Um Toque, Uma História.
2 Notas de Luxúria
Começou com uma vírgula.
Uma vírgula desgraçada, no meio da minha apresentação sobre diglossia e prestígio linguístico. O parágrafo estava afiado, bem costurado, com cada escolha de palavra feita na ponta da língua — até o timbre grave e entediado do Max cortar o ar lá do fundo da sala.
— Isso aí separa sujeito do predicado. Tá errado — ele soltou, recostado na cadeira, braços cruzados, um daqueles sorrisos enviesados pendendo no canto da boca. Arrogância pura. E o pior é que ele sabia.
Não olhei de imediato. Respirei fundo, firmei os dedos no controle do slide, fingindo que não doía. Mas o clima na sala já tinha mudado. Risadinhas abafadas, troca de olhares. Eu sentia o golpe. E ele sabia. Claro que sabia.
— Só pra te lembrar, Max — minha voz saiu seca, mas polida, afiada — essa vírgula é de ênfase. E a tua intervenção continua desnecessária, como sempre.
— Só corrigindo antes que o professor precisasse. Prestando um serviço à turma, aliás.
— A turma se sairia melhor sem teus serviços.
Alguém não conteve a risada. Eu vi o professor levantar a cabeça devagar, olhos apertados como quem já perdeu a paciência antes mesmo de falar. E Max? Max só me olhava, satisfeito com o caos que causava.
— Estella. Max. Já deu — a voz do professor cortou como navalha. — Diretoria. Agora. Não quero mais uma palavra.
Engoli a raiva junto com o calor que subiu pelo meu pescoço. Desliguei a apresentação e caminhei firme pela sala, sentindo o olhar de todos que deixei pra trás. Max veio logo atrás, como se aquilo fosse só mais uma de suas vitórias silenciosas.
No corredor, o silêncio entre nós era denso. Eu caminhava com passos duros, mãos cerradas em punhos, e ele me acompanhava com aquela mesma leveza irritante de sempre. Como se o mundo inteiro fosse uma piada interna.
— Adorei teu gráfico. Só tropeçou na pontuação — ele soltou, e eu quase ouvi o sorriso na voz.
Parei. Virei o rosto por cima do ombro, o olhar como uma lâmina.
— Um dia ainda quebro esse teu sorriso.
— Que bom que pensa tanto nele.
Quando entramos na sala da diretoria, senti o peso do tédio estampado no rosto do diretor. Ele tirou os óculos e nos olhou como se já estivesse exausto antes mesmo de começarmos.
— Vocês outra vez — murmurou. — Já é o terceiro episódio esse semestre. Não sei se estão tentando se matar ou se casar.
Cruzei os braços, mantendo o rosto impassível.
— Ele me interrompe o tempo inteiro. Vive tentando me desestabilizar.
— Só aponto os erros. A verdade incomoda, né?
— Max, pelo amor de Deus…
— Basta. — O diretor ergueu a mão. — Detenção. Uma aula. Só vocês dois. Vão agora e, por tudo que ainda me resta de sanidade, tentem não transformar isso num campo de batalha.
A sala de detenção era no andar de baixo. Silenciosa, apertada, esquecida num canto da faculdade. Entrei primeiro, larguei a mochila na carteira mais afastada, soltei um suspiro duro e me deixei cair na cadeira. Max veio logo depois, trancando a porta atrás de si com um clique seco que pareceu mais alto do que deveria.
— Só queria ajudar — ele disse, arrastando uma cadeira com aquele tom de provocação doce-amarga.
— Ajudar? — Me levantei, ficando de frente pra ele, sentindo a ira vibrar sob a pele. — Desde o primeiro semestre tu compete comigo em absolutamente tudo. Cada erro meu vira espetáculo. Cada hesitação, motivo de piada. Isso não é ajuda. É sabotagem.
Ele veio se aproximando, com passos lentos, como se quisesse desenhar a tensão no ar. Eu podia senti-la — viva, cortante, elétrica. Quase me queimava.
— Talvez seja outra coisa — ele disse.
— Outra o quê?
— Vai dizer que nunca pensou?
