Um Toque Feminino
4 Capítulo 4 - Dois, Um...
Notas iniciais
Capítulo Quatro
Dois, Um...
Reunimo-nos no salão do restaurante e com as brincadeiras do Piauí esquecemos, por uns instantes, que o time ia ficar desfalcado.
– E aí? Vamos fazer poeira?
– Seguinte, Brother, vá com a Maria, que eu vou embarcar esta Gatinha para “Belzonte”. Não quero que ela se perca nesta cidade. Renovei o estoque de filmes e comprei dois chapéus de palha para vocês, o sol está prometendo.
A Maria sentou no colo dele, deu um abraço, mas o beijo não saiu.
– Fico muito grata por você cuidar dela com tanto carinho, e de nós também.
– Não “esquenta”, depois eu mando a conta.
Deixamos os dois rindo e saímos. Parei próximo a um ambulante, a pedido da Maria, e comprei dois pares de tênis. “Pronto, disse ela, agora estamos equipados para as cachoeiras”.
Pegamos sol o dia todo. Voltamos ao hotel e só lá pelas vinte e duas é que ele apareceu. O entusiasmo saltava do rosto dele.
– Nossa! Esta felicidade toda é por ter se livrado da minha amiga?
– Não Maria, aquele foi um momento triste, mas ao mesmo tempo, recebi um convite para conhecer São Lourenço. Menina! Vocês precisam ver! Olha, no mínimo é o rascunho do paraíso. Esse maluco aí vai dizer que é a arte-final, mas é tudo muito bonito.
– É mesmo?! E qual é a cor dos olhos dela? Tem uma cintura assim igual à minha? Tem umas...
– Ah, não brinca! Não existe morena mais bela que você. Mas a cidade é a mais linda que já vi. Tem flores e água por todos os lados. Amanhã nós vamos a Caxambu e... desculpe gente, acho que me empolguei. Como foi o trabalho de vocês? Onde vocês foram?
– Você sabe que não é trabalho. Divertimo-nos tanto quanto você. Gastamos uma “pá” de filmes e sobrou uma cachoeira para amanhã, esta aqui olha – desdobrei o mapa e mostrei a localização a ele – amanhã vamos sair bem cedo. É uma boa caminhada. Se você estiver acordado...
– Ah não! Acho que vocês irão sozinhos novamente. É que... sabem... eu...
– Tudo bem – aparteou a Maria – preciso que você saiba de uma coisa, eu e a Karine estamos juntas há oito anos e aprendemos que quanto menos cobrança tiver, melhor será o relacionamento. Ela se foi e eu estou tranquila por que sei que amanhã estaremos juntas outra vez. Passamos o dia separados e estamos aqui prontos para um novo abraço. Amanhã a coisa se repete, inclusive o abraço. Quando descobrimos que é possível amar alguém, aprendemos a contornar os obstáculos, como os rios fazem, e continuamos levando a vida e amando.
– É que vocês estavam contando comigo e...
– Ainda contamos. Você tem sido maravilhoso, e acho que isto é para sempre. Quero ver você voltar amanhã, trazendo o mesmo sorriso de hoje.
Beijou-o calorosamente. Ele disse um, “boa noite”, sorrindo e foi pro quarto.
– Me dispensou novamente.
– Vá atrás dele.
– Não vai funcionar.
– Então corra atrás de mim.
– Não é preciso, você não ama ninguém, mas ama todo mundo.
– É. Talvez eu seja um bicho assim. Mas você não percebeu nada estranho?
– Se eu achasse que ia resolver alguma coisa, eu ia ao quarto dele, para dizer que a Karine ligou e que chegou bem.
Madrugamos no dia seguinte e ele já “se mandara”. Estacionei o carro ao lado de um boteco próximo ao início da trilha e entramos para tomar um café.
– Bom dia, patrão! Tem um “sanduba”?
– Leite e pão de queijo. O café sai em um minuto.
– Estava sonhando com isto! Dê-nos um café preto e um pingado.
– Vão pegar a trilha?
– Vamos.
– Querem alguma coisa para levar?
– Já estamos levando água.
– É bom levar pelo menos uns pães de queijo, pois a fome aperta junto com o sol.
– Estamos planejando voltar cedo.
– Nunca vi um casal jovem pegar esta trilha e voltar antes do sol se pôr. E se eu tivesse sua idade e uma companhia linda como esta, só voltaria amanhã.
– O senhor está certo. Embrulha aí o que tiver que vou seguir seu conselho. Algum problema se o carro ficar ai fora?
– Vá tranquilo.
Gastamos pouco mais de três horas para vencer os dez quilômetros. Mesmo parando de vez em quando para uma foto ou outra, comecei a desconfiar que os mineiros, por ali, ainda praticavam a história da légua de beiço. A marcha era forçada e a Maria era realmente boa de trilha. De longe começamos a ouvir o som da queda da água. O visual era maravilhoso. A água descia cristalina por sobre uma pedreira íngreme, situada à nossa direita e formava uma bacia espumante de uns dez metros de diâmetro. Escoava rente a um barranco aos nossos pés, fazendo um semicírculo e descia rápida em busca de seu destino, deixando ao centro uma praia de areia branquíssima. “Cliquei” tudo que achei interessante e depois passei a máquina à Maria. Subiu pedras, enfiou-se no meio do mato, rodou por todos os lados e finalmente voltou para perto de mim. Jogou a bolsa no chão, tirou o tênis, a roupa e por fim pôs o chapéu em cima. Ficou de pé na beira do barranco e murmurou para si mesma.
