Um Toque Feminino

5 Capítulo 5 - Um...


Notas iniciais
Dos quatro que iniciaram a aventura, resta um.

Capítulo Cinco

Um...

Quando acordei não percebi qualquer indicador de presença de ser humano nas proximidades. Tentei fazer um balanço dos prejuízos para ver como administrar a situação. Tinha um buraco na minha coxa direita. A perna esquerda estava congelando dentro da água. O mamilo esquerdo parecia que tinha sido arrancado e havia uma poça de sangue embaixo da minha axila esquerda, cujo braço estava estendido para cima. Lembrei-me que fui arrastado por ele. Tinha muita dor, mas respirava bem. Tentei forçar a perna esquerda para sair da água, mas senti uma dor enorme nas costelas. Virei de costas para aliviar a pressão sobre as costelas feridas e com ajuda da perna esquerda e do braço direito consegui rastejar o suficiente para livrar as pernas daquela água gelada. O tempo foi passando e minhas pernas não esquentavam, eu sentia o sol, mas ele não me aquecia.

A morte começou a me parecer uma coisa bem real. Mover as pernas um metro foi uma loucura o que eu ia fazer com os dez quilômetros de beiço, que me separava do meu carro. Ah! O carro. Talvez o dono do boteco sentisse minha falta. Merda, era nós, caso a Maria voltasse. Não, ela não ia voltar. Ela disse ao vendedor de tênis que não voltaria, ou foi ao vendedor de cafezinho? Não. Ao dono da lanchonete ela disse que ia passar o resto da vida comigo. Bosta, ela foi embora e levou meu pão de queijo. Será que sobrou pelo menos um pedaço da foto dela? Ela era tão gostosa, assim eu não ia morrer de frio. Ah! Mas tinha os cabelos dela. Droga, a Karine roubou os cabelos dela. E agora? O que eu ia fazer sem sapato, se eu tivesse pelo menos uma nota de dólar para pôr na cabeça, essa porra desse sol está me torrando. Por que ele não vai torrar o pão de queijo e me deixa em paz? Desgraçado, estava era querendo ver o branco do meu olho. Mas aqui, ó, que vou deixar! Tão pouco vou deixar meu chope para ele esquentar. É nunca! Vou é beber antes dele. Droga será que ninguém pode me ajudar, olha isto não consigo nem acertar o caminho da boca, o chope só cai na minha cara, droga, a boca é mais em baixo, ah! Mas eu te pego. Olha aqui, eu me viro assim um pouquinho – fica quieto – fica quieto porra nenhuma, eu me viro e o chope escorre para minha boca, está pensando que eu sou bobo? – não se mexa – Ah, qual é? Se eu não me mexer eu perco a chance, o chope escorre pro chão ou esquenta, hei que história é esta? Quem secou meu chope? Ou! Isto dói viu? Será que ninguém me houve? Está doendo. Porque não param de me chocalhar desse jeito? Estão pensando que sou maracá? Deixem-me em paz, só quero tomar meu chope em paz..., paz..., paz...

– Vamos lá meu amigo, está na hora de acordar. Vamos? Faça um esforço! Você pode. Sei que você não vai negar fogo. Agora está tudo sob controle.

– Onde eu estou?

– Calma, pode abrir os olhos. Você está em um hospital.

– Quem é você?

– Abra os olhos e veja. O pesadelo já acabou.

Arrisquei, fui abrindo os olhos bem devagar e vi um sujeito com a cara toda coberta de pano. Merda. Fechei os olhos de novo. Aquele um do relâmpago, também tinha a cara coberta, mas espere, era com um pano branco o deste é azul, tornei a abrir os olhos.

– Quem é você?

– Sabe que dia é hoje?

– Terça de carnaval?

– Nota cinco. Acertou a metade.

– Quarta? Quinta?

– Terça mesmo, só que o carnaval foi na semana passada. Você se lembra do que aconteceu?

– Levei dois tiros. Tirei minhas pernas de dentro do rio e ...

– Mais o quê?

– Alguém desperdiçando meu chope.

– Ah, sim! Com certeza. Você sangrou muito, pegou muito sol e consequentemente desidratou em dobro, nada melhor que um chope para quem está seco. Não é? Estava hospedado onde?

– No Pálace. Meus amigos...