Minhas costas se encostaram na parede fria, mas não desarmei o olhar. Max me estudava como quem tenta traduzir um idioma antigo. Os olhos dele percorriam meu rosto com atenção demais — e eu já conhecia aquele olhar. Fingira não notar nas últimas semanas. Fingira até bem demais.
— Isso é ridículo — falei, mas a voz saiu mais baixa do que eu queria.
— Ridículo é fingir que não sente nada. Que esse ódio todo não esconde um impulso. Toda vez que discutimos, teu rosto fica mais quente, tua respiração muda. E eu... — ele riu, sem graça, quase frustrado — também não aguento mais.
Meu coração batia alto demais. E ele estava perto. Perto demais. Eu podia sentir o cheiro do perfume dele, amadeirado e quente, o suor recém-formado no maxilar, o maxilar que ele cerrava sempre que tentava se segurar. Max era uma tempestade. Arrogante, sarcástico, insuportável. Mas era também o fogo que me consumia sem permissão desde o primeiro debate em sala.
— Isso é loucura — murmurei.
— Então me manda calar a boca. Me diz que não quer isso.
Minha boca abriu, mas nada saiu. A raiva ainda estava ali, mas misturada demais com... outra coisa. Com aquele impulso antigo, indomado, que morava sob a pele.
E ele deu um passo.
Nossas mãos se encontraram antes que qualquer palavra pudesse impedir. A boca dele veio sobre a minha com uma força absurda, e eu respondi como se estivesse presa naquele desejo há eras. O beijo era bruto. Quente. Um erro inevitável. Era tudo o que calamos explodindo. Eu empurrei o corpo dele contra a parede, ele me puxou pela cintura, colando a gente como se não existisse ar suficiente no mundo. Nossos corpos falavam mais alto do que qualquer argumento.
A respiração se tornou um ruído entre beijos. As mãos — as minhas, as dele — não sabiam mais o que era limite. Buscavam pele, espaço, impulso. A urgência queimava em nós como faísca em palha seca.
E foi ali, entre quatro paredes que já viram mil castigos, que Max e eu deixamos de lado a gramática, a vírgula e a lógica.
Ali, tudo virou ponto de exclamação.
A respiração dele batia quente contra meu pescoço, enquanto as mãos exploravam minhas curvas com pressa e reverência. Eu sentia o peito dele subir e descer contra o meu, o calor entre nós crescendo, descontrolado. Max me virou com um puxão firme pela cintura e me prensou contra a parede, sem pedir licença — e eu também não queria que pedisse.
Nossos quadris se chocaram num ritmo sujo, direto, como se estivéssemos dançando um refrão que já conhecíamos de cor. Ele desceu os beijos pelo meu pescoço, mordendo a curva do ombro, lambendo a pele como se quisesse marcar território. A cada toque, meu corpo respondia com um arrepio novo, como se ele decifrasse meu mapa sem nunca tê-lo lido antes.
— Você é insuportável — murmurei entre dentes, gemendo baixo quando ele apertou minha coxa e a ergueu, encaixando nossas pelves com precisão.
— E tu me quer do mesmo jeito — ele respondeu, a boca entreaberta contra minha clavícula, os dedos já se aventurando sob minha saia.
Senti a calcinha sendo empurrada de lado com brutalidade, e o dedo dele deslizar entre meus lábios, encontrando meu sexo molhado com um gemido surpreso escapando da minha garganta.
— Porra, Estella... — ele gemeu, os olhos escurecendo. — Tu já tava assim?
Assenti com a cabeça, mas nem precisei — meu corpo dizia tudo. Max me penetrou com dois dedos de uma vez, sem cerimônia, me fazendo arquear contra a parede e morder o ombro dele pra conter o grito.
— Não morde — ele pediu, quase ofegante. — Quero ouvir.
E eu deixei. Gemi sem vergonha. Me desfiz em sons sujos e incontidos enquanto ele me comia com os dedos, o polegar pressionando o ponto exato que fazia minhas pernas tremerem. Meu corpo já pedia mais. Já gritava por ele.
— Tira essa merda de calça — ordenei, a voz rouca, baixa, cravada de fome.
