Um Toque, Uma História.
12 Até o Último Segundo
O carro deslizou pela estrada molhada com os faróis rasgando a escuridão entre as árvores. A chuva fina batia no vidro num ritmo constante, quase hipnótico, enquanto eu mantinha uma mão firme no volante e a outra descansava sobre a coxa dela. Catarina sorria com os olhos, apoiada no banco com um conforto que eu fingia não admirar sempre que ela não olhava. Usava um moletom largo, meu, e mesmo com o cabelo preso de qualquer jeito, parecia saída de um devaneio que eu recusava acordar. A cabana surgiu entre os pinheiros como uma sombra viva, isolada do mundo, com a varanda de madeira rangendo sob o vento e uma luz fraca escapando pela janela. Tudo era silêncio ao redor — só o som dos pneus, da chuva, do meu coração batendo por ela.
— Parece saída de filme de terror, né? — ela comentou, rindo de leve, enquanto eu desligava o motor.
— Um filme de terror bem sexy, talvez — respondi, inclinando o corpo pra perto dela e roubando um beijo rápido, com gosto de café e batom barato.
Ela riu de novo, encostando a testa na minha. Por um segundo, ficamos ali, os dois presos na bolha que a gente criou nas últimas semanas. Intensa, rápida, sufocante. Catarina era o tipo de mulher que fazia qualquer um esquecer os próprios planos. Quase me fez esquecer os meus também.
Entramos na cabana abraçados, dividindo o calor do casaco e o cheiro de madeira velha e lareira apagada. Soltei a mochila no chão enquanto ela tirava os sapatos, andando pela sala como se aquilo fosse nosso, como se já tivesse estado ali antes. Eu observava. Cada passo dela. Cada olhar pro teto, pro sofá, pro tapete com manchas antigas. Ela parecia confortável. Confiava em mim.
— Dave… isso aqui é lindo — ela disse, virando-se pra mim com um brilho nos olhos. — Tu tem certeza que ninguém mais vai vir?
— Ninguém sabe que a gente tá aqui — respondi, puxando ela pela cintura. — É só a gente. O fim de semana inteiro. Só nosso.
Ela se pendurou no meu pescoço, me beijando com aquela intensidade que deixava qualquer frase incompleta. Os lábios dela sabiam pedir, sabiam prometer. Eu respondi com calma, deixando as mãos deslizarem pelas costas dela, segurando firme, firme demais. Mas ela nunca reclamava da força. Gostava. Dizia que se sentia segura.
— Eu trouxe vinho — falei contra a boca dela. — E chocolate. Daquele que tu gosta. E...
— E camisinha? — ela sussurrou, sem vergonha nenhuma, com aquele olhar que já me deixava com a respiração mais pesada.
— Um estoque — respondi, mordendo de leve o canto do lábio inferior dela. — A gente pode não sair vivos daqui.
Ela riu, mas ficou vermelha. E eu adorava ver ela assim. Catarina era fogo e doçura no mesmo corpo, e o melhor — ou o pior — era que ela não fazia ideia do que acendia em mim.
Enquanto ela se jogava no sofá e pegava a garrafa de vinho pra abrir, eu fiquei parado por um segundo. Olhei pra ela ali, rindo, falando do frio, dizendo que ia tomar banho quente e me obrigando a entrar com ela. E pensei, como sempre penso: era difícil acreditar que ela era real.
Subi as escadas com calma, deixando que ela ficasse na sala vasculhando os armários atrás de taças decentes. A banheira era antiga, mas grande o suficiente pra dois corpos se perderem nela sem pressa. Girei as torneiras e deixei a água quente correr, enchendo o ambiente de vapor e cheiro de lavanda. Peguei algumas velas velhas da prateleira e acendi, espalhando pontos de luz fraca pelos cantos. Catarina gostava desses detalhes. Dizia que fazia tudo parecer mais íntimo. Eu só queria que ela se sentisse bem ali. Comigo.
Ela apareceu na porta com uma toalha pequena presa no corpo e duas taças de vinho numa das mãos. O cabelo meio solto, meio molhado pela umidade, a pele marcada por arrepios. Sorriu ao me ver e andou devagar até mim, os olhos nos meus, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.
