No dia seguinte, cedo, Giane e Silvério foram para a casa de Fabinho, para se despedirem dele. Ele iria embora, hospedar-se em um hotel. Não havia condições de ele continuar morando ali, na rua, depois do que aconteceu. Os vizinhos estavam muito revoltados, até andaram falando em chamar a polícia.

— É, dona Margot, melhor eu ir embora mesmo. — disse Fabinho, abraçado à mãe. — Tá todo mundo olhando torto pra vocês. Daqui a pouco, vão chamar a polícia.

— Meu filho, a Malu vai trazer o tal doutor, vai resolver. — disse Margot.

— Não, mãe. Não dá pra botar fé nisso. E a Amora é muito mais inteligente do que a Malu e todos nós juntos. — disse Fabinho. — Se der alguma coisa errada, é bom eu estar longe, pelo menos por enquanto. Vamos evitar conflito.

— Você tem razão. — disse Giane. — O Bento e a Amora daqui a pouco estão chegando aí e o Bento disse que não quer te ver. Melhor você ficar longe daquela lacraia da Amora.

— Pode deixar. Não caio mais nessa não, Gi. — disse Fabinho.

— Gi? — disse Giane, olhando para o pai, que estava abraçado a ela, dando uma cotovelada nele. — Você me chamou de Gi, foi? Fraudex.

Fabinho detestou o apelido.

— Fraudex? Fraudex é a tua mãe. — disse Fabinho. Silvério, Margot e Giane acharam graça.

— Vou arrumar a minha mochila. — disse Fabinho. — Vocês ficam de olho se alguma coisa vai acontecer, hein? Quais são as novidades.

Fabinho foi arrumar a mochila, e Giane foi ajudar. Depois de arrumar a bagagem, Fabinho foi se despedir da mãe, e Giane estava abraçada a ele. A essa altura, Silvério já havia ido embora.

— Tô indo, mãe. — disse Fabinho.

— Meu filho, leva mais um dinheirinho, leva. — disse Margot, fuçando na sua carteira.

— Não precisa, não. Consegui um hotel barato na Alfredo Pujol. —disse Fabinho.

— Hum. — disse Giane, cheirando o pescoço dele. — Queria ir com você, mas eu tenho que ir lá pra Para Sempre.

— Você promete que passa lá depois? — perguntou Fabinho.

— Fazer o quê? — disse Giane, derretida, beijando-o. — Virei essas tontas que só pensam em namorado.

— Olha, vou cozinhar pra você. Vou levar comida todo dia, viu? — disse Margot. — E qualquer coisa, Fabinho, liga, tá? — fez um gesto com a mão, representando um telefone.

— Tá bom. Pode deixar que eu ligo. — disse Fabinho, dando um beijo no rosto da mãe. — Beijo. — dirigiu-se à Giane. — Beijo. — deu três beijos nos lábios dela. — Tchau.

Em vez de pegar ônibus, Fabinho resolveu andar até o hotel. Precisava pensar no que seria da sua vida dali para a frente. Achava difícil provar que Amora armou para cima dele. O tal do médico era bem capaz de dar para trás. E a Amora era muito mais inteligente e esperta do que a Malu. Amora faria de tudo para se livrar. Fabinho esperava que Amora não fizesse nada contra Malu. Fabinho continuava andando pela rua, quando ouviu o celular. Atendeu.

— Ei, onde é que você tá? — perguntou Giane, e Fabinho disse onde estava. — Peraí.

Fabinho não pôde falar mais nada, pois Giane logo passou para Margot, que perguntou se ele estava no ônibus.

— Não, eu não peguei ônibus, não. Eu vim andando. Por quê?

Margot contou que Malu havia acabado de sofrer um acidente. Estava indo falar com Bento, quando rolou escada abaixo. Alguém a empurrou. Malu não viu quem era. Ela sofreu o acidente logo depois de sair da casa do Bento.

Fabinho não conseguia acreditar:

— Não, você tá de brincadeira? Álibi? Que álibi? Como é que eu vou ter álibi, se eu vim andando? Não, mãe, agora vai explodir uma bomba na China e a culpa é minha também? O quê que é isso? — desligou o celular. — Não, era só o que me faltava, cara.

A vizinhança certamente iria suspeitar dele. Não fazia muito tempo que ele havia saído de casa, quando a Malu sofreu o acidente. Mas na opinião de Fabinho, só podia ter sido Amora quem empurrou a Malu. Porque Malu iria desmascará-la. E é claro que Amora iria botar a culpa nele, como sempre fazia. E a Socorro, como capacho da Amora, certamente estaria envolvida. Fabinho achava que estavam armando para ele, mais uma vez. Certamente, Amora devia ter mandado Socorro fazer o serviço sujo, como pegar algum objeto dele e colocar no local do acidente. Ele havia deixado alguns de seus pertences em casa. Não levou muita coisa, só mudas de roupa. Nem podia levar tudo. Resolveu voltar para a Casa Verde. Precisava tirar essa história a limpo, e também precisava de notícias de Malu, saber como ela estava. Ao chegar à Casa Verde, ficou sabendo, pelos vizinhos, que Malu e Amora haviam brigado, antes de Malu sofrer o acidente. E Socorro havia testemunhado a briga. Todos ouviram uma gritaria vindo da casa de Gilson. Gilson, Jonas e Érico entraram na casa. Fabinho também.

Viram Giane agarrando Socorro pelos braços:

— Giane, me larga, Giane, tá me machucando! — gritava Socorro.

— Eu vou torcer seu pulso! — disse Giane.

Jonas separou Giane de Socorro. Érico segurou-a.

— Que é isso, Giane? — perguntou Érico.

— Larga ela! — disse Gilson.

— Essa louca... — berrou Socorro, apontando para Giane. — Chegou aqui, toda truculenta, querendo me matar! Eu devia chamar a polícia!

— Chama a polícia, Socorro! Chama a polícia! — gritou Fabinho. — Chama a polícia! Aproveita e fala todos os teus podres!

— Eu já disse que eu não fiz nada. Gente, me deixa em paz! — disse Socorro.

— Tá na cara que a Amora tentou matar a Malu! — gritou Fabinho. — E você não só sabe de tudo, como você é cúmplice!

— Socorro, isso é verdade? — perguntou Jonas.

— E cúmplice, Socorro, também vai pra cadeia! — disse Fabinho. — Então, você pensa muito bem antes de ficar defendendo a tua musa! O quê que ela fez? Por que ela fez isso? — agarrou Socorro pelo braço.

Gilson, Jonas e Érico procuraram apartar, separar Fabinho de Socorro.

— Fabinho! Fabinho, larga ela, cara! Larga! — disse Érico.

— Não sei! Pra Malu... Pra Malu não dizer nada. — disse Socorro.

