Um Toque, Uma História.

11 Desejo em Transe


Eu só queria pegar um copo d’água. Nada além disso.

Uma noite comum, daquelas que começam com a mochila largada no chão da sala, o tênis voando pro canto e o corpo despencando no sofá como se tivesse sido atropelado por um semestre inteiro. Devia ser umas sete. O céu ainda exibia um resto de azul apagado pela janela, e a TV seguia ligada em algum programa que eu nem notei. Não me importava. Minha cabeça tava entorpecida, esmagada por mais um dia de aula arrastada, professor monótono e quadro branco vomitando datas. E ali estava eu, de calça de moletom, sem camisa, cabelo bagunçado, óculos torto no rosto e a expressão típica de quem já largou mão da própria dignidade desde as quatro da tarde.

A casa seguia num silêncio arrastado, só quebrado pelo zumbido distante da geladeira e pela luz amarelada do corredor, que deixava a cozinha com cara de sonho mal iluminado. Me arrastei até lá com os pés descalços raspando no chão frio, o corpo quase pedindo socorro, bocejando alto enquanto estendia a mão pro copo. Já dava pra sentir o vidro gelado tocando os dedos. E aí, no meio desse ritual automático, a campainha tocou.

Ding-dong.

Seco. Irritante. Aquele som sempre soava banal, mas naquela hora… alguma coisa dentro de mim travou. Como se o som tivesse rompido o tecido do que deveria ser uma quarta-feira normal. Meu braço parou no ar. O coração deu um salto sem sentido, e nem foi susto de verdade — foi aquela merda de sensação de que algo fora do roteiro tava prestes a acontecer. Do nada. Sem aviso.

Larguei o copo de volta na pia com cuidado, tentando parecer calmo mesmo com o estômago revirando. Fui até a porta num ritmo lento, quase desconfiado, franzindo a testa. O corpo ainda carregava aquele peso do fim do dia, mas o alerta já tinha disparado por dentro. Abri a porta sem pensar muito, sem camisa mesmo, do jeito que tava. Esperando encontrar o de sempre — vizinho chato, entrega errada, sei lá. Qualquer coisa.

Mas não era qualquer coisa.

Era ela.

Naomi.

Parada bem ali, no vão da porta, com a expressão mais tranquila do mundo, como se fazer visita do nada fosse totalmente justificável. Usava uma calça jeans clara, justa, e uma blusa preta que subia um pouco na cintura, deixando um pedaço da barriga à mostra. E o cabelo... os cachos escuros desciam soltos pelos ombros, bagunçados na medida certa. Segurava um caderno contra o peito e me olhava com aquela calma que sempre me desarma. Como se não fosse a primeira vez que me via assim — descabelado, sem camisa, parecendo que acordei agora.

— Oi, Adam — disse, com um sorrisinho de canto que eu reconheceria de olhos fechados. — A gente combinou de revisar o trabalho de história, lembra?

Trabalho de história? Minhas sinapses deram um curto. Revirei mentalmente os últimos três dias, tentando puxar qualquer sinal de que essa conversa realmente existiu. Nada. Nenhuma mensagem, nenhum “passa lá em casa”, nem uma anotação perdida no caderno. Sinceramente, nem lembrava se esse trabalho existia mesmo.

Mas continuei ali, feito um idiota plantado no chão frio da entrada, fingindo que tava tudo certo. Que fazia sentido ela estar ali, na minha frente, às sete da noite de uma quarta-feira qualquer. Fingi que lembrava. Fingi que esperava. Fingi que meu coração não tinha disparado feito alarme de incêndio só porque ela tava tão perto. O cheiro doce dela já tinha invadido o corredor, escorregado pra dentro da sala, se misturado no meu ar.

— Claro. Entra aí. — falei, tentando soar normal, tentando parecer só mais um amigo prestativo, e não o cara que tinha acabado de ser pego desprevenido pela garota que ele tenta não encarar demais nos intervalos.

Ela entrou.

E o silêncio que ficou quando a porta se fechou atrás dela foi quase ensurdecedor. Um tipo de vazio que não era bem ausência de som, mas presença demais de tudo o que não tava sendo dito. Eu virei de costas, rápido, fingindo que não notei o jeito que ela olhou pro meu peito nu ou o jeito que os olhos dela passearam pela sala como se quisessem catalogar cada canto.

