Um Toque
11 O iluminado
Notas iniciais
.
;D
.
Go!
A dor é necessária para que o corpo reaja. A dor é a prova da vida. É ela que grita por vida. Vida! Vida! Vida! Thisis the pain. Nothing more.
Fazer Asheley sentir a dor, era o primeiro passo. Quando se vive uma vida tranqüila, sem ameaças físicas, sem precisar arriscar o corpo, sem sofrimento, isso desenvolve uma linha de invulnerabilidade. E quando essa linha é cortada, não se sente mais dor. O trauma entrou em ação quando recebeu um tiro. E ela sentiu a falta da dor. E a ausência da dor doía mais que a própria dor. Tudo isso enquanto ela morria. Até que Domenick lhe mostrou novamente como era a dor física. Ele deu seu sangue. Literalmente. E isso a fez despertar em dor. Sentir a vida. Pois a vida é feita de dores. Físicas e emocionais. Sofrer, finalmente, se tornou um sinônimo de viver. E a dor nunca foi tão boa.
Domenick queimava a maconha dando uma impressão que aquilo já era familiar para ele. Habitual.
– Tome Asheley, inale a fumaça. – Ele encostou a droga no nariz dela – Hei, segure isso. – Disse entregando o embrulho, que ardia em lume, para o rapaz que lhe doara a erva. Ele também aparentava ter jeito com a coisa. Mas ninguém se importava com isso naquelas circunstâncias.
Domenick pediu o álcool, lavou suas mãos e limpou o ferimento onde a bala estava alojada. Depois pediu que lhe dessem a faca e que lhe mostrassem as colheres mais côncavas que haviam encontrado.
– Essa. – Disse apontando para uma colher que mais parecia uma mine concha de sopa. – Segurem ela, a maconha não é meu anestésico favorito.
– Mas funciona Brown. Ô se funciona! – Disse o cozinheiro já familiarizado com a droga.
– Os gregos utilizavam a maconha como anestésico há muito tempo. – Ele parou por um instante analisando o ferimento – Atingiu o rim direito.
– Shiva tenha piedade! Por que há uma bala na barriga dela?! – Gritou o chefe de cozinha que antes apenas observava por medo de um processo para o restaurante. Mas percebeu que o problema não tinha nenhuma ligação com o lugar.
Domenick o ignorou.
– Asheley... Aguente firme. Terei que abrir o caminho até a bala.
Ela não respondia mais por si. Estava sobre efeito da droga, com um pequeno sorriso no rosto. O mundo estava ainda mais colorido e nada era inerte. O mundo girava em vermelho, branco, preto, prata, marrom e violeta.
– Vamos lá. – Disse Domenick fazendo um pequeno corte no abdome dela. Os mais sensíveis desviaram os olhares.
Após feito o corte, ele foi afastando as barreiras de pele e gordura com os cabos das facas. – Estou vendo.
Com cuidado e vagaroso, ele guiou a concha por entre os tecidos do corpo até a bala. – Feriu o rim e o intestino grosso. Tragam água mineral. – Não demorou nada para que um dos cozinheiros fosse correndo em busca da água. Tudo para sair de perto do sangue.
– Dê para ela beber. Cuidado em não deixá-la engasgar.
A água passava pelo rim de Asheley apenas para limpá-lo e de agrado, servia como lubrificante para o projétil sair, pois o rim direito havia parado de funcionar.
Ele retirou a concha com a bala, e para o desgosto de alguns, estava cheia de sangue e água. Sopa de bala com molho de sangue. Tempero especial: maconha.
A maior parte dos cozinheiros correram para o banheiro de funcionários. Restando apenas o chefe e o dono da erva.
– Conseguir.
– Ei? Era para ela parar de respirar?
Domenick deu um salto. Verificou o pulso, nada. Não havia estetoscópio, desfibrilador, monitor de pressão, sonda, termômetro, eletrocardiógrafo, medicamentos, nada. Asheley estava dando as mãos à morte.
Domenick olhou para o rosto pálido dela. Se mandasse ela para um hospital, o assassino poderia encontrá-la, pois seria o lugar em que iria uma mulher baleada. Talvez esse fosse o motivo dele ter mirado nela. Talvez não tenha sido um erro de mira e sim uma confirmação de um novo encontro.
Se entregando ao desespero, ele pegou uma faca e a encravou acima do peito dela. Só haviam duas testemunhas, seria fácil lidar com isso.
Os outros dois deram um grito quando viram tamanha agressão.
– Que porra! Por que você fez isso? Mas que diabos?! Merda! O que lhe deu na cabeça! Seu filho duma...
O rapaz que possuía a droga acabara de se mostrar um cristão no restaurante indiano. Era apenas um jovem que precisava do emprego, sem ligações com a cultura.
Domenick não respondeu. Concentrou-se em retirar a faca sem incliná-la. E como mágica, ou bruxaria, Asheley voltara a respirar.
– Iluminado seja Buda! Brahma devolvera a vida dela! – Gritou o chefe.
Quase tão branco quanto ela, Domenick caiu de costas no chão e permaneceu olhando para o teto da cozinha que apresentava goteira.
Direito ou esquerdo. E eu acertei. Era o direito.
Dois pulmões. Um deles não havia aceitado algumas substâncias da maconha que aumentaram a pressão nele. Um furo no peito e a pressão iria diminuir sobre o pulmão, que voltaria a funcionar. Sem equipamentos, o único enigma era qual. Direito ou esquerdo? Muitos soldados já morreram com a resposta errada. Asheley era uma sobrevivente. Mas coisas piores iria acontecer sem remédios ou equipamentos. A escolha era única e impetuosa. Ela talvez não agüentaria nem cinco minutos naquele estado. Febre, um rim inativo, substâncias estranhas no organismo e dois ferimentos externos que deixavam exposto órgãos frágeis eram os menores problemas, comparado ao que estaria por vim se ela permanecesse sem atendimento apropriado.
– Chamem uma ambulância.
O chefe o olhou de ombros.
– Eu já chamei faz uns três minutos. Já devem estar chegando.
Domenick nunca ficara tão feliz com a desobediência de suas ordens, mesmo que naquela situação. O chefe de cozinha do restaurante indiano havia salvado a vida de Asheley. Como alívio, ele soltou um sorriso no canto do rosto. Era como dar adeus a morte. Ela vai viver.
Iluminado seja Buda... Talvez. Quem sabe? – Pensou.
Uma gota caiu da falha do telhado, entre seus olhos.
O terceiro olho.
Notas finais
.
:S
.
E ainda nem tomei café ^-^
Fale com o autor