Um Toque, Uma História.
9 Camarim 01
A última nota ainda vibrava quando abri os braços pro público, sentindo os pulmões queimarem com a respiração entrecortada e a pele colada à camiseta fina pelo suor. A luz branca estourava contra meu corpo, recortando silhuetas na fumaça artificial. As batidas da música anterior ecoavam dentro de mim como um segundo coração, um que só batia quando eu estava ali — exposto, entregue, vivo.
Era impossível descrever o que era estar naquele palco sem soar repetitivo ou teatral, mas havia algo naquele momento que nem a repetição conseguia anestesiar. O calor das luzes, o som de mil vozes gritando meu nome, a adrenalina percorrendo os músculos como se eu fosse feito de fios elétricos… eu me alimentava disso. Do desejo, da entrega, do olhar vidrado da plateia que me pedia mais a cada movimento. Era ali, em cima daquele chão iluminado, que eu existia por inteiro. E mesmo nos dias em que tudo parecia automático, programado, exaustivo… bastava um show assim pra eu lembrar o motivo.
Só que naquela noite, algo estava diferente. E eu percebi isso antes mesmo da primeira música acabar. Havia uma presença naquela multidão que desafiava todo o resto. Um ponto fixo no meio do caos que me puxava pra fora da minha zona de conforto com um simples olhar.
Enquanto a equipe ajustava o cenário para o ato final, e as luzes começavam a se tingir de vermelho — aquele vermelho profundo, quase carnal, que anunciava a performance mais esperada do setlist —, minha atenção já não estava na música seguinte ou na coreografia que vinha. Estava nela.
Não fazia ideia do nome da garota, mas isso não importava. Ela estava na terceira fileira, um pouco à esquerda. Não era a mais gritante, não pulava, não estendia uma faixa personalizada. Mas havia uma tensão no jeito como ela me olhava que fazia tudo ao redor desaparecer. Os outros fãs vibravam como sempre, berrando, se empurrando, tentando chamar atenção com celulares no alto, mas ela... ela não precisava de esforço. Ela já tinha me capturado.
Era como se ela me conhecesse. Como se não estivesse vendo o artista no palco, mas o homem por baixo das camadas. E isso, vindo de uma completa estranha, era mais perigoso do que qualquer provocação ensaiada.
Seu vestido era preto e simples, justo na medida certa, contrastando com os brilhos e exageros da plateia. Os ombros estavam retos, mas eu conseguia sentir o nervosismo ali, contido sob uma camada fina de resistência. E os olhos... porra, os olhos. Escuros, intensos, fixos em mim como se fossem capazes de me despir em plena luz. Não tinha idolatria neles. Tinha algo mais íntimo. Mais direto. Um tipo de desejo que eu raramente encontrava naquele contexto.
Enquanto a batida final da música anterior ainda vibrava nas caixas de som e as luzes do palco começavam a se transformar num vermelho profundo, eu já sabia o que ia fazer. Aquela escolha não era planejada, não era ensaiada. Era impulsiva. Instintiva. Meus olhos tinham voltado pra ela mais vezes do que eu estava disposto a admitir. E agora, com o último ato se aproximando, eu queria ela ali em cima.
Inclinei o corpo num gesto sutil e acenei para um dos seguranças, falando ao pé do ouvido dele. Dei a direção certa, o ponto exato da plateia onde ela estava. Ele assentiu e saiu imediatamente. O público gritava, animado com a mudança de cenário, mas a minha atenção estava toda nela.
Desci até a lateral do palco, onde o som era abafado e as luzes mais suaves. Esperei. Alguns segundos depois, o segurança surgiu com ela. Ela parecia sem ar — não de susto, mas de emoção. Os olhos grandes, cheios de brilho, o rosto corado como se tivesse corrido até ali. E mesmo assim, segurava a barra, erguia o queixo como quem não queria parecer frágil. Admirável. Bonito de ver.