Fui até o sofá, me abaixei e puxei a mochila com um pouco mais de pressa do que devia. O zíper arranhou o silêncio. Tentei não parecer desesperado enquanto fuçava nos livros e cadernos, como se soubesse exatamente o que tava procurando.

— Qual foi mesmo o tema? — perguntei, de cabeça baixa, pra não ter que encarar o olhar dela direto.

— Adam… — a voz veio carregada com uma provocação disfarçada de normalidade. Ela se aproximou devagar, como quem tem tempo de sobra pra destruir alguém. — Tu realmente não lembra?

Levantei o olhar. Ela já tava do lado do sofá, com o caderno encostado na lateral da coxa, os dedos brincando com a espiral como se fosse uma distração qualquer. Mas o sorriso no canto da boca dela dizia outra coisa.

— Eu lembro de história. Só não lembrava que a gente tinha combinado de revisar aqui em casa — falei, tentando manter o tom neutro, mas a garganta já tava seca.

Ela deu um risinho abafado, como quem se diverte com a própria audácia, e sentou no tapete da sala, cruzando as pernas com naturalidade. Abriu o caderno no colo, folheando até encontrar uma página rabiscada com o título sublinhado em caneta azul.

— Século XX. Guerras, transformações sociais, avanços tecnológicos e... os efeitos psicológicos em populações civis. É esse o tema — explicou, lançando um olhar rápido pra mim antes de voltar a encarar o papel. — A parte dos traumas me interessou. Achei que tu também ia curtir.

Me sentei no sofá, tentando relaxar os ombros, mas o desconforto tava grudado na pele. Peguei um dos livros no colo só pra ter o que fazer com as mãos, e folheei algumas páginas sem foco.

— É... faz sentido — murmurei, tentando entrar no clima da coisa. — Mas a gente tem que apresentar isso em dupla?

— É um trabalho individual. — Ela respondeu com naturalidade, como quem deixa cair uma bomba no meio da conversa. — Mas achei que seria mais interessante trocar umas ideias. Além disso... você sempre tem umas visões meio diferentes das coisas. Me intriga.

— Me intriga — repeti, meio em voz alta, meio pra mim mesmo, franzindo a testa. — Parece que tu tá tentando me analisar igual faz com as vítimas dos traumas do século passado.

— Talvez eu esteja — ela respondeu, dando de ombros, mas com aquele mesmo sorriso torto que não saía da boca. — Você parece alguém com muita história guardada.

Fiquei alguns segundos em silêncio. Não porque não tinha resposta. Mas porque, naquele instante, percebi o quanto ela gostava de jogar com o subtexto. E o quanto eu tava fodido se entrasse nesse jogo com ela.

Ela passou a mão no cabelo, jogando os cachos pro lado com um movimento despreocupado, e depois estendeu o caderno na minha direção.

— Lê esse trecho aqui — disse, apontando um parágrafo específico. — Fala sobre o impacto emocional de viver em constante tensão. Me diz se não parece com a rotina de um estudante universitário.

Sorri de canto, sem humor, e peguei o caderno. O dedo dela esbarrou no meu no processo. Pequeno toque. Ridículo. Mas deu um curto no meu cérebro. Fingi que não notei. Fingi que tava concentrado demais na leitura. E, pela primeira vez desde que ela apareceu, comecei a entender que talvez Naomi não tivesse vindo só pelo tal trabalho.

— “Vivenciar o medo constante molda o comportamento humano de formas profundas. Afeta o sono, o apetite, a forma de se relacionar com os outros. Com o tempo, o corpo aprende a esperar o pior.” — li em voz alta, pausado. A garganta secando no meio da leitura. Fechei o caderno devagar, encarando a capa. — Parece mais com uma quarta-feira comum do que devia.

Ela riu, baixa. Aquela risada contida, como se estivesse se segurando pra não entregar o quanto estava se divertindo com aquilo tudo.

— Então você admite que vive em estado de alerta constante?

— Acho que qualquer um que te receba em casa sem aviso tá no direito de ficar em alerta — devolvi, num tom meio ranzinza, mas sem agressividade.

Ela se inclinou, apoiando o cotovelo no joelho, o queixo na palma da mão. Me observando com um olhar que pesava.

