hoje, ela aprontou pra mim aquele dia! Essa... Essa desgraçada não vai sossegar enquanto não acabar comigo! — disse Fabinho.
— Gente, rápido! — disse Tina, entrando na casa correndo. — Vem, rápido!
Todos correram para fora. Salma e Tábata, irmã de Xande, amparavam Amora, que gemia:
— Ai!
— Calma, calma! — disse Salma.
— Eu tô sentindo umas dores muito fortes! — disse Amora, com a mão na barriga.
— Calma, Amora. Vamos pro hospital, vamos. Vamos. — disse Tábata.
— Pega a minha bolsa aqui, alguém. — disse Amora.
— Vem cá, eu levo ela. — disse Érico, aproximando-se.
— Não, não... — disse Salma.
— Eu levo, eu levo. — insistiu Érico.
Todos acompanharam Amora, que gemia de dor. Tábata acabou levando Amora até seu carro.
— Ai! Ai, peraí! Ai! — disse Amora, entrando no carro de Tábata.
— Tia Salma, vem, vem comigo. Vem. — disse Renata.
Érico resolveu ir no carro da Renata, junto com Salma.
— Olha aqui. — berrou Érico, revoltado, apontando para Fabinho. — Se a Amora perder esse bebê, você pega as suas coisas e some daqui, porque se o Bento não te matar, eu te mato!
— Foi armação! Foi armação! Não foi culpa minha, não! — gritou Fabinho. Ele sabia muito bem o que fez, e nem tocou na barriga da Amora.
— A gente viu você tentar matar a Amora. — disse Gilson.
— Mas ela falou que tinha matado a Giane, tio. Aí, eu surtei. — disse Fabinho.
— Ah, surtou? Você tava surtado aquele dia, também, no... No hotel, que você queria me jogar no vigésimo andar? — perguntou Odila, revoltada.
— Não, aquele dia foi diferente. Eu não ia fazer aquilo. — disse Fabinho.
— Foi diferente nada. Você ia me jogar sim. — disse Odila. — Olha aqui, Fabinho, você não me engana, hein, moleque!
Fabinho não tinha paciência com Odila. Ela ainda não entendeu que ameaçá-la de morte foi apenas um meio — cruel, agora ele reconhecia — que ele usou para forçá-la a dar informações sobre seu passado. Ele errou sim, e Odila podia não acreditar, mas a verdade era que ele não pretendia matá-la. Só queria forçá-la a contar sua história, ou melhor dizendo, a história do filho do Plínio. Assim que ela desse as informações de que precisava, ele teria deixado ela ir embora. Se ele quisesse matá-la, não ficaria ameaçando, teria logo atirado Odila da janela assim que ela entrasse no quarto, e ela não teria tempo nem mesmo de dar uma joelhada entre as pernas dele.
Era diferente do que acabou de ocorrer com Amora. Ele surtou porque Amora fez a maior cena, apareceu descabelada, toda chorosa, histérica e dizia ter matado a Giane. Ele realmente acreditou que Giane estava morta, e isso o fez perder a cabeça. Tentou esganar Amora porque estava fora de si. Ele não premeditou nada, agiu por impulso, sem pensar direito.
— E agora, mãe? Tá todo mundo achando que fui eu. — disse Fabinho, aproximando-se da mãe. Estava realmente encrencado.
— Meu filho, reza. Reza pra Amora não perder esse bebê. — disse Margot.
A Amora perdendo ou não o bebê, Fabinho sabia que desta vez estava ferrado. Todo mundo o viu tentar esganá-la, gritando que ia matá-la. Amora armou tudo direitinho. Ela sabia exatamente como ele iria reagir, e sabia que o povo ficaria revoltado com ele. Ela se aproveitou da raiva que a vizinhança tinha dele. Agora, por conta de seu histórico, ninguém acreditaria na sua inocência.
Gilson ligou para Bento, para avisar sobre o que havia acontecido. Érico e Renata foram para o hospital. A vizinhança toda estava revoltada, e até Margot e Silvério estavam tendo dificuldade de acreditar na versão de Fabinho.
— Mãe, por favor, você tem que acreditar em mim. Por favor, seu Silvério? — implorou Fabinho, nervoso, desesperado.
— É melhor a gente ir pra casa. — disse Silvério, nervoso. — Esse povo pode perder a cabeça quando souber o que aconteceu. Vamos.