— Oi — falei, com um sorriso leve, abrindo espaço pra ela se sentir segura. — Tudo certo por aqui?
Ela assentiu depressa demais e riu, um pouco nervosa.
— Sim, sim. Tudo ótimo.
— Que bom. Eu tava te vendo ali na plateia… — minha voz saiu mais baixa agora, quase numa conversa entre dois conhecidos. — Você gostaria de participar do show? De subir comigo no palco?
Ela hesitou só um segundo, mas seus olhos diziam mais do que a boca poderia expressar. Brilhavam como faróis, tão vivos que quase doíam.
— Gostaria, sim. Nossa… eu adoraria — disse, sorrindo com os lábios e com o peito inteiro, como se estivesse vivendo o maior sonho da vida e ainda tentando se manter no controle.
Eu sorri também. De verdade.
— Posso saber quantos anos você tem?
— Vinte e dois — respondeu rápido, sem tropeçar. — Juro.
Assenti, ainda observando as reações dela com atenção. Não era só protocolo — era cuidado. Eu sempre fazia questão de perguntar. Sempre. Porque o palco era meu lugar de entrega, mas também de responsabilidade. E porque, naquele momento, ela estava sob minha luz. Meu alcance. Meu olhar.
— Perfeito. Então vem comigo.
Estendi a mão. Ela a encarou como se aquilo fosse o convite mais improvável do mundo. E quando seus dedos tocaram os meus, houve um silêncio entre nós que nem o barulho da multidão conseguiu atravessar.
Subimos juntos.
O público explodiu quando apareceram nossas silhuetas sob o feixe rubro do palco. Levei-a até a cadeira no centro, guiando seus passos com calma. Ela se sentou com cuidado, como se tivesse medo de quebrar alguma regra invisível. O rosto ainda ruborizado, os olhos correndo pelo cenário, pelos detalhes, por mim.
E então a música começou.
Lenta. Pulsante. Intensa.
Como um jogo perigoso que a gente entra sabendo que vai se queimar — mas aceitando o risco, porque tem coisa que só vale a pena quando arde.
A primeira nota ecoou como um sussurro.
Grave, arrastada.
Cheia de fome.
O palco mergulhou num vermelho denso, como se o ar tivesse sido tingido de desejo. A cadeira onde ela estava virava o único ponto fixo em meio ao cenário que começava a pulsar com luzes, fumaça e batidas. E eu me aproximei devagar, cada passo no compasso da música. Cada movimento medido. Pensado. Quase coreografado — mas só quase.
Ela mordeu o lábio, disfarçando o sorriso que escapava. Não era uma reação ensaiada — era o corpo reagindo por conta própria.
Me curvei levemente por trás dela, os dedos quase tocando o encosto da cadeira. A respiração dela tremeu. Não de medo. De antecipação.
— Relaxa — murmurei, só pra ela ouvir, com o microfone afastado da boca. — É só uma música. Prometo que eu pego leve.
Ela riu. Baixinho. E pela primeira vez, virou o rosto um pouco, quase como quem queria ver se aquilo era mesmo real.
E então comecei a cantar.
Ela me seguiu com os olhos, os dedos se fechando sobre o tecido do vestido como se tentassem agarrar alguma firmeza ali. Mas não desviou. Nunca desviava.
A música era uma daquelas que os fãs sabiam de cor — letra lenta, sensual, voz arrastada. Uma das mais provocantes do set. Mas, dessa vez, ela não era só parte do show. Ela era o centro. A inspiração viva. A razão de cada verso.
Passei por trás dela, devagar. Tão próximo que ela poderia sentir o calor do meu corpo mesmo sem o toque. Minha voz ecoou, mais baixa do que o habitual, como um sussurro que serpenteava ao redor.
"Se eu te tocar, você desarma?Ou você me deixa brincar com esse perigo quieto no teu colo?"A letra falava sobre um desejo que não pedia licença. Um jogo de olhares em um lugar escuro, onde ninguém tinha certeza de quem provocava quem.