– Três Corações? Vou averiguar se seus amigos ainda estão por lá. Tem um policial aí fora querendo seu depoimento, mas só o receba quando estiver se sentindo bem, ok?

– Estou bem, mas posso falar com meus amigos primeiro?

– Creio que ele não vá permitir, mas vamos ver o que seus amigos do hotel têm a dizer.

Voltou dez minutos depois.

– Você esteve lá por três dias, pagou a conta, entregou a chave do quarto e saiu antes do café da manhã.

– Mais nada? E meus amigos?

– Saíram com você. É o que consta. Podemos tirar estes tubos?

– Se for possível, eu agradeço.

– Tivemos que te manter artificialmente por um bom tempo, mas seus sinais vitais estão cem por cento, a sequela maior é a da coxa, mas nada que o seu “Sarah” não possa resolver, quando voltar para Brasília, procure por eles, são os “papas” da locomoção no Brasil. Vou mandar uma enfermeira para dar uma geral em você. Ah, tem mais uma coisa. A menina que te salvou também quer vê-lo, mas o policial já reivindicou a primazia.

– Maria?

– Eu disse, menina. Seus ouvidos estão normais? Algum zumbido?

– Está tudo ok, Doutor.

A enfermeira entrou em seguida. Uma morena forte, de mãos grandes e pesadas. Esfregou-me por todos os lados onde não havia bandagem. Jogou um lençol em cima de mim e em vez de carregar as traquitanas do quarto, levou minha maca para outro.

– O senhor já está apresentável, posso mandar o delegado entrar?

– Claro e obrigado pelo banho.

– De nada. Na troca do plantão nós o mudaremos para a cama.

Saiu e entrou o delegado.

– Sou o delegado aqui de São Bento, preciso colher as informações sobre seu caso e, depois, como presumo, encaminhá-las a São Tomé. O senhor está em condições de prestar esclarecimentos?

– Creio que sim. Mas receio que não tenha muito a dizer.

– Você viu o atirador?

– Não senhor...

– Não senhor...

– Não senhor...

Depois de muitos, “não senhor”, ele resolveu ir embora. Aí foi a vez da minha salvadora entrar. Salve rainha, mãe de misericórdia! Meu coração deu um pulo. Como é que podia ser tão bela! Fiquei meio fora de foco.

– Meu nome é Nair porém me chamam de Naná. Como você está se sentindo?

– Você veio me buscar?

– Não. Eu vim trazê-lo, quer dizer, ajudei meu pai.

– E nome dele é São Gabriel?

– Não!

– São Rafael!?

– Também não!

– São Miguel?

– Não.

–Ah, desculpe! O médico me disse, é São Bento!

– Também não!

– Droga. Esgotei minha lista de santos. Sou burro mesmo, esqueci-me que não são os santos que são os pais dos anjos. Eles vêm diretos de Deus. Isto quer dizer que você ficou mancomunada com Deus, me esconderam aqui, pro “Sete Dedos” não me levar pro forno dele, e agora veio me buscar. Sem problemas, posso pegar meu chinelo antes de ir?

– E para onde você acha que vou te levar?

– Considerando que onde eu estava não era muito ruim, tinha sol e água fresca, e que você me trouxe para cá que é bem melhor, tem sombra e banho grátis, acho que agora você vai me levar para perto do paraíso. Certo?

– Errado! Fala sério que a enfermeira vai me expulsar em cinco minutos.

– Ah! Logo vi! Ela é secretária do “Sete Dedos”!

– Pare de brincar e diga se você quer que eu informe a alguém ou coisa parecida, que você está aqui.

– Quantos anos você tem?

– Dezesseis.

– Mora aqui?

– Em Goiânia.

– Acho que te conheço, você é a famosa filha do prefeito.

– Errou novamente. Você está desperdiçando o tempo que tenho para ficar aqui. – falou séria mas o sorriso não se foi.

– Ok! Os anjos vencem! Vocês recolheram meus pertences?

– Meu pai atravessou o riacho.

– Ele fez uma lista?

– Alguma coisa importante? – perguntou desconfiada.

– Uma máquina fotográfica, documentos...

– Calça, camisa, carteira com documentos e dinheiro, um chaveiro dois chapéus de palha, algumas notas de um dólar espalhadas no mato, um relógio, um pacote de pão de queijo. Nada de máquina.