— Não dizer nada sobre o quê? Fala! — disse Fabinho.

— Se abre, Socorro. O quê que você tá sabendo? — perguntou Gilson.

— Bom, a Malu vai dizer, então... A Amora, ela... Ela falsificou os exames de DNA. — disse Socorro. — Quer dizer, ela praticamente me obrigou a falsificar!

— O que você tá falando, Socorro? — perguntou Fabinho.

— Eu troquei os resultados do exame. — disse Socorro. — O Bento não é filho do Plínio. O filho do Plínio Campana é você, Fabinho.

Todos ficaram chocados.

— Eu sou filho do Plínio? — perguntou Fabinho, chocado.

Ele não esperava por isso. Imaginou que Socorro iria falar que a gravidez da Amora era falsa. Achava que era esse o motivo pelo qual a Amora poderia ter empurrado a Malu da escada. Para ela não falar sobre o falso aborto. Fabinho não imaginava outro motivo que não esse. Então Amora mandou Socorro trocar os exames? Pelo visto, Malu já estava sabendo. Foi por isso então que ela pediu para ele fazer outro exame. Fabinho nunca imaginou que fosse possível fraudar exames de DNA. Mas Socorro não iria inventar uma coisa dessas. Se ela falou, era porque era verdade. Ele sabia que Amora não prestava, mas nunca imaginou que ela fosse capaz de fazer uma coisa dessas. E tudo para se vingar dele, e certamente para separar o Bento da Malu. E de quebra, ela ainda iria usufruir da fortuna. A desgraçada da Amora brincou com a vida dele, de todo mundo. Mas como a Socorro fez isso? Ele assistiu a todas as etapas do processo e não percebeu nada, não se lembrava de ter visto nada de suspeito.

— Socorro, você tem ideia do que você fez? — disse Gilson. — Você adulterou dois exames de DNA porque a sua deusa pediu?

— Socorro, isso é crime, cara! — disse Giane. — Você pode ir pra cadeia.

Giane não entendia muito de leis, mas tinha certeza de que falsificação de resultado de exame era uma prática ilegal.

— Eu sei. Eu sei, mas... Mas eu não sabia que as coisas iam chegar a esse ponto. — disse Socorro. — Eu só queria ajudar a Amora a fazer justiça.

Fabinho ficou revoltado. Como assim, fazer justiça? Amora e Socorro quase destruíram a vida dele. Se não fosse por elas, ele não teria ido parar nas ruas. Se não fosse a Giane, ele não estaria vivo.

— A fazer justiça? Vocês quase acabaram com a minha vida! Você tá maluca? — gritou Fabinho, revoltado, andando em direção à Socorro.

Giane e Érico o seguraram.

— Calma, Fabinho! — disse Giane.

— Mas se eu não fizesse isso, quem ia acabar com a vida de um monte de gente, só porque ficou rico era você! — berrou Socorro, revoltada. — Gente que eu amo! Você não lembra, tio Gilson? Ele chegou aqui na rua dizendo que ia comprar tudo, que ia demolir tudo!

No ponto de vista de Fabinho, tudo bem a Socorro querer impedi-lo de fazer maldade com o pessoal da rua. Mas não precisava ter sido assim. Havia outras maneiras de impedi-lo de fazer besteira. Não era preciso usar meios sórdidos para isso. Porque a Amora e a Socorro não atingiram apenas a ele. Elas haviam manipulado a vida de um monte de gente: da Malu, da Irene, do Plínio, até do Bento. E não era no pessoal ali da rua que a Amora estava pensando quando mandou Socorro trocar os exames. Amora estava era pensando em se vingar dele, Fabinho. Ela queria era destruí-lo, tirá-lo da jogada e usufruir da fortuna do pai dele. E é claro que ela queria transformar o Bento em um príncipe, para que ela pudesse assumi-lo para a mídia, porque ela pretendia reconstruir a carreira. Porque Amora certamente tinha vergonha de apresentar um florista pobretão como namorado. Se ela fizesse isso, seria massacrada pela mídia, e também pelos fãs dela.

Os fãs não achariam Bento o parceiro ideal para Amora Campana. Teria sido muito mais simples Amora casar com ele, Fabinho, com Maurício ou com qualquer outro playboy milionário. Mas a Amora queria o Bento. E fez coisas horríveis para ter o Bento e transformá-lo num herdeiro milionário.

Na opinião de Fabinho, nada justificava o que Socorro fez. A Socorro só pensava em agradar a musa, não estava nem aí para os sentimentos dos outros. Fabinho reconhecia que fizera muita coisa errada, mas por pior que ele tenha sido, ele nunca havia manipulado a vida dos outros desta maneira. Ele fez coisas horríveis, mas não chegou a ser tão maquiavélico, tão ardiloso quanto Amora. Fabinho agora entendia porque Amora queria que ele sumisse, porque ela queria tanto tirá-lo de circulação. Amora o via como uma pedra no sapato. Ela queria que ele fosse preso, fosse levado para uma penitenciária, de preferência, bem longe. Ou sumisse. Para que ele deixasse de ser um empecilho para os planos dela. Ela achava que ele atrapalharia a vida dela, e morria de medo que Socorro desse com a língua nos dentes. Ele era uma prova viva de que Bento não era filho do Plínio. Claro que Amora não iria querer deixar rastros. Ela queria eliminar todas as provas, para que ninguém descobrisse. Por isso estava tão interessada em espalhar por aí que Socorro era maluca. Assim ninguém acreditaria na Socorro, caso ela resolvesse contar sobre a troca dos materiais dos exames ou qualquer outra armação da Amora. E é claro que Amora também morria de medo que ele descobrisse o que ela havia aprontado e se vingasse dela.

— Isso não justifica você cometer dois crimes, Socorro! — disse Gilson.

— É a van da Acácia, é o Bento. Eu vou contar pra ele, Socorro. — disse Giane.

Porém, quando Giane saiu, a van já estava se distanciando. Gilson saiu também, logo atrás dela. Alguns minutos depois, Gilson, Salma e Giane entraram novamente em casa. Não conseguiram falar com Bento. Bento havia ido atrás do Wilson, pois cismou que foi Wilson quem empurrou a Malu da escada. Foi Amora quem o fez acreditar nisso. Amora tratou logo de arrumar um bode expiatório, pois o anel dela foi encontrado no local do acidente.