— Você tem talento pra isso — disse, olhando a banheira cheia, o vapor subindo, as velas acesas. — Acho que estou ficando mimada.
— E se estiver? — perguntei, parando diante dela. — Tem problema?
Ela me encarou por um segundo. Longo. Depois ergueu as sobrancelhas de leve e deixou as taças na beira da pia. Os dedos dela começaram a abrir os botões da minha camisa devagar, como se fosse um ritual. Um a um. As mãos firmes, mas cuidadosas. Quase carinhosas demais.
— Não tem não — respondeu, com a voz baixa. — Eu gosto quando você cuida de mim assim.
Inclinei o rosto e a beijei. Devagar no começo. Um beijo com gosto de vinho e provocação contida. Mas ela mordeu meu lábio inferior no fim, e isso foi suficiente pra me fazer puxar a toalha do corpo dela e deixá-la cair no chão com um estalo seco. O corpo nu dela encostou no meu, quente, apertado, e por um momento eu quis não pensar. Só sentir.
Ela me ajudou a tirar o resto da roupa em silêncio. O jeans, a cueca, os sapatos jogados pro canto. Quando entramos na banheira, ela foi a primeira a se sentar, escorando as costas no lado oposto e abrindo espaço entre as pernas. Me puxou pra perto com os calcanhares apoiados nas minhas coxas, e o olhar dela dizia tudo o que a boca ainda não tinha coragem de falar.
— Parece tenso — sussurrou, passando uma mão molhada pelos meus ombros.
— E você parece estar me provocando — rebati, encaixando melhor meu corpo no dela, os dois submersos até a cintura, com as taças agora nas mãos.
O silêncio entre a gente era confortável, mas carregado. Ela brincava com o vinho, molhava os lábios e depois deixava os dedos escorregarem na água até tocar minha barriga, meu peito, meu pescoço. O olhar era fixo. Quente. Como se procurasse uma resposta que nem ela sabia qual era. E eu fingia que não notava, mas cada toque dela acendia alguma coisa.
— Estou começando a achar que esse fim de semana vai ser perigoso — murmurou, sorrindo torto.
— Perigoso é você continuar assim e achar que vou conseguir me controlar — respondi, pegando a taça dela e deixando na beira da banheira antes de puxá-la pra mais perto.
Nos beijamos ali mesmo, com água espirrando pelos lados e o vapor escondendo as bordas do quarto. Um beijo intenso, fundo, com mãos demais e espaço de menos. Catarina se encaixava em mim como se fosse feita pra isso. Não havia pressa, mas havia fome.
Ela se afastou ofegante e sussurrou no meu ouvido, rindo:
— Vamos para o quarto. Antes que a gente afogue aqui mesmo.
Me levantei primeiro e a puxei pela mão. Os corpos molhados, as respirações aceleradas, o vinho ainda queimando por dentro. Ela tropeçou em mim no caminho até o quarto, de propósito, e eu segurei firme pela cintura, colando ela de costas em mim.
— Você não presta — murmurei no ouvido dela, a boca encostada na pele quente.
— E você gosta disso — respondeu, com um sorriso que desmentia cada palavra.
E a gente entrou no quarto como quem sabia exatamente onde tudo ia parar.
O quarto era pequeno, mas quente. As luzes baixas da luminária de cabeceira deixavam a pele dela dourada, quase brilhando no escuro. Catarina se sentou na beira da cama, ainda com o cabelo pingando, e me puxou pela mão com um olhar que não pedia permissão. Só chamava. Como se dissesse vem, agora, sem pensar.
Me ajoelhei na frente dela e segurei os joelhos com as mãos abertas, sentindo a pele macia, quente, arrepiada. Beijei a parte interna da coxa dela devagar, deixando a respiração bater antes da boca encostar. Catarina se contorceu levemente, soltando um gemido abafado que me acertou como um soco no estômago.
— Você é uma tortura — sussurrou, os dedos indo direto pro meu cabelo, puxando com força leve, como se quisesse me segurar ali pra sempre.