Minha voz ia entrando aos poucos, subindo o tom, se fazendo presença ao redor dela. Eu me movia em círculos, orbitando sua pele com uma precisão que vinha de anos de palco e um instinto que nascia ali, naquela noite, naquele momento.
Me aproximei pela lateral. Inclinei o corpo como se fosse tocar sua cintura, mas parei a centímetros. O público urrava, mas pra mim, naquele momento, só existia o som da respiração dela. A respiração dela e o espaço entre nós. Um espaço que pulsava.
Inclinei o corpo, perto do pescoço dela, sem tocar.
"Nem sempre desejo pede licença.Às vezes, ele só vem.E ocupa."Ela fechou os olhos por um instante, e eu vi — vi a entrega contida, o arrepio que percorreu seus braços. Os dedos dela se mexeram no colo, inquietos. A mão esquerda tremia um pouco. Um tremor pequeno, mas que dizia tanto.
Levantei e comecei a andar em círculos ao redor da cadeira. A música subia devagar, como se se estendesse só pra durar mais, como se não quisesse terminar.
Ela me acompanhava com o olhar, e toda vez que nossos olhos se encontravam, era como se o tempo segurasse o ar. Eu sorria, pequeno, sempre gentil, sempre próximo — mas nunca tocando.
De repente, parei à frente dela. Estendi a mão, mas não pra pegá-la. Apenas ergui os dedos e os aproximei do rosto dela — a menos de um centímetro da pele. Contornei o ar ao redor da bochecha, da mandíbula, até parar diante dos lábios. O gesto era íntimo demais pra uma multidão, mas a plateia estava hipnotizada. Cada pessoa ali prendia a respiração como se estivesse dentro do corpo dela, vivendo tudo com os mesmos sentidos.
"Se for pra cair,que seja assim —no meio do palco, com você no centro,e o mundo de plateia."Ela riu. Uma risada contida, nervosa, como se não coubesse dentro dela. E piscou os olhos devagar, como se estivesse tentando guardar cada detalhe do momento.
Eu me inclinei mais uma vez, o rosto a poucos centímetros do dela.
"Você aguenta?"Ela abriu a boca, como se fosse responder, mas hesitou. Então assentiu, pequena, com um sorrisinho que dizia “tô aqui, tô inteira, pode vir”.
A música chegou ao clímax.
A iluminação piscou em estalos vermelhos e brancos, como flashes de memória, enquanto eu dançava em torno dela — sem tirá-la do lugar, mas deixando todo o palco girar em torno da presença dela.
E quando a última nota vibrou no chão e se dissipou no ar como fumaça, eu parei. Diante dela. Ajoelhado. Como se dissesse: isso foi teu.
O público ainda vibrava quando descemos juntos do palco. Mas, naquele momento, o barulho parecia distante.
Porque o que a gente viveu ali em cima... foi silêncio que queimava por dentro.
— Obrigado por isso — murmurei, sem microfone. — Você foi perfeita.
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, com os olhos marejando uma emoção boa demais pra conter.
— Eu que agradeço. Foi... foi tudo.
Fiz sinal para que o segurança viesse.
— Leva ela até o camarim, por favor — falei baixo, só pra ele ouvir. — Diz que eu já tô indo.
O segurança assentiu com um gesto discreto, estendendo a mão de forma respeitosa. Ela hesitou por um segundo, como se ainda estivesse no meio da música. Me olhou uma última vez — os olhos ainda cheios daquele brilho de quem tocou algo além do palco — antes de seguir.
Esperei até vê-la sumir entre as cortinas antes de voltar ao centro do palco.
O som da multidão me engoliu de novo. Mas agora era diferente. Eu estava com os pés na beirada do mundo, e ainda sentia o calor das mãos dela na pele que ela nem tocou.
— Ei — disse ao microfone, com a voz ainda rouca da canção. — Obrigado. De verdade.
A galera respondeu com uma onda de gritos, palmas e energia crua que subia como vapor quente até o teto do lugar.