Silvério e Margot foram subindo a rua, junto com Fabinho.
— Fabinho, o que é teu está guardado, viu? — disse Odila, revoltada.
— O meu filho é inocente, viu? — protestou Margot.
— Vambora! Vambora! Vamos parar de discutir! Vambora! Vambora! — disse Silvério.
— Vem, Fabinho. Você não pode ficar exposto à execração pública, não! — gritou Margot.
Silvério, Margot e Fabinho foram para a casa de Silvério. Resolveram ficar lá, por enquanto.
— Gente, vocês têm que acreditar. A Amora armou pra cima de mim. — disse Fabinho, ainda tentando se defender.
— Armou como? Todo mundo viu você agredindo ela. — disse Silvério.
Giane chegou neste momento. Assim que a viu, Fabinho levantou-se do sofá e foi em direção a ela:
— Ai, Giane, que bom que você está bem. — disse Fabinho, beijando-a no rosto e abraçando-a. Estava aliviado por ver que ela estava viva e bem.
— Fabinho, peraí! — disse Giane, empurrando-o. — O pessoal já me contou o quê que aconteceu. Fabinho, é verdade que você tentou matar a Amora?
— A Amora armou pra cima de mim e eu caí que nem um idiota.
— Fabinho, me explica direito essa história. — disse Giane.
— A Amora me ligou dizendo que tinha convencido o tio Gilson a me demitir. — disse Fabinho. — E ela sabia, é claro, que eu ia ficar transtornado e que ia tirar satisfação na casa dela.
— E pra você tirar satisfação é agredir uma mulher grávida? — perguntou Silvério, indignado. Foi grave o que Fabinho fez.
— Meu filho, onde é que você tava com a cabeça? — perguntou Margot. Não podia acreditar que o filho foi capaz de fazer algo assim.
Ela até podia entender que Amora devia ter provocado. Mas nada justificava Fabinho ter agredido uma mulher grávida. Amora podia não ser flor que se cheire, mas não iria arriscar perder o filho só para prejudicar Fabinho. Margot não acreditava que fosse uma armação.
— Não, eu tava calmo! Eu juro que eu tava calmo! — disse Fabinho, nervoso. — Só que quando eu cheguei na casa dela, eu comecei a ouvir um barulho muito estranho lá dentro. E ela saiu descabelada me dizendo que tinha matado a Giane!
— Como me matado? Se eu tinha saído cedo pra dar entrevista? — perguntou Giane.
— Mas eu não sabia que você ia dar entrevista! — disse Fabinho. — Eu tentei entrar dentro da casa e ela não deixou. E aí eu fui ficando desesperado! Eu perdi a cabeça.
— Mas tem que ser uma pessoa muito ruim pra premeditar uma coisa tão perversa. — disse Margot.
— Mãe, mãe, a Amora é capaz de coisa muito pior, eu... Eu te juro! — disse Fabinho. Amora era ardilosa e manipuladora, e nunca bateu muito bem da cabeça. Ela não hesitava em colocar em risco a própria vida, a própria integridade física. Ela o provocou na prisão, quando ele estava surtado. Agora, ela tocou em seu ponto fraco, fingiu ter matado a Giane porque sabia que ele iria surtar, se descontrolar. Ele não sabia por que, mas Amora armou para ele. Será que as pessoas não pensavam? Se Amora foi capaz de tacar fogo na Toca com o Bento dentro, o que ela não faria?
— É, mas isso não justifica você fazer o que fez! — disse Giane.
Caramba! Será que nem a Giane acreditaria nele? Logo a Giane? Se ele quase esganou Amora, foi para defendê-la. Ele acreditava que ela estava morta. Ele não suportou a ideia de perdê-la. Era assim tão difícil para Giane entender? Até parecia que ela não o conhecia.
— Giane, por favor, pensa! — disse Fabinho. — Se eu quisesse fazer algum mal pra Amora, você acha que eu ia escolher o quintal da casa dela, em plena luz do dia, com todo mundo podendo aparecer? Você acha que eu sou burro assim?
— Olha, olha, eu até entendo que ela queira te prejudicar, mas daí a colocar em risco a gravidez? Não tem cabimento! — disse Silvério.
Giane ficou pensativa.
— A não ser que ela não esteja grávida, né? — disse Giane.