— Eu gosto disso em você — disse, simples, como se não tivesse acabado de soltar uma pedra no meio da minha cara. — Sempre parece que tá com um pé na fuga, mas não corre. Fica. Como se quisesse ver até onde aguenta.

— Tá me analisando mesmo, né? — soltei uma risada fraca, mas o peito já tava apertado. A tensão não era só emocional – era física. Quase que palpável.

— Tô te provocando. É diferente — corrigiu, com um sorrisinho nos lábios e os olhos cravados nos meus. — E você tá deixando.

Ela tava tão perto agora que o calor do corpo dela começava a subir do tapete. Não encostava, mas era como se sim. O tipo de presença que atravessa o espaço como se tivesse licença pra isso. Eu me ajeitei no sofá, como se o desconforto tivesse mais a ver com o estofado do que com a forma que o olhar dela me prendia.

— Talvez eu só esteja curioso pra saber onde isso vai dar.

— Isso o quê?

— Esse teu joguinho.

Ela riu de novo, dessa vez mais livre, quase satisfeita.

— Não é jogo, Adam. É só conversa. Trabalho de história. Século XX, lembra?

— É — assenti, abaixando o olhar pro caderno no meu colo. — História. Trauma. Guerra. Tensão permanente.

— E também relações interpessoais intensificadas em ambientes hostis — completou, como se tivesse lido o que eu tava pensando. — Os estudos dizem que em situações de risco, as pessoas tendem a se aproximar mais rápido. Intimidade forçada pelo caos.

— Aqui não tem caos.

— Ainda — ela respondeu, e se inclinou um pouco mais, até os ombros quase encostarem nos meus joelhos. — Mas você tem esse jeito de quem tá sempre prestes a explodir. Isso... me instiga.

Segurei o ar por um segundo. Os olhos dela não piscavam, não fugiam. Ela tava ali pra testar os limites. Os dela. Os meus. E o pior é que eu queria ver até onde isso ia. Queria ver até onde ela ia me arrastar.

— Tu devia parar — falei, baixo, tenso.

— E se eu não quiser?

— Vai me obrigar a descobrir até onde eu aguento?

— Talvez.

A distância entre a boca dela e a minha agora parecia ridícula. Ela não precisava nem se inclinar tanto. Um sopro de coragem e a gente quebrava essa linha tênue. Mas ela não se mexeu. Nem eu.

Ficamos ali, presos no intervalo entre o que era só uma conversa e o que tava prestes a deixar de ser.

O silêncio se estendeu, denso. Ela ainda com o corpo inclinado na minha direção, eu ainda tentando parecer no controle. Fingindo que podia respirar normalmente com ela ali, perto demais, falando baixo demais, olhando fundo demais.

Ela abaixou o olhar pro meu peito por um segundo, depois voltou pros meus olhos.

— Tá acelerado — comentou, como quem fala sobre o tempo lá fora. — Coração.

— É o café — respondi, mesmo sabendo que a única coisa que eu tinha bebido naquele dia era água.

— Sei. — Ela sorriu. E passou o dedo, leve, no canto do próprio lábio. — Tu sempre olha assim pras tuas colegas de trabalho em grupo?

— Só quando elas aparecem sem avisar, invadem meu espaço e começam a me dissecar como se eu fosse um quebra-cabeça interessante.

— Hm. E quando elas tocam em ti, mesmo que sem querer, e tu fica paralisado... isso também é parte do protocolo?

— Isso... não devia ter acontecido.

— Por quê?

— Porque eu não sou bom nesse tipo de coisa.

— Qual tipo?

— O tipo que te deixa chegar tão perto assim e acha que vai sair ileso.

Ela mordeu o lábio inferior, rindo pelo nariz, como se eu tivesse acabado de contar um segredo que ela já sabia.

— Talvez eu não esteja procurando ilesos, Adam. Talvez eu goste das pessoas que quebram.

Foi aí que eu soube que fudeu.

Porque ela não tava só provocando. Não era só charme ou brincadeira. Era uma intenção descarada, presente em cada movimento, cada vírgula que ela soltava entre uma frase e outra. Era um convite, feito na base da ousadia, sem nenhuma pressa — mas com todos os caminhos abertos.

E eu? Eu tava dizendo “não” com a boca, mas o corpo inteiro já tava indo.