Não era a primeira vez que Bento e Wilson brigavam. Bento e Wilson haviam tido uma briga feia, mais cedo. Socorro andou espalhando por aí que Bento e Amora estavam pensando em comprar o Kim Park. Wilson não gostou nada de saber. Wilson logo suspeitou de que foi Bento quem sabotou o bufê, para vê-lo na lama e comprar o parque por um preço mais baixo. Achou estranho Bento, do nada, falar em comprar o parque. No ponto de vista de Wilson, Bento só podia estar querendo se vingar dele. Wilson foi até a Acácia Amarela, ver se encontrava o Bento por lá. Resolveu tirar satisfações. Não sabia que Bento havia ido ao hospital buscar Amora. Quando Bento voltou do hospital com Amora, ficou sabendo que Wilson fora até a Acácia Amarela atrás dele. Bento foi atrás de Wilson, e Renata foi com ele. Ao chegar lá, Renata e Bento viram que Wilson havia atirado pedras na vidraça da loja. Bento e Wilson começaram a brigar, a trocar socos, e Renata separou-os. Wilson foi embora e Renata foi junto. Bento ficou para consertar o estrago. Bento estava na vidraçaria, no fim da rua da Acácia Amarela, quando viu Malu rolar escada baixo. Agora, Bento estava novamente indo atrás de Wilson. Bento havia enlouquecido.

Um pouco mais tarde, Silvério foi para a casa de Gilson e ficou sabendo de tudo o que estava acontecendo. Gilson, Salma, Socorro, Giane e Fabinho continuavam na sala. Estavam todos quietos, com os nervos à flor da pele. A pedido de Gilson e Salma, Socorro havia explicado como fraudou os exames. Socorro enganou o Bento e o Fabinho, fazendo-os acreditar que os resultados dos exames pertenciam a eles e estavam relacionados aos materiais fornecidos na coleta. Socorro trocou o material de Fabinho pelo de outro cliente. Mandou o material errado para a análise. Fez Fabinho assinar o cartão errado. O cartão estava no nome do Fabinho, por isso ele nem desconfiou, mas o sangue que estava no cartão não era o dele. Em seguida, Socorro fez o mesmo com Bento. Trocou o material do Bento pelo de Fabinho. Socorro deu um jeito de tirar um pouco mais de sangue de Fabinho. Fez com que Fabinho sangrasse, e pingou o sangue dele na cadeira. Assim que Plínio e Fabinho saíram, ela tirou do bolso outro cartão com o nome de Bento. Colocou o papel filtro do cartão sobre a gota de sangue na cadeira. Fez Bento assinar o cartão que continha o sangue de Fabinho, depois mandou para análise. Bento não desconfiou, pois o cartão estava no nome dele. Por isso o exame de Fabinho deu negativo e o de Bento deu positivo. A ideia de adulterar os exames foi da Amora.

Fabinho pensou que Amora era realmente muito esperta, e absurdamente inteligente. Mais inteligente que todos. Porque ela foi capaz de manipular um monte de gente. Amora sabia que Gilson, Salma, Silvério, Nestor, Odila e demais vizinhos da Casa Verde, o Plínio, a Irene, todos iriam cair na armação dela. Ela lançou a suspeita de que os bebês haviam sido trocados e todos se deixaram enganar, porque não eram muito inteligentes e estavam quase todos com muita raiva dele, com exceção de Irene. O pessoal se deixou enganar com aquele papo furado de que recém-nascido era tudo igual, que a Zezé era atrapalhada e com o resultado do exame. Primeiro que recém-nascido não é tudo igual. Cada recém-nascido é único e ninguém havia se atentado para detalhes como formato do rosto, do nariz ou da boca. A tal da Zezé podia ser atrapalhada, mas daí a não saber distinguir um bebê do outro, era demais. Ele e Bento não eram idênticos. Além do mais, não custaria nada repetir o exame, mas ninguém nem pensou nessa possibilidade, acharam impossível o exame estar errado e todos estavam adorando a ideia do Bento ser filho do Plínio. Com exceção da Malu, que na época estava apaixonada por Bento. No fundo, se enganaram porque quiseram. Estavam quase todos com ódio dele, Fabinho, e aceitaram o resultado do exame sem questionarem.

Uma ou outra pessoa até podia ter questionado a princípio, como por exemplo Silvério e Odila. Afinal, foram eles que trouxeram os bebês para o lar de adoção. Irene também podia ter questionado, afinal, ela havia entregado o filho para Odila, e certamente achava impossível Odila não saber qual dos bebês era o filho dela. Mas acabaram aceitando o resultado do exame. Confiaram no laboratório, e também porque, assim, os problemas de todos estariam resolvidos e ele, Fabinho, não incomodaria mais ninguém. Além do mais, o exame do Bento havia dado positivo. As pessoas achavam muito difícil dois exames estarem errados. Até ele, Fabinho, caiu na armação, porque nunca imaginou que alguém fosse conseguir alterar dois exames de DNA. Afinal, os laboratórios fazem de tudo para evitar fraudes e não cometeriam dois erros tão grosseiros.

Fabinho estava muito revoltado. Permaneceu um longo tempo pensativo, debruçado sobre uma mesa. Lembrou-se de quando Amora apareceu no apartamento do Plínio e disse a ele, Fabinho, que pretendia largar tudo, a riqueza, o glamour e a fama para ir viver com Bento na Casa Verde. Naquela época, certamente ela já tinha tudo planejado, calculado. Ela já sabia que Bento iria ficar rico. Fabinho estava com muita raiva de Amora e da Socorro. Ele penou que nem um condenado por causa delas. Se não fosse a Giane encontrá-lo e socorrê-lo, ele teria morrido. Fabinho virou-se.

— Socorro, eu tinha que te jogar na rua, pra você passar fome, pra você passar frio, pra você apanhar, pra você quase morrer... — disse Fabinho, aproximando-se de Socorro e apontando o dedo na cara dela. — Pra você entender o que eu passei!

Socorro encolheu-se, com os olhos cheios de lágrimas.

— Ei, ei, psiu. — disse Gilson. — A Socorro errou, mas você precisava passar por essas coisas todas pra perceber as besteiras que você fez! Ou não?

— Você virou gente, Fabinho. — disse Salma. — Pelo menos um lado bom essa história teve.

Gilson e Salma sabiam que o que a Socorro fez foi horrível. Ela e Amora manipularam a vida de um monte de gente, inclusive do Bento. Salma e Gilson não entendiam como Socorro podia ter sido capaz de fazer uma barbaridade dessas. Mas eles amavam Socorro. Era como uma filha para eles. Eles a criaram com amor e carinho, ensinaram bons princípios. Esta-vam muito decepcionados, mas não podiam abandoná-la. Eles achavam que tinham de ficar do lado da Socorro, até porque eles eram a única família que ela tinha. Socorro não tinha mais ninguém no mundo. Socorro agora seria odiada na Casa Verde inteira. O que seria dela, sem eles? Fariam de tudo para ajudar Socorro. Contratariam um bom advogado. Não tiravam as razões de Fabinho. Ele sofreu muito, podia até ter morrido. Mas tudo o que ele havia sofrido, em parte foi consequência das besteiras que ele fez. Gilson e Salma achavam até natural que Fabinho tivesse raiva, mas esperavam que ele não se deixasse dominar pela revolta.