— Eu sei que falo isso em todo show, mas hoje… foi especial. Vocês sentiram, né?
O público gritou de novo, como se dissesse: a gente viu, a gente tava lá.
— Às vezes uma pessoa muda tudo. Às vezes uma música vira um lugar. E hoje… vocês me deixaram viver isso aqui.
Aplausos.
Luzes baixando.
— A gente se vê na próxima. Até lá, continuem sentindo. Continuem vivos.
A última nota da base instrumental ecoou nos autofalantes enquanto eu saía do palco sob os gritos que ainda queimavam no ar. Mas meu corpo já não pertencia àquele lugar. Meus passos tinham outra direção.
Atravessei o corredor dos bastidores com pressa contida — aquela que só quem tem urgência no peito, mas disfarça, conhece. O camarim estava ao fundo, a porta entreaberta. Luz quente vazando pelas frestas. E o som abafado do mundo do lado de fora ficando cada vez mais longe.
Toquei na maçaneta com cuidado. Respirei fundo.
E entrei.
Ela estava lá. Sentada no sofá, ainda com o vestido colado à pele, os cabelos caindo num emaranhado bonito sobre os ombros. Quando me viu, sorriu — aquele sorriso que parecia carregado de perguntas não ditas.
Fechei a porta atrás de mim. Mesmo com toda a euforia do show acabado há poucos minutos, meu corpo continuava quente — animado demais, inquieto demais. Passei a mão pelos cabelos bagunçados, num gesto de cansaço e desejo acumulado. Os olhos presos nela. Só nela.
Ela estava sentada ali como se ainda ouvisse a música. O vestido colava nos contornos do corpo como se fosse parte dele. Os joelhos juntos, os ombros levemente curvados, os dedos entrelaçados no colo. Mas o olhar... o olhar era direto. Incendiado.
Dei alguns passos pra dentro, devagar. O som abafado das pessoas lá fora ainda vibrava nas paredes, mas aqui dentro... era outra frequência.
— Ainda tremendo? — perguntei com um meio sorriso, tentando quebrar o ar denso que pairava entre nós.
Ela riu, baixa.
— Acho que ainda tô lá em cima. Aquilo foi incrível, Nolan. Meu coração... não entendeu que acabou.
— O meu também não.
Silêncio.
Sentei de lado numa poltrona próxima — não perto o bastante pra tocar, mas perto o suficiente pra sentir. Precisava de um pouco de distância. Só o bastante pra não atravessar aquele espaço e fazer uma besteira. Ou um acerto, dependendo do ponto de vista.
Ficamos ali, parados, respirando o mesmo ar. Eu queria me perder naqueles olhos, mas antes, numa urgência súbita que escapava do controle, me aproximei mais, numa voz baixa e rouca:
— Me diz... qual é o teu nome?
Ela ficou surpresa, como se esperasse que eu soubesse, ou que fosse só mais uma noite sem nomes, sem amarras. Mas aquela pergunta abriu uma fenda, um espaço de verdade no meio da tensão. Ela baixou o olhar, timidamente, e respondeu com a voz macia:
— Liana.
Liana.
O nome dela era uma promessa, uma melodia que eu queria decorar na pele. Sorri, satisfeito.
— Liana — repeti, deixando o som do nome escorrer pelos meus lábios, pesado de desejo.
Ela mordeu o lábio inferior, tentando conter um riso nervoso, e me olhou de novo. Me olhou de verdade. Como se estivesse tentando encontrar o homem por trás da imagem. E, por algum motivo, eu deixei.
— Foi surreal — ela disse, mais pra si do que pra mim. — Eu tava ali... e você... parecia que só cantava pra mim.
— Porque eu tava.
Ela piscou. Devagar. O ar entre nós mudou. Denso de novo. Quase febril.
— Aquilo no palco, Liana — continuei, a voz baixa, firme — foi uma das melhores coisas que já vivi sob uma luz quente. E olha que eu já vivi muita coisa ali.