Ela ajeitou o caderno de lado, afastando o que nos separava. Lentamente. Sem dizer nada. Depois apoiou a mão no meu joelho. A palma quente, firme. O toque direto. Um gesto pequeno, mas que soou como um estrondo no meu sistema nervoso.

— A gente ainda tá falando de história? — perguntei, com a voz rouca, sentindo a garganta arranhar por dentro.

Ela deu de ombros. Mas os olhos... os olhos diziam não mais.

— Quer descobrir?

Foi aí que quebrei.

Segurei a nuca dela num impulso bruto, rápido, e puxei de vez. A boca dela colidiu com a minha antes mesmo de eu pensar em hesitar. Foi direto. Foi urgente. Não teve “primeiro beijo delicado”. Teve colisão, calor, respiração descompassada.

Ela correspondeu como se estivesse esperando por isso desde o corredor. As mãos subindo pro meu pescoço, os dedos enroscando no meu cabelo. Um gemido baixo escapando dela no exato segundo em que minha língua tocou a dela.

Eu a puxei mais pra perto, fazendo o corpo dela tombar no meu colo, pernas por cima das minhas, o quadril dela se encaixando no meu como se fosse onde pertencia desde sempre.

O caderno caiu no chão com um thump, esquecido. O sofá virou trincheira. E qualquer noção de “trabalho de história” virou ruína.

Porque agora o tema era outro.

Agora o tema era pele.

O assunto: urgência.

E a conclusão? A gente não ia parar.

O beijo desceu pelo meu pescoço quando ela se afastou da minha boca, arrastando os lábios por cada centímetro exposto, como se quisesse marcar o caminho. A mão dela já subia pelas minhas costelas, quente, ousada, buscando território sob a pele exposta. Eu só vestia a calça de moletom, e mesmo assim ela me olhava como se eu ainda tivesse que tirar mais alguma coisa. O beijo continuava — denso, arrastado, quase violento de tão cheio de vontade.

Ela se movimentou no meu colo com um controle que me desmontou. Rebolou devagar, testando, provocando, e eu tive que apertar a cintura dela com força pra não deixar escapar nenhum som que me denunciasse.

Soltei um palavrão baixo quando ela se inclinou pra trás, puxando a própria blusa por cima da cabeça e jogando em qualquer canto. O sutiã preto ficou no lugar por pouco tempo. Minhas mãos já estavam lá, explorando, apertando, descobrindo a textura da pele quente que implorava por mais.

Ela gemeu contra a minha orelha, e eu perdi o resto de qualquer autocontrole.

Deitei ela no sofá de um jeito torto, bruto, sem delicadeza — mas com uma fome que ela parecia querer desde o início. As pernas se abriram em volta da minha cintura, me prendendo ali. Nossos quadris se encaixaram com força, e os dois gemeram juntos.

— Isso é... — Ela começou, mas não terminou. Mordi a clavícula dela, marcando de leve. Ela arqueou o corpo contra o meu, os dedos cravando nos meus ombros. — Porra... isso é loucura.

— É só o começo, Adam…

Beijei entre os seios, depois o estômago, descendo como se estivesse mapeando território. As mãos dela vieram pro meu cabelo, puxando, direcionando. Cada toque era gasolina. Cada suspiro, uma faísca.

Quando abri o botão da calça dela, senti as pernas tremendo. Ela mordeu o lábio outra vez, e pela primeira vez, pareceu vulnerável. Não hesitante — entregue. E isso me deu ainda mais vontade de destruir cada camada que ela usava como defesa.

Arranquei a calça devagar, descendo com a boca junto. Ela tentou cobrir o rosto, rindo, nervosa. Eu afastei a mão dela e olhei direto, firme.

— Não se esconde de mim agora.

Ela não respondeu. Só mordeu o canto da boca e abriu ainda mais as pernas. O convite tava feito. Escancarado. E eu aceitei como se minha vida dependesse disso.

Beijei por cima da calcinha, depois por baixo, até ela gemer alto demais pro horário. E segui. Até os dedos dela travarem no estofado. Até ela esquecer o próprio nome e só lembrar do meu.

Abaixei a calcinha com os dentes, lento, olhando pra ela como se eu estivesse desfazendo um presente. E ela tremia. De excitação, de tensão, de tudo ao mesmo tempo. Mas não desviava o olhar. Não agora.