— E você não faz ideia do que faz comigo — respondi, subindo mais devagar, espalhando beijos pela barriga, pelos seios, até alcançar a boca dela de novo.
Nos beijamos com urgência, mas havia algo diferente agora. Menos brincadeira, mais entrega. Era como se o tempo tivesse parado naquela cama, como se cada movimento fosse uma despedida silenciosa que nenhum dos dois sabia que estava acontecendo. Eu me deitei por cima dela, os corpos ainda úmidos, encaixando cada parte com cuidado. Os olhos dela encontraram os meus e por um segundo, só um segundo, ela pareceu vulnerável demais.
— Fica aqui — murmurou, os dedos traçando meu rosto. — Promete que vai ficar.
— Eu tô aqui — falei contra os lábios dela, beijando com mais força logo em seguida. — E é só você. Só você.
Os quadris dela subiram num impulso, buscando contato, buscando mais. E eu cedi. Me afundei nela com a respiração presa na garganta, com os olhos grudados nos dela. Não tinha como fingir. Não naquele momento. O jeito como ela me segurava, como se quisesse colar nossas peles. O jeito como ela sussurrava meu nome, entrelaçava as pernas nas minhas costas, pedia mais, mais fundo, mais perto. Eu não recuava. Dava tudo.
As mãos dela marcavam meus ombros, as unhas cravadas, o peito subindo e descendo rápido demais. Eu beijei cada pedacinho do rosto dela enquanto me movia — a testa, as bochechas, a boca. A pele suada, os olhos brilhando, o corpo inteiro entregue. E o meu também. O quarto inteiro parecia girar ao redor de Catarina.
— Eu amo você — ela disse de repente, num sussurro entrecortado, como se tivesse medo da resposta. — Amo tanto que até dói.
Fechei os olhos por um segundo. O coração batendo forte demais. Beijei o canto da boca dela, depois o centro, com firmeza.
— Eu também amo você — falei, com a voz grave, baixa, como se estivesse dizendo uma verdade profunda demais pra ser compartilhada.
Ela sorriu, mesmo com lágrimas nos olhos, e me puxou pra mais perto. Nossos corpos se movendo no mesmo ritmo, embalados pelo som da chuva batendo no telhado, pelas respirações misturadas, pelos gemidos abafados entre beijos. Quando ela gozou, o corpo tremendo inteiro sob o meu, senti como se tivesse segurando uma coisa frágil e preciosa demais. Me entreguei logo depois, com um grunhido rouco, afundando o rosto no pescoço dela, segurando como se o mundo lá fora não existisse.
Ficamos ali, em silêncio, colados. O corpo dela quente contra o meu. A respiração dela lenta, o coração batendo sob minha mão que ainda estava em seu peito.
Eu só queria que aquela noite durasse mais. Que ela acreditasse. Que tudo parecesse verdade até o último segundo.
Me deitei na cama primeiro, ainda com o corpo quente e o peito subindo e descendo devagar. Ela veio logo em seguida, se encaixando do meu lado como se o lugar dela fosse ali desde sempre. Passou um braço por cima de mim e encostou o rosto no meu peito, soltando um suspiro cansado e satisfeito.
Ela dormiu por um tempo. Ou fingiu. A cabeça apoiada no meu peito, os dedos fazendo círculos preguiçosos na minha barriga. A respiração era calma, mas não parecia completamente entregue ao sono. O quarto ainda cheirava a nós dois, o vinho esquecido na beirada da cama, a chuva lá fora dando ritmo aos pensamentos que eu fingia não estar tendo.
Eu olhava o teto, os braços em volta dela, e por um momento me peguei sorrindo. Era quase patético. Aquela sensação de calma, de... paz. Um tipo de paz que eu nunca tive e que, no fundo, sempre soube que não podia durar. Mas por um instante, só por um, eu quis acreditar que podia.
Ela mexeu o corpo, se enroscando mais em mim, e falou com a voz arrastada:
— No que você tá pensando?
Demorei um segundo pra responder. Pensei em mentir. Mas a verdade saiu antes que eu controlasse.
— Tô pensando em como tudo pode acabar tão fácil. Uma palavra errada. Um passo em falso. E pronto. Tudo vira memória.