Ela abaixou o olhar, um pouco tímida, mas não fugiu. Um dos dedos roçava a costura do vestido, nervoso.
— Eu só... segui teu ritmo. Tentei não atrapalhar.
— Você encantou, isso sim. — Me inclinei um pouco, os cotovelos apoiados nos joelhos. — Aquela entrega... o jeito como me olhou, como respirava... parecia que a música saía de você também.
Ela riu. Baixo. Um riso sem defesas, desses que quebram a tensão só pra espalhar ainda mais.
— Tu encantou o palco inteiro. Encantou a mim. E eu sou difícil de encantar, sabia?
— Então quer dizer que eu dominei o show, Nolan?
— Dominou a porra toda — murmurei, a voz mais rouca do que queria admitir. — Mas, principalmente, me dominou por dentro.
Ela ficou em silêncio. Mas era aquele tipo de silêncio que diz mais do que qualquer resposta.
Me levantei devagar e fui até a mesinha do camarim. Peguei uma garrafa d’água e estendi pra ela. Ela aceitou com um aceno breve.
— Tá tudo bem, Liana? — perguntei, observando seus movimentos enquanto ela tomava um gole.
Ela assentiu, a voz levemente rouca:
— Só... surpresa. Ainda tentando acreditar que isso tudo aconteceu.
Me encostei na parede, agora mais perto dela. Os braços cruzados. O ar entre nós ficou ainda mais espesso. A pouca distância parecia acender alguma coisa elétrica.
— Eu tinha que cuidar pra não esquecer a letra — confessei, com um sorriso torto. — Porque tudo em você... chamava mais atenção que a própria música.
Ela franziu um pouco a testa, confusa.
— Escutar isso sendo só uma fã... é surreal de bom.
Ela abriu um sorriso pequeno. Mas o olhar dela... dizia tudo. E o meu, naquele instante, devia estar dizendo o mesmo.
A tensão entre a gente era quase palpável. Não era só atração. Era aquele tipo de energia que puxa devagar, como um fio invisível que vai se enrolando pela pele.
— Você... sempre é assim com todo mundo que chama pro palco? — ela perguntou, tentando soar casual. Mas a pontada de ciúme involuntário escapou na voz.
Dei mais um passo. Só um.
— Não. Nunca assim. Nunca alguém que... fizesse o tempo parar.
Ela mordeu o lábio de novo. Mas dessa vez foi diferente. Não era nervosismo.
Era provocação. E eu vi o momento exato em que ela quis me desafiar.
Sorri. Lento. Sem pressa.
— Cuidado com esse olhar — sussurrei. — Ele pode causar coisa demais.
— E se for essa a intenção?
Ela ergueu o queixo levemente. Um gesto pequeno, mas cheio de coragem. Como quem joga o próprio desejo na mesa sem medo de queimar os dedos.
Me aproximei até sentir o perfume dela de novo. Quente, doce, misturado ao suor leve da tensão. Tão real que doía.
— Se tu soubesse o que esse vestido fez comigo no palco, Liana... — murmurei, o olhar descendo com descaro e voltando aos olhos dela. — Teria me torturado com mais calma.
Ela riu. Aquele riso quente, solto, sem culpa.
— E se eu dissesse que não foi sem querer?
— Aí eu teria que retribuir.
O silêncio voltou, mas era outro agora. Não era silêncio de dúvida. Era o que vem antes do toque.
Minhas mãos ainda estavam nos bolsos, mas o corpo inteiro queria avançar. Queria testar o gosto daquele desafio. Ela sabia. E não recuou.
— É mesmo, Nolan? — ela perguntou, voz baixa, os olhos presos nos meus. — E o que te fez parar no tempo, exatamente?
Dei um sorriso enviesado, aquele que é mais suspiro do que riso.
— O jeito como você subiu no palco como se fosse seu... mas com aquele medo nos olhos. Como se não soubesse o quanto já era. E depois... foi me dando cada parte, sem nem perceber. No olhar, no corpo... na entrega. Você se fez minha ali, Liana.