Beijei o interior da coxa, senti o calor pulsante entre as pernas dela. Cada centímetro que eu descia, ela arqueava mais. A respiração já tava descompassada, os olhos semicerrados, perdendo o controle bem na minha frente.

— Relaxa — murmurei, a voz rouca, carregada de um desejo que não dava mais pra esconder. — Só sente.

A língua tocou devagar no centro dela, úmida, quente, e o corpo inteiro reagiu. Um gemido escapou da garganta dela, desgovernado, como se tivesse sido arrancado à força.

Ela segurou minha cabeça com as duas mãos, puxando pra mais perto, como se quisesse me colar ali. E eu fui. Totalmente. Lambi com vontade, com ritmo. Suguei devagar, depois mais forte, alternando, até sentir os músculos dela contraírem e o quadril rebolar desesperado contra a minha boca.

— Adam... p-porra... — a voz dela falhava, o corpo inteiro se contorcendo.

Meti dois dedos enquanto a boca continuava o trabalho. E ela quase gritou. Jogou a cabeça pra trás, os olhos fechados, a boca aberta num gemido mudo. Rebolava contra mim como se o sofá fosse desaparecer, como se a casa fosse ruir, como se não houvesse mais nada fora daquilo.

Fiquei ali. Beijando, lambendo, fodendo com a língua e os dedos, até as pernas dela começarem a tremer de novo. Até ela gozar inteira contra minha boca, gemendo meu nome como se fosse a única palavra que existia no mundo.

Só parei quando senti que ela tava implorando por alívio. Quando o corpo amoleceu, entregue, suado, despido de qualquer defesa.

Subi de volta, beijando o caminho até o pescoço, e me deitei por cima dela, colando nossos corpos. Os olhos dela estavam vermelhos, úmidos, em choque.

Ela respirava como se tivesse corrido uma maratona — ofegante, com o peito subindo e descendo rápido sob mim. As pernas ainda trêmulas me prendiam pelos quadris, os braços jogados ao redor do meu pescoço. A pele dela tava quente, grudada na minha. O sofá já era só um detalhe. O mundo tinha virado aquele quadrado apertado onde só existia nós dois.

— Porra... — ela murmurou, a voz rouca, quase rindo. — Tu gosta de acabar com as pessoas, né?

Apoiei a testa na dela, rindo contra a boca suada.

— Só quando elas me provocam até perder o juízo.

Ela passou os dedos devagar pelo meu abdômen, até alcançar a beirada da minha calça de moletom.

— E ainda não acabou, né? —ela morde os lábios, me fazendo cair mais ainda na tentação, como se já não estivesse fundo o suficiente.

— Tudo o que começa, tem que acabar, certo?

— Então fode logo comigo, Adam. Para de brincar.

Foi quando a última trava se quebrou.

Levantei só o suficiente pra abaixar a calça, sem pressa, mas com pressa. Ela me olhava como se já estivesse sentindo, como se o vazio entre as pernas gritasse pra ser preenchido de novo.

Me ajeitei entre as coxas dela. Ela se abriu sem pedir, sem cerimônia. Só virou o rosto pro lado, ofegando, os olhos cerrados de expectativa, a boca entreaberta.

— Olha pra mim — pedi, com a voz baixa, rasgada. — Quero ver tua cara quando eu entrar.

Ela virou o rosto, os olhos ardendo nos meus. Segurei a base, alinhei e empurrei — devagar no começo, só pra provocar, sentindo cada milímetro me afundar dentro dela.

O gemido que ela soltou veio do fundo da garganta, rouco, desesperado. O corpo arqueou, o quadril se ergueu, pedindo mais.

E eu entreguei tudo.

Enterrei de uma vez, forte, com um estalo seco que fez ela agarrar meu braço com força. O sofá rangeu sob o peso, sob o impacto, sob a vontade crua. Meti com intensidade, segurando uma perna dela no ombro e apertando a cintura com a outra mão, dominando cada centímetro daquele espaço.

Ela me chamava entre gemidos, gritos abafados, arranhões nas minhas costas. E eu só conseguia pensar em como ela encaixava perfeitamente, como o corpo dela parecia ter sido feito pra me receber assim, sem pausa, sem limites.