Fabinho ficou com mais raiva ainda. Eles agora iam ficar passando a mão na cabeça da Socorro, era isso mesmo? O que Gilson e Salma espe-ravam, que ele agradecesse a Socorro? A rasteira que levou podia até ter servido para ele melhorar como ser humano. Mas não precisava ter sido assim. Não era no bem dele que a Socorro estava pensando quando trocou os exames. E se, em vez de se tornar uma pessoa melhor, ele tivesse morrido? Ele podia ter morrido. Nada justificava o que Socorro fez. De boas intenções, o inferno está cheio. Ele podia muito bem ter aprendido a lição de outra maneira, bem menos dolorosa. Quem Socorro e Amora pensavam que eram? Não cabia à elas fazer justiça, premiar nem castigar ninguém. Além do mais, era impressionante, Gilson e Salma sempre o julgaram e condenaram pelas besteiras que fez, agora, quando se tratava da Socorro, eles passavam a mão na cabeça dela, ficavam botando panos quentes. Ainda queriam que ele entendesse. Só que era pedir demais.

— Não tem lado bom dessa história! Porque eu quase morri por causa dessa desgraçada! — esbravejou Fabinho, e partiu para cima de Socorro, querendo dar um chacoalhão nela. — Chora, desgraçada! Chora!

Porém, mal encostou na Socorro, pois Salma o impediu:

— Para! — gritou Salma.

— Sai! — disse Gilson, empurrando Fabinho.

Giane tentou ligar no celular do Bento. Estava na cara que Bento iria fazer uma besteira, e Giane estava muito preocupada. Ela se preocupava com Fabinho também, esperava que ele se controlasse, que não se deixasse dominar pela revolta. Mas Fabinho estava ali, ele iria ficar bem. Ela estava do lado dele, não o deixaria fazer besteira. Já o Bento estava descontrolado, estava querendo matar Wilson e ela não ia deixá-lo come-ter esta injustiça. Alguém precisava impedi-lo, para que ele não morresse de remorso mais tarde. Afinal, se tratava do pai dele. Mas ele não atendia.

— E agora? Vocês vão me entregar pra polícia? É pra eles que você tá ligando, Giane? — perguntou Socorro, chorando.

— Socorro, cala essa boca! — disse Giane, com o celular no ouvido. — Tô tentando falar com o Bento. Não consigo! Tô preocupada, tô com...

Giane estava com uma sensação ruim no peito.

— Dona Madá, onde é que ela tá? — perguntou Giane.

— Eu acho que ela foi pra casa do Bento depois que ele saiu. — disse Gilson.

Giane logo imaginou que Madá estivesse correndo perigo, pois a Amora estava lá. Sabia-se lá o que Amora podia fazer. Amora era capaz de tudo para calar a boca da Malu. E se Amora resolvesse sequestrar Madá?

— Meu Deus do céu! — disse Giane, e saiu correndo.

Fabinho resolveu sair um pouco da casa do Gilson, e quando saiu, viu Bárbara entrar no carro. Certamente foi visitar Amora. Resolveu falar com ela. Precisava dizer poucas e boas para a víbora, pois tinha certeza de que Bárbara era cúmplice da Amora na história da troca dos exames.

— Bárbara Ellen, quanto tempo! Que saudade! — disse Fabinho, irôni-co.

— O quê que você quer, seu trombadinha? — disse Bárbara, colocando o cinto de segurança.

— Nada. Eu só vim olhar a sua cara de derrotada. — disse Fabinho. — Se prepara, Bárbara, porque eu vou botar você, a sua filha e aquele capacho dela na cadeia.

— Olha só quem tá falando! O elemento com a mais vasta ficha policial.

— Se segura, vaca velha, que o dia do juízo final tá chegando!

Ele e Bárbara continuaram discutindo.

— Não adianta fugir não, que o teu fim tá próximo. — disse Fabinho.

— Teu fim? Sabe com quem você tá falando? Você tá falando com Bárbara Ellen, uma diva, acima do bem e do mal. — disse Bárbara.

— Diva, só se for da sarjeta. — replicou Fabinho. — Eu vou acabar com você, com a Amora e com toda essa corja que rodeia vocês. Você sabe onde é que é a penitenciária feminina do Tremembé? — bateu na porta do carro. — Tua parada final é lá!

Bárbara colocou os óculos escuros e deu partida no carro. Assim que Bárbara foi embora, Margot e Madá vieram em direção a Fabinho.

— Filho, a Madá me contou. Você é mesmo filho do Plínio. — disse Margot.

Madá ouviu Gilson falar que Bento não era filho do Plínio, e sim do Wilson. Giane havia explicado para Madá como Socorro havia trocado os exames, a mando de Amora. Madá, por sua vez, contou tudo para Margot.

— Eu penei que nem um condenado por causa daquelas duas. Mas a Amora e a Bárbara me pagam. — disse Fabinho, revoltado.

— Quem errou, vai pagar, mas agora é alegria. — disse Margot. — Filho, você tava certo desde o começo. Vamos comemorar!

— Comemorar? Comemorar vai apagar o sofrimento que elas me causaram, mãe? Não vai, não. — disse Fabinho.

— Ah, mas olha aqui, Fabinho, tem gente vindo aí que está querendo muito falar com você, hein? Olha lá! — disse Madá, que tinha visto Plínio e Irene aproximando-se.

Plínio e Irene ficaram sabendo de tudo por Malu. Malu contou tudo o que descobriu. O tipo de sangue do Plínio e da Irene não batia com o do Bento. Um casal do tipo O jamais poderia gerar um filho do tipo AB. Então Malu pressionou Socorro, que confessou ter fraudado dois exames de DNA, a mando da Amora. E quando Malu ia desmascará-la, Amora inventou que estava grávida, pois sabia que Malu não teria coragem de contar para o Bento. E para acabar com a mentira, ela forjou um aborto, culpou o Fabinho, comoveu o Bento e ainda saiu de vítima. Plínio e Irene ficaram chocados.

Irene nunca gostou de Amora. A intuição lhe dizia que havia alguma coisa errada com ela. Sempre achou que Amora tinha sérios desvios de caráter. Mas nunca imaginou que Amora fosse capaz de tantas atroci-dades. Trocar dois exames de DNA, manipular a vida de muita gente, era demais. Era muito cruel fazer Bento e Malu pensarem que eram irmãos, e Fabinho quase morreu por causa da Amora. Irene estava revoltada. A história do falso bazar foi horrível, o incêndio da Toca também, inclusive a pichação, o falso aborto. Mas a troca dos exames de DNA foi ainda pior. Amora fez Malu sofrer com a história de ser irmã de Bento, e não sentiu um pingo de remorso por isso. E por causa dela, Fabinho foi parar nas ruas, passou fome, frio, ficou doente. Amora foi muito cruel. Irene até acreditou que Amora podia melhorar ao se tornar mãe, mas nem grávida Amora estava. Amora só mentia e armava contra as pessoas.