Ela desviou o olhar só por um instante, como se precisasse se proteger de tudo aquilo que começava a sentir e não tinha nome. Mas quando voltou a me encarar... já era outra coisa. Já era fome.
A garrafa ainda na mão, esquecida. Os dedos agora apertavam de leve o plástico, como se precisassem se prender em alguma coisa.
— Você fala como se tivesse lido minha cabeça lá em cima.
— Eu li teu corpo — murmurei. — Cada pequeno gesto. Cada respiração presa. Cada arrepio. E eu... reagi a eles.
Ela fechou os olhos por um segundo, e aquilo me deu um tipo de coragem suja. Uma ousadia que crescia no peito.
— Tá lendo agora também? — ela perguntou, quase num sussurro.
Me aproximei mais um pouco. Tão perto que dava pra sentir o calor do corpo dela irradiando no espaço minúsculo entre nós. Ainda sem encostar. Ainda no jogo.
— Tô tentando decifrar — respondi, a voz grave, baixa demais. — Mas tem coisas que o corpo diz melhor com toque do que com palavras.
Ela prendeu a respiração. E eu soube. Eu soube que bastava um movimento. Um gesto. Um deslize.
Mas não dei. Ainda não.
Me afastei só um pouco, os olhos presos nos dela.
— Me diz que quer — pedi, numa quase súplica velada, sem precisar levantar a voz. — Porque se tu disser... eu não vou mais saber parar.
Ela hesitou. Um segundo. Dois.
Então deu um passo à frente.
— E se eu não quiser que tu pare?
Pronto.
O tempo que eu tentava segurar desabou.
Minha mão foi direto pra cintura dela, puxando com força contida, como se eu tivesse esperado por aquilo a vida inteira e ainda assim quisesse prolongar mais um segundo. Os lábios dela encontraram os meus no meio de um suspiro preso — quente, intenso, um beijo que começou calmo e terminou com os corpos se chocando num desejo faminto.
Minhas mãos exploravam o tecido fino do vestido, subindo devagar, sentindo cada curva. Ela se apertava contra mim como se não aguentasse mais aquele espaço entre nós. E eu também não.
Nos separamos só por um instante, arfando.
— Ainda tá tremendo? — perguntei, com a testa encostada na dela.
Ela riu, com a respiração falha:
— Agora por outros motivos.
E me puxou de novo.
O beijo virou rosnado abafado. Mãos famintas, dedos cravando pele, bocas deslizando pelo pescoço, pelo ombro, pelos lugares onde a pele era mais fina e o gemido mais fácil de escapar. Ela arranhou meus ombros. Eu mordi sua clavícula.
Era mais que química. Era um incêndio prestes a devorar tudo.
Ela tropeçou para trás, e eu a segurei pela cintura, colando seu corpo na parede fria do camarim, contraste perfeito com o calor entre nós. Uma perna dela se ergueu, roçando na minha coxa. Eu segurei, encaixando, pressionando — só pra mostrar onde aquilo ia dar.
— Vai me deixar mal acostumado — murmurei entre beijos. — Não vou conseguir cantar pra mais ninguém depois disso.
— Foda-se o resto — ela gemeu contra minha boca. — Hoje eu sou tua plateia inteira.
E naquele instante... ela era mesmo.
Minha. Inteira.
A parede gelada atrás dela fazia contraste com o calor que saía do nosso toque, do roçar dos nossos corpos, da forma como os lábios dela se abriam de leve entre suspiros descompassados. Era como se tudo ao redor tivesse evaporado — não havia mais barulho de gente, nem luz de camarim, nem tempo contado. Só a pele dela queimando sob meus dedos e a urgência crua que a gente tentou esconder até agora.