— Como é que é? — perguntou Margot, espantada.
— Agora vai todo mundo pensar que ela perdeu o bebê por causa do Fabinho. — disse Giane. — Aí o Bento vai ficar com pena dela, vai comer na mão dela. E ela vai sair linda, loira e vítima, como ela sempre faz, né?
Era disso que Fabinho gostava em Giane. Ela era inteligente, esperta. O que ela dizia fazia todo o sentido. Até onde ele sabia, Amora não havia feito exame, nem ido ao médico. Amora mentiu sobre a gravidez, certamente para manter o casamento, que estava por um fio. E como não poderia sustentar a mentira por muito tempo, resolveu forjar um aborto. E é claro que usou os meios mais sórdidos para isso. Ela armou para botar a culpa nele. Assim, Bento ficaria com pena dela, comeria na mão dela e não iria se separar. Era sempre assim. Para se safar, para esconder suas tramoias, seus crimes, para se fazer de santa para o otário do marido dela, Amora tinha sempre de botar a culpa em alguém e, pelo visto, ela gostava de fazer dele, Fabinho, bode expiatório. Por que Amora não o deixava em paz? Ela já havia se vingado. Ela armou para ele na delegacia, armou para ele no caso do incêndio da Toca, da pichação, fez ele perder o emprego, agora forjou um aborto e botou a culpa nele. Ela não se cansava? Nunca se dava por satisfeita? Agora, por causa daquela víbora, ele não podia nem sair na rua, porque corria o risco de ser linchado. Alguém tinha de parar aquela desgraçada, ela tinha de ser desmascarada. Ele já estava farto disso. E pensar que ele pediu Amora em casamento meses atrás. Sempre achou que Amora não era flor que se cheire, mas até poucos meses atrás, ele não tinha ideia do quão ardilosa e maquiavélica Amora era.
— Isso quer dizer que você acredita em mim? — perguntou Fabinho.
— Você acha que eu ia cair nessa armação da Amora? — perguntou Giane.
— Caramba! — disse Fabinho, emocionado, abraçando-a. — Você é a pessoa mais especial do mundo! Mais linda, mais inteligente! Eu te amo! — beijou-a nos lábios.
— Até que enfim, você disse que me ama! — disse Giane, encantada.
— Te amo muito! Quando aquela bandida disse que tinha te matado, eu fiquei desesperado e eu percebi como você é importante pra mim. Eu te amo demais! — disse Fabinho.
Beijaram-se. Giane riu.
— Pelo menos, pra alguma coisa serviu essa armação toda! — disse Giane, abraçando-o.
— Olha, filho, nós estamos do seu lado pro que der e vier, tá? — disse Silvério.
— Agora se prepara! — disse Margot. — Porque essa Amora vai te culpar por tudo de ruim que acontecer com ela! Inclusive, desse falso aborto.
— A gente tem que agir rápido e pegar a cobra no pulo! — disse Giane.
— Calma, filha, calma! — disse Silvério. — Nós temos que aguardar as notícias primeiro. Depois a gente vai saber como agir, né?
Mais tarde, Giane e Fabinho foram até a casa dele e ficaram namorando no sofá. Ficaram aos beijos e amassos, quando Giane resolveu ir embora.
— Deixa eu ir agora. — disse Giane, afastando-se.
— Não, você tá louca! — disse Fabinho, puxando-a pelo braço. — Você tá louca! Tô precisando de proteção, vai ficar aqui comigo! — beijou-a.
— Deixa de ser Fraldinha! Para com isso! — disse Giane, afastando-se.
— Eu não sou Fraldinha, não, para, para! — disse Fabinho, pegando na mão dela e puxando-a. — Por favor, fica aqui!
Beijaram-se.
— Agora eu vou. Para! — disse Giane, levantando-se e rindo. — Daqui a pouco eu tô de volta. — abriu a porta.
— Ai, meu Deus do céu, não, não! — disse Fabinho, levantando-se do sofá e indo atrás dela.
— Daqui a pouco, daqui a pouco, daqui a pouco. — disse Giane, indo embora.
Fabinho fechou a porta. Não queria ficar longe de Giane.
— Droga. — resmungou.
Ouviu batidas na porta. Achou que era Giane.
— Voltou, muito bem. — disse Fabinho, animado.