— Isso, caralho... — ela sussurrou, com a voz falha. — Continua…isso

E eu obedeci. Cada estocada era um desabafo. Cada movimento, um descontrole. Fodíamos como se estivéssemos em guerra — não por prazer, mas por sobrevivência.

E no fim, quando ela gozou de novo, gritando, eu fui junto, derramando tudo dentro dela com o corpo inteiro tremendo, ofegante, destruído.

O mundo parou por alguns segundos. Depois voltou devagar, no silêncio cheio de respirações pesadas e suor escorrendo.

O silêncio pesava, mas não era desconfortável. Era denso. Quente. Suado. Como se o tempo tivesse parado pra assistir a gente desabar um no outro.

Me deixei cair por cima dela, sentindo o peito dela subir e descer num ritmo descompassado, igual ao meu. A respiração quente, o suor grudando a gente no sofá como se qualquer tentativa de afastar fosse inútil.

Beijei o canto da boca dela, depois o queixo, o maxilar, o pescoço... como se ainda não tivesse terminado, como se o corpo pedisse mais mesmo depois de satisfeito. Os dedos dela roçavam distraídos nas minhas costas, leves, como se quisesse garantir que eu ainda estava ali.

— Naomi… — murmurei, com a testa no ombro dela. Minha voz saiu baixa, quase sonolenta.

— Hm? — Ela sussurrou de volta, mas não abriu os olhos. Só se virou um pouco, jogando a cabeça pro lado, exposta, entregue.

— Fala comigo... — pedi, sem saber exatamente o que queria ouvir. Talvez um motivo pra continuar ali, naquele limbo quente onde tudo fazia sentido.

Ela virou o rosto devagar, com os olhos ainda úmidos e as bochechas vermelhas. A boca entreaberta, marcada pelos beijos, pela intensidade. E então falou.

— Adam…

A forma como ela disse meu nome... parecia carregada demais. Como se tivesse peso, como se algo fosse vir logo depois.

Meu coração batia rápido, fora do ritmo. Mas era diferente agora. Tinha algo… estranho. Uma névoa entrando pelos cantos, desfocando tudo. A textura da pele dela na minha mão começou a sumir. A respiração ficou leve, artificial. Como se…

— Adam...

De novo. Um chamado. Como se estivesse tentando me puxar de volta. Mas eu já tava aqui. Ainda dentro dela. Ainda com o coração acelerado. Ainda com os sentidos grudados nela.

Mas o sofá começou a desaparecer. O calor também. Ela ainda tava debaixo de mim, mas tava longe. Longe demais.

— Adam...

TOC TOC TOC

— Adam? — a voz do meu irmão veio abafada, meio distante. — Bora almoçar, cara. Capotou quando chegou.

Meus olhos se abriram devagar. A luz entrava pelas frestas da cortina. A cabeça doía. A garganta seca.

O quarto. O quarto de sempre.

Me vi deitado de lado, na cama. A coberta jogada até a cintura. A janela meio aberta deixava entrar o barulho da rua. Nenhum sinal de sofá, nenhum sinal de suor, nenhum sinal de Naomi.

O peito ainda subia e descia rápido. Mas era só eu agora. No quarto. Sozinho.

O gosto dela ainda parecia grudado na minha língua. O cheiro, na pele. O toque, por dentro da pele.

Mas nada tava ali.

Só o quarto. O teto. O ventilador girando no ritmo errado, como se risse da minha cara.

Fechei os olhos de novo. Um segundo só. Talvez pra tentar puxar ela de volta, forçar a cabeça a continuar de onde parou. Mas o silêncio era outro agora. E frio.

Toquei meu peito, ainda arfando leve. O lençol embolado nas pernas, a cueca apertando num ponto específico demais. A ereção ainda ali, teimosa, irritante. Como se o corpo não tivesse entendido que tudo tinha sido uma mentira.

— Caralho... — murmurei, a voz áspera, arranhada de frustração.

TOC TOC.

— Adam, porra! — a voz do meu irmão soou mais alta agora, impaciente. — Vamo, bicho. Já tá todo mundo na mesa. Tu morreu?

Levei a mão ao rosto, esfregando os olhos e o nariz, tentando me forçar a sair do torpor. Mas ainda tava preso naquela cena. Nos detalhes absurdos. O som da voz dela. A textura da pele. O calor da respiração batendo no meu pescoço.