Catarina ficou quieta. O corpo dela endureceu um pouco contra o meu, imperceptível pra qualquer um — menos pra mim. Ela levantou a cabeça, apoiando o queixo no meu peito, e me olhou com os olhos semicerrados.
— Que tipo de coisa é essa pra se pensar depois de transar com a mulher que tu ama?
Me virei pra ela, passando a mão em sua nuca, tentando suavizar.
— Só tô dizendo que... a vida é frágil. Eu penso nisso. Sempre pensei. A gente acha que tem tempo, mas às vezes não tem.
Ela franziu a testa, e pela primeira vez naquela noite, o olhar dela não parecia completamente entregue. Parecia... atento demais.
— Você fala como se soubesse alguma coisa que eu não sei.
Fiquei encarando. Silêncio. Ela não tirava os olhos dos meus. E eu... eu gostei de ver o incômodo crescendo. Era quase instintivo, aquele gosto pelo medo começando a se formar — mas não era ela quem devia sentir isso ainda. Ainda não.
— Talvez eu saiba — falei baixo, quase como se estivesse brincando. — Ou talvez eu só pense demais.
Ela tentou rir, mas foi fraco.
— Você tá esquisito, Dave.
Toquei o rosto dela com calma, os dedos firmes no queixo.
— Não. Eu só tô... inteiro. Pela primeira vez. Com você.
Ela ainda parecia desconfiada, mas quis acreditar. Quis tanto que me beijou de novo, como se o gosto da dúvida pudesse ser abafado com a boca. Eu retribuí, mais devagar dessa vez, pensando que já estava perto. Quase na hora.
Quase.
Ela deitou de novo no meu peito, sem dormir. E eu fiquei ali, acordado, contando os minutos até o sol começar a ameaçar nascer atrás da floresta.
Eu não consegui descansar. Nem esperar.
Cada segundo naquela cama parecia uma contagem regressiva. O quarto abafado, o calor do corpo dela, o peso do lençol... tudo me incomodava. Era como ficar preso em algo que já estava morto e ainda insistia em fingir que respirava. Eu queria acabar logo com aquilo.
Levantei devagar. Peguei a blusa de manga longa, preta, e a calça escura da mochila. Vesti com calma. Os dedos umedecidos de suor puxando o zíper, prendendo o cinto. Os coturnos. Eu não olhava pra ela, mas sentia. O corpo dela começando a se mexer. A desconfiança despertando junto com o cheiro da madrugada.
— Dave? — chamou, a voz arranhada de sono. — Por que você se vestiu?
Me sentei na beira da cama. O bolso da blusa pesava. O silêncio parecia um animal prestes a pular em cima dela.
— O que é isso? O que tá acontecendo? — insistiu, agora sentada, puxando o lençol pro corpo.
— Você quer mesmo saber? Ou já sabe?
— Isso é alguma brincadeira doentia?
— O meu nome não é Dave — falei, firme, sem piscar. — Nunca foi. E você não devia estar aqui.
Ela se levantou com um pulo, tropeçando no lençol, o pânico rasgando qualquer resto de conforto que ainda existisse. Pegou a calcinha e a blusa do chão como se vestir fosse uma forma de se proteger. Não era. Nada mais era.
— Eu confiei em você. Dormi com você. Eu… — a voz dela tremia. — Isso é sobre o meu pai?
— Isso é sobre o sangue que ele derramou — respondi. — Sobre a minha mãe. Sobre tudo que ele escondeu. Você foi só a forma mais fácil de chegar perto. O caminho mais curto.
Ela olhou pra mim como se ainda procurasse o homem da banheira, o que prometeu o fim de semana perfeito. Não havia mais ninguém ali.
— Você tá maluco. Isso já passou! Isso foi há anos!
— Não passou pra mim. Nunca passou.
Ela correu. Quase tropeçou na borda da cama, tentou pegar o celular, tentou alcançar a porta. Mas era previsível. Dei dois passos e bloqueei a saída com o corpo. Firme. Sem levantar a voz, sem acelerar a respiração.
— Então mata ele, porra. Vai atrás do meu pai. Por que eu?