– Nenhuma máquina?

– Nenhuma.

– Quantas chaves no chaveiro?

– Acho que quatro. Duas de carro e mais uma ou duas, não me lembro bem.

– Nenhum cantil?

– Não. Falta mais alguma coisa?

– Não me lembro de ter pego a trilha descalço.

– Amanhã eu volto lá e procuro.

– Prefiro que você volte para me visitar.

– Não tem problema. Todos os dias andamos por lá a cavalo. Dá tempo de fazer as duas coisas.

– Vocês estavam “vaquejando” e me acharam?

– Morro de medo de vaca. Estava só montando e resolvi levar meu cavalo para beber, encontramos você, meu pai improvisou uma maca e meu cavalo te trouxe até aqui.

– Um cavalo padioleiro?

– É. Ele é de charrete, está acostumado com os varais. Não estranhou.

– Quando sair daqui quero ver isso!

– Não tem o que ver. Duas varas de bambu amarradas nos estribos. Enrolamos o laço nelas, colocamos você em cima e o Branquinho o arrastou até aqui.

– Preciso falar com seu pai.

– Amanhã ele virá te visitar.

– Meus pertences estão com vocês?

– As roupas estão aqui no hospital, o restante está com o delegado.

– Se acaso você achar meus calçados você pode trazê-los para cá?

– Acho que fazem parte da vestimenta.

– Também acho. O que vocês fazem por aqui?

– Você estava caído nas terras da minha avó, já era para termos ido embora, mas o delegado pediu para esperarmos você acordar.

– Por quê?

– Porque fomos nós que te encontramos.

– Caramba! Vocês salvam a minha vida e eu atrapalho a de vocês.

– Não está atrapalhando nada. Adoro ficar aqui na casa da minha avó. E aí, vai querer que eu avise alguém?

– Preciso avisar meu chefe, mas ele detesta as mulheres, e quanto mais bonita, mais ele odeia. Você nem completará a ligação. Acho melhor pedir ao seu pai para fazer isso. Será que ele me ajuda mais uma vez?

– Ajuda! Ele vai adorar falar com sua esposa.

– Ah, é? Pois fique a senhorita sabendo que o nome dela é Sebastião Carneiro, mas de manso e cintura fina ele não tem nada.

– Então me passa o número...

– Passo, mas siga meu conselho, deixe seu pai falar! Olha foi só falar em bicho de chifre e a secretária dele já bateu na porta.

– Posso te chamar de...

– Quem me ama me chama de Goiano.

– Mas você não é de Goiás!

– Nasci em Brasília, mas me orgulho de ser Goiano.

– Tá beleza, Goiano, até amanhã.

– Ei, anjo! Arruma-me uma vaguinha lá perto do paraíso?

– Vai rezando. Tchau.

– Farei isto todos os dias. Tchau.

A porta escondeu o sorriso dela e eu fiquei juntando as informações que soneguei ao delegado e as que ela havia me passado. O nó na minha garganta cada vez crescia mais. Não era possível, eu não queria acreditar, mas todas as evidências apontavam para o meu irmão, meu maior e melhor amigo, meu brother de fé. Estava até com medo de que aquele anjo, que salvara minha vida, aparecesse no dia seguinte, trazendo um par de sapatos pretos. O capuz escondendo o rosto, a longa capa de chuva e a voz disfarçada, aliados aos dois dias que nos evitara, apontavam para ele. Eu poderia estar enganado, mas ele não estava se escondendo de mim, não haveria motivo, a intenção do atirador era eliminar-me. A única pessoa que poderia vê-lo naquele meio de mundo era a Maria. Estava se escondendo dela. Ele a queria e não percebemos. Quando se livrou da Karine arquitetou o plano. A porta interrompeu meus pensamentos. Uma senhora já perto dos cinquenta, entrou trazendo uma tigela pequena dentro de uma bandeja.

– Almoço. – anunciou. – O doutor disse para você fazer um esforço e tomar este caldo. Vai apressar sua alta.

Cacilda, a alta! Nem tinha me lembrado que isto existia. E que raio de hora de almoço era aquela?

– Ele disse quando vou poder sair?