– O ômega! O ômega perfeito! Água, ar e terra.
Só então me dei conta de que a natureza havia desenhado um ômega ali. Antes que eu metesse o Buda no meio e a tirasse da sua divagação, emendou uma pergunta.
– Vamos à praia? Quero fotografar lá de dentro.
Olhei a praia, que compunha o centro do ômega, e os limites externos do semicírculo.
– Vai pegar o mesmo ângulo que pegou lá do meio do mato.
– É bem provável, mas nunca serão as mesmas fotos. Olha o efeito do sol sobre a sublimação, olha o ângulo da luz quando atravessa a água, olha a meia lua formada a partir da saída da água da bacia até chegar naquele ponto onde eu estive. Agora imagina a energia que circulou aí dentro milhares e milhares de anos. Isto aí deve ser uma bateria fantástica.
– E como vamos fazer para não molhar a máquina?
– Atravesso, você joga a máquina e depois eu a jogo de volta.
– Ok, mas cuidado, são águas rápidas.
– Estou acostumada e não tem mais que cinco metros de largura.
Pulou do barranco, que tinha mais ou menos um metro de altura, para dentro da água, deu duas ou três braçadas vigorosas e se pôs de pé, a água abaixo dos quadris.
– Olha para isso! – gritou. – Metade funda e metade rasa, forma uma rampa de uns quarenta e cinco graus. Ao pé do barranco deve ter uns três metros ou mais de profundidade. Jogue a máquina.
Gastou o filme e pediu outro. Entrou na bacia o quanto pode, registrou espuma, pedra, fumaça, neblina, sublimação, reverberação e o diabo a quatro. Voltou ao ponto inicial e me devolveu a máquina.
– Agora venha, está uma delícia!
– Estou indo – gritei de volta.
Pulei para dentro da água e ela me puxou para o centro da praia.
– Feche os olhos e ouça isto, veja a diferença do que se ouve lá de fora e aqui. Sinta as energias que passeiam pelo ar.
– O som é diferente, mas afora isto o que estou sentindo são as faíscas que estão se formando entre nossos corpos.
– Não, não é isto! Ligue-se, tente enxergar de olhos fechados.
Ficamos lá no centro do semicírculo, abraçados. Depois ela abriu os braços, como se fosse uma cruz humana, colada em mim o suficiente para que os bicos dos seios me tocassem levemente, deixei meus braços caírem ao longo do corpo e em breve não nos tocávamos mais. Ela era uma cruz perfeita, as palmas das mãos voltadas para cima, a respiração cada vez mais lenta e suave. O corpo na mais absoluta verticalidade. O rosto impassível, impenetrável. Os cabelos começaram a fervilhar, como se milhares de minúsculas formigas caminhassem em baixo deles, tive a convicção de que se fossem curtos como os meus, ou até mesmo como os da Karine, eles estariam de pé. O peso dos longos fios é que os mantinham naquela luta do sobe e desce. Dei um passo atrás, pasmo. Não sei por quanto tempo a observei, mas ela voltou a sussurrar.
– Só o amor supera o alfa e o ômega. Sentiu a sombra da paz, agora?
Respondi bem baixinho, como se tivesse medo de tirá-la do transe.
– Não. Mas posso ver.
Abriu os olhos e a arriou como se fosse um castelo de cartas. Mal tive tempo de erguer os braços e ampará-la. Segurei-a pela cintura e senti seu rosto em meu ombro direito, completamente entregue. Respirou fundo e voltou a se firmar.
– O que você viu? – perguntou ansiosa.
– É melhor respirar bem fundo antes de começar a falar.
– Eu estou bem, leve-me até à água.
Tentei caminhar para o riacho, na direção das nossas roupas, mas ela indicou a bacia espumante.
– Vai ser melhor na água parada primeiro, depois vamos à água corrente.
Ficou imersa por uns segundos e quando seus cabelos também sumiram em baixo da água e a puxei de volta, pela mão que eu não ousara largar. Voltamos à areia. Agora eu via brilho nos olhos e um sorriso verdadeiro no rosto. Abracei-a.
– Agora podemos ir e não se esqueça de nenhum detalhe, quero saber tudo que você viu – juntou um sorriso às palavras.
Caminhamos em direção às nossas roupas, de mãos dadas. Entramos no riacho e antes que alcançássemos um metro de água senti minha perna direita fugir de debaixo de mim. Um lampejar e um estrondo me indicaram, antes da dor, que eu tinha sido alvejado, uma vez e depois outra, por uma figura encapuzada. A Maria me arrastou pela água enquanto pode e deixou-me com o tronco sobre a areia. Os gritos dela se misturavam com outros de uma voz estranha e eu apaguei.
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