Ela me puxou pela camiseta, e eu fui, rendido. Beijei-a de novo com mais fome, mais entrega. Desci pela linha do maxilar, beijei seu pescoço devagar, como quem agradece o próprio milagre, e senti o corpo dela estremecer. A cada novo ponto que minha boca tocava, ela reagia como se o mundo ali começasse e terminasse. Arfava contra minha orelha, as mãos puxando meus cabelos, com a boca entreaberta e o quadril já buscando o meu, no impulso quase inconsciente de quem quer mais. Muito mais.
Ajoelhei diante dela sem pensar. Porque era isso. Era sobre adorar. Sobre ver aquela mulher que até minutos atrás era só mais um rosto na multidão e agora era o epicentro do meu desejo, do meu caos, da minha rendição. Deslizei as mãos por suas coxas com reverência, afastando devagar o tecido do vestido. Os olhos dela me acompanhavam, escuros, famintos, brilhando com uma mistura de surpresa, tesão e algo mais difícil de nomear.
— Me deixa te provar — sussurrei, como uma promessa.
Ela assentiu, com um leve tremor, jogando a cabeça pra trás, os lábios entreabertos como se já sentisse o gosto do que viria. Afastei a calcinha devagar, sem pressa, sem quebrar o encanto. E quando minha boca encostou nela, a resposta veio no mesmo segundo — um gemido rouco, apertado, como se ela não estivesse preparada pra aquilo, mas ao mesmo tempo estivesse esperando há vidas por esse toque.
Chupei devagar, com a língua firme e precisa, sentindo o gosto dela me marcar a alma. As pernas tremeram, os dedos afundaram no meu cabelo, e ela começou a se mover no meu ritmo, implorando sem palavras por mais. Eu obedeci. Brinquei com a língua, com os dedos, com a intensidade. Levei ela até o limite e a trouxe de volta, só pra fazer de novo. E de novo. Até ela gozar na minha boca com um grito abafado pela própria mão, tremendo inteira, como se tivesse acabado de sair do próprio corpo e voltado.
Me levantei devagar, com o gosto dela ainda quente nos lábios, e a puxei pra mais perto. Beijei sua boca de novo, deixando que sentisse a si mesma em mim. Ela gemeu contra minha língua, agarrando minha cintura com urgência.
— Eu te quero — ela disse, crua. — Agora. Dentro de mim.
Foi como destravar uma arma. Minha calça já estava aberta, o corpo em alerta total. Virei ela de costas, encostando no sofá do camarim, puxei seu quadril com firmeza e me encaixei ali, no meio de suas pernas abertas, onde tudo já era calor e entrega.
Deslizei pra dentro num único movimento — lento, profundo, inevitável. Ela arqueou o corpo, soltando um som abafado entre prazer e surpresa. Me movi com precisão, com força, com reverência. Não era delicado. Era urgente, faminto, cru. Minhas mãos marcavam sua cintura, os quadris batendo contra os dela, a boca mordendo seu ombro, sua nuca. Ela gemia alto agora, sem vergonha, sem freios, como se eu estivesse tocando algum nervo direto da alma.
— Porra, tu é perfeita — murmurei entre estocadas —, feita pra mim, feita pra isso.
Ela se virou um pouco, o olhar de canto cheio de fogo.
— Então me usa... me faz tua.
O pedido dela bateu no meu peito como um estalo — sujo, íntimo, insano. Me fez perder qualquer traço de controle que eu ainda fingia ter. Segurei os cabelos dela, puxando de leve a cabeça pra trás, só o suficiente pra sussurrar rente ao ouvido, rouco de tesão:
— Então aguenta.
Recomecei a foder com mais força, mais ritmo, mais crueza. As estocadas ressoavam no camarim abafado, misturadas aos gemidos dela, aos meus grunhidos contidos, ao som úmido e obsceno dos corpos se chocando sem pudor. O quadril dela se empinava, recebia cada investida como se fosse a última, como se me quisesse até o osso, até perder o ar. E eu dava. Dei tudo. Porque ela pedia com o corpo, com os gemidos, com os olhos que me procuravam por cima do ombro, brilhando de puro desejo.