– Você tem que perguntar a ele. Amanhã cedo ele estará de volta, mas com certeza, se você não estiver comendo não sai.

– Nesta maca vai ser difícil.

– Vou te ajudar, mas amanhã vai ter que se virar sozinho ou...

– Ou?

– Peça à sua irmãzinha para te ajudar.

– A senhora me ajudaria a convencer a enfermeira a deixá-la ficar?

– Não vejo problemas.

– Fico muito agradecido.

Engoli o caldo, da melhor maneira possível. Não estava sentindo sabor algum, mas foi descendo. Pelo meio da tigela, fiz sinal para que ela parasse.

– O que foi? Você estava indo tão bem!

– Você pôs chumbo nesta sopa? Acho que já engoli uns cinco quilos.

– Pesou? Foi?

– Pesou. E agora acho que está crescendo. Vou ter um bebe elefante.

– Não vai não, isso passa. Vou deixar aqui, depois você toma mais um pouco.

Esfriou e virou gelatina, mas não deu para “encarar” nem mais uma colherada. Depois que eu tive tempo suficiente para ruminar todas as possibilidades, inclusive imaginar o quanto meu querido irmão teria sofrido até chegar à decisão de fazer aquilo, que eu achava que ele tinha feito, a porta se abriu novamente e meu anjo da guarda entrou trazendo uma sacola cheia de flores e um vaso na outra mão. Fiquei mudo, sem saber o que dizer, só esperava que ela voltasse no dia seguinte, ai caiu a ficha, tal expectativa foi criada em função da minha crença de que estava entardecendo, enquanto o médico havia me acordado pela manhã. Entrou, encheu o vaso com água e fez um arranjo bem caprichado com as flores. Depois que se deu por satisfeita, pegou a sacola e disse.

– Estão bem imundos, quer que eu dê uma lavada neles?

– Será que ainda servem nos meus pés?

Olhou para dentro da sacola, escolheu um pé, levantou minha perna esquerda e eu fechei os olhos.

– A gata borralheira pode abrir os olhos. Está um pouquinho folgado porque você emagreceu muito, mas serve direitinho.

Eu continuava a rejeitar os fatos. Não era a questão de servir, isto era circunstancial. O sujeito não ia trocar de sapatos comigo se não servissem, a questão era o modelo, o desenho que estava na minha cabeça se encaixar com perfeição no que estava no meu pé.

– E ai? Está com medo de virar sapo?

– Para dizer a verdade, estou apavorado.

– Estou vendo. Só não entendo o motivo. Vamos, seja um rato! Enfrente seu queijo!

Abri os olhos e lá estava o meu queijo, igualzinho ao que estava na minha mente.

– E aí? Vamos lavar?

– Seu pai veio com você?

– Só permitem uma visita de cada vez.

– Não sei se sonhei ou se alguém disse, que pode ter um acompanhante e uma visita. Se você é minha acompanhante, seu pai pode entrar.

– Acompanhante tem que fazer ficha.

– Se meu anjo da guarda tiver que se ausentar por mais de dez minutos, prefiro que você não faça a ficha.

– Acho que posso preenche-la em menos tempo que isso!

– Então é melhor não deixar o poderoso chefão esperando lá fora. Enfia esta sujeira na sacola, vamos adiar a decisão.

Devolveu o sapato à sacola, foi ao banheiro, voltou com uma toalha molhada e limpou meu pé. Saiu e voltou com um senhor já cinquentão, uma barriga avantajada, cabelos grisalhos e uma barba meio amarelada com uns poucos fios brancos e mais de um metro e oitenta de altura e uma pele clara como a minha.

– Goiano, este é meu pai, o fabricante de maca.

Empurrou o pai para dentro do quarto e fechou a porta, sumindo atrás dela.

– Oi, Goiano, meu nome é Altamir, como estamos?

– Oi, doutor Altamir, estamos bem melhor que quando o senhor me encontrou.

– É! Você não estava nada bem!

– Eu sei. Mas o senhor também estava mal. Encontrar um trapo desse nas suas terras e ainda por cima ter que partilhar tanto sangue com sua filha, não deve ter sido fácil.

– Nestas horas é muito difícil esquecer o semelhante e pensar só na gente.

