Um Toque, Uma História.

3 Segredo em Custódia


Eu estava algemada quando ele entrou.

Não pela primeira vez — nem, com certeza, pela última. Mas havia algo diferente no ritmo dos passos, na forma como a luz da lâmpada crua riscou o chão quando ele fechou a porta da sala de interrogatório. A mesma luz que se espatifava nos meus olhos enquanto eu permanecia sentada, com o corpo relaxado demais pra alguém que tinha acabado de ser capturada invadindo o sistema interno de segurança de três prédios do governo.

Ele parou diante da mesa, ajeitou a gravata com a ponta dos dedos e me encarou com um olhar que queria intimidar, mas... não em mim.

— Boa noite, sou o dete—

— Detetive Aiden Rourke, unidade cibernética. Trinta e dois anos, Brooklyn, apartamento 804 na esquina da Saint Marks com a 6ª. Mora sozinho desde o fim do último relacionamento — um ano, três meses e nove dias atrás. A ex, Camille, ainda comenta nas fotos da irmã dele, mas nunca mais o mencionou publicamente. Gosta de café preto, de manhãs silenciosas, e do tipo de música que só toca quando ninguém mais está ouvindo.

Ele nem teve tempo de terminar a apresentação antes que eu sorrisse, largando essas informações como quem recita poesia em um bar cheio. O efeito nele foi imediato — uma linha de tensão no maxilar, um meio passo vacilante, quase imperceptível. Mas eu vi.

— Então... você já fez sua lição de casa — ele disse, tenso.

— Aiden — saboreei o nome como se fosse algo que eu já conhecesse há muito tempo. — Ah, eu sabia que era você desde o momento em que você me seguiu pelo servidor da Atlantic e errou na criptografia do segundo salto. Aquilo foi fofo.

Ele puxou a cadeira e se sentou com uma lentidão calculada. Tentava não demonstrar o incômodo, mas estava lá, vibrando por baixo da pele. Eu era o rato na armadilha... mas tinha sido eu quem desenhou os fios.

— Você invadiu a base de dados da agência de segurança nacional — ele continuou, mais firme agora, como se tentasse retomar o controle da narrativa. — Cruzou três firewalls de proteção, expôs arquivos confidenciais e ainda deixou uma assinatura. Um emoji.

— Eu gosto de deixar minha marca. Um pouco de charme nesse mar de código morto.

— Isso não é charme. É provocação.

Dei de ombros, deixando a corrente da algema tilintar só pra lembrar que ela ainda estava ali.

— Pode ser. Mas me diz: se você realmente quisesse me ver presa, por que me trouxe pra cá... sozinho?

Ele não respondeu. Só me olhou. E naquele olhar eu vi tudo que precisava: a dúvida, a raiva... e a faísca.

Eu já conhecia aquele olhar. Tinha estudado ele por telas e relatórios, fotos de vigilância, varreduras de rotina. Sabia quantos passos ele dava até o elevador, qual restaurante pedia às quintas. Sabia que roía a unha do polegar quando ficava impaciente e que tinha uma tatuagem no ombro direito — coberta nos relatórios oficiais, mas visível quando ele dormia de lado nas câmeras do circuito que invadi algumas semanas atrás.

— O que você quer? — ele perguntou enfim.

— Imunidade. Um café decente. E... — deixei a frase no ar, saboreando a tensão — talvez... uma chance de te ensinar como se quebra um código de verdade.

— Você é um risco.

— E você é curioso demais pra me deixar em silêncio.

Ele sabia. Desde o momento em que encostou naquela porta, ele sabia. A curiosidade dele era o ponto fraco, e eu estava ali pra cutucar todas as rachaduras. Porque o que eu tinha... era informação que queimava. E ele era o tipo que gostava de sentir a queimadura antes de apagar o incêndio.

Aiden puxou a pasta de volta, mas não a abriu. Apenas me olhou por mais um segundo, longo o suficiente pra deixar claro que a linha entre certo e errado tinha começado a borrar. E que, entre nós, o jogo já tinha começado — mesmo antes da primeira pergunta.

Eu sorri. E dessa vez, ele não desviou.

Aiden abriu a pasta devagar. Folheou umas três páginas como se precisasse se lembrar do motivo de estar ali. Mas o jeito como os olhos dele corriam por mim, sempre voltando pro meu rosto, dizia outra coisa.

— Nome verdadeiro? — ele perguntou.

— Martina Villeneuve. Mas acho que você prefere Kora.

— O que significa esse nome? — Ele se inclinou um pouco. De propósito.

— Não significa. Me inventei com ele.

Ele assentiu, ainda lendo.

— Idade?

— Vinte e seis. Mas isso você já sabia, certo? Tem um dossiê inteiro com meus dados... até a idade em que comecei a quebrar senhas de caixas eletrônicos.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Quatorze anos.