Plínio achava que conhecia Amora. Afinal, ele a viu crescer. Para ele, ela era apenas uma garota tola e fútil. Jamais imaginou que Amora fosse capaz de fazer uma coisa dessas. Amora havia sido criada pela Bárbara, porém, ainda assim, Plínio nunca imaginou que Amora seria capaz de tantas atrocidades, de ir tão longe assim. Ela fez um bazar falso, para proteger os sapatos. Ela errou, mas teve suas razões. Ela tinha um trauma. Precisava de terapia. Ele sabia que Amora era egoísta, dissimulada, ambiciosa. Mas ele não achou que ela fosse uma pessoa tenebrosa, capaz de mandar adulterar dois exames de DNA, manipular a vida de um monte de gente. Plínio sabia que Amora não era nenhuma santa, não era flor que se cheire, mas não imaginou que ela chegasse a esse nível de perversidade e mau-caratismo. Estava realmente chocado ao se dar conta de que não conhecia Amora realmente.

E ele se apegou ao Bento, amou Bento como um filho. Também, Bento era uma pessoa muito fácil de se gostar. Gostou dele desde o início, desde quando o conheceu. Admirava Bento, tinha orgulho dele. Era uma ótima pessoa. Inteligente, idealista. Bento tinha tantas coisas em comum com ele. Plínio achava mais provável Bento ser filho dele do que Fabinho, que era tão diferente. Quando soube de toda a verdade, Plínio sentiu-se mal por ter antipatizado com Fabinho desde o início, por tê-lo rejeitado, destratado, ter dado um soco nele, até oferecido dinheiro para que ele sumisse. Era impressionante como Fabinho havia mobilizado o que havia de pior nele. Achava que Fabinho era mau-caráter, que estava interessado apenas na herança. Simplesmente havia desistido do rapaz. Achava que Fabinho não tinha salvação, que era incapaz de se arrepender. Afinal, Fabinho deixou a mãe adotiva pagar por um crime em seu lugar, e não tinha demonstrado um pingo de remorso ou arrependimento. O garoto tratava mal a mãe adotiva, e não demonstrou gratidão nem mesmo pelos donos do lar adotivo, que o criaram. Fabinho parecia não se importar com ninguém. Fabinho não demonstrava afeto, nem por ele, Plínio, nem pela Irene. Pelo contrário. Muitas vezes parecia indiferente, e se comportava como se não ligasse a mínima para ninguém. Também havia momentos em que o rapaz parecia ter raiva de todo mundo. Plínio acreditava que não havia nada que pudesse ser feito para Fabinho melhorar. Por isso fez o que fez. Quando o exame deu negativo, Plínio ficou aliviado. Não podia aceitar que um filho dele fosse mau-caráter. E sua raiva se intensificou quando achou que Fabinho havia tentado matar o Bento. Ele achava que Bento era seu filho.

No ponto de vista de Plínio, Fabinho era um bandido que havia feito muito mal à sua família. Acreditava que Fabinho, além de ter tentado dar um golpe nele, havia manchado a imagem da Malu, do Bento, da Amora, do Maurício, e que foi Fabinho quem tacou fogo na Toca do Saci, pelo menos a princípio. Até Malu convencê-lo de que Fabinho podia ser inocente no caso do incêndio da Toca. E agora ele sabia que Amora havia realmente tacado fogo na Toca, mandado pichar, e até forjado um aborto.

Agora tudo mudou, e Plínio não sabia se conseguiria se entender com Fabinho, depois de tudo. Agora se dava conta de que havia sido injusto com o rapaz, acusando-o de coisas que ele não fez. Estava disposto a dar uma chance a Fabinho. Recomeçar tudo do zero. Mas não sabia se o rapaz iria querer. Fabinho podia estar muito magoado, e podia não querer ter nenhum tipo de relação com ele. Ainda mais depois de ele ter subornado o garoto. Além do mais, Plínio ainda tinha dúvidas. Será que Fabinho realmente mudou? Continuaria sendo interesseiro? Será que ele, Plínio, conseguiria amar o filho? Quando Fabinho ajudou Irene, na última vez em que ela sumiu, Plínio ficou grato e baixou um pouco a guarda, não se opôs à decisão de Irene de ficar perto de Fabinho. Mas continuava tento dúvidas se o rapaz havia mudado tanto assim como diziam.

Irene ficou emocionada ao descobrir que Fabinho era realmente seu filho. Em seu coração, Fabinho sempre foi seu filho. Afinal, sua intuição estava certa. Irene acreditava que Fabinho havia mudado, e que era uma questão de tempo até ele se entender com o pai. Quem sabe, com o tempo, passassem a se gostar. Ela continuaria tendo um carinho enorme pelo Bento. Mas sempre amou Fabinho, mesmo com todos os defeitos dele.

Quando chegaram à Casa Verde, a primeira coisa que Plínio e Irene fizeram foi ir à casa do Gilson tomar satisfações com Socorro, pela troca dos exames. Tiveram uma discussão feia com Socorro. Depois foram pro-curar Fabinho.

— Fabinho. — disse Irene, emocionada, chorando. — Meu filho. — colocou as mãos no peito. — Meu filho. — abraçou-o. — Eu sempre soube. Eu sempre soube, meu filho.

Irene afastou-se e pegou o cordão.

— Você nunca saiu daqui, ó, pertinho do meu coração.

— Eu sei... Mãe. — disse Fabinho, emocionado.

Irene deu um beijo no rosto dele e abraçou-o.

— Bom, eu... — disse Plínio, sem jeito. — Eu espero que a gente ainda tenha tempo pra... Pra reescrever a nossa história.

No íntimo, Irene torcia para que Plínio e Fabinho se entendessem. No ponto de vista dela, eram pai e filho, tinham de se entender.

— Você deve tá muito decepcionado, né, Plínio? Você gosta tanto do Bento, tem tanto orgulho dele. — disse Fabinho. Não podia deixar de pensar em como foi muito fácil para Plínio aceitar Bento como filho, e não ele. Plínio não podia negar que gostava do Bento, e não deixaria de gostar. Bento podia não ser seu filho biológico, mas era de coração. Por ele, Bento continuaria sendo como da família. Mas estava disposto a dar uma chance a Fabinho. Porém, percebeu que o rapaz tinha uma grande mágoa por ter sido rejeitado. Plínio agora se deu conta de que errou. Talvez tivesse se precipitado, não devesse ter desistido tão facilmente do filho.