Porém, ao abrir a porta, se deparou com Bento, que o olhou com ódio. Bento tinha acabado de saber que Amora havia perdido o bebê. Estava muito revoltado. Não entendia como Fabinho podia ter sido capaz de agredir uma mulher grávida. Nada justificava o que o desgraçado do Fabinho fez. No ponto de vista de Bento, Fabinho matou o filho dele, e quase matou Amora. E ele veio ali fazer justiça e acabar com a raça do maldito. Porque alguém tinha de fazer alguma coisa. Alguém tinha de parar o desgraçado, impedi-lo de fazer mais vítimas. Que fosse ele. Iria dar uma boa surra e depois mandar o marginal para a cadeia. Ele não costumava ser a favor da violência, mas sua paciência com Fabinho, que não era muita, esgotou. Tudo tinha um limite, e Fabinho acabou de extrapolar o dele. Fabinho tentou matar Odila, tentou matá-lo, tentou matar Amora e agora matou seu filho. Para Bento foi a gota d’água. Fabinho iria ter o que merecia.
Bento partiu para cima de Fabinho.
— Eu não fiz nada, cara! — disse Fabinho, apavorado.
— Vou te matar, Fabinho! — disse Bento, revoltado.
— Eu não fiz nada, Bento! — disse Fabinho.
— Tentou matar a minha mulher! — disse Bento, socando-o, fazendo-o cair no sofá.
— Você tá louco, cara? — disse Fabinho.
— Você agride a Amora e a culpa é dela? — disse Bento, partindo para cima dele.
— Ela tá te enganando, seu idiota. — disse Fabinho.
— Vou te matar, Fabinho! — disse Bento, socando-o.
— Bento! Bento, o quê que é isso? Para! — gritou Giane, separando Bento de Fabinho, e empurrando-o.
— Me larga! — gritou Bento.
— Você tá louco? — gritou Giane.
— Esse cara tem que morrer! — berrou Bento, apontando para Fabinho. Achava incrível como Fabinho mobilizava o que havia de pior nele. Tinha raiva de Fabinho por conta de tudo o que ele fez, e a raiva se intensificou depois que Amora perdeu o bebê por culpa do marginal. Pela primeira vez na vida, ele sentiu vontade de matar alguém.
— Não! A culpa não é dele. — gritou Giane, empurrando-o, impedindo de avançar no Fabinho. — A Amora armou contra ele, cara.
— Como é que você pode ser tão cega? Todo mundo viu. — gritou Bento. Na opinião dele, Giane insistia em ver em Fabinho um garoto frágil e carente que precisava de carinho. Mas na visão de Bento, Fabinho se fazia de coitado, de injustiçado e Giane caía como uma pata.
— Cego é você. — gritou Giane. — O Fabinho só fez isso, porque a Amora disse que tinha me matado.
— O quê? — disse Bento, incrédulo.
— Ela me provocou de propósito, porque sabia que eu ia perder a cabeça. — gritou Fabinho.
Para Bento, isso não fazia sentido. Amora não faria uma coisa dessas. Dizer que tinha matado a Giane? Não tinha cabimento. No ponto de vista de Bento, Amora não seria louca de provocar o Fabinho e colocar a gravidez em risco. Além do mais, Fabinho não era confiável e a palavra dele não valia de nada. Fabinho estava inventando isso para se safar e a tonta da Giane acreditava. Amora jamais seria uma ameaça para Giane. Amora não teria por que mentir para o Fabinho. Além do mais, Fabinho não amava Giane. Fabinho não amava ninguém, só amava a si próprio.
— Como você pode acreditar nesse cara, Giane? Você acha que a Amora ia colocar a gravidez dela em risco pra te ferrar, garota? Se liga! — gritou Bento.
— E você acha que ela tá grávida? Você tá louco! Sai! — gritou Giane.