— Bingo. E sem nunca ter saído do meu quarto.

— Habilidades incomuns pra alguém da sua idade.

— Incomuns pra quem não sabe procurar.

Ele passou os dedos por cima da folha, e por um segundo o olhar caiu nos meus pulsos algemados. O dedo dele bateu leve na borda da mesa, como se o som fosse me desconcentrar. Mas o que me desconcentrou foi o jeito como ele me observava — como se dissesse que eu não deveria estar tão calma. Como se quisesse que eu parasse de sorrir.

— Quem te ensinou? — ele perguntou.

— A vida. A necessidade. E a curiosidade.

— Você não parece muito arrependida.

Dei uma risada baixa.

— E você não parece muito convencido.

Ele fechou a pasta, empurrou ela de lado e cruzou os braços. Agora sim, o detetive tinha ido embora. O homem, porém, estava inteiro ali.

— Você sabe por que eu estou aqui, Kora?

— Porque quer saber o que eu sei.

— Porque quero entender por que alguém tão inteligente se expõe tanto.

— Talvez porque eu queria ser pega.

— Você queria?

— Talvez. — Inclinei o corpo pra frente, o máximo que as algemas permitiam. — Ou talvez eu tenha deixado as pistas certas... pro caçador errado.

Ele franziu o cenho, o olhar prendendo no meu como se procurasse um furo, uma hesitação.

— E se eu for o certo? O que acontece?

— Você é... interessante. — Olhei direto nos olhos dele. — E eu gosto de brincar com coisas interessantes.

A respiração dele vacilou. Mínimo. Quase imperceptível. Mas vacilou.

— Você tá tentando virar o jogo, Kora.

— Eu já virei.

O silêncio caiu entre nós de novo. Mas agora estava cheio. Cheio de promessas mal disfarçadas, de vontades que roçavam entre os dentes, prontas pra rasgar o que restava de profissionalismo naquele cubículo gelado.

Ele se levantou. Deu a volta na mesa. Parou atrás de mim.

— Isso não é um jogo — disse, a voz grave na minha nuca.

— Não pra você. — Inclinei a cabeça, deixando o pescoço exposto. — Mas pra mim... tudo é código.

E então veio o toque. Um dedo, só um, correndo pela corrente da algema até a pele do meu pulso. Um toque leve, calculado. Mas senti como se ele tivesse me atravessado.

— Você gosta de perigo? — ele murmurou.

— Eu sou o perigo.

A mão dele deslizou da corrente pra minha nuca. Não com força. Mas com firmeza. Como quem quer lembrar alguém de que tem o controle. Ou como quem está tentando não perder o seu.

— Sabe qual é o problema de mulheres como você? — ele disse, perto demais.

— Hm?

— Acham que o mundo gira ao redor do próprio ego. Mas esquecem que... às vezes... — ele puxou meu rosto com dois dedos no queixo, me obrigando a olhar pra ele — é o caçador quem dita as regras.

Sorri. A provocação era tão deliciosa quanto o calor do corpo dele colado nas minhas costas.

— E o problema com homens como você, Aiden... é que confundem armadilha com rendição.

Ele me soltou. Voltou pra frente da mesa. Mas agora, nem eu conseguia fingir que o ar não tinha mudado. Ele também não fingiu. O olhar estava aceso, faminto, queimando cada espaço entre as palavras.

— Última chance. Me diz o que você quer.

— Já te disse. Imunidade. Café. E... uma noite com você.

Ele riu. Curto. Incrédulo.

— Você tá brincando.

— Não, Aiden. Tô negociando.

Silêncio. Ele encostou nas costas da cadeira, pensou, tamborilou os dedos na borda da mesa. Por fim, tirou do bolso um celular descartável. Jogou na mesa.

— Me dá algo que valha esse telefone. Uma informação real.

Sorri.

— Em troca de quê?

— Da próxima hora. Só nós dois. Sem algemas. Sem gravações.

Olhei pro celular. Depois, pra ele. Aiden estava se despedaçando por dentro pra manter a pose.

E eu? Eu já estava com a chave de tudo.

Inclinei o corpo. Mordi o lábio. E disse:

— Fecha a porta, detetive. Vamos começar.

Ele hesitou por três segundos. Só três. Mas foi tempo suficiente pra entender que já estava dentro do jogo. A porta foi fechada com um clique seco, e o som ecoou pelo cômodo como um selo — como se agora, ali dentro, o mundo lá fora tivesse deixado de existir.

Tirei os olhos do celular e levantei devagar, os braços ainda algemados à frente do corpo.

— Vai me soltar? — perguntei, com a voz mais baixa, quase um sussurro. — Ou prefere continuar assim? Me fazendo perguntas enquanto me observa presa?