No entanto, ele tinha seus limites e Fabinho havia aprontado demais. Na época, ele simplesmente não soube lidar com Fabinho e não gostava do rapaz. Ele não conseguiu gostar do garoto e não podia fingir que gostava, também não acreditava na capacidade de Fabinho se redimir. Ele acreditava não ter obrigação de gostar de um filho que não gostava dele e que só pensava na herança. Ele não aceitava que seu filho com a Irene fosse um mau-caráter. Plínio agora reconhecia que não devia ter oferecido adiantamento de herança para afastar o rapaz da vida de todo mundo, e se sentia mal por isso. Porque ele podia não querer conviver, mas ele não tinha o direito de afastar Fabinho de Irene ou de Margot. Elas que tinham de escolher se queriam ou não conviver com Fabinho e arcar com as conse-quências, mas a decisão tinha de partir delas, não dele. Ele também não podia ter se achado no direito de tirar do convívio de Fabinho as únicas pessoas que gostavam dele. Além disso, sua atitude só aumentou a revolta e o ódio de Fabinho. Mas ao mesmo tempo, Plínio acreditava que sua reação na época era ao menos compreensível e ele quis proteger Irene, que era frágil. Fabinho só seria fonte de mais estresse. Agora, o garoto que estava à sua frente era um completo desconhecido, e ele precisaria de tempo para conhecê-lo e quem sabe gostar dele. Plínio também se sentia culpado por ter considerado Fabinho um caso perdido. Ele estava errado. Ele se perguntava como seria se ele tivesse agido diferente.

— É. Tenho e vou continuar tendo. Bento é uma grande pessoa. — disse Plínio. — Mas se você quiser e permitir, nós ainda podemos construir com o tempo uma relação de afeto e respeito.

Fabinho não acreditava que ele e Plínio pudessem construir uma relação de afeto. Não depois de tudo. Não depois de Plínio tê-lo subornado para que sumisse. Será que Plínio estava falando sério, ou apenas queria se fazer de bonzinho na frente da Irene? Será que Plínio o aceitaria como filho? Depois de tudo o que ele fez? Plínio iria querer um calhorda como filho? Um bandido? Não, não era possível que Plínio estivesse falando sério. Plínio sempre o detestou, e agora falava em afeto, respeito? Agora queria dar amor? Meses atrás, além de montar na grana, o afeto do Plínio era tudo o que ele queria. Ele queria um lugar de pertencimento, ter de volta tudo o que a vida havia tirado dele, incluindo o amor do pai biológico. Mas agora era uma coisa difícil de engolir, de aceitar. Fabinho estava se esforçando ao máximo para mudar, mas ainda sentia o velho rancor. Ele sabia que havia errado, que Plínio ficou com uma péssima impressão, uma imagem negativa dele. Plínio achava que ele só estava interessado na grana, e não em criar um vínculo com os pais. Mas para Fabinho, nada justificava um pai querer se livrar do filho. Será que conseguiria perdoar?

— Tudo bem, Plínio, mas você não vai com a minha cara, né? Você sempre teve horror de mim. — disse Fabinho.

Para Plínio, o problema era que Fabinho havia chegado até ele já armando um golpe, de olho na herança. Ao contrário do Bento, que se aproximou dele de maneira natural, sem forçar nada, sem interesse algum, sem bajulações, mentiras, sem esconder nada. Bento era apenas amigo e parceiro da Malu nos projetos. Não ligava para dinheiro, sobrenome, fama, nada. Bento nunca ligou para o fato de ele ser um cineasta famoso. Desde o começo, Fabinho mentiu, dissimulou, fez intriga, envolveu a família em escândalos. Como Fabinho podia esperar ser bem recebido? Se Fabinho tivesse sido honesto desde o princípio, tudo seria diferente.

— Você agiu de modo sorrateiro e oportunista desde o início, e queria que eu reagisse como? — perguntou Plínio.

— Como a minha mãe. — disse Fabinho, olhando para Irene, que sorriu. Afinal, por mais que ele tivesse errado, Irene nunca o rejeitou.

— É. Talvez eu não tenha a sensibilidade e a fineza de espírito da sua mãe, mas... — disse Plínio. — Eu tô disposto a recomeçar do zero.

No ponto de vista de Plínio, em vez de continuar rejeitando Fabinho e cortar de vez qualquer tipo de relação, ele estava disposto a aceitar o rapaz como filho. Estava disposto a perdoar todos os erros dele, e a construir uma relação de afeto. Se Fabinho o perdoaria ou não, seria uma escolha que ele teria de fazer. Mas a vida era muito curta para ficar guardando rancor, e ele esperava que Fabinho deixasse de lado o ressentimento. Se Fabinho queria um pai, não podia desperdiçar a chance de se entenderem.

Fabinho decidiu perdoar o pai e abandonar o rancor. Se queria começar uma vida nova, não podia mais guardar mágoas. Não contaria nada nem a Irene, nem a ninguém sobre Plínio tê-lo subornado. Não queria fazer os pais brigarem. Afinal, Plinio e Irene passaram tantos anos separados por conta da armação da Bárbara. Ele não ganharia nada fazendo os pais brigarem. Só iria trazer mais mágoas, mais dores. Se Plínio pretendia mesmo recomeçar do zero, então ele daria uma chance a Plínio, e a si mesmo. Até porque, pelo visto, Plínio estava arrependido. E Fabinho tinha de reconhecer que havia tentado se aproximar de Plínio da maneira errada.

Além do mais, no ponto de vista de Fabinho, Plínio podia até ser seu pai biológico, e ele podia até perdoá-lo, construir uma relação de afeto com ele e tudo, mas sua mãe de coração continuava sendo Margot. Ele sentia que era a ela que devia lealdade e gratidão em primeiro lugar. Ela merecia o carinho dele mais do que ninguém, pois ela sim o amava incondicionalmente, mesmo quando ele estava errado. E era claro que Fabinho não dispensaria o carinho de Irene, que sempre acreditou nele.

Nesse momento, Érico aproximou-se. Acabou de saber, pela Cléo, que foi Júlia quem entregou a campanha da Tratore para o Natan. Fabinho era inocente. Achou que devia pedir desculpas a Fabinho.

— Oi, desculpa. — disse Érico. — Eu não quero atrapalhar nada, mas, Fabinho, eu... Eu preciso te pedir desculpa. Eu reconheço o meu erro. A gente descobriu que a Júlia que foi a traidora. Foi ela que passou todo o slogan da campanha pro Natan. Eu... Eu te peço mil desculpas, cara. — apertou a mão de Fabinho.