Me virei na cama com um suspiro arrastado, pressionando o lençol contra o próprio corpo.

— Desço já, caralho! — respondi alto, mais irritado do que pretendia.

Um silêncio breve do outro lado da porta. Depois passos se afastando.

Me sentei devagar. O corpo todo ainda pesava. As pernas bambas, como se tivesse realmente fodido alguém até o fim. E fodido bem.

Olhei pra baixo e bufei.

— Ah, ótimo... — murmurei, encarando a ereção insistente que parecia zombar da minha situação.

Apoiei os cotovelos nos joelhos, enterrando o rosto nas mãos. Respirei fundo, uma, duas vezes. Na terceira, soltei o ar devagar, frustrado.

Me levantei e fui direto até a cômoda, ligando a caixa de som no volume baixo. Só precisava... de alguma coisa. Alguma distração. Uma âncora. Um som qualquer pra tirar Naomi da minha cabeça.

A música começou suave. Uma batida eletrônica, lenta, envolvente.

Mas não ajudou. Só piorou.

Porque parecia música de fundo pra o que a gente tinha vivido ali, no sofá inexistente. Quase dava pra ver a curva do corpo dela se encaixando no meu ritmo, no mesmo compasso da melodia.

Fechei os olhos de novo. Deixei a testa encostar na borda da estante. E sussurrei, quase sem querer.

— Naomi...

Ainda dava pra sentir o nome dela preso na garganta.

Minhas mãos fecharam em punhos, os nós dos dedos brancos. Tentei me afastar da sensação — de novo. Tentei. Mas não consegui. Era como se ela tivesse grudado na minha pele. Como se ainda estivesse ali, quente, molhada, gemendo meu nome com aquela voz falha. A respiração saiu em um arquejo.

— Caralho..

O palavrão escapa dos meus lábios enquanto voltava pra cama, cada passo pesado como se eu estivesse indo pra algum tipo de derrota.

Deitei de costas, os olhos fixos no teto. A mão deslizou sozinha por cima da barriga, até alcançar o que o sonho deixou pra trás. Não tinha poesia nenhuma ali. Só necessidade.

Fechei os olhos. E ela apareceu de novo.

Naomi embaixo de mim. Naomi gemendo. Naomi tremendo. As pernas abertas, os dedos cravando nos meus ombros, o olhar perdido entre dor e prazer. A voz dizendo meu nome. De novo. E de novo.

— Isso, caralho... — repeti baixinho, com a voz rouca, como se ela tivesse dito só pra mim. Só agora.

Os movimentos eram automáticos. Rápidos. Rudes. Quase dolorosos.

A mente pulava de uma imagem pra outra, todas impossíveis de esquecer. O gosto do pescoço dela. O aperto das coxas nas minhas costas. A forma como ela dizia "continua" como se fosse morrer se eu parasse. Tudo irreal. Tudo real demais.

O corpo inteiro tensionado. A respiração falha. O mundo estreitando até virar só isso: a mão, o som abafado da música, e Naomi.

Quando gozei, o corpo arqueou com violência. Um gemido rouco escapou, engasgado, abafado na curva do braço. O peito subindo e descendo rápido. O coração ainda martelando.

Mas o alívio... não veio.

Fiquei ali. Parado. O corpo mole, mas a cabeça fervendo. Como se tivesse me traído, como se tivesse me entregado pra algo que não existia. A sensação vazia veio logo depois, arrastada e silenciosa, como se zombasse de mim.

"Eu sonhei com tudo isso... sério, Adam?" — murmurei sozinho, com uma risada curta e amarga. "Tu tá pirando, velho. Se apaixonando por gente que nem te tocou de verdade."

Me joguei de volta na cama, com o braço cobrindo os olhos. A pele ainda grudenta, o cheiro de sexo solitário no ar. Uma parte de mim queria dormir de novo só pra voltar pro sofá que nunca existiu. A outra… só queria esquecer.

— Que porra foi essa…

Mas não tinha esquecimento. Não tinha descanso. Só um vazio quente no meio do peito. Uma raiva muda. Uma vontade estúpida de ouvir a voz dela de novo.

E o nome dela, latejando como ferida aberta.

Naomi.