Ele não respondeu. Caminhou até mim com passos firmes, mas não duros. O olhar dele estava diferente — mais escuro, mais contido, como se estivesse prendendo tudo que queria dizer com os dentes cravados na língua.

— Não se acostuma com isso — ele disse, destravando as algemas com um estalo metálico. — Isso não é liberdade. É só parte do jogo.

Massageei os pulsos, mas mantive os olhos nele.

— Você gosta de controle, né, Aiden?

— Eu sou o controle.

— Hm. Isso é o que você diz.

Ele virou o rosto por um segundo, mas eu vi o maxilar travar. Vi a forma como ele lutava contra o próprio corpo. Então me aproximei, milímetro por milímetro, até que estivesse perto o bastante pra sentir o calor que subia pela pele dele.

— Me pergunta de novo, detetive. Vai. Faz valer essa hora.

Ele inspirou fundo.

— Quem é o contato dentro da organização Vórtice?

— Eu — respondi, seca, e completamente irônica. — Eu sou o contato. Eu sou o vírus. Eu sou a porra da falha no sistema que vocês não conseguiram prever.

Aiden me empurrou de leve até encostar de novo na mesa. O toque não foi violento — foi desesperado. Como se ele estivesse tentando segurar o que já tinha escorrido pelos dedos.

— Você quer o quê, Kora? Quer provocar até quebrar isso?

— Eu quero saber até onde você consegue segurar.

A mão dele agarrou minha cintura. Apertou com força. A respiração dele estava irregular, os olhos cravados nos meus como se procurassem uma brecha, uma mentira, qualquer coisa que o fizesse lembrar que eu era criminosa, e ele era lei.

Mas não havia mais moral ali. Só pele. Só os dois.

— Você é uma maldita ameaça — ele murmurou, colando a testa na minha.

— E você é um maldito hipócrita.

Nossos narizes se encostaram. As bocas quase também. Um segundo. Dois. E então ele me beijou.

Foi como explodir por dentro.

Nada suave. Nada educado. A boca dele tomou a minha com urgência, com raiva, com tudo que tinha se acumulado desde a primeira troca de olhares. As mãos dele subiram pelos meus braços, pelo pescoço, puxaram meu cabelo como se precisassem confirmar que eu era real. Eu correspondi com a mesma intensidade, mordendo, arranhando, devolvendo cada toque com fome e controle.

Me virei e o empurrei contra a parede, invertendo os papéis. Ele me olhou como se não soubesse se me parava ou me puxava mais. Escolheu a segunda opção.

As roupas não foram arrancadas de imediato. Foram tiradas como uma guerra silenciosa — peça por peça, entre beijos que mordiam e toques que testavam os limites do controle. Ele começou pelo meu casaco, puxando com brutalidade contida, enquanto minha blusa subia com a urgência de quem não tem tempo a perder. Nossos corpos colidiram sem cerimônia, como dois planetas prestes a se partir ao meio.

Não havia mais perguntas. Só gemidos abafados, respirações falhadas, mãos famintas deslizando por pele quente, trêmula, pulsando.

A mesa virou apoio. Testemunha. Cúmplice. Ele me jogou sobre ela com um baque seco, o som ecoando como uma batida de martelo — sentença declarada. Papéis voaram, e a madeira fria mordeu minhas costas enquanto a boca dele descia pelo meu pescoço, desesperada, tensa.

— Maldita — ele admitiu contra a minha pele. — Você virou tudo de cabeça pra baixo.

— Então termina o que começou — ofeguei. — Me destrói. Me desarma. Vai, detetive... me prende com outra coisa.

Ele prendeu.

Mas não com algemas.

Com as mãos, com a língua, com os quadris colidindo contra os meus com uma força que desafiava o bom senso — ou o resquício de moralidade que ainda tentava se esconder nos cantos escuros daquela sala.

Aiden me ergueu pela cintura, os dedos cravados na minha pele como algemas vivas. Seus olhos... não era só desejo. Era raiva. Culpa. Era tudo o que ele foi treinado a não sentir. E agora sentia demais.

E quando enfiou os dedos entre minhas coxas, era como se procurasse evidência. Uma prova. De que eu era real. De que aquilo estava acontecendo. De que ele não ia conseguir me esquecer nem se quisesse.

E ele não queria.

Nem eu.

E encontrou.

— Merda, Kora… — ele rosnou, voz engasgada, sentindo a umidade que já manchava minha calcinha. — Isso aqui devia ser ilegal.

— É — sorri com os dentes. — E é por isso que você tá tão duro, detetive.