Fabinho não podia acreditar. Agora, todos estavam pedindo desculpas a ele. Parecia que ele iria ter o emprego de volta. Acabou de descobrir quem eram seus pais. Estava rico. Deus existia e finalmente se lembrou dele. Quem sabe estava na hora de se reconciliar com Deus também. Antes, Fabinho se recusava a acreditar em Deus, pois Deus ou o universo parecia conspirar contra ele e favorecer Bento. Mas ele se enganou e agora ele voltou a acreditar no ser humano, e podia se permitir a acreditar em Deus também. Ele tinha de reconhecer que fez muita coisa errada e afastou as pessoas com sua inveja, seu ódio e sua amargura. Não era Deus que estava contra ele, era ele que se queimava, se autossabotava. Fabinho não estava mais revoltado com Deus e com a vida, pois a vida estava devolvendo tudo o que havia tirado dele e corrigindo as injustiças que sofreu.

— Tudo bem, cara. Que dia é hoje? É o dia do arrependimento? Todo mundo veio pedir desculpas, reconhecer as injustiças! — disse Fabinho, e olhou para o céu. — Deus, olhaste para mim, Senhor?

Madá achava que Fabinho tinha de parar de se sentir um eterno injustiçado, e de sentir pena de si mesmo, até porque ele aprontou muito:

— Ô, garoto, para de abusar da bondade divina, hein? Tá bem. Tudo ok. Tu foi vítima dessa vez, mas esse poço que tu tá vivendo, 50% foi você que cavou. Então, para com essa carinha de coitadinho, deixa de ironia, porque eu vou te contar uma coisa, tu foi o cão chupando manga.

As palavras de Madá entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Fabinho estava cansado de ouvir sermão, lições de moral. Ele sabia muito bem o que fez, e estava cansado de saber que não era nenhum santo. Ela não precisava ficar jogando na cara dele. Mas ficou quieto, não disse nada.

De repente, ouviram Giane gritar:

— Ei, Socorro, você tá fugindo, é? — gritou Giane, correndo atrás dela.

De fato, Socorro estava saindo de fininho da casa do Gilson com um monte de bolsas.

— Socorro, sua desgraçada! — gritou Fabinho, correndo atrás de Socorro.

Fabinho e Giane começaram a perseguir Socorro, que subiu as escadas, no mesmo local por onde Fabinho fugiu quando destruiu a estufa. Passou pela casa de Fabinho, que antes era de Charlene.

— Sua desgraçada! — gritou Fabinho, subindo as escadas, atrás de Socorro.

— Volta aqui! — gritou Giane.

— Não! — gritou Socorro, correndo.

Socorro abriu o portão de uma das casas, em frente à casa de Fabinho, e se escondeu atrás do muro. Giane e Fabinho continuaram andando pela rua, à procura dela. Socorro esperou eles passarem, abriu o portão, saiu, atravessou a rua e chamou um táxi. Giane e Fabinho voltaram e a viram, e correram atrás dela.

— Socorro! Socorro! — gritou Fabinho.

Porém, Socorro já havia entrado no táxi, que começou a andar.

— Amigo, para, amigo. Para, para, para! — gritou Fabinho. Porém, o motorista do táxi não parou.

— Foi por pouco. — disse Fabinho.

— Onde será que ela foi, hein? — perguntou Giane.

— Não, tudo bem. — disse Fabinho, pendurando no braço a mochila que estava carregando. — Essa aí acabou de piorar a situação dela. A gente não pode deixar a Amora fugir.

Mais tarde, Fabinho foi até a casa do Bento. Sabia que Amora estava sozinha lá. Queria dizer poucas e boas para a víbora. Para ele era até surpreendente ela não ter dado o fora, que nem a Socorro. Tinha de admitir que Amora estava sendo corajosa por continuar na Casa Verde, depois de tudo. Quando chegou à casa do Bento, Fabinho entrou sem bater na porta e aproximou-se de Amora por trás.

— Cocotinha.

Amora virou-se, tinindo de raiva, com os olhos cheios de lágrimas.

— O seu mundo tá desabando, né? E pelo visto, a casa vai cair na sua cabeça. — disse Fabinho.

Amora empurrou-o:

— Sai daqui, seu porco!

— Amora, a gente precisa ter uma conversa. — disse Plínio, entrando na casa, sendo seguido por Irene.

Fabinho olhou para Amora, com um sorriso de deboche no rosto. Sabia que Plínio e Irene estavam vindo logo atrás dele, para tirar satisfações com Amora. Falaram sobre a troca dos exames de DNA.

— Eu não tenho nada a ver com isso, eu juro. — disse Amora.

— Chega de mentira, Amora! Chega de mentira! — disse Plínio, indignado. — A Socorro já deixou claro que foi você que deu as instruções pra troca dos exames!

— Eu não sabia de nada. Tô tão perplexa quanto vocês. — disse Amora.

— Para de representar, Amora! — disse Irene. — O quê que essa moça ganharia agindo sozinha? — apontou para o lado da casa do Gilson. — Quem mais você acha que consegue enganar?

— Eu não tenho nada a ver com isso, eu juro! — disse Amora. — A Socorro, ela sempre foi obcecada por mim. Talvez ela tenha feito isso porque pensou que eu fosse ficar feliz, porque ela é apaixonada por mim. Eu não sei! Vocês têm que perguntar pra ela!

— Você tá dizendo isso, porque você sabe muito bem que a sua cúmplice já fugiu. — disse Fabinho.

— É, e com certeza também foi a Socorro que empurrou a Malu da escadaria. — disse Plínio, irônico.

— Eu não sei, mas pode ter sido ela, sim! Ela vivia aqui em casa. Ela pode ter pego o meu anel. Eu não sei! — disse Amora.

— E o incêndio na Toca foi ela? A pichação foi ela também? Tudo é a Socorro? — perguntou Fabinho, furioso.

— As escutas no quarto da Malu? As ameaças à dona Madá? O seu falso aborto também foi a Socorro, né? — disse a Irene.

— Eu perdi o meu filho, sim, por causa desse cafajeste! — disse Amora, apontando para Fabinho.

— Cafajeste é você! — disse Fabinho.

— Isso é muito fácil de comprovar. Vamos agora a um ginecologista e você faz um exame clínico. — disse Plínio.

— Exatamente! — disse Fabinho.

— Eu não acredito que vocês querem me submeter a mais essa humilhação! Já não basta tudo que eu sofri, tudo que eu tô passando? Eu não aguento mais! Chega! Sai da minha casa! — gritou Amora.

— Para de gritar, Amora! Você nos deve explicações, não adianta você ficar assim. — gritava Irene, que normalmente era uma pessoa calma.

— Gente, o quê que está acontecendo aqui? — perguntou Giane, aproximando-se. Acabou de entrar na casa e ouviu os gritos.

— A cocotinha não fez nada. Tudo aqui é culpa da Socorro. — disse Fabinho, irônico.