Apertei a faca no bolso. Senti o metal gelado contra a palma da mão. O estômago dela afundou só de ver o movimento.
— Porque ele vai sentir. Porque vai doer nele perder você. Porque ele precisa saber que ninguém sai ileso depois do que fez.
O silêncio que veio depois foi denso. Quase sólido. Ela tentou dar outro passo pra trás, mas a parede chegou antes. As mãos tremiam, mas ela ainda me olhava. A coragem misturada com pavor. Quase admirei isso.
— Você não precisa fazer isso. Eu juro... a gente pode dar um jeito. Eu posso te ajudar — ela disse, num sussurro urgente. — Por favor.
Eu me aproximei. Lento. Como se fosse beijar ela de novo. Como se tudo ainda pudesse ser desfeito.
— Não pode.
A faca saiu do bolso como parte de mim. E ela mal teve tempo de gritar.
Ela tentou correr de novo.
Reflexo. Instinto. Mas o corpo dela estava lento, desnorteado. Eu a alcancei fácil. Uma das mãos segurou o braço dela com força, puxando de volta, e a outra levou a lâmina direto pro estômago. Rápido. Preciso. Quase clínico.
Ela arregalou os olhos, o som preso na garganta. A mão veio pro meu peito como se ainda procurasse apoio, como se eu fosse aquele cara da banheira, da lareira, do vinho.
Mas ele não existia. Nunca existiu.
Puxei a faca de novo e perfurei uma segunda vez, mais fundo. O corpo dela começou a ceder. Os joelhos dobrando, os olhos tentando entender. Mas não tinha explicação ali. Só fim.
Soltei com calma. Ela caiu sentada no chão, a respiração falhando, o sangue abrindo poças ao redor do lençol caído. A boca dela tremia, tentando formar palavras. Mas não saía nada. Nem um som. Só o olhar gritando, perguntando “por quê?”
Eu só fiquei ali. Observando. Nada dentro de mim se moveu. Nenhuma parte hesitou. Não tremi. Não chorei. Só observei.
Caminhei até a mochila. Peguei os galões de gasolina — três. Um de cada lado da entrada, um sob a pia da cozinha. Joguei pelas paredes, pelas cortinas, pelas camas, e por fim, sobre o corpo dela. A gasolina escorrendo pelos cabelos dela, pelo rosto. Era grotesco, mas... silencioso.
Acendi o fósforo.
Joguei direto no colchão. O fogo pegou rápido, como se a casa tivesse esperado por isso desde o dia em que foi construída. O estalo da madeira molhada misturado ao cheiro ácido do combustível formou uma espécie de trilha sonora.
Saí devagar.
Lá fora, o céu começava a clarear, ainda coberto por nuvens pesadas. A fumaça subia fina no começo, mas logo se transformou em um monstro cinza que engolia tudo. O calor da explosão empurrou o vento pra trás. A cabana estalava, gritava, ardia.
Peguei um cigarro do bolso interno da jaqueta. Acendi com o mesmo isqueiro que tinha usado dentro da casa. Traguei fundo, o gosto amargo da nicotina misturado ao cheiro de cabelo queimado.
Fiquei ali. Parado. Observando. Até não sobrar mais nada além de cinzas.
Nada nela sobreviveu. E nada em mim também.
O fogo ainda crepitava quando virei as costas.
Não deixei rastros. Pegadas na lama, talvez, mas a chuva trataria disso logo. Nenhuma digital, nenhum documento, nenhuma prova. O carro alugado ficava a uns trezentos metros, escondido entre as árvores. Peguei o caminho de volta com calma, sem correr. O coração batendo no mesmo ritmo de sempre. Nem mais rápido, nem mais lento.
No banco de trás, uma mochila. Dinheiro em espécie, um celular descartável, um novo passaporte com outro nome. Eu já tinha vivido tantas identidades que aquela era só mais uma máscara. E como todas as outras, já estava pronta pra ser descartada.
Liguei o motor e fui embora sem olhar pelo retrovisor. Nenhuma música no rádio. Nenhuma lembrança na cabeça.
Catarina era só fumaça agora.
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