Minha mão escorregou pela frente, encontrando o clitóris quente e latejante. Comecei a estimular devagar, sentindo a forma como ela tremia, se contorcia, o gemido mais alto, o quadril descompassado tentando acompanhar tudo ao mesmo tempo. Eu sorria entre os dentes, selvagem, possessivo.
— Sente isso, Liana… sente o quanto tu me deixa louco.
Ela só conseguia balbuciar meu nome entre gemidos, como se fosse a única coisa que ainda existia na mente dela. E talvez fosse. Ali, naquele momento, ela não era a fã, a garota tímida, nem mesmo a mulher que subiu ao palco. Era só carne, fogo e entrega. Era minha. Tão minha que doía.
Me inclinei sobre o corpo dela, colando meu peito às suas costas, mantendo o ritmo firme com os quadris, enquanto minha mão continuava brincando entre suas pernas. Beijei seu pescoço, mordi sua pele suada, sussurrei palavrões e promessas sujas que escapavam sem filtro.
— Goza pra mim — pedi, quase implorando, com a voz arrastada pela urgência. — Quero sentir tu se desfazendo em mim, porra.
Ela arfou alto, o corpo tenso, se agarrando nas almofadas do sofá como se estivesse tentando segurar a si mesma. Mas já era tarde.
As pernas dela começaram a tremer. O corpo inteiro endureceu antes de quebrar. Ela gozou forte, com um grito abafado pela palma, espremendo meu pau lá dentro, apertando com tanta intensidade que me fez perder o compasso por um segundo. Aquilo me desgraçou. Eu não segurei mais.
Enterrei fundo, até onde dava, e deixei que tudo viesse. Gozei com ela, com o corpo colado no dela, os dentes cravados em seu ombro, o coração batendo descompassado. Foi explosivo, cego, violento. Um gozo que me arrancou de mim mesmo e me jogou nela.
E mesmo depois, quando tudo cessou, ainda me mantive ali, encaixado, como se tirar o corpo dela de mim fosse me deixar vazio.
Fiquei ali, colado nela, respirando contra sua pele como se só aquele ar me mantivesse vivo. O suor escorria pelas nossas costas, grudava a pele, misturava os cheiros. E eu não queria sair. Não queria que aquilo acabasse.
Ela ainda arfava, tremendo sob mim, o corpo relaxando aos poucos, mas com espasmos sutis — como se o orgasmo ainda ecoasse, como se meu nome ainda vibrasse em algum canto escondido dentro dela.
Aos poucos, me afastei. Devagar. Tirei com cuidado, com um gemido arrastado preso na garganta, e vi o jeito como ela se curvava pra frente, o corpo exausto, entregue, sujo de mim. O líquido escorrendo entre suas coxas era uma pintura obscena. Quis beijar cada gota. Quis repetir tudo.
Mas não disse nada.
Me joguei no sofá, de pernas abertas, ainda sem fôlego, a calça meio caída, o pau molhado, o peito subindo e descendo como se tivesse corrido mil quilômetros pra chegar nela. E, de certa forma, foi isso mesmo.
Ela se virou devagar, os olhos cheios de calor e confusão, os lábios inchados, os cabelos bagunçados num caos perfeito. Sentou ao meu lado, e por um segundo, a sala ficou em silêncio.
Só se ouvia o som abafado da organização lá fora.
— Eu devia ir embora — ela disse, mas a voz soava como quem não queria.
— Devia — respondi, encarando suas pernas ainda abertas, vermelhas, brilhando no meio. — Mas não vai.
Ela sorriu. Aquele sorriso pequeno, quase culpado, quase viciado.
— Não. Ainda não.
Deitou a cabeça no meu ombro. E ali, sujos, fodidos, ofegantes, a gente ficou. Sem promessas. Sem planos. Só com a lembrança quente de tudo que acabara de acontecer.
E o nome dela ainda queimando na minha boca.
Liana.
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