— Ah, mas é claro que ela vai dizer isso. Ela nunca vai confessar. Vocês esperavam? — disse Giane. — Gente, mais uma novidade. O verdadeiro pai do Bento é o Wilson Rabelo.

Deu para ver que Amora não queria acreditar.

— Você tá falando sério? — perguntou Amora.

Amora achou que não era possível, Bento não podia ser filho do canalha do Wilson. Giane só podia estar de brincadeira.

— De onde você tirou essa informação, Giane? — perguntou Plínio.

— Meu pai que me contou. Mas é uma pena, né, que o Wilson esteja falido? — disse Giane. — Porque alguém que odiava ele sabotou o bufê.

Fabinho riu. Amora armou para fazer o Bento ficar milionário, e no fim, ela nem precisava ter feito isso, porque o verdadeiro pai do Bento tinha dinheiro. Muito dinheiro. Mas ela sabotou o bufê, e o sogro dela acabou indo à falência. Sem saber, Amora deu um tiro no próprio pé.

— Sabotou o bufê do sogrão! — disse Fabinho para Amora.

— Eu não fiz isso! Eu não fiz isso! — disse Amora, desesperada, chorando. Estava sendo acusada até de crimes que não cometeu.

— Olha aqui, Amora, de todas as barbaridades que você fez, e não foram poucas, a mais imperdoável foi você ter atentado contra a vida da Malu. — disse Plínio, indignado. Ele amava a filha mais do que tudo. Quando Emília contou que Amora tinha tentado sufocar Malu com o travesseiro, ele até deu o benefício da dúvida para Amora. Afinal, ninguém tinha visto Amora tentar sufocar a Malu de verdade. Não dava para saber com certeza o que ela teria feito. Ela só foi vista com o travesseiro na mão, e como ela estava do lado da cama da Malu, Emília desconfiou. Emília podia estar imaginando coisas. Amora podia ter vindo ao quarto da Malu só buscar o travesseiro, porque achou que era dela. Plínio achava que Amora não era flor que se cheire, mas que não seria capaz de matar uma pessoa. Ele preferia pensar que ela não teria coragem. Mas agora, ainda mais depois de saber de tudo o que Amora aprontou, o falso aborto, a troca dos exames, ele não duvidava de mais nada. Amora era muito pior do que ele pensava. Ele achava que Amora ia tomar jeito com a gravidez, afinal ela ia ser mãe. Ela ia ver que precisaria mudar. Mas era tudo mentira.

— Não fui eu! Não fui eu! — gritou Amora, desesperada. Ela não tinha nada a ver com o acidente da Malu, mas ninguém acreditaria nela.

— Não foi a primeira vez que ela sacaneou a Malu! — disse Giane.

— Mas não fui eu! Eu tô falando sério! Sai daqui, gente! Sai! — gritou Amora.

— Você vai pagar por cada um dos seus crimes, Amora! Palavra de honra! — disse Plínio.

— Vambora, Plínio! Vambora! Tá me fazendo mal isso aqui. Vambora. — disse Irene. Irene e Plínio foram andando na frente.

Amora encostou-se em um móvel. Fabinho aproximou-se dela por trás.

— Papai falou, tá falado. — disse Fabinho.

— Sai! Sai daqui! — berrou Amora, virando-se, e Fabinho afastou-se. Amora pegou uma louça e atirou na parede. — Aaah!

Horas depois, Giane e Fabinho estavam no sofá da casa dele. Conversaram sobre os últimos acontecimentos. Também falaram de Socorro.

— Não tem que se preocupar com a Socorro, não. — disse Fabinho, alisando os cabelos de Giane, que estava deitada no colo dele. — O importante é que agora a Amora se ferrou de vez e eu tô rico, milionário. — riu.

— E o que você vai fazer? Vai esnobar todo mundo e comprar a rua, que nem você ia fazer da outra vez? — perguntou Giane.

Fabinho sabia o que ela estava pensando. Giane morria de medo de que ele deixasse o dinheiro subir à cabeça, ficasse deslumbrado e passasse a esnobá-la, a virar a cara para ela. Meses atrás, ele realmente ficou deslumbrado por ser filho do grande cineasta Plínio Campana e por isso esnobava todo mundo. Ele não podia culpá-la por ter medo. Mas ele jamais iria virar a cara para ela, porque a amava de verdade. Ele havia mudado. Não iria mais se deslumbrar. Deixou de ser aquele garoto esnobe.

— Não sei, o quê que você acha? Tô pensando ainda. — disse Fabinho. — O importante é curtir a vida, né? Viajar, gastar muito, pegar tudo que é mulher.

Ele queria fazer ciúmes em Giane.

— É o quê? — disse Giane, levantando-se e olhando para ele.

— Claro. Senão, não vale a pena ser rico, né? Com um maloqueiro desses do lado, não. — brincou Fabinho. — Agora, é atriz, modelo e socialite. Só isso que eu quero.

— Modelo, eu até sou. E se eu quiser, ó, pego homem muito mais rico e bonito do que você. — disse Giane.

— Hum. Tá se achando, né, metida? — disse Fabinho.

— Só tô me dando o devido valor. — disse Giane.

Fabinho olhou para ela, sorrindo.

— Você tá louca. Eu não te troco por dinheiro nenhum. — disse o rapaz, aproximando-se mais dela e olhando-a nos olhos. — Você é a pessoa mais importante da minha vida. A pessoa que eu mais amo.

— Além de rico, ficou romântico também? — perguntou Giane, feliz.

— É que você sempre ficou do meu lado nos momentos ruins. — disse Fabinho, fazendo um carinho no rosto dela. — Agora, eu quero você sempre. Te amo muito.

Giane resolveu dizer o que guardava em seu coração.

— Você sabe que eu nunca pensei que eu fosse dizer isso?

— Mas? — perguntou Fabinho, já sabendo o que ela ia dizer. Também nunca pensou que ouviria essas palavras dela. E jamais imaginou que a amaria tanto. Aliás, nunca na vida imaginou que conseguiria amar de verdade e ser amado. Se fosse há uns meses atrás, não olharia na cara dela, iria querer distância. Ele tinha raiva dela, não a suportava e ao mesmo tempo lutava contra o desejo que sentia, pois não queria gostar dela. Na verdade, ele a amava e odiava ao mesmo tempo. Ele implicava com ela, a provocava, trocava farpas porque não sabia lidar como o que sentia de maneira saudável, não sabia demonstrar amor. Ele tinha uma dificuldade enorme em dar e receber afeto. Tudo mudou quando Giane salvou sua vida, cuidou dele, permaneceu ao lado dele nos momentos ruins, e passara a defendê-lo contra tudo e contra todos.

— Mas eu te amo também. — disse Giane. Beijaram-se.