– Olha seu Altamir, se houvesse palavras que expressassem minha gratidão eu as diria ao senhor, mas não existem. Assim como nunca agradeci à minha mãe ou ao meu pai ou mesmo a Deus por ter me dado vida, também não vou agradecer ao senhor. Porém, fique sabendo, que o senhor e sua filha, estarão sempre no mesmo altar, em que aqueles estiverem. O meu coração será um abrigo permanente para vocês dois.

– A mim basta que você esteja bem. Fico feliz por ter colaborado para salvar uma vida.

– Lamento tê-los envolvido em confusão.

– Não existe confusão.

– Sua filha disse que o delegado o reteve por aqui, tempo além do que o senhor podia ficar.

– Foi só até você acordar e confirmar que o ajudamos.

– Eu não confirmei nada ao delegado, só neguei.

– Mas também não apresentou queixa ou acusação. Passei por lá e ele disse que posso me ausentar sem problemas, pois o senhor não teria condições de me incriminar ou me inocentar.

– Este delegado é meio cego. Tenho a prova que inocenta o senhor. Não quero mexer neste vespeiro, mas não vou permitir que se suspeite da mão que me salvou.

– Creio que as coisas podem ficar como estão. Não vão adiante...

– Não estou tão seguro assim. Pelo que ele disse, vai enviar as asneiras que escreveu ao delegado de São Tomé e lá as coisas podem tomar outro rumo.

– Não vejo o que podemos fazer.

– O senhor poderia me fazer mais um favor? Reaver meus objetos que estão com ele.

– O que há de importante lá, além dos seus documentos?

– Não é o que está lá, é o que não está, e para isto preciso de um rol dos objetos, que tenha sido escrito por ele.

– Minha filha fez uma lista.

– Ótimo! Basta que ele a tenha considerada boa e real.

– Aonde você quer chegar?

– Mostrar a ele, que quem atirou em mim, já está longe. Apontar uma direção segura, que descarte o senhor definitivamente.

– E como você vai fazer isto?

– Mostrando a ele que tem uma diferença entre a lista de objetos que ele conhece e a lista que eu posso fazer. E que, o que sumiu não tinha o menor interesse para o senhor, mas que era de grande valia para quem atirou.

– Por exemplo?

– Um cantil desaparecido, um par de tênis que o senhor não encontrou e um par de sapatos que sua filha encontrou. – apontei a bolsa.

– Estou entendendo. Vou buscar o delegado e a lista.

– Buscar?

– É. Além de fabricante de maca, também sou advogado e agora meu discurso está montado. Só faltam uns alinhavos. Quem era a moça que estava com você?

– Uma “baranga” de beirada de estrada, que se dizia chamar Maria.

– O que você acha que aconteceu com ela?

– O atirador botou-a para correr.

– E que o leva a crer que não estavam mancomunados e fugiram juntos?

– O senhor me salvou das balas, ela me salvou da água, me tirando de dentro da corredeira sob as ameaças do atirador, e se tivessem fugido juntos, não precisavam de dois cantis. Saiu correndo, aqueles dólares eram dela, não teve tempo de juntá-los.

– E os sapatos?

– Alguém que se meteu na trilha despreparado, e resolveu trocar seus sapatos chics de cidade, pelos meus tênis vagabundos, mas bons para andar na poeira. Achou que era só calçar e ir embora. E era. Porém, minha parceira resolveu abreviar o banho. Quando caminhamos na direção de nossas roupas, ele se sentiu flagrado e abriu fogo. Como o senhor não calça trinta e nove, não teria motivos para querer meu tênis e como o senhor estava em casa, também não tinha motivo para querer um cantil.

– Mas ainda tem uma pergunta no ar. Um par de tênis é motivação suficiente?

– Umas bolhas nos pés, fala muito mais alto que o sonho de ser um construtor de macas movidas a cavalo.

– Muito bem, eu não tenho nada a perder mesmo, vamos ao delegado. Espero ser mais bem sucedido do que fui com seu chefe.

– O senhor falou com ele?

– Concedeu-me trinta dias para apresentar as provas.

Saiu e entrou minha acompanhante, já com a tigela na mão. Desta vez tomei o caldo todo.

Notas finais
Fim da aventura. No próximo capítulo veremos as motivações e razões pelas quais as meninas se meteram nesta aventura