O sutiã caiu logo depois, jogado sem cerimônia no canto da sala. A boca dele veio direto nos meus seios, quente, molhada, faminta. Chupou um mamilo com força, com fúria, com um desejo que queria castigar e adorar ao mesmo tempo. Sua barba rala arranhava minha pele e eu gemi alto, abrindo as pernas sem vergonha, sem freio, porque o jogo já tinha deixado de ser simulação.

E o controle?

O controle era uma piada.

Ele tirou a própria camisa com uma agilidade tensa, desesperada, e eu vi os músculos dele se contraírem — ombros largos, peito forte, veias salientes nos braços como se a raiva e a luxúria estivessem tentando escapar do corpo. Abri o zíper da calça dele com os dentes. Ele gemeu. Um som gutural, quase animal.

O pau dele saltou pra fora como se tivesse sido libertado da prisão — grosso, quente, pulsando com veias latejantes.

Passei a língua pela glande devagar, só pra provocar. Um gemido escapou dele. A mão segurou firme o topo da minha cabeça, mas sem me forçar — ele queria ver. Queria assistir enquanto eu engolia cada centímetro daquele poder que ele tanto tentava esconder atrás da placa de detetive.

— Fode-se o protocolo, Aiden — murmurei entre um beijo e outro, subindo por seu abdômen enquanto o olhava de baixo. — Me usa como se eu fosse tua última chance de salvação.

Ele me virou de bruços sobre a mesa com uma força suja e deliciosa, a mão prensando minha nuca contra a madeira fria. E então, sem aviso, me penetrou de uma vez — forte, fundo, com a brutalidade de quem passou noites em claro imaginando exatamente esse momento.

— Ahh... caralho — gritei, as pernas bambeando, a mesa rangendo sob o peso de nós dois.

Ele me pegava com estocadas ritmadas e ferozes, cada uma mais selvagem que a anterior, me puxando pelo quadril, entrando com tudo, como se quisesse reescrever meu código genético por dentro.

Eu sentia o pau dele se enterrar até o fundo, roçando cada milímetro sensível, fazendo minha coluna arquear e meu corpo trair qualquer lembrança de disciplina.

— Você se acha invencível, né, hackerzinha? — ele rosnou no meu ouvido, sem parar de me foder. — Mas agora você tá toda aberta… vulnerável… toda minha.

— Nunca fui de me esconder — arquejei, rebolando contra ele. — Mas você… ah, Aiden… você é a porra da falha do sistema.

Ele me puxou pelos cabelos, me fez virar de frente. Eu subi na mesa de novo, abri as pernas e puxei ele pra dentro de mim com as coxas, sentindo o atrito, a pressão, o calor. Nossos corpos estavam encharcados de suor, pele contra pele, sem distância. O beijo veio outra vez, mais desesperado agora — sem coordenação, só necessidade.

As mãos dele apertavam meu pescoço com a firmeza justa de quem brinca com limite. Eu sentia a garganta pulsar sob seus dedos, e isso só me deixava mais molhada, mais entregue. Ele percebeu. E gemeu com a boca colada na minha pele.

— Isso não vai sair da minha cabeça, porra…

— Nem do seu corpo.

E eu não mentia.

Quando ele me deitou no chão, montando em mim como quem doma uma fera, e me fodeu ali mesmo, com os joelhos no cimento gelado e as mãos prendendo meus braços acima da cabeça — eu senti. Senti que a gente tinha cruzado a linha da negociação pra algo que nem nome tinha. Ele gozou dentro de mim com um rugido, os músculos retesados, o corpo tremendo. Eu vim logo depois, num grito abafado contra seu ombro, contra o peito que tinha jurado me prender — e agora era onde eu explodia.

— Isso... — ele tentou falar, a respiração curta, a voz falhando. — Não vai sair daqui.

— Claro que não — sorri, maliciosa, como quem guarda um segredo que poderia virar o mundo de cabeça para baixo. — Segredos de estado são como vírus: se não estão vivos, só estão adormecidos.

O silêncio se espessa, pesado, até que o celular na mesa vibrou.

Era o dele.

Ele o ignorou, mas eu não.

Me levantei devagar, peguei minhas roupas e comecei a me vestir, sentindo o gosto dele ainda queimando na boca, os dedos deslizando pelos cabelos como se ainda tocassem nele. Caminhei até a porta, parei e encostei as costas no batente.

Antes de sair, olhei para ele com um brilho frio e certeiro.

— Ah, Aiden... — murmurei, sentindo seu olhar queimar meu corpo. — Conhece Viktor Drazen? Acho bom ficar de olho nos passos dele. Ele tem muitos contatos e segredos na Vórtice.

Fiz uma pausa, deixando o peso da frase cair como uma lâmina no ar.

— Se quiser continuar jogando... me ache de novo, Aiden. Mas da próxima vez, tenta não se apaixonar.

E então saí.