Bento não estava entendendo. De onde Giane tirou que Amora não estava grávida? Por que ela mentiria sobre um assunto tão sério? Amora não faria isso. Ela sabia que ele adoraria ser pai. Se Amora o amava, não brincaria com o sonho dele. Não o faria sofrer à toa, por um filho que não existia. Amora não fez exame nenhum, mas iria fazer. Ela concordou em consultar o médico. Se ela estivesse mentindo, inventaria uma desculpa para não ir ao médico. No ponto de vista de Bento, não havia razão alguma para Amora fingir que estava grávida, ou para forjar um aborto. Ele podia até entender o que a levou a fazer um falso bazar para proteger os sapatos dela. Ela errou sim, ao enganar todo mundo, mentir para ele. Ela não conseguiu ser honesta com o que sentia, com o que desejava. Simplesmente, não conseguiu se desfazer dos sapatos. Mas Amora tinha razões para fazer o que fez. Ela tinha um trauma por passar a infância descalça. Estava doente. Agora, qual seria a razão para ela fingir que estava grávida? Para manter o casamento? Filho não segura casamento. Além disso, Amora sabia que, se continuasse mentindo, o casamento estaria acabado. Ela sabia que ele estava farto das mentiras dela. Falsa gravidez era fácil de ser descoberta. Ela não arriscaria o casamento só para ferrar o Fabinho. Além do mais, não era possível. Todo mundo viu Fabinho tentar esganar Amora. Amora foi parar no hospital. Ele falou com o médico.
— Eu falei com o médico, eu vi a Amora! — disse Bento.
— Bento, se eu quisesse fazer mal pra Amora, você acha que eu ia escolher o quintal da tua casa? Com todo mundo podendo ver? Pensa, cara! — gritou Fabinho.
No ponto de vista de Bento, Fabinho foi burro e mau-caráter o suficiente para tentar esganar Odila na frente de toda a vizinhança. Para atirar uma cadeira nele, na frente de Plínio, Irene, Gilson e Salma. E tentou esganar Amora na frente do delegado. Por que Fabinho não tentaria matar Amora novamente, na frente de todo mundo?
— Não adianta argumentar não. Que esse cara tá muito cego, muito surdo, burro. — disse Giane, furiosa.
— Tio Silvério, você não tá acreditando nesse marginal, tá? — perguntou Bento, apontando para Fabinho.
Para Bento, não era possível que Giane e Silvério estivessem acreditando no Fabinho. Todo mundo viu Fabinho atacar Amora. E todo mundo estava cansado de saber que Fabinho não prestava. Fabinho o odiava, sempre teve inveja dele, faria qualquer coisa para destruí-lo. Por isso quase matou a Amora. O Érico e a Renata contaram que Fabinho andou perseguindo Amora, ameaçando-a, fazendo tortura psicológica com ela. Érico e Renata confirmaram suas suspeitas, de que Fabinho andava rondando Amora. Só isso explicava a preocupação da Simone, o nervosismo da Amora. Bem que ele estava achando Amora assustada ultimamente. Amora insistiu para se mudarem, morarem em outro lugar, pois Fabinho os odiava e ela estava se sentindo frágil e vulnerável. Só que ele não deu ouvidos, achava que nada aconteceria com Amora. Agora, Bento achava que devia ter ouvido a esposa e se mudado do bairro.
— Olha filho, tá todo mundo muito nervoso... — disse Silvério.
— Esse cara é um assassino! — berrou Bento. — Ele tentou matar a Odila, tentou matar a Amora, tentou me matar, e agora ele matou meu filho! — usou os dedos para contar os crimes que atribuía a Fabinho.
Fabinho achava que estava para nascer alguém mais idiota que o Bento. Fabinho até podia entender que o Bento estava revoltado porque toda a vizinhança o viu tentar esganar Amora. Mas Bento era um otário, não sabia usar o cérebro. Bento não havia visto exame nenhum, nem acompanhou Amora a nenhuma consulta, e acreditava que ela estava grávida. Amora havia contado que estava grávida no dia anterior. Para Bento bastava a palavra daquela víbora. Só mesmo sendo muito otário para achar que a palavra de Amora valia alguma coisa. Amora mentia e Bento caía como um patinho. Não era a primeira vez que ela mentia, e o bocó acreditava, sempre dava novas chances. Amora podia muito bem ter pago o médico para mentir, dizendo que ela sofreu um aborto. Amora tinha capangas, mandava fazer as coisas. Gente como ela sempre tem contatos com bandidos. Fabinho podia apostar que o médico nem apresentou nenhum exame para comprovar o aborto. Certamente, Bento acreditou porque o cara se dizia médico. Mas era um vigarista.
— Ela não tava grávida! — gritou Fabinho, levantando-se do sofá. — Ela tava te fazendo de idiota, que é a melhor coisa que ela faz.