Max obedeceu com uma pressa que me arrancou um riso. Tirou o cinto e abaixou a calça até os joelhos, sem nem se importar com a carteira batendo no chão. O membro dele estava duro, pulsante, já brilhando na ponta.
— Tu vai enlouquecer — ele disse, quase como aviso.
— Já enlouqueci no momento em que te deixei me beijar.
Ele me virou de costas, empinou meu quadril e se encaixou atrás de mim. A camisinha foi colocada rápido — nem sei de onde ele tirou, só sei que agradeci mentalmente — e, no segundo seguinte, ele deslizou pra dentro de mim com um gemido gutural. Me preencheu inteiro, me forçou contra a parede com o quadril e começou a se mover com estocadas rudes, intensas, como se quisesse deixar marcas por dentro.
— Sempre se faz de difícil — ele rosnou no meu ouvido — mas olha como geme por mim agora.
Respondi com um grito sufocado. Ele segurava meus quadris com força, me puxando pra trás a cada investida, e eu me deixei ir. Gritei o nome dele, xinguei, pedi mais. A cada batida de corpo, a loucura aumentava. O som dos nossos corpos se chocando ecoava pela sala vazia, sujo e indecente. E a forma como ele gemia meu nome... parecia uma maldição. Uma prece. Um vício.
Max agarrou meus cabelos, puxou minha cabeça pra trás e mordeu meu pescoço, ao mesmo tempo em que me estocava mais fundo, mais rápido.
— Tu vai gozar pra mim agora, Estella. Vai gozar nesse pau que tu disse que odiava.
E eu gozei.
Arqueei contra ele, os olhos fechando com força, o corpo inteiro tremendo enquanto o prazer me rasgava de dentro pra fora. Max gemeu alto logo depois, me afundando contra a parede enquanto derramava tudo de si dentro da camisinha, segurando meu corpo como se não quisesse que eu escapasse nunca mais.
Ficamos ali, respirando pesado, corpos colados, suados, com os corações disparados batendo no mesmo ritmo. O silêncio que veio depois foi quente, estranho, cheio de algo que nenhum dos dois queria admitir.
Ele foi o primeiro a se afastar. Puxou a calça de volta, passou a mão nos cabelos e me olhou com aquele maldito sorriso torto.
— Isso não vai acontecer de novo — falei, tentando soar firme, mesmo sentindo as pernas bambas.
— Claro que não — ele respondeu, pegando a mochila.
O sinal da faculdade soou alto, cortando o silêncio como uma navalha afiada. Me assustei levemente, como se ele tivesse me arrancado à força de um sonho sujo e bom demais pra ser permitido.
Max soltou um riso baixo, debochado, como se adivinhasse o que eu tava pensando. Não disse mais nada. Apenas passou a mão pela nuca, me lançou um último olhar — daqueles que a gente tenta ignorar, mas que gruda na pele — e empurrou a porta com o ombro, saindo como se não tivesse acabado de me desmontar contra aquela parede.
Fiquei alguns segundos sozinha, ajeitando a saia, recuperando o fôlego, limpando os vestígios do que tínhamos feito — como se fosse possível apagar aquilo de verdade. O calor ainda queimava sob minha pele, o corpo ainda vibrava. Mas respirei fundo, ergui o queixo e saí logo em seguida, sem olhar pra trás.
Os corredores já estavam se enchendo novamente. Vozes, passos apressados, a vida seguindo como se nada tivesse acontecido entre aquelas paredes. Como se eu não estivesse inteira marcada por ele.
Cheguei até meu armário, enfiando a mão na mochila, procurando meu celular. A tela acendeu com o toque de uma notificação.
Número desconhecido.
“A gente sabe que vai acontecer de novo.”
Travei. O coração deu um salto torto no peito.
Mais uma notificação.
“Hoje, 20h. Biblioteca dos fundos. Aquela que vive vazia. E tranca a porta por dentro.”
Mordi o lábio, sentindo meu corpo responder antes mesmo de eu pensar em qualquer resposta. A mão segurando o celular tremia — de raiva, de excitação, de tudo junto.
Era ele.
Max.
Filho da puta.
Sorri. Daqueles sorrisos perigosos, que só surgem quando o erro já foi escolhido por vontade própria.
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