Bento deu um soco na boca de Fabinho, fazendo-o cair no sofá. Fabinho ficou deitado no sofá e não levantou mais. Sentia uma dor horrível na boca.
— Bento, para! — gritou Giane.
— O que é isso? Para! — disse Silvério.
No ponto de vista de Bento, a morte para Fabinho seria um alívio, e era por isso que não o mataria, além do mais, não sujaria suas mãos. Não valeria a pena gastar seu réu primário por causa do Fabinho. Ele não deixaria Fabinho se safar. Ele teria de pagar pelo o que fez.
— A morte é pouco pra você, Fabinho. Eu vou dar queixa na delegacia, você vai apodrecer na cadeia. — disse Bento, antes de ir embora.
— Pai, pelo amor de Deus, não deixa ele fazer isso. — implorou Giane, colocando a mão sobre o ombro do pai.
Giane não deixaria Fabinho ser preso por causa de uma armação da Amora.
— Tá. Eu vou falar com ele, pode deixar. — disse Silvério, indo atrás de Bento. — Bento, Bento vem cá!
— Meu Deus, Fabinho. — disse Giane, sentando-se no sofá, pegando no queixo de Fabinho e dando uma olhada no machucado.
— Eu vou matar aquela desgraçada. — disse Fabinho, furioso.
— Vai matar ninguém. Vai ficar quieto. — disse Giane. — Parar com essa violência. Deixa eu cuidar disso, peraí.
Giane tratou de cuidar do ferimento de Fabinho. Mais tarde, à noite, Silvério foi à casa de Fabinho. Contou que conseguiu convencer Bento a não denunciá-lo. Mas Bento queria Fabinho bem longe dali, da rua. Bento queria Fabinho longe de Amora, do contrário, ele ligaria na hora para a polícia. Margot achou melhor o filho ficar em um hotel, até a poeira abaixar. Ela tinha umas economias, e daria para pagar um hotel barato. Acreditava que não seria por muito tempo. Era só até os ânimos se acalmarem, e tudo se esclarecer. A vizinhança estava revoltada.
— Como é que é, mãe? Você tá me expulsando de casa? — perguntou Fabinho, chateado.
— Pelo menos por enquanto, meu filho. Pro seu bem. — disse Margot.
— É. A vizinhança tá muito revoltada com essa história toda, Fabinho. Você pode ser agredido fisicamente. — disse Silvério.
Ouviram batidas na porta. Silvério foi abrir.
— Ah! Oi, Irene. Faz favor. — disse Silvério.
— Boa noite, seu Silvério. Tudo bem? — disse Irene, entrando. Foi dar um beijo na Margot. — Boa noite, Margot.
— Oi, Irene. Você veio me pedir pra sumir do mapa, também? — perguntou Fabinho.
— Claro que não, Fabinho. Que isso? Eu tô do seu lado. Eu sei que foi armação da Amora. — disse Irene. — A Malu e o Maurício já descobriram tudo.
Maurício e Malu sabiam que Amora havia sido agredida por Fabinho, por isso foram ao hospital. Quando chegaram, cruzaram com Bento, que estava saindo do hospital. Na sala de espera, além de Salma, Érico e Renata, também encontraram Perácio, que acompanhou Bento até o hospital. Bento estava na casa da Glória quando recebeu a notícia de que Amora estava com uma ameaça de aborto.
Perácio reconheceu o médico que atendeu Amora, um tal de Zezão. Perácio disse que Zezão era um charlatão, vigarista, amante da Brenda. Brenda era esposa do Perácio. Perácio contou que Zezão tirou o apêndice de Xande, irmão de Tábata, sem necessidade, por uma armação da Bren-da. Brenda fazia de tudo para não ser expulsa de casa pela sogra, Glória, e não se importava de colocar em risco a saúde e a vida do filho Xande, caso achasse necessário. Xande e Tábata eram muitas vezes cúmplices da mãe nas armações. E Zezão apareceu uma vez, no Cantaí, no aniversário de Rosemere, se fazendo passar por um antigo cliente dela, pois ela havia sido garota de programa na juventude. Mais uma vez, era uma armação de Brenda, para que Perácio não se separasse dela para ficar com Rosemere. O que ela não queria era perder Perácio para Rosemere. Zezão era cúmplice da Brenda e a ajudava nas armações.
Maurício e Malu logo suspeitaram do médico, e ao verem Tábata, logo ficaram sabendo que ela estava com Amora. Tábata não era de confiança, pois ela estava metida até o último fio de cabelo na história do bazar falso. Era cúmplice de Amora. Ela e Amora eram velhas conhecidas, pois Tábata foi assessora de imprensa de Amora e Bárbara. Amora organizou o bazar com ajuda de Tábata. Foi Tábata quem criou um site, ao qual ninguém conseguia ter acesso, na hora de comprar os sapatos. Tábata também contratou atrizes de teatro desconhecidas do público para tirarem fotos ao lado de Amora, como se estivessem levando os sapatos, para depois deixá-los no apartamento que Amora alugou.
Perácio e Malu interrogaram Tábata, que disse que só levou a Amora até o hospital. Ela disse que foi uma coincidência, que ela estava lá na Casa Verde procurando locação para o seriado, que viu a Amora, foi dar um oi rápido, e voltou para ajudar Vitinho, quando começou a confusão. Perácio logo achou que Amora e Tábata estavam tramando algo, Malu e Maurício também. Estranharam a reação de Tábata, que estava nervosa. Malu e Maurício pediram o endereço do médico a Perácio, que disse que sabia quem tinha o endereço. Então Malu e Maurício foram até à casa de Perácio pedir o endereço a Brenda. Em seguida, foram atrás do médico. Malu conseguiu gravar uma conversa com o médico, em que ele falou de forjar um atestado de óbito fetal. Malu e Maurício ofereceram dinheiro para o médico, para ele contar a armação da Amora para o Bento. Se o médico se recusasse, Maurício e Malu o denunciariam ao Conselho Regional de Medicina.
Irene, porém, acabara não entrando em detalhes de como Maurício e Malu descobriram a farsa, para não se atrapalhar. Depois explicaria direito esta história, contaria para Fabinho que um conhecido de Bento estava no hospital, reconheceu o médico vigarista e ajudou a descobrir a farsa. Ela veio ver como Fabinho estava, e também para tranquilizá-lo. Queria que Fabinho soubesse que não estava sozinho, que havia pessoas que estavam do lado dele, dispostas a ajudá-lo.
— Como assim? — perguntou Fabinho, levantando-se do sofá.
— É. A Amora armou tudo pra incriminar você. Eu nunca pensei que ela pudesse ser tão maquiavélica assim. Mas a gente vai te ajudar. — disse Irene.
— Mentirosa, desgraçada. Eu devia ter matado aquela garota mesmo. — disse Fabinho, furioso, revoltado.
— Não fala isso, nem em pensamento. — disse Giane. — Vai que alguém escuta?
— Tá vendo, meu filho? Você não tá sozinho. A gente tá do seu lado. — disse Margot. — E agora, com a ajuda da Malu e do Maurício, a gente vai provar a tua inocência pra todo mundo.
— E a Amora nem grávida estava, hein? — disse Silvério, sentado no sofá. — Como é que você descobriu isso, filha?
— Ah, não descobri. Intuição, pai. — disse Giane.
— Fabinho, eu sei que você tá muito revoltado. — disse Irene. — Mas eu vim até aqui pra te pedir paciência. — colocou as mãos no rosto dele. — Amanhã, quando a Amora voltar do hospital, a Malu vai trazer o tal médico aqui. Ele vai contar toda a armação na frente do Bento.
— Mas se ele fugir? — perguntou Fabinho.
— Ele não vai fugir. A Malu e o Maurício conseguiram provas muito graves contra ele. — disse Irene. — Então, por favor, meu filho, se acalma. Não faz mais nada, não se expõe. Promete?
— Ouve a Irene. Não vai botar tudo a perder de novo, Fabinho. — disse Margot.
— Você tem que ajudar a gente a te ajudar, né, Fabinho? Senão fica difícil. — disse Giane.
— Obrigado, gente. Vocês estão botando fé em mim. — disse Fabinho.
— Eu que agradeço o que você fez por mim. — disse Irene, acariciando o rosto dele. — E olha, adorei esse namoro, hein? — apontou para Fabinho e para Giane. — Vocês têm tudo a ver.
— Como assim? Tenho cara de maloqueiro? — brincou Fabinho.
— E eu lá tenho cara de tonta? — brincou Giane.
Todos riram.
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